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Maduro reprime protesto da oposição na Venezuela

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Polícia reprime protesto e impede apoiadores de Guaidó de montar palanque

Manifestação convocada pelo líder opositor, Juan Guaidó, foi dispersa com gás lacrimogêneo pela polícia em Caracas. União Europeia poderá endurecer sanções contra Nicolás Maduro, diz ministro alemão.

A polícia venezuelana utilizou gás lacrimogêneo para dispersar uma manifestação convocada para este sábado (09/03), em Caracas, pelo líder da oposição e autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó.

Os manifestantes recuaram, mas optaram por permanecer nas imediações do local marcado para a realização da concentração, na Avenida Victoria.

Anteriormente, a equipe de Guaidó havia denunciado que não tiveram permissão para instalar um palanque na área, e que três pessoas que transportavam as estruturas foram detidas e o material confiscado.

Guaidó reagiu no Twitter afirmando que o governo de Nicolás Maduro terá “uma surpresa”, já que os opositores continuarão na rua.

“Pretendem gerar desgaste, mas já não têm como conter um povo que está decidido a acabar com a usurpação. E hoje o vamos demonstrar nas ruas”, acrescentou o opositor no Twitter.

A manifestação, convocada em todo o país, faz parte da pressão cada vez maior para forçar Maduro a deixar o poder, que ocupa desde 2013. Além disso, ela acontece depois de um apagão que deixou a maioria dos venezuelanos sem luz.

A eletricidade foi restabelecida na madrugada deste sábado em algumas zonas de Caracas, porém, alguns bairros da capital venezuelana e mais de metade do país continuam sem energia há mais de 40 horas.

Maduro também convocou para este sábado uma concentração na capital venezuelana. Vários apoiadores do presidente em exercício ocuparam as ruas de Caracas, vestidos de vermelho, cor associada à revolução.

A crise política na Venezuela agravou-se em 23 de janeiro, quando o opositor e presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se autoproclamou presidente interino e declarou que assumiria os poderes executivos de Nicolás Maduro.

Guaidó contou de imediato com o apoio dos Estados Unidos, prometeu formar um governo de transição e organizar eleições livres. Cerca de 50 países, incluindo o Brasil e a maioria dos países da União Europeia reconheceram Guaidó como presidente interino encarregado de organizar eleições livres e transparentes.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, afirmou neste sábado que a União Europeia (UE) está disposta, caso necessário, a endurecer as sanções contra o governo de Nicolás Maduro.

“Na União Europeia estamos dispostos a impor sanções adicionais se for necessário”, disse o ministro em entrevista ao jornal berlinense Tagesspiegel.

Maas acrescentou que “é importante que a pressão internacional se mantenha elevada” e afirmou que a UE não participará da tática dilatória usada por Maduro. O apoio da UE ao líder da Assembleia Nacional venezuelana, Juan Guaidó, é “irrefutável”, assegurou.

Guaidó havia exigido um endurecimento das sanções contra Maduro, depois que este declarou “persona non grata” o embaixador da Alemanha na Venezuela, Daniel Kriener.

CA/efe/lusa

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Crise na Venezuela: Quais são os interesses da China no país latino-americano?

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A relação entre Xi e Maduro remonta à época de Chávez, quando o atual presidente venezuelano era titular da pasta de Relações Exteriores

Mesmo a milhares de quilômetros de distância, a China não perde de vista o que está acontecendo na Venezuela.

Ao lado da Rússia e Turquia, o país asiático tem sido um dos maiores defensores de Nicolás Maduro na crise política, social e econômica que se agravou depois que o líder da oposição Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela.

Embora Pequim não tenha sido tão direta quanto a Rússia de Putin, as declarações do governo chinês são interpretadas por especialistas como um endosso a Maduro, cuja reeleição tem a legitimidade contestada pelos opositores.

“A China apoia os esforços realizados pelo governo da Venezuela para manter a soberania, a independência e a estabilidade nacional”, declarou Hua Chunying, porta-voz do ministério das Relações Exteriores, em entrevista realizada um dia após a autoproclamação de Guaidó em Caracas.

Hua também enfatizou que Pequim “se opõe à interferência estrangeira nos assuntos da Venezuela”, em uma mensagem indireta aos Estados Unidos, o primeiro país a reconhecer Guaidó e a estimular uma pressão internacional contra Maduro.

Fiel à sua política de não interferir em assuntos internos, a China se limitou a pedir calma aos envolvidos, mas sua preocupação com o resultado dessa situação tem crescido.

Pequim é o principal credor do governo venezuelano e tem muitas fichas no país sul-americano, conforme explicaram especialistas consultados pela BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

Um trunfo chamado petróleo

Chavez e Hu Jintao caminham em tapete vermelho com expressão facil séria, observados por militares em cerimôniaDireito de imagem GETTY IMAGES
Hu Jintao e Hugo Chávez; início da aproximação entre os dois países foi uma espécie de mutualismo

Os atuais estreitos laços entre China e Venezuela começaram a se formar no começo dos anos 2000.

Caracas, ainda sob Hugo Chávez, tentava diversificar os países para os quais exporta sua principal fonte de riqueza, o petróleo.

Pequim, em franco crescimento econômico desde sua abertura nos anos 1980, começava a procurar novas fontes de recursos para suprir a demanda de sua grande população.

Naquele momento, a China já era um dos principais importadores de petróleo do mundo.

“O petróleo é a razão mais fundamental para o encontro entre China e Venezuela. A China precisava de uma grande quantidade de petróleo, e a Venezuela tinha isso”, resumiu à BBC News Mundo Matt Ferchen, estudioso do papel da China em países em desenvolvimento no Centro Carnegie-Tsinghua de Políticas Globais.

A relação floresceu baseada principalmente em “acordos de financiamento pelo petróleo”, lembra Ferchen, que considera o laço cultivado com Caracas um erro de Pequim, diferente de outras aproximações com países produtores de petróleo.

De 2007 a 2018, Pequim emprestou ao país latino-americano mais de US$ 67 bilhões (cerca de R$ 256 bilhões, em valores não corrigidos), de acordo com os dados mais recentes do centro de estudos Diálogo Interamericano e da Universidade de Boston.

Nos primeiros anos, essa cooperação parecia beneficiar ambos os governos, mas a morte de Chávez em 2013 “mudou as coisas dramaticamente”, diz o analista do centro Carnegie-Tsinghua.

Na fase atual, os preços do petróleo caíram e a situação econômica da Venezuela piorou muito, chegando ao quadro atual em que sustenta o título de inflação mais alta do mundo e onde há sérios problemas de escassez de mercadorias, como remédios e alimentos.

A situação levou Caracas, agora com Nicolás Maduro no poder, a violar cláusulas acordadas com Pequim e solicitar maiores “períodos de carência”.

Dezenas de venezuelanos gritam e seguram bandeira do país em protesto na ruaDireito de imagem GETTY IMAGES
A crise se instalou na Venezuela há alguns anos, mas se agravou desde janeiro com uma enorme pressão internacional

Segundo diferentes fontes, o país sul-americano ainda deve à potência asiática quase US$ 20 bilhões.

“Há um grande risco (para a China na Venezuela)”, diz Cui Shoujun, diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Renmin da China, um dos mais prestigiados do país.

Cui concorda que Pequim está preocupada com a situação e acredita que “ninguém pode garantir” o que acontecerá com os acordos entre os dois países se houver uma mudança de governo na Venezuela.

