Quais são os perigos reais da inteligência artificial?

Com a inteligência artificial (IA) progredindo constantemente, aumentam as preocupações sobre o quanto a inovação é demais.

O especialista em segurança cibernética Morgan Wright oferece sua previsão para o setor.
A busca pela IA é agora “uma das maiores batalhas” entre países ao redor do mundo, diz ele ao Boom Bust, acrescentando que estamos lidando com duas formas de IA: IA estreita ou fraca e inteligência artificial geral.

A primeira forma é “muito baseada no aprendizado de máquina, o que dizemos, o que instruímos. Eventualmente, para onde isso vai é a inteligência geral artificial. ”

Wright explica que “Os governos estão tentando chegar a um tipo de inteligência artificial geral muito poderosa, onisciente e onisciente, que é usada para fins militares, espionagem, economia, bancos, finanças e coisas assim.”

Ele diz: “Se você programar preconceitos nele, ele agirá de acordo com sua programação, mas à medida que fica mais inteligente, conforme fica melhor, você nos verá passar dessa IA estreita para o que é chamado de inteligência geral artificial, e é aí que o perigo real reside em termos do que a IA pode fazer em termos de controle da população. ”

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Precisamos falar sobre imagens

Rijksmuseum, Amsterdam, 2014

O título deste texto não é um chamado, um apelo, credo íntimo ou estético, apenas a constatação banal de que imagens, muitas delas, nos impelem a falar. E, como se não bastasse a eloquência visual de que muitas são portadoras, falamos também por elas, em seu lugar, como se compelidos à tradução que transforma o visível em legível. Falamos tanto e talvez, entre outras razões, porque, apesar da enxurrada cotidiana a que somos submetidos e para a qual também contribuímos, a definição de imagem seja ainda escorregadia e sua percepção, problemática. Ora deduzimos das fotografias aquilo que estaria atrás do que mostram, como um subtexto a ser extraído e explicitado, ora as utilizamos para fazer calar os discursos pela força de uma evidência visual que julgamos indiscutível.

A história recente do olhar é também a história do olho ameaçado pelo excesso de visível e pela falta de imagens. A fotografia eloquente, através da qual algo fala, e a fotografia como elemento comprobatório, muda e inibidora do verbo, são apenas dois dos possíveis modos de nos confrontarmos com o visível que nos rodeia. E, ainda assim, talvez não se trate ainda de imagens num sentido mais pleno ou radical, se aceitarmos que a existência de uma imagem depende não tanto de sua capacidade de afirmar o visível, mas de fazer com que o olhar hesite diante daquilo que vê. Daí a situação paradoxal na qual, mesmo em excesso, a imagem, como algo que se destaca do visível, continua a fazer falta.

Tomo como exemplo o Facebook, esse espaço de murmúrios e lamentos, sem entradas ou saídas, jardim de nossos narcisos em flor, pulsões escópicas cotidianas e compulsivos compartilhamentos de links em geral mais eficazes para a sobrevida da informação do que para seu metabolismo. Lugar também do desacordo, do desagravo, da gritaria, da citação e dos gatos. O que poderia ser – e às vezes é – um dispositivo de enlace crítico ou poético entre texto e imagem acaba reduzido ao cacoete da redundância ilustrativa ou da legendagem infinita, preferencialmente sob a forma lapidar do comentário breve. O layout dos murais verticais incentiva, ou pelo menos não impede, o tensionamento de imagens e textos.

Nesse ambiente, porém, toda imagem já funciona de antemão como comentário – e aí não importa muito se o tema é a última novidade futebolística, a catástrofe urbana do dia, o menu do almoço de domingo ou a menina tomando banho de esgoto na sua cidade. As condições de visibilidade de uma imagem na rede são precárias, entre tantos motivos, porque o ambiente midiático de compartilhamento tem como modelo a informação jornalística, a mensagem. Por mais distintas que sejam as fotos disseminadas, tudo fica nivelado pela ilusão de transparência e pelo imediatismo da codificação social. Assim, o mundo das imagens é frequentemente tomado por imagem do mundo, através de fotos que afirmam o que mostram e mostram o que afirmam.

Kunsthistorisches Museum, Viena, 1987

As duas fotos acima constituem cenas de leitura de imagens em ambientes museológicos. Uma delas faz parte de meu arquivo pessoal, a outra viralizou recentemente nas redes sociais por apresentar um grupo de jovens de costas para A ronda noturna, de Rembrandt, e não só isso, mas também o magnetismo das pequenas telas de seus celulares, enquanto a grande tela fica evidenciada ali atrás por abandono. Nesse caso, parece que, ao compartilhar a imagem, compartilhava-se também a ideia de que certo mundo perceptivo teria chegado ao fim. Jovens alienados, não se fazem mais espectadores como antigamente etc. O olhar tátil, da concentração imersiva, da capacidade de experimentar uma pintura grandiosa em sua potência plástica e estética se perdeu. É o fim do mundo, ou pelo menos, o fim de certo mundo em que ainda éramos capazes de detectar a verdadeira imagem no brejo da mediocridade circundante.

