CIA considera Wikileaks agência hostil

O Senado americano quer enquadrar a Wikileaks como “Agência de Inteligência Hostil”Julian Assange,WikiLeaks,Blog do Mesquita

Já foi fácil torcer pelo WikiLeaks. Mas, desde 2010, muitos – eu, inclusive – assistiram com um certo desânimo a derrocada do site, que foi de organização corajosa, capaz de dar guarida aos vazamentos de Chelsea Manning, a uma miscelânea de campanhas de má-fé e revelações para chamar a atenção da mídia.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Chegamos ao ponto em que o WikiLeaks sustenta a teoria da conspiração conhecida como Pizzagate (segundo a qual o ex-diretor de campanha de Hillary Clinton estaria por trás de uma rede de pedofilia). Julian Assange não consegue nem mesmo escrever um tweet sobre óculos escuros sem um viés conspiracionista.

Nesse contexto, dá para entender quem pensa que o fundador do site é movido não só pelo zelo à transparência como também pelas várias contas que tem a acertar. Mas mesmo os críticos mais duros do WikiLeaks devem se opor à tentativa do Senado norte-americano de rotulá-lo como “agência de inteligência não-estatal e hostil” no projeto de lei que define o orçamento deste ano para os serviços de inteligência dos EUA.

Ron Wyden, por exemplo, não é exatamente um amigo do WikiLeaks. Em maio, o gabinete do senador de Oregon publicou no Twitter que era “um fato estabelecido” que “Trump estimulou ativamente os russos e o WikiLeaks a atacar a democracia [norte-americana]”.

Também destacou os suspeitos elogios de Trump ao WikiLeaks durante a campanha eleitoral. Assim como seus colegas democratas do Comitê de Inteligência do Senado, Wyden aderiu à linguagem dura, usada no projeto de lei, para se referir à intromissão russa.

Mas, diferentemente de seus pares, votou contra o texto por conta da seguinte frase: “O Congresso entende que o WikiLeaks e a liderança do WikiLeaks se assemelham a um serviço de inteligência não-estatal e hostil, frequentemente apoiado por agentes do Estado, e devem ser tratados como tal pelos Estados Unidos”.

Mas então, o que é exatamente um “serviço de inteligência não-estatal e hostil”? Excelente pergunta. “Serviço de inteligência” significa agência de espionagem. E agências de espionagem, por sua vez, são ferramentas do governo – ou seja, nunca são não-estatais.

É exatamente por isso que Wyden, apesar de se opor ao WikiLeaks e de estar determinado a investigar a interferência russa no processo eleitoral, saiu em defesa do site. Resoluções oficiais são perigosas quando ninguém sabe ao certo a que se aplicam. Pode até ser que a expressão seja puramente simbólica. Mas a cláusula pode ser bem mais nociva, ameaçando muitas publicações que consideramos que não têm nada a ver com interferência externa.

O jornal “The Hill” relata que Wyden se opos ao uso da “frase heterodoxa” para definir o WikiLeaks porque o termo ambíguo “pode ter consequências legais, constitucionais e políticas, principalmente se for aplicado a jornalistas que estejam investigando assuntos sigilosos”.

Wyden afirma ainda que a ideia de que “o governo dos EUA tenha um plano de ação não declarado contra ‘serviços de inteligência não-estatais e hostis’ é igualmente perturbadora”. Quando o diretor da CIA Mike Pompeo usou essa mesma expressão para descrever o WikiLeaks durante uma palestra em um think tank, em abril, as palavras já haviam soado bem obscuras.

Nada mudou quatro meses depois, a não ser a possibilidade de esse tipo de linguagem se tornar de fato uma política de governo. Isso é muito sintomático e preocupante, mesmo que você odeie o WikiLeaks.

O assessor de imprensa de Wyden, Keith Chu, afirma que, apesar de o senador “ter reiteradamente criticado o WikiLeaks pelo papel a que se prestou na última eleição, de ferramenta da Rússia”, é fácil imaginar “como esse tipo de classificação poderia vir a ser empregado contra veículos de imprensa legítimos ou contra jornalistas que tenham usado materiais publicados pelo WikiLeaks”.

Resumindo, independentemente da opinião que alguém possa ter sobre Assange e seu site, “o precedente aberto por essa nova categoria de inimigo dos EUA é perigoso”.

O governo dos Estados Unidos abomina o WikiLeaks pelo menos desde 2010, quando o grupo divulgou mais de meio milhão de documentos que revelaram segredos de décadas da diplomacia norte-americana e das guerras do Iraque e do Afeganistão. Esse desprezo oficial não é segredo para ninguém.

O site existe para antagonizar e constranger governos do mundo inteiro, mas o poder norte-americano sempre foi seu principal alvo – e a bête noire de Assange. O ódio ao fundador do WikiLeaks e o desejo de vê-lo fracassar são comuns a políticos de todo o espectro norte-americano, eleitos ou não. São sentimentos amplamente conhecidos da opinião pública – assim como a hostilidade irredutível de Assange aos Estados Unidos.

O que permanece nas sombras é uma prova clara de que o WikiLeaks seja um “serviço de inteligência não-estatal e hostil”, o que quer que isso signifique. A versão não-sigilosa do relatório da Comunidade de Inteligência dos EUA sobre a suposta interferência russa no processo eleitoral diz: “Avaliamos, com um alto grau de certeza, que a inteligência militar russa (o Departamento Central de Inteligência ou GRU) obteve material via operações cibernéticas, de maneira pública, e via veículos de mídia, de maneira reservada, e o repassou ao WikiLeaks”.

