Umberto Eco: O homem que sabia de tudo

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Natural de Alessandria, uma comuna da região de Piemonte, no norte da Itália, Umberto Eco foi escritor, filósofo, professor, crítico literário e semiólogo, sendo autor de vários livros sobre semiótica, estética medieval, linguística e filosofia. Acredito que um dos grandes méritos dele foi o de produzir conhecimento acadêmico numa linguagem acessível e sem os vícios de quem escreve trabalhos científicos. Quem é da área de semiótica sabe muito bem o que eu estou falando. Além de atuar no mundo acadêmico ele também trabalhou em programas culturais na televisão pública italiana, a RAI. Foi nesse período que se interessou pela semiótica e foi contratado para dar aulas na Universidade de Bolonha (a mais antiga da Europa).

Tenho um carinho especial pelo seu trabalho, pois leciono disciplinas que têm como base conhecimentos das áreas da Estética e das Teorias da Comunicação e utilizo algumas das obras escritas por ele. Percebi que muitos portais de notícias o “definiram” como o autor de O Nome da Rosa, mas isto seria o mesmo que dizer que Pelé foi um grande jogador de futebol. Assim como a semiótica estuda os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, ou seja, como detentores de significado, o trabalho de vida do escritor italiano não pode ser descrito por um único ponto de vista, pois Eco soube atuar em diferentes áreas do conhecimento e da vida como um malabarista que brinca com várias bolinhas ao mesmo tempo.

Um bom exemplo dessa habilidade pode ser observado no livro O Nome da Rosa, no qual ele escreve uma narrativa que tem um pouco de relato histórico, suspense policial e ao mesmo tempo é uma crônica medieval. A história gira em torno de Guilherme Baskerville, um monge franciscano que visita uma abadia no norte da Itália, em 1327, e de repente se vê inserido numa sequência de eventos envolvendo crimes, conspirações e descobertas extraordinárias. O romance foi adaptado ao cinema em 1986 e contou com Sean Connery no papel principal, o ator foi premiado com o Bafta, de melhor ator de cinema, por sua interpretação nesse filme.

As obras acadêmicas

É engraçado assistir numa entrevista o escritor “reclamando” do sucesso do seu primeiro romance, O Nome da Rosa. Segundo o italiano, por mais que escrevesse um livro melhor do que aquele, ele sempre era lembrado como o autor de O Nome da Rosa, o qual ele não considerava um dos seus melhores trabalhos. “Os livros não são feitos para que alguém acredite neles, mas para serem submetidos à investigação. Quando consideramos um livro, não devemos perguntar o que diz, mas o que significa” (O Nome da Rosa).

Assim como a semiótica, que estuda os modos como o homem percebe aquilo que o rodeia, Umberto Eco soube interpretar vários aspectos do cotidiano do homem e transitar entre o mundo acadêmico e a cultura popular. Dentre as obras acadêmicas gostaria de ressaltar:

* Obra Aberta (1962) – o livro traz uma série de ensaios sobre a produção artística europeia que convidava o intérprete a participar da construção final do objeto artístico. Ou seja, toda obra de arte é aberta e não pode ser reduzida a apenas uma interpretação.

* Apocalípticos e Integrados (1965) – uma obra obrigatória dentro da disciplina de Teorias da Comunicação, pois nela o autor apresenta uma série de ensaios sobre a questão da cultura de massa na era tecnológica. Para o autor os apocalípticos são aqueles que condenam os meios de comunicação de massa enquanto que os integrados aqueles que os absolvem.

* História da Beleza (2004) – um trabalho audacioso onde o autor procura responder alguns dos grandes questionamentos sobre o Belo. O que é a beleza? O que é arte? Gosto se discute? O livro procura analisar as transformações do conceito do Belo através dos tempos.

* História da Feiura (2007) – O autor se volta agora para a feiura buscando identificar as representações visuais ou verbais e refletir sobre os parâmetros que definem a existência do feio, do cruel e do demoníaco.

A percepção da realidade que nos cerca

Além desses trabalhos, destaco seu trabalho mais recente. Em Número Zero o autor aborda o mundo do jornalismo, principalmente do mau jornalismo. Na história, um grupo de redatores, reunidos ao acaso, prepara o jornal Amanhã com o objetivo não de informar, mas de prestar serviços duvidosos a seu editor, manipulando, chantageando e amedrontando adversários políticos na preparação de uma edição que nunca é publicada. Apesar de ser um romance, o livro é um verdadeiro manual do mau jornalismo e traz uma série de reflexões sobre a comunicação e a informação na sociedade atual. “Não são as notícias que fazem o jornal, mas o jornal é que faz as notícias, e saber juntar quatro notícias diferentes significa propor ao leitor uma quinta notícia” (Número Zero).

Numa entrevista dada em 2015 ao jornal La Stampa, o escritor ainda aconselhou os jornais a filtrarem com uma “equipe de especialistas” as informações da web porque ninguém é capaz de saber se um site é “confiável ou não”. Segundo ele, “as redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas agora têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis”.

O futebol também mereceu a sua atenção, mesmo que eles não fossem tão próximos. “Não amo o futebol porque o futebol nunca me amou.” Dessa forma o italiano descreveu a sua relação com esse esporte. De qualquer forma, o time de futebol Alessandria utilizará uma braçadeira negra nas próximas partidas homenageando um dos seus filhos mais ilustres.

Quem assiste ao futebol é um depravado sexual. Marcar um gol é como fazer sexo. Além disso, diante de tamanha depravação, até mesmo o marquês de Sade pareceria uma criança inocente. O torcedor é como um voyeur. Em algumas ocasiões, pode ser também interessante assistir aos outros fazendo amor, mas você vai concordar que é definitivamente melhor fazer do que ficar assistindo. Mas eu não posso perder esse jogo, é muito importante. É melhor jogar futebol, claro, mas eu sou um apaixonado e não posso perder.”

Percebe-se agora o porquê do título “O homem que sabia tudo”, pois com o vasto repertório adquirido ao longo de sua carreira acadêmica Umberto Eco transitou entre diferentes áreas do conhecimento como uma habilidade que poucos possuem. Com a sua partida o mundo perde um homem dos mais importantes da cultura contemporânea e que nos fazia ampliar a nossa percepção sobre a realidade que nos cerca.
Por Felipe Tessarolo

Fontes:

* http://www.repubblica.it/cultura/2016/02/20/news/morto_lo_scrittore_umberto_eco-133816061/#gallery-slider=133820022

* http://www.umbertoeco.com

* http://www.nytimes.com/2016/02/20/arts/international/umberto-eco-italian-semiotician-and-best-selling-author-dies-at-84.html?_r=0

* http://expresso.sapo.pt/cultura/2016-02-20-Umberto-Eco-o-homem-que-sabia-tudo

* http://www.revistaforum.com.br/2016/02/20/morre-aos-84-anos-o-italiano-umberto-eco/

* http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160220_frases_umberto_eco_rb

