China cria um sistema de comunicação quântica desde o espaço, impossível de ser espionado

País transmite chaves secretas de um satélite para duas estações terrestres separadas por mais de 1.000 quilômetros, 10 vezes mais do que o alcançado antes.

Estação terrestre chinesa se comunica com o satélite de comunicação quântica ‘Micius’.J.-W. PAN/USTC/APS

A China acaba de mostrar seu poderio tecnológico com um marco que tem grandes implicações geoestratégicas: a pulverização do recorde de distância da comunicação quântica. Uma equipe de cientistas do país asiático anunciou nesta segunda-feira a primeira transmissão simultânea de uma mensagem criptografada com tecnologia quântica, enviada de um satélite espacial para dois telescópios terrestres separados por 1.120 quilômetros, uma distância cerca de dez vezes maior do que a alcançada até então.

Os fenômenos quânticos se originam em escalas microscópicas, mas podem ter efeitos significativos no mundo visível. Duas partículas podem estar entrelaçadas de tal modo que o que acontece com uma aconteça com a outra instantaneamente, mesmo se estiverem separadas por bilhões de quilômetros. Se alguém tenta observar essas partículas durante sua transmissão, seu estado muda e o entrelaçamento é rompido. Essa propriedade permite criar um sistema de comunicação teoricamente impossível de ser violado ou hackeado porque a mera observação por parte do espião destrói a mensagem.

Há anos, China, Europa e Estados Unidos planejam desenvolver redes de comunicação quântica para enviar mensagens oficiais ou estabelecer sistemas de segurança cibernética em instalações estratégicas.

Em um estudo publicado hoje na Nature, cientistas chineses detalham a transmissão de uma chave secreta escrita com pares de fótons ―partículas de luz― entrelaçados. Os fótons são emitidos pelo satélite Micius, que orbita a 500 quilômetros da Terra, para duas instalações terrestres construídas com essa finalidade específica nas cidades de Delingha e Nanshan, separadas por 1.120 quilômetros. O uso de um satélite é crucial, já que a transmissão dessas mensagens usando fibra ótica perde muitos fótons, de tal forma que seriam necessários repetidores a cada 100 ou 150 quilômetros aproximadamente. E um repetidor, com todos os seus componentes mecânicos, pode ser hackeado.

Cada bit de informação é codificado usando dois fótons entrelaçados. Desta vez, os chineses mostram a transmissão segura de uma chave secreta de 372 bits. A chave pode ser usada para decifrar uma mensagem criptografada que pode ser transmitida por qualquer outro meio, incluindo Internet e telefonia.

Em seu trabalho, pesquisadores chineses puseram seu sistema à prova de diferentes tipos de ataques e mostraram que é seguro. A velocidade e a eficiência são 100 bilhões de vezes maiores que às da fibra óptica terrestre. “Nosso trabalho lança as bases para uma rede global de comunicação quântica”, destacam os responsáveis ​​pelo estudo.

“Ninguém conseguiu fazer isso a uma distância tão grande”, destaca Juan José García-Ripoll, especialista em comunicação quântica do Conselho Superior de Pesquisa Científica (CSIC), da Espanha. “Este não é um protocolo novo, mas conseguiram algo único do ponto de vista técnico. A China está à frente neste campo”, afirma.

O país passou anos investindo grandes somas de dinheiro em novas tecnologias de comunicação quântica, tanto espaciais como terrestres. Nesta última já havia conseguido conectar Pequim e Xangai com uma rede de fibra óptica para a transmissão de chaves quânticas. Além disso, a China alcançou recordes anteriores em comunicação espacial, como a transmissão em 2017 de uma chave quântica que permitiu manter uma teleconferência não passível de ser hackeada entre Viena e Pequim, a mais de 7.000 quilômetros de distância, também usando o satélite Micius.

“A diferença é que, neste caso, o satélite agiu como uma caixa-forte que guarda a chave enquanto se move do ponto A para o B e, durante esse período, é vulnerável à espionagem”, explica Valerio Pruneri, pesquisador do Instituto de Ciências Fotônicas, em Barcelona. Pruneri é o contato na Espanha da rede internacional de países europeus que está há pouco mais de um ano dando forma a um grande projeto da União Europeia para criar em uma década uma rede de comunicação quântica segura em nível europeu.

“Esta ainda é uma corrida científica, mas está cada vez mais claro que cada continente precisa ter sua própria rede, não pode depender de outros para adquiri-la”, diz Pruneri. O pesquisador lembra que o conceito de comunicação quântica foi cunhado na Europa, onde foram feitos os primeiros experimentos fundamentais, mas há anos a China aposta fortemente em dominar essa tecnologia. O chefe do sistema de comunicação quântica chinês, Jian-Wei Pan, da Universidade de Ciência e Tecnologia da China, se formou na Universidade da Áustria,no final dos anos 90, e depois retornou a seu país para iniciar o desenvolvimento desta tecnologia.

“É uma boa notícia que a China conseguiu isso porque mostra a viabilidade tecnológica”, diz Pruneri. “Isso deve pressionar a Europa a desenvolver sua própria rede com tecnologia própria”, observa.

O próximo grande marco seria o uso de satélites geoestacionários, cuja órbita a cerca de 35.000 quilômetros da Terra permitiria aumentar a distância em que mensagens criptografadas podem ser enviadas com tecnologia quântica, algo que a Europa planeja fazer dentro do programa SAGA da Agência Espacial Europeia.

Twitter testa mensagens de áudio em tweets de até 140 segundos

O Twitter liberou uma novidade nesta quarta-feira (17) para alguns usuários do iPhone: os tweets de voz permitem gravar áudios e publicá-los diretamente na timeline. Cada mensagem tem limite de 140 segundos e aparece na linha do tempo com a foto de perfil e um reprodutor de mídia.

Twitter permite publicar tweets de voz através do iPhone; app permite publicar mensagens de áudio com até 140 segundos.

Twitter e mensagem de voz

Funciona assim: ao criar um novo tweet no app para iOS, há uma opção com o aviso “Grave o que está acontecendo”. Ao tocar nela, surge uma interface de gravador para criar a mensagem de áudio; basta tocar no botão vermelho de microfone. Por enquanto, não há um recurso nativo para enviar áudios pré-gravados.

A novidade será liberada “nas próximas semanas” para todos os usuários do Twitter no iOS; a rede social não menciona outras plataformas, como Android e web.