Essa melancolia não é completamente infundada. Entretanto, se abrirmos mão do seu catastrofismo, recuando um pouco na leitura, talvez a foto nos diga bem menos sobre o fim dos tempos do que sobre a condição perceptiva em tempos de hipermediação do visível. Diante dela, como diante de uma cena flagrada em determinado instante, talvez o que se mostre seja não mais do que um grupo de jovens muito louros, provavelmente estudantes do ensino médio ou secundário, sentados perto uns dos outros e com os olhos voltados para seus celulares. Ao fundo, uma grande tela escura com homens “de antigamente” procurando alguém ou alguma coisa num ambiente de sombras atingido por um feixe de luz.

Não entrarei aqui na história do quadro, cujo título é uma espécie de falsa legenda, já que não se trata ali de uma ronda propriamente dita nem de uma cena noturna. A fotografia me atrai por dois motivos: em primeiro lugar porque a pintura sempre retorna para assombrar a imagem digital, e é exatamente assim, como coisa assombrosa, ao mesmo tempo distante e presente, que o quadro comparece na foto; por outro lado, a cena é emblemática de um problema bastante contemporâneo: como chegar a fazer com que uma imagem seja reconhecida em sua potência, seja realmente vista em meio à algazarra do visível? O desafio da formação de público se encontra aí com o problema ainda mais escorregadio da formação do olhar.

Diante da perda de prestígio cultural do campo artístico, muitos museus redefiniram sua missão cultural tentando e testando o ajuste entre essas duas questões – vale lembrar que o Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) criou a sua Escola do Olhar –, aliando a necessidade de formação de público a certa pedagogia do olhar. Sem diminuir a importância desses programas, em alguns dos quais já participei como artista, e reconhecendo o importante desafio que assumem, há também na proliferação veloz dessas iniciativas o risco de transformação dos museus em entidade pedagógica e da arte em aula infinita.

Independentemente da classe social ou do público que se pretende atrair para dentro dos museus, nem sempre os procedimentos propiciam de fato uma experiência do olhar. Ocorre muito quando, desajeitada ou apressadamente, tenta-se facilitar a compreensão das obras lançando mão de recursos lúdicos não tão cuidadosamente formulados como deveriam. Nos piores casos, a arte se transforma em pretexto luxuoso para atividades colaterais que infantilizam o espectador. O espectador emancipado fica aprisionado nos projetos de emancipação do seu próprio olhar.

Voltando aos jovens visitantes do Rijksmuseum, o fato de estarem de costas e desatentos ao quadro não significa que estejam rejeitando a pintura de Rembrandt. Irritados com os comentários agressivos, funcionários do Rijksmuseum esclareceram no Facebook que aquelas pessoas estavam na verdade consultando em seus celulares o novo aplicativo do museu, portanto continuavam interessadas no quadro, provavelmente em sua história, podendo também ampliar partes e detalhes, conforme as possibilidades do aplicativo.

Podemos questionar a pertinência, a necessidade ou a importância desse tipo de aplicativo para a formação do olhar, mas, apesar da indignação generalizada, é bem pouco provável que o novo app do Rijksmuseum seja mais nocivo do que um audioguia mal preparado ou um texto de parede excessivamente pedagógico. Lembro de um professor que acompanhava minha turma do Liceo Gaudenzio Ferrari à Galleria degli Uffizzi, em Florença, e falava tanto que desviava nossos olhos. É claro, a voz de um professor também é capaz de aproximar o olho da potência do que é visto, assim como os novos aplicativos também têm permitido aos pesquisadores e professores de História da Arte uma visualização dos meandros da pintura ampliando detalhes como nunca antes havia sido possível. Oferecem a possibilidade de um contato visual exploratório, quase arqueológico.

Interessa também não descolar totalmente o debate em torno das tecnologias de visão do contexto universitário do ensino de arte, já que no Brasil dependemos fortemente da reprodução de imagens. Assim, o problema se desviaria da recusa enojada ou do deslumbramento fútil com os novos aparatos de visualização, levando em conta que visualizar não é o mesmo que perceber. Tanto o olhar supersônico quanto o excesso de informação biográfica não garantem por si sós uma percepção mais apurada nem um encontro decisivo com um fato ou objeto artístico. Se o problema da formação do olhar dependesse exclusivamente do incremento ótico, não precisaríamos das histórias da arte, da arqueologia, dos antropólogos da imagem ou da própria crítica.

