2016: Um ano voltado para Shakespeare

A humanidade se prepara para festejar Shakespeare. Enquanto escrevo esse artigo, uma companhia de teatro inglesa percorre o mundo interpretando Hamlet.

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Por Theófilo Silva¹

A saga começou em 2014, com o objetivo de chegar a todos os recantos do planeta, algo em torno de 210 nações – estiveram inclusive na Somália e em campos de refugiados na Síria – terminando o feito em 23 de abril de 2016, data dos 400 anos de aniversário da morte de Shakespeare.

Milhares de eventos estão ocorrendo mundo afora: sejam apresentações de suas peças, filmes, espetáculos, recitais, exposições, lançamentos de sites e blogs; lançamento de selos moedas e muitas outras atividades celebrando seu gênio imortal. A quantidade de peças em cartaz na China é surpreendente. Digo que causa surpresa, porque chegaram a dizer que Shakespeare não tinha muito a acrescentar aos chineses.

Quando Stendhal, autor de O Vermelho e o Negro, disse, no início do século XIX que: “Minha admiração por Shakespeare cresce todos os dias. Esse homem nunca nos aborrece e é a mais perfeita imagem da natureza”, ele estava repetindo o que diziam e iriam dizer todos àqueles que leram ou assistiram uma peça de Shakespeare em algum momento de suas vidas.

Sei que estou repetindo coisas que já foram ditas por milhões de pessoas ao longo desses quatro séculos, mas acho que não custa fazer isso, já que meu objetivo é levar Shakespeare ao leitor comum. Mostrar às pessoas o quanto elas estão perdendo ao não o ler ou assistir suas peças. Leitor que cita Shakespeare sem o saber.

Leitor que precisa ser informado que o Bardo de Stratford – bardo é poeta, e Stratford, a cidade em que ele nasceu na Inglaterra – está disseminado em suas falas e pensamentos sem que ele mesmo saiba. E que quase tudo que ele ver, ler e assiste por aí é Shakespeare de segunda mão! Que o cinema, a televisão e os livros repetem Shakespeare o tempo todo sem citá-lo. Então, por que não ler diretamente suas peças ao invés de lê-lo por intermédio de outro autor que se apossou de seu pensamento?

Quem diria que: “Pegar um resfriado”, “Quebrar o gelo”, É grego para mim”, “Nem tudo que reluz é ouro” e muitas e muitas dezenas de sentenças que são ditas por todos nós todos os dias foram escritas por Shakespeare e estão contidas nas falas de seus personagens em suas peças e poemas!

Porque não dizer-lhes que Shakespeare joga uma luz intensa sobre amor, orgulho, inveja, cobiça, vaidade, poder, ódio, avareza, cobiça, dinheiro e muitos outros afetos humanos com uma descrição absolutamente sábia e original, devastadora mesmo, capaz de nos ajudar a entender a enorme complexidade humana e ver a humanidade com olhos que não tínhamos até então? Como não levar as pessoas essa sabedoria enriquecedora, que só acrescenta a nossa interioridade tão carente de profundidade?!

De onde vem essa fonte inesgotável de sabedoria, que nunca se exaure capaz de dizer coisas novas o todo o tempo, se reinventando permanentemente? Ninguém sabe. No entanto, arrisco-me a dizer, como muitos outros leitores e estudiosos, simplesmente porque Shakespeare focou no homem e suas angústias. Todo o resto era secundário.

Conhecer Shakespeare é repetir as palavras de Romeu ao avistar Julieta dançando no salão de sua casa: “Por acaso meu coração amou até agora? Jurai que não meus olhos, pois até agora não havia conhecido a verdadeira beleza”.

Entrar em contato com a obra de Shakespeare é conhecer a verdadeira beleza.


¹O escritor cearense Theófilo Silva é um apaixonado pela vida e pela obra de William Shakespeare. Saiu do Ceará há doze anos, para tentar melhorar de vida e seguir a carreira artística em Brasília, onde conseguiu lançar duas obras sobre o famoso autor inglês. Uma delas, intitulada “Shakespeare indignado” analisa acontecimentos sobre a sociedade e a política brasileira a partir de uma visão shakespeariana.

Formado em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Theófilo acredita que trabalhar com literatura em Brasília é mais fácil do que no Ceará, mas só quando se sai da terra natal é que percebe-se a riqueza cultural cearense. Na capital brasileira, fundou a Sociedade Shakespeare de Brasília, onde se reúne quinzenalmente com outros apaixonados para ler e analisar as obras do inglês.

Sobre livros e leituras

Dramaturgos - Shakespeare Bloga do Mesquita PersonalidadesInfelizmente, não sabemos se Shakespeare foi um homem que viajou muito. Mas a Itália, com certeza, é um país que ele deve ter conhecido, tantas são as peças cujas narrativas ocorrem lá.

Essa paixão se deve ao esplendor artístico das cidades italianas durante o período do Renascimento.

