Zeitgeist: Glifosato, transgênicos e a ascensão da Monsanto

Empresa americana faturou bilhões de dólares com fabricação do herbicida mais usado no mundo e venda de sementes geneticamente modificadas para serem resistentes a ele. Mas ganhou também um problema de imagem.

Planta de soja geneticamente modificadaPlanta de soja geneticamente modificada

Nenhuma empresa desperta mais a ira de ambientalistas de todo o mundo do que a americana Monsanto, a fabricante do herbicida Roundup e de sementes modificadas geneticamente para serem resistentes a ele – principalmente de milho, algodão e soja.

O princípio ativo do Roundup é o glifosato, um organofosforado sintetizado pela primeira vez nos anos 1950 por um químico suíço. Em 1970, pesquisadores da Monsanto redescobriram o glifosato, desta vez como herbicida. A descoberta foi patenteada e, em 1974, ela foi lançada no mercado americano com o nome de Roundup.
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O poderoso efeito secante do herbicida fez com que ele logo passasse a ser usado na agricultura para “limpar o solo” antes do plantio. Ele obviamente não podia ser novamente usado depois do plantio, para eliminar ervas daninhas, pois aí também mataria a própria planta cultivada.

Essa situação mudou em 1996, quando os cientistas da Monsanto isolaram o gene que tornava uma bactéria resistente ao glifosato e o introduziram em sementes de soja – surgiam, assim, as primeiras plantas transgênicas resistentes ao glifosato. Para a Monsanto, uma descoberta que valeu ouro: a venda combinada do herbicida com as sementes resistentes a ele gerou bilhões de dólares para os cofres da empresa.

Agricultores de todo o mundo adotaram a novidade, argumentando que o plantio de sementes transgênicas, combinado com o uso do glifosato, diminuía os custos de produção. Nos Estados Unidos, por exemplo, praticamente não se planta mais soja, milho e algodão que não seja transgênico. Também no Brasil e na Argentina quase toda a soja cultivada é geneticamente modificada.

Assim, o uso do glifosato, tanto para limpar o solo como para matar as ervas daninhas, espalhou-se pelo mundo, a ponto de ele se tornar o herbicida mais usado no planeta. Na Alemanha, o glifosato é utilizado em cerca de 30% a 40% das lavouras.

Desconfiança e ceticismo

Mas, junto com a ascensão dos transgênicos e do uso do glifosato, cresceu também a desconfiança e o ceticismo em relação a esses dois produtos, principalmente em países de forte tradição agrícola e consciência ambiental, como a Alemanha e a França. E os críticos logo encontraram o seu vilão: a Monsanto.

Quando, em julho de 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, pertencente à Organização Mundial da Saúde (OMS), afirmou que o glifosato provavelmente é cancerígeno, esses críticos viram suas posições confirmadas.

Porém, poucos meses depois, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, que é uma agência da União Europeia, considerou improvável que o glifosato seja cancerígeno. Já a Monsanto afirma que os herbicidas à base de glifosato são os mais exaustivamente estudados do mundo, e que nunca foi comprovado que eles provocam câncer.

Essas posições pouco devem mudar a péssima imagem do glifosato, dos transgênicos e da Monsanto entre boa parte dos consumidores, principalmente na Europa. A Bayer, ao comprar a empresa americana, adquiriu também esse problema. Mas já há sinais de que a empresa alemã poderá simplesmente acabar com a marca Monsanto, que, além do glifosato, é associada também a outros produtos polêmicos, como o agente laranja, usado na Guerra do Vietnã.

A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.

Potenciais efeitos da união Bayer-Monsanto

Críticos temem que a aquisição da Monsanto pela Bayer eleve a pressão a favor do plantio de transgênicos em países da União Europeia. Concentração no mercado de sementes e pesticidas também preocupa.

Ativista protesta contra a Monsanto na Alemanha, em 2014Ativista protesta contra a Monsanto na Alemanha, em 2014

Em maio deste ano, ambientalistas saíram mais uma vez às ruas de cidades de todo mundo em sua “Marcha contra a Monsanto”, que nos últimos quatro anos tem protestado contra o mais odiado produtor de organismos geneticamente modificados (OGMs).

