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A rede social e o coronavírus

Para retardar o vírus, Alessandro Vespignani e outros analistas estão correndo para modelar o comportamento de seu hospedeiro humano.

Alessandro Vespignani, diretor do Network Science Institute da Northeastern University, em Boston.

Os escritórios do Network Science Institute da Northeastern University ficam 10 andares acima da Back Bay de Boston. Janelas envolventes oferecem um panorama flutuante da cidade, de Boston Common a Fenway Park, enquanto meia dúzia de jovens analistas trabalham em silêncio em computadores.

Às 10 da manhã de uma manhã recente, com as primeiras ligações para a Organização Mundial de Saúde e médicos europeus concluídas e o check-in com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças agendados para mais tarde, Alessandro Vespignani, diretor do instituto, teve algum tempo para trabalhar a sala. De blazer preto e calça jeans, ele passou de cubículo em cubículo, dando a cada membro de sua equipe as últimas atualizações sobre a pandemia de coronavírus.

“Chamamos isso de ‘tempo de guerra'”, disse Vespignani mais tarde em seu escritório; ele estava sentado, mas suas mãos não pararam de se mover. “Antes disso, estávamos trabalhando no Ebola e no Zika e, quando essas coisas estão se espalhando, você está trabalhando em tempo real, não para. Você está continuamente modelando redes. ”

Historicamente, os cientistas que tentam antecipar a trajetória de doenças infecciosas focam nas propriedades do próprio agente, como seu nível de contágio e letalidade. Mas as doenças infecciosas precisam de ajuda para espalhar sua miséria: humanos encontrando humanos pessoalmente. Na última década, pesquisadores importantes começaram a incorporar redes sociais em seus modelos, tentando identificar e analisar padrões de comportamento individual que ampliam ou silenciam possíveis pandemias.

Essas descobertas, por sua vez, informam recomendações de políticas. Quando faz sentido fechar escolas ou locais de trabalho? Quando o fechamento de uma borda fará a diferença e quando não fará? As autoridades mundiais de saúde consultam modeladores de redes sociais quase diariamente, e o laboratório do Dr. Vespignani faz parte de um dos vários consórcios que estão sendo consultados nas decisões cruciais e talvez perturbadoras nas próximas semanas.

Na sexta-feira, em uma análise publicada pela revista Science, o grupo estimou que a proibição de viagens da China a Wuhan atrasou o crescimento da epidemia em apenas alguns dias na China continental e em duas a três semanas em outros lugares. “Esperamos que as restrições de viagens às áreas afetadas pelo COVID-19 tenham efeitos modestos”, concluiu a equipe.

“Hoje, com o enorme poder computacional disponível na nuvem, Vespignani e outros colegas podem modelar o mundo inteiro usando” dados publicamente disponíveis, disse Elizabeth Halloran, professora de bioestatística da Universidade de Washington e pesquisadora sênior da Universidade de Washington. o Centro de Pesquisa de Câncer Fred Hutchinson. “Por um lado, há o surgimento da ciência de redes e, por outro, o enorme aumento no poder da computação”.

Dr. Vespignani chegou à análise de redes através da física. Depois de concluir um doutorado. em sua Itália natal, ele fez estudos de pós-doutorado em Yale, onde começou a se concentrar na aplicação de técnicas computacionais à epidemiologia e dados geográficos.

“Olha, sou romano e sou fã do Lazio. Estávamos em primeiro lugar – finalmente, depois de quantos anos? – e alguns fãs pensam que o coronavírus é uma conspiração contra a Lazio. Não digo que isso seja engraçado, mas sim: cada rede social funciona à sua maneira.”

Ele estava de pé novamente e passeava por uma fileira de escritórios com paredes de vidro. A certa altura, ele enfiou a cabeça em um escritório onde Ana Pastore y Piontti, física e pesquisadora associada, trabalhava em um dos problemas do dia: fechamento de escolas, analisado estado por estado e região por região. As autoridades de saúde de todo o país estão discutindo se devem fechar as escolas locais – quais, em quanto tempo e por quanto tempo.

“Ana está trabalhando nisso agora, queremos poder estimar os efeitos”, disse Vespignani.