* https://www.brainpickings.org/2015/07/16/umberto-eco-advice-to-writers/

* http://io9.gizmodo.com/umberto-eco-asked-the-hard-questions-about-the-myths-we-1760226878

* http://trivela.uol.com.br/adeus-umberto-eco-dez-pensamentos-do-intelectual-italiano-sobre-futebol/

Para saber um pouco mais sobre as obras produzidas pelo autor é só acessar o siteUmbertoeco.com, mas listo abaixo algumas delas:

Obra aberta. São Paulo: Perspectiva, I968 (from the 1967 ed.); Arte e beleza na estética medieval. Rio: Globo, 1989; Diário Mínimo. Lisboa: Difel, 1984; Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1970 (partial); A estrutura ausente. São Paulo: Perspectiva, 1971; A definição da arte. Lisboa: Edições 7O, 1981; As formas do conteúdo. São Paulo: Perspectiva, 1974; O signo. Lisboa: Presença, 1977; Viagem na irrealidade cotidiana. Lisboa: Difel, 1986; Tratado geral de semiótica. São Paulo: Perspectiva, I980; O super-homem de massa. São Paulo: Perspectiva, 1991; Viagem na irrealidade cotidiana. Rio: Nova Fronteira, 1984; Como se faz uma tese. Lisboa: Presença, 1980. São Paulo: Perspectiva, 1983; Lector in fabula. São Paulo: Perspectiva, 1986; O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983; Semiótica e Filosofia da linguagem. Lisboa: Difel, 1991; Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989; O pêndulo de Foucault. Rio: Record, 1989; O segundo Diário Mínimo. Rio de Janeiro: Record, 1993; Interpretação e sobreinterpretação. Lisboa: Presença, 1993; A procura da língua perfeita. Lisboa: Presença, 1996.Also Bauru: Signo, 2001; Baudolino. Rio de Janeiro: Record, 2001.

10 frases para recordar a lucidez mordaz de Umberto Eco

Umberto Eco era famoso tanto por sua criação literária como por suas lúcidas e polêmicas declarações.

ReutersImage copyright Reuters

Após o falecimento na sexta-feira do escritor e filósofo italiano de 84 anos, autor de romances como “O Nome da Rosa” (1980), “O Pêdulo de Focault” (1988) e “Número Zero” (2015), reunimos dez frases que ilustram o que ele pensava sobre temas diversos, da internet a Deus.

1. Sobre os livros

“Os livros não são feitos para alguém acredite neles, mas para serem submetidos à investigação. Quando consideramos um livro, não devemos perguntar o que diz, mas o que significa.” – O Nome da Rosa

2. Sobre os pais

“Acredito que aquilo em que nos transformamos depende do que nossos pais nos ensinam em pequenos momentos, quando não estão tentando nos ensinar. Somos feitos de pequenos fragmentos de sabedoria.” – O Pêdulo de Focault

3. Sobre Dios

“Quando os homens deixam de crer em Deus, não significa que não creem em nada: creem em tudo.”

4. Sobre o amor

“O amor é mais sábio que a sabedoria.” – O Nome da Rosa

5. Sobre os heróis

“O verdadeiro herói é herói por engano. Ele sonha em ser um covarde honesto como todo mundo.”

6. Sobre os vilões

“Os monstros existem porque são uma parte de um plano divino e, nas características horríveis desses mesmos monstros, revela-se o poder do criador.” –O Nome da Rosa

7. Sobre a poesia

“Todos os poetas escrevem poesia ruim. Os poetas ruins as publicam, os poetas bons as queimam.”

8. Sobre o jornalismo

“Não são as notícias que fazem o jornal, mas o jornal é que faz as notícias, e saber juntar quatro notícias diferentes significa propôr ao leitor uma quinta notícia” – Número Zero

9. Sobre a internet

“As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis” – ao jornalLa Stampa.

10. Sobre a corrupção

“Hoje, quando afloram os nomes de corruptos e fraudadores, as pessoas não se importam com isso, e só vão para a cadeia os ladrões de galinhas.” – à agência EFE

Umberto Eco: um intelectual italiano que criticou a corrupção e manipulação no jornalismo

Entre suas obras-primas, destaca-se “O Nome da Rosa”, um ‘best-seller’ ambientado no século XIV; Eco morreu em sua casa aos 84 anos.Agência Efe

Umberto Eco, o escritor e semiólogo italiano que criticou ao longo de sua vida a manipulação no jornalismo e a corrupção, autor de obras inesquecíveis como “O Nome da Rosa”, morreu nesta sexta-feira (19/02) em sua casa aos 84 anos.

Nascido em Alexandria, na norte da Itália, em 5 de janeiro de 1932, Eco foi intelectual, escritor, semiólogo e filósofo de prestígio e reconhecido em nível internacional.

Entre suas obras-primas, destaca-se “O Nome da Rosa” (1980), um ‘best-seller’ ambientado no século XIV, que narra a investigação realizada pelo frei William de Baskerville e seu pupilo Adso de Melk em torno de uma misteriosa série de crimes que ocorrem em uma abadia.

O romance foi reeditado em várias ocasiões e recebeu alguns prêmios importantes, como o Strega (1981), na Itália, e o Medicis, na França. Além disso, a obra foi levada ao cinema pelo diretor J.J. Annaud e obteve grande sucesso.

Oito anos depois, Eco publicou “O Pêndulo de Foucalt“, outro de seus melhores títulos que narra a história de três intelectuais que inventam um suposto plano dos cavaleiros templários para dominar o mundo.

“O Pêndulo de Foucault” foi publicado na Itália em 1988 e foi um dos livros mais vendidos daquele ano, mas a crítica não mostrou muito interesse pelo romance, exceto o L’Osservatore Romano, órgão oficial da Santa Sé, que em um inusitado ataque tachou a obra de “bobagem, charlatanismo puro, profanação e blasfêmia”.

Seu último livro foi “O Número Zero”, uma obra na qual abordou os mistérios que cercaram a morte do ditador italiano Benito Mussolini.

O romance, publicado em mais de 30 países, traz uma feroz e irônica crítica ao mau jornalismo, à mentira e à manipulação da história.

Agraciado com o Prêmio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades em 2000, Eco também ficou conhecido por romances como “A Ilha do Dia Anterior“, “Baudolino” e “A Misteriosa Chama da Rainha Loana“, e, ao longo de sua vida profissional, foi responsável por vários ensaios sobre semiótica, estética medieval, linguística e filosofia.

Sua primeira obra de semiótica foi “A Estrutura Ausente” (1968), que foi seguida por “As Formas do Conteúdo” e “O Sinal” (1973), que depois culminaram em um trabalho mais completo sobre a matéria, o “Tratado de Semiótica Geral”, publicado em 1975.

Eco trabalhou na emissora pública italiana RAI de 1954 até 1958, e depois foi professor adjunto de Estética entre 1962 e 1965 nas universidades de Turim e Milão.

