“E assim acaba o mundo…”

“… não com uma explosão, mas com um gemido”, concluía T. S. Eliot, em The Hollow Men .

Uma pandemia não é menos destrutiva que uma guerra. Pode, no entanto, ser desqualificada, total ou parcialmente. Sejamos claros: em nenhum momento a COVID-19 assolou o Brasil como agora. Crescem as internações e mortes. Disseminam-se variantes virais, provavelmente mais transmissíveis e talvez causando doença mais grave. Pior: é possível que essas variantes escapem à imunidade conferida pelas vacinas.

Que essa não é uma situação sem esperança demonstram os exemplos da Nova Zelândia, Alemanha e Espanha. E o movimento coerente (ainda que tardio) do município de Araraquara, no interior paulista. Porém vivemos uma epidemia de cegueira que ultrapassa as previsões de Saramago. O pacto coletivo de autoengano consistia em negar o que ocorre na Europa. Agora se estende a ignorar o colapso da cidade vizinha.

Como entender que Araraquara e Jaú estejam em lockdown enquanto Bauru, a 55Km da última, faz passeatas pelo direito de aglomeração? Sem dúvida esse é um caso para análise em antropologia e ciências do comportamento. Não que se menosprezem os danos econômicos, sociais e psicológicos do distanciamento. Mas na emergência da saúde pública, o valor intrínseco da vida deve ser reforçado. Não sabemos tudo, mas já acumulamos fortes evidências. As “medidas não farmacêuticas”, incluindo distanciamento social por fechamento de comércio, inibição de aglomerações e uso rigoroso de máscaras são o único (amargo) caminho para interromper a progressão da COVID-19.

Não conseguiremos vacinar a tempo. É possível que o vírus se antecipe à vacina, com suas mutações de escape. A transmissão do coronavírus gera oportunidades para surgimento de variantes. É urgente, pois, interrompê-la. Mas se continuarmos a pensar que Araraquara e Jaú são longínquas ilhas do Pacífico marcharemos rapidamente para o colapso da saúde. Não no Estado de São Paulo, mas no país.

Passamos pela fase da ilusão de “enterros falsos”. Muitos de nós já tiveram vítimas fatais na família. Também já estão soterradas as pílulas milagrosas, cloroquina, ivermectina e nitazoxanida. Os antivirais com resultados promissores são novos, caros, inacessíveis. O prefeito de Araraquara já menciona dificuldade em conseguir oxigênio. O caos está aqui, está em todo lugar.

Pesa sobre nós uma escolha. De um lado temos o darwinismo social, em que aceitaremos a morte de centenas de milhares como uma pequena inconveniência suportada em nome da economia. Do outro, a chance de aprender com as lições positivas e negativas de outros países. Como bom exemplo, temos a Nova Zelândia. No extremo oposto, os Estados Unidos. Ainda há tempo para deixarmos de bater continência a réplicas da Estátua da Liberdade e reconhecermos que Trump levou seu país ao fundo do poço da saúde pública.

Não será o fim do mundo, mas já é uma catástrofe sem precedentes. Silenciosa, exceto pelos ruídos de ambulâncias e ventiladores mecânicos, quando existem. Ou pelos gemidos daqueles a quem falta o ar. Uma agonia tão intensa e destrutiva quanto bombardeios.

Manipular politicamente o boicote às medidas óbvias de contenção da COVID-19 foi a receita para o caos, tanto nos Estados Unidos quanto no Amazonas. Não é muito desejar que aprendamos com nossos erros. “O que a vida quer da gente”, diria Guimarães Rosa, “é coragem”.

Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza , Professor Associado da Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista (UNESP). Presidente Eleito da Sociedade Paulista de Infectologia, diretor da International Federation of Infection Control (IFIC) .
Luís Fernando Aranha Camargo , Professor Adjunto de Infectologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Dimas Tadeu Covas , Professor Titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP). Diretor do Instituto Butantan.
Marcos Boulos , Professor Titular aposentado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)
Rodrigo Nogueira Angerami , Médico infectologista, Coordenador do Núcleo de Vigilância Epidemiológica, Hospital de Clínicas, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Coordenador Nacional do Program for Monitoring Emerging Diseases (ProMED) da International Society of Infectious Diseases .
Benedito Antônio Lopes da Fonseca , Professor associado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP)
Eduardo Massad , Professor Titular da Fundação Getúlio Vargas- RJ, Professor Titular Aposentado da Universidade de São Paulo, Professor Honorário da London School of Hygiene and Tropical Medicine.
Francisco Coutinho , Professor Senior do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina de Universidade de São Paulo (USP)
Gonzalo Vecina , Professor da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo (USP)

Ministério da Saúde ignorou recomendação de trazer seringas por avião e trouxe por navio

Secretaria Executiva da pasta, comandada pelo oficial do Exército Élcio Franco, ignorou o alerta feito por parecer dos técnicos da Pasta e optou pela entrega da seringas por navio, em vez de avião.

O Ministério da Saúde não seguiu as orientações de técnicos da própria Pasta sobre a necessidade do Brasil adquirir seringas com entrega por frete aéreo para assegurar os insumos necessários à vacinação contra a Covid-19. A secretaria executiva do ministério, controlada pelo oficial do Exército Élcio Franco, ignorou o alerta e optou que a entrega fosse feita por via marítima, “mesmo cientes das diferenças quanto ao tempo de entrega”. Nesta quarta-feira (13), o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o Brasil não possui seringas suficientes para iniciar a vacinação.

Segundo reportagem do jornal O Globo a previsão é que as primeiras seringas entregues por via marítima, de 1,9 milhão de unidades, chegassem no dia 25 de janeiro. Um segundo lote seria entregue somente em março. Caso o material fosse transportado por via aérea, 20 milhões de seringas teriam sido entregues em dezembro do ano passado. O alerta sobre a diferença nos prazos foi comunicado  pela Organização Panamericana da Saúde (Opas) ao Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do ministério, em setembro de 2020. 

‘”[…] Os fornecedores cotados poderão iniciar as entregas de 20 milhões de unidades em dezembro de 2020, 17.256 milhões de unidades em janeiro de 2021 e 2.744 milhões de unidades em fevereiro de 2021 no valor total de US$ 4.679.406,76 (quatro milhões, seiscentos e setenta e nove mil, quatrocentos e seis dólares e setenta e seis centavos), já inclusos preços de produto, frete, seguro e taxa administrativa da Organização. Isto posto, este Departamento se posiciona favorável à continuidade desta aquisição, considerando o risco de não entrega das seringas pelo mercado nacional até dezembro 2020″’, destaca um trecho do documento, segundo a reportagem.

Amazonas está vivendo as consequências das aglomerações em festas de fim de ano, alerta imunologista

Nos últimos 14 dias, o Amazonas viu alta de 72% nas contaminações e 80% nas mortes causadas pela covid-19 no estado.

De acordo com o ministro, entre as iniciativas estão a reorganização do atendimento nos postos de saúde e hospitais, o recrutamento de profissionais de saúde e a abertura de leitos de UTI. Além dessas medidas, informou que haverá envio de equipamentos, insumos e medicamentos. O evento foi realizado no Centro de Convenções do Amazonas Vasco Vasques.

“Minha posição aqui é de apoio. Eu sou o apoio, vou apoiá-los com minhas equipes, com tudo que vocês precisarem. E com o conhecimento que adquirimos ao longo do último ano”, disse Pazuello.
O ministro participou da entrega de dez leitos de UTI e 118 leitos clínicos no Hospital Universitário Getúlio Vargas, em Manaus.