Detalhes em um mapa de risco do início deste mês simulando o possível caminho do coronavírus da China para o resto do mundo.Credito: Kayana Szymczak for The New York Times

Seu projeto, como muitos outros do instituto, usa dados do censo, que revelam a composição de quase todos os lares americanos: o número de adultos e crianças e suas idades. A partir de uma única família, um grande mapa pode ser construído. Primeiro, as conexões entre mãe, pai, filho e filha. Em seguida, são adicionadas as conexões do pai na loja, a mãe no escritório e as crianças nas respectivas escolas. A análise pode determinar que, digamos, um garoto de 12 anos que mora no centro de Redmond, Washington, perto de Seattle, entre em contato regularmente com seus pais, irmã e uma média de 20,5 colegas da escola secundária local. .

Repetir o processo com famílias próximas gera um mapa digital denso de interconexões sobre uma comunidade inteira. No monitor do computador do Dr. Pastore y Piontti, ele se assemelha a um circuito elétrico complexo, com fios e cabos multicoloridos de e para hubs de interação compactos.

“Pense nisso como rastrear todas as interações regulares no videogame SimCity”, disse ela.

Nesse mapa, ela adiciona ainda mais conexões, incorporando dados de viagens dentro e fora dessa comunidade – por avião, trem ou ônibus (se essas informações estiverem disponíveis). O resultado final, que ela chama de “matriz de contato”, parece um mapa de calor aproximado – um slide colorido mostrando quem tem maior probabilidade de interagir com quem, por idade. A partir disso, ela subtrai todas as interações da escola, revelando uma estimativa de quantas menos interações – e possíveis novas infecções – ocorreriam ao fechar determinadas escolas.

“Cada país, cada estado, pode ser muito diferente, dependendo dos padrões de interação e composição das famílias”, afirma Pastore y Piontti. “E há a questão do que é mais eficaz: uma semana de fechamento, ou duas semanas, ou fechado até o próximo ano letivo.”

Vespignani havia desaparecido de volta ao seu consultório com dois analistas seniores. Eles estavam amontoados em um viva-voz, executando as últimas alterações de modelagem com um pesquisador externo. O laboratório faz parte de um consórcio que assessora a CDC e realiza chamadas contínuas de operações de mapeamento de doenças infecciosas em todo o mundo.

A conversa e a consultoria são ininterruptas, porque o instituto deve navegar pelas limitações inerentes a toda modelagem preditiva. Um desafio é que nem todos os locais importantes de progressão da doença podem ser previstos: navios de cruzeiro, por exemplo. Outra é fatorar eventos aleatórios – digamos, uma pessoa infectada que de repente decide que agora é o momento de fazer uma viagem de sonho à Espanha.

A crise no Rio, os porcalhões responsáveis e os guardanapos

Os responsáveis pela crise no Rio de Janeiro, que fez com que o governador em exercício decretasse estado de calamidade pública – o que já repercute na imprensa internacional -, são aqueles porcalhões que se sujaram dos pés à cabeça em uma festa milhardária no exterior, e tiveram que lavar a cabeça com guardanapo, enquanto riam e gargalhavam do sofrimento do povo fluminense.

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Em entrevista, o governador destacou que se o Estado do Rio de Janeiro fosse uma empresa, iria ser fechada. Mas, e o povo, como fica com isso?

O jornal inglês The Guardian deu destaque na noite desta sexta-feira (17) ao decreto de calamidade pública, destacando que a medida ajuda a engrossar a lista de outros problemas que o país já precisava enfrentar, como impeachment da presidente Dilma, Zika, investigações sobre corrupção e dificuldades econômicas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“A maior preocupação para os 500 mil visitantes esperados para os Jogos é o corte no orçamento da segurança pública, o que contribui para os problemas enfrentados pela ‘pacificação’ de favelas e para um ressurgimento de crimes violentos. Isto em meio a advertências de que terroristas teriam o evento como alvo”, diz o jornal inglês.

>> ‘The Guardian’: Calamidade pública no Rio é embaraço para anfitrião da Olimpíada

Entre os personagens daquela festa milhardária estava o antigo secretário da Fazenda do Estado, que foi ministro da Fazenda no governo Dilma e hoje engana o mundo ao dirigir organismo internacional na área financeira. Outros que estavam ali enganam empresários, se empregando em suas empresas, talvez para fazer lobby de cobrança. E outro, da área de saúde, deve estar enganando ou tentando também com lobby para receber o que, quando secretário, ficou devendo a essas empresas.