Os ataques dos manifestantes nunca foram bem-sucedidos. Pelo contrário, a empresa se tornou tão bem-sucedida que deve ser adquirida pela Bayer, uma das maiores companhias alemãs, por 66 bilhões de dólares.
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Trata-se da maior oferta já feita por uma firma alemã para a aquisição de uma companhia estrangeira. Ambas as empresas produzem pesticidas e, juntas, controlariam 28% desse mercado em todo o mundo. A oferta da Bayer foi selada nesta quarta-feira (14/09), e a fusão ainda precisa ser aprovada por autoridades antitruste.

O tamanho da empresa conjunta deverá ser objeto de escrutínio pelos reguladores do mercado. E a posição potencialmente dominante no campo de agroquímicos também soou o alarme por motivos ambientais.

Enterrando uma marca denegrida

A reação foi particularmente forte na Alemanha, onde a população é amplamente contra alimentos transgênicos. A americana Monsanto se retirou do mercado europeu há alguns anos devido à moratória que a União Europeia (UE) aplicou ao plantio dos chamados OGMs. Mas a companhia ainda continua envolvida na importação de transgênicos para a UE.

A Monsanto se tornou o principal alvo do movimento global contra os transgênicos – particularmente na Europa, onde é alvo de grande controvérsia em torno do glifosato, seu herbicida mais usado e que os ambientalistas continuam tentando proibir.

Sementes de sojaConcentração no mercado de sementes é uma das maiores preocupações dos críticos

Embora a autorização do uso de glifosato na UE tenha expirado em junho deste ano, a Comissão Europeia aprovou uma prorrogação de uso por 18 meses.

Mudança de nome

Muitos observadores esperam que a Bayer desista do nome Monsanto. Indagado pelo jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) se a empresa alemã iria enterrar a marca, o presidente da Bayer, Werner Baumann, afirmou: “Basta dizer que a Bayer goza de excelente reputação e apelo mundiais. Precisamos tirar proveito disso.”

Embora a Bayer esteja envolvida em muitas atividades semelhantes, ela escapou de uma percepção pública negativa na Europa, ao contrário de sua homóloga americana.

O ativista Jan Pehrke, da ONG alemã Coalizão contra os Perigos da Bayer, diz que é mais difícil conscientizar a população das atividades da Bayer na produção de pesticidas porque a empresa está envolvida em muito mais áreas que a Monsanto – que lida basicamente com sementes e transgênicos.

“Nós tentamos colocar o foco não somente na Monsanto e conscientizar o público de que, além dela, há muitas multinacionais agroquímicas que são enormes e também têm produtos perigosos”, afirmou Pehrke à DW.

Ele diz temer que, com um nome menos “manchado” e mais poderoso, como Bayer, à frente dos produtos da Monsanto, países europeus estejam mais sujeitos a aprovar o plantio de transgênicos. “Tememos que, se uma grande empresa alemã, como a Bayer, for tão forte no setor de transgênicos, haverá mais pressão para colocar esses produtos no mercado europeu”, afirmou.

Katherine Paul, diretora associada da Organic Consumers Organization, que organiza o movimento Milhões contra a Monsanto, afirma que uma mudança de nome não fará com que os ativistas antitransgênicos mudem de foco. “Podemos mudar da nossa campanha Milhões contra a Monsanto para Bilhões contra a Bayer”, diz. Pehrke também afirmou que a Coalizão contra os Perigos da Bayer irá mudar o nome da “Marcha contra a Monsanto” para “Marcha contra a Bayer.

Lições aprendidas

Os executivos da Bayer, por sua vez, parecem estar propensos a evitar os erros que levaram ao problema de imagem da Monsanto na Europa – como a falta de envolvimento com responsáveis políticos e grupos ambientalistas.

Na entrevista ao FAZ, o presidente da Bayer declarou que a empresa está convidando ativistas para conversar com os administradores da companhia. “Assim como falo com nossos investidores para convencê-los dos planos, a oferta também vale para organizações ambientais e outras ONGs”, disse Baumann.

Protestos contra a Monsanto foram realizados mundo afora. Na foto, uma manifestação no México, em 2013 Protestos contra a Monsanto foram realizados mundo afora. Na foto, uma manifestação no México, em 2013

“A nossa forma de fazer negócios pode diferir da da Monsanto. Posso assegurá-los de que conduziríamos esses negócios com base nos mesmos padrões das nossas demais operações.”