Eco também fez parte do Grupo 63, um movimento neovanguardista de intelectuais, e publicou seu estudo sobre arte contemporânea, “Opera Aberta” (1962), que foi seguido por “Diário Mínimo” (1963) e seu conhecido “Apocalípticos e Integrados” (1965), sobre a cultura de massa e os meios de comunicação.

Além disso, Umberto Eco colaborou em publicações como The Times, Literary Supplement e Tel Quel, e durante 35 anos com a editora Bompiani.

Em 1988, o escritor fundou o departamento de Comunicação da Universidade de San Marino e, além disso, foi professor emérito e presidente da Escola Superior de Estudos Humanísticos da Universidade de Bolonha, no norte da Itália, desde 2008.

Nomeado integrante do Fórum de Sábios pela Mesa do Conselho da Unesco (1992), integrou também a Academia Universal de Culturas junto a outros intelectuais e foi nomeado doutor “honoris causa” por mais de 25 universidades de todo o mundo, entre elas, a Complutense de Madri, Tel Aviv, Atenas, Varsóvia e Berlim.

Legião de Honra da França desde 1993 e prêmio austríaco de Literatura Europeia por toda sua obra em 2004, em Salzburgo, em seus últimos anos de vida Umberto Eco compaginou sua atividade acadêmica e literária com conferências, colóquios, debates e colaborações nos meios de comunicação.
Fonte:ÓperaMundi

Linchamento moral: A “legião dos imbecis” e o discurso do ódio

Vergonha,Lama,Blog do MesquitaDesde que pronunciou em 11 de junho a expressão “legião de imbecis” para ser referir aos que antes “falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”, Umberto Eco se tornou o centro de polêmica mundial a respeito do direito de expressão nas mídias sociais.

No Brasil, a repercussão aumentou após a entrevista que Eco deu à revista “Veja”, publicada na semana passada, na qual ele tentou contemporizar um pouco a força de suas palavras originais: “veja bem, num mundo com mais de 7 bilhões de pessoas, você não concordaria que há muitos imbecis? Não estou falando ofensivamente quanto ao caráter das pessoas.

O sujeito pode ser um excelente funcionário ou pai de família, mas ser um completo imbecil em diversos assuntos. Com a internet e as redes sociais, o imbecil passa a opinar a respeito de temas que não entende”.

Afinal, a expressão pejorativa “legião de imbecis” para se referir a quem expressa opiniões, ainda que infundadas, ilógicas, mal formuladas, cheias de erros gramaticais, contradiz o pensador que um dia defendeu que todos deveriam, “antes de tudo, respeitar o direito da corporalidade do outro, entre os quais o direito de falar e pensar”, como bem realçou recentemente em seu blog o professor Carlos Chaparro.

De fato, “ignorantes” (no sentido não ofensivo que define alguém que ignora determinados assuntos) não devem ter contestado seu direito de se expressar publicamente pelas mídias sociais, por mais disparatadas que sejam suas falas. Mesmo porque elas podem ofender o bom senso, o vernáculo, a sensibilidade estética, mas não causam real prejuízo a ninguém.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Muito diverso, no entanto, é o discurso de ódio disseminado em larga escala pelas redes virtuais, como o de que tem sido alvo a jornalista Maria Júlia Coutinho, da Rede Globo de Televisão.

Os comentários racistas de internautas na página do “Jornal Nacional” no Facebook e em outras mídias sociais não podem ser admitidos e merecem investigação que leve à punição de seus autores, como já foi solicitado ao Ministério Público.

O caso de Maju é um dos mais expressivos, inclusive pelo componente de racismo, que remete aos linchamentos literais de que foram vítimas centenas de negros nos EUA durante muitos anos há pouco mais meio século.

Aqueles linchamentos físicos, que inspiraram Billie Holiday a compor a pungente canção “Fruta Estranha” (“Árvores do sul produzem uma fruta estranha/Sangue nas folhas e sangue nas raízes/Corpos negros balançando na brisa do sul/ Fruta estranha penduradas nos álamos”) eram quase tão corriqueiros como são agora os linchamentos morais via internet.

Outra vítima recente da sanha linchadora eletrônica é o jornalista Zeca Camargo, também da Globo, que sofreu com a ira dos que se enfureceram por um comentário sobre a cobertura feita da morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo, na qual ele colocou em discussão os critérios da pauta do jornalismo cultural brasileiro atual, sem ter sido minimamente desrespeitoso com o artista.

Igualmente da Globo, Jô Soares sofreu até ameaças de morte por causa da entrevista que fez com a presidente Dilma Rousseff porque alguns “imbecis” o consideraram muito condescendente com ela.

Imbecis que só falam são relativamente inofensivos. Mas os que lincham moral ou fisicamente não podem ser tolerados em sociedades democráticas.

As leis de repressão a crimes de informática devem ser usadas para conter e punir os que as desrespeitam. Censura prévia, é claro, não pode ser admitida.

Mas a condenação legal pelos efeitos do discurso de ódio é imprescindível, bem como a reação em defesa dos atingidos, como expressão de solidariedade a eles e de repulsa coletiva aos linchadores.
Carlos Eduardo Lins da Silva/Observatório da Imprensa

Umberto Eco: sobre livros e eletrônicos

‘Eletrônicos duram 10 anos, livros, 5 séculos’

O bom humor parece ser a principal característica do semiólogo, ensaísta e escritor italiano Umberto Eco. Se não, é a mais evidente. Ao pasmado visitante, boquiaberto diante de sua coleção de 30 mil volumes guardados em seu escritório/residência em Milão, ele tem duas respostas prontas quando é indagado se leu toda aquela vastidão de papel. “Não. Esses livros são apenas os que devo ler na semana que vem. Os que já li estão na universidade” – é a sua preferida. “Não li nenhum”, começa a segunda. “Se não, por que os guardaria?”

Na verdade, a coleção é maior, beira os 50 mil volumes, pois os demais estão em outra casa, no interior da Itália. E é justamente tal paixão pela obra em papel que convenceu Eco a aceitar o convite de um colega francês, Jean-Phillippe de Tonac, para, ao lado de outro incorrigível bibliófilo, o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, discutir a perenidade do livro tradicional. Foram esses encontros (“muito informais, à beira da piscina e regados com bons uísques”, informa Umberto Eco) que resultaram em Não Contem Com o Fim do Livro, que a editora Record lança na segunda quinzena de abril.