Para o especialista em bioquímica e imunologia, Marco Antonio Stephano, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), a ajuda do governo federal ao Amazonas é positiva, mas não deve suprir totalmente as necessidades do estado neste momento.

“Não é suficiente porque os casos estão muito mais altos do que isso. Essa alta é uma consequência das festas. Passamos nove dias do fim das festas de Ano Novo e nós estamos vendo os casos subirem”, afirmou à agência de noticias Sputnik Brasil.

Em todo o Amazonas, os hospitais tanto da rede pública quanto da rede privada encontram-se com mais de 90% dos leitos ocupados, sejam normais ou de UTI.

Para Pazuello, o sistema de saúde amazonense precisa focar em diminuir a entrada de outras doenças nos hospitais. “Precisam ser tomadas medidas para diminuir a entrada nos hospitais de outras doenças, acidentes, assaltos e tiroteios. Nós temos que tentar diminuir a entrada [dessas outras doenças], porque a entrada da covid-19 a gente não domina”, disse o ministro.

Segundo Stephano, a fala do ministro é correta e o estado precisa suspender as cirurgias eletivas.

“Uma vez que as UTIs estão lotadas, você não vai fazer uma cirurgia que pode dar errado e que corre o risco de ter que colocar um paciente em UTI sem ter vaga para ele. Você acaba provocando duas mortes: a da pessoa com covid-19 e a da pessoa que está passando por uma cirurgia eletiva”, explicou.

‘Aplicativo não deve substituir médico’

Durante o evento, o Ministério da Saúde lançou o aplicativo TrateCov, ferramenta que vai implantar um novo método científico para detectar casos de covid-19 nos postos de saúde.

Sem dar muitos detalhes, o governo federal informou que o aplicativo vai utilizar “um protocolo clínico para fazer um diagnóstico rápido da doença”. Manaus será a primeira cidade brasileira a testar o TrateCov.

Stephano alertou que a novidade pode ser uma importante ferramenta para passar informações corretas aos pacientes, mas que não deve substituir a consulta médica.

“Em função dos sintomas que estão sendo apresentados, você pode ter uma perspectiva se deve procurar um médico ou não, mas um aplicativo não substitui um médico”, comentou.

Para o professor da USP, o TrateCov pode ter efeito de tranquilizar um paciente ao passar as informações corretas sobre a doença.

“O aplicativo, o atendimento e as informações tranquilizam o paciente. Isso vale a pena. Você ter com quem entrar em contato, com quem conversar, alguém que vai te passar a informação correta. Existe muita informação falsa, existe muita fake news”, disse.

‘Manaus deve abrir covas coletivas para as vítimas da covid-19’
Entre abril e junho, o maior cemitério público de Manaus teve caixões enterrados, empilhados e em valas comuns por conta do colapso do sistema funerário causado pelo novo coronavírus. Na época, o número de mortes ficou 108% acima da média histórica.

Manaus registrou 130 enterros apenas no último sábado (9). O recorde foi no dia 26 de abril, quando 140 pessoas foram sepultadas.

O imunologista lembrou que muitas estruturas que foram montadas provisoriamente no Amazonas durante o primeiro pico da covid-19 no estado acabaram sendo desmontadas, mas podem ser instaladas novamente.

“Manaus tem condições de abrir covas coletivas como já abriu no passado — começar a fazer isso tudo novamente. O que vai acontecer são enterros rápidos, sem velório, só com a família”, disse.

O prefeito de Manaus (AM), David Almeida (Avante), decretou na semana passada estado de emergência na cidade por 180 dias para tentar conter o aumento do número de casos de covid-19.

Apesar da recente alta no número de sepultamentos, Marco Antonio Stephano acredita que o sistema funerário do estado não vai entrar em colapso total novamente.

“Colapso total [no sistema funerário] eu não acredito que vá acontecer, porque isso consegue ser revertido de uma forma mais rápida. Mas você vai ter que implantar câmaras frigoríficas para manter esses cadáveres, até que seja feita a liberação do corpo, o diagnóstico correto, e tudo isso”, analisou.

O secretário Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) de Manaus, Sabá Reis, em entrevista ao portal G1, afirmou nessa segunda-feira (11) que a cidade não vai ter enterros em valas comuns e anunciou a construção de mais 22 mil lóculos, estruturas verticais popularmente conhecidas como “gavetas”, nos cemitérios da cidade. (com agência Sputnik Brasil)

Fatos & Fotos – 09/01/2021

Boa noite
O remorso
Jorge Luis Borges

Eu cometi o pior dos pecados
que um homem pode cometer. Eu não fui
feliz. Que o frio do esquecimento
arraste-me para baixo e me perca, implacável.

Meus pais me criaram para o jogo
arriscado e bonito de vida,
para terra, água, ar, fogo.
Eu os decepcionei. Eu não estava feliz. Realizado

não era sua jovem vontade. Minha mente
foi aplicado ao teimoso simétrico
da arte, que tece ninharias.

Eles me deram coragem. Eu não fui corajoso.
Não me abandona. Está sempre ao meu lado
A sombra de ter sido infeliz.


Claude Monet,Œillets et clématites dans un vase de cristal,1882 – 56X35cm


Laboratório brasileiro planeja começar a fabricar vacina russa na próxima semana. Os governos da Bahia, Paraná e Piaui farão parceria com a empresa na realização dos testes clínicos.

A farmacêutica brasileira União Química planeja começar a produzir a vacina russa Sputnik V para covid-19 no Brasil já na próxima semana e produzir até 8 milhões de doses por mês, disse o diretor de negócios internacionais Rogério Rosso nessa sexta-feira.

A empresa privada, com unidade de vacinação em Brasília, se prepara para solicitar autorização de uso emergencial do órgão regulador sanitário Anvisa para a vacina desenvolvida em Moscou.

A União Química solicitou na semana passada a aprovação para realizar os ensaios clínicos Fase III no Brasil, que é necessária para o licenciamento da vacina no país.


A arte de Artur Bispo do Rosário


Cidades com até 20 mil habitantes registram crescimento de 500% no número de mortes por Covid
O percentual de mortes no Brasil como um todo foi menos da metade no segundo semestre.


Pintura de Frank W Benson,1895


Foto do dia – Pierre Pellegrini


Reconheçamos: nem o Trump nem Bolsonaro se elegeram sem que os eleitores soubessem exatamente que tipo de b*sta estavam elegendo. Os dois tenebrosos não enganaram ninguém.


Espero que os eleitores, apoiadores, idólatras e também os insensatos, prestem atenção que tipo de governo estão cevando. Enquanto líderes mundiais se deixam fotografar recebendo a vacina contra a covid, Vácuo Mental decreta que sua(dele) caderneta de vacinação permaneça sob sigilo por 100 anos. A pergunta que não quer calar é: por quê?


Escultura de Mikhail Gubin


Arthur Lira presidente da Câmara dos Depufedes? Caso esse elemento, da gangue do Vácuo Mental, seja eleito Presidente da Câmara dos Deputados, ocupará o terceiro posto na hierarquia da República. No currículo: rachadinha: propina e violência doméstica. Só!


É hora de alugar, não comprar, eletrônicos? O lixo eletrônico é um problema crescente. Mas se os fabricantes mantivessem a propriedade de seus produtos e os alugassem para nós, a reciclagem poderia fazer sentido para os negócios. Em 2020, geramos um recorde de 53,6 milhões de toneladas métricas de lixo eletrônico.


