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Venezuela; a caminho de ser uma nova Síria?

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Apoiadores do líder da oposição venezuelana Juan Guaido passam para o lado colombiano da Ponte Internacional Francisco de Paula em Cucuta, durante confrontos com as forças de segurança venezuelanas em Urena, Venezuela, em 25 de fevereiro de 2019. Foto: Raul Arboleda/AFP/Getty Images
HUGO CHÁVEZ PRESIDIU a Venezuela entre 1999 e 2013, tornando-se provavelmente o líder latino-americano mais icônico desde Fidel Castro. Ao chegar ao poder, em 1999, Chávez prometia não só reverter o movimento de privatizações sugeridas pelo Consenso de Washington, mas instaurar o que chamava de “socialismo do século 21”. Não conseguiu. Nenhum governo daquele país, seja “neoliberal-entreguista” seja “bolivariano”, conseguiu transformar as riquezas naturais da Venezuela em um alto nível de educação médio de seu povo e na alavanca para a sofisticação e modernização da economia nacional.

O colapso econômico da Venezuela não é culpa apenas da queda do preço do petróleo. É resultado também de políticas econômicas temerárias, como fixação de preço de diversas mercadorias a um valor abaixo do de mercado, ameaças e prisões de empresários e expropriação de companhias que não obedecessem às ordens do governo. Hoje, a participação do setor de manufaturados no PIB da Venezuela é inferior ao registrado em 1999. Houve não apenas uma queda em termos relativos, mas também em termos absolutos, ou seja, a Venezuela tem hoje uma produção industrial menor do que a de 1999. Em 2016, a queda da produção industrial venezuelana foi da ordem de 19%; no ano seguinte, mais 15%. Em 2002, havia por volta de 830 mil empresas na Venezuela, em 2017 o número havia caído para 250 mil. Por fim, entre 2013 e 2017, o PIB da Venzeuela encolheu em 37%.

Ascensão e queda do chavismo

Militar de carreira, Chávez começou a aparecer na cena política em fevereiro de 1992, quando foi um dos responsáveis por uma tentativa de golpe de estado contra o então presidente Carlos Pérez. Seu plano fracassou. Chávez, então, concedeu entrevista pedindo que seus companheiros deixem as armas, para evitar um “banho de sangue” no país. Durante o processo, 49 pessoas foram mortas.

Ainda preso, foi figura importante de uma outra tentativa de golpe, em novembro daquele mesmo ano. Em vídeo divulgado pela TV estatal, controlada pelos golpistas, o futuro presidente louvava o movimento revolucionário bolivariano. O golpe de novembro também fracassou, deixando 171 mortos pelo caminho.

Com a eleição de Rafael Caldera para presidente do país em 1994, Chávez e os demais conspiradores bolivarianos foram soltos da prisão. Quatro anos depois, aos 44 anos, com o apoio do Partido Comunista Venezuelano, do Movimiento al Socialismo, entre outros, Chávez saiu vitorioso das eleições presidenciais com 56% dos votos válidos.

No Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo trazia a reportagem em 7 dezembro de 1998, com o título “Eleição venezuelana consagra o golpista Chávez”. Nesse mesmo dia, o NY Times trazia uma pequena nota com o título: “Venezuelanos elegem um ex-líder golpista como presidente”.

Os golpes de 1992 tinham como alvo as políticas “neoliberais” então implementadas na Venezuela. Prometendo evitar os erros cometidos pelos soviéticos e sentado sobre as maiores reservas de petróleo do mundo, Chávez deu início ao seu reinado. E petróleo é a variável-chave para compreender a dinâmica política e econômica da Venezuela. Em 2017, por exemplo, algo como 95% das exportações venezuelanas se constituíam de petróleo bruto, refinado e derivados. Sendo assim, quando o preço do petróleo aumenta, a Venezuela enriquece. Quando cai, empobrece.

O peso do petróleo nas exportações venezuelanas: cerca de 95% vêm de vendas de petróleo bruto, refinado e derivados

O peso do petróleo nas exportações venezuelanas: cerca de 95% vêm de vendas de petróleo bruto, refinado e derivados.

Fonte: The Observatory of Economic Complexity/MIT.

O gráfico mostra o preço médio do petróleo entre 1999 e 2016, já ajustado pela inflação.

O gráfico mostra o preço médio do petróleo entre 1999 e 2016, já ajustado pela inflação.

Gráfico: InflationData.com

Quando Chávez assumiu, o preço do barril estava próximo de US$ 25, entrando numa trajetória quase linear de alta, atingindo o valor recorde de US$ 103 em 2008. Com o preço real médio multiplicado por quatro em menos de uma década, Chávez pôde implementar uma série de políticas sociais que o transformaram em um líder extremamente popular. Ao controlar o Exército e o principal setor da economia – já que a estatal PDVSA é a grande empresa da área –, Chávez tornou-se o líder inconteste daquele país.

Em 2009, em consequência da crise americana, o preço do petróleo cai abruptamente, mas logo se recupera, atingindo US$ 95 em 2013, ano da morte de Chávez. A partir daí, entra em cena Nicolás Maduro, ex-motorista de ônibus que havia servido como Ministro das Relações Exteriores e vice-presidente. Sem o mesmo carisma de seu antecessor e sofrendo com nova queda do preço do petróleo, Maduro redobrou as apostas no autoritarismo e no populismo econômico.

Com a queda nas receitas do petróleo e como forma de continuar financiando os gastos do governo, só sobrou a Maduro o velho e ineficaz remédio de imprimir dinheiro, fazendo com que a inflação na Venezuela explodisse. Para este ano, o FMI espera uma taxa de inflação acima dos 10.000%.

Com a queda no valor das exportações, a Venezuela se viu sem dinheiro para financiar suas importações, fazendo com que o abastecimento de produtos básicos e insumos industriais e agrícolas entrasse em colapso. Não há comida, não há peças de reposição, não há remédios, pois não há dinheiro. A fome, a doença, o desemprego e a desesperança têm sido o motor da migração em massa de venezuelanos, algo que se denomina diáspora bolivariana. Mais de 2 milhões de venezuelanos saíram do país desde 2014.

Nova liderança instiga guerra civil

A catástrofe econômica não é inteiramente conhecida, pois não há estatísticas confiáveis. É provável, porém, que seja uma das maiores crises econômicas já registradas por um país que não atravessou uma guerra ou uma catástrofe natural de grande escala. A Venezuela entrará de modo negativo para os anais da história econômica do mundo.

A crise agora se agrava graças às questões geopolíticas. A decisão de parte importante da comunidade internacional (EUA, Canadá, União Europeia e o grupo de Lima, por exemplo) em reconhecer Juan Guaidó como presidente da Venezuela é algo grave. Um país com dois presidentes em exercício e reconhecidos por superpotências econômicas e militares (China e Rússia, por exemplo, apoiam o regime de Maduro) faz com que as possibilidades de guerra civil e/ou secessão cresçam.

As sanções econômicas impostas por Trump tornam a situação fiscal da Venezuela ainda mais desesperadora, implicando na piora da fome e da mortalidade. Apoiado por gestos e palavras de insanos como Trump e Bolsonaro, Guaidó publicou em seu twitter uma mensagem que parece um apelo à invasão estrangeira e/ou à guerra civil.

Há chances reais e efetivas de a Venezuela se tornar um novo Afeganistão, Iraque, Síria ou Líbia. Não há mocinhos nessa história. Os países nos quais os EUA estimularam ou provocaram a queda de ditadores – inclusive durante o governo Obama – caíram numa espiral de caos político e econômico. Se Trump decidir armar a oposição, China e Rússia tampouco ficarão sem apoiar seus aliados. Seria uma tragédia sem paralelos na história recente da América Latina um novo episódio da nova guerra fria travada por essas três potências.