O relatório aponta que “é muito provável que Moscou tenha escolhido o WikiLeaks por conta de sua autoproclamada reputação de autenticidade”, mas não diz mais sobre a colaboração entre as duas entidades. É importante estabelecer a diferença entre endossar uma ação e fazer de fato parte dela. Se não houvesse distinção entre os dois, a redação do Breibart News, portal de notícias de extrema-direita, ficaria numa barraca no próprio Jardim Sul da Casa Branca.

Parece bem plausível que o WikiLeaks tenha em alguma medida conspirado com parte do governo russo. O hacker de pseudônimo Guccifer 2.0, considerado por analistas privados e pelo governo dos EUA como uma invenção da inteligência russa, foi transparente quanto à sua colaboração com o WikiLeaks (no verão passado, Guccifer 2.0 me disse que eles estavam prestes a repassar informações sobre o Partido Democrata para o WikiLeaks, o que de fato aconteceu pouco depois).

O alinhamento de Putin, Assange e Trump em termos de valores e objetivos também é inegável. Por essa razão, ao longo do último ano, o site angariou muitos e firmes opositores (e, para ser justo, apoiadores também). Mas nada disso descarta a possibilidade de Assange ter recebido material de hackers russos sem se preocupar com a origem, com o único objetivo de constranger e desestabilizar sua arqui-inimiga Hillary Clinton.

A partir daí, seria válido um debate público sobre se Assange está pessoalmente envolvido demais. Mas será que a simples suspeita sobre o que motiva uma publicação deveria mesmo virar lei? Assange pode até ser um picareta com um projeto bem claro e pouquíssimos escrúpulos, mas ele está longe de ser o único.

O lendário advogado Floyd Abrams, especialista em Primeira Emenda, afirmou a The Intercept que ele é “bastante crítico” do comportamento do WikiLeaks. Mas que “a questão de saber exatamente o que WikiLeaks fez, que contatos tem ou teve com adversários do país e tudo o mais” não pode se misturar à questão de uma classificação oficial por parte do governo:

A questão maior é se o governo [dos EUA] deveria classificar uma entidade como agência de inteligência não-estatal e hostil. Ainda não sei ao certo quais são as consequências pretendidas com esse tipo de classificação. Mas tenho certeza de que poderia deixar o WikiLeaks vulnerável a ameaças e talvez até à violência. Soa como se fosse uma descoberta oficial, mas não é; com um significado legal, que também não existe. Então apesar de eu não ter nenhuma objeção a oficiais de inteligência de alta patente criticarem o WikiLeaks, eu ficaria longe de falsas denominações oficiais.

Trevor Timm, diretor-executivo da Freedom of the Press Foundation, organização sem fins lucrativos que financia e apoia a liberdade de imprensa, disse a The Intercept que “Ron Wyden tem razão, a cláusula sobre o WikiLeaks é inédita, obscura e potencialmente muito perigosa”:

Não importa se você ama ou odeia o WikiLeaks. O fato de o Congresso visar uma publicação usando uma expressão tão vaga e inventada quanto “serviço de inteligência não-estatal e hostil” para potencialmente reprimir direitos previstos na Primeira Emenda, abrindo a porta para aumentar o monitoramento de fontes, deveria preocupar todos os jornalistas. É uma pena que outros membros do Congresso não consigam enxergar esse perigo tão óbvio.

(Freedom of the Press Foundation recebe recursos da empresa controladora de The Intercept.)

Para resumir, ainda que você ache que Julian Assange não passa de um sórdido, um  mentiroso, um putinista – e mesmo que de fato fosse tudo isso –, ele publica informações autênticas às quais ele não deveria ter acesso.

Por motivações políticas, sem dúvidas, mas publica. Considerar uma pessoa como essa inimiga do Estado coloca em perigo qualquer outro veículo de mídia que esteja trabalhando ou interessado em trabalhar com materiais e informações aos quais não deveria ter acesso. Em 2017, isso significa quase todos os veículos.

Do Departamento de Justiça à Casa Branca e ao Congresso, a moda é ser antivazamentos, e o uso de termos abertamente ameaçadores para definir os que publicam informações verdadeiras é sem precedentes. O WikiLeaks é o alvo perfeito para defensores de segredos de Estado porque a reputação do site está na lama fora da Trumplândia. Mas vamos pesar as consequências disso.

“Serviço de inteligência não-estatal e hostil” não significa tecnicamente nada. O que impediria um jornal como o New York Times (ou qualquer parceiro ou concorrente dele) de cair nessa definição ao fazer reportagens sobre e-mails hackeados pelo WikiLeaks?

Qual é exatamente o status legal de um “serviço de inteligência não-estatal e hostil”? Uma doação para o WikiLeaks poderia ser considerada assistência material ao inimigo?

E quanto aos muitos e respeitáveis jornalistas que já trabalharam em parceria com o WikiLeaks, do New York Times ao Der Spiegel? Eles agora serão considerados culpados de ter colaborado com um “serviço de inteligência não-estatal e hostil”?

Se o WikiLeaks vier a publicar um vazamento tão revolucionário e valioso quanto o que foi feito por Chelsea Manning, e aí? Jornalistas poderiam escrever reportagens sobre o que tiver sido obtido por essa agência espiã inimiga?

São perguntas sem respostas. A estratégia de rotular o WikiLeaks, além de arriscada, contribuirá pouco para reformar ou mudar significativamente Assange ou o próprio WikiLeaks. O mais provável é que o fundador do site veja nisso tudo mais uma prova de que ele é vítima de perseguição por parte do governo dos EUA.