E exatamente essas outras áreas em que a Bayer atua a protegeram da crítica por parte da opinião pública, mesmo tendo sido alvo de controvérsia por algumas partes de seus negócios agrícolas. Isso inclui a produção de pesticidas neonicotinoides, acusados de matar abelhas e afetar a biodiversidade.

“A Monsanto, a Bayer, a Syngenta e outras empresas estão todas no mesmo barco quanto à necessidade de defender nossas atividades na agricultura”, afirma Brandon Mitchener, porta-voz da Monsanto na Europa. “As pessoas que se opõem a qualquer inovação na agricultura se opõem da mesma maneira aos neonicotinoides fabricados pela Bayer e a Syngenta, ao glifosato e a sementes transgênicas vendidas por todas as três [empresas].”

Mercado de sementes

Além do peso político reforçado da nova empresa conjunta, a concentração de patentes de sementes também é uma das principais preocupações. A incorporação proposta vem numa hora de recentes fusões e aquisições no setor agroquímico, com os investidores procurando cortar custos em face do declínio dos preços das commodities agrícolas.

Em fevereiro, a ChemChina comprou a Syngenta, assumindo a primeira posição no mercado de produtos químicos agrícolas. No ano passado, as empresas americanas Dow e DuPont anunciaram uma fusão de 13 bilhões de dólares para criar a DowDuPont, que irá controlar cerca de 40% do mercado de sementes de milho e soja nos EUA.

Sven Giegold, deputado alemão no Parlamento Europeu pelo Partido Verde, trabalhou numa petição online contra a fusão Bayer-Monsanto. Ele afirma que as uniões de empresas no setor agroquímico está fora de controle e coloca o futuro da agricultura em risco.

“O Partido Verde defende a ideia de que, numa economia de mercado, deve haver uma competição ferrenha”, afirmou Giegold à DW. “Já existe um forte monopólio no setor de sementes e pesticidas – mais concentração no mercado é indesejável.”

Giegold afirma que se houver somente alguns poucos competidores no mercado de sementes, os agricultores serão forçados a comprar deles, muitas vezes em combinação com pesticidas.

Zika, Dengue e quejandos:Em limbo regulatório, mosquito transgênico avança no Brasil

Foto: OxitecO mosquito OX513A, desenvolvido pela empresa britânica Oxitec, será liberado em larga escala em Piracicaba – Image copyright Oxitec.

Produzida pela empresa britânica Oxitec, a variação genética do Aedes aegypti poderá ser o primeiro inseto do tipo a ser comercializado no mundo, mais provavelmente, no Brasil, onde vem encontrando seu mais amplo campo de testes.

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou testes em 2011 e uso comercial em 2014, mas a falta de um parecer da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) trava a entrada do mosquito em um mercado que poderá representar milhões em receita para a Oxitec.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Um porta-voz da Anvisa disse à BBC Brasil que a agência já informou que “a empresa não poderá comercializar o produto até que conclua essa discussão sobre o enquadramento do mosquito transgênico (em uma categoria que possa ser fiscalizada de acordo com atribuições da agência)”.

Diante do limbo regulatório, a Oxitec reparte com a prefeitura de Piracicaba os custos dos testes feitos com o mosquito em um bairro da cidade paulista. Piracicaba poderá se tornar a primeira cidade no país a receber a espécie em larga escala. A prefeitura decidiu ampliar os testes, liberando o OX513A também no centro da cidade, onde vivem 60 mil pessoas – contra 5,5 mil no bairro onde o inseto vinha sendo testado anteriormente.

Conflito

Segundo a prefeitura e a Oxitec, o Aedes aegypti modificado geneticamente tem apresentado altas taxas de performance nos testes, supostamente reduzindo em muito a ocorrência de dengue, mas os resultados são alvos de críticas por parte da comunidade científica que demonstra preocupação com a ampliação dos experimentos.

Esta semana, ativistas e cientistas de Piracicaba levaram à promotora de Justiça de Direitos Humanos e Saúde Pública na cidade, Maria Christina Marton Corrêa Seifarth de Freitas, representação em que, além de voltar a questionar o uso do mosquito, pedem acesso a dados oficiais e detalhados sobre os testes realizados no projeto da Prefeitura batizado de Aedes aegypti do Bem.