Em verdade, a Itália sempre fascinou escritores e músicos, os artistas em geral, de Goethe a Freud (o escritor), de Mozart a Beethoven.

Shakespeare viveu o fim do Renascimento, movimento que durou em torno de três séculos. O mundo dos humanistas, homens de vastíssima cultura. O Renascimento europeu inicia-se no fim do século XIII e vai até as portas do século XVII. A Itália foi o berço e o principal recanto de prosperidade desse ressurgir cultural que mudou a história do ocidente e do mundo inteiro.

Lembro o Renascimento – o retorno ao ideal greco-romano – para tocar num assunto que muito me incomoda. É de o quanto a especialização está matando o humanismo que o Renascimento nos legou. Falar de humanismo é até mesmo um exagero, digamos que um pouco de informação sobre o passado e sobre o mundo que nos cerca.

Ler um bom livro, hoje, é uma tarefa hercúlea para médicos, advogados, engenheiros, professores, juízes etc. Todo pequeno ou grande profissional só conhece a matéria em que trabalha. Mesmo aqueles que pertencem à área de ciências humanas – Direito, Sociologia, História, Comunicação, Economia, que precisam escrever todos os dias – não conseguem opinar sobre nada que não pertença ao seu universo de estudo. Encontrar alguém com uma cultura diversificada é como encontrar um diamante na calçada!

Os livros mais lidos são pouco mais que caça-níqueis, não passam de temas repetidos à exaustão. Mesmo assim, são apresentados como grandes novidades. As editoras precisam faturar, lucrar. Daí “empurram” livros que dão calafrios no leitor mais exigente. Esses livros ou ‘mercadorias’ não ajudam ninguém a pensar.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Algumas vezes fico calado em rodas de conversa – algo torturante para mim, pois adoro conversar – tal é a quantidade de bobagens ditas por pessoas de formação educacional muito pra lá de “nível superior” em suas opiniões sobre questões mais sábias.

A conversa chega, às vezes, a ser tão despropositada que você passa por idiota, pelo simples fato de o mundo dessas pessoas girar em torno de suas profissões, do que veem na Internet, ou do que dizem os jornais do dia. Suas opiniões são centradas em um único conteúdo. Não há uma visão do todo. Sei que estou sendo muito duro. Mas, não estou pedindo a ninguém para citar clássicos em mesa de bar.

O que nos estarrece é ver bobagens esotéricas, auto-ajuda e pequenos dramas de natureza pessoal tratados como Literatura. Como é que pessoas pós-graduadas em universidades leem essas coisas? Mário Vargas Llosa, numa recente entrevista no Brasil, chamou essas pessoas muito “educadas”, bem empregadas e alheias ao mundo – que só conhecem o seu métier – de: “analfabetos funcionais”.

Gostaria de dizer que essa declaração é um exagero, mas, infelizmente, não é. Como também não precisamos ser tão duros quanto a Goethe, que disse: “Quem de cinco séculos não é capaz de dar conta, não merece estar por aqui”.

Leiam os Clássicos!

¹ Theófilo Silva é Presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e Colaborador do blog do Moreno


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Theófilo Silva – Reflexões na tarde – 18/01/2014

Os Passionais
Theófilo Silva¹

“Paixão… Tornas possíveis as coisas que não são consideradas possíveis. Tu te comunicas com os sonhos… Ages de acordo com o irreal e fazes do nada teu associado”.

Na peça Conto de Inverno, Leontes, rei da Sicília, o mesmo que pronuncia as palavras acima, está muito feliz porque seu amigo de infância Políxenes, rei da Boêmia, veio visitá-lo. Quem está feliz também é Hermione, esposa de Leontes, que através de Políxenes saberá como era seu marido na juventude. No entanto, repentinamente tudo muda. Na curta permanência de Políxenes, Leontes passa a violentos ataques de ciúmes, que vão crescendo até se tornarem exteriores.

Leontes tem certeza que Hermione está traindo-o com Políxenes. Seu ciúme chega ao auge, quando pede a um funcionário sábio e leal, que envenene Políxenes, que acaba de voltar para a Sicília. Camilo descumpre a ordem e foge.

Tudo piora, quando Hermione aparece grávida. Leontes não tem mais dúvidas, Hermione é uma adúltera, manda prendê-la e submetê-la a julgamento. Mesmo sendo aconselhado por seus assessores para agir com prudência, Leontes com sua passividade excessiva sai contaminando tudo ao seu redor.

Passado o tempo, eis que nasce uma linda garota, que tem os olhos, a boca, o nariz e o sorriso de Leontes. Não há dúvida, a menina é mesmo filha de Leontes. Mas Leontes não acredita. Cego à verdade, amaldiçoa a garota, dando ordens para levarem-na para o mais distante possível dele.

