• mqt_for@hotmail.com
  • Brasil
Violência Urbana,Homicídios,Facções,Milícias,Menores,Blog do Mesquita,Ceará

Os jovens Kamikazes; como nascem as crianças soldados das Facções no Ceará

Violência Urbana,Homicídios,Facções,Milícias,Menores,Blog do Mesquita,Ceará

MATEUS* OUVIU COCHICHOS e achou estranho. Com apenas 14 anos, ele dividia o alojamento de um centro socioeducativo de Fortaleza com quatro adolescentes da sua idade, todos membros do Comando Vermelho.

Mas Mateus era um rival: havia jurado lealdade à facção Guardiões do Estado. O menino sentiu medo,  já sabia das mortes provocadas por disputas entre adolescentes de facções rivais dentro da instituição e precisava agir rápido.

Ele chamou o responsável pelo setor, encheu uma vasilha com a própria urina e jogou no rosto no homem. “Pedi pra sair, mas ele disse que não ia me tirar. Eu avisei que se ele não tirasse por bem, ia ser por mal”.

Conseguiu o que queria: ser levado para um local isolado dos demais internos, equivalente à solitária nas prisões – a “tranca”. “Se eu dormisse [no mesmo alojamento dos rivais], eles iam querer me enforcar”, ele me disse em uma conversa na sede do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente, o Cedeca, uma ONG que acompanha jovens no sistema socioeducativo. Ele estava sentado ao lado da mãe, que não sabia da história.

Mateus não é o único adolescente nas fileiras da Guardiões do Estado, a GDE. Criada em janeiro de 2016, ela é hoje a maior facção do Ceará, e tem predileção por alistar garotos pré-adolescentes. São seus “batizados”.

Ao entrar no grupo, o novo membro se transforma em um soldado a serviço da facção. Como um adulto, deve estar preparado para defendê-la com a própria vida, se necessário. Em troca, ganha respeito e proteção.

Parte do apelo da GDE é sua estrutura flexível, sem hierarquia rígida, o que a torna mais atrativa para os jovens que têm dificuldades em cumprir as regras das facções tradicionais. Abrindo seu leque para os pré-adolescentes, a GDE cresceu de modo avassalador – hoje, cerca de três anos depois de fundada, ela teria cerca de 15 mil homens. Com medo de serem esmagados, Comando Vermelho e PCC, que também atuam no Ceará, abriram as portas para os garotos. “Têm muitos molecotes que, você sabe, além de ser de menor, são bandido e têm muita atitude. Poderia ser feito uma matrícula pra eles ficarem do nosso lado e não virar a cabeça”, sugere um membro do PCC no Ceará em um áudio enviado a comparsas pelo WhatsApp. Em São Paulo, o PCC só aceita maiores de 18 anos e o CV, no Rio de Janeiro, só permite que crianças e adolescentes desempenhem funções secundárias, como a de fogueteiro (responsável por soltar fogos para avisar sobre a chegada da polícia na favela).

Não foi por acaso que as facções tiveram facilidade em recrutar crianças justamente no Ceará. Essa história começa alguns anos antes, com as gangues de adolescentes.

balas-1553093574

Das gangues às facções

Até 2015, a disputa pelo tráfico de drogas se concentrava entre as inúmeras gangues que dominavam a periferia de Fortaleza. Em 2014, de acordo com um levantamento da Polícia Civil do Ceará divulgado pelo jornal O Povo, havia 33 bairros de Fortaleza dominados por gangues.

As disputas de então já eram protagonizados por adolescentes. A rivalidade envolvia, em especial, o território, me disse o pesquisador Luiz Fábio Paiva, do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará. Passar de um bairro para outro desavisadamente poderia significar uma sentença de morte.

As facções, em especial a Guardiões do Estado, diz Paiva, organizaram essas ‘lideranças juvenis’, colocando-se acima da lealdade aos bairros. E foi este o contexto que o PCC e o CV encontraram.

“Quando essas facções chegaram aqui, já havia as gangues nos bairros de Fortaleza, com conflitos armados entre os adolescentes. Esses meninos eram muitos e tinham força dentro da periferia. Com o surgimento da GDE e sua tropa de menores, as outras facções tiveram que entender essa demanda, mesmo que isso fosse contra a ética deles.”

14-03-19-faccao-2-1552585386

Alice foi presa depois que policiais encontraram drogas dos filhos em casa. Agora, convive com uma tornozeleira eletrônica. Foto: Zerosa Filho/The Intercept Brasil

Eu perdi meu filho

Falar sobre o envolvimento dos três filhos com o crime é a única coisa que acaba com o jeito divertido de Alice*. “Às vezes eu me pergunto porque eles mudaram desse jeito”, me contou, enquanto conectava a tornozeleira eletrônica à tomada. Em 2 de outubro de 2018, a polícia entrou na sua casa e encontrou drogas, segundo ela, escondidas por um dos filhos, um integrante do Comando Vermelho que entrou para a facção aos 13 anos de idade. Única maior de idade da casa, ela foi presa. Ficou nove dias na cadeia e, hoje, não trabalha. “É difícil criar os filhos na periferia, mas a gente tem que morar aqui dentro, né? Eu, por mim, já tinha me mudado, mas não tenho pra onde ir”, lamenta.

“Eu saía para trabalhar 5h da manhã e só chegava de noite. Aí ficava sabendo que eles não tinham ido pra escola, que faltaram no projeto social. Eu brigava, batia, mas não adiantou.”

Depois que a mãe foi presa, um dos filhos, de 16 anos, saiu de casa e não voltou mais. Ficou a lição, ela me disse, para os irmãos mais novos, que dormiam no quarto enquanto conversávamos na sala de sua casa de dois cômodos por volta das 10h30 da manhã. Quando acordaram por causa do nosso barulho, um deles me disse: “Se o traficante me pedir pra esconder droga, eu escondo, mas não aqui dentro de casa”. Com 14 anos, o menino já foi apreendido duas vezes. Em uma delas estava na casa de um traficante do Comando Vermelho.

Na minha passagem por Fortaleza, também encontrei Valéria*, mãe de um jovem detido aos 14 anos pelo roubo de uma moto. Para punir o garoto, ela o deixou no centro socioeducativo da cidade. A ideia era que o filho passasse 45 dias lá, tempo mínimo da internação provisória. Queria que ele voltasse a obedecê-la como antes. Mas o plano deu errado. No dia em que foi buscá-lo, soube que ele havia sido sentenciado pela Justiça e que ficaria mais seis meses no local.

A pena fez o filho de Valéria peregrinar por três diferentes unidades de internação, onde, ele diz, foi agredido, humilhado e recebeu droga das mãos dos socioeducadores que deveriam cuidá-lo. Se transformou no oposto do que a mãe queria. “Eu não vou mentir. Ali ninguém se ressocializa. No natal e no ano novo, um orientador ia me entregar mais 25 gramas de maconha e um isqueiro pra eu curtir. Só não peguei porque eu saí do sistema antes das festas”, disse o adolescente, ao mesmo tempo em que, chorando, a mãe lamentava. “Eu não vejo mais felicidade nele. Está um menino recalcado, não quer mais carinho. É uma pessoa que eu desconheço. Eu perdi meu filho. Fico tentando resgatar ele, mas não estou conseguindo”.

Ritual de batismo começa com uma foto

A vida das crianças do tráfico começa com um batismo. Em uma comunidade dominada pelo Comando Vermelho, conversei com Mariana*, uma jovem de 22 anos íntima de membros do conselho local da facção. Ela me contou como acontecem os rituais: tudo começa com o envio de uma foto do candidato por um “padrinho” para os grupos espalhados em todo o Brasil. O objetivo é saber se alguém tem algo contra o futuro integrante. “Se nenhum irmão barrar, a pessoa responde a umas perguntas”, disse. O CV, conta Mariana, pede então para que o padrinho pergunte ao candidato se ele já usou crack, se é estuprador, se matou “sem ser necessário”. “Até pra ser criminoso você tem que ter escrúpulos”, divaga. “Se estiver tudo certo, a pessoa é batizada.”

Na GDE, o ritual é semelhante. E mesmo que as regras sejam mais frouxas, há obviamente controle. “Não pode tomar atitudes isoladas sem comunicar aos membros superiores. E também não pode roubar na sua área”, me disse o iniciado Mateus.