A nova classificação não adiantaria muito, no entanto, para convencê-lo de que promover Marine Le Pen ou espalhar falsas teorias da conspiração sobre cozinha ritualística não são de interesse público. Mas poderia ser um balde de água fria nos que estão trabalhando para valer. Não dê a Assange, ou a Pompeo, essa vitória.

Foto em destaque: Julian Assange após conversar com a mídia da varanda da Embaixada do Equador em Londres (19/05/2017).

Tradução: Carla Camargo Fanha

Snowden: “Eu não falo com Assange”

Snowden nega ter qualquer ligação com Wikileaks: ‘Eu não falo com Assange’

Houve vários relatos sobre a alegada ligação de Snowden com o WikiLeaks, alimentada em particular pelo apoio mútuo de Assange-Snowden.

“Eu não falo com Julian Assange, não falo com o WikiLeaks, não tenho relação com eles”, disse Snowden durante um link de vídeo com a conferência alemã de tecnologia CeBit, acrescentando que era um “fato público bem estabelecido “.

Snowden tem residido na Rússia desde 2013, quando ele fugiu dos Estados Unidos depois de expor o esquema de espionagem on-line maciço NSA.

Wikileaks revela o suposto método da CIA para ‘hackear’ telefones

Wikileaks - Julian Assange
Julian Assange segura um relatório da ONU na embaixada de Equador. AP

O Wikileaks, plataforma fundada por Julian Assange para divulgar informações confidenciais ou privadas, iniciou nesta terça-feira a publicação de milhares de documentos que atribui ao Centro de Inteligência Cibernética da CIA.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O material consistiria, segundo o WikiLeaks, de detalhes e ferramentas de um programa de espionagem cibernética dos serviços de inteligência norte-americanos, cuja publicação colocaria a agência federal em sérios apuros.

“O arquivo parece ter estado circulando de forma não autorizada entre ex-hackers e prestadores de serviços do Governo, um dos quais ofereceu fragmentos ao Wikileaks”, acrescenta o site em um comunicado.
Uma parte do vazamento, ao qual o Wikileaks se refere como Ano Zero, consiste de 8.761 documentos e arquivos de uma rede isolada de alta segurança, situada no chamado Centro de Inteligência Cibernética que a CIA mantém em Langley (Virgínia), que incluem esses instrumentos de espionagem.
O chamado programa Ano Zero incluiria especificamente uma série de armas informáticas para poder grampear telefones e aparelhos produzidos por companhias norte-americanas, como os iPhones da Apple, o sistema Android do Google, o Windows da Microsoft e os televisores Samsung, que assim se tornariam microfones disfarçados.

Estes documentos serão divulgados após vazamentos relativos a partidos e políticos franceses durante a campanha eleitoral de 2012. Agentes da CIA teriam recebido ordens de averiguar conversas privadas de Nicolas Sarkozy sobre outros candidatos, assim como as estratégias de François Hollande e Marine Le Pen, as dinâmicas partidárias e suas posições com relação à política econômica.

No final do ano, as agências de inteligência dos Estados Unidos acusaram Moscou de orquestrar uma campanha de espionagem durante as eleições presidenciais de novembros nos EUA, mas numa escala muito diferente deste caso, já que acusavam o Kremlin de revelar emails do Partido Democrata – publicados pelo próprio Wikileaks – e difundir notícias falsas, entre outras estratégias, a fim de prejudicar a candidatura de Hillary Clinton e favorecer a chegada de Donald Trump ao poder.

Esse episódio contrapôs Trump, então presidente-eleito, aos seus próprios serviços de espionagem, cuja credibilidade ele colocou em dúvida. Depois de tomar posse na Casa Branca, em 20 de janeiro, voltou a enfrentar esse assunto quando a imprensa divulgou as conexões de membros da sua equipe com Moscou.

As revelações desta terça-feira, se confirmadas, darão a Trump um bom trunfo para sua tese de que a CIA está infestada de fofoqueiros que não cuidam direito da informação confidencial. Jonathan Liu, porta-voz da CIA citado pela agência AP, limitou-se dizer que não faria comentários sobre a autenticidade ou conteúdo de tais documentos.

O WikiLeaks havia planejado uma entrevista coletiva via internet para apresentar seu projeto Vault 7, mas posteriormente anunciou no Twitterque suas plataformas tinham sido atacadas e que tentará se comunicar mais tarde.

Em nota, o australiano Assange, refugiado desde 2012 na Embaixada do Equador em Londres, disse que o vazamento desta terça-feira é “excepcional do ponto de vista legal, político e forense”.

Donald Trump e Putin: Conspiração?

Conspiração ou espionagem? O que se sabe sobre a acusação de que a Rússia interferiu na eleição de Trump

Trump sorrindo
Tuítes recentes de Trump ajudaram a inflamar ainda mais a polêmica sobre a suposta espionagem russa – Image copyrightAP

Com um tuíte, o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, inflamou ainda mais a polêmica sobre as suspeitas de que hackers russos influenciaram a eleição presidencial.

“Você consegue imaginar se o resultado da eleição fosse o oposto e NÓS estivéssemos tentando usar a carta da Rússia/CIA. Isso seria chamado de teoria da conspiração!”[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

No fim de semana, as duas principais agências de segurança dos EUA – o FBI (Agência Federal de Investigações) e a CIA (Agência Central de Inteligência) – teriam descoberto intervenções da Rússia nas eleições do país para promover a vitória de Trump. As informações foram divulgadas em dois importantes jornais dos EUA com base em relatórios das duas agências.