No entanto, Cui é um dos que pensa que Maduro está fazendo a coisa certa: “Diplomaticamente, a China deve apoiar Maduro – ele é o líder legítimo da Venezuela”, defende.

Do outro lado do tabuleiro, os EUA

Segundo os analistas, além do petróleo, há um quê a mais na relação da China com a Venezuela, à diferença de seus laços com outros produtores de petróleo.

Desde sua chegada ao poder em 2013, o presidente Xi Jinping expandiu a influência chinesa na América Latina, jogada vista por alguns especialistas como uma tentativa de contrabalançar a influência de Washington na região.

“Nos últimos quatro ou cinco anos, o presidente Xi tentou projetar o soft power (em tradução livre, algo como “poder sutil”, um conceito que indica formas de influência nas relações internacionais diferentes de outras mais contundentes, como ações militares e comerciais) chinês por todos os rincões do mundo e colocou um interesse em especial na América do Sul, porque é o quintal dos Estados Unidos”, avalia Willy Lam, um analista veterano da política chinesa.

“É uma maneira de intimidar Washington, dizendo algo como: avise aos americanos que a República Popular da China é capaz de influenciar países próximos aos EUA.”

Lam, professor da Universidade Chinesa de Hong Kong, também aponta semelhanças nas ideologias dos dois governos, um cenário que lembra os laços com Cuba.

Por anos, fontes próximas ao governo em Pequim negam que a ideologia tenha importância nas Relações Exteriores conduzidas por Xi, insistindo que o presidente age com pragmatismo.

De todo modo, a maioria dos entrevistados destaca o apoio mútuo que ambos os países sustentam na arena da política internacional, especialmente em um momento onde Pequim está tentando se projetar como líder da globalização.

Donald Trump olha para o lado durante reunião em ambiente internoDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente do EUA, Donald Trump; a disputa entre a China e os EUA não é apenas comercial mas também por influência

Próximos passos

A crise na Venezuela continua e a pressão internacional para que Nicolás Maduro deixe o poder, também.

O presidente venezuelano afirma ser alvo de uma tentativa de golpe de Estado orquestrada por Washington e refuta a convocação das eleições presidenciais, como pede a oposição.

A China, por outro lado, parece começar a se mover.

No início de fevereiro, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, disse que Pequim “tem mantido estreita comunicação com todas as partes de diferentes maneiras sobre a situação na Venezuela”.

“Independente de como a situação vá evoluir, a cooperação China-Venezuela não deve ser prejudicada”, afirmou, sem mais detalhes.

Montagem mostra fotos de Guaidó e MaduroDireito de imagem GETTY IMAGES
O enfrentamento liderado por Guaidó (na foto, à esq.) e Maduro expõe os riscos dos investimentos chineses na Venezuela, segundo analistas

Segundo o pesquisador Cui Shoujun, há evidências de que as autoridades chinesas têm se aproximado da oposição venezuelana, tentando abrir uma espécie de canal de diálogo.

O jornal americano The Wall Street Journal publicou reportagem em que relata reuniões em Washington entre diplomatas chineses e representantes da oposição venezuelana.

Nesses encontros, segundo uma fonte próxima, houve menções a “períodos de prorrogação” para pagamento de dívidas e também a uma maior transparência nos acordos – algo que não costuma soar como uma postura do regime chinês.

Confrontada com esta informação em uma entrevista, uma representante do Ministério das Relações Exteriores da China a classificou de “notícia falsa”.

Na opinião de Margaret Myers, diretora no centro de estudos Diálogo Interamericano, Pequim continua apoiando Maduro simplesmente por causa da estabilidade e para “proteger seus próprios bens”.

Segundo ela, as autoridades chinesas tentaram recentemente se envolver mais no setor de petróleo da Venezuela.

Myers lembra a visita de Maduro à China no ano passado e afirma que, então, Pequim concordou em conceder outro empréstimo de US$ 5 bilhões para “incrementar a produção de petróleo”, conforme confirmou o centro de estudos.

Nas palavras de Myers, “a maior parte do que a China está fazendo ultimamente é para tentar garantir o fornecimento de petróleo e o pagamento dos empréstimos existentes”.

“Não é um sinal de apoio político.”

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Venezuela; a caminho de ser uma nova Síria?

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Apoiadores do líder da oposição venezuelana Juan Guaido passam para o lado colombiano da Ponte Internacional Francisco de Paula em Cucuta, durante confrontos com as forças de segurança venezuelanas em Urena, Venezuela, em 25 de fevereiro de 2019. Foto: Raul Arboleda/AFP/Getty Images
HUGO CHÁVEZ PRESIDIU a Venezuela entre 1999 e 2013, tornando-se provavelmente o líder latino-americano mais icônico desde Fidel Castro. Ao chegar ao poder, em 1999, Chávez prometia não só reverter o movimento de privatizações sugeridas pelo Consenso de Washington, mas instaurar o que chamava de “socialismo do século 21”. Não conseguiu. Nenhum governo daquele país, seja “neoliberal-entreguista” seja “bolivariano”, conseguiu transformar as riquezas naturais da Venezuela em um alto nível de educação médio de seu povo e na alavanca para a sofisticação e modernização da economia nacional.

O colapso econômico da Venezuela não é culpa apenas da queda do preço do petróleo. É resultado também de políticas econômicas temerárias, como fixação de preço de diversas mercadorias a um valor abaixo do de mercado, ameaças e prisões de empresários e expropriação de companhias que não obedecessem às ordens do governo. Hoje, a participação do setor de manufaturados no PIB da Venezuela é inferior ao registrado em 1999. Houve não apenas uma queda em termos relativos, mas também em termos absolutos, ou seja, a Venezuela tem hoje uma produção industrial menor do que a de 1999. Em 2016, a queda da produção industrial venezuelana foi da ordem de 19%; no ano seguinte, mais 15%. Em 2002, havia por volta de 830 mil empresas na Venezuela, em 2017 o número havia caído para 250 mil. Por fim, entre 2013 e 2017, o PIB da Venzeuela encolheu em 37%.

Ascensão e queda do chavismo

Militar de carreira, Chávez começou a aparecer na cena política em fevereiro de 1992, quando foi um dos responsáveis por uma tentativa de golpe de estado contra o então presidente Carlos Pérez. Seu plano fracassou. Chávez, então, concedeu entrevista pedindo que seus companheiros deixem as armas, para evitar um “banho de sangue” no país. Durante o processo, 49 pessoas foram mortas.

Ainda preso, foi figura importante de uma outra tentativa de golpe, em novembro daquele mesmo ano. Em vídeo divulgado pela TV estatal, controlada pelos golpistas, o futuro presidente louvava o movimento revolucionário bolivariano. O golpe de novembro também fracassou, deixando 171 mortos pelo caminho.

Com a eleição de Rafael Caldera para presidente do país em 1994, Chávez e os demais conspiradores bolivarianos foram soltos da prisão. Quatro anos depois, aos 44 anos, com o apoio do Partido Comunista Venezuelano, do Movimiento al Socialismo, entre outros, Chávez saiu vitorioso das eleições presidenciais com 56% dos votos válidos.

No Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo trazia a reportagem em 7 dezembro de 1998, com o título “Eleição venezuelana consagra o golpista Chávez”. Nesse mesmo dia, o NY Times trazia uma pequena nota com o título: “Venezuelanos elegem um ex-líder golpista como presidente”.