Nenhum desses países tem real interesse pelo bem-estar dos venezuelanos. Suas preocupações são mesquinhamente econômicas e geopolíticas. Nenhum desses países se guia pelos princípios humanitários da Carta das Nações Unidas, mas pelo poder e pela baixa política do Conselho de Segurança.

Ainda que não haja uma invasão estrangeira imediata, cada uma dessas potências pode armar e estimular setores do Exército e da sociedade civil, arrastando a Venezuela para um conflito ao estilo da Síria. Estamos vendo um palco de guerra sendo montado em nossas fronteiras estimulado pelas palavras e gestos de dois despreparados que nos governam: Bolsonaro e Ernesto Araújo. Ou pior: pelos tuítes nada diplomáticos de um dos filhos do presidente.

Vídeo incorporado

Mourão, o adulto na sala

Numa clara sinalização de guerra de atrito entre o Itamaraty olavista e as Forças Armadas, Mourão participou da última reunião do grupo de Lima, posando para fotos oficiais ao lado do chanceler Ernesto. O vice-presidente parece mesmo condenado a desempenhar o papel do adulto na sala.

A declaração final do grupo de Lima foi surpreendentemente serena. Ainda que condene as ações do “regime ilegítimo de Nicolás Maduro” e enfatize o reconhecimento de Guaidó como único presidente legítimo do país, o documento afirma que “a transição para a democracia deve ser conduzida pelos próprios venezuelanos e sob o marco da Constituição e do direito internacional”. Frase em plena consonância com os princípios elencados no artigo 4° de nossa Constituição, entre os quais estão o respeito à “autodeterminação dos povos” e a “não intervenção”.

Permitir a entrada de tropas americanas via solo brasileiro para atacar um país vizinho (numa manobra ilegal, que não seria aprovada pelo Conselho de Segurança, graças ao veto de Rússia e China) seria uma mancha em nossa história e um crime grave o suficiente para determinar a saída de Jair Bolsonaro do palácio do Planalto. Por meio de gestos e frases descuidadas, Bolsonaro pode provocar a primeira guerra entre o Brasil e um de seus vizinhos desde a Guerra do Paraguai (1867-1870) – sempre bom não perder de vista que a Venezuela já gastou desde meados dos anos 2000 algo como US$ 10 bilhões apenas com armamentos russos.

Ainda que o cenário de um confronto direto entre Brasil e Venezuela seja pouco provável, um governo sensato mediria as palavras e buscaria agir como mediador na crise daquele país. Mas uma retórica bélica, nacionalista e inflamada como a dos Bolsonaro, ensina a história, é um convite à violência.

Que Mourão seja mesmo “o adulto na sala”, tenha ouvido moucos para os idiotas, e costure uma saída pragmática para o Brasil.
Alexandre Andrada/TheIntercept

Brasil,América Latina,Venezuela,Nicolas Maduro,EUA,USA,Trump,Bolsonaro

“Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser o Brasil”, adverte pesquisadora sobre conflito

Márcia Oliveira, especialista em fronteira e migração, analisa o papel do Brasil na “ajuda humanitária” ao país vizinho

O Brasil assumiu um papel decisivo na fronteira com a Venezuela no último sábado (23), protagonizando um momento ímpar na relação entre os dois países, com alcance mundial. Primeiro porque coordenou toda a operação da tentativa frustrada de cruzar as duas caminhonetes com alimentos para a Venezuela. Segundo porque permitiu que manifestantes utilizassem o lado brasileiro, mesmo com a fronteira fechada, para se aproximar dos militares venezuelanos e fazer provocações com pedras, queima de pneus e incêndio de um alojamento militar ao lado de um posto de gasolina da Petroleira Venezuelana (PDVSA) com bombas de coquetel molotov.

Doutora em fronteira e migração, professora do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e uma das sete especialistas do Brasil que participam da formulação do Sínodo sobre a Amazônia, evento que será realizado em outubro pela Igreja Católica, Márcia Oliveira analisa a postura diplomática e militar do país na fronteira com a Venezuela e questiona as decisões do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Além disso, afirma que é importante enxergar o vizinho como um país irmão e não como um inimigo.

Brasil de Fato: Qual é a sua avaliação sobre a tentativa de entrega da suposta ajuda humanitária do último sábado (23) na fronteira do Brasil com a Venezuela?

Márcia: Para ser confirmada uma ajuda internacional existe um padrão que é definido pela solicitação, logística dessa chegada da ajuda humanitária e, principalmente, pelas estratégias de distribuição, justamente para não criar um problema na disposição dos alimentos. De fato, a materialização do ocorrido no dia 23 de fevereiro nos dá a entender que essa ajuda humanitária teve um cunho político muito forte. Ou seja, ela não se configura a partir do padrão internacional convencionado como ajuda humanitária e, ao mesmo tempo, ela não segue nem os padrões de logística e nem de distribuição, o que nos leva entender a ajuda, uma pseudo ajuda humanitária, como um fato político.

Qual a estratégia por trás dessa “ajuda humanitária”?

A partir do fato em si na fronteira que, num primeiro momento, nos pareceu um jogo de forças, nos deu a entender que era uma espécie de tentativa de medir forças para reunir os opositores do governo Maduro numa grande encenação daquilo que seria a entrada no país pelas fronteiras. E, claro, com a presença de representantes dos Estados como o Chile, Brasil, Colômbia nas fronteiras prontos para celebrar aquilo que seria a entrada definitiva no país. A análise que fazemos, no campo sociológico, é que há um embate contra o governo Maduro. Como não se consegue minar o país pelas vias políticas, tenta-se minar o país pelas fronteiras. Ou seja, não existe uma justificativa que permita uma intervenção militar na Venezuela. Pelo menos do ponto de vista sociológico, isso não existe. Adentrar pelas fronteiras poderia, sim, se configurar como uma grande estratégia de ocupação e intervenção política num processo em que o Brasil está envolvido, e outros países também nesse Grupo de Lima, que acaba transformando uma questão que seria mais no campo social-humanitário, numa questão política.

Estados Unidos e Europa, que se dizem preocupados com a Venezuela, impõem ao país governado por Nicolás Maduro uma série de sanções. Qual o impacto disso no momento que vive o país sul-americano?

Para mim, não é uma questão apenas de governo, não é uma situação criada por Maduro, é uma questão que envolve uma complexidade de elementos no campo político, no campo econômico. O embargo transcende a questão local. Poderia ser qualquer governo fora desse contexto e o embargo teria o mesmo peso. Ou seja, estamos lidando com uma relação de poderes econômicos que afeta a Venezuela neste momento. Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser o Brasil. Então são questões no campo do capitalismo, na intensificação do capitalismo neste momento histórico em que os interesses econômicos estão acima dessas populações locais, inclusive nesse caso específico do conflito na fronteira, que colocam em risco a vida de centenas – e talvez milhares – de pessoas que estão ali na fronteira, de uma forma muito irresponsável. O interesse econômico está acima da vida das pessoas. Então o embargo traz esse elemento muito forte.

O reforço da segurança por parte do Estado brasileiro só ocorreu após as provocações por parte dos opositores e resposta por parte dos militares venezuelanos. Qual a responsabilidade do governo Bolsonaro nesse conflito?