Como está não dá. Ou esse general incompetente pede para passar para a reserva, ou deixa o Ministério da Saúde. Como está, o prestígio das FFAA continuará ladeira abaixo. O certo é que o Exército Brasileiro não pode continuar submetido a vexames e humilhações.


Pintura de Karen L Darling


O Vácuo Mental, Bolsonaro, é tão caótico que prefere agradar a parcela amalucada de seus apoiadores antivacina, do que tentar capitalizar em cima das vacinas que a imensa maioria da população aguarda. Isso tudo com a ideia de defender uma liberdade da qual ele nunca foi partidário.


Escultura de Francisco Rebajes
The Kiss,1940,aço


Motocicleta Steampunk

O movimento steampunk, misto de ficção científica e  arte, foi adotado por artistas no anos 80 e, para alguns, a partir da “atmosfera” do magnífico “ Blade Runner”.

Muito dos objetos desembocaram em peças que adornaram filmes como Mad Max e, mais sofisticadamente elaborados, na série Guerra nas Estrelas.
Quem quiser conhecer melhor o movimento “steampunk” há uma matéria no Boston Globe, que disserta sobre o movimento.

Como obra de arte o movimento steampunk faz uma especulação sobre o que aconteceria se a tecnologia da informação tivesse surgido no século XIX e, em vez da eletrônica, usasse o vapor.


Pintura de Odilon Redon


 

América Latina reage à alta da covid-19, mas Brasil segue inerte

Janeiro trouxe uma escalada de novos casos de covid-19 na América Latina.

Ainda não está claro se este é o início de uma segunda onda ou um agravamento da primeira após algumas semanas de trégua. Enquanto a região espera a chegada das primeiras doses da vacina —só Argentina, México, Chile e Costa Rica iniciaram campanhas de imunização—, a solução à disposição continua sendo a quarentena.

Os Governos, no entanto, terão que enfrentar a resistência social a novos confinamentos. Federico Rivas Molina e Sonia Corona contam como Buenos Aires estuda um “toque de recolher sanitário” e a Cidade do México fechou atividades não essenciais diante do aumento do número de leitos de UTI ocupados, mas nada fez o Brasil. Apesar dos números em alta e do atraso na vacinação, a maioria das autoridades brasileiras segue inerte.

Nos Estados Unidos, a jornada desta quarta-feira se adivinha wagneriana. Um grupo de senadores e congressistas republicanos planeja torpedear a certificação do democrata Joe Biden como vencedor das eleições presidenciais, prevista para ocorrer em uma sessão bicameral no Capitólio. A investida não tem perspectiva de se traduzir em nada mais do que uma manifestação da polarização.

Trump manteve o clima de tensão no ar, desta vez mirando seu número dois, o vice-presidente Mike Pence, que deve presidir a cerimônia. O nova-iorquino pediu que Pence use seu posto para impedir a confirmação de Biden, algo que não pode fazer.

Enquanto Trump se dedica a manobras sem efeito, o Estado da Geórgia define a margem de manobra que Biden terá sobre o Senado. O democrata já avançou com a vitória de Raphael Warnock em uma das duas vagas — o pastor evangélico fez história ao se tornar o primeiro senador negro a ser eleito neste Estado sulista. Se o outro candidato democrata vencer, o Senado ficará formado por 50 republicanos e 50 democratas (incluindo dois independentes), mas a próxima vice-presidenta, Kamala Harris, exercerá o voto decisivo nos casos de empate.

Em Brasília, o único tema é a sucessão no comando do Congresso, especialmente na Câmara dos Deputados. Com o objetivo de conter Jair Bolsonaro, a esquerda se aliou ao candidato do atual presidente, Rodrigo Maia, o deputado Baleia Rossi, um dos articuladores do impeachment de Dilma em 2016, contra o candidato do Planalto, Arhur Lira, explica Afonso Benites. Baleia Rossi formaliza nesta quarta sua candidatura. Para o cientista político Cláudio Couto, o apoio representa a tentativa de manter os Poderes independentes. “É uma aliança visando estabelecer a independência do Legislativo, ainda mais diante dos arroubos autoritários do Bolsonaro. Se ele se comportou até aqui dessa forma tendo o Congresso independente, imagina se não o tivesse”, avalia.

E a Rússia deu adeus a George Blake ao som do hino nacional e com as salvas da guarda nacional de honra. O legendário espião britânico, que trabalhou para a União Soviética na época culminante da Guerra Fria, antes de ser descoberto, condenado e de protagonizar uma fuga cinematográfica em 1966, recebeu na quarta-feira uma despedida notável. De Moscou, María R. Sahuquillo escreve sobre a morte do mítico agente duplo marca o ocaso de uma época de espionagem em que o fator humano era decisivo.

Os fura-filas da vacinação contra a covid-19 mostram a nefasta versão 2.0 do jeitinho brasileiro

Fenômeno é reflexo da perda de valores sociais de coletividade e é potencializado, segundo especialistas, pela polarização política. Punição de infratores não deveria paralisar imunização, como em Manaus

No grande festival fura-fila que se tornou a vacinação contra a covid-19 em vários Estados brasileiros, juízes federais do Rio Grande do Sul tentam encomendar doses do imunizante Covaxin, fabricada pela empresa indiana Bharat Biontech, pelo preço de 800 reais por duas doses. Essa vacina ainda não foi aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e sua precificação é ilegal, já que não foi definida na Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Mas esse é apenas o exemplo mais recente de como o processo de vacinação durante a pandemia escancara a crise moral que assola o país e que, segundo diferentes especialistas, é potencializada pela polarização política dos afetos.

O Ministério Público do Amazonas pediu a prisão preventiva do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), e da secretária municipal de Saúde, Shadia Fraxe, por suposta fraude no processo de vacinação. Eles são acusados de desviar recursos de saúde para “atender a interesses particulares” e imunizar pessoas com “ligações políticas e econômico-financeiras” com Almeida. Em Pires do Rio (GO), o agora ex-secretário de Saúde Assis Silva Filho incluiu a si própria e a sua mulher na lista de vacinação antes dos grupos prioritários. Denunciado pelo Ministério Público (MP) do Estado, ele fez acordo para pagar 50.000 reais de multa e deixou o cargo.

Também é notório o caso do caso da enfermeira Nathanna Faria Ceschim, da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (ES), que publicou nas redes sociais um vídeo questionando a eficácia da Coronavac e, dias depois, fez outra publicação dizendo que tinha se vacinado apenas para viajar. Ela foi demitida na última segunda-feira (25/01). Já na quinta-feira, uma técnica de enfermagem foi afastada após ter simulado aplicar a vacina em uma idosa de 97 anos, em Maceió. A cuidadora da nonagenária filmou o momento e denunciou a prática da profissional.

“Estamos vivendo a versão 2.0 do jeitinho brasileiro, que se aproveita do desespero dos demais para tirar vantagem”, lamenta Renato Meirelles, fundador e presidente do Instituto Locomotiva. Em junho de 2020, o Instituto publicou uma pesquisa mostrando que um terço das classes A e B usufruiu do auxílio emergencial criado para a população socioeconomicamente vulnerável. “A fraude é transversal a todas as classes econômicas, mas ela foi acentuada pelas narrativas de disputa política. Vivemos um enfrentamento entre o campo da ação civilizatória e o da barbárie”, explica. Já não se trata de uma disputa “entre direita e esquerda”, mas de uma oposição entre aqueles que sabem que a Terra é redonda e os que acreditam no terraplanismo.