Perguntei a Mariana se no CV crianças também podem ser batizadas. Ela estava com a própria filha no colo quando me respondeu que depende do que considero criança. “Para mim, é só enquanto é inocente. A partir do momento em que rouba, que mata, já não é mais. Eu conheço meninos que têm uma mentalidade que adulto não tem. Eles pensam planos de crime que eu não conseguiria.”

Ao ser batizado, o membro da facção também assume a responsabilidade de matar qualquer rival que encontrar, principalmente se o inimigo estiver fora da sua área. Há ainda uma mensalidade, que varia entre R$ 100 e R$ 200. O dinheiro fica com os líderes no estado e é usado para financiar a organização.

Mariana me disse que muitos meninos aceitam o batismo depois de terem sofrido alguma violência por parte de outra facção ou da polícia. Mas também há outros motivos. “Uns é por falta de opção, outros em busca de adrenalina. Conheço outros que foram só por diversão, pra se achar o bandidão e impressionar as meninas.”

“As facções criaram uma situação na qual vários meninos falam de si como jovens kamikazes, que vão fazer o que for preciso, porque é dever e eles têm que cumprir”, diz o pesquisador Luiz Paiva.

Para Paiva, além da falta de oportunidades, o interesse dos meninos pelo crime tem relação direta com a proximidade que eles criam com a morte desde a infância. “O horizonte desse jovem é muito curto”, diz o pesquisador. “O que as facções fazem para atrair esses meninos é oferecer um projeto de vida que pode não ser o mais longo e feliz, porém é o que faz sentido no contexto em que eles estão inseridos”.

Facção como plano de carreira

Felipe*, de 18 anos, vive em Bom Jardim, favela na periferia de Fortaleza marcada pelos altos índices de assassinatos de adolescentes. Em 2017, ele perdeu seis amigos em menos de um mês. Apesar de não fazer parte de nenhuma facção, ele diz entender o que leva os amigos a serem batizados e vê os criminosos como responsáveis pela segurança da favela. “Aqui na periferia, a gente entende que nem tudo vai dar certo. E aprende isso com sangue, quando vai abraçar um amigo nosso e ele está no chão, baleado. A periferia é isso.”

A relação com a polícia é outro incentivo. Felipe lembra de pelo menos três ocasiões em que esteve na rota de uma bala, em tiroteios dentro da favela, e de quando apanhou de policiais.

Em 2017, o Ministério Público de São Paulo grampeou uma ligação entre membros do PCC na qual eles falavam sobre a grande quantidade de membros do GDE no Ceará. “Eles têm 15 mil integrantes dentro do estado e nós tem sabe quantos? Mil e pouco (…) Como é que nós vai declarar guerra com eles? (…) Os cara batizam qualquer um. Você não viu que o CV matou quatro moleques deles esses dias aí de 12, 13 anos?”, dizia um dos interlocutores. Atualmente, estima-se que existam cerca de 2.500 membros do PCC batizados no estado.

O PCC e o CV se fortaleceram no Ceará a partir de 2015. Antes, havia apenas alguns membros que atuavam em casos específicos, como o famoso assalto ao Banco Central em Fortaleza, conhecido como o maior do país, e em roubos a agências bancárias pelo interior.

O exército de adolescentes do GDE foi um dos motivos que levou o PCC a se aliar à facção local no início de 2017, parceria que se mantém até hoje. Policiais federais do Ceará acreditam que os portos de Pecém e Mucuripe são úteis para controlar a rota do tráfico internacional. A rivalidade pelo mercado de drogas é com o Comando Vermelho, a segunda maior facção no estado, com mais de 9 mil membros. Estar em uma dessas organizações é como ser funcionário de uma multinacional, oportunidade que a maioria das crianças da periferias não tem.

14-03-19-faccao-4-1552586874

Matheus e a mãe, no Cedeca. Para ele, a entrada na facção foi uma forma de sobreviver ao sistema socioeducativo.Foto: Zerosa Filho/The Intercept Brasil

Menos assistência, mais mortes

O próprio estado tem ajudado as facções a conseguirem membros cada vez mais jovens. Quando entram no sistema socioeducativo, diz Mara Carneiro, coordenadora do Cedeca, os meninos são separados por bairros, de acordo com a facção que domina a área onde moram.

Há ainda as “regalias”. “Um instrutor não mexe com adolescentes iniciados nas facções. Quem sofre são os adolescentes que não são batizados. Ser de um grupo é uma forma de estar mais seguro”, afirma Carneiro.

O mesmo estado que já separa meninos em facções dentro do sistema em que eles deveriam entrar para se regenerar também não parece ter interesse em ajudá-los a terem um futuro melhor. Em 14 anos, de acordo com levantamento do Cedeca, os investimentos em assistência social de crianças e adolescentes caíram drasticamente. Os recursos da Fundação da Criança e da Família Cidadã, órgão da prefeitura de Fortaleza responsável por promover políticas de defesa e assistência a jovens da periferia, encolheram 72%. A média é de R$ 1,7 milhão a menos por ano.

Também perdeu orçamento o programa Adolescente Cidadão, cuja missão é profissionalizar jovens da periferia. A redução foi de 97,6% entre 2005 e 2018. Talvez não por coincidência, dados do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência mostram que apenas 2% dos adolescentes assassinados em Fortaleza tiveram alguma experiência como estagiário ou aprendiz.

Um relatório do Unicef coloca ainda o Ceará como o estado brasileiro em que mais jovens morrem. O Índice de Homicídios de Adolescentes é de 8,71 a cada 100 mil habitantes, o dobro do índice no Rio de Janeiro e cerca de cinco vezes maior que o índice de São Paulo. As vítimas são quase sempre meninos negros da periferia – o mesmo alvo das facções. “Fortaleza é a quarta capital brasileira com menor investimento em assistência social a crianças e adolescentes. É também a capital que mais mata adolescentes. Isso não é coincidência”, diz Carneiro.

Apesar de entrar em uma facção significar de imediato proteção e prestígio, é o tipo de decisão difícil de voltar atrás. A única forma de sair e permanecer vivo é se convertendo a alguma igreja evangélica e abandonando o crime de vez. Ou então, claro, assinando ficha em outra facção.
Nayara Felizardo/TheIntercept

* Os nomes foram modificados para não colocar em risco a vida das pessoas entrevistadas.

Comportamento,Sociedade,Armas.Porte de Arma,Homicídio,Violência Urbana,Adolescentes,USA,Estados Unido

Estudos mostram que há mais mortes de crianças por arma de fogo nos EUA em Estados com legislação flexível

Direito de imagemGETTY IMAGES
Mortes envolvendo armas de fogo são a segunda maior causa de óbitos entre crianças nos EUA

Estudos que devem ser apresentados neste mês em evento da American Academy of Pediatrics, em Orlando, Flórida, vão mostrar que os casos de morte de crianças pelo uso de armas de fogo – corrigidas discrepâncias populacionais, econômicas e sociais – ocorrem duas vezes mais em Estados com legislação mais flexível do que em Estados em que o porte de arma é mais restritivo.

“Nossa principal conclusão é que os Estados com uma legislação mais rígida sobre armas de fogo tiveram menos crianças que morreram por armas de fogo. E as leis que mantêm especificamente as armas fora do alcance crianças também resultaram em menos mortes em geral entre as crianças, principalmente suicídios”, afirmou à BBC News Brasil a médica traumatologista Stephanie Chao, professora e pesquisadora do hospital infantil da Escola de Medicina de Stanford.

“Nossa pesquisa e pesquisas em geral mostram consistentemente que, quando as crianças têm mais acesso a armas de fogo, há taxas mais altas de lesões e morte”, frisou.

“Ações e leis que mantêm as armas longe das crianças, particularmente dentro das casas, estão correlacionadas a menos mortes.”

 

Três pesquisas que serão apresentadas no congresso pediátrico abordaram a questão das armas de fogo. Duas delas, complementares, partiram justamente da hipótese de que haveria uma variação entre o número de lesões infantis causadas por armas conforme as facilidades ou restrições de legislação – nos Estados Unidos, ao contrário do Brasil, são regras estaduais que definem a questão.