Foto: OxitecNo ano passado, mais de 150 mil pessoas assinaram uma petição que tentava evitar os testes do OX513A na Flórida – Image copyright Other

O grupo queria ainda que o Ministério Público de São Paulo barre a ampliação do projeto para o Centro. Mas, ao contrário dos ativistas, a promotora não vê conflito de interesses no fato de a Oxitec ter sido, segundo o grupo, a única a fornecer os dados que atestam a eficiência do OX513A.

“Não vejo conflito de interesse. Os dados da empresa podem ser acompanhados por qualquer cientista, como definido pelo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) de abril de 2015”, diz ela. “E, no bairro em que o transgênico foi testado, o número de casos confirmados de dengue passou de 133 em 2014 para 1 em 2015”.

O TAC obrigava o município e a empresa a liberarem dados mensalmente sobre os testes em Piracicaba, o que vem sendo feito. Mas cientistas questionam o a imparcialidade dos dados apresentados nos documentos liberados até agora e pedem dados oficiais, não gerados pela empresa.

“Queremos saber a eficácia antes de a prefeitura ampliar o programa. O mosquito é uma nova espécie. A transgenia está fazendo em laboratório o que a natureza levou milhares de anos para fazer. E o desenvolvimento é de uma empresa privada, que tem interesse em vender. Mas, se der errado, não tem volta”, alerta Eloah Margoni, vice-presidente da Sociedade para a Defesa do Meio Ambiente de Piracicaba, uma das signatárias da representação.

Os questionamentos sobre o mosquito transgênico – testado na Malásia, no Panamá e nas Ilhas Cayman – não se restringem ao Brasil. No ano passado, mais de 150 mil pessoas assinaram uma petição que tentava evitar os testes do OX513A na Flórida. Como no Brasil, também nos Estados Unidos a tecnologia ainda não tem aprovação para comercialização.

Em janeiro, a Federal Drugs Administration (FDA), o equivalente americano à Anvisa, informou que colocará o pedido da Oxitec para testes na Flórida sob consulta pública, antes de avaliar o impacto ambiental do uso do mosquito transgênico no local, o que, segundo a FDA, não tem data para ocorrer.

‘Cobaia’

O mosquito transgênico é modificado geneticamente para, solto no meio ambiente, levar à redução drástica da população local do inseto. Depois de fecundar fêmeasAedes aegypti selvagens, a maior parte das suas crias morre – no máximo 4% das larvas chegam à vida adulta. De acordo com a empresa que desenvolveu o inseto, ao se reduzir a população do mosquito, caem incidências das doenças transmitidas por ele, como dengue, chikungunya e zika.

Mas diversos cientistas, brasileiros e estrangeiros, afirmam que os estudos feitos pela Oxitec – e aceitos pela CTNBio – não são suficientes para garantir a eficiência no combate às doenças.

“A população não pode ser cobaia”, critica o biólogo José Maria Ferraz, conselheiro da CTNBio à época em que o órgão inicialmente examinou o OX513A. “Não somos contra modificações genéticas. Somos contra a forma apressada como a liberação foi feita”, diz ele, que também assinou a petição enviada ao Ministério Público em Piracicaba.

Dezoito conselheiros votaram na sessão de 10 de abril de 2014 da CTNBio que liberou o mosquito transgênico – 16 a favor, um contra e uma abstenção.

Pesquisador convidado do Laboratório de Engenharia Ecológica da Unicamp, Ferraz diz que a liberação do uso comercial do OX513A pelo órgão foi “obscura” e, segundo ele, levou a metade dos 5 anos pelos quais normalmente pedidos como este tramitam.

“Foi um processo totalmente avesso à tradição da CTNBio. O uso do mosquito foi liberado antes de testes conclusivos, de campo e de estatística”, diz ele, que não participou da votação final, porque seu mandato já estava encerrado.

Em nota emitida em fevereiro de 2015, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que congrega instituições de ensino e pesquisa, também questionou – com base nos argumentos de Ferraz e outros cientistas – a tramitação do processo na CTNBio, que classificou de “excepcional”.

A Abrasco questiona o “fato de representantes do proponente da tecnologia (Oxitec) terem sido convidados a participar de reunião onde ela estaria sendo avaliada e, mais do que isso, a realizar exposição de mérito que poderia ser confundida com marketing institucional com possibilidade de induzir os membros da CTNBio à aprovação”.