Em agosto de 2010, Sérgio Cabral já dizia: “Ganhamos as Olimpíadas, que parecia um sonho impossível. Estamos mudando o Rio”. Ele tinha razão, ele já sabia que o Rio ia quebrar, mas na mão de outros. Mais tarde, em novembro do mesmo ano, Cabral declarou: “Ganhamos as Olimpíadas de 2016 não foi para termos 21 dias de alta cobertura de segurança dos convidados. Ganhamos para dar à população do Rio.”

E o povo, como fica?

É obrigado a assistir a tudo isso calado.

O próprio decreto fala em necessidade de atender às áreas de segurança, saúde e educação, basicamente.

Na segurança pública, o cidadão é assaltado e morto.

Na saúde, o enfermo tem como expectativa a morte. O acidentado no trânsito e o pobre doente em casa, se necessitarem do Samu, vão morrer, na ausência de ambulâncias, médicos e remédios.

Na educação, o aluno do colégio público, como não pode estudar, corre o risco da delinquência ou da sobrevivência sofrida.

Os servidores não recebem seus salários.

E La Nave Va…

E a Justiça não dará a esses senhores nem uma ‘tornozeleirinha’. Eles, os responsáveis por questões desde a queda de helicópteros com crianças mortas até o superfaturamento de empresas terceirizadas de todas as áreas, que não recebem do governo estadual mas também não reclamam, o que indica que os contratos firmados devem ter sido bem vantajosos para os envolvidos.

E o povo, como fica?

Depois que eles financiaram a Olimpíada, o povo se limita a trafegar por vias engarrafas, correndo o risco de perderem o emprego, os que ainda têm um, por não conseguirem chegar aos locais de trabalho na hora certa.

E o povo, como fica?

Os cientistas políticos e os sociólogos fazem suas previsões sobre o que pode vir a acontecer com esse povo. Eles concluem, por exemplo, que os policiais que vão para as ruas para tentar defender o estado e as famílias saem de casa conscientes de que suas próprias famílias podem perder o provedor. Os criminosos estão mais armados. Já a família precisaria esperar dois ou seis meses para receber os proventos do policial que morreu.

E o povo, como fica?

Enquanto o Brasil sofre, eles já providenciaram suas passagens e passaportes para viverem nas residências que devem ter no exterior.
JB

Zika e Olimpíada: Duas visões científicas sobre riscos a atletas e turistas

As dúvidas e apreensões quanto aos riscos que a epidemia de zika – associada à alta nos casos de microcefalia em bebês – pode trazer aos turistas brasileiros e estrangeiros que virão ao Rio para a Olimpíada, em agosto, vêm mobilizando pesquisadores, organizadores dos Jogos e autoridades nos últimos dias. 

Agentes de combate contra o Aedes Aegypti no Rio
Governo federal e Prefeitura do Rio minimizam riscos
Image copyright AP

Afinal, quais são os perigos reais aos visitantes e seus países de origem?

Em conversa com jornalistas estrangeiros nesta sexta, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, afirmou que o governo federal aposta na queda da proliferação do mosquito Aedes agypti em agosto – mês que no ano passado registrou o menor número de casos de dengue, transmitida pelo mesmo vetor.

Além disso, citou medidas de prevenção a serem implementadas durante os Jogos, entre elas a aplicação de R$ 64,5 milhões para reforçar a rede de saúde local. Segundo o ministro, 80% dos imóveis do Rio já foram vistoriados, e o trabalho dos 3 mil agentes de fiscalização continua.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Numa tentativa de dissipar as preocupações, Barros argumenta que a incidência de zika vem caindo. Na primeira semana de maio, exemplificou, foram registrados 2.053 casos em todo o país, número bem inferior aos 16.059 notificados na terceira semana de fevereiro.

Na cidade do Rio, a queda no mesmo período foi de 2.116 para 208 casos.

Mesmo com esse indicativo de queda no número de transmissões, essa polêmica atingiu níveis internacionais.