O tema da posse e do porte de arma vem sendo discutido nos dois países. Uma das propostas de campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), reforçada nos últimos dias, era revisar o Estatuto do Desarmamento para facilitar a compra de armamento pela população civil.

Crianças hospitalizadas

Um dos estudos analisou todas as admissões hospitalares do país em 2012 e cruzou os dados com o índice Brady, que avalia o rigor da lei de armas por Estado – trata-se de um valor calculado a partir de características que vão da limitação quantitativa à compra de munições a permissão ou não da compra da arma, especificamente.

No ano analisado, 6.941 crianças e adolescentes foram hospitalizados em decorrência de armas de fogo nos Estados Unidos. Desses, 36% dos casos ocorreram em estados da região Sul, onde as leis são mais flexíveis para o assunto, 22% no Oeste, 25% no Centro-Oeste e 17% no Nordeste.

Ilustração mostra dezenas de rostos de pessoas com cores e características diferentesDireito de imagemGETTY IMAGES
Alguns grupos de crianças, condicionadas por fatores como renda e escolaridade, são mais vulneráveis

Quando os pesquisadores aplicaram os ajustes matemáticos e estatísticos para compensar outras variáveis – condições de renda, tamanho da população, nível de escolaridade e taxas de desemprego -, chegaram à conclusão que, em Estados menos restritivos, ocorrem proporcionalmente o dobro de mortes infantis por causa de armas de fogo.

Crianças do sexo masculino, de baixa renda e aquelas de famílias negras ou hispânicas são desproporcionalmente mais afetadas.

“Lesões relacionadas com armas de fogo são a segunda maior causa de morte entre crianças nos Estados Unidos, mas encontramos uma clara discrepância no local onde essas mortes acontecem, o que corresponde à força da legislação estadual sobre armas de fogo”, disse Chao. “A cada ano, mais crianças morrem de lesões relacionadas a armas de fogo do que de câncer e doenças cardíacas combinadas.”

A médica ressalta que “todas e cada uma dessas mortes” seriam evitáveis. “Nosso estudo demonstra que a legislação pode impedir que crianças morram por causa de armas”, conclui.

Para o médico pediatra Jordan Taylor, coautor do estudo, uma melhor compreensão das diferenças regionais nas ocorrências de casos com armas de fogo pode ajudar nos esforços de prevenção de cada lugar – bem como provocar debate acerca das políticas públicas.

Da média anual de 2.715 mortes de crianças por armas de fogo nos Estados Unidos, 62,1% dos casos são de homicídios e 31,4% de suicídios – muitas vezes involuntários.

Diversas armas de fogo sobre mesaDireito de imagemGETTY IMAGES
Pesquisadores alertam que crianças têm dificuldade em diferenciar armas verdadeiras e de brinquedo

Identificação

Outro estudo que vai ser apresentado no mesmo congresso pediátrico nos Estados no início deste mês mostra que crianças e adolescentes têm dificuldade em distinguir uma arma de fogo verdadeira de uma de brinquedo – o que pode aumentar ainda mais o risco de acidentes.

Quando expostas a duas armas lado a lado, uma verdadeira e outra de brinquedo, 41% das crianças e adolescentes de 7 a 17 anos tiveram dificuldades de discernir entre uma e outra. Foram entrevistadas 297 crianças e seus respectivos responsáveis, todas na região sudeste dos Estados Unidos, ao longo de três meses em 2017.

“Uma das descobertas mais dramáticas foi a facilidade com que as crianças podem confundir armas reais com as armas de brinquedo realistas de hoje”, afirma a pediatra Kiesha Fraser Doh, professora e pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade Emory.

Dos participantes da pesquisa, 25% tinham pelo menos uma arma de fogo em casa. Estes eram mais propensos a permitir que seus filhos tivessem armas de brinquedo – 51% responderam que sim, contra 26% dos adultos que não possuíam armas.

Os pesquisadores perguntaram aos pais se eles achavam que seus filhos eram capazes de conseguir uma arma de verdade. Apenas 5% disseram acreditar que isso pudesse acontecer dentro de 24h. Entretanto, quando as crianças e adolescentes foram submetidas ao mesmo questionamento, 14% dos filhos de pais com arma garantiram que conseguiriam – e 4% dos filhos de pais sem arma.

Dos proprietários de armas de fogo, apenas 34% disseram armazená-la conforme recomendações da American Academy of Pediatrics – ou seja: fechada, descarregada e separada da munição. Crianças que vivem em casas onde há pelo menos uma arma revelaram, em 53% dos casos, que sabiam onde ela ficava guardada – e 45% delas sabiam também onde estava a munição.

“Especialmente considerando que os proprietários de armas pesquisados tinham quase duas vezes mais chances do que os donos de armas de fogo de deixar seus filhos brincar com armas de brinquedo, o armazenamento seguro de armas de fogo em casas onde as crianças brincam é crítico”, avalia Doh.

E se o agressor de Bolsonaro tivesse uma arma de fogo?

Pesquisadores avaliam riscos de uma ampliação no porte de armas em uma eleição polarizada e violenta

Eleições 2018 Jair Bolsonaro
Bolsonaro faz gesto de uma arma com as mãos em foto publicada pelo filho nas redes sociais. FLÁVIO BOLSONARO (AP)

Há seis meses o Brasil espera respostas sobre o crime que provocou o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). A parlamentar foi atingida com quatro tiros na cabeça no dia 14 de março em uma avenida do Rio de Janeiro, durante a intervenção militar que transferiu o controle da segurança do Estado para um general. Também no último mês de março, dois ônibus da caravana do ex-presidente Lula (PT) foram alvejados no Paraná, mas ninguém foi atingido. Cinco meses depois, o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi esfaqueado enquanto cumpria agenda de campanha em Juiz de Fora (Minas Gerais). Os três casos são emblemáticos no atual contexto de grande polarização política no Brasil, que implementou há 15 anos sua política de desarmamento. Em uma sociedade acostumada a resolver seus conflitos mais banais com violência, apontam especialistas em Segurança Pública, os resultados poderiam ser ainda mais graves com a ampliação do porte de armas para a população.

“Esses casos não estão tendo uma punição rápida, então vai criando uma sensação de impunidade. Estamos chegando em um cenário de vale tudo”, analisa o pesquisador Ricardo Moura, do Laboratório de Conflitualidade e Violência da Universidade Estadual do Ceará. Um cenário que, segundo ele, comportaria o ataque protagonizado por Adélio Bispo de Oliveira contra o presidenciável Jair Bolsonaro, o mesmo candidato que defende a liberação do porte de armas como forma de proteção individual e combate à violência. “Pra se manter vivo, Bolsonaro contou, de uma forma muito irônica, com a proibição do porte de armas. Se a gente vivesse em uma situação como a que já ocorreu, de poder comprar arma em loja de departamento, o desfecho desse ataque poderia ser ainda mais brutal”, afirma Moura.

O pesquisador explica que a faca utilizada pelo agressor exige uma aproximação maior e tem um ângulo de ataque restrito ao movimento do próprio braço. Se portasse uma arma de fogo neste momento, acrescenta, a possibilidade de alvejar um órgão letal seria maior. “Se o agressor pudesse andar de forma tranquila com uma arma legalizada, o risco à vida do candidato ficaria sob uma ameaça ainda maior”, declara.

Mas nem Bolsonaro nem seus correligionários concordam com essa premissa. No sábado logo após o atentado, 8 de setembro, o deputado estadual Flávio Bolsonaro publicou no Twitter uma imagem do pai, internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein, fazendo um gesto de arma com as mãos. Em entrevista concedida nas portas do hospital, momentos antes de visitar o pai esfaqueado,  Flávio disse que sua família seguirá defendendo a ampliação do porte de armas para todos os cidadãos. “Quem mata não são as armas, mas as pessoas”, argumentou.

O assunto é polêmico. Uma pesquisa de opinião conduzida diariamente pelo Atlas Político indica que 59,7% dos brasileiros são contra a ampliação da autorização para porte de armas no País enquanto 32,2% são a favor. De um lado, a ampliação do porte de armas tem um certo clamor popular por oferecer uma suposta sensação de segurança ao cidadão. De outro, especialistas analisam que o desarmamento foi uma das políticas de Estado na área de segurança pública mais eficientes para combater os crimes de homicídio no Brasil.