Temos dois atores importantes nesse processo: o Exército e o Ministério das Relações Exteriores. No mínimo, essas duas instituições devem explicações à sociedade brasileira sobre sua postura, principalmente por colocar em risco a vida de tantas pessoas na fronteira. E também por se tratar de um país vizinho, de um país de fronteira. Não estamos falando de qualquer um. Não estamos falando de uma coisa alheia às nossas relações, estamos falando de um [país] vizinho. Nesse sentido, no mínimo, as instituições que se envolveram nesse cenário de encenação da ajuda humanitária devem explicações à sociedade brasileira. Acredito que em algum momento um deputado federal deve chamar ao parlamento as pessoas que estiveram à frente dessas instituições, para se justificar diante da sociedade brasileira, pelo menos, ou para prestar uma explicação política sobre esse envolvimento. Não acredito que essas duas instituições representem a totalidade do povo brasileiro.

Quais os efeitos para o Brasil de uma possível guerra contra a Venezuela?

Toda guerra é tremenda e evitá-la deve ser o objetivo de toda e qualquer sociedade que tem o mínimo de entendimento sobre relações transfronteiriças, que pensa a fronteira como vizinha e não como inimiga. Não quero acreditar que acontecerá uma guerra contra a Venezuela e não quero acreditar que o Brasil participe disso, porque historicamente nós não temos a postura de não estabelecer guerra com ninguém, mas ao mesmo tempo há uma preocupação muito grande sobre os andamentos, os rumos dessa relação difícil e tensa com a Venezuela, que é um país irmão, vizinho, que não pode ser visto como um inimigo, como um país passível de guerra.
OperaMundi/Andre Vieira

Venezuela,Madura,Petróleo,Trump

Confirmado: Estados Unidos cercam militarmente Venezuela

Venezuela,Madura,Petróleo,TrumpSob o pretexto de ajuda humanitária, EUA se preparam para intervenção militar na Venezuela

Os recentes movimentos de tropas dos EUA, relatados por fontes públicas e pela mídia, confirmam que Washington está se preparando para se aproximar militarmente da República Bolivariana da Venezuela sob o pretexto de uma suposta “intervenção humanitária”.

Cuba assegurou em 13 de fevereiro, por meio de uma declaração do governo revolucionário, que os Estados Unidos pretendem fabricar “um pretexto humanitário para iniciar uma agressão militar contra a Venezuela” e denunciaram voos militares na região do Caribe como parte dos preparativos.

Embora fontes em Washington e alguns dos países envolvidos tenham sido rápidos em negar denúncias cubanas, as últimas informações disponíveis ratificam e ampliam a evidência de um cerco militar premeditado contra Caracas.

Segundo Rogan, em menos de uma semana o Pentágono é capaz de mobilizar 2.200 fuzileiros navais, jatos de combate, tanques e colocar dois porta-aviões na Venezuela.

Os três pontos do tridente norte-americano são: Caribe, Colômbia e Brasil. Não é coincidência que o almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul, tenha visitado Bogotá, Brasília e Curaçao durante as últimas semanas, sob a cobertura da suposta organização da entrega de “ajuda humanitária” à Venezuela.

O Caribe: Do porta-aviões Abraham Lincoln para Curaçao

Com a autorização da Holanda, os Estados Unidos organizam um centro de distribuição para a suposta ajuda na ilha de Curaçao, a poucos quilômetros das fronteiras com a Venezuela.

Mas a mobilização militar é muito mais ampla na região do Caribe. Na denúncia cubana, explica-se como, entre 6 e 10 de fevereiro de 2019, foram feitos vôos de aeronaves de transporte militar para o Aeroporto Rafael Miranda de Porto Rico, a Base Aérea de San Isidro, na República Dominicana e para outras ilhas do Caribe estrategicamente localizadas.

Agora, há o anúncio de que a Marinha dos Estados Unidos implantou um Grupo de Ataque de Porta-Aviões (CSG) no Oceano Atlântico e na costa da Flórida.

A frota é composta pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln (CVN-72), um cruzador de mísseis e quatro destróieres, além de uma fragata da marinha espanhola convidada a participar.

“Os GSGs têm recursos de plataforma cruzada para operar onde e quando necessário. Além de ter flexibilidade e sustentabilidade para combater guerras em grande escala e garantir a liberdade dos mares, os CSGs são símbolos visíveis e poderosos do compromisso dos Estados Unidos com seus aliados, parceiros e amigos ”, disse um comunicado de imprensa oficial do Marinha americana.

A bordo do USS Abraham Lincoln, o porta-aviões nuclear da classe Nimitz, opera o Embarked Air Squadron (CVW) 7, equipado com o Lockheed F-35C Lightning II, o mais avançado caça-bombardeiro do arsenal americano.

O grupo iniciou no dia 25 de janeiro os exercícios COMPTUEX, supostamente destinados a preparar a formação antes de um destacamento militar.

Embora sua localização atual e o destino de sua implantação sejam desconhecidos, os consultores militares Stratfor e Southfront localizaram o GSG em algum ponto do Atlântico, na costa do estado da Flórida.

Nos últimos dias, foi relatado que o grupo havia tentado um cruzamento de estreitos, uma manobra necessária para entrar no Mar do Caribe, que é separado por alguns dias de navegação.

Ragan aponta outra informação interessante em seu artigo. Os Estados Unidos poderiam não ter um, mas dois porta-aviões na faixa operacional da Venezuela em uma semana.

O porta-aviões USS Theodore Roosevelt e o navio de desembarque anfíbio USS Boxer estão “casualmente” agora, no porto de San Diego, Califórnia, a menos de uma semana de navegação da costa do Pacífico da Colômbia.

“O USS Boxer tem a bordo a décima primeira Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais (MEU), uma das 7 MEUs do Exército dos EUA. Esta unidade de fuzileiros navais tem aproximadamente 2.000 homens. O propósito expresso de uma MEU é oferecer uma capacidade de rápida implementação militar “, diz Ragan.

Colômbia, onde Bolton quer enviar 5.000 soldados

Aeronave de transporte militar pesado de longo alcance C-17 Globemaster III terras em Cúcuta, Colômbia. Foto: Telemundo

Desde a época do Plano Colômbia, inaugurada em 1999, a Colômbia é um dos principais aliados militares dos Estados Unidos na região. Washington estava prestes a instalar formalmente sete bases militares em território colombiano durante o mandato de Álvaro Uribe, mas uma decisão do Tribunal Constitucional bloqueou o plano.

No entanto, Bogotá encontrou uma maneira de contornar os controles e, finalmente, autorizou a presença americana e a implantação de logística nas principais instalações militares do país andino.

Essa aliança próxima chegou às manchetes no final de janeiro, quando o assessor de segurança nacional da Casa Branca, John Bolton, “acidentalmente” mostrou uma anotação em seu caderno com o plano de enviar 5.000 soldados dos EUA para a Colômbia, como parte da operação contra a Venezuela.

O próprio presidente Donald Trump não descartou a idéia e, quando perguntado sobre isso durante uma reunião com seu colega colombiano, Ivan Duque, ele simplesmente disse: “Vamos ver”.

O presidente colombiano, por sua vez, preferiu não responder com um “sim” ou um “não” à possibilidade de a Colômbia permitir a entrada de tropas americanas, apesar do jornalista Bricio Segovia, da Voz da América, ter perguntado a ele. o mesmo em várias ocasiões:

Durante a entrevista, Segovia pergunta a Iván Duque:

– A Colômbia estaria disposta a receber 5.000 soldados em seu território?

Ao que o presidente colombiano respondeu: – Não sou bom em ler cadernos de outras pessoas.

Segovia insiste: – Você esteve com ele (John Bolton) recentemente.

– O que eu posso dizer é que estamos trabalhando duro para a libertação do povo venezuelano e estamos fazendo isso com um cerco diplomático bem-sucedido. Esse cerco diplomático é sem precedentes. Esse cerco diplomático isolou o ditador. Esse cerco diplomático é irreversível e a continuidade disto virá do efeito dominó que deve ser ativado pelas Forças Militares da Venezuela – responde Duque.