“A noção deles de liberdade não é a favor, é sempre contra os outros. É a liberdade de fazer os outros morrerem”, avalia Renato Janine Ribeiro, filósofo e professor de Ética na USP (Universidade de São Paulo). Ele concorda com a chanceler alemã, Angela Merkel, que disse que a pandemia de covid-19 é o maior desafio da humanidade desde a Segunda Guerra Mundial. “E o mais grave é que a pandemia chegou em um período de racha no mundo, desde a crise de 2008, quando a extrema direita se ergueu e construiu governos antissolidários, com agendas de destruição e não de construção”, acrescenta.

E, no Brasil, como lembra Meirelles, a narrativa do que é certo ou errado depende, historicamente, das circunstâncias. “É um país onde as elites consideram o privilégio um direito adquirido e impera o lema farinha pouca, meu pirão primeiro. Não teria nenhum problema, por exemplo, as pessoas quererem comprar vacina, se têm dinheiro para isso, caso houvesse uma abundância de imunizantes, mas há uma escassez”, argumenta.

Ambos especialistas consideram que as infrações individuais no processo de imunização são espelho das falhas institucionais de um Governo que, inicialmente, negou a gravidade da pandemia, e depois recusou-se a montar estratégias para prevenir o avanço do contágio e preparar uma imunização com insumos e capilaridade suficientes. “Se a situação política fosse outra, não perderíamos tempo discutindo fatos e já teríamos entendido, como sociedade, que o uso da máscara é para proteger o outro, para proteger a vida em sociedade, um princípio que rege também a proibição de fumar em local fechado, por exemplo”, diz Meirelles.

O fundador do Instituto Locomotiva explica que o fato de o Brasil viver “uma contínua crise econômica”, que remonta a 2015, gera também uma crise de perspectiva: como os cidadãos perderam muito —financeiramente e em outros aspectos—, surge uma raiva e um sentimento antissistema que fomenta atitudes individualistas. A disputa de narrativas políticas que leva à polarização acaba provocando rupturas no tecido social. “Os atores políticos que surfaram nessa onda, entre eles [Jair] Bolsonaro, tourearam as raivas da população e foram limando um sentimento de coletividade em prol do individualismo”, argumenta.

“E a situação é agravada pelos grandes passadores de pano, que são lenientes com as atitudes do Governo Federal”, acrescenta Janine Ribeiro ao citar os mais de 60 pedidos de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro que aguardam tramitação na Câmara dos Deputados, presidida por Rodrigo Maia (DEM). O filósofo acredita, no entanto, que a sociedade brasileira ainda não chegou a um ponto de não retorno e tem chance de resgatar valores civilizatórios. Ele usa a Alemanha como exemplo ao lembrar que, décadas depois do nazismo —”que foi a pior coisa do século XX”—, o país fez um ajuste de contas com seu passado de autoritarismo e se consolidou como uma república garantista de direitos.

O desafio nesse caminho, no entanto, é que o Brasil “nunca processou sua história”, de acordo com o filósofo. “A ditadura é um exemplo disso. Cada vez que o Brasil sai de uma grande crise, ele a varre para debaixo do tapete, quando o que deveria fazer é olhá-la, fazer questionamentos, procurar os responsáveis e puni-los”, afirma.

Crime e castigo

No caso dos fura-filas da vacina contra a covid-19, o advogado Marcelo Válio, especialista em Direito Constitucional, explica que não faltam instrumentos legais para responsabilizá-los. O primeiro que cita é o Artigo 268 do Código Penal, que dispõe sobre a infração de medida sanitária preventiva. “É justamente o caso de quem passa na frente de grupos prioritários, mesmo conhecendo as determinações das autoridades de saúde”, diz. O jurista também cita a Lei 13.869 de 2019, que atribui crime de responsabilidade a prefeitos que desviem “bens [no caso, as vacinas], rendas ou serviços públicos” para benefício próprio ou de terceiros.

Válio salienta que, pelo menos nos casos citados nesta reportagem, também há corrupção passiva e ativa e que, de modo geral, não deveria existir dificuldade para a punição dos infratores. “Os Ministérios Públicos Estaduais têm competência para denunciar essas pessoas. No caso de secretários de saúde [como o que vacinou a esposa como uma declaração de amor], o MP pode entrar com uma medida cautelar de suspensão do exercício de função pública [previsto no Artigo 319 do Código de Processo Penal]”.

O epidemiologista Antonio Lima, especialista em saúde pública, considera, no entanto, que o país deve ter outras prioridades antes de voltar-se para a punição dos infratores. “Claro que eles devem ser punidos no rigor da lei, mas, para que isso seja feito, não podemos permitir que as investigações travem a campanha de vacinação, como aconteceu em Manaus”, pondera. A vacinação na capital amazonense foi suspensa no dia 22 de janeiro, após a suspeita de fraude na distribuição e aplicação das doses, e só foi retomada quatro dias depois. Na terça-feira (26/01), a juíza federal Jaiza Fraxe suspendeu a distribuição das vacinas de Oxford (produzidas em parceria com a AstraZeneca) em Manaus para garantir total transparência na programação e critérios de vacinação.

“É perigoso travar a campanha de imunização, temos é que correr, ainda mais quando não há previsão de insumos imunológicos”, afirma Lima, que defende que a vacinação de profissionais de saúde deveria ocorrer concomitantemente com a imunização de idosos entre 65 e 85 anos. Segundo o epidemiologista, a média etária de maior mortalidade por covid-19 é de 72 anos.

O pesquisador espanhol, Lluis Montoliu, também argumenta que os furas-filas devem receber a segunda dose da vacina, mesmo tendo cometido uma falha inaceitável: “Estas pessoas devem receber a segunda dose, porque é maior o bem que obtemos ao vaciná-las (protegendo a elas e ao resto da população) que o dano que elas cometeram à sociedade ao se vacinarem antes da hora, ou que o dano que causaríamos à sociedade ao interromper o protocolo de vacinação e causar risco a essas pessoas e ao seu entorno”, escreveu ele.

Lima lembra que, além da escassa quantidade de doses no país, a eficácia —muito inferior aos 95% da vacina contra a influenza, por exemplo—, é “muito boa” para evitar hospitalizações e mortes, mas exige uma cobertura grande coletiva. Ou seja, trata-se de uma vacina que tem potencial para frear a pandemia e desafogar as UTIs, principalmente do SUS (Sistema Único de Saúde). Por isso, o epidemiologista tem pressa e ecoa a dúvida urgente de milhões de brasileiros: “Quanto tempo vamos levar para colocar a vacina no braço de quem precisa?”.

O que se sabe sobre a nova variante do coronavírus que levou a novo lockdown na Inglaterra

GETTY IMAGES
A Inglaterra implementou novas restrições após descoberta de variente do coronavírus

Autoridades da União Europeia (UE) estão discutindo uma resposta conjunta a uma nova variante do Sars-CoV-2 que é mais infecciosa e foi detectada no Reino Unido.

Mais de 40 países já fecharam suas fronteiras com o país até o momento, por receio da disseminação da nova variante.

Um aumento de casos de coronavírus no sudeste e leste inglês, incluindo Londres, está ligado à disseminação desta nova variante — embora ela já seja encontrada em todo o país, de acordo com o governo britânico.

Isso fez com que o primeiro-ministro Boris Johnson anunciasse medidas mais rígidas de isolamento para 20 milhões de pessoas na Inglaterra e em todo o País de Gales.

A nova variante, surgida após mutações, se tornou a forma mais comum do vírus em algumas partes da Inglaterra em questão de meses. O governo britânico diz que há motivos para acreditar que ela seja bem mais contaminante, possivelmente 70% mais transmissível.