Especialistas de instituições como as universidades de Oxford, no Reino Unido, Harvard e Yale, ambas nos Estados Unidos, enviaram uma carta à OMS (Organização Mundial de Saúde) dizendo que os Jogos deveriam ser adiados ou transferidos, pois poderiam ajudar a espalhar ainda mais o vírus pelo mundo.

Cientistas brasileiros reagiram, também em carta, a essa hipótese – a OMS, em resposta aos pesquisadores internacionais, também afirmou não ver necessidade de alterar os planos para a Olimpíada.

Para entender melhor os argumentos de cada lado, a BBC Brasil conversou com dois cientistas que participaram da organização das duas cartas. Confira o que eles dizem:

‘Pode haver disseminação rápida do vírus para países pobres, sem sistema de saúde estruturado’ – Arthur Caplan, professor de Bioética e diretor do Departamento de Ética Médica da Universidade de Nova York

Arthur Caplan
Arthur Caplan defende que Jogos sejam cancelados ou transferidos
Image copyright NYU

“A minha maior preocupação é que ainda não entendemos o vírus Zika. Não sabemos quanto tempo ele fica no corpo, ou se estamos lidando com uma cepa nova. Também não compreendemos todas as formas de transmissão ou se ele pode levar à síndrome de Guillain-Barré, que causa paralisia muscular, mas há indícios de que o vírus presente no Brasil seja mais forte.

O vírus já está circulando em 60 países, e tenho quase certeza de que vai se espalhar pela América do Norte e talvez pela Europa durante o verão que se aproxima (no Hemisfério Norte).

Mas há muitos países onde ele ainda não está presente, como Mauritânia, Nepal e Etiópia, que não mantêm um fluxo intenso de turistas para o Brasil, e para os quais a ida de pessoas para a Olimpíada teria mais impacto.

Se você introduzir uma pessoa infectada nesses locais poderia haver a disseminação do vírus de forma muito rápida e intensa, e estamos falando de países pobres da África e da Ásia, sem sistema de saúde estruturado.

Como vão lidar com crianças nascendo com microcefalia? E, mesmo no Brasil, podemos dizer que as famílias de bebês com más-formações estão recebendo toda a assistência de que precisam?

É algo que me preocupa mesmo em países onde não há a presença do mosquito transmissor, já que pode haver a transmissão sexual.

Estou certo de que as autoridades brasileiras e os organizadores estão tentando contornar o problema, e que há o uso de inseticidas e fiscalizações nos locais de competição. Mas eu acho muito otimismo contar tanto com as baixas temperaturas como um fator para a diminuição dos casos. E se fizer calor? O que vão fazer?

Quanto à prevenção, também acho otimista. Sabemos que, apesar de alertar as pessoas para que usem roupas compridas e repelentes, e que façam sexo com camisinha, elas não farão isso, muito menos num clima de festa como uma Olimpíada.

É necessário que haja mais transparência sobre os riscos, para que as pessoas façam decisões mais informadas. A OMS, por exemplo, deveria ser bem mais transparente. Por que não fazem uma reunião aberta, coletiva, convidando cientistas de todo o mundo e também a imprensa internacional?

Mais de 4 mil cientistas de todo o mundo nos escreveram, e a maioria é a favor de adiar os Jogos. Mas é claro que os cientistas brasileiros apoiariam a realização da Olimpíada. Há um grau de nacionalismo, de patriotismo. São cientistas, mas também são brasileiros.

Eu também creio que os organizadores não estejam levando em conta sua responsabilidade legal. Se o Comitê Rio 2016 diz que é seguro para os turistas irem para o Rio, e de alguma forma eles adoecem, ou temos o nascimento de crianças com microcefalia, quem serão os responsáveis? Todos estão sendo otimistas demais, na minha opinião.”

‘É impossível achar que podemos controlar o espalhamento do vírus Zika no mundo cancelando um evento’ – Cláudia Codeço, do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

Cláudia Codeço
Cláudia Codeço defende a continuidade dos Jogos
Image copyright ACERVO PESSOAL

“Nossa justificativa para que os Jogos sejam mantidos na data planejada se baseia em dois fatos. O primeiro é que nos meses de agosto e setembro as temperaturas no Rio de Janeiro são relativamente baixas, e normalmente a transmissão de doenças pelo Aedes aegypti é muito menor.

