Eleições 2010: Igreja volta a meter a colher no caldeirão da política

E prossegue a perigosa mistura de religião e política. Todos os regimes fundamentalistas, seja qual for o credo que os motive, desaguam em ditadura. A Igreja Católica, instituição que está atolada até o último botão das vestes em pedofilia, não deveria ter o desplante de apontar o dedo acusador contra qualquer pecador.

Esse arcebispo, Aldo Pagotto, não é a pessoa mais apropriada para fazer cobranças a ninguém. Agora lhe calçariam bem as sandálias da humildade em lugar das vestes de Torquemada.

Dilma Rousseff erra ao não assumir o que defendia quando ministra do governo Lula. Deveria discutir a descriminalização do aborto às claras. Não tem porque temer essa onda fundamentalista. A cada 22 segundos, dados da OMS, uma mulher faz aborto no Brasil, e a cada dois dias uma morre. As que podem abortam em clínicas sofisticadas, enquanto as Marias, Josefas e Raimundas se arriscam nos barracos abortivos espalhados na periferia das grandes cidades, muito apropriadamente apelidados de “fábricas de anjos”.

Aborto não é questão de religião. É questão de saúde pública. Fingir que essa realidade não existe é tão criminoso quanto o aborto em si.

É lastimável que o Brasil, Estado laico, volte a debates que jaziam incinerados na inquisição da idade média. Debate falso e eleitoreiro, enquanto as questões cruciais que afligem os Tupiniquins são deixadas de lado pelos dois ilusionistas candidatos à presidência da república, farinhas estragadas do mesmo saco, Serra e Dilma.
O Editor
PS 1. O menos alfabetizado dos brasileiros sabe que a legislação sobre aborto é competência do Congresso Nacional e não do Presidente da República. Seja ele(a) quem for.
PS 2. Pessoalmente sou contra o aborto. Em quaisquer circunstâncias. Inclusive nos casos admitidos previsto no Código Penal Brasileiro, art. 128.


Arcebispo da Paraíba acusa PT e Dilma de mentirem

Mesmo empenhados em convencer o eleitorado cristão de que sempre foi contra o aborto, a candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff, foi novamente criticada por um religioso acerca do assunto.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Em vídeo de 15 minutos divulgado no Youtube, o arcebispo metropolitano da Paraíba, dom Aldo Pagotto, acusa a candidata de mentir para eleitores sobre seus verdadeiros projetos para a país.

Segundo o bispo, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por meio das ações de seu governo, contraria uma carta que ele teria escrito de próprio punho e encaminhado à Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) negando que estivesse disposto a legalizar o aborto no país.

– Estamos diante de um partido (o PT) que está institucionalmente comprometido com a instalação da cultura do morte no nosso país, que proíbe seus membros de seguirem suas próprias consciências e que se utiliza calculadamente da mentira para enganar eleitores sobre seus verdadeiros projetos à Nação.

Não podemos nos calar. A verdade nos libertará – advertiu dom Pagotto no vídeo.

O arcebispo lembra ainda que, em 2007, o PT aprovou uma resolução que incluindo a legalização do aborto e um novo estatuto que exigia, como requisito para ser candidato pela legenda, a concordância com as normas e resoluções partidárias.

Ele destacou também que em 2008 os deputados petistas Luiz Bassuma e Henrique Afonso foram acusados e condenados de terem ferido a ética do partido, após se posicionarem contra a aprovação do projeto de lei que legalizaria o aborto no país.

Adriana Vasconcelos/O Globo

Eleições 2010: Serra, Dilma e a Inquisição

Os dois farsantes candidatos, Serra e Dilma, assumem que nós, os eleitores, somos idiotas. Travestidos de arautos da pureza e da santidade enveredam por uma pseudo-guerra santa, que findará por desaguar num fundamentalismo, cuja única vítima será a democracia.

Temo assistir a qualquer momento a entrada em cena de um Torquemada revivido, levando à fogueira todos os que estiverem interessados em conhecer as proposta de governo dos dois candidatos e não suas (deles) aspirações à beatificação. Busca-se eleger um Presidente da República e não um Papa.
No Brasil, onde o fundo do poço é somente um estágio, ameaçam-se os eleitores com as fogueiras da inquisição.
O Editor


Na aurora do 2º turno, campanha vai à ‘Idade Média’

Nesta sexta (8), Dilma Rousseff e José Serra voltaram à televisão.