O estudo dessa nova forma do coronavírus ainda está em um estágio inicial, contém grandes incertezas e uma longa lista de perguntas sem resposta.

Os vírus sofrem mutações o tempo todo e é vital entender se essas mutações estão ou não mudando o comportamento do vírus e alterando a doença. Essa variante específica está causando preocupação por três motivos principais:

• Ela está substituindo rapidamente outras versões do vírus

• Ela possui mutações que afetam partes do vírus que são provavelmente importantes

• Já se verificou em laboratório que algumas dessas mutações podem aumentar a capacidade do vírus de infectar células do corpo.

Tudo isso constrói um cenário preocupante, mas ainda não há certeza. Novas cepas podem se tornar mais comuns simplesmente por estarem no lugar certo na hora certa — como a cidade de Londres, que tinha poucas restrições até recentemente.

“Experimentos de laboratório são necessários, mas é desejável esperar semanas ou meses para ver os resultados e tomar medidas para limitar a propagação? Provavelmente não nessas circunstâncias”, diz Nick Loman, professor do Instituto de Microbiologia e Infecção da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, que defende as restrições para tentar conter essa versão do vírus.

Quão rápido ela está se espalhando?

Essa cepa foi detectada pela primeira vez em setembro. Em novembro, cerca de um quarto dos casos em Londres eram causados por essa nova variante, aumentando para quase dois terços dos casos em meados de dezembro.

Pesquisadores têm calculado a dispersão de diferentes variantes na tentativa de estabelecer o quão infecciosas elas são. Mas separar o que é devido ao comportamento das pessoas e o que é devido ao vírus é difícil.

O dado citado pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, é que a variante pode ser até 70% mais transmissível — é um dado que havia aparecido em apresentação do pesquisador Erik Volz, do Imperial College de Londres, na sexta-feira.

Durante a palestra, ele disse: “É realmente muito cedo para dizer… Mas pelo que vimos até agora, está crescendo muito rapidamente, está crescendo mais rápido do que [uma variante anterior] jamais cresceu. É importante ficar de olho.”

Não há um número “certeiro” de quão mais infecciosa pode ser essa variante. Números muito mais altos e muito mais baixos do que 70% estão aparecendo em pesquisas ainda não publicadas integralmente.

Inclusive ainda há dúvidas se essa versão é realmente mais infecciosa.

“A quantidade de evidências em domínio público é inadequada para chegar a conclusões firmes sobre se o vírus realmente aumentou sua transmissibilidade”, diz o virologista Jonathan Ball, professor da Universidade de Nottingham.

Ao se replicar, os vírus geram mutações ou erros na sequência dos compostos representados pelas letras ‘a’, ‘g’, ‘c’, ‘u’

Como ela surgiu e se espalhou?

Acredita-se que a variante surgiu em um paciente no Reino Unido ou foi importada de um país com menor capacidade de monitorar as mutações do coronavírus.

Atualmente, ela pode ser encontrada em todo o Reino Unido, exceto na Irlanda do Norte, e está fortemente concentrada em Londres, sudeste e leste da Inglaterra. Os casos em outras partes do país não parecem ter decolado.

Dados da Nextstrain, que monitora os códigos genéticos das amostras virais em todo o mundo, sugerem que casos com essa variante na Dinamarca e na Austrália vieram do Reino Unido. A Holanda também relatou casos.

Uma variante semelhante que surgiu na África do Sul compartilha algumas das mesmas mutações, mas parece não estar relacionada a esta.

Isso já aconteceu antes?

Sim. O vírus que foi detectado pela primeira vez em Wuhan, China, não é o mesmo que você encontrará na maioria dos cantos do mundo.

A mutação D614G surgiu na Europa em fevereiro e se tornou a forma globalmente dominante do vírus. Outra, chamada A222V, se espalhou pela Europa e estava ligada às férias de verão na Espanha.

O que sabemos sobre as novas mutações?
Uma análise inicial da nova variante foi publicada e identifica 17 alterações potencialmente importantes.

Houve mudanças na proteína spike — que é a “chave” que o vírus usa para abrir a porta de entrada nas células do nosso corpo e sequestrá-las. A mutação N501 altera a parte mais importante do spike, conhecida como “domínio de ligação ao receptor”. É aqui que o spike faz o primeiro contato com a superfície das células do nosso corpo. Quaisquer alterações que tornem mais fácil a entrada do vírus provavelmente serão uma vantagem para o patógeno.

“Parece ser uma adaptação importante”, disse Loman.

A outra mutação — batizada de H69/V70 — apareceu algumas vezes antes, incluindo nos visons infectados na Dinamarca.

A preocupação era que os anticorpos do sangue daqueles que sobreviveram ao novo coronavírus fossem menos eficazes na defesa contra a nova variante do vírus. Mais uma vez, serão necessários mais estudos de laboratório para realmente entender o que está acontecendo.

O trabalho de Ravi Gupta, professor da Universidade de Cambridge, sugeriu em laboratório que essa mutação aumenta em duas vezes a capacidade do vírus de infectar células.

“Estamos preocupados, a maioria dos cientistas está preocupada”, diz Gupta.

Isso torna a infecção mais mortal?

Ainda não há evidências de que a variante seja mais mortal, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, mas governos e pesquisadores estão monitorando a questão.

Em uma entrevista coletiva posterior à fala de Ghebreyesus, Michael Ryan, diretor do programa de emergências da OMS, afirmou que a nova variante não representa uma situação “fora de controle”, pois a taxa de reprodução do vírus já foi bem maior em outros momentos da pandemia. Entretanto, ele reconheceu que as medidas preventivas decididas pelos países em resposta à cepa encontrada no Reino Unido são “prudentes”.

No momento, apenas ser mais transmissível já seria suficiente para a variante causar problemas nos hospitais. Se pessoas forem infectadas mais rapidamente, mais pessoas vão precisar de tratamento hospitalar em menos tempo.

Com a chegada das vacinas, o coronavírus sofrerá uma pressão natural para mutar a fim de infectar pessoas imunizadas, como ocorre com a gripe

As vacinas funcionarão contra a nova variante?
Acredita-se que sim, pelo menos por enquanto.

Mutações na proteína spike levantam perguntas porque as três principais vacinas — Pfizer, Moderna e Oxford — treinam o sistema imunológico para atacar a proteína spike.

No entanto, o corpo aprende a atacar várias partes dessa proteína. É por isso que as autoridades de saúde continuam convencidas de que a vacina funcionará contra essa nova variante.

“Mas se deixarmos essa variante se espalhar e sofrer mais mutações, isso pode se tornar preocupante”, diz Gupta. “Este vírus está potencialmente em vias de se tornar resistente à vacina, ele deu os primeiros passos nesse sentido.”

O vírus consegue se tornar resistente à vacina quando, ao mudar de formato, se esquiva dos efeitos da imunização e continua a infectar as pessoas.

O coronavírus evoluiu em animais e passou a infectar os humanos há cerca de um ano. Desde então, tem passado por quase duas mutações por mês — entre uma amostra colhida hoje e as primeiras da cidade chinesa de Wuhan há cerca de 25 mutações.

Ao longo de sua trajetória, o coronavírus ainda está “testando” diferentes combinações de mutações para infectar humanos de maneira adequada. Já vimos isso acontecer antes: o surgimento e o domínio global de outra variante (G614) é visto por muitos como o momento em que o vírus aprimorou sua capacidade de se espalhar.