Por outro lado, é ingênuo acreditar que somos capazes de uma experiência puramente visual do visível. Não existe uma tal ilha da pureza sensorial fora da condição mediada da imagem na qual, por bem ou por mal, estamos instalados. Não há como escapar inteiramente dos “aplicativos” que orientam a compreensão de uma imagem, sejam eles os tradicionais guias turísticos, os discursos históricos, as ferramentas conceituais da teoria da arte, a pedagogia museológica ou nossa própria inércia perceptiva.

O acesso à porção invisível do visível não passa necessariamente pelo aumento da capacidade ótica ou pela erudição desenfreada, mas por certa cautela diante da imagem. Como sugere John Berger, talvez seja uma boa hora para perguntas ingênuas cujas respostas podem ser tudo menos simples. O que impele a pintar, desde o Paleolítico até os nossos dias? O que toda pintura têm em comum? Talvez um olhar digressivo, uma aproximação ao mundo imaginal – nas brechas entre o material e o espiritual – dos ícones bizantinos, um olhar demorado sobre o retrato espantosamente próximo de uma jovem do primeiro século em El Fayoum, ou o espanto produzido pelas pinturas pré-históricas cada vez mais recuadas no tempo, ajudem a desarmar algumas armadilhas do visível que nos rodeia.

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Megavazamento de 223 milhões de CPFs será investigado em inquérito da recém-criada agência de proteção de dados

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) informou que abriu um inquérito para investigar a veracidade, origem e forma que aconteceu o megavazamento que expôs dados pessoais e financeiros de 223 milhões de brasileiros ―muitos deles já mortos. O caso é a primeira prova de fogo da ANPD, recém-criada a partir da entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em agosto do ano passado. O megavazamento tornado público na semana passada pela empresa de segurança digital PSafe pode ser o maior na história do país e um dos maiores do mundo.

“A ANPD está apurando tecnicamente informações sobre o caso e atuará de maneira cooperativa com os órgãos de investigação competentes para apurar a origem; a forma em que se deu o possível vazamento; as medidas de contenção e de mitigação adotadas em um plano de contingência; as possíveis consequências e os danos causados pela violação”

“Concluída esta etapa, a ANPD sugerirá as medidas cabíveis, previstas na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), para promover, com os demais órgãos competentes, a responsabilização e a punição dos envolvidos”, conclui.

Segundo Rafael Zanatta, advogado e diretor da Associação Data Privacy Brasil, que estuda a privacidade dos dados no país, a LGPD lida com casos como esse de uma perspectiva administrativa e não criminal. “Não há tipos penais ou crime envolvido, mas há uma violação de direitos”, afirma. “Para o responsável pelas informações que foram vazadas, abre-se a possibilidade de sanções como advertência, multas e, em casos, graves, de suspensão das atividades de tratamento de dados”, diz. De acordo com o advogado, o Código de Defesa do Consumidor prevê crimes contra a ordem econômica, mas foi criado nos anos 1990 e não foi desenhado para lidar com incidentes de segurança como esse. Ele afirma que em tese é possível uma colaboração da ANPD com outros órgãos como Polícia Federal e Ministério Público que queiram identificar o autor do vazamento de dados, mas que não lhe parece um bom caminho em termos de funções institucionais. Para ele, a ANPD tem uma missão e outros órgãos que queiram entrar no caso, outra.

Nesta quinta-feira, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) cobrou a abertura de investigação do megavazamento por parte da ANPD. Para a OAB, o vazamento “submete praticamente toda a população brasileira a um cenário de grave risco pessoal e irreparável violação à privacidade e precisa ser investigado a fundo pelas autoridades competentes”, em particular a ANPD. A OAB também ressalta que “ao tempo em que a lei estabelece aos agentes de tratamento o dever de zelar pela proteção dos dados pessoais, também lhes impõe a responsabilização decorrente do tratamento irregular e do dano causado ao cidadão titular dos dados”.

A lista com milhões de nomes completos, CPFs e datas de nascimento —de pessoas vivas e mortas— estava disponível para download gratuito a partir de um fórum de discussão na deep web – cópias do arquivo original foram feitas e podiam ser encontradas por qualquer um a partir de buscadores de internet. Em troca de bitcoins, o perfil anônimo responsável pelo vazamento dizia ser possível obter ainda retratos, endereço, telefone, declaração do Imposto de Renda, listas de familiares, renda mensal, score de crédito e muito mais dos alvos em questão. Na terça-feira, após a repercussão do caso, o material foi retirado do ar no fórum de livre acesso com qualquer navegador, mas continua em negociação na deep web.