Os golpes de 1992 tinham como alvo as políticas “neoliberais” então implementadas na Venezuela. Prometendo evitar os erros cometidos pelos soviéticos e sentado sobre as maiores reservas de petróleo do mundo, Chávez deu início ao seu reinado. E petróleo é a variável-chave para compreender a dinâmica política e econômica da Venezuela. Em 2017, por exemplo, algo como 95% das exportações venezuelanas se constituíam de petróleo bruto, refinado e derivados. Sendo assim, quando o preço do petróleo aumenta, a Venezuela enriquece. Quando cai, empobrece.

O peso do petróleo nas exportações venezuelanas: cerca de 95% vêm de vendas de petróleo bruto, refinado e derivados

O peso do petróleo nas exportações venezuelanas: cerca de 95% vêm de vendas de petróleo bruto, refinado e derivados.

Fonte: The Observatory of Economic Complexity/MIT.

O gráfico mostra o preço médio do petróleo entre 1999 e 2016, já ajustado pela inflação.

O gráfico mostra o preço médio do petróleo entre 1999 e 2016, já ajustado pela inflação.

Gráfico: InflationData.com

Quando Chávez assumiu, o preço do barril estava próximo de US$ 25, entrando numa trajetória quase linear de alta, atingindo o valor recorde de US$ 103 em 2008. Com o preço real médio multiplicado por quatro em menos de uma década, Chávez pôde implementar uma série de políticas sociais que o transformaram em um líder extremamente popular. Ao controlar o Exército e o principal setor da economia – já que a estatal PDVSA é a grande empresa da área –, Chávez tornou-se o líder inconteste daquele país.

Em 2009, em consequência da crise americana, o preço do petróleo cai abruptamente, mas logo se recupera, atingindo US$ 95 em 2013, ano da morte de Chávez. A partir daí, entra em cena Nicolás Maduro, ex-motorista de ônibus que havia servido como Ministro das Relações Exteriores e vice-presidente. Sem o mesmo carisma de seu antecessor e sofrendo com nova queda do preço do petróleo, Maduro redobrou as apostas no autoritarismo e no populismo econômico.

Com a queda nas receitas do petróleo e como forma de continuar financiando os gastos do governo, só sobrou a Maduro o velho e ineficaz remédio de imprimir dinheiro, fazendo com que a inflação na Venezuela explodisse. Para este ano, o FMI espera uma taxa de inflação acima dos 10.000%.

Com a queda no valor das exportações, a Venezuela se viu sem dinheiro para financiar suas importações, fazendo com que o abastecimento de produtos básicos e insumos industriais e agrícolas entrasse em colapso. Não há comida, não há peças de reposição, não há remédios, pois não há dinheiro. A fome, a doença, o desemprego e a desesperança têm sido o motor da migração em massa de venezuelanos, algo que se denomina diáspora bolivariana. Mais de 2 milhões de venezuelanos saíram do país desde 2014.

Nova liderança instiga guerra civil

A catástrofe econômica não é inteiramente conhecida, pois não há estatísticas confiáveis. É provável, porém, que seja uma das maiores crises econômicas já registradas por um país que não atravessou uma guerra ou uma catástrofe natural de grande escala. A Venezuela entrará de modo negativo para os anais da história econômica do mundo.

A crise agora se agrava graças às questões geopolíticas. A decisão de parte importante da comunidade internacional (EUA, Canadá, União Europeia e o grupo de Lima, por exemplo) em reconhecer Juan Guaidó como presidente da Venezuela é algo grave. Um país com dois presidentes em exercício e reconhecidos por superpotências econômicas e militares (China e Rússia, por exemplo, apoiam o regime de Maduro) faz com que as possibilidades de guerra civil e/ou secessão cresçam.

As sanções econômicas impostas por Trump tornam a situação fiscal da Venezuela ainda mais desesperadora, implicando na piora da fome e da mortalidade. Apoiado por gestos e palavras de insanos como Trump e Bolsonaro, Guaidó publicou em seu twitter uma mensagem que parece um apelo à invasão estrangeira e/ou à guerra civil.

Há chances reais e efetivas de a Venezuela se tornar um novo Afeganistão, Iraque, Síria ou Líbia. Não há mocinhos nessa história. Os países nos quais os EUA estimularam ou provocaram a queda de ditadores – inclusive durante o governo Obama – caíram numa espiral de caos político e econômico. Se Trump decidir armar a oposição, China e Rússia tampouco ficarão sem apoiar seus aliados. Seria uma tragédia sem paralelos na história recente da América Latina um novo episódio da nova guerra fria travada por essas três potências.

Nenhum desses países tem real interesse pelo bem-estar dos venezuelanos. Suas preocupações são mesquinhamente econômicas e geopolíticas. Nenhum desses países se guia pelos princípios humanitários da Carta das Nações Unidas, mas pelo poder e pela baixa política do Conselho de Segurança.

Ainda que não haja uma invasão estrangeira imediata, cada uma dessas potências pode armar e estimular setores do Exército e da sociedade civil, arrastando a Venezuela para um conflito ao estilo da Síria. Estamos vendo um palco de guerra sendo montado em nossas fronteiras estimulado pelas palavras e gestos de dois despreparados que nos governam: Bolsonaro e Ernesto Araújo. Ou pior: pelos tuítes nada diplomáticos de um dos filhos do presidente.

Vídeo incorporado

Mourão, o adulto na sala

Numa clara sinalização de guerra de atrito entre o Itamaraty olavista e as Forças Armadas, Mourão participou da última reunião do grupo de Lima, posando para fotos oficiais ao lado do chanceler Ernesto. O vice-presidente parece mesmo condenado a desempenhar o papel do adulto na sala.

A declaração final do grupo de Lima foi surpreendentemente serena. Ainda que condene as ações do “regime ilegítimo de Nicolás Maduro” e enfatize o reconhecimento de Guaidó como único presidente legítimo do país, o documento afirma que “a transição para a democracia deve ser conduzida pelos próprios venezuelanos e sob o marco da Constituição e do direito internacional”. Frase em plena consonância com os princípios elencados no artigo 4° de nossa Constituição, entre os quais estão o respeito à “autodeterminação dos povos” e a “não intervenção”.

Permitir a entrada de tropas americanas via solo brasileiro para atacar um país vizinho (numa manobra ilegal, que não seria aprovada pelo Conselho de Segurança, graças ao veto de Rússia e China) seria uma mancha em nossa história e um crime grave o suficiente para determinar a saída de Jair Bolsonaro do palácio do Planalto. Por meio de gestos e frases descuidadas, Bolsonaro pode provocar a primeira guerra entre o Brasil e um de seus vizinhos desde a Guerra do Paraguai (1867-1870) – sempre bom não perder de vista que a Venezuela já gastou desde meados dos anos 2000 algo como US$ 10 bilhões apenas com armamentos russos.

Ainda que o cenário de um confronto direto entre Brasil e Venezuela seja pouco provável, um governo sensato mediria as palavras e buscaria agir como mediador na crise daquele país. Mas uma retórica bélica, nacionalista e inflamada como a dos Bolsonaro, ensina a história, é um convite à violência.