O caso toma proporções tão desmedidas, que foi necessário o envio de emissários para consultar o oráculo de Apolo, a única instância capaz de convencer o rei ensandecido. Durante o julgamento de Hermione, chega à resposta do oráculo, que declara Hermione inocente e Políxenes um tirano.

Mas o estrago já estava feito. O passionalismo de Leontes o cegara completamente. Seu julgamento do caráter da esposa, e mais ainda, de duvidar da honra do rei de um país amigo, o levaram a um estado de confusão e desespero. Sem contar os prejuízos das relações da Boêmia com a Sicília.

O Dr. Johnson diz em Rasselas, “toda a força da imaginação sobre a razão é um grau de insanidade”. Quando Shakespeare afirma que, “a paixão age de acordo com o irreal e se associa ao nada”, ele nos avisa dos perigos a que estamos expostos quando julgamos preconceituosamente situações desconhecidas. Quando exercemos um papel de liderança, qualquer que seja ele, político, de opinião, ou outros, não podemos agir precipitadamente, pois caímos no ridículo ou mesmo na tragédia.

Se “a paixão se comunica com os sonhos”, queremos transformá-los em realidade. E quase sempre, isso não é possível. Mais ainda, às vezes as pessoas estão submetidas a ambientes e situações estranhas, sendo possível à perda de contato com a realidade, ainda que temporário.

Assim como Leontes. E quando sonhadores julgam sonhadores, ainda que a distância, o perigo é ainda maior.
E nós, para Shakespeare “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos”.

Devemos ser cuidadosos.

¹Theófilo Silva é presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília


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Os Quixotes Indignados

Por Theófilo Silva[1]

Dom Quixote IlustraçãoA condenação definitiva, a 150 anos de prisão, do bilionário financista americano Bernard Madoff por crimes financeiros, que saiu do tribunal algemado, num processo cujo desfecho durou menos de um ano, nos impõe uma série de reflexões acerca da ineficiência da enrolada justiça brasileira, a maioria delas já feitas pela imprensa.

Minha reflexão é recordar algumas figuras quixotescas presentes no cenário brasileiro nos último vinte anos – que eu me lembro -, aquelas marcadas por um fato: revolta e coragem diante da corrupção e da impunidade. Aqueles cidadãos pacatos – com algo de Hamlet – muitas vezes puros, colocados pelo destino diante de verdades lamentáveis. E dos funcionários públicos encarregados de alguma investigação contra um corrupto poderoso. Aqueles servidores que “passam dos limites”, “agem fora de sua jurisdição” sendo chamados de loucos por acelerarem os lentos e ineficientes passos da justiça.

Todos nós crescemos ouvindo o discurso de Rui Barbosa citado por nossos avós: “de tanto ver prosperar a desonra…”. Falo desses Quixotes, que diante de atos desonestos agem de forma surpreendente, enfrentando culpados poderosos pegos “com a mão na botija”. Esses sujeitos meio loucos, meio heróis, de 1990 para cá: Takeshi Imai, Eriberto França e o caseiro Francenildo; funcionários federais, como: Luiz Francisco, Sílvio Marques, Fausto de Sanctis e o que está na berlinda, delegado Protógenes, todos que de uma forma ou de outra alteraram os rumos da história por força de sua indignação e de suas ações. Homens que, como diz o duque de Milão, em Como Gostais, peça de Shakespeare: “usam a loucura como disfarce de caçador, para disparar seus tiros…”

Suas personalidades são distintas. Takeshi, Eriberto e Francenildo são gente do povo que num momento de provação demonstraram indignação e patriotismo. Sílvio Marques é o único em que não há “loucura”, mas simplesmente coragem. Esse promotor juntou várias toneladas de provas contra Paulo Salim – deixou-o preso por 45 dias -, figura que reputo como a mais repugnante de toda a história do país, mais até que Joaquim Silvério dos Reis. Um atestado vivo da inexistência de justiça no Brasil.

O procurador de fala mansa e tímida, Luiz Francisco, criou um pandemônio na vida de muitos corruptos, mesmo que os holofotes o tenham cegado um pouco. Já o juiz Fausto de Sanctis teve a coragem de trombar com a figura pública mais detestada do país, o presidente do STF, Gilmar Mendes, sendo duramente perseguido por isso.

Todos eles granjearam a simpatia da sociedade e dos homens de bem deste país. Seus atos os tornaram uma espécie de Quixotes lutando com os moinhos, e na sua busca por justiça podem ter exagerado, e por isso tiveram suas vidas desmanteladas.

Um ou outro errou, mas o legado é positivo. Não são heróis nem loucos: são homens indignados. Resta-lhes um consolo vindo também de um simples mensageiro do rei Henrique VI, na peça homônima do nosso amigo Shakespeare: “Diante de muitos golpes de uma machadinha, o mais possante carvalho oscila e acaba vindo ao chão”. Vida longa aos Quixotes!

[1]Theófilo Silva é presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e colaborador do blog do Moreno