Nos últimos cinco anos, encontramos entre 7 a 10 casos de dengue para cada 100 mil habitantes no mês de agosto. E nossas pesquisas na Fiocruz mostram que o mosquito tem capacidade mais baixa de transmissão do Zika, então esperaríamos números ainda menores.

Logo, adiar o evento faria com que os Jogos ocorressem mais próximos a meses de calor, o que aumentaria os riscos.

O segundo ponto é a tese de que a vinda de turistas ao Brasil espalharia a doença por todo o mundo. Esse argumento se baseia na premissa de que a zika seja uma doença local, e isso não procede. Já temos evidência de transmissão em mais de 60 países, de acordo com a OMS, e então interferir ou cancelar a Olimpíada não vai impedir que a doença siga se espalhando.

Tanta atenção ao Rio pode até distrair o foco com relação ao hemisfério Norte, que se prepara para o verão, onde podem haver mais casos de zika nos próximos meses.

Quanto aos países mais pobres onde o vírus ainda não circula, pela lógica dos cientistas teríamos que interromper todo o fluxo de pessoas do mundo, já que de acordo com uma pesquisa da revista britânica The Economist o número de pessoas vindo ao Rio em agosto equivale a menos de 1% do total de pessoas que viajarão para outros países no mesmo período.

É impossível achar que podemos controlar o espalhamento do vírus Zika no mundo cancelando um evento, e a Olimpíada é como uma gota no oceano neste cenário.

Também acho interessante que aparentemente o Estado americano da Florida já tenha mais de 800 casos, mas ninguém esteja cogitando fechar os parques da Disney.

Quanto à transmissão sexual, nada indica até agora que o vírus seja altamente transmissível sexualmente, tanto que a doença continua restrita a países onde existe o mosquito como vetor da epidemia.

E sobre as recomendações preventivas, creio que caiba a cada um avaliar o seu próprio risco. Não tem como a gente impor às pessoas que elas se protejam. Temos que garantir que elas estejam bem informadas e tomem suas próprias decisões.

Eu diria que apoio a recomendação da OMS, de que mulheres grávidas deveriam evitar contato com esse vírus no Rio ou em qualquer outro lugar.

É extremamente ofensivo imaginar que nós cientistas faríamos qualquer julgamento científico motivado por fatores políticos. Nós não temos esse tipo de interferência em nenhum momento.”

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Zika Vírus: A “midiapondria” e os interesses mercadológicos

Remédios,Negócios,Indústria Farmacêutica,Zika,Blog do MesquitaNo início desse mês, o Google News indicava a ocorrência de cerca de 38 milhões de notícias com a palavra “zika vírus”.

Se considerarmos que há uma gama de produtos midiáticos que não chegam ao buscador, esse número deve ser ainda maior.

Por Armanda Miranda – Publicado originalmente no site Objethos, 15/2/2016, sob o titulo “O sika virus e a mediopondria: três momentos de uma cobertura”

O assunto, considerado de interesse público devido aos constantes alertas emitidos pelo Estado e pelos organismos de saúde, tem ocupado também os programas de entretenimento, como os populares Encontro com a Fátima Bernardes e Domingão do Faustão. A tentativa de analisar como tais produtos desenham o fenômeno é importante por dois motivos: o jornalismo produz conhecimento e, como tal, fomenta o debate sobre o assunto.

Como forma de produção do conhecimento, o jornalismo tem um papel muito relevante nos períodos de incerteza: é ele quem se ocupa de tentar organizar as informações e levá-las ao público com uma linguagem abrangente e sem vícios do campo de origem. Se os cientistas se preocupam, agora, em tentar compreender a dinâmica do vírus, os jornais têm a missão de sintetizar isso de modo que a audiência consiga entender melhor o momento sem que para isso precise de um diploma de biologia ou medicina. Este percurso da “tradução” é tradicional no jornalismo científico e também vem sendo a tônica nos produtos do jornalismo especializado em saúde. Nas palavras de Lopes et al (2012, p.131):[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A comunicação mediática passou a ser entendida como o meio privilegiado para aumentar o conhecimento e a consciência das populações sobre os assuntos de saúde, bem como para influenciar as suas percepções, crenças e atitudes, muito para além do clássico modelo de comunicação médico-paciente.