Que Mourão seja mesmo “o adulto na sala”, tenha ouvido moucos para os idiotas, e costure uma saída pragmática para o Brasil.
Alexandre Andrada/TheIntercept

Brasil,América Latina,Venezuela,Nicolas Maduro,EUA,USA,Trump,Bolsonaro

“Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser o Brasil”, adverte pesquisadora sobre conflito

Márcia Oliveira, especialista em fronteira e migração, analisa o papel do Brasil na “ajuda humanitária” ao país vizinho

O Brasil assumiu um papel decisivo na fronteira com a Venezuela no último sábado (23), protagonizando um momento ímpar na relação entre os dois países, com alcance mundial. Primeiro porque coordenou toda a operação da tentativa frustrada de cruzar as duas caminhonetes com alimentos para a Venezuela. Segundo porque permitiu que manifestantes utilizassem o lado brasileiro, mesmo com a fronteira fechada, para se aproximar dos militares venezuelanos e fazer provocações com pedras, queima de pneus e incêndio de um alojamento militar ao lado de um posto de gasolina da Petroleira Venezuelana (PDVSA) com bombas de coquetel molotov.

Doutora em fronteira e migração, professora do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e uma das sete especialistas do Brasil que participam da formulação do Sínodo sobre a Amazônia, evento que será realizado em outubro pela Igreja Católica, Márcia Oliveira analisa a postura diplomática e militar do país na fronteira com a Venezuela e questiona as decisões do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Além disso, afirma que é importante enxergar o vizinho como um país irmão e não como um inimigo.

Brasil de Fato: Qual é a sua avaliação sobre a tentativa de entrega da suposta ajuda humanitária do último sábado (23) na fronteira do Brasil com a Venezuela?

Márcia: Para ser confirmada uma ajuda internacional existe um padrão que é definido pela solicitação, logística dessa chegada da ajuda humanitária e, principalmente, pelas estratégias de distribuição, justamente para não criar um problema na disposição dos alimentos. De fato, a materialização do ocorrido no dia 23 de fevereiro nos dá a entender que essa ajuda humanitária teve um cunho político muito forte. Ou seja, ela não se configura a partir do padrão internacional convencionado como ajuda humanitária e, ao mesmo tempo, ela não segue nem os padrões de logística e nem de distribuição, o que nos leva entender a ajuda, uma pseudo ajuda humanitária, como um fato político.

Qual a estratégia por trás dessa “ajuda humanitária”?

A partir do fato em si na fronteira que, num primeiro momento, nos pareceu um jogo de forças, nos deu a entender que era uma espécie de tentativa de medir forças para reunir os opositores do governo Maduro numa grande encenação daquilo que seria a entrada no país pelas fronteiras. E, claro, com a presença de representantes dos Estados como o Chile, Brasil, Colômbia nas fronteiras prontos para celebrar aquilo que seria a entrada definitiva no país. A análise que fazemos, no campo sociológico, é que há um embate contra o governo Maduro. Como não se consegue minar o país pelas vias políticas, tenta-se minar o país pelas fronteiras. Ou seja, não existe uma justificativa que permita uma intervenção militar na Venezuela. Pelo menos do ponto de vista sociológico, isso não existe. Adentrar pelas fronteiras poderia, sim, se configurar como uma grande estratégia de ocupação e intervenção política num processo em que o Brasil está envolvido, e outros países também nesse Grupo de Lima, que acaba transformando uma questão que seria mais no campo social-humanitário, numa questão política.

Estados Unidos e Europa, que se dizem preocupados com a Venezuela, impõem ao país governado por Nicolás Maduro uma série de sanções. Qual o impacto disso no momento que vive o país sul-americano?

Para mim, não é uma questão apenas de governo, não é uma situação criada por Maduro, é uma questão que envolve uma complexidade de elementos no campo político, no campo econômico. O embargo transcende a questão local. Poderia ser qualquer governo fora desse contexto e o embargo teria o mesmo peso. Ou seja, estamos lidando com uma relação de poderes econômicos que afeta a Venezuela neste momento. Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser o Brasil. Então são questões no campo do capitalismo, na intensificação do capitalismo neste momento histórico em que os interesses econômicos estão acima dessas populações locais, inclusive nesse caso específico do conflito na fronteira, que colocam em risco a vida de centenas – e talvez milhares – de pessoas que estão ali na fronteira, de uma forma muito irresponsável. O interesse econômico está acima da vida das pessoas. Então o embargo traz esse elemento muito forte.

O reforço da segurança por parte do Estado brasileiro só ocorreu após as provocações por parte dos opositores e resposta por parte dos militares venezuelanos. Qual a responsabilidade do governo Bolsonaro nesse conflito?

Temos dois atores importantes nesse processo: o Exército e o Ministério das Relações Exteriores. No mínimo, essas duas instituições devem explicações à sociedade brasileira sobre sua postura, principalmente por colocar em risco a vida de tantas pessoas na fronteira. E também por se tratar de um país vizinho, de um país de fronteira. Não estamos falando de qualquer um. Não estamos falando de uma coisa alheia às nossas relações, estamos falando de um [país] vizinho. Nesse sentido, no mínimo, as instituições que se envolveram nesse cenário de encenação da ajuda humanitária devem explicações à sociedade brasileira. Acredito que em algum momento um deputado federal deve chamar ao parlamento as pessoas que estiveram à frente dessas instituições, para se justificar diante da sociedade brasileira, pelo menos, ou para prestar uma explicação política sobre esse envolvimento. Não acredito que essas duas instituições representem a totalidade do povo brasileiro.

Quais os efeitos para o Brasil de uma possível guerra contra a Venezuela?

Toda guerra é tremenda e evitá-la deve ser o objetivo de toda e qualquer sociedade que tem o mínimo de entendimento sobre relações transfronteiriças, que pensa a fronteira como vizinha e não como inimiga. Não quero acreditar que acontecerá uma guerra contra a Venezuela e não quero acreditar que o Brasil participe disso, porque historicamente nós não temos a postura de não estabelecer guerra com ninguém, mas ao mesmo tempo há uma preocupação muito grande sobre os andamentos, os rumos dessa relação difícil e tensa com a Venezuela, que é um país irmão, vizinho, que não pode ser visto como um inimigo, como um país passível de guerra.
OperaMundi/Andre Vieira

Venezuela,Ditadura,América Latina,Nicolas Maduro,Brasil,USA

Crise na Venezuela: o que dizem os soldados que desertaram nas fronteiras

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A BBC News conversou com desertores venezuelanos que estão abrigados em uma igreja na Colômbia

Os soldados que desertaram das forças armadas venezuelanas no sábado e cruzaram a fronteira para a Colômbia temem pela segurança de suas famílias que ficaram no país.

Em entrevista exclusiva à jornalista Orla Guerin, da BBC News, um desertor de 23 anos disse estar preocupado que as forças de segurança leais ao presidente Nicolás Maduro possam “atacar sua família”.

“Mas acho que foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado”, acrescenta.

No total, mais de 100 soldados teriam desertado, a maioria durante os violentos confrontos deste fim de semana, quando estava prevista a chegada da ajuda humanitária articulada pelo líder da oposição Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino, e seus aliados internacionais.

A tensão aumentou depois que Maduro enviou tropas para bloquear estradas e pontes nas fronteiras do Brasil e da Colômbia, por onde os veículos carregados de alimentos e medicamentos, enviados pelos EUA, entrariam no país.

Maduro argumenta que a entrada da ajuda humanitária na Venezuela abriria caminho para uma intervenção militar dos EUA.

Em diversos pontos da fronteira, as forças de segurança entraram em confronto com civis venezuelanos que tentaram furar o bloqueio em busca de mantimentos. Os soldados usaram bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar os manifestantes, que revidaram com pedradas.