Twitter tem limite de 140 segundos para tweets de áudio
Como explica o Twitter, os áudios têm limite de 140 segundos (refletindo o antigo limite de 140 caracteres no Twitter). Você pode gravar mensagens mais longas que isso, mas elas serão cortadas em dois ou mais tweets publicados em sequência.

“Quando você atinge o limite de tempo para um tweet, um novo tweet de voz começa automaticamente a criar uma sequência de mensagens”, diz o Twitter em comunicado.

Twitter e mensagem de voz
O áudio é exibido na timeline com a foto de perfil e a duração. Ao tocar nele, o app para iPhone mostra uma barra na parte inferior para reproduzir e pausar; é possível ouvir tweets de voz com o app em segundo plano.

Na web, no Android e em tweets incorporados (exemplo abaixo), a mensagem aparece no formato tradicional de vídeo:

Vale lembrar que o Periscope, ferramenta de vídeos ao vivo do Twitter, permite incluir convidados para comentar transmissões através de mensagens de voz. Agora, também será possível postar áudios na linha do tempo; só ficou faltando ter esse recurso nas mensagens diretas (DMs), como no Instagram.

Rita: A assitente virtual desenvolvida pela Rússia para auxiliar pilotos do novo caça MiG-35

Uma aeronave MiG-35 exibida no fórum econômico Rússia-África na cidade de Sochi em 24 de outubro de 2019.

Foto Ilyá Pitaliov / Sputnik

“Rita fala com uma voz calma e agradável, mesmo que acenda um incêndio no motor do avião”, elogiou um piloto de teste envolvido no projeto.

Na Rússia, está sendo desenvolvido um “sistema especialista que ajudará o piloto em muitas situações”, disse o piloto de teste do consórcio aeronáutico MiG Dmitri Selivánov, em entrevista à RIA Novosti.

O novo avião de combate MiG-35 já possui um comunicador de voz, informou o aviador. “Nós a chamamos de Rita”, acrescentou ele, e essa voz feminina “fala agradável, calma, mesmo que ocorra um incêndio no motor”, mas “nem sempre fala, só oferece conselhos se o avião estiver se aproximando de certos limites”. A presença também é mantida durante o combate, disse Selivánov.

De acordo com a experiência que o aviador compartilhou com a agência de notícias, no novo caça “tudo visa ajudar o piloto”, que em uma situação crítica pode receber conselhos sobre a melhor maneira de agir.

O caça multiuso MiG-35 é um avião leve pertencente à geração 4 ++, que foi projetado para substituir aeronaves MiG-29 na Força Aérea Russa. A aeronave tem uma faixa de ação de 3.000 quilômetros e seus dois motores de empuxo vetoriais permitem atingir velocidades supersônicas de até 2.400 quilômetros por hora.

Há um ano, as Forças Armadas russas receberam suas duas primeiras aeronaves deste novo modelo.

Os criadores do avançado caça russo MiG-35 patenteiam seu sistema de pouso automático.

Um caça MiG-35 multiuso no campo de teste da planta aeronáutica de Voronin na região de Jujovitsi, província de Moscou.
Kiril Kalinikov / Sputnik

Os engenheiros da empresa russa MiG já receberam a patente por seu sistema de aterrissagem em modo automático, o que é muito importante para reduzir o tempo de descida e o desempenho em condições climáticas difíceis.

Os avançados caças MiG-35 russos poderão pousar no modo não tripulado e a tecnologia para isso já foi desenvolvida e patenteada, relata a RIA Novosti, referindo-se ao serviço de imprensa da empresa MiG que faz parte da Unified Aeronautical Corporation of Russia.

O novo sistema digital consiste em vários blocos inovadores, aumenta a segurança do piloto em condições climáticas adversas, permite que o piloto entre na trajetória de vôo e continue descendo até a altitude de visibilidade no solo.

Segundo o CEO da empresa, Iliá Tarasenko, o sistema está planejado para ser instalado em aeronaves modernas da marca MiG. Além do MiG-35, esses sistemas seriam recebidos pelos caças MiG-29M / M2.

Os benefícios do novo sistema já foram confirmados em vôos de teste, disse o MiG.

Aviação – Tudo sobre o PAK DA, bombardeiro furtivo de sexta geração

Protótipo não oficial Bombardeiro PAK DA

As Forças Aéreas da Rússia começarão a substituir os bombardeiros Tu-160, Tu-22M3 e Tu-95 com os novos PAK DA já em 2021. Screenshot PowerRossiya/YouTube

A United Aircraft Corporation começou a montagem do novo avião bombardeiro furtivo de sexta geração PAK DA, segundo o jornal estatal russo Rossiyskaya Gazeta.

O trabalho está sendo realizado como parte do programa estatal “Complexo de Aviação do Futuro”.

A empresa já recebeu todos os materiais necessários para a construção do avião e começou a montagem da cabine da aeronave.

O vice-ministro da Defesa russo, Aleksêi Krivorutchko, já havia confirmado que o projeto conceitual da aeronave tinha sido aprovado. Segundo a Rossiyskaya Gazeta, o avião PAK DA será entregue às Forças Aéreas da Rússia em 2021.

O novo avião de combate desenvolvido pela United Aircraft Corporation e pelo escritório de engenharia Túpolev, substituirá os atuais bombardeiros operacionais estratégicos Tu-22-3M, Tu-95 e Tu-160.

A aeronave será construída em forma de “asa voadora”. Este tipo de veículo não possui cauda e a fuselagem será achatada e reduzida verticalmente. Assim, toda ela possuirá função de asa, e, dentro dela, ficarão alojados a tripulação e o armamento.

O PAK DA poderá voar a velocidades subsônicas, de até 1.190 km/h, ou seja, significativamente menor que a velocidade do bombardeiro estratégico atual Tu-160, que atinge até 2.200 km/h.

“Os bombardeiros estratégicos da geração anterior, como o Tu-160, foram criados para romper o sistema de defesa aérea do inimigo. Graças a sua velocidade supersônica e às características de voo, eles podem subir para a estratosfera e, assim, evitar os caças e lançar bombas sobre o território inimigo. A aeronave da nova geração PAK DA poderá disparar mísseis nucleares sem sair do espaço aéreo da Rússia”, explica o professor da Academia das Ciências Militares da Rússia, Vadim Koziúlin.