“O porte de armas é um risco alto que não é percebido pela sociedade em geral”, afirma Ignacio Cano, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Segundo ele, a proteção individual do cidadão não é uma alternativa, e a única solução para a insegurança é a melhoria do serviço prestado pelo Estado. “Boa parte das mortes dos policiais no Brasil não ocorrem quando estão em serviço, mas por tentar reagir a um assalto. Imagina como seria isso com o cidadão comum armado”, projeta. Para ele, se o porte de armas para o cidadão comum fosse liberado no Brasil, o atentado contra o presidenciável Jair Bolsonaro poderia ter evoluído para um tiroteio grave. “Uma proliferação de armas ali seria perigosa não só para o candidato, mas para todos”, ressalta.

Flexibilização do estatuto do desarmamento

Pelo menos três dos doze candidatos à Presidência nas eleições deste ano já declararam ser favoráveis a algum tipo de flexibilização do Estatuto do Desarmamento. Jair Bolsonaro defende o porte de arma para o cidadão comum com algumas restrições, como por exemplo um exame psicológico. Álvaro Dias(Podemos) quer reduzir as negações das autorizações pela Polícia Federal, que, para ele, são não se restringem apenas aos critérios estabelecidos em lei. Já o tucano Geraldo Alckmin quer a posse de armas para os proprietários rurais. “Com tantos atentados contra os políticos, fica o questionamento para a sociedade se o Brasil tem condições hoje em ter uma política de controle de armas menos rigorosa. Eu acho que não”, afirma o diretor-executivo do instituto Sou da Paz, Ivan Marques. 

Segundo ele, o País precisa seguir com uma legislação rigorosa em relação ao acesso às armas de fogo e com políticas para o desarmamento. Isso porque a sociedade brasileira já tem a característica de resolver conflitos cotidianos — como uma briga num bar ou no trânsito — com violência. Essa característica alcança também a esfera política, evidenciada neste ano pela polarização eleitoral.  “Nós temos atualmente uma mistura nociva entre o mundo político e a violência. Tornar o controle de armas menos restritivo me parece um erro que só vai aumentar a violência brasileira, que já é enorme. Espero que os últimos atentados mostrem que não devemos ampliar, mas restringir o acesso às armas”, defende.

Influência eleitoral das facções

A violência tem sido protagonista neste ano eleitoral. Por meio da força e do crime, se tenta influenciar os resultados das urnas no dia 7 de outubro. Para além dos atentados contra os candidatos, o pesquisador Ricardo Moura cita a influência das facções criminosas em algumas regiões do Brasil. “No Ceará estão ameaçando eleitores e restringido o acesso de determinados candidatos. Nós temos no Brasil a violência da polarização e temos também o crime organizado se posicionando de uma forma política e tentando interferir na escolha do eleitor”, diz. O desafio do país é conseguir chegar ao dia 7 de outubro com o menor índice de violência possível. “Nos aproximamos de um primeiro turno muito acirrado e indefinido. É importante que a gente esteja atento também para reforçar a segurança nos dias de votação”, finaliza.
ElPais

Brasil: uma Narco República

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Esquerda”]Essas ações pontuais, emergenciais e temporãs das Forças de Segurança Brasileira, contra a violência generalizada, são inócuas.

A Narco Política continuará intocável. Uma casta que já controla, de há muito, e desde o topo, o Estado Brasileiro.

A Narco Política no Brasil é cínica e opera às escâncaras.

Dez Kg de produtos químicos, podem desdobrar 10Kg de Pasta Base em 12 Kg de cocaína pura e 48.000 pedras de crack.

Considerando a quantidade de cocaína consumida e apreendida no Brasil, deduz-se que a quantidade de produtos químicos necessários para refinar toneladas de Pasta Base, não podem ser produzidos no quintal do Zé das Couves, nem transportados em garrafas Pet na cangalha de burros tropeiros.

Aos que acreditam que um Mané nos becos de morros e favelas Brasil afora comando tudo isso, recomendo esse documentário – não é fácil de encontrar, mas procurando ele aparece.

Depois, é só replicar a lógica para a Taba dos Tapuias.

‘Tanque de guerra pessoal’, o novo objeto do desejo dos super-ricos?

 Você teria um tanque de guerra na garagem de casa? 

O novo mimo está sendo vendido por uma empresa dos Estados Unidos a multimilionários. Ele se chama EV2, um blindado de alta velocidade que custa centenas de milhares de dólares.

“Você aperta um botão e as portas se abrem como um Lamborghini. Os bancos são revestidos de couro e acomodam até oito pessoas. Ele também possui câmera de ré e suspensão de última tecnologia”, diz Mike Howe, um dos donos da empresa que fabrica o veículo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

A ideia de criar um “tanque de luxo” partiu dele e de seu irmão gêmeo, Geoff.

Eles argumentam que, graças às esteiras que protegem as rodas, o veículo pode se movimentar em alta velocidade sobre qualquer tipo de terreno, assim como o original militar.

Mas, diferentemente dos tanques de guerra comuns, o blindado de luxo não tem armamentos. Mike e Geoff afirmam que há demanda pelo produto. No entanto, essa é a primeira incursão deles no mercado de luxo.

Segundo os irmãos, a origem da empresa, sediada no Estado americano do Maine, remete à infância deles. “Nós sempre estávamos pensando além”, lembra Geoff.

“Construímos nossa própria cabana de madeira porque outras crianças na rua tinham uma casa na árvore que o pai delas ajudou a construir. Eu e Mike não tínhamos uma figura paterna. Então, tivemos de construi-la por conta própria. Queríamos fazê-la maior e melhor”, acrescenta.

Com o passar do tempo, as cabanas de madeira evoluíram para veículos atípicos.

Quando estavam na universidade, os irmãos Howe transformaram um ônibus em um palco móvel para a sua própria banda de rock.

Em seguida, ficaram obcecados com a ideia de criar um veículo com rastreio de alta velocidade. Depois de anos de trabalho, eles terminaram construindo um pequeno tanque, que batizaram de Ripsaw.

O veículo chamou atenção das Forças Armadas dos EUA, que acabaram encomendando versões tripuladas e não tripuladas para pesquisa e desenvolvimento.

Como resultado do interesse dos militares americanos, os irmãos conseguiram transformar o que era um hobby em um negócio, mas enfrentaram desafios técnicos.

Por exemplo, o fato de que quanto mais rápido um veículo de rastreio se movimenta, maior é a chance dele perder estabilidade. “É como se fosse um pneu saindo de um carro”, explica Mike.

Problemas de engenharia como esses se provaram difíceis de serem solucionados.

Os irmãos foram, então, buscar respostas para além do mundo automobilístico, e aprenderam lições de outros campos, como a tecnologia empregada em motosserras.

Hollywood

Na medida em que ganharam experiência, eles expandiram sua gama de produtos, incluindo sistemas robóticos capazes de desarmar bombas, e a Ripchair, uma cadeira de rodas ‘off-road’ com esteiras.

Hollywood também começou a mostrar interesse pelos irmãos e os veículos começaram a aparecer em grandes produções, como os filmes GI Joe 2 e Mad Max: Estrada da Fúria.

Foi a colaboração com a indústria cinematográfica que levou o negócio a uma nova direção.

Um dia, os irmãos receberam um telefonema de alguém que dizia trabalhar para um multimilionário que havia visto um dos veículos deles no cinema. Ele queria uma versão sob medida do Ripsaw para uso recreativo.

Inicialmente, os irmãos disseram ter ficado surpreendidos com o pedido, mas decidiram materializar a ideia. O resultado foi o EV2.

Mike e Geoff afirmam que lidar com o mercado de luxo representa um novo desafio para eles.

“Há uma curva de aprendizado”, explica Geoff. Uma das maiores dificuldades, segundo eles, é estabelecer linhas de comunicação “claras”.

Geoff diz que raramente fala de forma direta com os compradores finais – por isso, é vital garantir que os desejos deles sejam atendidos, e não dos intermediários.

O alto custo do EV2 representa outro obstáculo. Por causa da grande quantidade de dinheiro em jogo, os irmãos precisam verificar se os clientes potenciais podem bancar os custos do veículo.