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Maltratados e feridos

Orla Guerin, da BBC News, na Colômbia, perto da fronteira com a Venezuela

Encontramos com os desertores – homens e mulheres – um dia depois que eles baixaram suas armas e abandonaram seus postos. Eles conseguiram abrigo em uma igreja católica, que conta com uma equipe de segurança discreta do lado de fora.

Alguns pareciam estar em choque com as cenas de violência deste fim de semana, quando as tropas venezuelanas atiraram em seu próprio povo com gás lacrimogêneo e balas de borracha.

O padre da paróquia que os acolheu contou que muitos chegaram maltratados e feridos. Os desertores disseram que fugiram porque o país deles precisava de mudanças e os filhos, de comida. Após falar por telefone com um familiar, um jovem oficial caiu em prantos.

A maioria dos militares que encontramos era de soldados de infantaria. Eles contaram que o alto escalão ainda estava vinculado – pela corrupção – ao presidente Nicolás Maduro, e que ele lutaria para permanecer no poder.

Mas disseram que ele perdeu o apoio dos recrutas, que estavam apostando no líder da oposição, Guaidó.

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O que dizem os desertores?

Após concordar em conversar com a BBC, sob condição de anonimato, um grupo de desertores venezuelanos refugiados em uma igreja em Cúcuta, na Colômbia, descreveu o que os levou a deixar as forças armadas.

“Há muitos soldados profissionais que querem fazer isso. Isso vai ser um efeito dominó. Vai ter uma influência significativa nas forças armadas”, disse um homem de 29 anos.

“As forças armadas entraram em colapso por causa de tantos oficiais corruptos. Os profissionais militares estão cansados. Não podemos continuar escravos, estamos nos libertando”, acrescentou.

Uma desertora mulher descreveu como “tenso” o clima no sábado: “Eu só pensava que não poderia prejudicar meu próprio povo”.

“Minha filha ainda está na Venezuela e é isso que dói mais. Mas eu fiz isso por ela. É difícil porque não sei o que eles podem fazer com ela”, completa.

Um terceiro disse que sentiu dor ao ver o povo venezuelano nas ruas lutando por ajuda humanitária.

“Me senti impotente e inútil. Senti dor por tudo o que aconteceu”, afirmou.

Guaidó prometeu anistia aos desertores se eles ficassem do “lado certo da história”.

Manifestantes entraram em confronto com forças de segurança venezuelanas nas fronteiras da Colômbia e do BrasilDireito de imagem EPA
Manifestantes entraram em confronto com forças de segurança venezuelanas nas fronteiras da Colômbia e do Brasil

O que está acontecendo na Venezuela?

No domingo, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, disse que Maduro estava com os “dias contados” após os confrontos violentos do fim de semana.

“Saber os dias exatos é difícil. Estou confiante de que o povo venezuelano vai garantir que os dias de Maduro estejam contados”, declarou Pompeo à rede de televisão americana CNN.

O autoproclamado presidente interino, Guaidó, que foi reconhecido por mais de 50 países, pediu que outras nações considerem “todas as medidas” para expulsar Maduro, depois que os esforços liderados pela oposição para levar ajuda humanitária ao país resultaram em confrontos.

A polícia venezuelana impediu os carregamentos de ajuda humanitária de cruzar a Ponte Internacional Simon BolivarDireito de imagem EPA
A polícia venezuelana impediu os carregamentos de ajuda humanitária de cruzar a Ponte Internacional Simón Bolívar

Ele também participa nesta segunda-feira da reunião do Grupo de Lima, em Bogotá, em que representantes de 13 países discutem a situação política e social da Venezuela. O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, vai representar Washington nas negociações.

Um alto funcionário da Casa Branca disse no domingo que Pence planejava anunciar “medidas concretas” e “ações” para enfrentar a crise durante o encontro, informou a agência de notícias Reuters.

Enquanto isso, a Colômbia e o Brasil anunciaram que intensificariam a pressão para Maduro deixar o poder. E o presidente dos EUA, Donald Trump, não descartou uma resposta armada à crise na Venezuela.

Maduro conta, por sua vez, com o apoio de importantes aliados econômicos – como Rússia, China e Cuba.

O navio de suprimentos que foi forçado a atracar na ilha de CuraçaoDireito de imagem GETTY IMAGES
Navio de suprimentos que seguiria para a Venezuela foi forçado a atracar na ilha de Curaçao

O que aconteceu na fronteira?

A oposição venezuelana planejava cruzar pacificamente as fronteiras da Colômbia e do Brasil para entrar na Venezuela com caminhões carregados de ajuda humanitária.

Guaidó havia prometido que os mantimentos chegariam naquele dia. Em resposta, Maduro fechou parcialmente as fronteiras do país.

Os civis venezuelanos tentaram atravessar em busca de alimentos e medicamentos, o que provocou rapidamente a reação das forças militares.

Os soldados atiraram contra os civis usando munição real e balas de borracha.

Pelo menos duas pessoas morreram nos conflitos.

No dia seguinte, um barco que levava ajuda humanitária de Porto Rico para a Venezuela foi forçado a atracar na ilha de Curaçao após ser interceptado pela marinha venezuelana, informou a agência de notícias AFP.

A embarcação estaria carregada com nove contêineres cheios de comida e remédios.

Como a situação chegou a este ponto?

A ajuda humanitária armazenada na Colômbia e no Brasil está no centro de um embate político entre Maduro e Guaidó, que remonta à controversa reeleição de Maduro em 2018.

A Venezuela vive há alguns anos em meio a uma grave crise política e econômica.

A inflação descontrolada fez os preços dispararem, deixando muitos venezuelanos com dificuldade para comprar até mesmo os itens mais básicos, como alimentos e papel higiênico.

Mais de três milhões de pessoas fugiram da Venezuela nos últimos anos, de acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Venezuela,América Latina,Ditadura,Maduro,Blog do Mesquita

Venezuela – Isso é crime, e não ajuda humanitária

Venezuela,América Latina,Ditadura,Maduro,Blog do MesquitaVenezuelanos atravessem a fronteira para chegar a Cúcuta, na Colômbia

Vamos deixar uma coisa bem clara: a população da Venezuela precisa de ajuda humanitária. O número de pessoas que luta pela simples sobrevivência aumenta a cada dia, e o fornecimento de alimentos e medicamentos é uma catástrofe no país.

Tanto pior, portanto, que o autointitulado presidente interino Juan Guaidó e seus apoiadores abusem da ajuda humanitária e a usem como instrumento de poder. Aparecer do lado de pacotes de comida para bebê rende boas imagens para a televisão, mas pouca credibilidade política.

Pior ainda é o presidente Nicolás Maduro. O sucessor de Hugo Chávez arruinou economicamente o país, e de forma sistemática. Ele mandou prender os adversários políticos, tirou poder do Parlamento, que é dominado pela oposição, e abandonou a população à própria sorte.

Agora, a ajuda humanitária deve servir, para os dois lados, de cobertura para o fracasso político. As sanções contra o regime de Maduro, impostas desde 2015 pelos Estados Unidos, não tiveram o “sucesso” esperado, ou seja, a queda do “Socialismo do Século 21”.

Elas apenas aceleraram o declínio da Venezuela e empurraram Maduro cada vez mais para os braços de Moscou e Pequim. Na semana passada, Maduro falava que não havia fome na Venezuela. Agora, ele anuncia, às vésperas do embate de 23 de fevereiro, que 300 toneladas de ajuda humanitária estão chegando da Rússia.