Até o dia 28, antevéspera do desfecho da eleição, as aparições serão diárias.

Na peça do alto, você assiste à propaganda de Serra. Agora, o tempo é igual: 10 minutos.

Quem assiste fica com a impressão de que, no alvorecer do segundo turno, a campanha de 2010 ingressou na Idade Média.

Os dois candidatos renderam-se à pauta beata. Serra mergulhou na onda que tenta enganchar em Dilma a pecha de pró-aborto.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O tucano foi apresentado como alguém “que sempre condenou o aborto e defendeu a vida”. O próprio Serra soou assim na propaganda:

“Eu quero ser um presidente com postura, equilíbrio e que defenda os valores da família brasileira…”

“…Os valores cristãos, a democracia, o respeito à vida e o meio ambiente”. A referência ambiental foi afago oportunista em Marina Silva.

A certa altura, irrompem no vídeo mulheres grávidas, barrigas e dentes à mostra. Enaltece-se um programa do Serra governador, de atendimento pré-natal.

Dilma levou Deus aos lábios. Agradeceu ao Padre Eterno a “dupla graça”: os 47 milhões de votos e a oportunidade de continuar debatendo o Brasil.

A pupila de Lula diz que faz uma “uma campanha em defesa da vida”. Afirma que sofre “na pele uma das campanhas mais caluniosas” da história.

Mais adiante, uma ariz contratada ecoa a candidata. Diz que, “infelizmente, uma corrente do mal” ganhou a a internet.

Coisa urdida “para espalhar anonimamente mentiras contra a Dilma”. Faz um apelo ao espectador: “Não acredite nisso…”

“…Dilma é uma mulher honesta, que respeita a vida e as religiões”. Recomenda que as “mentiras” sejam respondidas com “uma mensagem de amor”.

Mais adiante, reprisa-se um vídeo que já havia sido veiculado antes. Nele, Lula diz que Dilma sofre o “jogo sujo” religioso que já fora usado contra ele.

A propaganda enaltece a mulher. De quebra, também afaga Marina. Dilma martela um lero-lero que Lula desfiara na véspera, numa entrevista dada no Rio.

Afirma que, somando-se os seus seus votos aos de Marina, chega-se a 67% do eleitorado. Evidência de que a maioria quer uma mulher na presidência.

Segue-se a exibição de uma sequência de fotos. Numa delas, Dilma aparece segurando o neto recém-nascido, Gabriel.

No primeiro turno, Dilma já havia convertido o neto em peça eleitoral no twitter e no sítio de campanha. Mas evitara exibir Gabriel na propaganda televisiva.

No programa de Serra, uma novidade: exibiu-se pela primeira vez uma foto de FHC, o ex-presidente que o petismo demoniza.

A imagem de FHC emergiu no miolo de uma galeria marqueteira. Primeiro, aparece um quadro com o rosto de Fernando Collor.

Em off, a voz do locutor: “Esse foi o último presidente desconhecido que o Brasil elegeu”. Irrompe em cena o retrato de Itamar Franco.

E o lucutor: “O estrago [do Collor] foi tão grande, que precisou desse para trazer decência”. Só então surge FHC, o presidente “que trouxe a estabilidade”.

Novo retrato. Na moldura, o rosto de Lula, apresentado como gestor que “deu continuidade” a FHC.

Por último, um quadro com a face de Serra, vendido como o “próximo” presidente da República.

Como que antevendo a tática adversária, um pedaço da propaganda de Dilma foi usado para reforçar o discurso do plebiscito.

Uma atriz aparece ao lado de um mapa do Brasil. Afirma que, numa gestão à FHC, o Brasil teria sido privado das conquistas obtidas sob Lula.

O país não teria o Bolsa Família, não teria o Minha Casa, Minha Vida, não teria os 14 milhões de novos empregos, não teria isso, não teria aquilo.

À medida que vão sendo empilhadas as “realizações”, o mapa do Brasil vai diminuindo de tamanho.

Os comitês de Dilma e de Serra correm contra o relógio. Reclamam que, no segundo turno, o tempo é curto.