Na lista há dados de gente famosa e autoridades públicas. De acordo com a PSafe, cibercriminosos também tiveram acesso a informações detalhadas sobre mais de 104 milhões de veículos e dados sigilosos de 40 milhões de empresas. O hacker que colocou os dados na internet diz que roubou a base da Serasa/Experian, mas a empresa nega.

“A degradação humana causada pela tecnologia excedeu alguns limites importantes”

A tecnologia está nos tornando seres humanos piores?

GettyImages

De tanto discutir sobre quando a tecnologia iria exceder nossas capacidades, perdemos de vista o fato de que as máquinas estavam se concentrando em conhecer nossos pontos fracos.

É a base que sustenta um conceito que ressoa no Vale do Silício e é conhecido como desclassificação humana, “degradação humana” em espanhol.

Foi cunhado pelo cientista da computação Tristan Harris e seu parceiro Randima (Randy) Fernando, co-fundadores do Center for Humane Technology (CHT), uma organização sem fins lucrativos cuja missão é “reverter a degradação humana” e ” realinhar a tecnologia com a nossa humanidade. ”

No recente documentário da Netflix O Dilema Social (“O dilema das redes sociais”) Harris e Fernando expõem essa questão, intimamente ligada à chamada “economia da atenção”, ou como as empresas monetizam nossa atenção por meio das redes sociais e outras tecnologias digitais.

Fernando, diretor executivo do CHT, acredita que a tecnologia deve ser “mais humana”. Nesta entrevista à BBC Mundo ele explica o porquê. GettyImages

Como surgiu o seu interesse pela economia da atenção e por que isso é importante para você?

Meus pais me ensinaram mindfulness (meditação baseada em mindfulness) e tecnologia desde muito jovem, então segui esse caminho. Fiquei muito interessado em computação gráfica e trabalhei na Nvidia (multinacional do Vale do Silício) por sete anos. Então, ajudei a fundar uma organização chamada Mindful Schools para ensinar mindfulness nas escolas.

“O dilema das redes sociais”: 5 segredos dos donos das redes para nos manipular, segundo documentário da Netflix
Eu fiz isso por um tempo até encontrar Tristan [Harris].

Ambos estávamos muito interessados ​​em midfulness. Começamos a perceber que éramos contra a forma como a economia da atenção compete constantemente para treinar nossas mentes de maneira diferente.

A economia da atenção é adversária da atenção plena.

É muito fácil para as empresas criar perfis sobre nós com base nas informações que compartilhamos nas redes sociais, e elas compartilham essas informações com os anunciantes. Este modelo de negócio torna a nossa atenção vital e também não se baseia nos nossos interesses, mas nos dos anunciantes.

Marta Peirano e a economia da atenção: “Estamos menos felizes e menos produtivos do que nunca porque somos viciados”
Decidimos que era melhor criar uma organização para gerenciar o crescente interesse pelo tópico (especialmente porque Harris falou sobre isso em um programa de televisão nacional em 2017) e tentar resolver o problema.

Três anos depois, ainda estamos nisso.

Para resolver o problema, você propõe “reverter a degradação humana”. Que significa isso?

Muito do trabalho que fazemos tem a ver com a mente, com vícios e como combatê-los; com meditação e bem-estar emocional. Também com democracia e polarização, com a distorção da verdade. Todas essas questões estão inter-relacionadas e ligadas à “degradação humana”.

Nós o descrevemos como algo cíclico: à medida que melhoramos e atualizamos nossas máquinas, degradamos seres humanos. E deveria ter sido o contrário. Isso é algo que se repete constantemente.

Por muito tempo, ficamos muito empolgados com todas as melhorias tecnológicas, mas investimos tanto esforço e energia no avanço da tecnologia – que nos beneficiou tanto por décadas – que não prestamos atenção suficiente às mudanças que estavam ocorrendo em nosso cérebro.

“Os ‘nativos digitais’ são os primeiros filhos com um QI inferior ao dos pais”
A certa altura, ficamos vulneráveis ​​a ela porque a tecnologia pode ser usada para tirar proveito de nossas fraquezas.

O que mudou nos últimos anos para trazer essa questão para a mesa dentro e fora do Vale do Silício?

A “degradação humana” ultrapassou alguns limites importantes, então agora começa a nos preocupar.

Estamos cientes de como as notificações tentam “sequestrar” nossa atenção. Se os designers usarem isso a seu favor, eles podem nos fazer gastar mais tempo em seus produtos, atraindo nossa atenção para que percebamos certos elementos por meio de coisas como o brilho da tela e outros pequenos “truques”.

E não sabemos mais o que é real e o que não é. Deepfakes (vídeos com pessoas aparentemente reais modificadas com inteligência artificial) são um bom exemplo disso.

