“Tornou-se melhor porque, à sombra do teu descanso, exercitou-se carregando pedras.”
Frederico Salvo
“Não vás para fora, volta a ti mesmo. No homem interior habita a verdade.”
Santo Agostinho de Hipona
A paz das coisas bravias
Wendell Berry ¹
Quando o desespero pelo mundo cresce em mim
e acordo na noite ao mínimo som
com medo do que a minha vida
e a dos meus filhos possam vir a ser
avanço e deito-me junto da água onde
o pato dos bosques aconchega a sua beleza
e a garça real se alimenta.
Entro na paz das coisas bravias
que não impõem tributos às suas existências preparando-se
para a dor. Fico na presença da água serena.
E sinto, acima de mim, as estrelas cegas de dia
aguardando com a sua luz. Por um instante
participo da graça do mundo, e sou livre.
¹ Wendell Berry
* Kentucky, USA – 5 de agosto de 1934 d.C
Só porque
Richard Brautigan ¹
Só porque as pessoas
adoram a tua mente
Não quer dizer
que tenham de possuir
também
o teu corpo.
(tradução de Tiago Nené)
¹ Richard Brautigan
* Washington, Usa – 30 de janeiro de 1935 d.C
Richard Brautigan, é um escritor norte-americano. É mais conhecido pelos seus romances e histórias, em que busca o humor negro, a paródia e a sátira, do que propriamente pela vertente poética. Contudo escreveu alguns livros de poesia de grande interesse, tai como All Watched Over by Machines of Loving Grace (1963), Please Plant This Book (1968), The Pill versus the Springhill Mine Disaster (1969) ou Rommel Drives on Deep into Egypt (1970). No casa dos poetas, tentamos mostrar, sempre que possível, a faceta de poeta de alguns dos escritores quase somente reconhecidos noutras génetros literários.
“É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil.”
Nietzsche
Amor vivo
Antero de Quental ¹
Amar! mas dum amor que tenha vida…
Não sejam sempre tímidos arpejos,
Não sejam delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida…
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos -
Mas amor… dos amores que têm vida…
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços,
Com névoa da vaga fantasia…
Nem murchará do Sol à chama erguida…
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores… se têm vida?
¹ Antero Tarquínio de Quental
* Ponta Delgada, Açores – 18 de abril de 1842 d.C
+ Ponta Delgada, Açores – 11 de setembro de 1891 d.C
“É sobretudo na solidão que se sente a vantagem de viver com alguém que saiba pensar.”
Rousseau
“O conhecimento é limitado, só a estupidez é ilimitada.”
Schopenhauer
Os teus pés
Pablo Neruda ¹
Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.
Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.
Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.
Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.
¹Neftalí Ricardo Reyes
* Parral, Chile – 12 de Julho de 1904 d.C
+ Santiago, Chile – 23 de Setembro de 1973 d.C
Prêmio Nobel de Literatura em 1971
“E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão.”
Clarice Lispector
“Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.”
Manoel de Barros

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