Em outubro, o governo dos EUA já havia apontado a responsabilidade da Rússia nesses ataques e acusado o país de interferir na campanha do Partido Democrata. Mas, segundo as novas informações divulgadas pela imprensa americana, a Rússia tinha como motivação ajudar Trump.

Mas o que se sabe até o momento sobre a acusação de que Moscou, de fato, agiu para promover a vitória do bilionário?

O que diz Trump

Em entrevista à TV e também em seu Twitter, o republicano criticou e colocou em xeque as informações contidas nos relatórios do FBI e da CIA.

Falando à rede Fox News, Trump disse que os democratas estavam divulgando documentos “ridículos” porque estavam envergonhados com a escala da derrota que sofreram nas eleições.

Ele disse que a Rússia poderia estar por trás dos ataques, mas que era impossível saber. “Eles não fazem ideia se foi a Rússia, a China ou alguém sentado em uma cama em algum outro lugar.”

Trump caminhando ao lado de MelaniaTrump e sua equipe não pouparam críticas às agências de inteligência dos Estados Unidos – Image copyrightAP

A equipe do presidente eleito também criticou agências de inteligência dos Estados Unidos: “Essas são as mesmas pessoas que disseram que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa”.

O presidente eleito usou seu Twitter para questionar o porquê de as acusações não terem sido divulgadas antes da eleição.

“A não ser que você pegue os hackers no ato, é muito difícil determinar quem estava por trás da ação. Por que então isso não veio à tona antes?”, tuitou nesta segunda-feira.

O que dizem outros republicanos

Republicanos experientes têm se juntado aos democratas para pedir investigações sobre o caso. O senador republicano John McCain disse, em um comunicado conjunto com líderes democratas, que o relatório da CIA “deveria deixar qualquer americano alarmado”.

Ele afirmou que o Congresso deveria abrir uma investigação e que esta deveria ser ainda mais minuciosa do que a que será conduzida pela Casa Branca.

Nesta semana, o presidente Barack Obama, que deixa o cargo em 20 de janeiro, ordenou uma apuração sobre uma série de ataques cibernéticos que teriam sido promovidos pela Rússia durante a campanha eleitoral nos EUA.

De acordo com a Casa Branca, o relatório – que deve ser finalizado até o fim do mandato do democrata – será uma “sondagem profunda sobre um possível padrão de uma crescente atividade maliciosa na internet durante a temporada eleitoral”.

As acusações foram negadas por funcionários do governo russo.

O que dizem os relatórios, segundo a imprensa

De acordo com o jornal The New York Times, os dois órgãos concluíram que “seguramente houve uma participação russa para hackear essas informações”.

Segundo o jornal, entre os documentos obtidos pelos hackers estariam as contas de e-mails do Comitê Nacional Democrata e do presidente da campanha de Hillary Clinton, John Podesta.

O NYT afirma ainda que as agências de inteligência acreditam que essas informações teriam sido repassadas pelos russos ao WikiLeaks, que vazou o conteúdo.

O Washington Post afirma que um relatório da CIA chegou a informações parecidas. O jornal cita um oficial do governo dos EUA para afirmar que “a análise das agências de inteligência é de que o objetivo da Rússia era favorecer um candidato sobre o outro e ajudar na vitória de Trump”.

Hillary e Trump durante debateE-mails de Hillary Clinton e de seus assessores foram hackeados

Os novos detalhes teriam surgido durante a apresentação dos relatórios pelas agências de inteligência aos senadores na semana passada.

A reunião teria ocorrido com portas fechadas, mas, segundo o Washington Post, as informações teriam sido passadas por um funcionário do governo que não quis se identificar.

O que dizem os democratas

Na época da campanha eleitoral, e-mails da candidata democrata Hillary Clinton e de seus assessores foram sido hackeados, e o conteúdo, enviado ao WikiLeaks e postado online.

A divulgação causou problemas à campanha dos democratas. A então candidata passou boa parte dos debates se explicando sobre os emails, especialmente a descoberta de que ela quebrou regras oficiais ao trabalhar com informações secretas usando um servidor privado em sua casa em Nova York quando ainda era secretária de Estado.

Hillary e sua equipe não se cansaram de acusar o rival republicano e de que os russos estavam por trás da invasão às contas de email dos democratas.

John PodestaPodesta fez duras acusações contra russos e a campanha de Trump
Image copyrightAP

Um dos críticos mais severos foi John Podesta, chefe de campanha de Hillary, cuja conta também foi invadida. Na época, ele acusou o governo russo de responsabilidade pelo vazamento e disse que a campanha de Trump já sabia a respeito.

O que diz analista da BBC

Para o correspondente da BBC em Washington, Anthony Zurcher, apesar de Trump dizer o contrário, ele entrará na Casa Branca em uma situação complicada – e a derrota na votação popular de 2,8 milhões de votos é apenas um dos fatores que colaboram para isso.

“Esse cenário provavelmente explica o porquê de a equipe de Trump estar respondendo de maneira tão incisiva as acusações de que hackers russos influenciaram a política americana em uma tentativa para favorecer o republicano. Assim como a recontagem dos votos, isso pode ser visto como outra maneira de minar a legitimidade da vitória de Trump”, afirmou o correspondente.

Para Zurcher, não importa que seja bem pouco provável que a recontagem altere os resultados das eleições ou que os ataques hackers estejam lá no fim da lista de motivos que causaram a derrota de Hillary.