Violência no Rio fura maior esquema de segurança da história

Especialistas alertam que o registro de crimes nas áreas das competições é preocupante.

apresentacao-de-tropas-do-exercito-que-atuarao-nos-jogos-olimpicos-rio-2

Matéria publicada nesta quarta-feira (10) pelo jornal alemão Deutsche Welle conta que em apenas cinco dias houve ao menos duas mortes relacionadas a assaltos em áreas estratégicas para os Jogos Olímpicos no Rio: uma durante a cerimônia de abertura, próximo ao Maracanã, e outra na região portuária, perto do Boulevard Olímpico.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Além disso, uma bala perdida atingiu a sala de imprensa do Centro Olímpico de Hipismo, em Deodoro, o ministro da Educação de Portugal foi assaltado em Ipanema e um ônibus oficial da Rio 2016 foi alvo de tiros de baixo calibre quando passava pelo bairro de Curicica, no início da noite desta terça-feira (09/08).

Os incidentes mostram que nem mesmo o maior esquema de segurança da história do país é capaz de conter a violência urbana do Rio. Segundo o governo federal, são pelo menos 88 mil agentes empregados na operação – entre eles 41 mil soldados das Forças Armadas.

Apresentação de tropas do exército que atuarão nos jogos olímpicos Rio 2016
Apresentação de tropas do exército que atuarão nos jogos olímpicos Rio 2016
“É inevitável, esses casos vão acontecer e haverá muito mais até o final da competição. Não há como as forças de segurança impedirem isso, o alcance do policiamento é limitado”, afirma o consultor José Vicente, ex-comandante da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário nacional de Segurança.

De acordo com a reportagem do Welle, especialistas alertam que o registro de crimes nas áreas das competições é preocupante, mas deve ficar abaixo do considerado normal para a cidade. “A presença maciça das Forças Armadas e de policiais deve diminuir as ocorrências, mas não impede que delitos ocorram nas áreas mais vigiadas”, afirma o antropólogo e analista de segurança pública Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais do Rio (Bope).

Falhas nos preparativos

Os especialistas consideram que o registro de crimes não significa necessariamente uma falha no esquema de segurança e está relacionado sobretudo com problemas estruturais. “Da forma como a violência está no estado do Rio, não adianta colocar mais e mais policiais na rua. Faltou prevenção”, diz o professor de sociologia Dorian Borges, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Nos últimos anos, os indicadores de violência dispararam no estado. Em junho, os roubos a pedestres subiram mais de 80% em relação ao mesmo mês de 2015. No período, os homicídios dolosos (com intenção de matar) aumentaram cerca de 38%, segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP). “O Rio passa por um momento crítico, os índices de violência cresceram às vésperas dos Jogos Olímpicos, quando deveriam estar caindo”, afirma Vicente.

Para Storani, o Rio viveu o seu melhor momento em termos de indicadores de violência, principalmente em redução de homicídios e latrocínios, há três anos. “Houve falha nos preparativos para os Jogos Olímpicos, já que isso deveria ter sido continuado”, diz.

Falta de investimentos

Os especialistas criticam a falta de investimentos no setor e a escassez de efetivo policial. Em junho, o Rio decretou estado de calamidade pública e deixou de pagar o salário de servidores, incluindo policiais.

Para Storani, houve também um esgotamento do modelo das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), que teria se expandido para além das possibilidades do Estado. “Não era sustentável. Todo efetivo que era formado era destinado para as UPPs, e os batalhões que cuidam da área urbana ficaram sem efetivo para o policiamento ostensivo”, diz.

Ele critica também a falta de investimentos sociais nas áreas ocupadas pela polícia. “Teve um resultado positivo no primeiro momento, mas depois deixou de surtir efeito, porque os criminosos retornaram e começaram a promover ataques aos policiais que permaneceram.”

Coordenação e treinamento

Na opinião de Vicente, a organização de longo prazo da segurança dos Jogos deixou muito a desejar. Ele lembra que o Rio recebeu uma série de grandes eventos internacionais, como os Jogos Pan-Americanos, os Jogos Mundiais Militares, a Rio+20, a Copa das Confederações, a Jornada Mundial da Juventude e a Copa do Mundo, e as autoridades poderiam ter aproveitado essas oportunidades para treinar policiais e integrar os órgãos de segurança.

“Um ano antes de um evento como esse, todos os protocolos e agências da polícia civil, militar e federal deveriam estar coordenados. Precisava ter um banco de dados único, um sistema de inteligência compartilhado com as Forças Armadas”, afirma. “Um mês antes, eles ainda não conversavam entre si. O planejamento final da segurança foi feito em junho”, diz.

Vicente defende que o país deveria ter investido em inteligência e em sistemas de segurança, como softwares de controle e monitoramento do crime e do trabalho policial. “Nada disso aconteceu. E, nos últimos três anos, fizemos uma formação ruim e atropelada de policiais”, afirma.

Borges acrescenta que seria necessário implementar políticas preventivas, de desarmamento e de policiamento estratégico. “Não adianta só ter uma presença ostensiva, o policiamento tem que ser orientado por informações e ser eficiente. A atuação tem sido só repressiva.”

NYT’ destaca ameaça de terrorismo na Rio 2016

Reportagem também fala da criminalidade em ascensão na cidade The New York Times afirma que homens presos no Brasil por suposta combinação de ameça terrorista tem perfis semelhantes aos que cometeram massacres em Nice e Munique

O jornal norte-americano The New York Times traz na edição desta quinta-feira (4) uma matéria sobre a Olimpíada Rio 2016, que começa nesta sexta (5).

O editorial analisa que os líderes locais e a sociedade brasileira estão mal preparados para uma ameaça de ataque terrorista como aqueles em Munique, em 1972, e Atlanta, em 1996.

Eles não têm experiência com o problema e não têm recursos humanos e financeiros suficientes. Além disso, a estrutura da segurança pública no país é fraca.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A cooperação internacional está ajudando, mas o Brasil deve enfrentar o desafio e melhorar as suas instituições no futuro.

O texto do New York Times lembra que no dia 21 de julho a Polícia Federal prendeu 12 suspeitos sob a acusação de tentativa de estabelecer conexões com o Estado islâmico. As prisões foram realizadas sob uma nova lei antiterrorismo que entrou em vigor este ano. Os suspeitos, que se chamavam “Defensores da Shariah”, têm sido ridicularizados na mídia social por falta de armas militares ou de formação, e por nem sequer saber um do outro, além da utilização de serviços de mensagens móveis como WhatsApp e Telegram. Mas homens com perfis semelhantes cometeram massacres em Nice e Munique.

> > The New York Times No Game: The Olympics, Rio and Terror

The New York Times afirma que homens presos no Brasil por suposta combinação de ameça terrorista tem perfis semelhantes aos que cometeram massacres em Nice e Munique

Há uma razão histórica que torna difícil até mesmo discutir a questão do terrorismo no Brasil. Entre os anos 1964 e 1985 a ditadura usou a palavra “terroristas” para classificar grupos pacíficos que se opunham a ele. Desde então, sob o regime democrático, a liderança política tem evitado usar esta palavra.

Os grupos fundamentalistas, como a Al Qaeda ou o Estado islâmico, estão longe de ser a realidade dos brasileiros, que há mais de um século convivem com uma grande comunidade árabe – de sete a dez milhões, incluindo o presidente interino, Michel Temer, um filho de imigrantes libaneses – próspera e bem integrada, comenta o The New York Times.

Os brasileiros estão lidando não só com a inexperiência das autoridades com o terrorismo, mas também com a falta de recursos de segurança. O Rio de Janeiro está passando por um colapso financeiro; bombeiros, médicos, policiais e professores ficam sem receber seus salários. Às vezes, não há dinheiro para suprimentos básicos, como a gasolina para carros da polícia.

O New York Times acrescenta que a atual crise política, incluindo o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, e a pior recessão econômica em 25 anos fez com que um maioria da população se colocasse contra ou indiferente aos Jogos Olímpicos – apenas 40 por cento dos brasileiros acreditam que tal evento seja bom para o país.