As Forças Aéreas da Rússia já receberam novos mísseis de longo alcance X-555 e X-101, que podem voar a uma distância de até 5.000 km. Assim, não há mais necessidade de bombardeiros de longa distância.

Segundo Koziúlin, o PAK DA poderá levar até 40 toneladas de armamentos, como a maioria dos modernos bombardeiros estratégicos. “Ele terá todos os tipos de bombas nucleares e convencionais”, disse.

A tecnologia “stealth” também será amplamente utilizada na construção da máquina. O novo bombardeiro terá formas angulares, com linhas irregulares para dissipar os sinais de detecção dos radares inimigos.

O PAK DA poderá voar durante 30 horas sem reabastecer.

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Space X – Após adiamento, foguete deve levar astronautas ao espaço neste sábado

Essa é a primeira missão da SpaceX transportando humanos, desde que a companhia foi criada há quase 20 anos pelo bilionário sul-africano Elon Musk. Desde 2012, a empresa usa uma versão de transporte de carga da cápsula Dragon para reabastecer a Estação Espacial Internacional.

O foguete Falcon 9, da SpaceX, que transportará dois astronautas americanos à Estação Espacial Internacional
Foto: Bill Ingalls/Nasa (22.mai.2020)

O risco de tempestades no Cabo Canaveral, no estado da Flórida, fez o primeiro voo espacial tripulado em quase uma década nos Estados Unidos ser adiado para a tarde deste sábado (30).

O presidente americano Donald Trump até viajou na última quarta-feira (27) para a base de lançamento no sul dos Estados Unidos para assistir de perto ao voo histórico, cancelado no último momento.

Agora, a cápsula Crew Dragon vai transportar dois astronautas americanos —Doug Hurley e Bob Behnken— até o local dentro do foguete Falcon 9. A viagem dura 19 horas e os levará a 408 km da órbita terrestre.

Hurley e Behnken devem ficar na estação por algumas semanas para conduzir pesquisas. Lá, terão a companhia de mais um americano e dois russos. A estação é um laboratório científico no espaço, um projeto de cooperação internacional entre Estados Unidos, Canadá, Rússia, Japão e países da Europa.

Esse lançamento marca um novo momento, em que empresas privadas passam a participar da exploração espacial. A última vez que a Nasa lançou astronautas para o espaço a bordo de um veículo novo foi há 40 anos, no início do programa de ônibus espaciais.

O Falcon 9 é parte do esforço da agência espacial estadunidense para desenvolver tecnologia e ter mais competitividade diante dos avanços da Rússia e da China no setor aeroespacial.

China

A China vem enviando uma série de missões para a Lua nos últimos anos. O país tem investido pesado em um programa espacial para fins científicos, comerciais e militares, e tem ambição de liderar a corrida espacial.

O governo de Pequim está investido na construção da sua própria estação espacial e enviar humanos para a Lua em um futuro próximo. Há seis anos, a China se tornou o terceiro país a conseguir levar para a Lua uma sonda não tripulada, algo antes só alcançado pelos Estados Unidos e pela antiga União Soviética.

Tecnologia,Economia,Trabalho,Emprego,Blog do Mesquita 01

O trabalho remoto não é o fim do vale do silício, mas é o fim de algo

A era de ouro dos escritórios
de tecnologia chega ao fim

Os funcionários trabalham na “Sala de Guerra” do Facebook durante uma demonstração na mídia em 17 de outubro de 2018, em Menlo Park, Califórnia. Foto: Noah Berger / Getty Images

A noção de que o trabalho remoto é o caminho do futuro não é nova. É muito anterior à pandemia e se tornou popular nos Estados Unidos quase tão logo os bloqueios começaram. A resposta ao coronavírus é uma prévia do futuro auto-isolante da sociedade – um futuro que ameaça exacerbar as divisões de classe, entre outros efeitos de longo alcance.
Ainda assim, é notável o quão subitamente algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo adotaram esse futuro.

Na semana passada, conforme coberto neste boletim, o Twitter anunciou que permitiria que seus funcionários trabalhassem em casa permanentemente. Nesta semana, as comportas foram abertas.Você pode tirar os técnicos do Vale do Silício…

Em 2013, a ex-CEO do Yahoo, Marissa Mayer, tomou uma medida controversa para proibir seus funcionários de trabalhar em casa. A ideia de que o trabalho remoto era antitético à colaboração rapidamente ganhou força no mundo corporativo e, em 2017, era uma sabedoria convencional. Eu acho que essa foi uma daquelas “opiniões fortes, fracamente defendidas” pelas quais alguns líderes do Vale do Silício gostam, porque nesta semana o mundo da tecnologia girou na direção oposta. No espaço de alguns dias, Square, Shopify e Facebook seguiram o Twitter, sinalizando uma mudança para adotar o trabalho remoto como padrão.

O anúncio do Facebook na quinta-feira foi demais, por causa da enorme escala e influência da empresa, mas também porque até recentemente era um exemplo da perspectiva de “escritórios importantes”. Como o Google antes, a cultura do Facebook desfocou famosamente as linhas entre vida profissional e vida pessoal, com escritórios que funcionavam como uma extensão da experiência da faculdade para seus funcionários, em sua maioria jovens. A palavra “campus” era apropriada de várias maneiras, e a sede do Menlo Park, projetada por Frank Gehry, no Facebook, incorporava a tendência em direção a complexos cada vez maiores e extravagantes.

O CEO Mark Zuckerberg disse à equipe em uma reunião ao vivo que a empresa permitiria que muitos funcionários trabalhassem em casa permanentemente. Ele previu que metade de sua força de trabalho o faria dentro de cinco a dez anos.Facebook,Zuckerberg,Tecnologia,Redes Sociais,Internet,Privacidade

Compreensivelmente, as notícias desencadeiam uma cascata de tomadas e previsões sobre o que as empresas podem seguir, se os funcionários se mudarão do Vale do Silício, onde se estabelecerão e se receberão o mesmo valor quando chegarem. A última é uma pergunta interessante, que Matt Zeitlin explorou no OneZero, assim como a tecnóloga Blair Reeves em seu blog pessoal e, bem, muitas outras em muitos outros lugares. Zuckerberg já respondeu pelo Facebook, dizendo que os funcionários que saírem da área da baía terão seus salários ajustados com base em sua localização.