Mas logo a vacinação em massa colocará um tipo diferente de pressão sobre o vírus, porque ele terá que mudar para infectar as pessoas que foram imunizadas. Se isso impulsionar a evolução do vírus, talvez tenhamos de atualizar regularmente as vacinas, como fazemos anualmente com a gripe sazonal, para manter o ritmo.

Segundo Anderson Brito, virologista do departamento de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, “os coronavírus evoluem principalmente por substituições de nucleotídeos” e “não fazem rearranjos genômicos como o vírus da gripe”.

“Mas, e as vacinas? Provavelmente serão efetivas por mais de um ano”, escreveu em seu perfil no Twitter.

Fatos & Fotos – 29/12/2020

 


As ilustrações de Tang Yau Hoong


Desemprego cresce 2,7% em um ano, enquanto aumenta a informalidade. A taxa de informalidade chegou a 38,8% da população ocupada com 32,7 milhões de trabalhadores informais no país.


Escultura de Mikhail Gubin XVIII


Uma pessoa dá uma festa de arromba de 5 dias, em plena pandemia, reunindo uma pequena multidão em sua mansão. A questão é: só dono da festa parece estar em outro planeta? E todos os envolvidos (músicos, convidados, empresas terceirizadas que dão suporte ao rega-bofe) ficam como?


Automóveis Clássicos – Desoto Hood,1946


Até Sócrates, Platão e Aristóteles vão ser vacinados e a gente não.
Grécia recebe primeiro lote da vacina da Pfizer; a vacinação começará amanhã. Além de 1,2 milhão de unidades esperadas da vacina americana, o país tem acorodo com as empresas Moderna e AstraZeneca.
Γαμώτο Μπολσονάρο.


Relatório da Polícia Federal mostrou que delação de Palocci foi inventada. Foi retirada de pesquisas na internet e notícias falsas de jornais.
E a golpista mor, Globo, divulgou 24 hs com vinheta de plantão. Serviu para gerar fato político na semana que antecedia as eleições de 2018.


Fim do auxílio emergencial.
O povo irá viver como?


Morreu Pierre Cardin. Visionário e pioneiro na moda, estilista francês tinha 98 anos


Como é, Bolsonaro? Não pode interferir na Anvisa para salvar vidas, mas na Polícia Federal e na Abin para proteger os filhos bandidos, pode?



Foto do dia Gjon Mili


Pintura de Gustav Klimt
Lady with a Fan, 1918


Estou impressionado como a vulgaridade infectou o país. Não que antes do Bolsonaro ela não existisse, mas esse governo abriu a porteira. Não  bastassem os Olavos e Saras, um site di-rei-tis-ta faz manchete que Fux “botou (aquilo) na mesa”. Não respeitam o STF ou é ele que não se dá ao respeito?


Ex-Libris Roman Nikolaevich Sustov


Motivos para o fracasso brasileiro:
1.Negacionismo
2.Troca de ministros da saúde na pandemia culminando com um que não conhece o SUS
3.Gasto de dinheiro com remédio que não funciona
4.Falta de planejamento para vacinação
5.Falta de liderança na crise
6.Descaso com a vida alheia
7.Uma vírus na rua e um verme no poder
8.Todas as acima


Fatos & Fotos – 28/12/2020

Declaração de Bolsonaro de que preferiria votar em Lula a Dória é milimetricamente calculada. Não caiam nessa!


Bolsonaro diz que fabricantes de vacinas é que devem procurar o Brasil, não o contrário. O mundo inteiro correndo atrás de vacinas para proteger a população e o presidente demonstrando, mais uma vez, seu desprezo pela vida do povo brasileiro. Que venha o impeachment!


Quando a gente pensa que não vai ouvir nada pior…
Juliana Paes: “Não bato palma para tudo que Bolsonaro diz, mas vamos apoiar já que ele está lá.”

Já que ele tá lá, sem política de #vacinação e com 190 mil mortos nas costas…
Já que ele está lá, tirando direitos dos trabalhadores…
Já que ele está lá destruindo a economia e entregando o país…
Vamos deixar ele lá, né?


Número de moradores de rua no Rio de Janeiro dispara na pandemia.

A crise da pandemia afetou a população e foi agravada pela falta de cuidado dos atuais gestores do Rio de Janeiro. Faltam ações efetivas e humanitárias para acolher os moradores em situação de rua.


Eu não pago nem um táxi com dinheiro, fico imaginando o peso das bolsas desse pessoal que compra apartamento em espécie.


Ainda não vi explicação razoável do governo para o atraso das vacinas. Pelo que se vê, o Brasil começará a aplicação com atraso de dois meses, mais ou menos. Neste tempo mais pessoas morrerão por falta de imunização. Entre outras coisas, Bolsonaro deve satisfação aos brasileiros.


Vacinação começou. Espanha, Portugal, Hungria, Israel, México, Chile, Porto Rico… Todos países com economias menores que as brasileiras. Não é falta de grana, é falta de governo mesmo. A pandemia demonstra que o principal problema de Bolsonaro é a mera e simples incompetência mesmo.



Foto do dia – Pierre Pellegrini


Adolf Kaufmann – Áustria – 1848/1916


Portugal já tem vacina comprada pra todos os portugueses. Serão seis fabricantes diferentes. Tem logística pronta pra cada fase da imunização. Avisou os portugueses por SMS que a vacinação começa amanhã.
E o brasileiro faz piada de burro com Português, vai entender…


Esculturas de Marc Perez


“Covid-19: Rio tem 92% de ocupação nos leitos de UTI da rede SUS, com fila de 113 pacientes; estado ultrapassa 420 mil casos” – Jornal O Globo. Não precisa ser especialista para afirmar: teremos o mês de janeiro mais trágico da nossa História.


Cerâmica – Colômbia, período pré-colombiano


“Não é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa”
Lima Barreto in “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”


Design – Colar


Elegia em forma de epístola
Albano Martins

A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.
Nascemos sem
passaporte,
entre fronteiras
guardadas por sentinelas de sal e de silêncio.
O rio da história
corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.
Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina de
humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.
O silêncio
é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.
Marinheiros
duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam

‘Não temos nada a esconder’: cientista estrela de Wuhan convida OMS para visitar laboratório no centro de polêmica por origem de coronavírus

Virologista chinesa Shi Zhengali aceitou visita da OMS a seu laboratório GETTY IMAGES

A cientista Shi Zhengli disse à BBC estar disposta a abrir as portas do polêmico laboratório na cidade chinesa de Wuhan para descartar as alegações de que foi lá que o coronavírus foi criado.

A declaração ocorre quando uma equipe da Organização Mundial da Saúde (OMS) se prepara para viajar a Wuhan em janeiro para fazer pesquisas sobre as origens do vírus SARS-CoV-2.

O remoto distrito de Tongguan, na província de Yunnan, sudoeste da China, é, na melhor das hipóteses, de difícil acesso. Quando tentamos visitá-lo recentemente, não conseguimos.

Policiais à paisana e em carros não identificados nos seguiram por quilômetros ao longo de estradas estreitas e acidentadas, parando quando parávamos e nos acompanhando quando fomos forçados a dar meia-volta.

Encontramos obstáculos em nosso caminho, incluindo um caminhão “quebrado”, que os moradores confirmaram ter sido colocado do outro lado da estrada alguns minutos antes de nossa chegada.

E nos deparamos com postos de controle onde homens não identificados nos disseram que seu trabalho era nos manter distantes dali.