A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro é uma invenção consolidada, a ponto de as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não terem como detê-lo. Qualquer dúvida é sanada ao se visitar o recanto milanês de Eco, como fez o Estado na última quarta-feira. Localizado diante do Castelo Sforzesco, o apartamento – naquele dia soprado por temperaturas baixíssimas, a neve pesada insistindo em embranquecer a formidável paisagem que se avista de sua sacada – encontra-se em um andar onde antes fora um pequeno hotel. “Se eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes”, comenta o escritor, com indisfarçável prazer, ao apontar uma linha reta de prateleiras repletas que não parecem ter fim. Os antigos quartos? Transformaram-se em escritórios, dormitórios, sala de jantar, etc. O mais desejado, no entanto, é fechado a chave, climatizado e com uma janela que veda a luz solar: lá estão as raridades, obras produzidas há séculos, verdadeiros tesouros. Isso mesmo: tesouros de papel.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Conhecido tanto pela obra acadêmica (é professor aposentado de semiótica, mas ainda permanece na ativa na Faculdade de Bolonha) como pelos romances (O Nome da Rosa, publicado em 1980, tornou-se um best-seller mundial), Eco é um colecionador nato; além de livros, gosta também de selos, cartões-postais, rolhas de champanhe. Na sala de seu apartamento, estantes de vidro expõem tantos os livros raros – que, no momento, lideram sua preferência – como conchas, pedras, pedaços de madeira. As paredes expõem quadros que Eco arrematou nas visitas que fez a vários países ou que simplesmente ganhou de amigos – caso de Mário Schenberg (1914-1990), físico, político e crítico de arte brasileiro, de quem o escritor guarda as melhores recordações.

Aos 78 anos, Eco – que tem relançado no País Arte e Beleza na Estética Medieval (Record, 368 págs., R$ 47,90, tradução de Mario Sabino) – exibe uma impressionante vitalidade. Diverte-se com todo tipo de cinema (ao lado de seu aparelho de DVD repousa uma cópia da animação Ratatouille), mantém contato com seus alunos em Bolonha, escreve artigos para jornais e revistas e aceita convites para organizar exposições, como a que o transformou, no ano passado, em curador, no Museu do Louvre, em Paris. Lá, o autor teve o privilégio de passear sozinho pelos corredores do antigo palácio real francês nos dias em que o museu está fechado. E, como um moleque levado, aproveitou para alisar o bumbum da Vênus de Milo. Foi com esse mesmo espírito bem-humorado que Eco – envergando um elegante terno azul-marinho, que uma revolta gravata da mesma cor tratava de desalinhar; o rosto sem a característica barba grisalha (raspada religiosamente a cada 20 anos e, da última vez, em 2009, também porque o resistente bigode preto o fazia parecer Gengis Khan nas fotos) – conversou com a reportagem do Sabático.

O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?

O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.

Qual a diferença entre o conteúdo disponível na internet e o de uma enorme biblioteca?

A diferença básica é que uma biblioteca é como a memória humana, cuja função não é apenas a de conservar, mas também a de filtrar – muito embora Jorge Luis Borges, em seu livro Ficções, tenha criado um personagem, Funes, cuja capacidade de memória era infinita. Já a internet é como esse personagem do escritor argentino, incapaz de selecionar o que interessa – é possível encontrar lá tanto a Bíblia como Mein Kampf, de Hitler. Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.

Não é possível prever o futuro da internet?

Não para mim. Quando comecei a usá-la, nos anos 1980, eu era obrigado a colocar disquetes, rodar programas. Hoje, basta apertar um botão. Eu não imaginava isso naquela época. Talvez, no futuro, o homem não precise escrever no computador, apenas falar e seu comando de voz será reconhecido. Ou seja, trocará o teclado pela voz. Mas realmente não sei.

Como a crescente velocidade de processar dados de um computador poderá influenciar a forma como absorvemos informação?

O cérebro humano é adaptável às necessidades. Eu me sinto bem em um carro em alta velocidade, mas meu avô ficava apavorado. Já meu neto consegue informações com mais facilidade no computador do que eu. Não podemos prever até que ponto nosso cérebro terá capacidade para entender e absorver novas informações. Até porque uma evolução física também é necessária. Atualmente, poucos conseguem viajar longas distâncias – de Paris a Nova York, por exemplo – sem sentir o desconforto do jet lag. Mas quem sabe meu neto não poderá fazer esse trajeto no futuro em meia hora e se sentir bem?

É possível existir contracultura na internet?

Sim, com certeza, e ela pode se manifestar tanto de forma revolucionária como conservadora. Veja o que acontece na China, onde a internet é um meio pelo qual é possível se manifestar e reagir contra a censura política. Enquanto aqui as pessoas gastam horas batendo papo, na China é a única forma de se manter contato com o restante do mundo.

Em um determinado trecho de Não Contem Com o Fim do Livro, o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória – que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar.

De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco outra, como a memória. Lembro-me de uma maravilhosa história de ficção científica escrita por Isaac Asimov, nos anos 1950. É sobre uma civilização do futuro em que as máquinas fazem tudo, inclusive as mais simples contas de multiplicar. De repente, o mundo entra em guerra, acontece um tremendo blecaute e nenhuma máquina funciona mais. Instala-se o caos até que se descobre um homem do Tennessee que ainda sabe fazer contas de cabeça. Mas, em vez de representar uma salvação, ele se torna uma arma poderosa e é disputado por todos os governos – até ser capturado pelo Pentágono por causa do perigo que representa (risos). Não é maravilhoso?

No livro, o senhor e Carrière comentam sobre como a falta de leitura de alguns líderes influenciou suas errôneas decisões.

Sim, escrevi muito sobre informação cultural, algo que vem marcando a atual cultura americana que parece questionar a validade de se conhecer o passado. Veja um exemplo: se você ler a história sobre as guerras da Rússia contra o Afeganistão no século 19, vai descobrir que já era difícil combater uma civilização que conhece todos os segredos de se esconder nas montanhas. Bem, o presidente George Bush, o pai, provavelmente não leu nenhuma obra dessa natureza antes de iniciar a guerra nos anos 1990. Da mesma forma que Hitler devia desconhecer os relatos de Napoleão sobre a impossibilidade de se viajar para Moscou por terra, vindo da Europa Ocidental, antes da chegada do inverno. Por outro lado, o também presidente americano Roosevelt, durante a 2.ª Guerra, encomendou um detalhado estudo sobre o comportamento dos japoneses para Ruth Benedict, que escreveu um brilhante livro de antropologia cultural, O Crisântemo e a Espada. De uma certa forma, esse livro ajudou os americanos a evitar erros imperdoáveis de conduta com os japoneses, antes e depois da guerra. Conhecer o passado é importante para traçar o futuro.

Diversos historiadores apontam os ataques terroristas contra os americanos em 11 de setembro de 2001 como definidores de um novo curso para a humanidade. O senhor pensa da mesma forma?

Foi algo realmente modificador. Na primeira guerra americana contra o Iraque, sob o governo de Bush pai, havia um confronto direto: a imprensa estava lá e presenciava os combates, as perdas humanas, as conquistas de território. Depois, em setembro de 2001, se percebeu que a guerra perdera a essência de confronto humano direto – o inimigo transformara-se no terrorismo, que podia se personificar em uma nação ou mesmo nos vizinhos do apartamento ao lado. Deixou de ser uma guerra travada por soldados e passou para as mãos dos agentes secretos. Ao mesmo tempo, a guerra globalizou-se; todos podem acompanhá-la pela televisão, pela internet. Há discussões generalizadas sobre o assunto.

Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes?

Sim, de uma forma geral. Nesse apartamento em Milão, estão apenas 30 mil – o restante está no interior da Itália, onde tenho outra casa. Mas sempre me desfaço de algumas centenas, pois, como disse antes, é preciso fazer uma filtragem.

Por que o senhor impediu sua secretária de catalogá-los?

Porque a forma como você organiza seus livros depende da sua necessidade atual. Tenho um amigo que mantém os seus em ordem alfabética de autores, o que é absolutamente estúpido, pois a obra de um historiador francês vai estar em uma estante e a de outro em um lugar diferente. Eu tenho aqui literatura contemporânea separada por ordem alfabética de países. Já a não contemporânea está dividida por séculos e pelo tipo de arte. Mas, às vezes, um determinado livro pode tanto ser considerado por mim como filosófico ou de estética da arte; depende do motivo da minha pesquisa. Assim, reorganizo minha biblioteca segundo meus critérios e somente eu, e não uma secretária, pode fazer isso. Claro que, com um acervo desse tamanho, não é fácil saber onde está cada livro. Meu método facilita, eu tenho boa memória, mas, se algum idiota da família retira alguma obra de um lugar e a coloca em outro, esse livro está perdido para sempre. É melhor comprar outro exemplar (risos).

Um estudioso que também é seu amigo, Marshall Blonsky, escreveu certa vez que existe de um lado Umberto, o famoso romancista, e de outro Eco, professor de semiótica.

E ambos sou eu (risos). Quando escrevo romances, procuro não pensar em minhas pesquisas acadêmicas – por isso, tiro férias. Mesmo assim, leitores e críticos traçam diversas conexões, o que não discuto. Lembro de que, quando escrevia O Pêndulo de Foucault, fiz diversas pesquisas sobre ciência oculta até que, em um determinado momento, elas atingiram tal envergadura que temi uma teorização exagerada no romance. Então, transformei todo o material em um curso sobre ciência oculta, o que foi muito bem-feito.

Por falar em O Pêndulo de Foucault, comenta-se que o senhor antecipou em muito tempo O Código de Da Vinci, de Dan Brown.

Quem leu meu livro sabe que é verdade. Mas, enquanto são os meus personagens que levam a sério esse ocultismo barato, Dan Brown é quem leva isso a sério e tenta convencer os leitores de que realmente é um assunto a ser considerado. Ou seja, fez uma bela maquiagem. Fomos apresentados neste ano em uma première do Teatro Scala e ele assim se apresentou: “O senhor não me admira, mas eu gosto de seus livros.” Respondi: Não é que eu não goste de você – afinal, eu criei você (risos).

Em seu mais conhecido romance, O Nome da Rosa, há um momento em que se discute se Jesus chegou a sorrir. É possível pensar em senso de humor quando se trata de Deus?

De acordo com Baudelaire, é o Diabo quem tem mais senso de humor (risos). E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira. E se ainda a vida é como uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, como Shakespeare apregoa em Macbeth, é preciso ainda mais senso de humor para entender a trajetória da humanidade.

Como foi a exposição no Museu do Louvre, em Paris, da qual o senhor foi curador, no ano passado?

Há quatro anos, o museu reserva um mês para um convidado (Toni Morrison foi escolhida certa vez) organizar o que bem entender. Então, me convidaram e eu respondi que queria fazer algo sobre listas. “Por quê?”, perguntaram. Ora, sempre usei muitas listas em meus romances – até pensei em escrever um ensaio sobre esse hábito. Bem, quando se fala em listas na cultura, normalmente se pensa em literatura. Mas, como se trata de um museu, decidi elaborar uma lista visual e musical, essa sugerida pela direção do Louvre. Assim, tive o privilégio (que não foi oferecido a Dan Brown) de visitar o museu vazio, às terças-feiras, quando está fechado. E pude tocar a bunda da Vênus de Milo (risos) e admirar a Mona Lisa a apenas 20 centímetros de distância.

O senhor esteve duas vezes no Brasil, em 1966 e 1979. Que recordações guarda dessas visitas?

Muitas. A primeira, em São Paulo, onde dei algumas aulas na Faculdade de Arquitetura (da USP), que originaram o livro A Estrutura Ausente. Já na segunda fui acompanhado da família e viajamos de Manaus a Curitiba. Foi maravilhoso. Lembro-me de meu editor na época pedindo para eu ficar para o carnaval e assistir ao desfile das escolas de samba de camarote, o que não pude atender. E também me recordo de imagens fortes, como a da moça que cai em transe em um terreiro (para o qual fui levado por Mario Schenberg) e que reproduzo em O Pêndulo de Foucault.

Ubiratan Brasil/Estadão

Umberto Eco – Souvenires do passado

Relíquias
Umberto Eco¹

Ao ler meu jornal local, eu me deparei com um artigo interessante sobre relíquias, não apenas do tipo religioso, mas também da variedade laica, da cabeça de Descartes ao cérebro de Gorky. O hábito de conservar relíquias não é, como se costuma acreditar, um hábito cristão, mas um hábito típico de cada raça e cultura. O que está em jogo no culto às relíquias é o tipo de impulso que eu definiria como mito-materialista, a ponto das pessoas acreditarem que podem obter uma espécie de poder de um grande homem ou santo ao tocar pedaços do corpo daquela pessoa.

Por outro lado, o hábito também revela um gosto normal por antiguidades (colecionadores estão preparados a gastar grandes somas não apenas para ter a posse da primeira edição de um livro famoso, mas especialmente um que tenha sido de propriedade de uma pessoa importante). E, é claro (como freqüentemente acontece nos leilões americanos), nós também temos memorabilia. Esses itens podem assumir a forma das luvas (genuínas) de Jackie Kennedy ou das usadas por Rita Hayworth em “Gilda” (falsas).

Finalmente, há o fator econômico: na Idade Média, relíquias famosas eram atrações turísticas valiosas que atraíam fluxos constantes de peregrinos, assim como algumas discotecas na Riviera do Adriático agora atraem multidões de turistas alemães e russos. Eu também já vi multidões de turistas em Nashville, Tennessee, admirando o Cadillac do Elvis. Não que ele tivesse apenas um – ele trocava de modelo a cada seis meses.