“Os tuítes raivosos de Trump e a indignação de seus partidários são evidência suficiente de que o presidente eleito se sente ameaçado. No caso da Rússia, no entanto, os comentários raivosos de Trump podem custar um alto preço político.”

Google e Facebook coletam mais dados que EUA, diz fundador do Wikileaks

O fundador do Wikileaks, Julian Assange, afirmou nesta quarta-feira (13) que o novo modelo de negócio mundial é o “capitalismo de vigilância” e que empresas de tecnologia, como o Google e o Facebook, recebem mais informações do que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA).

Por meio de uma videoconferência realizada desde a embaixada do Equador em Londres, onde está asilado desde 2012, Assange afirmou que, no entanto, a NSA acaba vigiando as empresas e, no fim, “se inteira igualmente” de todas as informações que elas recebem.

O ativista australiano participou do seminário internacional “Liberdade de Expressão, Direito à Comunicação Universal e Imprensa Plural para as Democracias do Mundo”, que foi realizado em Santiago, parte da celebração dos 60 anos do Colégio de Jornalismo do Chile.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Assange também fez críticas ao Tratado Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), uma aliança que busca reduzir as barreiras comerciais e que estabelece padrões comuns para os 12 países-membros, entre eles o Chile.

“O TPP, o TISA e o TTIP são um triângulo que procura criar um bloco econômico para excluir a China e que como resposta aos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul)”, disse o ativista.

Sobre as pressões que recebeu após os diálogos diplomáticos sigilosos vazados pelo Wikileaks, Assange afirmou que não haverá uma reforma nos EUA para deter a vigilância em massa, mas que esse deveria ser um tema de interesse mundial.

“A quantidade de espionagem pode aumentar. O modelo de negócio é o capitalismo de vigilância”, afirmou o fundador do Wikileaks, afirmando que essa espionagem é feita pelo próprio Google com informações extraídas através do Gmail, por exemplo.

“Por exemplo, o Google está tentando dominar o transporte. Por que? Porque tem uma vantagem comparativa de mapas e imagens de satélites nas ruas, pessoas com celulares sendo monitoradas pelo Google Search (mecanismo de busca)”, explicou o ativista.

Assange afirmou que isso pode ser exemplificado pelos acordos entre o Google e empresas militares que seguem a mesma lógica de rastreamento de informações.ds

O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, segura cópia de documento da ONU que diz que ele foi “detido arbitrariamente” pela Suécia e pelo Reino Unido.
Assange fez pronunciamento da sacada da Embaixada do Equador em Londres. Ele pediu para poder sair do local sem correr o risco de ser presoImagem: Niklas Halle’n/AFP
UOL

WikiLeaks: EUA espionaram Netanyahu, Berlusconi e Ban Ki-moon

EUA espionaram Netanyahu, Berlusconi e Ban Ki-moon, segundo WikiLeaksNovos documentos revelam espionagem por parte da NSA a líderes mundiais

O WikiLeaks é uma organização criada por Julian Assange (Fonte: Reprodução/Wikipedia)

Novos documentos divulgados nesta segunda-feira, 22, pelo site Wikileaks revelaram que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) espionou líderes mundiais como o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, o ex-premier da Itália Silvio Berlusconi e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

De acordo com a organização criada por Julian Assange, a NSA realizou escutas em um encontro entre Ban Ki-moon e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Uma conversa entre Netanyahu e Berlousconi também teria sido alvo de espionagem norte-americana, além de um encontro entre responsáveis de comércio do alto escalão da UE e do Japão, e uma reunião particular entre Berlusconi, Merkel e o ex-presidente da França Nicolás Sarkozy.

Os documentos mostram que Angela Merkel e Ban Ki-moon conversaram sobre como combater a mudança climática.

Já Netanyahu teria pedido a Berlusconi ajuda para lidar com o governo dos EUA, e Sarkozy teria alertado o ex-premier italiano sobre os perigos do sistema bancário de seu país.

Julian Assange afirmou que “será interessante ver a reação da ONU, já que se o secretário-geral pode ser um alvo (da espionagem dos EUA) sem nenhuma consequência, então qualquer um, desde um líder mundial a um varredor de rua, estaria em risco”.

Fontes:
Uol – Wikileaks revela espionagem dos EUA a Netanyahu, Berlusconi e Ban Ki-moon

WIKILEAKS: Juristas da ONU consideram ilegal a detenção de Assange

Um grupo de juristas da ONU disse que o fundador da WikiLeaks vive em um regime de detenção ilegal. O caso ainda é avaliado por grupo da ONU.

Juristas da ONU consideram ilegal a detenção de Assange
Assange disse que aceitaria a detenção caso a ONU dê um parecer desfavorável (Foto: Reprodução/ Youtube)
Juristas do Grupo de Trabalho da ONU para Detenções Arbitrárias determinou que a detenção do fundador da ONG WikiLeaks, Julian Assange, é ilegal, segundo informações da BBC. A declaração, vazada à BBC nesta quinta-feira, antecipa o anúncio oficial da decisão do grupo marcado para acontecer na sexta-feira, 5.  A pedido de Assange, que está refugiando há mais de três anos na embaixada do Equador em Londres, o grupo da ONU avalia se sua situação equivale a uma detenção ilegal.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Na manhã desta quinta-feira o australiano disse, pelo Twitter, que caso a ONU dê um parecer contrário e avalie que não há ilegalidade por parte das autoridades suecas e britânicas, deixaria a embaixada e aceitaria a detenção no Reino Unido.