Como campo relevante para a propagação do debate público, o jornalismo traz em seus produtos questões que podem levar à tomada de posição sobre determinados fatos. É assim, por exemplo, que se tem discutido como os agentes públicos podem orientar a prevenção da proliferação do mosquito ou mesmo como o país precisa de mais investimento em ciência e tecnologia para reagir a momentos de incerteza. Ao ter contato com os argumentos difundidos na esfera midiática, por fontes que muitas vezes revelam posições contrastantes, a audiência se sente parte do que ocorre em dimensões que transcendem sua casa, seu bairro, sua cidade.

Também é pertinente identificarmos o jornalismo como um produto cultural. Assim, se a cobertura segue um rumo alarmista, podemos considerar que os agentes públicos também emitem estes alarmes de forma sistemática. Se ela parece confusa e fragmentada, também compreendemos que é por se tratar de um fenômeno novo, em processo, incerto. Não estamos falando que o jornalismo reflete uma suposta realidade, nem isentando os seus produtos dos erros, mas é importante pensar na cobertura dentro de um contexto de indefinições. Os produtos midiáticos são frutos do seu tempo e estão a ele conectados.

Partindo dessas definições do jornalismo, elencamos três diferentes momentos da cobertura sobre o zika vírus. A perspectiva é cronológica, o que não significa que ela seja assumida como absolutamente linear. Os links foram coletados a partir de alertas do Google News para expressões como “zika vírus”, “microcefalia” e “Ministério da Saúde”.

  1. A incerteza

Consideramos o decreto de situação de emergência por conta da associação do zika vírus à microcefalia como o ponto alto do início da cobertura jornalística. Em 11 de novembro, o portal UOL publicou a notícia, em associação às estatísticas da doença divulgadas pelo estado de Pernambuco.

Trata-se de um momento de total incerteza – tanto dos órgãos públicos, quanto dos produtos jornalísticos. Há, também, a ênfase na busca de dados estatísticos, uma das formas mais recorrentes de objetivação dos fatos em textos jornalísticos. Outra preocupação é a de didatizar o fenômeno e elucidar questões que antes era restritas aos corpos médicos.

Os desencontros de informação são evidentes, algo que parece comum diante de um período de incertezas, mas que exige um movimento de análise permanente dos produtores de conteúdo a fim de identificar erros e problemas de informação. A opção por divulgar casos suspeitos também pode ser questionada, especialmente se as atualizações dos dados forem negligenciadas

Neste momento, os produtos jornalísticos tendem a assumir um tom catastrófico, alarmista e sensacionalista – o que pode eventualmente prejudicar as políticas de contenção formuladas pelos órgãos públicos ou mesmo originar uma epidemia que não existe. A ânsia em sair na frente e em produzir informações sobre algo ainda desconhecido pode resultar em prejuízos para a audiência, que não raramente tem no jornalismo sua principal fonte de informação.

  1. Adesão à ciência

Em um segundo momento da cobertura, percebeu-se a busca contínua de didatização do fenômeno, na tentativa de minimizar as sensações de riscos. Entraram, aí, as notícias que se propunham a derrubar mitos e as que se comunicavam com o leitor no sentido de fazê-lo compreender informações que antes circulavam de modo restrito. A prevenção também passou a ser pauta, com destaque para dicas práticas e utilitárias.

Foi nesta fase, também, que identificamos um movimento interessante a ser estudado: a transformação dos cientistas e pesquisadores brasileiros em definidores primários. Se no primeiro momento da cobertura os agentes públicos e organismos de saúde tinham o peso das fontes oficias, neste segundo momento os próprios cientistas passaram a ser visados pelos jornalistas. Mais do que isso: a imprensa começou a acompanhar o trabalho de centros de referência, como a Fiocruz.

Tradicionalmente, o jornalismo científico é criticado por se ater às descobertas e às certezas (sempre incertas, diga-se) produzidas pela ciência. Neste caso, o movimento pareceu diferente, voltado também aos processos, como no caso do acompanhamento de uma equipe de investigadores da Universidade de São Paulo ou até mesmo na humanização da figura dos cientistas, algo pouco comum em coberturas desse tipo.