O governo está focado no risco de lobos solitários, inspirado por grupos fundamentalistas, que pode se direcionar a delegações estrangeiras. Apesar da forte cooperação internacional, a polícia brasileira e os serviços de inteligência não têm agentes e especialistas com experiência sobre o modus operandi do Estado Islâmico, diz o The New York Times.

Há também uma preocupação com a taxa de homicídios em ascensão no Rio de Janeiro. O governo informou 2.100 assassinatos de janeiro a maio deste ano, um aumento de 13 por cento sobre o mesmo período em 2015. A cidade é dominada pelo crime, com a circulação descontrolada de armas automáticas e policiais despreparados.

A Força Nacional, que é encarregado de proteger instalações desportivas durante os Jogos Olímpicos, está sendo coagida pelos grupos paramilitares em áreas pobres, restringindo os movimentos dos oficiais e estabelecendo regras para o seu comportamento – por exemplo, proibindo-os de ir a bares nestes comunidades.

Para a maioria dos brasileiros, crime todos os dias é uma ameaça muito mais iminente do que o terrorismo. Mas isso não faz a ameaça do terrorismo menos perigoso ou real, finaliza o The New York Times.
JB

No Rio, a violência se retroalimenta

Policiais são caçados da mesma forma que caçam criminosos em operações nas favelas, num ciclo vicioso de violência. Situação da segurança pública na cidade olímpica é de falência, e quem paga o preço é a sociedade.

ONG faz protesto em memória de policiais mortos em ação no Rio: somente neste ano, 62 foram assassinados na cidadeONG faz protesto em memória de policiais mortos em ação no Rio: somente neste ano, 62 foram assassinados.

A praticamente duas semanas do início dos Jogos Olímpicos, a situação da segurança pública no Rio de Janeiro é de total falência, segundo ONGs, especialistas e os próprios policiais, com uma verdadeira guerra instaurada entre PMs e traficantes.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A violência, na verdade, se retroalimenta: somente neste ano, 62 policiais foram assassinados e 260 foram feridos por armas de fogo – pelo menos um por dia – de acordo com números do deputado estadual Paulo Ramos (PSOL), que preside a CPI da Morte de Policiais na Assembleia Legislativa do Estado (Alerj).

Policiais passaram a ser caçados da mesma forma que caçam criminosos em operações nas favelas. E ambos os lados atiram para matar. No início do mês, um relatório sobre violência policial publicado pela ONG Human Rights Watch mostrou que, no ano passado, pelo menos 645 pessoas foram mortas pela polícia em situações questionáveis.

“A política de segurança pública se baseia na eliminação do inimigo, sempre foi assim”, resume Paulo Ramos. “Agora, os policiais, especialmente os militares, estão pagando um preço muito alto por essa política porque, neste momento, a política é de extermínio de ambos os lados, e eles estão sendo caçados. É uma falência total da segurança pública que precisa ser assumida pelo estado.”

Protesto de policiais e bombeiros no aeroporto internacional do Rio: situação da segurança pública na cidade é de falênciaProtesto de policiais e bombeiros no aeroporto internacional do Rio: situação da segurança pública na cidade é de falência

O historiador Marcos Bretas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em história da polícia, concorda com o deputado.

“Na relação da polícia com a criminalidade, um lado faz a violência do outro escalar. Se enfrento um inimigo terrível, tenho que ser terrível também, essa é a lógica. O lado perverso é que, a partir dos anos 80, os criminosos passaram a ter acesso a armas que não são de crime urbano, a armamento de combate, fuzil, granada”, afirma Bretas.

“E quando tem que enfrentar um criminoso assim, a polícia também quer armas iguais – que obviamente não são armas de controle urbano. Se você entra numa favela com um fuzil, o tiro vai atravessar a parede, vai ter bala perdida. Isso não aumenta a eficácia da polícia, mas sim o seu poder destrutivo.”

“É um trunfo matar policial”

De acordo com a Human Rights Watch, muitas das mortes atribuídas a policiais em confronto são, na verdade, assassinatos extrajudiciais. “A polícia atira em pessoas desarmadas, atira pelas costas em fugitivos e executa indivíduos que já estão imobilizados com tiros na cabeça”, indica o relatório.

Ainda de acordo com o documento, a polícia paga um preço alto por essas execuções. Os assassinatos alimentam um ciclo de violência que coloca em risco a vida dos policiais que trabalham em áreas com altos índices de violência, compromete sua capacidade de trabalho, pondo em risco a sociedade como um todo. Se o suspeito sabe que a forma de atuação da polícia é matar, ele nunca vai se render, sua primeira reação será atirar.

As maiores vítimas são os policiais que não estão em serviço, que são mais vulneráveis. Um em cada seis mortos no crime de latrocínio (roubo seguido de morte) é policial. Num universo de 48 mil PMs, 9 mil policiais civis e 16 milhões de habitantes no estado, dá para afirmar sem medo de errar que eles são alvos.

“Hoje, os bandidos caçam policiais, é um trunfo matar um policial; é uma sentença de morte para um policial se a sua identidade for revelada”, afirma o presidente da Coligação da Polícia Civil, Fábio Neira. “Há 30 anos, quando entrei na polícia, era muito diferente: eles poupavam a vida do policial”.

Neira não concorda, no entanto, que a violência seja uma resposta às ações violentas da própria polícia. Para ele, o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), ao ser bem sucedido num primeiro momento, fez com que muitos criminosos deixassem de traficar drogas e fossem cometer outros crimes longe das favelas, onde acabaram tendo que enfrentar policiais.

Para especialistas, armas utilizadas pela polícia são erradas: não aumentam a eficácia, mas sim o seu poder destrutivoPara especialistas, armas utilizadas pela polícia são erradas: não aumentam a eficácia, mas sim o seu poder destrutivo

Fracasso das UPPs

O fracasso das UPPs, por sua vez, acabou conflagrando a situação nas comunidades e expondo ainda mais os policiais. Na análise do policial, as UPPs não atingiram sua meta original, em primeiro lugar, porque não deram segmento ao projeto, com a ocupação social das comunidades. Por outro lado, diz, o efetivo de policiais civis foi muito reduzido e decidiu-se pelo investimento prioritário no policiamento ostensivo, em vez de na investigação.

“De acordo com uma lei de reestruturação dos quadros da polícia civil em vigor desde 2001, era para termos hoje 22 mil homens”, diz. “Não temos nem dez mil. E são quase 50 mil PMs. É desproporcional isso. É muita ocupação, prevenção e nada de investigação. E não é só o efetivo, estamos sucateados. Não temos verba para combustível, papel higiênico, para nada”, acrescenta o policial.

Os especialistas concordam que as áreas mais centrais dos Jogos Olímpicos estarão seguras por conta do policiamento extra de militares e da segurança nacional. Mas eles temem pelo que pode acontecer em outras regiões. “Hoje, na situação em que nos encontramos, não conseguimos atender às demandas da sociedade. Como vamos dar conta de qualquer demanda extraordinária?”
DW

Brasil: Falência do sistema prisional – A guerra entre a Constituição e a população

Cleptocracia,Brasil,Política,Blog do Mesquita,CorrupçãoColunista volta a apontar a “kleptocracia” com raiz de muitos males, no Brasil e fora dele.
“Pelo nível de fúria das populações, cabe prognosticar ventos prósperos ao populismo radical no mundo todo.
O sonho de uma selva civilizada, lamentavelmente, foi adiado novamente”

Por Luiz Flávio Gomes

Esse é o conflito que a Súmula Vinculante (SV) 56 do Supremo Tribunal Federal (STF) enfrentou. Ela foi editada em 29 de junho de 2016 e é de cumprimento obrigatório por todos, incluindo os juízes. Decidiu o STF: “Não havendo vaga [por culpa, evidentemente, do Estado], o preso não pode ficar no regime prisional mais severo, devendo ir para situação menos gravosa”.

Detalhe: não se faz a progressão per saltum (Súmula 491, do Superior Tribunal de Justiça). O preso vai, na prática, para uma situação melhor, mas juridicamente continua no regime fixado na sentença. Quando surgir vaga, volta a cumprir pena no estabelecimento correspondente. Se cumprir todo tempo, julga-se extinta a pena.