– Mas a Colômbia está disposta a receber tropas militares em seu território? – Segovia responde.

– Eu tenho sido claro, a solução em que acredito está no cerco diplomático. A continuidade do cerco diplomático deve ser o efeito dominó que será gerado na Venezuela quando mais membros das Forças Armadas depositarem sua lealdade a Juan Guaidó – ressalta Iván Duque.

– Então, a Colômbia não está disposta a receber tropas americanas em seu território … – esclarece Segovia.

– Nós fomos claros. O mais importante para a Venezuela alcançar a liberdade é o cerco diplomático, diz Duque.

– Então, é um não? – insiste Segovia

– O cerco diplomático é a ferramenta mais importante que tem sido visto na história da América Latina. Então, acho que é um grande triunfo para comemorar. A continuidade disto é representada pelo fato de que há mais soldados, assim como aqueles que já o fizeram nos últimos dias, entregando sua lealdade e juramento a Juan Guaidó.

– Com licença, senhor presidente, mas você não está respondendo a pergunta. A Colômbia está disposta a receber tropas dos EUA em seu território? – Segovia insiste novamente.

– Eu responderei de novo … – Duque diz.

mas Segovia o interrompe – sim ou não? Não tem nuances esta questão.

– É que, como não tem nuances, reitero que acredito convincentemente na importância do cerco diplomático, conclui Duque.

Segovia pediu a seus seguidores em sua conta no Twitter que tirassem suas próprias conclusões após a evasão do presidente.

Embora a chegada dos 5.000 militares ainda não tenha sido confirmada, os Estados Unidos já têm um transporte aéreo da base militar de Homestead, na Flórida, para a cidade colombiana de Cúcuta, a 2.600 quilômetros de distância.

Para as operações, são utilizados pelo menos três aviões de transporte militar pesado C-17 Globemaster III de longo alcance, fabricados pela Boeing e capazes de transportar 180 toneladas e entre 80 e 100 tripulantes.

Homestead é também a sede do controverso Comando Sul dos EUA.

Comando Sul

É o Comando Unificado das Forças Armadas dos Estados Unidos que operam na América Latina e no Caribe e um dos nove comandos diretamente ligados à mais alta liderança do Departamento de Defesa dos EUA.

Opera em um raio de ação de 32 países, 19 deles na América Central e do Sul e o restante no Caribe. Desde 1997, sua sede é no estado da Flórida.

Antes, desde 1947, baseava-se no Panamá. Sua própria história reconhece que, como antecedente “glorioso”, o desembarque de fuzileiros navais ianques naquele país no início do século XX. Comando Sul, também conhecida pela sua nomeação Inglês USSOUTHCOM se tornou um símbolo do intervencionismo americano na região e tem sido um aliado das forças militares e paramilitares tão pobre registro de mortes, torturas e desaparecimentos não deixaram nas nações latino-americanas e Caribe há mais de um século.

Nos últimos anos, o USSOUTHCOM vem armando, treinando e doutrinando exércitos nacionais para servir os interesses dos EUA sob sua liderança. O objetivo é evitar o uso de tropas americanas e, assim, reduzir a oposição política nos Estados Unidos.

O modelo é que Washington dirige e treina exércitos latino-americanos através de “programas conjuntos” extensivas e intensivas e subcontrata empresas mercenárias privadas que prestam militar especializado, todos os oficiais “aposentado” do exército norte-americano. (Extraído da Encyclopedia against Terrorism)

O Brasil de Bolsonaro, um novo aliado do Pentágono

Fronteira entre Brasil e Venezuela no Estado de Roraima. Foto: Arquivo Cubadebate

O Brasil, o maior país da América do Sul e com as maiores forças militares, tornou-se nos últimos anos um aliado inesperado da implantação do Pentágono na região.

Os governos de Michel Temer (interino após um golpe parlamentar) e Jair Bolsonaro, pretendem mudar a matriz do nacionalismo forte que se consolidou durante os governos do Partido dos Trabalhadores.

Em uma das primeiras entrevistas depois de assumir o cargo de presidente, a ultra-direita de Bolsonaro garantiu ao canal do SBT a possibilidade de instalar uma base militar norte-americana no país.

Mas Bolsonaro, um ex-capitão de um posto menor, parcialmente retratou sua ideia ao receber fortes críticas de seus próprios generais.

No entanto, ninguém duvida da proximidade do novo presidente brasileiro com seu colega americano, nem da admiração de dois de seus filhos pelo Mossad (serviço secreto dos hebreus) e pelo exército israelense.

O chefe do Comando Sul dos Estados Unidos esteve na semana passada no Brasil e foi recebido pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, com quem discutiu o “caso da Venezuela”.

Bolsonaro comprometeu-se a usar o estado de Roraima como um centro de coleta para a suposta ajuda humanitária contra a Venezuela e, portanto, para o desdobramento logístico dos EUA.

Seja qual for o objetivo da mobilização militar ordenada pela Casa Branca – dos preparativos para uma agressão direta a outra medida de pressão psicológica contra suas autoridades legítimas -, o que é inegável neste momento é que os Estados Unidos movem suas cartas no região para cercar a Venezuela por todas as estradas ao seu alcance.

Diante desse cenário, Cuba convocou todos os povos e governos do mundo para defender a paz e se opor, juntos, a diferenças políticas ou ideológicas, para impedir uma nova intervenção militar imperialista na América Latina e no Caribe que prejudicaria a independência, a soberania e os interesses dos povos do Rio Grande à Patagônia.

Jinping,Trump,China,USA,Economia,Política Internacional

Por trás da guerra comercial entre China e EUA, uma disputa pela liderança tecnológica mundial

Trump e Jinping em Pequim: guerra comercial e tecnologia
Foto Shealah Craighead/White HouseJinping,Trump,China,USA,Economia,Política Internacional

Se há de se manter a paz, entretanto, é necessário entender que é possível travar política internacional e construir um mundo de ganhos mútuos em que os avanços de uns não venham necessariamente a custo do prejuízo de outros

No início do mês, a diretora financeira da Huawei, gigante chinesa de telecomunicações que recentemente se tornou a segunda maior fabricante de celulares do mundo, foi presa no Canadá a pedido da polícia estadunidense sob alegações de ter participado ativamente de transações que violam sanções dos Estados Unidos contra o Irã. A detenção de Meng Wanzhou, que em breve deve ser deportada aos EUA e, se condenada, pode enfrentar décadas atrás das grades, se deu na mesma noite em que Donald Trump e Xi Jinping se reuniam em Buenos Aires, durante o encontro da cúpula do G20 na capital argentina, e concordavam com uma trégua de 90 dias na guerra comercial que marca as relações entre chineses e estadunidenses desde o princípio de 2018. Em resposta, o governo chinês já deteve dois canadenses – um ex-diplomata e um escritor – e alertou para a possibilidade novas retaliações aos envolvidos caso a executiva não seja liberada. Analistas agora temem que o caso possa desfazer o acordo feito na Argentina e alimentar as hostilidades no comércio entre Washington e Pequim.