A Rússia é o principal aliado da Venezuela. Já nos tempos de Chávez, o Kremlin enviava armas para as Forças Armadas venezuelanas. Além disso, Caracas deve 12 bilhões de dólares para Moscou – como garantia para empréstimos, a Venezuela empenhou nada menos que a metade das ações da Citgo, uma rede de postos de gasolina nos Estados Unidos que pertence à estatal petrolífera PDVSA.

A Rússia tem, com isso, dois trunfos contra o presidente Donald Trump: por meio da Citgo, pode influenciar o abastecimento de combustíveis nos Estados Unidos; e, por meio da presença na Venezuela, se estabeleceu como importante ator internacional, ao lado da China e dos EUA, na América Latina.

O mais novo exemplo é o veto da Rússia no Conselho de Segurança da ONU, na semana passada. À resolução dos EUA que exigia novas eleições e ajuda humanitária, Moscou contrapôs seu próprio projeto de resolução.

O imbróglio deixa antever um retorno à Guerra Fria. Que ela tenha como palco justamente a América Latina é especialmente trágico. Afinal, a confrontação entre os Estados Unidos e a Rússia foi oficialmente encerrada apenas em 2014, com a normalização das relações diplomáticas entre EUA e Cuba.

Se houvesse um real interesse em enviar ajuda humanitária para a população da Venezuela, agências da ONU, como o Programa Alimentar Mundial, poderiam levar alimentos para o país – se necessário, com um mandato do Conselho de Segurança. Organizações de ajuda humanitária americanas e russas, bem como doadores de todo o mundo, poderiam entregar suas remessas para a ONU em vez de usá-las para elevar a divisão política dentro do país.

E ainda mais importante: o governo da Venezuela poderia, ele mesmo, pedir ajuda à comunidade internacional. Ajuda humanitária também poderia ser transportada a pé, por voluntários, por outros pontos da fronteira além de Cúcuta – sem toda essa cobertura midiática.

O atual uso político da ajuda humanitária é tudo menos humanitário. Ele faz uma população inteira refém e transforma quem presta ajuda humanitária em cúmplice de uma acirrada disputa política de poder. Isso é um crime.
DW

Armamentos,Venezuela,Maduro,América Latina,Brasil,Trump,Usa

Crise na Venezuela: Qual é o tamanho real do poderio militar do país?

Armamentos,Venezuela,Maduro,América Latina,Brasil,Trump,UsaExército venezuelano teve papel fundamental no conflito político e social dos últimos anos

A ameaça de um conflito armado paira sobre a Venezuela.

O presidente americano, Donald Trump, afirmou que não descarta uma opção militar para tirar do poder o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e que o Exército da Venezuela deveria apoiar o governo do presidente autoproclamado da Venezuela, o oposicionista Juan Guaidó.

Em resposta, Maduro e seu ministro da Defesa disseram que os venezuelanos lutariam até as últimas consequências caso haja uma intervenção militar.

A tensão em torno de um conflito tem aumentado por causa da ajuda humanitária enviada por países que declararam apoio a Guaidó. Este anunciou que, a partir deste sábado, esses mantimentos começariam a entrar no país, numa estratégia que busca fazer frente a uma crise socioeconômica que o governo chavista nega.

Isso, entretanto, não aconteceu. Nesta manhã foi anunciado fechamento de três pontes na fronteira com a Colômbia e houve enfrentamento entre manifestantes e forças policiais.

Para Maduro, apoiado por Rússia e China, seus opositores tentam “fabricar uma crise humanitária que não existe na Venezuela” para justificar uma intervenção estrangeira. Por isso, ele anunciou o fechamento da fronteira com o Brasil e estuda fazer o mesmo na região fronteiriça com a Colômbia.

O impasse na fronteira e os confrontos deixam o Exército venezuelano sob os holofotes.

Como as Forças Armadas do país vão reagir à pressão internacional? Qual é o poder de fogo delas ante um eventual ataque dos EUA?

Nicolás MaduroDireito de imagem REUTERS
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, tem apoio das Forças Armadas do país

Qual é o tamanho do efetivo das Forças Armadas da Venezuela?

De acordo com dados do Ministério da Defesa do país, a Força Armada Nacional Bolivariana tem entre 95 mil e 150 mil integrantes, número que não inclui os membros da Milícia Nacional Bolivariana, um grupo paralelo descrito como paramilitar pelos críticos do governo e formado por voluntários que assumem várias funções a serviço do Estado.

Esses milicianos recebem treinamento no manejo de armas e usam rifles antigos que pertenciam anteriormente ao Exército.

A Milícia Nacional baseia-se na premissa da “união cívico-militar”, cunhada pelo presidente Hugo Chávez, morto em 2013, pela qual toda a sociedade deve complementar o esforço do Exército na “defesa da nação”.

Maduro manteve seu compromisso com a milícia, apesar das acusações de militarização da vida civil e anunciou, em janeiro deste ano, que o corpo de segurança está próximo de atingir 2 milhões de integrantes.

Soldados da Venezuela em desfileDireito de imagemGETTY IMAGES
Guaidó, autoproclamado presidente interino da Venezuela, pediu apoio dos militares

Não há informações precisas, no entanto, sobre o número real de integrantes e a qualidade de seu armamento e treinamento militar.

Também formam as Forças Armadas os integrantes da Guarda Nacional, um corpo militar responsável pela ordem pública e pela proteção dos cidadãos. Conhecida por todos os venezuelanos, uma de suas atribuições mais comuns é fazer o policiamento das ruas e das rodovias do país.

Nos últimos anos, a Guarda Nacional vem ganhando maior destaque pela repressão violenta contra os manifestantes de oposição, especialmente durante os protestos de 2017, e sua conduta tem sido objeto de polêmica. Também não há informações precisas sobre o tamanho do efetivo da Guarda Nacional.

Foi ela que, na manhã deste sábado, bloqueou a passagem na fronteira entre Venezuela e Colômbia em Ureña, no Estado de Táchira.

Tanque do Exército da VenezuelaDireito de imagem GETTY IMAGES
Estimativas oficiais indicam que Forças Armadas venezuelanas contam com 95 mil a 150 mil integrantes

Poderio renovado por Rússia e China

Após a chegada de Chávez ao poder (1999), a Venezuela aproveitou o crescimento das receitas do petróleo na primeira década dos anos 2000 para dar início a uma renovação ambiciosa das Forças Armadas que teve a Rússia e a China como suas principais provedoras.

Desde então, os russos forneceram à Venezuela vários modelos de aviões, helicópteros, tanques e unidades de artilharia.

O apoio da Rússia voltou a se fazer presente em dezembro do ano passado, quando o governo de Vladimir Putin enviou à Venezuela dois modernos bombardeiros capazes de transportar armas nucleares, os Tu-160, para um exercício em conjunto com a aviação venezuelana. O episódio gerou duras críticas do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Mas a grande contribuição russa para a ampliação da capacidade militar venezuelana foi a venda de caças Su-30Mk2 que, segundo especialistas, são capazes de competir com os modelos americanos mais avançados graças a seu poder de fogo, manobrabilidade e desempenho.

Além disso, os russos repassaram à Venezuelana sistemas de mísseis antiaéreos e os chineses, radares que permitem estabelecer o que o portal especializado Infodefensa descreveu como “o melhor sistema de defesa aeroespacial da América Latina”.

Nos anos de chavismo, uma frota naval sediada na cidade de Puerto Cabello também passou por uma completa renovação.