ROB LEVER / GETTY IMAGES
Deepfakes são um exemplo de como a tecnologia pode nos degradar: não podemos diferenciar entre o que é real e o que não é.

A mente humana é limitada. É maravilhoso em muitos aspectos, mas tem pontos fracos. Agora que sabemos que a tecnologia cruzou essa barreira, nosso entusiasmo diminuiu porque é algo que não podemos mais controlar.

No entanto, as forças de mercado continuaram a usar novas tecnologias em seu benefício para aumentar as vendas. Os analistas ficam fascinados por encontrar novas maneiras de usar a tecnologia a seu favor e transformar essas tendências em dinheiro. Mas quem pensa nos benefícios não está considerando as consequências.

Isso está acontecendo em todo o mundo e em todos os níveis. Analistas, designers de produtos e governos estão competindo uns com os outros. E no final acaba sendo uma arma muito perigosa. Mas há cada vez mais reações contra isso.

Você o desenha como um sistema perverso. Isso poderia ser previsto de alguma forma?

Sim, claro que foi previsto. E não só: foi procurado também por quem quer explorá-lo a seu favor. Uma parte importante do problema é que aqueles que tentam encontrar soluções geralmente não são os mesmos que criam o problema.

Há pessoas muito competentes falando abertamente sobre o uso da tecnologia há muito tempo, mas aqueles que trabalham com avanços tecnológicos têm outros incentivos e não estão interessados ​​em desacelerar porque muitas vezes significa um desserviço para eles, do qual sua concorrência pode tirar vantagem.

É por isso que resolver este problema é tão complexo. Somado a isso, a “degradação humana” é cíclica.

GETTY IMAGES
A “degradação humana” é cíclica, segundo Fernando.

O que você quer dizer com cíclico?

Quando nossa atenção é interrompida repetidamente, ficamos mais distraídos. Tornamo-nos a pior versão de nós mesmos. A tecnologia nos muda. E isso acontece cada vez mais porque as redes sociais facilitam esse processo.

Quando competimos por atenção – gostos, comentários, compartilhamentos – começamos a “dizer” coisas diferentes, para usar outra linguagem. Postamos fotos que chamam mais a atenção, somos mais radicais ao debater questões políticas … tudo isso beneficia os algoritmos.

ARTUR DEBAT / GETTY IMAGES

Quanto mais eles distraem nossa atenção, mais lucrativos somos para as empresas (e mais vulneráveis ​​à “degradação”).

No final do ciclo, a tecnologia acaba nos mudando e, efetivamente, nos degradando. E quando nos degradamos, ficamos mais vulneráveis ​​no próximo ciclo, porque quando estamos mais distraídos, é mais fácil para um novo ciclo ocorrer.

Acaba sendo uma corrida [de empresas] para chegar ao fundo do nosso tronco cerebral que traz à tona o que há de pior em nós mesmos e que cada vez mais inclui menos pausa, menos reflexão e menos meditação, porque estamos ocupados reagindo o tempo todo.

É fácil sentir-se impotente nesta situação … o que podemos fazer?

Certamente é! É uma parte tão importante da economia … Movimenta trilhões de dólares! Mas podemos atuar em dois níveis: primeiro pessoal e, segundo, coletivo.

O primeiro passo realmente começa nos educando sobre isso. Em um nível pessoal, podemos fazer coisas vitais como limitar notificações, usar menos plataformas digitais, mudar o que mostramos nelas e nossas interações online. Basicamente, entender como estamos sendo manipulados e agir de acordo.

“O dilema das redes sociais” | 3 mudanças para recuperar o controle sobre sua vida nas redes sociais de acordo com Justin Rosenstein, criador do botão “Curtir” no Facebook
Além disso, existe o plano coletivo. Portanto, estamos criando um espaço para permitir que as pessoas expressem suas preocupações. Um por um não fazemos muito, mas todos temos força. Quando nos reunimos, podemos realizar uma mudança real. Isso é muito importante porque a “degradação humana” está nos mudando como sociedade.

A questão é: que mudança queremos promover? Uma das chaves é que o produto que usamos deve ser diferente, deve ter uma codificação diferente. E essa mudança deve ser feita por dentro, mas a pressão de consumidores, investidores, políticos, educadores e tecnólogos pode ajudar.

Temos que mudar as condições do jogo. A tecnologia que divide a sociedade não é tecnologia “humana” porque é prejudicial aos seres humanos.

Em que medida você diria que estamos liderando o caminho para uma tecnologia mais “humana”?

Para ser honesto, estou favoravelmente surpreso com o quão longe chegamos, porque a certa altura pensei que ficaríamos para sempre presos na definição do problema.

IMDB / O DILEMA SOCIAL

O sucesso do documentário “O Dilema das Mídias Sociais” é um exemplo de como a preocupação com o tema aumentou.