Se por um lado, porém, a preocupação por parte de agentes do mercado, políticos e especialistas quanto à guerra comercial sino-estadunidense é compreensível, o conflito, por outro, é apenas uma face do fenômeno maior, este sim protagonista das recentes narrativas que marcam as interações entre os dois países, evidenciado pela prisão de Meng em Vancouver – uma feroz disputa pela liderança tecnológica mundial entre Estados Unidos e China. Por trás das repetidas alegações estadunidenses de que os chineses abusam do sistema internacional ao adotar práticas injustas de desenvolvimento, há a clara percepção de que uma China em plena ascensão ameaça a dominância militar e econômica de Washington, cujo eixo é justamente a dianteira tecnológica global ocupada pelos norte-americanos há quase um século, e que, portanto, é preciso combatê-la. Tarifas a importados chineses nos Estados Unidos são parte deste esforço, mas não o quadro completo da ofensiva dos norte-americanos contra Pequim.

Há alguns anos, boa parte das políticas de modernização da base industrial chinesa vem sofrendo frequentes ataques de Washington. O caso mais recente e notório é o do Made in China 2025, um plano que busca preparar a indústria chinesa para ascender ao topo das cadeias internacionais de valor sob o contexto da quarta revolução industrial. Em 2017, a Câmara Americana de Comércio lançou um relatório em que relata preocupação com aquisições de empresas e propriedade intelectual estadunidense estimuladas pelo plano por parte de corporações chinesas. Já neste ano, uma delegação de oficiais de governo dos Estados Unidos enviada a Pequim defendeu não somente a correção do desequilíbrio comercial entre os dois países, mas também – e principalmente – o próprio abandono do Made in China 2025 por parte do governo chinês. Para os oficiais, o plano possibilita que corporações chinesas compitam injustamente em mercados internacionais e eventualmente dominem indústrias estratégicas em muitos casos hoje dominadas por empresas dos EUA.

Concomitantemente, o ambiente político e econômico nos Estados Unidos tem se tornado crescentemente hostil a empresas chinesas de tecnologia de ponta. Em janeiro deste ano, legisladores estadunidenses pediram que a AT&T, uma das principais prestadoras de serviços de telecomunicação do país, cortasse relações comerciais com a Huawei por questão de segurança nacional. Em junho, o Senado dos EUA votou a favor do restabelecimento de sanções que proibiriam a ZTE, outra grande empresa chinesa das telecomunicações, de adquirir ou se utilizar de qualquer tecnologia estadunidense – sanção essa que só seria revertida um mês depois, após quase levar a ZTE à falência. Em agosto, o presidente Trump assinou um decreto que proíbe o uso de equipamentos das duas empresas por qualquer agente de governo dos Estados Unidos, assim como por qualquer empresa que mantenha contratos com Washington.

Frente às novas desconfianças, os volumosos investimentos chineses em empresas de tecnologia estadunidenses também passaram a enfrentar um momento de amplas dificuldades. Alinhando-se às alegações de que o governo da China se utilizaria de investimentos e aquisições internacionais para ter acesso facilitado a tecnologias sensíveis, a administração Trump enrijeceu sensivelmente o processo de análise de propostas de compra ou participação acionária em corporações detentoras de tecnologia avançada no país por parte do gigante asiático. Somente neste ano, um grande número de transações internacionais valendo centenas de bilhões de dólares foram bloqueadas por autoridades estadunidenses, incluindo a tentativa da Broadcom, empresa de Cingapura com relações próximas a Pequim, de adquirir a Qualcomm e a XCerra por uma subsidiária do Sino IC Capital, fundo de investimentos estatal chinês.

A China, por sua vez, tem feito mais que assistir passivamente ao avanço estadunidense contra seus interesses. Para além de revidar, ao longo do ano, às crescentes tarifas de Washington com taxações também aos importados dos Estados Unidos na China, Pequim ainda declarou recentemente através de Zhong Shang, seu Ministro do Comércio, que o gigante asiático não pretende ceder às exigências político-econômicas dos Estados Unidos mesmo que a administração Trump siga estabelecendo limites ao comércio entre as duas nações. Já no último dia 10, uma corte chinesa baniu a venda no país de modelos antigos do iPhone, principal produto da estadunidense Apple, devido a supostas infrações de propriedade intelectual da empresa norte-americana. Em artigo sobre o tema, o estatal Global Times afirma que a decisão, apesar de nada ter a ver com a detenção pouco mais de uma semana antes de Meng Wanzhou no Canadá, demonstra que a China também é capaz de pressionar as gigantes tecnológicas dos Estados Unidos.

Pequim, entretanto, já declarou em repetidas oportunidades querer o fim do tensionamento de suas relações com Washington, chegando até mesmo a recalibrar seus discursos oficiais de modo a combater a percepção das aspirações modernas da China como ameaças aos estadunidenses. O novo episódio envolvendo a executiva da Huawei, porém, aponta para as dificuldades em conciliar os interesses de uma potência estabelecida e de outra em ascensão em um mundo de muitos que ainda veem a unipolaridade com única opção. É de se esperar que chineses sigam traçando seu caminho rumo a seus anseios, assim como que estadunidenses sigam defendendo seus interesses frente a quaisquer fatores tido como riscos. Se há de se manter a paz, entretanto, é necessário entender que é possível travar política internacional e construir um mundo de ganhos mútuos em que os avanços de uns não venham necessariamente a custo do prejuízo de outros. Caso contrário, a guerra comercial entre Pequim e Washington poderá ser somente o primeiro dos muitos estágios de uma corrida cuja alto preço será pago por todos nós.

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O que está por trás do discurso de ódio

A xenofobia, a rejeição da pluralidade, a mentalidade paranoica em relação ao mundo exterior e a construção de bodes expiatórios se transformaram em tendência mundial. É preciso levar a sério a questão nacional, não deixá-la nas mãos dos extremistas. Também é necessário fortalecer a coesão coletiva.Trump,Bolsonaro,Violência,Xenofobia,Ideologia,Preconceito,Ódio,Comportamento
Lamentavelmente, no panorama europeu de renascimento do neofascismo, a Espanha já não é uma exceção. Ela acaba de ser tingida, quase de surpresa, com as pinceladas da cor obscurantista e xenófoba que estão avançando por toda parte no Velho Continente, a cor da ultradireita. Demonstra-se, mais uma vez, a sagacidade da afirmação do grande Dom Quixote: “Não há memória que o tempo não apague”.

Embora a Espanha tenha no momento apenas um grupo minúsculo, o Vox, ele é parte de uma onda de nacional-populismo neofascista que se espalha pelo mundo todo de maneira traiçoeira. Está se abrindo, sem dúvida, uma nova era de desafios importantes e sérios que as democracias terão de enfrentar, provavelmente durante umas décadas. É inegável que a globalização liberal posta em marcha no final do século passado entrou em uma fase crítica, devido à sua patente e consciente desregulação caótica, responsável por suas contradições atuais.

A busca de um novo equilíbrio econômico-social planetário é, portanto, imprescindível. Enfrentar o desafio deste novo período exige imperativamente que as democracias encontrem modelos econômicos e sociais que apostem, de forma efetiva, na eliminação da grande brecha atual da desigualdade, na solidariedade, que são expectativas da imensa maioria da população arraigada na civilização do respeito mútuo e da dignidade. Ao mesmo tempo, no entanto, chama a atenção o aparecimento − como consequência dos efeitos desagregadores da globalização − de camadas sociais reacionárias étnica, cultural e politicamente, que se identificam com um discurso de ódio de experiência remota. Trata-se de uma tendência mundial, cujas características comuns são tão importantes quanto suas diferenças.

