Thomas Stearns Eliot,Poesia,Literatura

Thomas Stearns Eliot – Literatura

Crescimento CulturalThomas Stearns Eliot,Poesia,Literatura

Como indivíduos, verificamos que o nosso desenvolvimento depende das pessoas que conhecemos no curso da nossa vida (essas pessoas incluem os autores cujas obras lemos e as personagens, tanto da ficção como da história). O benefício desses encontros é devido tanto às diferenças como às semelhanças, tanto ao conflito como à simpatia entre pessoas. Feliz é o homem que, no momento oportuno, encontra o amigo adequado; feliz também o homem que, no momento adequado, encontra o inimigo adequado.
Não aprovo o extermínio do inimigo; a política de exterminar ou, como se diz barbaramente, liquidar o inimigo constitui um dos mais alarmantes desenvolvimentos da guerra moderna e, também, da paz moderna, do ponto de vista de quem deseja a sobrevivência da cultura. Precisamos do inimigo. Assim, dentro de certos limites, o atrito, não só entre indivíduos mas também entre grupos, parece-me necessário à civilização.
A universidade da irritação é a melhor garantia de paz. Um país dentro do qual as divisões tenham ido demasiado longe é um perigo para si próprio; um país demasiado unido – seja por natureza ou por intenção, por fins honestos ou por fraude e opressão – é uma ameaça para os outros.

Thomas Stearn Eliot, in ‘Notas para a Definição de Cultura

T.S. Eliot – Poesia – Versos na tarde – 29/05/2017

A Terra Desolada, 1922
T.S Eliot¹

III Depressa por favor é tarde

Agora que Alberto está para voltar, vê se te cuida um pouco,
Ele vai querer saber o que fez você com o dinheiro que ele deu
Para ajeitar esses seus dentes. Foi isso o que ele fez, eu
estava lá.
Arranca logo todos eles, Lil, e põe na boca uma dentadura
decente.
Foi isso o que ele disse, juro, já não agüento ver você assim.
Muito menos eu, disse, e pensa no pobre Alberto
Ele serviu o exército por quatro anos, quer agora se divertir
E se você não o fizer, outras o farão, disse.
Ah, é assim. Ou qualquer coisa de parecido, respondi.
Então saberei a quem agradecer, disse ela, fitando-me nos
olhos.

Se não lhe agrada, faça o que lhe der na telha.
Outras podem escolher e passar logo a mão, se você não pode,
Mas se Alberto sumir, não foi por falta de aviso.
Você devia se envergonhar, disse, de parecer tão passada.
(E ela só tem trinta e um anos.)
Não sei o que fazer, disse ela, com um ar desapontado,
Foram essas pílulas que tomei para abortar, disse.
(Ela já teve cinco filhos, e ao parir o mais novo, Jorge, quase
morreu.)
O farmacêutico disse que tudo correria bem, mas nunca mais
fui a mesma.
Você é uma perfeita idiota, disse eu.
Bem, se Alberto não deixar você em paz, aí é que está.
Por que você se casou se não queria filhos?
DEPRESSA POR FAVOR É TARDE
Bem, naquele domingo em que Alberto voltou para casa, eles
serviram um pernil assado
E me convidaram para jantar, a fim de que eu o saboreasse

ainda quente.
DEPRESSA POR FAVOR É TARDE
DEPRESSA POR FAVOR É TARDE
Boa noite Bill. Boa noite Lou. Boa noite May. Boa noite.

Tchau. ‘Noite. ‘Noite.
Boa-noite, senhoras, boa-noite, gentis senhoras, boa-noite,
boa-noite.

Tradução: Ivan Junqueira

¹Thomas Stearns Eliot
* Nuneaton, Reino Unido – 22 de novembro de 1819
+ Chelsea, Londres, Reino Unido – 22 de dezembro de 1880[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

T.S.Eliot – Poesia – Poemas – Versos na tarde – 10/05/2017

A canção de amor de J. Alfred Prufrock – Parte III
T.S.Eliot¹

Pois já conheci a todos, a todos conheci
– Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?

E já conheci os olhos, a todos conheci
– Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?

E já conheci também os braços, a todos conheci
– Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?

Tradução Ivan Junqueira

1 Thomas Stearns Eliot
* Nuneaton, Reino Unido – 22 de novembro de 1819
+ Chelsea, Londres, Reino Unido – 22 de dezembro de 1880
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T.S.Eliot – Poesia – Poemas – Versos na tarde – 09/05/2017

A canção de amor de J. Alfred Prufrock – Parte II
T.S.Eliot¹

E na verdade tempo haver á
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. “Ousarei” E . . “Ousarei?”
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: “Como andam ralos seus cabelos!”)
– Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: “Mas como estão finos seus braços e pernas! “)
– Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.