Mas agora, e em parte graças à repercussão do [documentário] O Dilema Social (“O dilema das redes sociais”) – que só no primeiro mês (setembro) viu mais de 38 milhões de pessoas – muito mais as pessoas entendem isso.

Felizmente, cada vez mais pessoas estão percebendo como as informações que compartilham nas redes ajudam a economizar atenção. Isto é muito importante.

Uma das coisas mais maravilhosas com que tantas pessoas se preocupam é que podemos realmente nos recompor para lidar com isso. Cada vez mais empresas e países estão agindo e vejo oportunidades de mudança no curto e médio prazo.

Agora temos que continuar divulgando a mensagem para que a tecnologia seja cada vez mais humana e nos permita nos conectarmos melhor, divulgar a verdade e obter a melhor versão de nós mesmos.

 

Acordo um velhinho de 230 anos e 5 minutos depois sou um garoto de 12 anos’, diz João Carlos Martins sobre volta ao piano

Visivelmente emocionado, vídeo no qual João Carlos Martins toca Bach com luvas biônicas foi notícia no mundo inteiro
REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

Quando tinha 15 anos e já começava uma carreira como pianista, João Carlos Martins tinha a impressão de que a vida de um músico era glamorosa. “De repente eu percebi que exige sacrifícios. E que você pode ter uma vida normal, mas ao mesmo tempo você é um missionário”, diz ele. “E no momento em que você é um missionário, você tem uma missão a cumprir na vida.”

Os sacrifícios foram muitos. Mas nenhum, nem os acidentes e problemas nas mãos, nem as 24 cirurgias a que foi submetido, o impediram de cumprir sua missão. Hoje, depois de mais de duas décadas sem tocar com os dez dedos, o determinado pianista e maestro João Carlos Martins voltou a fazê-lo com a ajuda de luvas “biônicas”.

“Quantas manhãs eu acordo e falo: ‘sei lá se vai ser possível’. Acordo como um velhinho de 230 e, cinco minutos depois, sou um garoto de 12 anos. E assim eu levo a vida, sempre acreditando na esperança de que você pode alcançar seu objetivo”, diz o maestro de 80 anos de seu apartamento em São Paulo, por Zoom, à BBC News Brasil.

O retorno ao piano exige esforço e dedicação. Por isso, a quarentena do maestro na pandemia de coronavírus tem sido uma de “reaprendizagem” do instrumento, agora tocando com as luvas feitas por um designer industrial. “Toda manhã, os primeiros exercícios…”, diz ele, de frente para o piano, posicionando os dedos sobre as teclas.

Vídeos compartilhados por ele nas redes sociais mostram sua emoção de tocar piano com os dez dedos novamente. Em um deles, publicado há três semanas, o maestro toca, com as luvas, uma peça do compositor Johann Sebastian Bach (1685-1750), de quem é um dos maiores intérpretes no mundo.

João Carlos Martins está em lágrimas, e bastante envolvido com a música. A comoção se espalhou: em seu perfil, o vídeo foi visualizado por quase 300 mil pessoas. A atriz americana ganhadora do Oscar Viola Davis também compartilhou o vídeo, e 270 mil pessoas o viram ali, comentando como era uma inspiração vê-lo tocar. A atriz Charlize Theron, por exemplo, comentou: “Moved to tears” (“Lágrimas de emoção”). Diversos meios de comunicação, do Brasil, Estados Unidos e Índia, por exemplo, publicaram o vídeo, chamando a atenção para a emoção do maestro e para as luvas que lhe devolveram a habilidade de tocar com todos os dedos.

“Minha carreira teve vales profundos e altas montanhas. Eu sempre digo: quando você tem um vale profundo, você precisa ter determinação. E não saltar para um abismo. E quando você pode ver uma perspectiva de uma adversidade, você em vez de saltar para um abismo, você constrói uma plataforma e voa mais alto”, diz ele.

Na entrevista, Martins demonstra o funcionamento das novas luvas, tocando o piano em breves concertos via Zoom.

‘Vida dos sonhos’

Quando João Carlos Martins tinha oito anos, seu pai lhe comprou um piano. “Seis meses depois, eu ganhei um concurso nacional de piano tocando obras de Johann Sebastian Bach. Parecia que eu levava jeito”, diz. “Aos treze, iniciei a carreira nacional e, aos dezoito, a carreira internacional. Parecia a vida dos sonhos.”

Naquela época, ele já sofria de distonia focal, um distúrbio que afeta os músculos e causa flexões involuntárias. Se um músico tem distonia focal, é provável que suas mãos não respondam como ele gostaria quando tenta tocar um instrumento.