Quanto esses salários serão ajustados, é claro. Se mudar para Detroit ou Montana significa, digamos, um corte de 15% nos salários, é muito melhor trabalhar a partir daí do que em Menlo Park (pelo menos em termos financeiros). Mas se os salários fossem totalmente reduzidos ao custo de vida local, o corte salarial seria muito mais profundo e a maioria dos funcionários ficaria melhor nas cidades mais caras, onde poderiam despejar seus salários muito mais altos em imóveis mais valiosos, para não mencionar desfrutando das comodidades que colocam essas cidades em uma demanda tão alta em primeiro lugar.

É tentador, com um anúncio como esse, jogar imediatamente todas as implicações e assumir que elas já aconteceram. Provavelmente, existe alguma linha do tempo possível em que isso acaba sendo o começo do fim do Vale do Silício, à medida que os técnicos fogem em massa para locais distantes, a sede fica vazia, os preços dos imóveis em Bay Area convergem para a média nacional e a tecnologia se torna uma indústria totalmente distribuída. Realisticamente, no entanto, isso não acontecerá tão cedo. Os seres humanos ainda são criaturas sociais, Zoom e Slack são substitutos profundamente defeituosos da presença física, e grande parte da indústria criou raízes no Vale do Silício (ou Seattle, nos casos da Microsoft e da Amazon).

Essas raízes não serão simplesmente arrancadas pela opção de trabalhar remotamente. Também existem empresas, como a Apple, para as quais a presença física não é apenas uma questão de cultura, mas de sigilo e segurança operacional. (Mark Gurman, da Bloomberg, teve uma boa notícia em março sobre como a Apple está se adaptando em particular.) Portanto, não, isso não será um golpe mortal para o Vale do Silício – embora, como apontou minha colega do OneZero, Sarah Emerson, possa ter efeitos profundos no Menlo Park e seus arredores imediatos. Mas isso pode marcar o fim de grandes e importantes escritórios de tecnologia que formaram não apenas o coração pulsante da cultura de uma empresa, mas também um ponto focal da vida social dos funcionários.O Spotify está se tornando o Netflix de podcasts. Na terça-feira, a empresa sueca de streaming anunciou que assinou um contrato exclusivo com Joe Rogan, cujo podcast está entre os mais populares do mundo. É um golpe no YouTube, onde Rogan não publicará mais seus podcasts na íntegra e, de maneira mais geral, um golpe nos podcasts como um ecossistema aberto. O Spotify já havia adquirido as redes de podcast Gimlet Media e The Ringer, e agora está claro que a empresa leva a sério a vantagem de conquistar o máximo de mercado possível.

A corporação e o isolamento dos podcasts é um lamento para outra época. Mas, do ponto de vista estratégico, o conteúdo exclusivo é uma proteção astuta para uma empresa cujo principal produto, a música, está disponível de forma quase idêntica em outras plataformas, incluindo a Apple, que tem poder de mercado para inclinar o campo a seu favor.

O conteúdo original provou ser crítico no setor de streaming de vídeo, onde Netflix, Amazon Prime, Hulu e Disney + competem pelo menos tanto em sua lista de exclusivos quanto em preço ou interface do usuário. Embora o acordo com a Rogan possa parecer um alvo improvável para o escrutínio antitruste, Matt Stoller apresenta um argumento surpreendentemente persuasivo para a intervenção regulatória.Ciência,EUA,China,Tecnologia,Computação Quântica

O bate-papo por voz está crescendo, por enquanto. Enquanto plataformas de bate-papo por vídeo, como Zoom e Houseparty, ganham mais atenção como beneficiárias do bloqueio de coronavírus, a próxima onda de aplicativos sociais se concentra no áudio. O Clubhouse, um aplicativo de bate-papo por voz que ganhou popularidade em uma versão beta privada com o conjunto de capital de risco, foi avaliado em US $ 100 milhões na semana passada em uma rodada de angariação de fundos liderada pela A16Z, informou a Forbes.

E o Discord, cujas conversas por voz há muito tempo são as favoritas dos jogadores, estava em negociações para levantar uma nova rodada com uma avaliação de US $ 3 bilhões. Embora o Discord esteja bem estabelecido para certos casos de uso, se uma empresa pode cumprir as esperanças dos investidores dependerá se o apetite das pessoas por melhores maneiras de conversar entre si on-line persistirá quando voltarem à melhor maneira de conversar entre si. outro, que está offline.

EUA estão usando Taiwan como ponto de pressão na luta tecnológica com a China

Uma loja da Huawei em Pequim. O governo Trump está trabalhando em várias frentes para isolar a gigante da tecnologia chinesa.
Foto Carlos Garcia Rawlins / Reuters

O governo Trump está desafiando o acesso chinês à cadeia de suprimentos de alta tecnologia de Taiwan – e, por extensão, a influência de Pequim sobre a ilha que reivindica como seu território.
Durante anos, o governo Trump brigou com a China por ameaças tarifárias, tecnologia e termos de seu acordo comercial. Mas em um par de ações na semana passada, o governo aumentou essas tensões econômicas de uma maneira que quase chega a tocar uma linha vermelha para Pequim: seu relacionamento contencioso com Taiwan.

Uma das principais fabricantes de chips de computador do mundo, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, ou T.S.M.C., disse na quinta-feira que construiria uma fábrica no Arizona, uma medida anunciada por autoridades americanas como um primeiro passo para mudar uma cadeia de suprimentos vital para os Estados Unidos.

No dia seguinte, o Departamento de Comércio anunciou uma mudança de regra que poderia impedir os negócios que a gigante chinesa de tecnologia Huawei faz com a T.S.M.C. e outros fabricantes globais de chips.

O governo tem trabalhado em várias frentes para isolar a Huawei, uma das principais marcas mundiais de smartphones e a maior produtora mundial de equipamentos que alimentam redes móveis. Mas, simultaneamente, minando a Huawei e trazendo o T.S.M.C. mais perto da órbita americana está um golpe de política industrial que seria impensável há apenas alguns anos, um que levanta a perspectiva de um conflito mais sério entre a China e os Estados Unidos.

Nunca antes o governo Trump desafiou com tanta força o acesso das empresas chinesas à cadeia de suprimentos de alta tecnologia de Taiwan – e, por extensão, a influência de Pequim sobre a democracia autônoma das ilhas, que alega ser parte de seu território.

