Versos na tarde – Cora Coralina


A gleba me transfigura
Cora Coralina¹

Sinto que sou abelha no seu artesanato.
Meus versos tem cheiro de mato, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
(…)

Minha identificação profunda e amorosa
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros.
O roncar e focinhar dos porcos o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir do cães,
eu me identifico.

Sou árvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto sou mato, sou paiol
e sou a velha tulha de barro.
pela minha voz cantam todos os pássaros,
piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que
vão pelas estradas.

Sou espiga e o grão que retornam a terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.


Você leu?: Leonardo Boff – A ternura: a seiva da amor


Meus versos tem relances de enxada, gume de foice
e o peso do machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
(…)

Amo aterra de um velho amor consagrado.
Através de gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
(…)
Em mim a planta renasce e floresce, sementeia e sobrevive.

Sou a espiga e o grão fecundo que retorna à terra.
Minha pena é enxada do plantador, é o arado que vai sulcando.
Para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada
e fecundada no ventre escuro da terra.

¹Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas
* Vila Boa de Goiás, GO. – 20 de agosto de 1889 d.C
+ Goiânia, GO. – 10 de abril de 1985 d.C
Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás.

Postado na categoria: Literatura - Palavras chave: ,

Leia também:

Manuel Alegre - Coisa Amar - Poesia
Manuel Alegre - Coisa Amar - Poesia

Contar-te longamente as perigosas coisas do mar.

November 21, 2019, 4:00 pm
Platão - O mito da caverna
Platão - O mito da caverna

Os prisioneiros vão o chamar de louco

November 26, 2019, 8:08 pm
Leonardo Boff - A ternura: a seiva da amor
Leonardo Boff - A ternura: a seiva da amor

Mesmo no coração da atual crise social não podemos esquecer da ternura que subjaz a todos os empreendimentos que envolvem valores e afetam o coração humano.

December 8, 2019, 10:30 pm
Fernando Pessoa - Poesia
Fernando Pessoa - Poesia

Nesta quieta solidão sem fim

November 30, 2019, 8:15 pm
Nietzsche - Quem queríeis vós?
Nietzsche - Quem queríeis vós?

Mantém tuas portas abertas a novos amigos!

November 28, 2019, 7:07 pm
Octavio Paz - Acos - Poesia
Octavio Paz - Acos - Poesia

À Silvina Ocampo. Quem canta nas ourelas do papel?

November 26, 2019, 7:00 pm