Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog doMesquita 11

Naomi Ayala – Breve – Poesia

Breve
Naomi Ayala

Aqui a fome morre –
no canto, atrás das redes,
– Como se a morte fosse rápida,
rápida como uma bala.

Aqui morre a esperança, morre –
debaixo da árvore em janeiro,
na sua bolsa de gelo,
nas ruas agredidas,
engolindo sons de sirenes –

malditas ambulâncias

– Nos becos escondidos,
nas casas sem saídas,
na pestilência dos edifícios.

A esperança morre
como uma criança morre
– como morrem
todas as crianças

Morrem como o teto perfurado sobre a cama
no ciclone de tiroteios.

Eles morrem como a raiva –
como se a morte fosse breve,

breve como a vida,
breve como um sonho,

ou uma bala, sim.

Gravura de Masha Shishova

Literatura,Ilustração,Fotografia,Blog do Mesquita

Baudelaire – Poesia

Prelúdio da Vaidade
Baudelaire

Maldade que encaminha a vaidade…
Vaidade, que me toma como vencido…
Vencido quero ver-me arrependido…

Arrependido a tanta tolice…
Arrependido estou de coração…

Do seu coração busco sua luz…
Para entender do que há tanta tolice…

Poesia,BlogdoMesquita 02

Eugênio de Andrade – …em lugar de sol, nevoeiro dentro de si

Ver Claro
Eugênio de Andrade

Toda a poesia é luminosa,
até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

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Paul Éluard – A noite

A noite
Paul Eluard

Teu olhar faz a volta do meu coração,
Uma roda de dança e de doçura,
Auréola do tempo, berço noturno e seguro,
E se não sei mais o que tenho vivido
É porque teus olhos nem sempre me enxergaram.

Folhas do dia e musgo do rocio,
Caniços do vento, sorrisos perfumados,
Asas que cobrem o mundo de luz,
Barcos carregados de céu e mar,
Caçadores de ruídos e fontes de cores.

Aromas nascidos de uma ninhada de auroras
Que sempre jaz sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos puros
E o meu sangue todo flui nos olhares deles.

Filosofia,Literatura,Blog do Mesquita 004

Lope de Vega – Letra para cantar

Letra para cantar
Lope de Vega

Não serem, Lucinda, estrelas
as tuas pupilas belas,
bem pode ser;
mas que em sua claridade
não haja alguma deidade,
não pode ser.

Que a boca celestial
não seja o próprio coral,
bem pode ser;
mas que não exceda a rosa
em ser vermelha e cheirosa,
não pode ser.

Que não seja o branco peito
de cristais ou neve feito,
bem pode ser;
mas que não vença em brancura
os cristais e a neve pura,
não pode ser.

Que não seja um anjo, o colo
da Fênix, o próprio Apolo,
bem pode ser;
porém que de anjo não tenha
o que com anjo convenha,
não pode ser.

Não teres flores nas veias
nem de lírios as mãos cheias,
bem pode ser;
mas que nelas não se vejam
quantas graças se desejam,
não pode ser.

Mark Strand – A história toda – Poesia

A história toda
Mark Strand


Como isso foi ter acontecido desse jeito
Eu não estou certo, mas você
Está sentado perto de mim,
Pensando em suas próprias coisas
Quando de repente eu vejo
Chamas pela janela.

Eu te cutuquei e disse,
“Aquilo é um incêndio. E além disso,
Nós não podemos fazer nada a respeito,
Porque nós estamos nesse trem, entende?
Você me dirigiu um olhar esquisito
Como se eu tivesse falado demais.

Mas é que você não sabe que eu possa
ter uma paixão por incêndios,
E viajo de trem para ficar
Livre de ter que cria-los.
É possível que os trens
Possam acender o amor pelo fogo.

Eu poderia até suspeitar
Que você é um bombeiro
Disfarçado. E, novamente,
Eu poderia estar enganado. Talvez
Você seja aquele
Que ame um bom fogo. Quem sabe?

Talvez você esteja em outro lugar,
Decidindo que sem um lugar
Para ir você não devesse
Pegar um trem. E eu,
Olhando para minha própria face na janela
Talvez tenha mentido a respeito das chamas.

Sá Miranda – Comigo me desavim

Comigo me desavim
Sá Miranda

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meu espero ou que fim
Do vã trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho inimigo de mim?

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Eugênio de Andrade – Procuro-te

Procuro-te
Eugênio de Andrade

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Pintura de Paul Klee, 1932

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Cecília Meireles – Atitude – Poesia

Atitude
Cecília Meireles

Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

Andrew Wyeth – Têmpera s/t