Por que o STF fez isso? Porque a falência dos serviços públicos é nítida e indiscutível (veja o caso do Rio de Janeiro, por exemplo). O sistema prisional entrou em colapso. Por culpa do Estado (cujas receitas são roubadas diariamente, sobretudo pelas elites políticas e empresarias), quem deveria permanecer encarcerado, agora será favorecido (vai para situação mais branda, podendo ser a rua).

O Estado não cumpre seu papel porque o dinheiro se tornou escasso. A kleptocracia (governos e empresários ladrões – com “k”, é neologismo) desvia o que pode (veja a Lava Jato) e está pouco se lixando para a população, que está enfurecida. A indignação aumenta a cada dia, porque incrementa a sensação de abandono.

Tudo era para funcionar equilibradamente na selva (no “estado de natureza” de Hobbes). A cada habitante da área caberia direitos, deveres e responsabilidades. Mas as raposas kleptocratas abocanham quase tudo de todos. Definhou o Estado, prejudicando seriamente o povo (de cuja soberania emanaria todo poder).

Soberanos, na verdade, na selva, são as elites e as oligarquias políticas e empresariais (os leões e as raposas). Mandam em tudo e em todos. É o poder do dinheiro. Ciência, tecnologia e dinheiro é a santíssima trindade secular (Eduardo Giannetti). O dinheiro “compra” inclusive a democracia (financiando as campanhas eleitorais), que deixou de servir o povo para satisfazer a ganância dos leões e das raposas.

A instrumentalização da democracia é uma das manifestações do “estado de natureza” de Hobbes (situação de guerra de todos contra todos, que conduz ao salve-se quem puder, porque a lei imanente da selva é a do mais forte). O mais forte “compra” as leis que lhe interessa e ainda faz com que o Estado não cumpra suas obrigações (daí o colapso nos serviços públicos).

As leis encomendadas pelos donos do poder são “democráticas” porque aprovadas pelos “representantes do povo” (que, na verdade, não representam o povo coisa nenhuma). O sistema jurídico projetado em 1988 para pôr ordem na selva está se desmoronando.

A lei fala em regimes prisionais (fechado, semiaberto e aberto). O que está programado na norma, no entanto, não bate com a realidade. Descompasso. O Estado projetado (criatura espiritual) opõe-se ou não tem aderência à “essência íntima do empírico” (Holanda). Discracia. O regime jurídico elaborado para trazer paz e tranquilidade para a selva (civilizando-a) não corresponde à realidade complexa e dinâmica. Daí o conflito (entre o que está na Constituição, na lei e a vontade popular).

Para complicar mais ainda: a vontade popular, no campo punitivo, vem revestida de uma forte ideologia punitivista (populismo penal e midiático), que busca ignorar por completo o liberalismo político (desenhado nos séculos XVII e XVIII). O populismo é contra tudo que ameaça a harmonia e a integridade da comunidade do povo. Sua cultura é coletiva, não individualista. É pós-iluminista. Os direitos individuais devem sucumbir diante do valor maior da paz coletiva, da saúde do organismo nacional.

A Constituição (que foi feita para reger todas as relações da selva, leia-se, do “estado de natureza”, elevando-o para a civilização) contempla precisamente os direitos liberais esgrimidos por Stuart Mill e tantos outros e conquistados pela burguesia francesa (em 1789), quando derrubou a monarquia absolutista que nada respeitava. Esses leões e raposas tiram agora, da população (veja a Lava Jato), o que os reis lhe tiravam até o século XVIII (a oportunidade de prosperar).

A relação entre o populismo midiático oclocrata e a Constituição é, por conseguinte, de muita tensão. Que se agrava nos momentos de crise, quando o povo está mais irado (porque se sente desprotegido e enganado diante das promessas de que teria uma selva ordenada e cheia de oportunidades).

Às vezes o STF, mesmo contrariando a Constituição, atende aos reclamos populistas (por exemplo, no caso do cumprimento da pena imediatamente após o julgamento de segundo grau). Outra vezes ele se atém à literalidade da Carta Magna ou das leis (como no caso da SV 56).

Aí as faíscas pululam. As crispações se agudizam. As aporias eclodem. O povo se sente impotente e desprezado. Se conforma, mas com o grito na garganta. Nem o leão e a raposa da selva (as elites políticas e econômicas que comandam o país) conseguem domar as decisões finais vinculantes da Corte Máxima. Eles tentam interferir no julgamento (quando podem – vejam o áudio do Sérgio Machado). Mas respeitam ou toleram o resultado. O jogo prossegue. Para eles, não está nada desfavorável.

Onde deságuam as frustrações do povo com a Constituição, com o STF e demais juízes, com a política, com os políticos, com os empresários corruptos, com a kleptocracia, com a democracia incompleta, com os partidos saqueadores etc? Nas teses do populismo radical fundamentalista, que usa com habilidade a demagógica retórica sedutora dos xamãs (ver V. Lapuente, El retorno de los chamanes).

Indo à raiz dos problemas coletivos nunca resolvidos, eletrizando o povo com sua verborragia, prometendo soluções rápidas e sempre identificando um “bode expiatório”, que será alvo de todas as iras e frustrações da população, consegue-se facilmente o seu voto.

Pelo nível de fúria das populações, cabe prognosticar ventos prósperos ao populismo radical no mundo todo (não só no Brexit, no caso Trump etc). O sonho de uma selva civilizada, lamentavelmente, foi adiado novamente.

Uma atleta baleada na cabeça e outras histórias do ‘inferno’ da insegurança no Rio às vésperas dos Jogos

Aos 27 anos, Anna Paula Cotta sonha em ser uma atleta olímpica, mas, para os Jogos do Rio, na sua cidade natal, ela tem um desafio maior: recuperar-se do tiro que levou na cabela durante um assalto.

Anna Paula CottaAtleta de tiro esportivo, Anna Paula Cotta levou um tiro na cabeça durante um assalto

“É uma coisa meio pesada pela qual muita gente passa. Você vê na televisão todos os dias… Todos os dias, alguém morre”, diz Cotta, que pratica tiro esportivo, em voz baixa.

“Mas, graças a Deus, estou aqui”, acrescenta ela durante uma entrevista concedida à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, na intimidade de sua casa, a primeira depois de se tornar mais uma vítima da violência carioca, há menos de um mês.

O crime ocorreu em 9 de junho em plena avenida Martin Luther King, uma importante artéria viária da Zona Norte do Rio, a menos de 500 metros da delegacia de polícia do bairro de Inhaúma.

Por volta das 5h00 da manhã, Cotta estava dirigindo sozinha em um pequeno carro amarelo para ajudar na empresa de transportes de seu pai, que, aos 63 anos, luta contra um câncer.

Ressonância magnética do crânio de Anna Paula Cotta
Ressonância magnética mostra o dano causado pela bala no crânio de Cotta

Logo, ela se deparou com um grupo de assaltantes armados que haviam parado o trânsito para roubar dinheiro e celulares de motoristas, uma prática frequente na cidade. Ela tentou passar. Os ladrões abriram fogo.

Seu automóvel foi alvejado seis vezes. Um dos tiros atingiu o osso frontal de seu crânio. O carro seguiu em frente por vários metros até bater contra um muro.

Cotta ficou ali, imóvel, sangrando e indefesa.

‘Bem-vindos ao inferno’

Falta praticamente um mês para o começo dos Jogos Olímpicos Rio 2016, e os índices de criminalidade sobem de forma alarmante no Estado anfitrião do evento.

Só em maio, foram denunciados 9.968 roubos nas ruas, 42,9% acima do mesmo mês do ano anterior, indica o Instituto de Segurança Pública (ISP), vinculado ao governo fluminense.

Houve 2.083 homicídios dolosos no Estado do Rio entre janeiro e maio, um aumento de 13,6% em relação ao mesmo período de 2015.

Protesto no Rio
‘Bem-vindos ao inferno’, dizia a faixa em protesto contra o atraso de salários de policiais e bombeiros do Rio – Image copyright AP

Quebrado financeiramente, o governo do Rio decretou em junho “estado de calamidade pública”, para receber R$ 2,9 bilhões do governo federal, destinados à area de segurança, o que inclui o pagamento de salários atrasados de policiais.