Um voto

Foto: OxitecLarvas do mosquito transgênico: dispositivo faz inseto morrer antes que possa transmitir doenças – Image copyright Oxitec

O conselheiro Antônio Inácio Andrioli, único voto contrário ao mosquito transgênico na Comissão, afirma que houve pressões e “lobby da empresa”. “Na noite anterior recebemos um e-mail pedindo voto. E a pesquisa do mosquito transgênico envolveu a USP. Vários integrantes da CTNBio eram da USP, inclusive o presidente da comissão na época, que tinha ligações inclusive com a indústria farmacêutica”, diz ele.

A CTNBio nega que tenha apressado o processo ou qualquer influência externa. Em nota enviada à BBC Brasil, afirma que “acusação não tem fundamento em fatos”.

“As liberações planejadas foram conduzidas com autorização da CTNBio e os dados do processo foram deliberados dentro dos prazos regimentais. Não houve falhas no exame da matéria pela CTNBio e as manifestações da empresa durante a reunião da Comissão foram feitas a pedido da Coordenação da mesa com anuência dos membros presentes sobre a matéria específica objeto da deliberação”, diz a nota.

“As pesquisas conduzidas pela equipe do Instituto de Ciências Biomédicas da USP foram examinadas e votadas como todos os processos da comissão, nenhuma questão ética foi apontada como relevante aos procedimentos executados. O pedido de liberação comercial do mosquito GM foi protocolado pela empresa Oxitec e não pela USP, assim não procede a acusação”, diz a nota.

Presidente da CTNBio durante a tramitação do processo do OX513A, o professor da USP Flavio Finardi diz que o grupo que questiona “é sempre o mesmo, seja o mosquito transgênico ou uma vacina transgênica para uso veterinário”.

“A pessoa (Andrioli) que fez o parecer contra o mosquito transgênico foi também a única que votou contra. Perdeu na democracia, mas também na ciência”, diz Finardi, que votou pela liberação do OX513A.

Finardi foi substituído no comando da CTNBio por Edivaldo Domingues Velini, que assinou a liberação do OX513A.

Temores

José Maria Ferraz e outros pesquisadores insistiram junto ao MP de São Paulo nos argumentos que já haviam apresentado à CTNBio, mencionados no parecer técnico 3964/2014, que liberou a aplicação do mosquito.

Alertam para a possibilidade de proliferação do mosquito OX513A, caso as larvas entre em contato com o antibiótico tetraciclina presente no meio ambiente, que “desliga” o dispositivo genético que impede os insetos de chegarem à vida adulta.

“O Brasil baniu a tetraciclina em ração animal em 2009”, rebate Hadyn Parry, chefe-executivo da Oxitec. “A despeito da especulação da mídia devido à pressão de grupos, a presença da tetraciclina no meio ambiente é mínima e, quando ocorre, degrada rapidamente se exposta à luz do sol”.

Foto: EPAAvanço de doenças transmitidas pelo ‘Aedes aegypti’ aumentou a pressão sobre autoridades para soluções rápidas – Image copyright EPA

Mas o biólogo brasileiro chama a atenção para o fato de haver uso veterinário da tetraciclina, e também em humanos. “Antes de soltar o mosquito, teria sido importante avaliar a presença da tetraciclina e de antibióticos semelhantes no meio ambiente, principalmente no esgoto”.

Sem o tal “desligamento”, crias do mosquito genético poderiam chegar à idade adulta.

Em resposta, a Oxitec afirma que estudos em Jacobina, na Bahia, nas Ilhas Cayman e no Panamá não sugerem qualquer perda de eficácia (e percentual superior de sobrevivência) do OX513A. E que, se houvesse presença da tetraciclina, a empresa teria identificado em seus monitoramentos.

A empresa britânica menciona, ainda, estudo conduzido em 2013 por pesquisadores da Unicamp e do Imperial College London mostrando que os níveis de tetraciclina nos locais em que o mosquito seria liberado eram insuficientes para “desligar” o dispositivo genético que mata os insetos transgênicos antes da vida adulta.

De acordo com a Oxitec, as primeiras liberações do mosquito no meio ambiente foram feitas antes de tais estudos, em 2011 e 2012, em Juazeiro, Bahia, onde foram conduzidos testes de campo autorizados pela CTNBio.

Efeito colateral

O maior temor dos cientistas críticos ao mosquito é uma espécie de efeito colateral da redução do Aedes aegypti selvagem. Cientistas temem isso que abra caminho para o mosquito Aedes albopictus, mais eficiente na transmissão de doenças como a chikungunya, malária e febre amarela.