“Se a ONU anunciar amanhã que perdi meu caso contra Reino Unido e Suécia, deverei deixar a embaixada (do Equador em Londres) ao meio-dia de sexta-feira para aceitar a detenção por parte da polícia britânica, já que uma apelação não parece possível. Entretanto, se eu ganhar e as partes do Estado serem autuadas por terem agido ilegalmente, espero o retorno imediato do meu passaporte e a rescisão de novas tentativas de me prender”, afirmou Assange.

O fundador do WikiLeaks fez o pedido ao grupo da ONU alegando que havia sido privado de suas liberdades fundamentais no período de refúgio. Caso seja aceito, a ONU pedirá a libertação do australiano. No entanto, a decisão do grupo não será juridicamente vinculante, com isso, o anúncio na sexta-feira não garantirá um efeito prático sobre uma possível detenção de Assange.

Autoridades britânicas permanecem no entorno da embaixada equatoriana. “A ordem ainda está vigente. Se ele sair da embaixada, faremos de tudo para prendê-lo”, disse um porta-voz da polícia britânica.

Assange vive na embaixada do Equador desde junho de 2012, fugindo de acusações da Justiça da Suécia. O australiano é acusado de abuso sexual contra duas mulheres, mas nega as acusações.

Assange teme que autoridades suecas o extraditem para os EUA, onde ele é acusado do crime de espionagem por ter divulgado documentos confidenciais do governo americano. O governo equatoriano concedeu asilo político ao australiano, mas o governo britânico negou o salvo-conduto.
Fonte:Opinião&Notícia

Assange, Snowden e você

Julian Assange Wikileaks Blog do Mesquita FaceBookO WikiLeaks voltou à sua labuta. Acabou de anunciar a divulgação de meio milhão de mensagens e outros documentos secretos do ministério do Exterior da Arábia Saudita. E também mensagens do ministério do Interior e dos serviços de inteligência. Em seu comunicado à imprensa, o WikiLeaks lembra que a divulgação coincide com o terceiro aniversário da reclusão de Julian Assange na Embaixada do Equador em Londres.

Outro que fez aniversário foi Edward Snowden, o ex-técnico contratado da CIA que colocou a público uma enorme quantidade de informações secretas dos Estados Unidos. A divulgação completou dois anos há alguns dias e Snowden assinou um artigo publicado no New York Times comemorando seus sucessos [ver “O poder de um público bem informado”].

Lembrou que graças às suas revelações foi criado um intenso debate que obrigou o governo americano a impor limites para a espionagem eletrônica de seus cidadãos realizada rotineiramente pela Agência de Segurança Nacional (NSA).

“A partir de 2013 instituições de toda a Europa declararam ilegais essas operações de espionagem e impuseram restrições a atividade similares no futuro”, escreveu Snowden, concluindo que somos testemunhas do nascimento de uma geração pós-terror que rejeita uma visão do mundo definida por uma tragédia específica.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Pode ser. Comemoro o fato de a NSA e outros espiões americanos terem mais restrições para ler meus e-mails ou escutar minhas conversas telefônicas. Mas me preocupo mais com as ameaças cibernéticas à minha privacidade que partem da Rússia, da China e de outros governos autoritários do que as que provêm de Washington.

Na mesma época em que Snowden publicou seu artigo, soubemos que piratas cibernéticos penetraram nos sistemas do departamento de pessoal do governo dos Estados Unidos e roubaram informações detalhadas de pelo menos quatro milhões de funcionários públicos federais.

As informações roubadas incluem dados pessoais e profissionais que os empregados do governo estão obrigados a fornecer para ter acesso a informações confidenciais. O principal suspeito do ataque é a China.

De acordo com reportagem do Washington Post, Pequim está construindo um enorme banco de dados com informações pessoais dos americanos, pirateando os arquivos eletrônicos de agências governamentais e seguradoras de saúde.

Como defender

Mas os ataques não se limitam à espionagem nem, necessariamente, têm um governo por trás. Há muitos hackers independentes que ganham a vida com atividade criminosa na internet.

Segundo o respeitado relatório que a empresa Verizon publica todos os anos sobre ataques cibernéticos, eles crescem a uma grande velocidade e são poucos os setores cujas defesas informáticas não tenham sido violadas. Os mais atingidos são o governo, além dos setores de saúde e financeiro.

Os especialistas também ressaltam que embora os ataques cibernéticos originados na China sejam constantes e em massa, os que provêm da Rússia não têm nada a invejar dos chineses no tocante à agressividade, frequência e sofisticação.

Seguramente os Estados Unidos não ficam atrás. Mas não devemos colocar todos no mesmo saco. Os Estados Unidos são uma democracia. Com todos os seus defeitos, ali existe uma separação de poderes e os governantes não gozam da impunidade que desfrutam seus colegas em Moscou ou Pequim.

Sim, é importante que as democracias não espionem seus cidadãos. Mas mais importante ainda é que as democracias tenham como se defender e defender seus cidadãos do perigoso mundo cibernético que está emergindo. Não é por acaso que nem na Rússia nem na China surgiram equivalentes de Assange e Snowden.

Por: Moisés Naím é ex-diretor do Banco Mundial e membro do Carnegie Endowment for International Peace

O que mudou desde o escândalo de megaespionagem da nsa?

Nem os filósofos, nem os sociólogos, nem o mais progressista dos analistas ou pensadores tidos como de esquerda ou de direita haviam visto o admitido o abissal buraco que estava tragando a nossa intimidade e os nossos direitos.