Considerando todos os seus recursos humanos e técnicos, o site Global Firepower colocou a Venezuela na 46ª posição do ranking mundial de países com maior força militar no ano passado. O Brasil está na 14ª posição e os Estados Unidos, em primeiro lugar.

Homem é agredido por forças de segurançaDireito de imagem GETTY IMAGES
Participação de forças militares em atividades de ordem pública foi alvo de críticas

Qual é a capacidade operacional de fato desses armamentos?

Desde o início da última crise política, Maduro vem estreitando ainda mais os laços com os militares e elogia repetidamente a capacidade das Forças Armadas.

Coincidindo com a escalada da tensão diplomática com os Estados Unidos, o presidente venezuelano organizou exercícios militares em larga escala que descreveu como “os mais importantes da história” do país.

Trata-se de um esforço para dar destaque ao papel do Exército em um momento crítico.

Um especialista militar estrangeiro que vive em Caracas e que pediu para não a ser identificado disse à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC, que “há muitas dúvidas sobre a capacidade operacional real do arsenal (da Venezuela), devido à falta de manutenção”, outra consequência da crise econômica grave que o país enfrenta.

John BoltonDireito de imagem AFP
Conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, John Bolton, disse que intervenção militar na Venezula não está descartada

A escassez de peças de reposição é visível mesmo na base aérea em La Carlota, no coração de Caracas, onde os helicópteros ali estacionados sofrem o que no jargão militar é conhecido como “canibalização”, ou seja, o uso de partes de aeronaves em bom estado para a reparação de outras danificadas.

“Nos últimos anos, eles tentaram convencer os russos e os chineses a se responsabilizarem pela manutenção, mas o problema é que agora eles não podem pagar ninguém”, diz o especialista. “Os russos investiram muito dinheiro na Venezuela, mas descobriram que nunca seriam pagos.”

Entre os projetos inacabados com a Rússia está a fábrica de fuzis Kalashnikov, que está em construção há anos na cidade de Maracay, no Norte do país. O governo planeja que dali saiam armas para militares e milicianos, mas nada disso foi concretizado até hoje.

A falta de reparo e de peças sobressalentes torna-se um problema particularmente sério para o arsenal mais antigo, como os helicópteros de transporte de fabricação francesa, os Super Puma, ou os caças americanos F-16, que foram adquiridos antes do triunfo da Revolução Bolivariana em 1998.

Avião Tu-160 em CaracasDireito de imagem GETTY IMAGES
Aviões russos Tu-160 fazem parte do arsenal militar da Venezuela

Apoio dos militares a Maduro

Desde que Juan Guaidó desafiou Nicolás Maduro pelo comando do país, a oposição venezuelana vem fazendo repetidos apelos aos militares para retirarem seu apoio ao governante socialista e “se colocarem do lado da Constituição”.

Embora a tropa sofra com a escassez de alimentos e medicamentos e a hiperinflação, assim como o restante dos venezuelanos, as deserções em cascata que parte dos oposicionistas e analistas previram não ocorreram.

Apesar de relatos não confirmados de alegadas prisões em massa de militares descontentes com a administração Maduro, as declarações de lealdade ao “presidente constitucional” são repetidas nas contas de Twitter do Comando Estratégico Operacional das Forças Armadas e do Ministério da Defesa.

Embora muitos considerem, inclusive nos Estados Unidos, que o apoio do alto comando militar a Maduro está se rachando, tais rachaduras não são até agora perceptíveis.

Há razões que explicam o apoio militar ao governo. Observadores apontam que o chavismo é, desde o seu nascimento, um sistema político essencial e originalmente militar.

Seu próprio fundador, Hugo Chávez, era comandante do Exército.

Como escreveu a escritora venezuelana Cristina Marcano em um artigo recente no jornal espanhol El País, “o Exército não apenas apoia o regime; é um fator fundamental do regime”.

Ela lembrou que os militares passaram, quando Hugo Chávez chegou à Presidência, a ocupar os mais altos cargos na administração e nas empresas públicas.

O almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul do Exército dos Estados Unidos, disse a um comitê do Senado americano que a Venezuela tem cerca de 2 mil generais, número superior ao de todos os países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) juntos.

Para Faller, “a maioria está a serviço de Maduro” e envolvida em negócios ilícitos, entre os quais tráfico de drogas e contrabando de gasolina, com os quais o líder bolivariano “compra sua lealdade”.

A verdade é que, como acontece em outros países onde a política tem um forte componente militar, como Cuba ou Egito, a instituição acaba controlando grande parte da economia venezuelana.

Quando se tornou presidente, Maduro criou o que chamou de um plano de desenvolvimento de negócios exclusivamente militar, que parecia imitar o modelo do Grupo de Administração de Empresas (Gaesa) em Cuba. Por meio desse sistema, as Forças Armadas cubanas se responsabilizam pela gestão de uma grande parte da arrecadação do Estado que o turismo e outras atividades geram na ilha.

Maduro também colocou um general no comando da principal estatal do país, a PDVSA, que responde por grande parte das receitas das exportações venezuelanas.

Seja sentimental, ideológico ou econômico, os laços do alto comando militar com o presidente foram, por enquanto, mais poderosos do que os chamados de seus rivais para mudar de lado.

Neste sábado, contudo, há notícias de que soldados venezuelanos na fronteira estão abandonando seus postos. Pelo menos três membros da Guarda Nacional teriam cruzado para o lado colombiano.

Soldados da Venezuela em desfileDireito de imagem GETTY IMAGES
Maduro diz que Venezuela pode fazer frente à possível intervenção militar dos EUA

Qual é a capacidade de resistência ante uma intervenção?

Ted Galen Carpenter, especialista em defesa e política exterior do centro de análise Cato Institute, sediado nos Estados Unidos, diz à BBC News Mundo que, “embora existam relatos que sugerem divisão interna, pelo menos algumas unidades combateriam uma intervenção americana.”

Mas qual seria o tamanho dessa resistência? “É isso é o que a inteligência americana certamente está tentando descobrir, mas não é tão fácil”, afirma Carpenter.

Ele alerta que, apesar da esmagadora superioridade dos Estados Unidos, o uso da força para acabar com a crise venezuelana pode custar muito dinheiro e muitas vidas americanas.

Vladimir PadrinoDireito de imagem GETTY IMAGES
Vladimir Padrino é o atual comandante das Forças Armadas da Venezuela

“Ninguém pode enfrentar os Estados Unidos em um confronto aberto, mas Maduro ainda tem um núcleo duro de apoiadores, e o que os venezuelanos podem fazer é uma guerra de guerrilha, o que pode ser muito eficaz”, afirma o especialista.

Declarações como as de Carpenter refrescam a memória dos americanos sobre a guerra do Iraque ou do Vietnã, nas quais o Exército americano sofreu milhares de perdas em sua tentativa de impor uma mudança política.

Mural de Hugo Chávez e soldadoDireito de imagem EPA
Hugo Chávez chegou a posto de tenente-coronel, mas era conhecido como ‘comandante’

O próprio Maduro vem fazendo alusão ao confronto no Vietnã em sua tentativa de dissuadir a Casa Branca de pegar em armas: “A Venezuela se tornaria um Vietnã se um dia Donald Trump enviar o Exército dos EUA para nos atacar”, ameaçou.

Até o momento, o cerco de Washington a Maduro vem sendo estritamente diplomático e Trump, apesar de suas declarações, continua relutante em envolver as tropas americanas em missões no exterior.