À primeira vista, tudo isso pode parecer um esforço desproporcional dado o nosso destino pretendido, uma mina de cobre abandonada e indefinida onde, em 2012, seis trabalhadores sucumbiram a uma doença misteriosa que acabou ceifando a vida de três deles.

Mas a pandemia de covid-19 deu um novo significado a essa tragédia, que quase certamente teria sido amplamente esquecida.

Essas três mortes estão agora no centro de uma grande controvérsia científica sobre as origens do vírus e a questão de saber se ele veio da natureza ou de um laboratório.

E as tentativas das autoridades chinesas de nos impedir de chegar ao local são um sinal de como estão se empenhando para controlar a narrativa.

BBC encontrou estradas “bloqueadas” na China.

Estudo de campo

Por mais de uma década, as colinas cobertas de selva de Yunnan e os sistemas de cavernas dentro delas têm sido o foco de um gigantesco estudo de campo científico.

O estudo foi conduzido pela professora Shi Zhengli, do Instituto de Virologia de Wuhan (IVW).

A professora Shi foi elogiada internacionalmente por sua descoberta de que a doença conhecida como SARS, que matou mais de 700 pessoas em 2003, foi causada por um vírus que provavelmente veio de uma espécie de morcego em uma caverna de Yunnan.

Desde então, a professora Shi, conhecida como a “Mulher-morcego da China”, tem estado na vanguarda de um projeto para tentar prever e prevenir novos surtos desse tipo.

Ao capturar morcegos, retirar amostras de fezes deles e, em seguida, levar essas amostras para o laboratório em Wuhan, a 1,6 mil quilômetros de distância, a equipe por trás do projeto identificou centenas de novos coronavírus em morcegos.

Mas o fato de Wuhan agora abrigar o principal centro de pesquisa de coronavírus do mundo, bem como ser a primeira cidade atingida por um surto de uma nova e mortal pandemia, alimentou as suspeitas de que esses dois elementos pudessem estar conectados.

‘Boas-vindas’

O governo chinês, o IVW e a professora Shi rejeitaram fortemente a acusação de que o vírus chamado de SARS-CoV2 causador da covid-19 tenha saído do laboratório de Wuhan.

Mas com a chegada de cientistas indicados pela OMS para visitar Wuhan em janeiro para uma investigação sobre a origem da pandemia, a professora Shi, que pouco falou com a imprensa, respondeu a uma série de perguntas da BBC por email.

“Entrei em contato com os especialistas da OMS duas vezes”, escreveu ela, quando questionada se uma investigação poderia ajudar a descartar um vazamento de laboratório e acabar com as especulações. “Expressei pessoal e claramente que gostaria de recebê-los em uma visita ao IVW”, disse.

Questionada se isso incluiria uma investigação formal com acesso aos registros de laboratório do IVW e dados experimentais, ela afirmou: “Aceitaria pessoamente qualquer forma de visita baseada em um processo aberto, transparente, confiável e de diálogo razoável. Mas o plano específico não é minha decisão.”

Posteriormente, a BBC recebeu uma ligação da assessoria de imprensa do IVW, dizendo que a professora Shi estava falando a título pessoal e que suas respostas não haviam sido aprovadas pelo IVW.

A BBC rejeitou o pedido de enviar uma cópia desta reportagem com antecedência.

‘Teoria da conspiração’

Muitos cientistas acreditam que o cenário mais provável é que o SARS-Cov-2 saltou naturalmente dos morcegos para os humanos, possivelmente através de uma espécie intermediária.

E apesar da oferta da professora Shi, por enquanto parece haver pouca chance de que a OMS investigue a teoria de que o vírus saiu do laboratório.

GETTY IMAGES – Mercado de Huanan, em Wuhan, foi associado aos primeiros casos de coronavírus

Os termos de referência de pesquisa da OMS não mencionam a teoria e alguns membros da equipe de 10 pessoas praticamente a descartaram.

Peter Daszak, zoólogo britânico, foi escolhido como parte da equipe devido ao seu papel de liderança em um projeto internacional multimilionário para colher amostras de vírus selvagens.

Esse projeto envolveu uma estreita colaboração com a professora Shi Zhengli em sua amostragem em massa de morcegos na China, e Daszak já havia se referido à teoria de fuga de laboratório como uma “teoria da conspiração” e como “um absurdo absoluto”.

“Ainda não vi nenhuma evidência de vazamento de laboratório ou envolvimento de laboratório neste surto”, disse ele.

“Tenho visto evidências substanciais de que esses são fenômenos naturais causados pela invasão humana no habitat da vida selvagem, que é claramente observada no sudeste da Ásia.”

Quando questionado sobre ter acesso ao laboratório de Wuhan para descartar a teoria do vazamento de laboratório, ele diz: “Não é meu trabalho fazer isso.”

“A OMS negociou os termos de referência e dizem que vamos seguir as evidências e é isso que temos que fazer”, acrescentou.

O foco da investigação será um mercado em Wuhan que era conhecido pelo comércio de animais selvagens e estava relacionado a uma série de casos iniciais, embora as autoridades chinesas pareçam ter descartado esse mercado como fonte do vírus.

Daszak diz que a equipe da OMS “examinará esses grupos de casos, examinará os contatos, verá de onde vieram os animais do mercado e verá aonde isso nos leva”.

Relação com vírus RaTG13

A morte dos três trabalhadores de Tongguan após a exposição em um poço de extração cheio de morcegos levantou suspeitas de que eles tivessem sucumbido a um tipo de coronavírus transmitido por esse animal.

Foi exatamente o tipo de “derramamento” – passagem – de animal para humano que estava levando o IVW a colher mostras de morcegos em Yunnan.

GETTY IMAGES – China impôs fortes restrições a Wuhan para deter o vírus

Não é de se surpreender que, após essas mortes, os cientistas do IVW começaram a coletar amostras de morcegos na mina de Tongguan, fazendo várias visitas nos três anos seguintes e detectando 293 coronavírus.

Mas, além de um pequeno artigo, muito pouco foi publicado sobre os vírus que coletaram nessas viagens.

Em janeiro deste ano, a professora Shi Zhengli se tornou uma das primeiras pessoas no mundo a sequenciar a SARS-Cov-2, que já se espalhava rapidamente pelas ruas e casas de sua cidade.

Ele então comparou a longa sequência de letras que representam o código genético único do vírus com o extenso registro de outros vírus coletados e armazenados ao longo dos anos.

E descobriu que o banco de dados continha o parente mais próximo conhecido do SARS CoV-2: o RaTG13.

O RaTG13 é um vírus cujo nome deriva do morcego do qual foi extraído (Rhinolophus affinis, Ra), do local onde foi encontrado (Tongguan, TG) e do ano em que foi identificado, 2013.

Sete anos depois de ser encontrado naquela mina, RaTG13 estava prestes a se tornar um dos assuntos científicos mais polêmicos de nosso tempo.

Possibilidade descartada

Houve muitos casos bem documentados de vírus escapando de laboratórios.

O primeiro vírus da SARS, por exemplo, vazou duas vezes do Instituto Nacional de Virologia de Pequim em 2004, muito depois de o surto ter sido controlado.

GETTY IMAGES – Médicos e cientistas lutaram para conter pandemia em Wuhan

A prática de manipular geneticamente os vírus também não é nova, permitindo aos cientistas torná-los mais infecciosos ou mortais, para que possam avaliar a ameaça e, talvez, desenvolver tratamentos ou vacinas.

E desde o momento em que foi isolado e sequenciado, os cientistas ficaram surpresos com a notável capacidade do SARS-Cov-2 de infectar humanos.