A China considera inegociável sua reivindicação a Taiwan e atacou empresas e políticos por não reconhecê-la, mesmo que inadvertidamente.

O governo parece ter a intenção de “atingir metas econômicas e politicamente sensíveis a Pequim”, disse Eswar Prasad, professor da Universidade Cornell.

O Ministério do Comércio da China condenou a última ação de Washington contra a Huawei, dizendo que faria o necessário para proteger os interesses das empresas chinesas.
Sede da Huawei em Shenzhen, China. A empresa disse que seus negócios “inevitavelmente” seriam afetados por uma mudança de regra do Departamento de Comércio anunciada na semana.
Foto Noel Celis / Agence France-Presse – Getty Images

Desde que o Departamento de Comércio dos Estados Unidos anunciou a mudança de regra, analistas e executivos do setor destacaram o que eles disseram ser uma solução significativa.

de usar a tecnologia americana para produzir ou projetar chips que são enviados, diretamente ou por meio de um intermediário, para a própria Huawei. Mas não parece impedi-los de produzir chips que seriam enviados aos clientes ou parceiros da Huawei, como fabricantes contratados que montam telefones e outros dispositivos em nome da Huawei.

A regra ainda pode atrapalhar os negócios da Huawei, no entanto, forçando a empresa ou seus fornecedores a reorganizar suas operações. E o Departamento de Comércio poderá revisar sua regra nos próximos meses para diminuir as brechas.

“O futuro de pelo menos uma parte importante dos negócios da Huawei está agora firmemente nas mãos do Departamento de Comércio”, disse Paul Triolo, analista de política de tecnologia do Eurasia Group.

Nesta semana, a Huawei se recusou a responder às perguntas dos repórteres sobre a regra alterada, embora tenha reconhecido que seus negócios seriam “inevitavelmente” afetados.

A empresa parece estar se preparando para a possibilidade de ser excluída dos principais fornecedores. No final de 2019, a Huawei havia armazenado US $ 23,5 bilhões em produtos acabados, componentes e matérias-primas, de acordo com seu relatório anual, um aumento de quase três quartos em relação ao ano anterior.

Embora os efeitos práticos da nova regra permaneçam obscuros, a mensagem política enviada pelos anúncios da semana passada foi inequívoca: o governo Trump está ansioso para frustrar os esforços da China para dominar tecnologias críticas e está se voltando para Taiwan como um novo ponto de alavancagem.

Tensão entre Washington e Pequim aumenta com novas restrições dos EUA à Huawei

Nesta foto de arquivo, tirada em 22 de abril, pessoas passam diante de uma loja da Huawei em Pequim.NICOLAS ASFOURI / AFP

Os dois países, também em confronto sobre o status de Taiwan e a origem do coronavírus, terão uma reunião na segunda-feira em uma complicada Assembleia da Organização Mundial da Saúde.

A escalada da tensão entre os Estados Unidos e a China sobe um novo degrau, embora em uma frente já conhecida: o embate tecnológico entre as duas potências. O Governo Donald Trump anunciou nesta sexta-feira novas restrições à chinesa Huawei, desta vez, limitações à capacidade da empresa de empregar tecnologia e software norte-americanos na fabricação e design de seus semicondutores no exterior.

Na prática, isso significa impedir que a segunda maior fabricante de celulares do mundo receba remessas de fabricantes de mundiais de chips. Mesmo assim, renovou por mais 90 dias, até 13 de agosto, as licenças de empresas que já negociam com a Huawei.

O Departamento de Comércio justificou as restrições aos semicondutores pela necessidade de “proteger a segurança nacional” e pelas tentativas da empresa asiática de “minar os controles de exportação” nos Estados Unidos, apesar da trégua no restante, um jogo explicado por razões econômicas e de equilíbrio político em meio à maior crise econômica desde a Grande Depressão, como consequência do coronavírus.

O anúncio ocorre em um momento turbulento nas relações entre Washington e Pequim em decorrência da brutal pandemia pela qual os Estados Unidos responsabilizam em boa parte a gestão do regime chinês. Na noite de quinta-feira, em uma entrevista à rede de televisão Fox, Trump sugeriu a possibilidade de “romper todas as relações” com o gigante asiático. “Há muitas coisas que poderíamos fazer”, disse, e acrescentou: “Poderíamos romper todas as relações.”

Os Estados Unidos acusam a Huawei de espionar para a ditadura chinesa por meio de seus dispositivos e, por isso, submeteram a empresa a diferentes medidas de veto que afetaram suas finanças. O fabricante alcançou um lucro líquido de 62,7 bilhões de iuanes (cerca de 50 bilhões de reais) em 2019, o que é uma boa fatia e um aumento de 5,6%, mas está longe dos 25% de expansão obtidos em 2018.Tecnologia,Crimes Cibernéticos,Internet,Redes Sociais,Hackers,Privacidade,Malware,Stalkware,WhatsApp,Facebook,Instagram,Twitter

De acordo com o jornal Global Times, de propriedade do Partido Comunista da China, que cita uma fonte anônima próxima ao Governo, as autoridades chinesas estão dispostas a responder com uma série de medidas, como a colocação de empresas norte-americanas em sua própria lista negra de entidades que prejudicam os interesses chineses, uma iniciativa que já havia ameaçado adotar no ano passado, quando o Departamento de Comércio anunciou as primeiras restrições contra a Huawei, sua joia da coroa tecnológica.

As represálias também incluiriam a abertura de investigações e a imposição de restrições contra gigantes da tecnologia como Apple, Cisco e Qualcomm, bem como a suspensão da compra de aviões fabricadas pela aeronáutica Boeing, acrescenta o jornal.

“A China tomará medidas contundentes para proteger seus interesses legítimos” se os Estados Unidos seguirem com os planos anunciados, disse a fonte, segundo o jornal oficial chinês.

O novo atrito ocorre quando os dois países já estão imersos em uma amarga disputa sobre as origens da pandemia da covid-19, que cristalizou toda a tensão e desconfiança que ambos acumulam há anos.

Os Estados Unidos exigem uma investigação sobre o início da crise e Trump acredita que o vírus saiu de um laboratório na cidade chinesa de Wuhan, enquanto a China rejeita essa acusação e afirma que não há nada claro. A disputa ameaça se estender para a Assembleia mundial de ministros da Saúde da OMS na próxima segunda e terça-feira, com Taiwan e pesquisas sobre as origens da epidemia como catalisadores.