“O albopictus já foi o principal fator de transmissão da dengue. E pode voltar. E a natureza ensina que não há vazio. Se um mosquito sai, entra outro”, diz o ex-conselheiro da CTNBio Leonardo Melgarejo, professor do mestrado profissional em agroecossistemas da Universidade Federal de Santa Catarina.

“E, o que aconteceria? A empresa criaria um transgênico de outro mosquito para as prefeituras comprarem novamente, num ciclo sem fim?”, questiona ele, que também se manifestou contra a liberação do inseto transgênico para comercialização durante seu mandato de conselheiro na CTNBio.

A Oxitec afirma não ter identificado entrada do albopictus no lugar do aegypti. “Isso foi estudado recentemente no Panamá e não houve evidências de substituição. Resultados obtidos em um estudo em andamento em Piracicaba, onde o Aedes albopictus está presente, mostram evidências insuficientes de que o Aedes aegyptiserá substituído”, disse Hadyn Parry, chefe-executivo da Oxitec.

Foto: AFPCientistas e ativistas querem mais testes envolvendo o mosquito transgênico e sua relação com natureza – Image copyright AFP

Ferraz diz que “o problema é justamente este, que a empresa está fazendo uma experiência que enriquece a base de dados deles”.

“Fizeram testes no semiárido e agora vieram para a região de Mata Atlântica. O ônus da prova não pode ser invertido. A empresa tem que provar que não haverá problemas, e não dizer que não há evidência dos problemas”, diz Ferraz.

Em meio ao debate, governos justificam a ampliação de seus programas de uso do inseto transgênico diante da emergência que a dengue e agora o zika impuseram.

Alto desempenho

A secretaria de Saúde do Estado da Bahia e a Secretaria Municipal de Saúde de Piracicaba afirmam que, diante da urgência imposta pelos números alarmantes de dengue, aceitaram adotar em caráter experimental o uso do mosquito transgênico.

No município baiano de Jacobina, a ideia é estender os programas iniciais com o OX513A para mais bairros.

A superintendente de Vigilância e Proteção da Saúde da Bahia, Ita de Cácia Aguiar, afirmou que a aplicação teste do inseto transgênico em dois bairros custou ao governo R$ 1,2 milhão.

Ela diz não “ter certeza sobre a eficácia do mosquito transgênico na redução da dengue”. Mas houve redução do Aedes aegypti, ela garante. “Não temos notícias de adoecimentos graves em Jacobina”.

Em Piracicaba, o uso do mosquito transgênico foi um “projeto de parceria em caráter de pesquisa, com custos compartilhados entre o município e a empresa (Oxitec). Nesse primeiro ano do projeto, que se encerra em 29 de fevereiro, foram investidos R$ 150 mil pelo município”, informou a Secretaria Municipal de Saúde da cidade, em nota à BBC Brasil.

De acordo com a prefeitura, os resultados de testes apresentados no dia 19 de janeiro apresentam redução de 82% nas larvas selvagens do Aedes aegypti, “e mostram que a alternativa funciona e pode ser aplicada de forma mais ampla para tratar um importante problema de saúde pública, que se agrava com a chegada do zika vírus em nosso país”.

Após examinar a petição de ativistas, a promotora Maria Christina Marton Corrêa Seifarth de Freitas afirmou que pedirá à Prefeitura de Piracicaba e à Oxitec que se manifestem. Mas Maria Cristina não dá muitas esperanças aos ativistas.

“Houve agravamento da situação de saúde pública”, diz ela. “E, no bairro onde o mosquito transgênico foi aplicado, o número de casos confirmados da dengue caiu de 133, em 2014, para 1 em 2015”, complementou, citando, segundo ela, dados da Prefeitura.

“A empresa está construindo o case dela, com estes testes em larga escala em Piracicaba”, diz o ex-conselheiro da CTNBio Leonardo Melgarejo. “Não sabemos qual o impacto ecológico desse mosquito”.

Já a Oxitec repele as desconfianças justamente com o fato de ter sido muito criticada: “Suspeito que nossa tecnologia tenha sido examinada em muito mais detalhe e rigor do que a maioria das outras”, diz o chefe-executivo, Hadyn Parry.

Por ora, ao que tudo indica, o mosquito transgênico veio para ficar.
Rodrigo Pinto/BBC Londres