Tradução Ivan Junqueira

1 Thomas Stearns Eliot
* Nuneaton, Reino Unido – 22 de novembro de 1819
+ Chelsea, Londres, Reino Unido – 22 de dezembro de 1880

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Esquerda”]² O poema  “The Love Song of J. Alfred Prufrock”, consta de seu primeiro livro de versos, editado em 1917, Prufrock and Other Observations. Havia aparecido anteriormente na revista Poetry, em 1915. Prufrock, representa, talvez, o jovem Eliot da época em que freqüentava Harvard e a sociedade de Boston que descreveu como sendo “civilizada para além dos limites da civilização”.

O poema, de fato, descreve o drama de um membro dessa sociedade, Prufrock. Através de um monólogo que mantém consigo mesmo, em que especula as conseqüências da consuma- ção de um amor que, devido à sua ultra-sensibilidade, jamais conseguirá declarar (o poema é ironicamente intitulado uma canção de amor), ele nos revela a futilidade e o vazio dessa sociedade sem fé, sem objetivo, extremamente artificial e sofisticada. Prufrock compreende e interpreta a sociedade (várias alusões a Dante e à Divina Comédia esclarecem que ela está no Inferno em vida), mas não consegue, nem conseguirá jamais agir de maneira diferente, porque éle pertence integralmente a esse mundo perdido.

A única salvação está em voltar para perto do mar, jogar-se nele, purificar-se, mas como Prufrock não pode na realidade viver sem ouvir as vozes humanas, éle afoga-se. Nenhuma dessas idéias está implícita no poema. Revelam-se através de imagens que descrevem o aspecto desolador do ambiente, justapostas à conversa fútil das senhoras que falam a respeito de Miguel Ângelo, mas que jamais conseguirão compreender o alcance da obra daquele que foi o maior espírito criador da Renascença, uma época de grandes conquistas espirituais que contrasta extraordinariamente com a nossa, vazia e estéril: “como um paciente anestesiado sobre a mesa”.

Por todo o poema encontramos alusões à literatura universal e, em especial, aos grandes poetas, tais como Hesíodo, Dante, Marvel, Shakespeare, assim como referências a passagens da Bíblia. Essas referências servem para elucidar, ou colocar em confronto os acontecimentos do poema, com trechos dramáticos de obras da literatura universal (cf. Notas). Resta-nos dizer algo acerca das metáforas no poema.

Em um ensaio a respeito de Hamlet, Eliot declara que nenhuma emoção pode ser expressa suficientemente bem em literatura sem o “objective correlative” que êle define como sendo — “uma série de objetos, uma situação, uma cadeia de acontecimentos, que constituirão a fórmula dessa emoção; de maneira que, quando os fatos externos são apresentados, a emoção é imediatamente evocada”.

Por exemplo, nos versos 62 a 74, Prufrock não diz que tem medo de relações físicas, que também receia uma vida destituída delas ou que desejaria nunca ter nascido. E’ muito mais eficaz, quando descreve quase amorosamente “braços enfeitados, nus e brancos”, mas logo se lembra de que, “na claridade”, são “cobertos por cabelos loiros”.

Desculpa-se por ter chegado a pensar no amor, mas lamenta-se, dizendo que já viu homens sozinhos em mangas de camisa, debruçados nas janelas. Logo depois, incapaz de chegar a uma conclusão, grita: “Deveria ter sido um par de garras escabrosas / Rastejando pelos fundos de águas silenciosas”. As imagens, que à primeira vista parecem desconexas, quando tentamos justapô-las, intensificam enormemente a emoção.

T.S.Eliot – Versos na tarde – 27/08/2016

O Tempo
T.S.Eliot¹

O infinito ciclo da idéia e da ação,
Infinita invenção, experiência infinita,
Traz o conhecimento do vôo, mas não o do repouso;
O conhecimento da fala, mas não o do silêncio;
O conhecimento das palavras e a ignorância do Verbo.


Todo o nosso conhecimento nos aproxima da ignorância,
Toda a nossa ignorância nos avizinha da morte,
Mas a iminência da morte não nos acerca de Deus.
Onde a vida que perdemos quando vivos?
Onde a sabedoria que perdemos no saber?
Onde o conhecimento que perdemos na informação?
Os ciclos do Céu em vinte séculos
Afastaram-nos de Deus e do Pó nos acercaram.

¹Thomas Stearns Eliot
* St Louis, Usa – 26,Setembro 1888 d.C
+ Londres, Inglaterra – 4,Janeiro 1965 d.C


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T.S.Elliot – Versos na tarde – 25/01/2013

Poema
T.S.Elliot ¹

Devo dizê-lo de novo?
“Tu dirás que repito algo que disse antes.
Di-lo-ei de novo.
Devo dizê-lo de novo?
Para chegares aí,
Para chegares ondes estás, para saíres de onde não estás,
Deves seguir por um caminho onde não há extase.
Para chegares ao que não sabes
Deves seguir por um caminho que é o da ignorância.
Para possuíres o que não possuis
Deves seguir pelo caminho da privação.
Para chegares ao que não és
deves seguir pelo caminho onde não estás.
E o que não sabes é a única coisa que sabes
E o que possuis é o que não possuis
E onde estás é onde não estás.”