Nos EUA, a ascensão de Donald Trump veio acompanhada de uma mudança de fundo, ao mesmo tempo demográfica e racial: os trabalhadores brancos de Kansas, Detroit, Texas e outros lugares do país apoiam o magnata imobiliário porque ele promete frear a chegada dos latinos, não pagar serviços sociais aos afro-americanos, acabar com o relativismo dos valores. Eles não temem apenas perder o emprego por competir com outros países, eles também têm medo dos fundamentos da igualdade institucionalizada, assim como da mistura demográfica e étnica que a política de Barack Obama encarnava. Um temor transformado em combustível político por Trump, com uma ideologia ultrapopulista. É, em suma, um nacional-populismo new wave, que retoma muitos dos ingredientes do fascismo clássico: a rejeição da mestiçagem (da qual subjaz, para muitos, a defesa da “raça branca”), a oposição entre quem está nas camadas inferiores e quem está nas superiores, a xenofobia, uma mentalidade paranoica em relação ao mundo exterior, a política da força como método de “negociação”, a denúncia do outro e da diversidade, a hostilidade contra a igualdade de gênero, entre outros.

Outro grande país, o Brasil, também acaba de entrar neste caminho. Falamos aqui de um movimento evangélico que emergiu das entranhas das camadas médias empobrecidas e com medo, também, da liberalização dos costumes, do desaparecimento de valores morais em um país minado pelo cinismo e pela corrupção, por desigualdades crescentes, pelo fiasco da esquerda brasileira que não pôde promover uma sociedade que se voltasse ativamente para o progresso coletivo. Jair Bolsonaro não é um profeta, ele simplesmente soube inverter as promessas da teologia da libertação em teologia do ódio, com o apoio das elites militares e financeiras e dos grandes meios de comunicação.

Lula e Dilma Rousseff perderam o apoio da classe média e depois foram crucificados, além disso com um golpe de Estado tramado por grupos financeiros, dirigentes políticos e alguns setores do Judiciário. A retórica evangélica arroga agora para si o papel de salvadora de um país à beira do abismo, fazendo da luta contra a corrupção seu cavalo de batalha e propondo o modelo de uma sociedade moralmente autoritária, um modelo indevidamente condenado ao fracasso, dada a excepcional diversidade e vitalidade da sociedade brasileira.

Tanto o Estados Unidos de Trump como o Brasil de Bolsonaro são testemunhas diretas e encorajam os movimentos reacionários dessas camadas sociais ameaçadas pelo rumo da globalização neoliberal. O repertório de mobilização se baseia no ideário das reivindicações nacionalistas e sua metodologia rompe com a representação política clássica: as manifestações em massa envolvem rituais extáticos de fusão com o líder, que denuncia, como uma ladainha de golpes de efeito, a decadência moral dos partidos, conclamando à recuperação urgente da grandeza perdida do país.

O que está por trás do discurso de ódioampliar foto
SR. GARCÍA
Na Europa, o processo de estancamento da economia há quase duas décadas (ausência de crescimento gerador de empregos) também produziu um enorme retrocesso de direitos sociais e liberdades, uma regressão de identidade que explica o surgimento dos movimentos neofascistas. Embora tenham elementos específicos, todos compartilham a mesma metodologia política em sua conquista do poder: criticam duramente a representação política, instrumentalizando a democracia que a sustenta para conseguir a vitória; reivindicam a liberdade de expressão para expandir suas exigências, mas censuram seus adversários; dirigem a energia política das massas contra um objetivo previamente construído como bode expiatório (os imigrantes, a liberdade de imprensa que põe em xeque seus discursos, etc.). Servem-se desse arsenal demagógico para evitar falar de seu programa econômico concreto. Vale tudo na batalha que travam veementemente contra a civilização (sempre “decadente”, segundo eles) e a igualdade, pois o princípio fundamental da retórica neofascista, exposto (aí sim) em todos os seus programas, é a rejeição da igualdade e da diversidade dos cidadãos.

O neofascismo europeu que surge atualmente é, por antonomásia, supremacista, individual e coletivamente. É o projeto de uma sociedade hierárquica de senhores e servos, uma visão de mundo que aceita a necessidade imperiosa de submissão a um líder, sua “servidão voluntária”. Essa submissão fica escondida atrás do sentimento de força e de vingança em relação às “elites”, que a mobilização coletiva confere ao neofascismo militante. E isso funciona porque essa ideologia, sem prejuízo de suas particularidades em cada país, gera, na identidade de seus seguidores, uma poderosa liberação de instintos agressivos e explode os tabus que limitam as expressões primitivas, violentas, nas relações sociais. O grande analista do fascismo George L. Mosse se refere a essa característica como uma liberação da brutalidade em um contexto minado pelo “abrandamento” característico da sociedade democrática.

É uma luta diária a que deve emergir, pois permanente deve ser a defesa dos direitos e liberdades

O discurso da extrema direita propõe, certamente, uma sociedade estritamente homogênea, em pé de guerra contra tudo que possa introduzir diferenças e singularidades dentro do conjunto. A rejeição do pluralismo político – rejeição que ela promove como um projeto de gestão do poder − se baseia também na oposição frontal ao multiculturalismo, e, consequentemente, na rejeição da multietnicidade da sociedade. O modelo é o de um povo em sua essência, um povo etnicamente puro. A cultura obsessiva da pureza está intrinsecamente ligada à desconfiança em relação ao estrangeiro, à atividade crítica do intelectual − e inclusive à arte que não comungue com a estrita linha da moral autoritária vigente −, à liberdade de orientações sexuais e de identidade de gênero, à pluralidade de confissões religiosas. Não é apenas uma coincidência que o islã esteja hoje no olho do furacão neofascista na Europa: a presença de uma população de origem estrangeira que professa a religião muçulmana coloca em questão o conceito essencialista de povo homogêneo tanto no aspecto cultural como no religioso (embora o velho fascismo dos anos trinta não tivesse um apetite particular pela religião).

Uma sociedade democrática pode administrar populações misturadas e destinadas a conviver com suas contribuições mútuas à civilização humana, desde que sejam estabelecidas diretrizes seculares claras para todos. Por outro lado, uma sociedade baseada no conceito substancial de povo, no sentido que o neofascismo lhe dá, tende inevitavelmente à exclusão efetiva da diversidade. Daí que o modelo autoritário procure novamente se legitimar apelando para o perigo de religiões e culturas diferentes, que devem ser vigiadas e perseguidas para que não “contaminem” a identidade do povo.

A Frente Nacional francesa, no início de sua caminhada nos anos oitenta, fez da rejeição ao islã um eixo central de seu programa, escondendo seu tradicional antissemitismo. O partido Alternativa para a Alemanha colocou a islamofobia no centro de sua estratégia de mobilização em 2015, após a crise da chegada em massa de refugiados. Na Áustria, Itália, Bélgica, Holanda e em todos os países do norte da Europa, os refugiados também se transformaram no prato principal das campanhas eleitorais. São, igualmente, alvo da retórica ultracatólica de Viktor Orbán na Hungria e dos programas dos partidos neofascistas do Leste Europeu.

O discurso da extrema direita faz estourar os tabus que limitam as expressões primitivas e violentas

Esses movimentos, que avançam da Espanha até a Suécia, passando pelos países europeus ocidentais e orientais, compartilham, além disso, uma característica de natureza histórica: apelam para o nacional-populismo como uma reação à era da governança supranacional, resultante da ampliação do mercado europeu, dos efeitos da globalização neoliberal e das tentativas de construir instituições representativas europeias pós-nacionais. Daí o consenso em torno do objetivo de pôr em xeque a atual construção europeia, em nomeie da soberania nacional.

O que fazer diante desse desafio? Hoje, os partidos nacional-populistas neofascistas não representam mais do que entre 10% e 20% do eleitorado europeu, mas sua influência ideológica real é mais ampla. Naturalmente, é preciso diferenciar o corpo doutrinário desses partidos das representações mentais, muito menos elaboradas, dos cidadãos que os apoiam. Embora seja verdade que as causas do avanço gradual das correntes ultradireitistas são conhecidas, não existe uma posição comum das forças democráticas na hora de contê-lo.