Censura,Liberdade,Blog do Mesquita 07

A mordaça na era ditital; Há governos que querem desconectar seus cidadãos da Internet, e alguns já têm seu botão vermelho

A web está deixando de ser global. China, Rússia e Irã, entre outros, usam sua infraestrutura digital para vigiar e censurar seus cidadãos. Bem-vindo à ‘balcanização’ da Internet

Ilustração de Diego Quijano – Foto: Getty Images

Na Davos de 1996, o visionário John Perry Barlow já dizia aos “Governos do mundo industrial, cansados gigantes ​​de carne e aço”, que deixassem a Internet em paz. Sua famosa Declaração de Independência do Ciberespaço estabelecia: “O espaço social global que estamos construindo é por natureza independente das tiranias que vocês procuram nos impor. (…) Seus conceitos legais sobre propriedade, expressão, identidade, movimento e contexto não se aplicam a nós. Eles são baseados na matéria”.

A Rede queria ser livre, e os protocolos TCP/IP, a cola universal que unia todas as suas peças, haviam sido projetados para que as informações encontrassem sempre o caminho mais curto, mais seguro e mais barato para alcançar seu destino, alheios às fronteiras políticas e geográficas do mundo “real”. Desde então, sua ânsia de liberdade se deparou com diferentes graus de resistência dos Governos, que costuma administrar a expressão de dissidência com apagões seletivos, leis da mordaça e campanhas de propaganda ou desinformação. Uma nova estratégia se configura este ano: a independência. No final das contas, a Internet era sim matéria e começa a se desintegrar.

Apenas dois dias depois de a Internet completar 50 anos, em 29 de outubro, a Rússia declarou sua independência com uma lei de soberania digital. A legislação autoriza seu regulador de telecomunicações local a bloquear conteúdos, serviços ou aplicativos que considere uma ameaça à segurança do Estado, sem ordem prévia, processo ou notificação. Os critérios sobre o que constitui uma ameaça são tão opacos quanto seu plano de execução. E o conteúdo parece ser a Internet como um todo. A lei contempla a necessidade de um botão vermelho para bloquear a Web quando incomodar e um sistema próprio de gestão de domínios para “proteger os cidadãos russos de serem contaminados por conteúdos tóxicos” e a sua infraestrutura de ataques cibernéticos no exterior.

A mordaça na era digital

O sistema de gerenciamento de domínio, ou DNS, é o que diz o que cada coisa significa na Internet, o diretório administrativo que conecta o nome de um site (exemplo: brasil.elpais.com) ao endereço IP do servidor em que se hospeda fisicamente o conteúdo ao qual está associado. É um dos pilares fundamentais da rede globalizada e foi criado em 1983 como um sistema hierarquizado, descentralizado e global. Com um sistema próprio administrado por seu Governo, os cidadãos russos não poderão mais usar redes privadas virtuais (VPNs, na sigla em inglês) para acessar conteúdos controlados ou se comunicar com o exterior.

BRICS, o supergrupo

A Rússia não está sozinha no caminho da autodeterminação digital. “Devemos respeitar o direito de cada país de governar seu próprio ciberespaço”, declarou o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, durante a Segunda Conferência Mundial da Internet, em Wuzhen, em 2015: “Nenhum país deveria buscar a ciberhegemonia ou interferir em assuntos internos de outros Estados”.

A China não possui seu próprio DNS, mas a famosa muralha digital chinesa propiciou um sistema de crédito social baseado na vigilância e punição de seus cidadãos e, também, a expansão de suas três gigantes tecnológicas: Baidu, Alibaba e Tencent. E a do WeChat, um aplicativo que faz tudo (reúne as funções do Facebook, Instagram, Uber, Tinder, YouTube e Skype, entre outros) e serve para pagamentos com o celular e até dar esmolas para os sem-teto. É inegável que o modelo soberanista serve de incentivo para a economia local. A crise do coronavírus, por outro lado, é uma lição sobre suas consequências.

Li Wenliang, o oftalmologista do Hospital Central de Wuhan que primeiro denunciou a irrupção da epidemia, foi silenciado pelas autoridades e detido em 1º de janeiro por “disseminar rumores maliciosos” na Web. Sua morte no mesmo hospital, no dia 6 de fevereiro, mostrou que a densa rede de vigilância chinesa não servia para conter a propagação do vírus, pelo contrário. Naquela manhã, uma hashtag começou a se destacar no Weibo, a versão local do Twitter: “Exigimos liberdade de expressão”. À tarde tinha sido eliminada pelo regime. O coronavírus segue sua expansão letal, mas não haverá outra Tiananmen.

“A China está construindo sua própria Internet focada em seus próprios valores e está exportando essa visão da Internet para outros países”, lamentou Mark Zuckerberg em seu recente discurso de Georgetown. “Há uma década, quase todas as plataformas da Internet eram americanas. Agora, seis das dez primeiras são chinesas”. Em 2018, o cofundador do Google, Eric Schmidt, havia alertado em um evento em San Francisco: “A grande muralha da China nos levará a duas Internets diferentes: uma asiática, dominada pela China, e outra ocidental, dominada pelos EUA”.

Nos últimos meses, o Conselho de Segurança da Federação Russa também anunciou a criação de uma “infraestrutura de rede independente”, junto com a China, o Brasil, a Índia e a África do Sul, o supergrupo de grandes economias emergentes conhecido como BRICS. Se for levada adiante, essa outra Internet ocuparia 25% da superfície planetária e serviria a mais de 40% da população mundial.

“Na verdade, esse espaço utópico e cosmopolita nunca existiu”, explica por email Evgeny Morozov, ensaísta bielorrusso e autor de The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom. “As teorias que formaram nossa percepção da Internet –a aldeia global, o ciberespaço sem lei, o internauta como um cidadão desvinculado do Estado nacional– estão muito longe da realidade”, acrescenta. “Era um pouco como acreditar que o mercado universal, uma vez alcançados todos os cantos do mundo, teria um efeito homogêneo em todos os lugares.”

De fato, vários dos países que abriram a década com a explosão de otimismo da primavera árabe a encerram com apagões, repressão e censura. A Internet não é apenas matéria, mas pode acabar sendo como as reservas de petróleo; em princípio, deveria melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, mas, quando brota nas democracias mais frágeis, transforma-se em maldição.