A distonia, diz o pianista, ia aparecendo durante o dia. Por isso, desenvolveu uma estratégia: entrar no palco “como se fosse 7h”. Então, ele dava um jeito de dormir quatro horas antes de cada concerto. “Depois, eu dava o concerto em plena forma.”

Aos 26 anos, diz ele, começou o que o maestro define como sua “tragédia das 24 operações”. “Eu já tinha tocado com as principais orquestras do mundo, tocando em todos os continentes, levando o nome do Brasil. Mas aí eu tive um acidente jogando futebol.”

Foi no Central Park, em Nova York. Uma queda afetou o nervo ulnar, responsável pela sensibilidade e movimento de parte da mão e do antebraço. “Um mês depois eu já estava com atrofia nos últimos dedos”, diz ele. “Fui operado no NY University Hospital, em Nova York, e consegui solução paliativa. Com dedeiras de aço, toquei por mais dois anos. Em alguns concertos, eu acabava e tinha sangue nas teclas porque o esforço era grande.”

Período nos ringues e muitas perdas

Aos 30 anos, no entanto, sentindo que não podia mais tocar da mesma forma, João Carlos Martins abandonou a música e a carreira. E mudou de vida completamente: virou empresário de boxe.

“Eu nem podia ouvir falar de música, tal a minha revolta comigo mesmo de ter tido uma lesão por causa de um jogo de futebol. A revolta era enorme.”

Foi empresário de Éder Jofre, bicampeão mundial de boxe. Ele foi uma inspiração para Martins. “Quando eu vi o juiz levantar a mão dele novamente, o que me passou pela cabeça? ‘Esse homem reconquistou o título mundial para o Brasil, então quem diz que eu não posso voltar a tocar piano?’ Aquilo me ajudou”, diz.

Em 1978, fez sua reestreia em um concerto esgotado em Carnegie Hall, em Nova York. “Quando acabou o concerto, eu chorava muito de emoção.”

Mas, por praticar cerca de dez, doze horas por dia, o pianista teve LER (lesão por esforço repetitivo). “E tive que interromper uma segunda vez. Com fisioterapias e cirurgias, consegui voltar novamente. Acabei a gravação da obra de Bach e, finalmente, parecia a vida dos sonhos.”

Então, um assalto na Bulgária em que é ferido resulta em uma lesão cerebral. Martins faz mais oito meses de tratamento para se recuperar.

Em 1998, depois de uma série de problemas e acidentes que afetaram sua habilidade de tocar piano, fez o último concerto com as duas mãos em Londres. “Depois desse concerto, dois dias depois, eu já fiz 24 operações, me cortaram os nervos da mão direita. E eu perdi a mão direita. Eu só podia usar o indicador e o polegar. E com a esquerda eu fiz ainda uma carreira, toquei na França, na China, em vários lugares.”

Então, o pianista segue sua carreira só com a mão esquerda. Até que a distonia volta a afetar demais essa mão, afetada também por um tumor. “Mais cirurgias, e finalmente os médicos falaram que nunca mais eu poderia tocar piano profissionalmente.”

“Foi no ano de 2002: meu último concerto foi em Pequim, eu estava tocando só com a mão esquerda, mas com dores incríveis. E aí fui para Nova York e os médicos falaram que a distonia era tão severa que eles tinham uma péssima notícia para mim … que eu nunca mais poderia tocar piano profissionalmente, nem com a mão esquerda sequer. Então, parecia que o mundo tinha caído para mim durante 24 horas. Naquele dia, eu me lembro de caminhar 10 km pensando o que que eu ia fazer, aos 63 anos de idade”, diz. “Parecia que o mundo tinha caído para mim durante 24 horas.”

Dois dias depois, conta ele, o pianista apareceu na porta de uma faculdade para fazer aulas de regência. “Comecei uma nova carreira, sem nunca abandonar meu velho companheiro [o piano], com dois polegares.”

João Carlos Martins fundou a Bachiana Orquestra e regeu centenas de concertos, tornando-se, também, um respeitado maestro. Ainda tocava piano ocasionalmente, só com os dois polegares.

Maestro regendo no Lincoln Center, em Nova York
BBC E UBIRATAN BIZARRO COSTA
No ano passado, no entanto, por causa da dor que sentia nas mãos, decidiu fazer uma cirurgia que o impossibilitaria de vez de tocar o piano, inclusive com os polegares, como ainda fazia em alguns concertos. Mas um espectador mudou esse destino.

Um estranho com uma solução

De sua casa em Sumaré, no interior de São Paulo, Ubiratan Bizarro Costa, o Bira, estava vendo na TV o que seria definitivamente o último concerto de João Carlos Martins com os dedos que ainda conseguia controlar.

Bira é designer industrial, tem um escritório de design e uma escola de desenho e, como ele mesmo diz, gosta de “inventar coisas” e fazer “produtos malucos”.