Quando alguém ousava advertir que o inimigo dormia em casa, que a Internet havia se tornado um terreno planetário de espoliação de dados, o que recebia como resposta eram qualificativos pouco amáveis ou desqualificações semelhantes a “você não entende a época”.
Inclusive, havia entre os mais incendiários antagonistas dos impérios do Ocidente, uma espécie de pacto silencioso: o brinquedo de rede valia a liberdade, os segredos e os dados que lhe entregávamos. Julian Assange soube entrar com suma coragem no quadrilátero da denúncia sobre a obscena cruzada contra nossas vidas que certos Estados e os operadores de Internet vinham realizando, mas ninguém o escutou. A propaganda se pôs em marcha e o fundador do Wikileaks passou a ser um errante que perdia sua legitimidade.
Até o dia milagroso, de inícios de junho de 2013, quando, através do jornalista norte-americano Glenn Greenwald e do jornal britânico The Guardian, a voz do ex-analista da CIA e da NSA, Edward Snowden, desfez a surdez globalizada e deixou nua a mais gigantesca vigilância mundial da história da humanidade. Por meio do programa Prism, a NSA norte-americana e seus aliados agrupados no grupo Five Eyes (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Canadá, Austrália, Nova Zelândia) mantinham as sociedades humanas sob um massivo e exaustivo controle.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]
E não estavam sós. Google, Apple, Yahoo, Facebook, os operadores de telefonia móvel, as multinacionais especializadas em cabos submarinos também contribuíam com o fornecimento de informação. As empresas privadas, em quem depositamos nossa confiança, estavam cobrando de todos nós uma fatura secreta pelas costas. Decorreram exatamente dois anos e muitas coisas mudaram, ainda que timidamente.
Em um texto publicado no dia 6 de junho por vários jornais do Ocidente (Libéracion, The New York Times, Der Spiegel e El País), Edward Snowden recordou o que sentiu quando suas revelações foram colocadas em marcha: “Em especial, houve momentos em que temi que tivéssemos colocado nossas confortáveis existências em perigo por nada, temi que a opinião pública reagisse com indiferença e se mostrasse cínica diante das revelações. Nunca fui tão feliz por ter me equivocado”.
Como se pode saborear, Snowden, a quem os Estados Unidos retrataram como um “traidor” e as esquerdas mundiais quase como uma escória, porque era norte-americano e ex-membro de uma agência de Inteligência, conserva um sadio otimismo. Desde o seu exílio na Rússia, Snowden pensa que as coisas realmente mudaram. Em sua enumeração positiva, este ilustre exilado moderno destaca o fato do programa da Agência de Segurança Norte-Americana (NSA) para rastrear as chamadas telefônicas ter sido declarado “intrusivo” pelos tribunais e refutado pelo Congresso.
Para Snowden, “o fim da vigilância de massa das chamadas telefônicas, em virtude do USA Patriot Act (legislação fortemente permissiva adotada nos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro de 2001), é uma vitória histórica para os direitos de cada cidadão e a última consequência de uma tomada de consciência mundial”.
Outros passos a mais podem ser acrescentados: a ONU declarou que a vigilância massiva constitui uma violação aos direitos humanos; o Brasil irrompeu no cenário organizando uma cúpula sobre a governabilidade digital, ao final da qual adotou a primeira declaração sobre os direitos de Internet (Marco Civil); as companhias como Google, Facebook e Yahoo introduziram dispositivos de segurança em seus sistemas para proteger melhor seus clientes e, um pouco em todas as partes do mundo, foram criados grupos de ação e de reflexão. Edward Snowden nos forçou a ver o que recusávamos olhar de frente.
Apesar do afã de Snowden, avançou-se pouco. As opiniões públicas parecem não ter integrado a profundidade do mal e os autoproclamados avançados do mundo continuaram navegando com o Google como se nada tivesse acontecido, trocando fotos e segredos pelo Facebook, em suma, presenteando as empresas do império que manobram como ninguém as tecnologias da informação, o mapa completo de suas vidas, a complexa trama de seus amores e relações. Tudo grátis.
É preciso mais ação, mais barulho, mais consciência e participação. Esses eternos privilegiados, que são os intelectuais, precisam mover seus neurônios morais e ampliar as bases de seus princípios para incluir a Internet em suas reflexões e suas lutas. É preciso que destravem os inamovíveis e admitam que a era digital e a relação assídua que mantemos com ela criaram uma espécie de democracia digital que também é preciso defender, assim o como o direito à expressão, o sindicalismo, a liberdade, a justiça, o matrimônio igualitário e a militância contra a miséria, a violência e a exploração. Porque nessa democracia digital esses princípios são violados a cada momento.
Hoje, a prerrogativa de entender o que está ocorrendo realmente no coração da rede está nas mãos de muito poucos. Seis ou sete autores – todos jovens – no mundo detêm a capacidade de pensar esse mundo virtual e as inumeráveis formas como, desde a capitalização de nossos inumeráveis clicks até o uso de algoritmos para controlar nossas vidas, um volume consequente dos direitos adquiridos no mundo real desaparece no virtual.
O Muro de Berlim veio abaixo há um quarto de século; Marx é indispensável, mas não existia Internet em sua época. É preciso repensar tudo porque, para começar, as empresas que nos oferecem laços sociais possuem um contato exclusivo com os serviços secretos. O terrorismo de corte islamista deu às agências de segurança um cheque em branco. Em seu nome, continuam nos espiando vergonhosamente. A França, por exemplo, acaba de votar uma das leis mais intrusivas e violadoras da história moderna.
Nunca como agora os Estados haviam se inserido com tantos meios entre nós e o mundo. É pura e moralmente desastroso, um ato de barbárie contra as liberdades e a intimidade humana. A Internet é uma criação fabulosa, uma chave genial para explorar os labirintos da vida, do conhecimento, dos outros. Porém, eles a estão corrompendo. É utilizada como uma arma contra nós.
Não obstante, Snowden pensa que nem tudo está perdido. Segundo escreve em seu texto, “assistimos ao nascimento de uma geração posterior (aos atentados de 11 de setembro), que rejeita uma visão do mundo definida por uma tragédia particular”. Os Estados do Ocidente, no entanto, definem suas políticas em relação com essa tragédia.
Isto equivale a controlar o planeta porque são esses Estados os que detêm as chaves da tecnologia. Não há nenhuma dúvida de que, neste preciso momento em que você, leitor, chega a estas linhas através de uma página de Internet, alguém, em algum lugar, sabe que você as está lendo.
Via UNISINOS