A possibilidade de adquirir essa habilidade como resultado da manipulação em um laboratório foi levada a sério o suficiente para que um grupo influente de cientistas internacionais a investigassem.

O RaTG13 desempenha um papel importante no que se tornou o artigo definitivo que exclui a possibilidade de um vazamento de laboratório.

Publicado em março na revista Nature Medicine, ele sugere que, se houvesse um vazamento, a professora Shi Zhengli teria encontrado uma correspondência muito mais próxima em seu banco de dados do que o RaTG13.

Embora o RaTG13 seja o parente mais próximo conhecido, com 96,2% de similaridade, ainda está muito longe para ter sido manipulado e transformado em SARS-Cov-2.

Era provável que o SARS-Cov-2, concluíram os autores, teria ganhado sua eficiência única por meio de um longo período de circulação não detectado em humanos ou animais de um vírus precursor natural e mais brando que eventualmente evoluiu para o potente e mortal identificado pela primeira vez em Wuhan em 2019.

No entanto, alguns cientistas estão começando a se perguntar onde estão os reservatórios de uma infecção natural anterior.

Busca por vírus precursores

Daniel Lucey é médico e professor de doenças infecciosas no Georgetown Medical Center em Washington DC e um veterano de muitas pandemias: SARS na China, Ebola na África, Zika no Brasil.

Daniel Lucey diz acreditar que SARS-CoV-2 provavelmente surgiu naturalmente, mas não quer descartar outras possibilidades

Ele tem certeza de que a China já realizou pesquisas extensas por evidências de vírus precursores em amostras humanas armazenadas em hospitais e em populações de animais.

“Eles têm a habilidade, os recursos e a motivação, então é claro que fizeram estudos com animais e humanos”, diz ele.

Encontrar a fonte de um surto é vital, acrescenta Lucey, não apenas para uma compreensão científica mais ampla, mas também para evitar que ele ressurja.

“Devíamos pesquisar até encontrar. Acho que pode ser encontrado e acho muito possível que já tenha sido encontrado”, diz. “Mas então surge a pergunta, por que não foi revelado?”

Lucey diz acreditar que o SARS-Cov-2 provavelmente surgiu naturalmente, mas não quer descartar outras possibilidades.

“Então, aqui estamos, 12, 13 meses após o primeiro caso reconhecido de covid-19 e não encontramos a origem animal”, diz ele. “Então, para mim, é mais um motivo para investigar explicações alternativas.”

Um laboratório chinês poderia ter um vírus geneticamente mais próximo do SARS-Cov-2? E eles nos diriam agora se o fizessem? “Nem tudo o que é feito é publicado”, diz Lucey.

Legenda da foto,Peter Daszak diz não ter visto nenhuma evidência de que o que aconteceu foi um vazamento de um laboratório

Essa é uma pergunta que fiz a Peter Daszak, membro da equipe da OMS para o estudo das origens do vírus.

“Trabalho com o IVW há uma década ou mais”, diz ele. “Conheço algumas pessoas de lá muito bem e tenho visitado os laboratórios com frequência, encontrando-me e jantando com eles por 15 anos.”

“Estou trabalhando na China com meus olhos bem abertos e estou quebrando minha cabeça no tempo em busca do menor indício de algo estranho. E eu nunca vi isso”, acrescenta.

Quando questionado se essas amizades e relações de financiamento com o IVW representavam um conflito de interesses por seu papel na investigação, ele diz: “Nossos documentos estão arquivados; tudo está à vista de todos”.

“Isso me torna uma das pessoas no planeta que mais sabe sobre as origens desses coronavírus de morcegos na China”, acrescenta, sobre sua colaboração com o IVW.

A China pode ter fornecido apenas dados limitados sobre sua busca pela origem do SARS-Cov-2, mas começou a promover uma teoria própria.

Com base em alguns estudos inconclusivos de cientistas europeus, sugerindo que a covid-19 pode ter circulado antes do que se pensava, a propaganda estatal está repleta de histórias que sugerem que o vírus não começou na China.

“Não temos nada a esconder”

Na ausência de dados adequados, é provável que as especulações aumentem, muitas das quais centradas no RaTG13 e suas origens em um poço de mineração Tongguan.

Desde a morte dos mineiros em Tongguan, os cientistas do IVW detectaram pelo menos 293 coronavírus

Artigos acadêmicos antigos foram desenterrados online e parecem diferir das declarações do IVW sobre mineiros doentes, incluindo uma tese de um estudante da Universidade do Hospital de Kunming.

“Acabei de baixar a tese de mestrado do aluno da Universidade do Hospital Kunming e li”, diz a professora Shi à BBC.

“A narrativa não faz sentido”, assinala. “A conclusão não é baseada em evidências ou lógica. Mas os teóricos da conspiração a usam para duvidar de mim. Se você fosse eu, o que faria?”, questiona.

A professora Shi também enfrentou dúvidas sobre por que o banco de dados de vírus online público IVW foi repentinamente retirado do ar.

Shi explica à BBC que o site do IVW e o trabalho da equipe e e-mails pessoais foram hackeados.

Por causa disso, diz ela, o banco de dados foi retirado do ar por motivos de segurança.

“Todos os resultados de nossas pesquisas são publicados em periódicos ingleses na forma de artigos”, destaca. “As sequências de vírus também são armazenadas no banco de dados GenBank (gerenciado pelos EUA). É completamente transparente. Não temos nada a esconder”, completa.

Mais obstáculos ao longo do caminho

Há perguntas importantes a serem feitas no interior de Yunnan, não apenas por cientistas, mas também por jornalistas.

Após uma década de amostragem e experimentação com vírus coletados de morcegos, sabemos agora que em 2013 foi descoberto o ancestral mais próximo conhecido de uma ameaça futura que ceifaria mais de 1 milhão de vidas e devastaria a economia global.

No entanto, o IVW, de acordo com informações publicadas, não fez nada com ele, exceto sequenciá-lo e inseri-lo em um banco de dados.

Isso deveria questionar a própria premissa em que se baseia a cara, e alguns diriam arriscada, amostragem em massa de vírus selvagens?

“Dizer que não fizemos o suficiente é absolutamente correto”, diz Peter Daszak à BBC. “Dizer que falhamos não é justo. O que deveríamos ter feito é trabalhar dez vezes com esses vírus.”

Tanto Daszak quanto a professora Shi insistem que a pesquisa sobre prevenção de pandemias é um trabalho vital e urgente.

“Nossa pesquisa é voltada para o futuro e é difícil para os não profissionais entenderem”, escreve Shi por e-mail. “Diante dos inúmeros microorganismos que existem na natureza, os humanos são muito pequenos”.

A OMS promete uma investigação de “mente aberta” sobre as origens do novo coronavírus, mas o governo chinês não está interessado em perguntas, pelo menos não de jornalistas.

Depois de deixar Tongguan, a equipe da BBC tentou dirigir algumas horas ao norte até a caverna onde a professora Shi realizou sua pesquisa inovadora sobre a SARS quase uma década atrás.

Ainda sendo seguidos por vários carros sem identificação, batemos em outro obstáculo e fomos informados de que não havia como passar por ele.

Algumas horas depois, descobrimos que o tráfego local havia sido desviado para uma estrada de terra que contornava o obstáculo, mas quando tentamos usar o mesmo caminho, encontramos outro carro “quebrado” em nosso caminho.

Ficamos presos em um campo por mais de uma hora, antes de sermos finalmente forçados a ir para o aeroporto.