Se para muitos o Vietnã foi a eterna guerra dos Estados Unidos, a Venezuela é, por ora, a que nunca começou.

Conexão cubana

Pascal Fletcher, analista da BBC Monitoring

Desde o fracasso do golpe de 2002 contra o falecido presidente Hugo Chávez, tanto ele quanto seu sucessor expurgaram dissidentes do Exército e implantaram um modelo de doutrinação ideológica semelhante ao das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba.

O alto comando militar, liderado pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino, repetem, vez ou outra, alguns slogans que lembram a Cuba de Castro.

“Independencia y Patria Socialista” ou “Viviremos y Venceremos” são apenas alguns deles.

Com Chávez e Maduro, a Venezuela adotou outros elementos típicos da doutrina militar cubana, como a chamada “guerra popular”, pela qual grupos de milicianos se juntariam às forças regulares para responder no caso de um hipotético “ataque imperialista”.

Essa união de “exército e povo” foi experimentada em manobras militares que estão cada vez mais focadas nesse aspecto e nas táticas de guerrilha.

Comentados há anos, os laços militares entre Cuba e Venezuela permanecem envoltos em grande sigilo. Mas a imprensa estatal na ilha se referiu a um atual “acordo técnico militar”, que incluiria a formação de pessoal venezuelano por oficiais cubanos.

Vários analistas indicam que a colaboração de profissionais cubanos no campo da saúde e da educação foi acompanhada por assessores militares e de inteligência. Segundo informações publicadas na imprensa venezuelana, o ministro da Defesa venezuelano tem um assessor cubano.

Pouco depois de declarar-se “presidente interino” da Venezuela, Juan Guaidó afirmou que os cubanos deveriam deixar as Forças Armadas.
BBC

Bolsonaro,Venezuela,Blog do Mesquita

A Presidência vai cair no colo do Mourão, basta ele não fazer nada.

Eduardo Bolsonaro: “Maduro só sai à base do tiro”! Ok. Pois vá a frente do pelotão babaca!Bolsonaro,Venezuela,Blog do Mesquita

O País falido e estes tresloucados buscando derramar sangue brasileiro em uma guerra dos EUA em busca do petróleo da Venezuela.
Vejam só! Saíram do pacto de imigração, pregaram o fechamento da fronteira quando os venezuelanos estavam entrando por Roraima, os coitados dos venezuelanos estavam passando fome em Roraima, sem tem onde dormir, sem banheiros. O governo brasileiro não ajudou em nada, quem deslocou os venezuelanos para outras cidades e ajudou com dinheiro foi a ONU. Agora que o maluco do Maduro fechou a fronteira mandaram aviões com “ajuda humanitária”…faz o favor né?

Todo fascista é paranoico, nenhuma novidade. tenho dúvidas se essa macheza de por fogo no circo se traduziria numa ida de fato a um eventual cenário de guerra.Mandar os outros se sacrificarem é fácil.

Venhamos e convenhamos, o Eduardo Bolsonaro não prima pela genialidade das ideias. É uma família em geral de muito poucas luzes, mas o Eduardo consegue ser ainda mais obscuro intelectualmente.

A Presidência vai cair no colo do Mourão, basta ele não fazer nada.Mourão deve ter a coragem de não agir. O Capitão e os seus filhos estão se esfacelando.
Não abusem da inteligência dos Tapuias que ainda pensam.

Saúde,Venezuela,Blog do Mesquita

Colapso da saúde na Venezuela pode gerar surto regional de doenças infecciosas

Antes pioneiro no combate a malária, dengue e zika, país sofre com falta de entrada de medicamentos devido à crise e êxodo de médicos. Doenças como Chagas ameaçam se espalhar para países vizinhos, diz pesquisa.Saúde,Venezuela,Blog do Mesquita

Funcionário da Saúde Pública trabalha em campanha contra o zika em Caracas

A crise humanitária na Venezuela poderá resultar num aumento das infecções de malária, doença de Chagas, dengue, zika e outros males que ameaçam 20 anos de avanços obtidos na saúde pública do país.

O alerta surgiu em um estudo publicado no portal da revista científica The Lancet para doenças infecciosas na quinta-feira (21/02), onde os autores afirmam que algumas epidemias poderão avançar para além das fronteiras venezuelanas, podendo, potencialmente, causar uma emergência de saúde pública na região.

“Assim como o ressurgimento do sarampo e outras doenças infecciosas que podem ser prevenidas através de vacinas, o aumento contínuo dos casos de malária poderá se tornar incontrolável”, afirmou Martin Llewellyn, acadêmico da Universidade de Glasgow que liderou o estudo junto a pesquisadores da Venezuela, Brasil, Colômbia e Equador.

Ele afirma que com o colapso do sistema de saúde venezuelano e uma dramática redução nos programas de saúde pública e de controle de doenças, as chamadas doenças vetoriais – transmitidas por insetos como mosquitos e carrapatos – aumentam e se espalham em novas partes da Venezuela.

O país foi declarado livre de malária em 1961 pela Organização Mundial de saúde (OMS). Mas os pesquisadores revelaram que as infecções da doença aumentaram 359% entre 2010 (29.736 casos registrados) e 2015 (136.402 casos). Apenas entre 2016 e 2017, o crescimento foi de 71%, aumentando de 240.613 para 411.586 casos em razão da redução do controle dos mosquitos e da escassez de medicamentos.

“A dura realidade é que, como consequência da ausência de vigilância, diagnóstico e medidas preventivas, essas cifras provavelmente subestimam a situação verdadeira”, alertou Llewellyn.

Segundo o estudo, a transmissão da doença de Chagas – que mais causa insuficiências cardíacas na América Latina – é a mais alta em 20 anos na Venezuela. As infecções da doença em menores de 10 anos entre 2008 e 2018 tiveram percentual de 12,5% em algumas comunidades, em contraste com o índice de 0,5 em 2018, o mais baixo já registrado no país.

As infecções por dengue se multiplicaram entre 2010 e 2016, com 211 casos para cada 100 mil habitantes. Os especialistas detectaram seis epidemias nacionais da doença que aumentaram progressivamente de proporção entre 2007 e 2016.

Os casos de chikungunya e zika com possibilidade de provocar epidemias também aumentaram. Estima-se que até dois milhões de pessoas estivessem contagiadas com o vírus do chikungunya, número doze vezes maior do que as estimativas oficiais.

Os pesquisadores alertam ainda para os efeitos da migração em massa de venezuelanos para os países vizinhos, como o Brasil e a Colômbia. Com a média diária de 5,5 mil pessoas que atravessaram a fronteira em 2018, esses países também podem sofrer, potencialmente, surtos de doenças infecciosas.

Nesse contexto, algumas regiões brasileiras fronteiriças também teriam detectado um aumento dos “casos importados de malária”, como em Roraima, onde passaram de 1.538 em 2014 a 3.129 em 2017. Em outros países, dizem os cientistas, a situação “não está clara” – motivo pelo qual recomendam reforço da cooperação bilateral no âmbito do combate a doenças.

O controle eficaz da “crescente crise sanitária” também precisará de políticas de “coordenação regional” e um “compromisso sólido” da comunidade nacional e internacional, dizem os estudiosos. “Pedimos aos membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) e outros organismos políticos internacionais que exerçam mais pressão sobre o governo venezuelano para que aceite a ajuda humanitária oferecida pela comunidade internacional para reforçar o sistema de saúde”, afirma Llewellyn.

RC/rtr/efe/dpa