Na Noite de Reis, talvez repleto de espírito natalino e me sentindo um tanto estranho, em vez de baixar pornografia pela Internet (como todo mundo), eu decidi navegar pela Internet à procura de relíquias famosas.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Por exemplo, nós sabemos que a cabeça de São João Batista se encontra na Igreja de São Silvestre, em Roma, mas segundo uma tradição anterior, ela se encontrava na Catedral de Amiens, na França. De qualquer forma, a cabeça em Roma carece da mandíbula inferior, que atualmente se encontra na Catedral de São Lourenço, em Viterbo, a cerca de 100 quilômetros ao norte. O prato em que foi colocada a cabeça do Batista está no tesouro da Catedral de São Lourenço, em Gênova, juntamente com suas cinzas. Mas parte dessas cinzas também está conservada na velha igreja do mosteiro beneditino em Loano, um dos dedos do santo está supostamente no Museo dell’Opera del Duomo, em Florença, e um braço na Catedral de Siena. Quanto ao seu dente, um está na Catedral de Ragusa e outro, juntamente com uma mecha de cabelo, está em Monza. Não há nenhuma notícia dos outros 30.

Uma lenda antiga diz que outra catedral tinha o crânio do Batista aos 12 anos, mas não acredito que exista qualquer documento oficial que confirme o rumor.

A Verdadeira Cruz foi encontrada em Jerusalém por Santa Helena, a mãe do imperador romano Constantino 1º. Roubada pelos persas no século 7 e recuperada pelo imperador bizantino Heráclito, ela foi levada ao campo de batalha pelos cruzados contra Saladino, o mais famoso dos heróis muçulmanos. Infelizmente, Saladino venceu, e depois disso todos os traços da cruz se perderam para sempre. Todavia, vários pedaços dela já foram roubados: um dos pregos aparentemente é mantido em Roma, na Igreja da Santa Cruz de Jerusalém.

A coroa de espinhos, mantida por muito tempo em Constantinopla, foi partida visando doar pelo menos um espinho para diversas igrejas e santuários. E a Lança Sagrada, que já pertenceu ao sacro imperador romano Carlos Magno e seus sucessores, atualmente está em Viena, Áustria. O prepúcio de Jesus estava em exibição na cidade italiana de Calcata até que, em 1983, o padre anunciou que ele tinha sido roubado. Mas a posse da mesma relíquia já foi reclamada por Roma; Antuérpia, Bélgica; na França, em Auvergne, Chartres, Conques, Besancon, Fecamp, Metz, Langres, Charroux e Puy-en-Velay; por Hildesheim, Alemanha; e Santiago di Compostela, Espanha.

O sangue que jorrou do ferimento na lateral de Cristo, que teria sido coletado pelo soldado romano Longinus, foi supostamente levado para Mantua, aqui na Itália, mas outro sangue também é mantido na Basílica do Sangue Sagrado em Bruges, Bélgica. A Manjedora Sagrada está em Santa Maria Maggiore, em Roma, enquanto – como se sabe – o Santo Sudário está em Turim. As faixas do bebê Jesus são mantidas em Aachen, Alemanha. O pano que Jesus usou para lavar os pés dos Apóstolos está na igreja de São João Laterano e em Acqs, Alemanha, apesar de não poder ser excluído que Jesus usou dois panos ou lavou os pés deles duas vezes. Muitas igrejas possuem amostras do cabelo ou leite da Virgem Maria; seu anel de casamento está supostamente em Perugia, Itália, enquanto seu anel de noivado está em Notre Dame, em Paris.

Milão, Itália, costumava ser lar dos restos mortais dos Reis Magos, mas no século 12, o sacro imperador romano Frederick Barbarossa os levou para Colônia, Alemanha, como espólios de guerra. Eu contei esta história em meu romance “Baudolino”, mas eu não espero mudar a opinião daqueles que não acreditam.

do The New York Times
Tradução: George El Khouri Andolfato

¹Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. Entre seus principais livros estão “O Nome da Rosa” e o “Pêndulo de Foucault“.

Humberto Eco: Do mosteiro ao picadeiro

Li “O Cemitério de Praga” logo quando do lançamento em língua portuguesa. Como tudo da lavra de Eco, o livro ganhou minha admiração logo nos primeiros capítulos. Boa literatura, prosa bem trabalhada e tramas elaboradas com o requinte de um “gourmet” das letras.

“O cemitério de Praga remete, sutilmente, mas não tanto, a uma das grandes falsificações da história: o embusteiro “Os protocolos dos sábios de Sião”, texto comprovadamente forjado pela polícia secreta do Czar Nicolau II da Rússia, uma farsa montada para justificar a perseguição aos judeus. Esses “protocolos”, que alguns estudiosos creditam ser derivados de um texto francês — Diálogos no inferno entre Maquiavel e Montesquieu — tratam um complexo plano que teria sido elaborado pelos judeus para dominar o mundo. Para alguns adeptos de teorias conspiratórias, teriam servido de mote inspirador para a criação dos campos de extermínios construídos pelos nazistas durante a segunda guerra mundial.
José Mesquita – Editor


“Todas as perguntas possíveis já me foram feitas”, diz Umberto Eco, após terminar o café, afundado numa poltrona da sala de visitas de sua casa, em Milão.

A cigarrilha apagada, hábito de ex-fumante, pende de um lado da boca. “Só não me perguntam, sei lá, quais são os sete anões. Eu responderia que, quando tento me lembrar, sempre são seis.”

Ao fundo, atrás de sua calva, vê-se, de um lado, uma coleção de conchas do mar, escrupulosamente organizadas; de outro, em atris, livros ilustrados do fim do século 19.

São alguns dos originais de onde saíram as ilustrações de seu mais recente romance, “O Cemitério de Praga” [Record, trad. Joana Angélica D’Avila Melo, 480 págs, R$ 49,90].

O “Cemitério” foi recebido como a volta de um mestre ao gênero que o consagrou (após um romance nostálgico e de fundo autobiográfico, “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”): uma trama de mistério, com crimes sangrentos e um protagonista que chega a ser comovente em sua pusilanimidade.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]A entrevista tem por mote o lançamento do livro no Brasil mas também os 80 anos do escritor, nascido em 5 de janeiro de 1932, na piemontesa Alessandria, cuja fama vem dele e dos chapéus Borsalino. Em várias fotos para a imprensa, ele ostenta, com elegância algo zombeteira, um modelo negro da marca.

ROMANCE

Eco, o romancista, nasceu em 1980, após sobrevir-lhe o desejo de envenenar um monge: assim o escritor define o motor inicial de seu “O Nome da Rosa“, best-seller de cifras milionárias, levado ao cinema em 1986 por Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery e Christian Slater.

Àquela altura, o nome do professor italiano era já conhecido: foram muitos ensaios e títulos de teoria, da poética do escritor irlandês James Joyce (“Sou joyciano, não proustiano”, diz, e exibe uma estante forrada de primeiras edições de “Ulysses” em diferentes idiomas) a análises da comunicação de massa (seu primeiro emprego pós-doutoramento em filosofia, em 1954, foi como editor de cultura num dos canais da rede televisiva RAI).

O manual “Como se Faz uma Tese” (Perspectiva), de 1977, ainda hoje é referência em cursos de ciências humanas. Mas o currículo de Eco faz com que ele frequente as bibliografias de muitas disciplinas que não só as de metodologia.