“Bem-vindos ao inferno”, dizia em inglês uma faixa que, nesta segunda-feira, voltou a ser exibida por um grupo de policiais no aeroporto internacional do Rio para protestar contra o atraso dos salários. “Policiais e bombeiros não estão sendo pagos, quem vier ao Rio de Janeiro não estará seguro.”

O ato foi idêntico ao realizado uma semana antes, e, apesar de bastante criticado por empresários de turismo, está evidente a deterioração da segurança para quem vive na cidade ou acompanha as notícias locais.

Só na última semana de junho, morreu baleado em um assalto um policial que integrava a equipe de segurança do prefeito do Rio, Eduardo Paes, e um cadáver mutilado apareceu nas areias de Copacabana, onde serão realizadas as disputas de vôlei de praia.

Além disso, uma médica que dirigia pela Linha Vermelha, na Zona Norte da cidade foi assassinada com um tiro na cabeça. A polícia investiga se foi uma execução ou um assalto com um desfecho mais triste que o de Cotta.

Boa pontaria

Anna Paula CottaAlém de atleta, Cotta é psicóloga da Marinha e cursa um mestrado em Administração de Empresas

“Sempre quis competir nos Jogos. Tentei em várias modalidades, e nunca fui boa em nada”, diz a atleta, que tem olhos negros e um sorriso generoso.

Mas, um dia, ela descobriu o tiro esportivo. Assistia às transmissões de Olimpíadas pela TV junto com sua mãe quando “apareceu um senhor de idade gordinho atirando”. “Isso! Encontrei”, lembra-se de ter dito na ocasião.

Até aquele momento, as armas nunca haviam despertado seu interesse. Quando passou a praticar o esporte, em 2010, começou com uma pistola de ar comprimido, porque achava que seria menos perigosa do que uma de fogo.

Quase imediatamente, notou que tinha boa pontaria. Subiu no ranking, entrou para a Confederação Brasileira de Tiro Esportivo e, em maio, participou da Copa do Mundo, na Alemanha.

Queria se classificar para os Jogos, mas não conseguiu. Acredita que faltou tempo: com algumas competições e pontos a mais somados no ranking, talvez tivesse obtido a classificação.

Tempo sempre foi algo que faltou no dia a dia de Cotta: além de ser atleta e ajudar o pai, é psicóloga da Marinha e cursa um mestrado em Administração de Empresas.

Sua mãe, Jussara, uma aposentada de 64 anos, lembra que, na noite de 8 de junho, Cotta disse estar cansada e a surpreendeu com perguntas de teor filosófico:

“Para que nascemos? Para que estudamos tanto? Para que trabalhamos?”

“Você nasceu para fazer coisas boas”, respondeu sua mãe.

Seis horas despois, a jovem levou um tiro.

Resgate de cinema e ‘pacificação’ em xeque

Alguns acontecimentos recentes no Rio ligados à violência tiveram aspectos cinematográficos.

Em 19 de junho, um domingo, cerca de 20 homens armados resgataram um narcotraficante internado em um hospital sob custódia policial, matando uma pessoa e deixando outras duas feridas.

O hospital, localizado no Centro do Rio, é uma das unidades de referência para os 700 mil turistas esperados na cidade durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

As mortes pelas mãos de policiais também têm aumentado neste ano: apenas em maio, foram 84 em todo o Estado, 90,9% acima do mesmo mês do ano passado, segundo dados do ISP, que inquietam defensores de direitos humanos. Por sua vez, seis policiais morreram em serviço naquele mês, um a mais tendo como base a mesma comparação.

Nos últimos dias, a polícia realizou uma série de operações para capturar criminosos em favelas da cidade, gerando cenas de pânico.

Policiais em favela
A polícia tem realizado operações em favelas do Rio para combater a presença de criminosos – Image copyright AP

No Complexo da Maré, conjunto de favelas localizado entre o aeroporto internacional e o Centro do Rio, um tiroteio entre policiais e traficantes obrigou 150 alunos e profissionais de uma ONG a se jogar ao chão das salas de aulas e a permanecerem assim por três horas para se protegerem na última quarta-feira.

As quadrilhas armadas e os enfrentamentos a tiros voltaram a ser registrados em várias favelas do Rio que haviam recebido unidades policiais em anos recentes. Segundo especialistas, a outrora aplaudida política de “pacificação” da cidade agora está em xeque.

As autoridades atribuem tudo isso à crise financeira do Estado, mas afirmam que a segurança melhorará com o dinheiro enviado pelo governo federal e com as dezenas de milhares de policiais e militares que chegarão ao Rio para os Jogos.

O Comitê Rio 2016 destaca que o Brasil tem uma “grande experiência com segurança de megaeventos”. No entanto, no Rio, já ocorreram alguns crimes relacionados com a Olimpíada.

A atleta paralímpica australiana Liesl Tesch denunciou ter sido roubada a mão armada no dia 19, quando estava com seu fisioterapeuta na turística Zona Sul da cidade. Em maio, três membros da equipe espanhola de vela passaram pelo mesmo.

Na semana passada, um caminhão que levava para o Parque Olímpico equipamentos de duas emissoras de TV alemãs, avaliados em mais de US$ 400 mil (R$ 1,31 bilhão), foi sequestrado e roubado por um grupo de assaltantes. A carga apareceu depois em um galpão abandonado na região metropolitana no Rio.

Mas, para muitos na cidade, a pergunta não é tanto sobre o que acontecerá durante a maior festa do esporte mundial, mas sobre o “depois”, quando a atenção do mundo não estiver mais voltada para o Rio.

Recuperação e esperança

O assalto em junho foi a segunda vez que o carro de Cotta foi baleado durante uma tentativa de roubo.

A primeira foi há alguns anos, quando dirigia acompanhada por seu irmão, Marco, um engenheiro naval de 31 anos. Ele assumiu o volante e jogou o automóvel para cima do assaltante enquanto ela acelerava. Os dois saíram ilesos, ainda que três balas tenham atingido a carroceria.

Talvez Cotta tenha tentado repetir a manobra, desta vez sozinha, e não tenha conseguido. Até agora, tem evitado contar o que aconteceu exatamente, inclusive para familiares. “Sobre o tiro, não tenho nada a dizer”, diz à BBC Mundo. “Lembro de algumas coisas, mas não falo disso.”

Sua mãe acredita que ela virou a cabeça justamente enquanto disparavam, e, assim, a bala, que perdeu força ao atingir o carro, fraturou seu crânio sem penetrá-lo.

Ela foi socorrida pelos outros motoristas que haviam acabado de ser assaltados pela mesma gangue. No hospital, foi operada em estado grave.

Cotta ficou em coma induzido, em uma unidade de tratamento intensivo, até começar a dar sinais de melhora. Seguiu internada por mais uma dezena de dias e recebeu alta.

Sua mãe repete aliviada que ela não terá sequelas, segundo os médicos, e nem sequer ficarão marcas visíveis do tiro, graças a uma cirurgia plástica.

Anna Paula CottaCotta quer recuperar-se e seguir treinando até se classificar para os Jogos Olímpicos

Também comenta que estão pensando em comprar um carro blindado para sua filha e processar o Estado do Rio pelo que ocorreu: “A polícia não está fazendo nada”.

Na delagacia de Inhaúma, ao lado de onde se deu o crime, um policial se esforça para se lembrar do episódio ao ser abordado pela reportagem.

Mas um oficial garante que o chefe está nas ruas, fazendo diligências sobre o caso. “Talvez consiga capturar alguém e haja novidades amanhã”, diz o inspetor Nelson.

Nos últimos dias, Cotta tem sofrido com dores de cabeça. Acredita que se devem aos pontos debaixo das ataduras. Também sente enjôos. Na casa de seus pais, só recebe visitas de seu namorado, familiares e amigas íntimas.

Espera voltar gradualmente às suas atividades e mantém o sonho de competir em uma Olimpíada. “Algum dia, chegarei lá”, diz. Mas, para os Jogos do Rio, não comprou nem ingressos para acompanhar tudo como espectadora, embora talvez ainda o faça.

“A cidade é perigosa, mas me acostumei. Quem sabe não consigo viver fora daqui no futuro”, reflete. “No entanto, esta é minha vida agora.”
Gerardo Lissardy/BBC