Brasil não vai conceder asilo a Snowden em troca de informações

O governo brasileiro não tem interesse em investigar a NSA (Agência de Segurança Nacional) e, por isso, não pretende conceder asilo ao delator do esquema de espionagem do governo dos Estados Unidos Edward Snowden, em troca de informações para atingir este objetivo.

Folha revelou nesta terça a intenção de Snowden de colaborar com investigações sobre a NSA e, em troca, receber asilo do Brasil.

Como parte da estratégia, Snowden escreveu uma “carta aberta ao povo do Brasil”, que enviará às autoridades brasileiras.

Nela, Snowden afirma que não é possível colaborar com as investigações diante da precária situação jurídica em que se encontra, com apenas asilo temporário, concedido pela Rússia até o meio de 2014.

No Brasil, com status de asilado permanente, teria mais liberdade para isso.

Snowden toma cuidado, na carta, de não se dirigir diretamente a Dilma.

A razão é não melindrar o governo russo. Mas, de acordo com o jornalista Glenn Greenwald, para quem ele vazou os dados, Snowden quer vir para o Brasil.

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Segundo a Folha apurou, o Ministério das Relações Exteriores destaca como “positivo” trecho da carta em que Snowden pede uma mobilização em defesa da privacidade e dos direitos humanos básicos, que estariam em risco por causa de ações como as da NSA.

Por outro lado, o Itamaraty destaca que o Brasil respeita a soberania de outros países e não pretende “dar o troco” nos Estados Unidos. Um assessor presidencial frisou que o governo brasileiro não pode entrar num jogo de troca, conceder o asilo para receber informações para investigar as ações da agência de espionagem americana.

Além disso, destacou o assessor, o Brasil não tem interesse em fazer esse tipo de ingerência na soberania de outros países. O caminho brasileiro, segundo ele, sempre foi expressado publicamente.

Oficialmente, o Palácio do Planalto ainda não se pronunciou e pode inclusive não fazê-lo porque não existe um pedido formal de asilo da parte de Snowden. A presidente Dilma Rousseff ficou surpresa com a informação e acionou o Itamaraty para definir qual posição deverá ser tomada.

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Crimes pelos quais Snowden é acusado -- O ex-técnico da NSA pode ser processado e preso se voltar aos Estados Unidos
Crimes pelos quais Snowden é acusado — O ex-técnico da NSA pode ser processado e preso se voltar aos Estados Unidos

MOBILIZAÇÃO

Quanto à mobilização defendida por Snowden, assessores do Itamaraty reforçam que o governo brasileiro já vem atuando neste sentido e conta com a ajuda dele, que sempre será bem-vinda.

O Ministério das Relações Exteriores ressalta que o Brasil, desde o início, fez questão de condenar as ações da NSA e de considerá-las “inaceitáveis”. A presidente Dilma chegou a desmarcar uma visita de Estado aos EUA em reação ao episódio.

O Itamaraty lembra ainda a iniciativa da presidente, que negociou com a Alemanha uma resolução formalizada na ONU (Organização das Nações Unidas) contra a espionagem americana. A resolução será votada nesta semana pelo plenário da assembleia geral da entidade.

O governo brasileiro informa que a carta aberta de Snowden, solicitando abrigo ao Brasil, não configura formalmente um pedido de asilo político.

Para o governo, nem mesmo o pedido feito pelo norte-americano em julho configura uma solicitação de asilo. Na ocasião, um pedido foi enviado por fax a diversas embaixadas estrangeiras na Rússia, quando Snowden estava temporariamente no aeroporto de Sheremetyevo, em Moscou.

OPOSIÇÃO

Para o líder do DEM na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (GO), não faz sentido conceder asilo político para Snowden.

“Acho que não existe nada que dignifique esse homem para o Brasil se envolver nesse momento com essa questão. Isso vai trazer muito mais desgastes ao Brasil no cenário internacional do que qualquer benefício para combater essas ações de espionagem”, disse.

“O Brasil tem que se preocupar em desenvolver um sistema próprio de tecnologia que seja capaz de se posicionar contra essas ações de espionagem que não ocorrem apenas pelos Estados Unidos”, completou Caiado.

A Polícia Federal, que investiga as denúncias de que a presidente Dilma e a Petrobras foram investigadas, já solicitou formalmente o depoimento de Snowden. O pedido foi feito via Itamaraty, responsável pelo contato com as autoridades russas. Mas os policiais nunca tiveram resposta.
Fonte: Folha de São Paulo