O problema, aqui, é partir para um outro extremo: o de fortalecer a fé na ciência, como se a ela nada pudesse escapar. Em períodos de incerteza, é comum que determinadas instituições se fortaleçam. Se o poder público pode ser elevado ao posto de culpado por não conseguir conter uma suposta crise, os cientistas ganham o status de potenciais pontos de fuga dessa mesma crise. Reforça-se, assim, o estereótipo da ineficiência do Estado e da crença segura na ciência.

  1. O caminho do debate público

Identificamos, agora, um terceiro momento da cobertura da epidemia: o fortalecimento dos argumentos que constituem o jornalismo como um espaço de debate público. É o que temos acompanhado, por exemplo, nas discussões acerca da legalização do aborto para gestante com fetos diagnosticados com microcefalia.

O debate promete acirrar argumentos favoráveis e contrários à indicação da interrupção da gravidez, envolvendo o poder público e o judiciário e a religião. A cobertura também busca a humanização da temática, recorrendo a histórias de vida de jovens com microcefalia e abordando a temática social que emerge desta questão.

Trata-se, em suma, de um momento de mobilização de fontes antagônicas, da busca da racionalidade científica de um lado (ou do saber médico, como preferiria o filósofo Michel Foucault) e do apelo à religião e à política de outro. A polêmica, evidentemente, alimenta o debate e também mobiliza a audiência, gerando engajamento, cliques e compartilhamentos.

Neste mesmo momento, a ciência ainda revela suas incertezas, os agentes públicos continuam a se manifestar na tentativa de reduzir danos e de acenar para a prevenção. Por outro lado, os desencontros de informação (aqui e aqui, por exemplo) e a ênfase nas estatísticas também persistem. Ao divulgar os casos suspeitos – com números sempre altos – , o poder público e a imprensa tendem a aumentar a sensação de pânico e de incerteza, o que pode motivar na audiência uma dependência cada vez maior dessas informações, ainda que estas sejam tão duvidosas quanto é o próprio vírus.

O protagonismo do (bom) jornalismo especializado em saúde

Ao tentar  levantar a cronologia da cobertura jornalística sobre o zika vírus, podemos concluir, ao menos no estágio em que estamos hoje, que os produtos midiáticos alimentam o que chamaremos de midiapondria: uma necessidade permanente por parte da audiência de receber informações atualizadas sobre pautas da área.

Mas quem calcula essa necessidade? Como os jornalistas sabem que o leitor realmente está interessado neste volume de pautas? Por um lado, seria um interesse óbvio, considerando que o jornalismo é produto cultural e estamos sintonizados a uma era de cuidados com o corpo e com a mente, uma era da saúde perfeita, como já disse o filósofo Lucien Sfez. Por outro, não se pode desconsiderar que se trata de um interesse dos próprios veículos, de seus financiadores e da estrutura biopolítica à qual estamos integrados. Nas palavras de Kucinsky (2012), esta temática também precisa ser compreendida à luz dos interesses mercadológicos que projeta:

“Revistas como a Veja produzem capas de saúde regularmente, porque são as capas que vendem, na concepção de mercado que eles têm; mesmo quando está caindo um World Trade Center, eles fazem questão de a cada três ou quatro edições dar uma capa de saúde. (…) Então nós vemos que há uma espécie dum turbinamento: a saúde é vendida como mercadoria e, portanto, na mídia ela é mais mercadoria ainda, é dupla-mercadoria porque tem que ser muito mercadológica a forma como é apresentada, a forma como é tratada”.

Em qualquer cenário, o jornalismo especializado em saúde acaba alçado ao papel de protagonista de um tempo de indefinições. Por conta disso, é importante que ele esteja alinhado às estratégias de prevenção, sem apelar para um tom catastrófico e alarmista e buscando organizar os fatos de forma a minimizar dúvidas. Para os midiapondríacos, nenhum remédio é melhor do que a informação de qualidade.

Armanda Miranda é doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do Objethos

Referências:
KUSCINSKY, Bernardo. Jornalismo e Saúde na Era Neoliberal. Disponível em:http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v11n1/10.pdf. Acesso em: 10 de outubro de 2013.
LOPES, Felisbela et al. (org). Ebook. A saúde em notícia. Repensando práticas de comunicação. Universidade do Minho. 2013. Disponível em: <http://www.ics.uminho.pt/uploads/eventos/EV_8167/20131217286093508750.pdf&gt;. Acesso em: 12 dez. 2013.