O bloco halal

“Observando os dados, não vemos uma incidência maior no número de bloqueios, mas em sua magnitude e gravidade”, explica Alp Toker, diretor da Netblocks, uma organização que observa os bloqueios, restrições e ataques cibernéticos em tempo real. A Índia tem o recorde de apagões, com 134 cortes em 2018, e a Caxemira está sem Internet desde agosto de 2019, exceto por uma centena de páginas que o Governo indiano desbloqueou há três semanas. O Paquistão vem logo atrás, seguido pela Síria e a Turquia. Mas a incidência mais notável ocorreu em 15 de novembro, quando o Irã bloqueou o acesso à Internet a 97% de sua população.

O Irã fez isso no momento em que começaram as manifestações em massa por causa do aumento do preço do combustível. Exceto por algumas contas do Governo, foi um blecaute total (Internet, telefone, dados, SMS). Um evento sem precedente. Embora tenham ocorrido milhares de apagões, nunca um país inteiro havia saído da Rede. Enquanto a mídia tenta verificar durante o apagão o número de mortes que ocorreram nos protestos, os engenheiros tentam elucidar como conseguiram retirar da Internet 80 milhões de pessoas de uma vez.

O fato é que o Governo trabalha há anos em uma Internet halal, alinhada ao islã: a National Information Network. “O país não tolera uma rede social que tem sua chave nas mãos dos Estados Unidos”, disse o aiatolá Ahmad Khatami há dois anos.

Obviamente, existe um nicho de mercado para uma Internet muçulmana. Para além dos valores religiosos, segundo Katherine Maher, diretora-executiva da Wikimedia Foundation, há mais de 350 milhões de pessoas que falam árabe no planeta, mas seu idioma ocupa menos de 1% da web. Em 2016, a start-up malasiana Salam Web Technologies lançou um navegador restritivo alinhado aos valores islâmicos, chamado SalamWeb, que atende usuários da Malásia e da Indonésia, mas quer expandir-se por todo o mundo islâmico. Inclui seu próprio agregador de notícias, rede social e sistema de mensagens, o SalamChat.

“Isso não é necessariamente ruim. Ter a própria infraestrutura pode promover um ecossistema econômico próprio e introduzir alternativas locais às plataformas multinacionais”, diz Toker. E acrescenta: “Mas quando isso é feito às custas da conectividade mundial, é um problema de direitos humanos e liberdade de expressão. E não há ninguém vigiando. Estamos tão focados em nossos debates internos que o ecossistema digital está se decompondo e com ele a possibilidade de debate mundial”.

Uma nova guerra fria

Há aspectos do divórcio que transcendem o colonialismo cultural, a perda de diversidade e a polarização do debate. De acordo com o relatório do Oxford Internet Institute sobre propaganda e desinformação, o Irã é um dos sete países que implementam operações de influência estrangeira, junto com China, Rússia, Índia, Paquistão, Arábia Saudita e Venezuela. Sua relação com a guerrilha digital é intensa e pós-traumática: foi o alvo do primeiro ataque cibernético projetado para destruir a infraestrutura industrial.

O Stuxnet foi um vírus insidioso que destruiu mil centrífugas em seu centro de enriquecimento de urânio em 2010 e abriu um mundo de possibilidades aterrorizantes para a guerra cibernética. De acordo com o arquivo de documentos de Snowden, naquele momento o Irã era o país mais vigiado do mundo, tanto pelos EUA quanto por Israel.

O Irã aprendeu a lição: a Rede Global permite causar muitos danos com poucos recursos. Agora, o país “tem a capacidade e a tendência de lançar ataques destrutivos”, declarou recentemente Christopher C. Krebs, diretor de segurança cibernética e infraestrutura do Departamento de Segurança Interna dos EUA. “É preciso ter a consciência de que qualquer ataque poderá ser o definitivo”, acrescentou. Sua divisão lhe atribuiu muitos ataques, incluindo o dos seis principais bancos dos Estados Unidos.

O malware iraniano destruiu 35.000 computadores da companhia estatal de petróleo Saudi Aramco em 2012. Foram necessários dezenas de milhões de dólares para reconstruir o sistema. Desde então, especializou-se em atacar infraestrutura industrial – um terapeuta chamaria isso de compulsão de repetição– entre os vizinhos mais próximos, como sua arqui-inimiga Arábia Saudita.

“A segurança é um espaço multidimensional no qual diferentes objetivos e diferentes atores competem”, explicou David D. Clark, arquiteto-chefe da Internet nos anos 80 e autor do recente e imprescindível Designing an Internet, em uma conferência na sede do Google há pouco mais de um ano. “Para construir uma Internet segura, você deve firmar um compromisso pelo qual todos e cada um dos atores desejem que a sua solução sobreviva”, acrescentou. Mas o que acontece quando esse compromisso desaparece e duas visões antagônicas ocupam o seu lugar?

Proteger-se do outro

“O Irã é um dos atores mais sofisticados”, diz por telefone Bruce Schneier, autor, consultor e um dos maiores especialistas em segurança cibernética. “Ataca empresas, ataca bancos, ataca usinas elétricas, ataca indivíduos. Mas não acho que a balcanização seja principalmente um problema de segurança, acho que o principal problema é de controle e propaganda. A Rede global acabou. Isso já é ruim o bastante.” E complicado. Como se gerencia o divórcio quando a infraestrutura de uma das partes ocupa grande parte da outra? Como nos protegemos de uma China que se torna independente da mesma Rede que depende do 5G da Huawei? “Bem, teremos que ver como isso se desdobra”, ironiza Schneier. “Como não há um ditador da Internet capaz de impedir esse tipo de coisa, tudo pode acontecer.”

Entre os especialistas, há nuances. “No momento, o que estão criando são Internet separáveis, e não separadas”, explica Ángel Gómez de Ágreda, coronel da Força Aérea espanhola, ex-chefe de cooperação do Comando Conjunto de Defesa Cibernética e autor do recente Mundo Orwell: Manual de Supervivencia para un Mundo Hiperconectado. “Isso nos prejudicará no crescimento porque vai fraturar os mercados e, do ponto de vista da segurança, é o equivalente ao escudo antimísseis: ‘Eu posso atirar em você, mas você não pode atirar em mim.’ Estamos criando um mundo medieval, de castelos, onde as vulnerabilidades de uns e de outros serão diferentes.” Entre os dois modelos antagônicos da Rede –global e soberano–, um espectro de países parece não ter voz nem voto nessa separação. “Nós estaremos com o padrão americano e isso não significa que seja perfeito.” Permaneceremos no bloco de uma Rede dominada por plataformas comerciais, um modelo de negócio baseado na exploração maciça de dados que produziu sua própria família de patologias.