Umberto Eco navegou nas principais ondas que atravessaram os estudos da linguagem na segunda metade do século 20, do estruturalismo à teoria da recepção e à narratologia, parando às margens do pós-estruturalismo; cobriu da filosofia às tirinhas do Snoopy.

Cunhou expressões que se tornaram muletas do discurso universitário: atire a primeira pedra quem nunca disse que toda obra é “uma obra aberta” ou aquele que não juntou numa frase, dita à mesa do bar, “apocalípticos” e “integrados”.

Foi a ficção, porém, que levou seu nome aos píncaros da cultura de massa.

No Brasil, “O Nome da Rosa” saiu em 1984 pela Nova Fronteira. A diretora editorial da casa, Leila Name, qualifica o livro como “uma bomba de sucesso” cujo efeito se multiplicou com o filme. Pelos registros da Nova Fronteira, a primeira investida de Eco na ficção teve no Brasil mais de 45 reimpressões e vendas acima de 600 mil exemplares.

Hoje, sua obra ficcional está toda na Record, que também lança alguns de seus livros de ensaios, como “A História da Beleza” e “A História da Feiura”, almanaques eruditos de popularização da história cultural. Somados, seus títulos na casa venderam cerca de 550 mil exemplares “”91 mil deles de “O Cemitério de Praga”.

Sergio Machado, presidente do Grupo Editorial Record, lembra a aquisição de “O Pêndulo de Foucault”, segundo romance de Eco, em um leilão “””via fax, telex””” comandado por seu pai, Alfredo Machado nos idos de 1988. A quantia acertada pelos direitos do segundo romance de Eco era uma cifra “inédita”, US$ 130 mil (cerca de US$ 237 mil, em números corrigidos, o equivalente a R$ 420 mil).

“Na época, US$ 20 mil eram um absurdo”, situa Machado. O editor se esquiva de fornecer valores atuais, mas diz que a soma paga por um livro de Eco “não anda para trás” e “vem subindo de forma consistente”.

Dali em diante, tudo o que Eco escreveu atingiu números superlativos –inclusive o que menos vendeu na Record, “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, com “apenas” 48 mil exemplares. “Este foi um pelo qual a gente pagou mais do que devia”, diz o editor. “As pessoas querem mais do mesmo.”

Eco não discorda. “Todos falam que escrevo romances eruditos, difíceis”, diz o escritor. “Quando escrevi um fácil, que todo mundo entende, ‘A Misteriosa Chama da Rainha Loana’, foi o que menos vendeu. Dá para ver que sou um autor para masoquistas.”

DAN BROWN

Muitos intelectuais, porém, não engolem a combinação de sucesso comercial e erudição de Eco, tachando-o de uma espécie de Dan Brown mais cultivado. O raciocínio é um velho conhecido no Brasil, onde serve para desqualificar, por exemplo, os romances de Chico Buarque: se o autor vende bem e é pop, mau sinal –só pode ser um picareta.

“Ter Umberto Eco nas estantes da sala é, para muitos, inclusive os que jamais leram uma linha desses livros, uma questão de ‘status cult'”, diz a professora Lucia Santaella, da PUC-SP, colega em semiótica de Eco, a quem tece “críticas até mesmo bastante severas”. Para ela, o italiano é uma espécie de grife, que “compõe bem a pose dos pseudointelectuais que brilham nas grandes praças dos lançamentos do ‘big show business'”.

Um de seus detratores contumazes na Itália, o romano Alfonso Berardinelli, estrela da crítica italiana atual, diz –citando Kafka– que Eco está no centro do mundo, onde se acumula toda a sua imundície, “a prodigiosa escória”.

“Escrevi pelo menos quatro ou cinco artigos e ensaios contra Eco”, rememora à Folha. “Não posso dizer nada de novo; Eco me aborrece faz tempo, e o que eu tinha a dizer já disse há 20 ou 30 anos. Fico maravilhado em ver como agrada”, afirma o autor de “Da Poesia à Prosa” (Cosac Naify).

“Parece engraçado e brilhante, mas na realidade é um professor que não cessa de mesclar erudição e piadas com veia estudantil. E sem fazer rir. É quase uma ofensa à literatura italiana que ele seja seu autor mais notável.”

Berardinelli diz ainda não conhecer nenhum escritor –“nem na Itália, nem fora”– que goste mesmo de Eco. “Sua fama é puramente comercial. É um fenômeno de circo, um autor que impressiona professores de escola.”

PICADEIRO

No meio do picadeiro pós-lançamento, Eco segue imperturbável: profere pausadamente um discurso que soa familiar, pois volta e meia as palavras se repetem em manifestações públicas e entrevistas.

Pudera: a vida literária muitas vezes rivaliza com a de um roqueiro, com cansativas turnês de lançamentos (“Voltei dos EUA com o ombro arruinado, depois de autografar 3.000 livros”, conta) e solicitações para opinar publicamente sobre todo e qualquer fato relevante (menos sobre os sete anões).

Seu apartamento é uma grande biblioteca –são 30 mil volumes; outros 20 mil, estima, estão em sua casa de campo–, mas nada de labirintos compartimentados, apesar de o edifício ser um antigo hotel. À entrada, mapas antigos recebem o visitante; a sala é luminosa e ordenada, com móveis discretos e claros; nas paredes, arte contemporânea; pela janela vê-se a torre do castelo Sforzesco, famoso marco turístico milanês.

A antiga residência dos duques de Milão remonta à Idade Média, período dileto de Eco, que se doutorou pela Universidade de Turim em 1954 com uma tese sobre a questão estética em São Tomás de Aquino. Mas da fortaleza que foi, após múltiplos ataques e sucessivas reconstruções, praticamente nada de original resta.

“Os turistas vêm aqui ver o castelo, onde é tudo falso, e não vão a Brera, onde tem Rafaello, o Cristo de Mantegna, Piero Della Francesca”, lamenta o escritor.

FALSÁRIO

O falso e o verdadeiro são um tópico da obra de Eco. Simone Simonini, o protagonista de “O Cemitério de Praga”, é um falsário. Ou melhor, “o” falsário: Eco atribuiu a ele os grandes crimes contra a verdade que marcariam a virada para o século 20 e, mais que todos, os apócrifos “Protocolos dos Sábios de Sião”, conjunto de escritos antissemitas que teriam servido a Hitler para a fundamentação do nazismo.

“Havendo-me ocupado de problemas de linguagem e comunicação desde 1975, escrevi que o que caracteriza toda forma de signo e de linguagem humana é a possibilidade de mentir. Um cão não mente jamais. Quando late, é porque tem alguém lá fora: nunca aconteceu de um cão latir para que se pense que há alguém lá fora, sem que haja –o homem sim.”

“O problema da mentira implica o problema da falsificação. Entre as falsificações mais trágicas, eis os ‘Protocolos dos Sábios de Sião’, aos quais dediquei vários escritos. Acho que fiz também algumas descobertas “”como a de que trata o romance, que uma das fontes era ‘Joseph Balsamo’, o livro de Dumas.”