Quem viu os dois programas teve a impressão de que as horas mais preciosas desse resto de campanha serão as mais rápidas. Ah, como serão demoradas as outras!

A marquetagem dos dois comitês parece decidida a recordar à platéia que as fogueiras da inquisição um dia já foram pós-modernas.

De resto, o “plebiscito”, antes restrito às eras de FHC e de Lula, já recuou ao Brasil de Collor. O futuro? Que Deus responda por ele.

Blog Josias de Souza

A fé dos homofóbicos

Torquemada redivivo. Esta é a impressão que tenho quando assisto, ou leio, as manifestações, legítimas, saliento, daqueles que não percebem que a sociedade evolui e, portanto, os valores são mutáveis.

Abaixo artigo de André Petry, na Veja que circula nesse fim de semana.


“Dizem eles que a criminalização da homofobia levará à prisão em massa de pastores e padres, e viveremos todos sob o domínio gay. A história ensina que essa lei será aprovada, e a vida seguirá seu curso regular, sem nada de extraordinário”

Em 1946, quando os negros reivindicaram a inclusão de alguns direitos na Constituição, foi um salseiro. Foram acusados de antidemocráticos e racistas por congressistas e estudantes da UNE. Em 1988, a Constituição promoveu o racismo de contravenção a crime. Ninguém chiou. Na década de 50, quando se discutia o divórcio, teve cardeal dizendo que se devia pegar em armas para combater a proposta. Em 1977, o Congresso aprovou o divórcio. Não houve tiroteio, e a igreja do cardeal nunca mais tocou no assunto. Recordar é viver.

Agora, os evangélicos estão anunciando o apocalipse caso o Senado faça o que a Câmara já fez: aprovar lei punindo a homofobia com prisão. A lei em vigor pune a discriminação por raça, cor, etnia, religião e procedência nacional. A nova acrescenta a punição por discriminação contra homossexuais. Cerca de 1 000 evangélicos tentaram invadir o Senado em protesto. Dizem que a criminalização da homofobia levará à prisão em massa de pastores e padres, e viveremos todos sob o domínio gay. A história ensina que, cedo ou tarde, a lei, ou outra qualquer com objetivo similar, será aprovada, e a vida seguirá seu curso regular sem nada de extraordinário.

Os evangélicos e aliados dizem que proibir a discriminação contra gays fere a liberdade de expressão e religião. Dizem que padres e pastores, na prática de sua crença, não poderão mais criticar a homossexualidade como pecado infecto e, se o fizerem, vão parar no xadrez. É uma interpretação tão grosseira da lei que é difícil crer que seja de boa-fé.

Tal como está, a lei não proíbe a crítica. Proíbe a discriminação. Não pune a opinião. Pune a manifestação do preconceito. Uma coisa é ser contra o casamento gay, por razões de qualquer natureza. Outra coisa é humilhar os gays, apontá-los como filhos do demônio, doentes ou tarados. É tão reacionário quanto uma Ku Klux Klan alegar que a proibição da segregação racial fere sua liberdade de expressão. Querem a liberdade de usar a tecnologia Holerite de cartões perfurados pela IBM?

Alegam que a liberdade religiosa fica limitada porque combater o pecado vira crime. É um duplo equívoco. O primeiro é achar que uma doutrina de crença em forças sobrenaturais autoriza o fiel a discriminar o herege. O segundo é atribuir à lei valor moral. O direito penal não é instrumento para infundir virtudes. É um meio para garantir o convívio minimamente pacífico em sociedade. Matar é crime não porque seja imoral, mas porque a sociedade entendeu que a vida deve ser preservada. Dúvidas? Recorram ao Supremo Tribunal Federal. Na democracia, é assim. Lei não é bíblia de moralidade.

O que essa proposta pretende dar aos gays, e sabe-se lá se terá alguma eficácia, é aquilo a que todo ser humano tem direito: respeito à sua integridade física e moral. Os evangélicos, pelo menos os que foram a Brasília, dão prova de desconhecer que seres humanos não diferem de coisas só porque são um fim em si mesmos. Os seres humanos diferem das coisas porque, além de tudo, têm dignidade. As coisas têm preço.