Há, basicamente, três campos-chave de ação, e o primeiro deles é econômico. Se a democracia não caminhar em prol do progresso social, as vítimas, que são muitas, tenderão sempre a culpá-la por não haver progresso. Portanto, é necessário relançar a máquina econômica de integração profissional, que hoje depende, essencialmente, das capacidades não do mercado, como acredita a Comissão Europeia, mas sim dos Estados para incentivar o emprego. Para isso, eles precisam de uma política orçamentária mais flexível, que gere equilíbrio social. Infelizmente, essa é uma reivindicação que ainda não é levada em conta em Bruxelas.

Em segundo lugar, em face do nacionalismo reacionário e excludente, é preciso levar a sério a questão nacional, não deixá-la nas mãos dos nacionalistas xenófobos. É crucial interpretar bem a reivindicação de segurança de identidade das camadas sociais mais vulneráveis e desestabilizadas pela exclusão do emprego ou pela incapacidade de se adaptar às mudanças da sociedade moderna, que acontecem numa velocidade extraordinária. É necessário fortalecer a coesão coletiva, ou seja, a adesão ao bem comum, sem prejuízo do respeito à diversidade, sob diretrizes comuns e com valores essenciais de referência. É preciso administrar racionalmente os fluxos migratórios, não só para evitar as mentiras e a demagogia desconstrutiva sobre a imigração, como também porque a vida cotidiana se tornou muito mais competitiva e as percepções espontâneas favorecem um imaginário ilimitado de fantasias em um contexto de insegurança profissional. A economia, em todos os países desenvolvidos, precisa da imigração, e isso deve ser regulado com base no respeito pelos direitos humanos. Na Europa, um grande acordo político é imprescindível para desativar o papel que a imigração assumiu como bode expiatório.

Finalmente, deve-se assumir com firmeza a luta contra o neofascismo, explicar claramente à população o perigo que ele representa e propor pactos democráticos antifascistas àqueles que defendem a democracia e o respeito à igualdade e dignidade humana, denunciando, do mesmo modo, os que pisoteiam esses valores por razões eleitorais. Deve ser travada uma luta diária contra o nacional-populismo neofascista, pois a defesa da democracia, do bem-estar social, dos direitos e liberdades tem de ser permanente. Tomara que todos entendam isso, pois se trata do futuro da paz social!

Sami Naïr é catedrático de Ciências Políticas na Universidade de Paris e diretor do Instituto de Cooperação Mediterrâneo-América Latina da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha. É autor, entre outros livros, de ‘La Europa Mestiza’.

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Lider Palestina: transferir embaixada brasileira para Jerusalém seria ‘irresponsável’

Teria ‘sérias consequências’Hanan Ashrawi,Palestina,Israel,Brasil,Diplomacia,Trump,Embaixada,Comércio Internacional,EconomiaUN Photo

‘Se acontecer, haverá sérias consequências; esperamos que seja apenas retórica e que não seja implementada’, disse Hanan Ashrawi

DANIELA KRESCH
 

A integrante do comitê executivo da Organização para Libertação da Palestina (OLP) e do Conselho Legislativo Palestino, Hanan Ashrawi, considera que a decisão de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém é uma decisão “irresponsável” do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL-RJ). 

Líder do departamento de Cultura e Informação da OLP,  a ex-deputada palestina espera que a medida não se transforme em realidade. “Não seria bom testar as consequências”, afirma na entrevista exclusiva à RFI Brasil.

O que a senhora pensa sobre essa decisão do presidente eleito do Brasil de transferir a embaixada brasileira para Jerusalém?

Esperamos que isso seja apenas conversa e não se transforme em ação, porque se trata de uma decisão ilegal e muito irresponsável. Seria um passo provocativo e ilegal.

Haverá consequências no relacionamento entre Brasil e os palestinos?

Se acontecer, haverá sérias consequências. Esperamos que seja apenas retórica e que não seja implementada. Não seria bom para o Brasil.

Como assim?

Não seria bom para as relações comerciais do Brasil com o resto do mundo. Não apenas com o mundo árabe ou o mundo islâmico, mas com todo o mundo. O Brasil seria visto como um país que dá um passo ilegal e contra as exigências da paz.

Mas a transferência foi uma promessa de campanha de Jair Bolsonaro.

As pessoas dizem muitas coisas durante as campanhas. O fato de que ele prometeu não torna a promessa implementável. O [presidente norte-americano Donald] Trump prometeu muitas coisas em sua campanha, mas não implementou todas. Trump é repudiado em todo o mundo. Então, não acho que ele queira estar na companhia de Trump e de [primeiro-ministro de Israel, Benjamin] Netanyahu como violadores da lei.

O Brasil ficará isolado, caso isso aconteça?

Sim, claro. A transferência teria consequências diplomáticas e econômicas, além de outras consequências. Ainda há tempo de voltar atrás. Lembro que o Paraguai chegou a transferir a embaixada para Jerusalém e voltou atrás. Tudo é reversível.

A senhora acredita que seria uma mudança muito profunda na diplomacia brasileira no Oriente Médio?

Parece-me que o Brasil sempre teve uma posição de legalidade e moralidade e boas relações com a Palestina e com o mundo árabe, independentemente de diferenças individuais ou de quem tenha vencido eleições. Achamos que isso deveria ser uma constante e as políticas do presidente deveriam refletir essa tradição.

Há uma tentativa da liderança palestina em tentar mudar a decisão?

Estamos apenas pedindo ao Brasil para usar sabedoria e responsabilidade e não dar esse passo. Para estar do lado da justiça e não da ilegalidade. Não seria bom testar as consequências.

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Estados Unidos: Número de mulheres eleitas para Congresso bate recorde histórico

Foram eleitas 112 mulheres, sendo que 92 irão ocupar assentos na Câmara dos Representantes, além de 10 no Senado; do total, 99 são democratas.Política Internacional,Estados Unidos,USA,Mulheres,Congresso Americano,Trump,Democratas,Republicanos,Trump

Alexandria Ocasio-Cortez e Ilhan Omar foram duas das eleitas nas midterms de 2018
Foto Reprodução

As eleições de meio de mandato que aconteceram nesta terça-feira (06/11) nos Estados Unidos, conhecida como midterms, registraram um recorde histórico de mulheres eleitas para o Congresso do país. Ao todo, foram escolhidas 112, sendo 92 na Câmara e 10, no Senado.

O resultado reflete uma guinada eleitoral nos EUA, após o republicano Donald Trump sair vitorioso das eleições de 2016 contra a democrata Hillary Clinton. Atualmente, há 107 mulheres exercendo cargo eletivo na Câmara e no Senado.

Neste ano, foram 273 candidaturas femininas ao Congresso, número superior às 184 das últimas midterms. Se comparado com a eleições de 2008, o número de candidatas mulheres ao Congresso quase dobrou, passando de 143 à época para as 273 deste ano. Em relação ao último pleito, foram eleitas cinco mulheres a mais, superando os 107 cargos totais e os 85 na Câmara.

Para o cargo de governadora, foram eleitas nove mulheres pelos estados de Oregon, Novo México, Dakota do Sul, Kansas, Iwoa, Arkansas, Michigan, Alabama e Maine. Ao todo, as candidatas femininas do Partido Democrata venceram em cinco estados, enquanto que os republicanos fizeram quatro governadoras mulheres.

No estado de Oregon, a democrata Kate Brown foi reeleita com 49% dos votos, superando o republicano Knute Buehler, que somou 44%. No Novo México, a advogada democrata Michelle Lujan Grisham venceu o republicano Steve Pearce e atingiu 56,9% dos votos.