“É fácil atacar a ideia da balcanização da Rede argumentando que os maus querem controlar a Internet. Mas, o que aconteceria se fossem os países democráticos, como aconteceu com o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR) ou com o direito de ser esquecido?”, argumenta Morozov. “Não estou preocupado com a balcanização da Rede, pois, de qualquer forma, trata-se da desvinculação da esfera econômica e digital controlada pelos Estados Unidos. Os meios de comunicação, por exemplo, possuem regulações diferentes, mesmo dentro da União Europeia –o que é aceitável na Noruega, pode não ser na Itália, e vice-versa. Por isso não acho que devamos nos preocupar com discordâncias na esfera digital só porque nossa concepção original da Internet é um mito de universalismo impossível.”

“A Espanha sozinha não tem margem de manobra”, diz o coronel Gomez de Ágreda, “o que temos, sim, que fazer na Europa é nos perguntar se queremos pertencer a um dos sistemas que estão sendo montados ou ter o nosso sistema separável”. De certa forma, a Europa já faz isso. O RGPD de 2018 separa legalmente os usuários europeus daqueles do restante do mundo. “Podemos criar uma Internet com nossas próprias regras”, conclui Gómez de Ágreda. “Um núcleo de países com os quais compartilhamos uma série de valores.” E esclarece que não se refere estritamente à União Europeia. Isso também começou a se romper.

O que se sabe sobre a nova missão do X-37B, o misterioso avião orbital da Força Aérea dos EUA

O programa do X-37B é altamente sigiloso
Será a sexta missão, e a mais importante delas, segundo a Força Aérea dos Estados Unidos.

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O X-37B, também chamado de veículo de prova orbital (ou seja, capaz de fazer um voo na órbita da Terra), decolou da estação no Cabo Canaveral (Flórida). Para autoridades americanas, esse novo lançamento permite ao país assegurar uma “superioridade no espaço”.

“A equipe X-37B continua exemplar do tipo de desenvolvimento tecnológico ágil e avançado que precisamos como nação no domínio espacial”, afirmou John Raymond, chefe de operações espaciais da Força Espacial dos Estados Unidos (USSF, na sigla em inglês), na quarta-feira.

Desta vez, a operação estará a cargo da USSF, ainda que a Força Aérea americana (dona do avião orbital) e sócios do governo tenham participado de forma ativa da etapa de testes.

Aeronave espacial tem 9 metros de comprimento
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Desde a primeira missão, em 2010, tanto o governo quanto os órgãos militares são bastante evasivos a respeito dos testes que são realizados pela aeronave. O programa é sigiloso.

No lançamento desta semana, sabe-se que o veículo levará pela primeira vez um módulo integrado para serem realizados diversos experimentos no espaço.

A aeronave, que tem menos de 9 metros de comprimento, utiliza energia solar e não é tripulada.

Ela detém o recorde do maior número de dias consecutivos de voo ao redor da Terra, alcançado na missão anterior, em outubro de 2019. Foram 780 dias em órbita.

Avião orbital já realizou cinco missões no espaço.
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‘Um grande passo’

Randy Walden, diretor de programas no departamento de rápidas capacidades da Força Aérea americana, afirma que esta sexta missão será um “grande passo” para o programa orbital.

Segundo o órgão, que não entra em detalhes, um dos objetivos da missão é “testar novos sistemas no espaço e desenvolvê-los na Terra”.

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A aeronave vai decolar da estação espacial de Cabo Canaveral, na Flórida
O que foi divulgado é que o módulo especial será anexado à popa do veículo e aumentará a capacidade de transportar carga útil e programas experimentais a serem transportados em órbita.

Um satélite

Além da implementação do módulo especial, a sexta missão do X-37B será implantar o FalconSat-8.

Trata-se de um pequeno satélite desenvolvido pela Academia da Força Aérea americana para testes em órbita.

O FalconSat-8 é uma plataforma educacional que levará cinco experimentos a serem operados pela entidade militar.

Além disso, foram incluídos experimentos da Nasa (agência espacial americana) para estudar os efeitos espaciais, como a radiação em diferentes materiais e sementes usadas para cultivar alimentos.

A aeronave vai decolar da estação espacial de Cabo Canaveral, na Flórida, em 16 de maio. – Direito de imagem GETTY IMAGES

Por fim, o Laboratório de Investigação Naval dos Estados Unidos testará a transformação de energia solar em energia de micro-ondas de radiofrequência que poderia ser transmitida para a Terra.

O misterioso X-37B

Segundo a Força Aérea americana, o X-37B continua a “quebrar barreiras” no desenvolvimento de tecnologia de veículos espaciais reutilizáveis e é considerado um investimento importante para o futuro da estratégia espacial dos EUA.

O programa de aeronaves orbitais começou em 1999 e, após 11 anos, se deu a primeira das cinco missões realizadas até agora.

EUA esperam assegurar superiodade espacial com esta missão
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Por se tratar de uma operação sigilosa, não há divulgação detalhada de o que o veículo faz quando está em órbita ou do que foi realizado em voos anteriores.

No ano passado, integrantes da Força Aérea americana explicaram em um comunicado que os objetivos principais do X-37B são: tecnologias de naves espaciais reutilizáveis para o futuro dos EUA no espaço e a realização de experimentos que possam ser replicáveis e analisados na Terra.

Em 2017, o governo indicou que o veículo foi utilizado para testar sistemas de navegação, controle e direção avançada no espaço.

Além disso, foram testadas tecnologias de proteção térmica, sistemas de propulsão avançados e de voo eletromecânico e voo orbital autônomo.

Surgiram também diversas suspeitas de que a aeronave seria um dispositivo de espionagem desenvolvido para levar a bordo sensores experimentais, como câmeras de alta tecnologia e radares de mapeamento terrestre. Mas ainda não há provas que confirmem essas alegações.

Tem chamado a atenção que ele passa cada vez mais dias em órbita a cada missão.