Como reconhecer o fundo do poço?

Os autores divergem. Além dos raros sobreviventes, as vicissitudes são tamanhas que poucos se animam a revivê-las. Menos ainda são os que têm fôlego para teorizar sobre o dantesco percurso. Dante inclusive.

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O fundo do poço é irreconhecível – ou para usar uma expressão recuperada pelo escritor-filósofo Garcia Rosa em recente entrevista ao Observatório da Imprensa – é imperscrutável. Além da falta de referências o próprio conceito de fundo do poço é diabolicamente kafkiano. Elástico, portanto absurdo — chegamos ou ainda não? Agora ou daqui a pouco? Real ou imaginário ? Reversível ou irrecorrível?[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Emérito sambófilo e sambólogo carioca, impregnado pelo Zeitgueist momesco afirma categórico que o fundo do poço será facilmente reconhecível pela trilha sonora: quando os blocos de rua começarem a entoar o inesquecível lamento atribuído a Wilson Batista – “Quero chorar, mas não tenho lágrimas! ” – será o sinal de que chegamos lá. Hora de encarar a tristeza brasileira que apenas Paulo Prado conseguiu enxergar. Ou tomar a saideira.

Economistas gabam-se do arsenal de exatidões para reconhecer as características e o cenário do fundo do poço. Talvez pela extensão das ruínas e o teor dos escombros. Mas não explicam como, em apenas setenta anos Alemanha e Japão, igualmente arrasados, arruinados e derrotados escapuliram do fundo do poço — sem recorrer às tentações totalitárias.

Fácil: o fundo do poço localiza-se no mapa da subjetividade e o caminho da volta, idem. Essencial: jamais resignar-se às “décadas perdidas” nem forçar prazos para coincidir com mandatos políticos ou o calendário eleitoral. O fundo do nosso poço é constituído de material fatigado, com validade vencida, irrecuperável.

Dentro de dias, com o início do ano real, assustador, carregado de ameaças e urgências jamais vistas ou experimentadas – entre elas a quarta maldição do aedes egypti, o vírus da zika — nossas históricas carências em matéria de formação, treinamento e competência serão testadas continuamente. Para sair do fundo do poço faz-se necessária uma receita clara, direta, minimalista, capaz de ser compartilhada e compreendida.

O clima de paroxismo que uma imprensa simplista, aprisionada pela inércia, só sabe amplificar, o fundo do poço afunda, movediço fica mais traiçoeiro, remoto. Com as pífias expectativas político-eleitorais do momento, é suicida esperar das urnas em Outubro algo inovador. Se o poder central se reconhece perplexo e a sociedade o vê impotente, as possibilidades de uma ação municipal efetiva são nulas.

Zerar o placar político, estimular algum tipo de empate, igualar vencidos aos vencedores, abortar as desforras que se anunciam — o fundo do poço se reconhece no exato momento em que o retorno à superfície começa a angustiar.

Outro lado: o zika rachou o lobby dos jornais

O surpreendente incentivo do “Globo” ao debate sobre a legalização do aborto em fetos microcefálicos evoluiu rapidamente para tornar-se posição do jornal. Inacreditável que um jornal tão chegado à Cúria e depois tão próximo à Opus Dei tenha superado sua histórica subserviência aos dogmas para assumir uma posição mais secularista e liberal.

Para diferenciar-se, a “Folha” rapidamente pulou para o outro lado, o lado pior: deu enorme destaque à inflexível condenação do aborto pela CNBB divulgada nos jornais de sexta-feira, 5/2.

Jogada de marketing do “Globo”? Possivelmente. Mas também uma reversão política que não pode passar desapercebida – o Globo exibe uma elasticidade que poderá mostrar-se valiosa caso sua esmagadora hegemonia na praça do Rio venha a ser eventualmente contestada nos órgãos que fiscalizam a concorrência.

Se pretende efetivamente diferenciar-se no lobby de jornalões a “Folha” deveria ter optado por questões onde sua autonomia diante dos parceiros de “O Globo” pudesse fazer a diferença em benefício dos leitores e do pluralismo do sistema de comunicação social..

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Alberto Dines é jornalista, escritor e co-fundador do Observatório da Imprensa