O romance de Alexandre Dumas, pai, de 1849, se inicia com uma cena em que maçons entronizam o protagonista em sua seita secreta. A descrição teria inspirado a conspiração de rabinos dos “Protocolos”, forjada no cemitério judaico da capital tcheca, que se teriam congregado para tramar a dominação do mundo.

O “documento” (que difama os semitas “num patchwork contraditório que não se poderia levar a sério, mas que foi muito levado a sério”) justificaria o ódio aos judeus e seu extermínio preventivo.

“Ninguém sabe como surgem os ‘Protocolos’: como nasceram, quem os fez, em quantas fases. Por isso fiquei livre para atribuir tudo a Simonini”, diz. E explica que Simonini é o único personagem fictício no romance, um “feuilleton” oitocentista.
Ele frisa, porém que, Simonini, apesar de inventado, “é mais verdadeiro que os demais”.
“Eu estava sempre pensando em pessoas que conhecemos, falsários, jornalistas vendidos, que sabemos quem são, até o nome e o sobrenome. Minha ambição seria que os leitores usassem o livro como um guia para visitar o mundo dizendo ‘lá vai um Simonini’.”
Eco arrisca uma leitura psicológica das motivações para a obsessão central de Simonini, que é o ódio aos judeus fomentado nele pelo avô desde a infância.

“Descobri que algumas pessoas acabam odiando alguém porque lhe fizeram mal “”veja bem, não odeio alguém porque alguém me fez mal, mas porque eu lhe fiz mal e depois o odeio. Mas por quê? Porque tento esquecer que eu sou o culpado e tento me convencer de que ele merecia meu ódio.”

E garante: “Aconteceu comigo também: gente que aprontou comigo depois escreveu artigos contra mim. Mas entendi que tinham sido desrespeitosos comigo e depois precisavam se justificar”.

Como reza o título da mais recente coletânea de ensaios de Eco –o ainda inédito em português “Costruire il Nemico” (2011), no qual se reconhecem temas e aspectos de “O Cemitério de Praga”: é preciso construir o inimigo.

CRÍTICA

Eco diz “desconfiar muito da chamada crítica militante, a que se faz nos jornais, em comparação com a crítica acadêmica”.

“Antes, quando saía um livro, o diretor do jornal dava seis meses ao crítico para ler; não havia necessidade de falar dele no dia seguinte. Hoje o crítico lê sempre numa situação de pressa e fica sujeito à estação, à dor de cabeça, ao que comeu na noite anterior. Se tivesse tido seis meses, comendo cada dia algo diferente, a sua leitura seria mais equilibrada.”

E, como que a precaver-se de um ataque, emenda: “Note-se que eu acho desequilibradas não só as críticas que falam mal de meus livros mas também as que falam bem; elas às vezes me irritam porque falam bem pelos motivos errados.”

Ele se irrita, também, quando inquirido se existem de fato “motivos errados”. Parece condenado a relembrar que a obra é aberta, sim, mas que a interpretação tem limites: “A minha posição é muito clara: não sou um desconstrutivista que acha que um texto pode ter qualquer significado e que cada um pode ler como quiser. A liberdade da leitura é sempre determinada pelo objeto que está lá.”

SEMIÓTICA

Se a semiótica foi devorada por outros estudos e devolvida sob outros avatares acadêmicos, a culpa é em parte de Eco.

Com rara clareza numa ciência em que a obscuridade volta e meia era confundida com argúcia, o italiano aplicou conceitos da ciência dos signos em estudos amplamente difundidos e citados (mesmo que muitas vezes de orelhada) fora do âmbito dos semioticistas, alastrando-os para campos mais diversos e talvez menos cerebrais.

Sempre evocada quando se pensa em semiótica, sua produção, porém, não empolga seus pares. Para Lucia Santaella, o pensamento que ele produziu é “miscigenado”: “Ele mistura indiscriminadamente correntes, autores, teorias, criando uma salada complexa e difícil de entender.”

A professora não nega a Eco o papel de “intelectual engajado”, que, “alerta, marca sua posição acerca dos eventos”, “como um jornalista bem dotado”.

“Ele é escritor prolífico. Nos inúmeros congressos de que participei em que ele estava presente, comentava-se que ele escrevia até nos táxis. De fato, ele tem a veia dos gênios. Sua genialidade é a do discurso”, concede Santaella.

PARÓDIA

O discurso de Eco tem um aspecto brincalhão que parece atiçar parte da crítica contra ele e marca, por exemplo, seus dois “Diários Mínimos”, divertidas coletâneas de paródias e pastiches intelectuais, que em maio ganham nova edição [Record, trad. Joana Angélica D’Avila Melo e Sergio Duarte, 560 págs., R$ 62,90; leia trecho de “Nonita” à pág. 10].

A despeito do lado gracioso, Eco tem para sua literatura pretensões nada triviais. Seus diversos ensaios sobre a leitura, como “O Papel do Leitor”, e livros sobre o tema, como “A Obra Aberta” e “Lector in Fabula”, talvez sejam o retrato do que o Eco ensaísta esperava do Eco romancista: a forja, no mundo real, de um leitor modelo.

“Que leitor modelo eu queria quando estava escrevendo?”, inquire retoricamente Eco em seu “Pós-escrito a ‘O Nome da Rosa'” (Nova Fronteira, 1985). “Um cúmplice, claro, que entrasse no meu jogo. Eu queria tornar-me completamente medieval e viver na Idade Média como se esta fosse minha época (e vice-versa)”, escreve.

“Mas, ao mesmo tempo, eu queria, com todas as minhas forças, que se desenhasse uma figura de leitor que, superada a iniciação, se tornasse meu prisioneiro, ou melhor, prisioneiro do texto e pensasse não querer nada mais do que aquilo que o texto lhe oferecia.”

Questionado se o teórico transparece no romancista, ele nega. Diz que, se é que se encontram reflexos de sua teoria na sua ficção, é “porque evidentemente eu não sou esquizofrênico”: “Até os ginecologistas se apaixonam. Sustento que você pode ter a teoria que for, mas, quando lê, se aquilo o cativa, ao menos numa primeira fase da leitura esquece a teoria.”

Berardinelli, seu crítico mais feroz, faz uma descrição tão ácida quanto acertada do que é tentar definir a produção de Eco.

Assim diz, no texto “Umberto Eco e Seu Pêndulo”, publicado aqui em edição da revista “Remate de Males” organizada pela professora Maria Betânia Amoroso no primeiro semestre de 2005:

“Toda vez que se cai na armadilha de seguir enumerativamente a vertiginosa pluralidade da mente de Eco, se acaba por ter que desistir derrotado: estamos frente ao inesgotável […]. Se eu também me pusesse a enumerar tudo aquilo que ele enumera não faria nada mais do que lhe fazer eco.”
Francesca Angiolillo/Folha de S.Paulo