¹ Thomas Stearns Eliot
* St. Louis, Usa – 26 de Setembro de 1888 d.C
+ Londres, Inglaterra – 4 de Janeiro de 1965 d.C


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T.S.Eliot – Versos na tarde – 11/01/2013

Burnt Norton – extrato
T.S Eliot ¹

(…)
Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano
Não pode suportar tanta realidade.
O tempo passado e o tempo futuro,
O que poderia ter sido e o que foi,
Convergem para um só fim, que é sempre presente.

Tradução de Ivan Junqueira

¹ Thomas Stearns Eliot
* St. Louis, Usa – 26 de Setembro de 1888 d.C
+ Londres, Inglaterra – 4 de Janeiro de 1965 d.C


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T.S. Eliot – Versos na tarde

A canção de amor de J. Alfred Prudfrock
T.S. Eliot

“S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.”

Dante Alighieri. Ladivina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66 (N. do T.)

Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: “Qual?”
Sigamos a cumprir nossa visita.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.

E na verdade tempo haver á
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. “Ousarei” E . . “Ousarei?”
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: “Como andam ralos seus cabelos!”)
– Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: “Mas como estão finos seus braços e pernas! “)
– Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.

Pois já conheci a todos, a todos conheci
– Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?

E já conheci os olhos, a todos conheci
– Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?

E já conheci também os braços, a todos conheci
– Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?
…….

Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?

Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.
…….

E a tarde e o crepúsculo tão .docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos . . . exangues . . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
servida numa travessa,
Não sou profeta – mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.

E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geleia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: “Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei.”
– Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: “Não é absolutamente isso o que quis dizer
Não é nada disso, em absoluto.”

E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
– Tudo isso, e tanto mais ainda? –
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às
pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
“Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto.”

Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil
manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
As vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.

Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.

Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.

Não creio que um dia elas cantem para mim.

Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.

Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.

(tradução: Ivan Junqueira)

¹ Thomas Stearns Eliot
* St. Louis, Usa – 26 de Setembro de 1888 d.C
+ Londres, Inglaterra – 4 de Janeiro de 1965 d.C

T.S. Elliot – Versos na tarde

A terra desolada *
T. S. Eliot ¹

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aléias de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

Frisch weht der Wind
Der Heimat zu
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?

“Um ano faz agora que os primeiros jacintos me deste;
Chamavam-me a menina dos jacintos.”
– Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos,
Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos úmidos, não pude
Falar, e meus olhos se enevoaram, eu não sabia
Se vivo ou morto estava, e tudo ignorava
Perplexo ante o coração da luz, o silêncio.
Oed’ und leer das Meer.

Madame Sosostris, célebre vidente,
Contraiu incurável resfriado; ainda assim,
É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,
Com seu trêfego baralho. Esta aqui, disse ela,
É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.
(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)
Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,
A Senhora das Situações.
Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a Roda da Fortuna,
E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,
Que em branco vês, é algo que ele às costas leva,
Mas que a mim proibiram-me de ver. Não acho
O Enforcado. Receia morte por água.
Vejo multidões que em círculos perambulam.
Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,
Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:
Todo o cuidado é pouco nestes dias.

Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: “Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! – mon semblable –, mon frère!”

Tradução de Ivan Junqueira

¹ Thomas Stearns Elliot
* St. Louis, Usa – 26 de Setembro de 1888 d.C
+ Londres, Inglaterra – 4 de Janeiro de 1965 d.C
Prêmio Nobel de Literatura em 1948

* A Terra Desolada, é considerada a obra-prima de Elliot. Um poema doloroso, trafegando de Berlim à Londres realista, e emblemático retrato ácido de uma Europa emergindo arrasada da guerra de 1914. O poema foi publicado em 1922 traz para Eliot o reconhecimento mundial

Nesse poema Eliot verbaliza a realidade de um dos mais trágicos momentos da civilização ocidental. A obra absorve, e rumina, influência de Dante Alighieri, bem como ‘passeia’ pela poesia simbolista francesa. A erudição histórica é uma remessa aos meandros da consciência e um esteio à racionalidade.

Poeta, crítico e dramaturgo norte-americano. Eliot é, depois de Shakespeare, evidentemente, o maior nome da poesia contemporânea da língua inglesa. Natural de Saint Louis, Missouri, estudou nas universidades de Harvard (EUA), Oxford (Inglaterra) e Sorbonne (França).

Entediado com o marasmo cultural nos Estados Unidos, emigra para a Inglaterra. Em Londres, se torna funcionário, por sete anos, do Lloyds Bank.

Em 1917 publica A Canção de Amor de John Alfred Prufrock, declarado ‘namoro’ com o simbolismo.  The Sacred Wood, ensaios publicados a partir de 1920, são um marco nas mudanças de critérios na crítica e na análise literária.

Naturalizado inglês em 1927, no ano seguinte se converte a religião Anglicana. Par o teatro escreve as peças Murder in the Cathedral (1935), The Family Reunion (1939) e The Elder Statestman (1958), entre outras.

A obra de Eliot requer uma leitura atenta, pois recheadas de passagens bíblicas e arquitetada em fatos históricos decorridos ao longo de toda a existência do homem.

O Editor