Do total de mulheres eleitas para o Congresso norte-americano, 99 são democratas. Entre as eleitas, há negras, muçulmanas e socialistas.

Alexandria Ocasio-Cortez

A democrata Alexandria Ocasio-Cortez se tornou a congressista mais jovem da história dos EUA. Negra, latina e socialista, a candidata de 29 anos saiu vitoriosa com 78% dos votos no 14º distrito de Nova York, tradicionalmente vencido por democratas.

Ocasio-Cortez já havia surpreendido quando desbancou o ex-congressista Joe Crowley nas primárias do partido. Crowley foi representante dos distritos do Bronx e Queens durante 10 mandatos.

Sua agenda progressista, que inclui defesa dos direitos de migrantes, criação de um sistema universal de saúde e controle do porte de armas, rendeu à democrata quantidade superior à necessária para derrotar seu adversário republicano Anthony Pappas, que somou 13% dos votos válidos.

Muçulmanas

Os estados de Michigan e Minnesota também elegeram representantes mulheres à Câmara e proporcionaram dois fatos inéditos na história das midterms. A filha de palestinos Rashida Tlaib, eleita em Minnesota, se tornou a primeira congressista muçulmana dos EUA, ao lado de Ilhan Omar, eleita em Michigan, de origem somali.

No estado do Kansas, a democrata Sharice Davids conquistou o assento do republicano Kevin Yoder na Câmara pelo 3º distrito e se tornou a primeira representante de povos nativos a ganhar uma vaga no Congresso. Ela é membro da etnia Ho-Chunk, tribo que habita os estados de Wisconsin e Nebraska.

No Tennessee, o democrata Phil Bredesen, que havia sido governador do Estado de 2003 a 2011, perdeu a vaga no Senado para a republicana Marsha Blackburn, que se tornou a primeira mulher eleita para o cargo.

A agora senadora é conhecida por suas posições conservadoras sobre aborto, porte de armas e migração. Durante campanha, Blackburn chegou a dizer que é “politicamente incorreta” e que tem “orgulho disso”.

Maioria democrata

O Partido Democrata já garantiu ao menos 219 dos 435 assentos da Câmara, um a mais do que os 218 necessários para formar maioria simples.

No Senado, no entanto, onde estavam em jogo 35 de suas 100 cadeiras, a maioria delas democratas, o Partido Republicano conseguiu segurar sua maioria, que deve ser até ampliada.
OperaMundi

A reserva estratégica de petróleo dos EUA guardada em cavernas – e que Trump quer vender

Nas últimas semanas, autoridades americanas deram a entender que, como parte das sanções ao governo de Nicolás Maduro, estava sendo cogitada a interrupção de importações de petróleo da Venezuela, o terceiro maior exportador de petróleo para os Estados Unidos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Seria uma reação à convocação, por Maduro, de uma eleição para compor uma Assembleia Constituinte na Venezuela, processo muito criticado por Washington e outros países.

Uma das razões pelas quais os Estados Unidos podem se dar ao luxo de discutir isso sem que haja risco de “suicídio econômico” está enterrada em um sistema de cavernas no Estado da Lousiana, no sul do país.

O governo armazena ali cerca de 700 milhões de barris de petróleo in natura, suficiente para suprir as necessidades do país por vários meses, um recurso importante caso haja alguma crise de desabastecimento.

No fim das contas, as importações foram mantidas. Na segunda-feira, um dia após Maduro anunciar sua vitória na votação, o governo americano anunciou medidas que se limitam a sanções pessoais contra o presidente venezuelano.

“As eleições ilegítimas de ontem confirmam que Maduro é um ditador que despreza a vontade do povo”, afirmou o secretário de Tesouro americano, Steven Mnuchin.

Esse episódio deixa clara a importância dessa reserva estratégica, que pode ter um papel ainda mais vital caso os Estados Unidos decidam ampliar as sanções.

Mas não faz muito tempo que o presidente Donald Trump propôs vender boa parte dela para aliviar os problemas fiscais de seu governo. Por quê?

Embargo árabe

Local da reserva estratégica de petróleo dos EUA
O governo dos Estados Unidos armazena quase 700 milhões de barris em cavernas no Estado da Louisiana – Direito de imagemENERGY.GOV VÍA WIKIMEDIA COMMONS

A origem dessa reserva remonta a 1973, quando países árabes impuseram um embargo à exportação de petróleo para o Ocidente como retaliação por seu apoio a Israel. Isso foi um grande golpe para a economia global, do qual os Estados Unidos não escaparam.

Os preços da gasolina dispararam. Filas enormes se formaram nos postos do país. E boa parte da infraestrutura industrial americana, baseada na premissa do combustível barato, ficou sob ameaça. Em 1975, os Estados Unidos reagiram criando seu estoque em meio a cavernas rodeadas por formações salinas.

A manutenção desse sistema custa cerca de US$ 200 milhões (R$ 622,5 milhões). Em troca, o país costuma sair ileso de episódios que envolveram interrupções nas importações de petróleo, como a Guerra do Golfo, em 1991.

A reserva também foi acionada em outros momentos, como, por exemplo, após a destruição provocada pelo furacão Katrina, quando a infraestrutura energética americana foi afetada, e o petróleo em estoque foi usado como medida de compensação.

A reserva tem o equivalente a 688 milhões de barris

  • 141 dias: É o tempo de importação de petróleo que o estoque é capaz de cobrir
  • 270 milhões de barris:Trump quer vendê-los para reduzir o custo de manter a reserva

Risco latente

Em meio aos frequentes episódios de risco ao abastecimento de petróleo enfrentados por Washington, um dos casos recentes mais notórios de interrupção do fornecimento teve como protagonista a Venezuela, lembra Jorge Piñon, diretor do Programa de Energia do Caribe e América Latina da Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

“Às vezes, nos esquecemos que, em 2002 e 2003, o fluxo de petróleo in natura venezuelano para os Estados Unidos foi afetado por uma greve no setor desse país”, diz o especialista.

O mercado americano deixou de receber por um tempo cerca de 1,5 milhão de barris que vinham da Venezuela. Hoje, o impacto de uma interrupção seria menor, garante Piñon, pela redução de importações venezuelanas em anos recentes.

Operário da reserva americana
Estados Unidos não é o único país a manter um estoque de petróleo para situações de emergência Direito de imagemGETTY

Os Estados Unidos não são o único país que emprega esse enorme sistema de armazenamento de petróleo.

O Japão tem, por exemplo, cerca de 500 milhões de barris em tanques no sudoeste do país. E outras potências, como a China, estão expandindo instalações com o mesmo propósito.

Trump quer vender

Tubulações de petróleo nos EUA
A reserva estratégica americana foi criada na década de 1970 Direito de imagemGETTY IMAGES

Ironicamente, em um momento em que a reserva estratégica pode adquirir ainda mais relevância por causa da crise venezuelana, Trump vem considerando vender uma parte substancial dela.

Em maio, o governo americano propôs isso para reduzir a dívida pública. Seriam vendidos cerca de 300 milhões de barris, quase metade do estoque, ao longo da próxima década. Isso poderia render ao país US$ 16 bilhões, garante Trump.

O que ninguém sabe é quanto custaria para os Estados Unidos uma crise externa que deixasse o país sem petróleo por um período de tempo e na qual não fosse possível recorrer a essa reserva de emergência.

Por enquanto, a proposta continua em discussão. Enquanto isso, abaixo das formações salinas da Louisiana, um tesouro segue armazenado e permitindo aos americanos respirarem mais tranquilos em sua interação com o conturbado mundo da indústria de petróleo.