Quando viu que o pianista teria de se aposentar do piano para sempre, pensou que talvez pudesse inventar algum equipamento que lhe ajudasse. “Aquilo ficou na minha cabeça, e no dia seguinte comecei a fazer.”

“Eu comecei a gravar os vídeos dele tocando, tirando as imagens, tirando as medidas pela mão dele”, conta. Assim, fez um primeiro protótipo, uma luva extensora.

Mas não conseguiu entrar em contato com o maestro, e a luva ficou guardada, sem uso, em uma prateleira. “Até que um dia eu vejo que ele ia reger aqui na minha cidade, em Sumaré.” Era a sua chance.

Conseguiu ser recebido no camarim. “Ele me recebeu muito bem”, diz Bira. E o designer industrial lhe deu uma caixa com as luvas, tentando explicar como funcionava.

As luvas não ajudaram. Bira não sabia que Martins conseguia abrir a mão, e o primeiro protótipo eram quase como que dedos extensores. O maestro admite que no começo não acreditava que o designer conseguiria ajudá-lo. Mas lhe telefonou, convidando Bira para um almoço em sua casa para ver como suas mãos funcionavam.

Os dedos do maestro conseguiam apertar as teclas do piano, mas o problema é que não voltavam para a posição original, impedindo que ele tocasse o instrumento. “Na verdade, ele abria a mão, eu não sabia disso. Cada dedo tinha uma particularidade. E aí eu comecei a criar outras coisas, me baseando por cada dedo”, diz Bira.

Então, Bira criou luvas com hastes que funcionam quase como molas. “Quando ele aperta, a haste puxa para cima. É simples”, explica. “Ele fecha a mão e a luva puxa para fora. Essa é a função da luva extensora biônica.”

Designer industrial Ubiratan Bizarro Costa mostra luvas que fez para o pianista

“Quando eu pensei em fazer, pensei em uma coisa simples só para ele tocar no fim de semana, na casa dele, não era para ele sair tocando. E eu nem imaginei que desse pra fazer tudo isso. E nossa, ele pegou aquilo e destrinchou a luva, ele fez o diabo ali, não tirava mais”, diz Bira, sorrindo.

“Eu lembro que eu chorei muito na hora que eu toquei [piano com as luvas] porque fazia 21 anos que eu não encostava os dez dedos no teclado”, diz Martins.

As luvas usadas agora pelo maestro estão em sua sexta versão e, porque Bira foi procurado por outras pessoas com problemas de mobilidade nos dedos, luvas parecidas à do maestro agora estão à venda (por encomenda; uma por R$ 549 e R$ 1.348 o par). Ele diz já ter vendido pelo menos 100 luvas.

Martins diz que as luvas agora quase fazem parte do seu corpo. “Quando estou sem as luvas, hoje me sinto inseguro até para andar na rua. Passou a fazer parte do meu físico”, diz ele. “As luvas me ajudaram a cuidar da alma.”

“Hoje, cada nota que eu toco no piano que eu toco, eu costumo colocar o coração para trazer emoção, o cérebro para ter o conceito da música, e alma para que alguma coisa diferente chegue no coração de quem está ouvindo”, diz Martins.

Para ele, é preciso “sempre” ter esperança, dando exemplos “de que tudo é possível nessa vida”.

Por ora, o maestro e pianista seguirá praticando o piano em casa. Até ano que vem, quando um fará um novo concerto no Carnegie Hall, marcado para 17 de outubro, diz ele, orgulhoso. Com os dez dedos e muita emoção, como foi da primeira vez.

A pré-história da internet – e a palavra bíblica que deu seu pontapé inicial


O Pentágono nos anos 60; a partir dali, nasceu a rede precursora da internet

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Na década de 1960, Bob Taylor, um engenheiro que já havia estudado psicologia, trabalhava no Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA na capital, Washington DC.

Ele ficava no terceiro andar, perto do secretário de Defesa e do chefe de uma agência fundada em 1958 como parte desse setor: a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (Darpa, na sigla em inglês).

Estava agência tinha entrado inicialmente na corrida espacial, mas a Nasa, criada alguns meses depois, a eclipsou.

Tudo parecia indicar que a Darpa não tinha futuro, mas ela se reergueu e teve um papel fundamental em tecnologias transformadoras.

Bob Taylor – CRÉDITO,GARDNER CAMPBELL/WIKIPEDIA

Taylor estudou psicologia na universidade antes de trabalhar como engenheiro aeronáutico, passar pela Nasa e chegar à Darpa

Três terminais espalhados pelos EUA

A ressurreição começou em 1966, quando Taylor e a Darpa plantaram a semente de algo grande.

Ao lado do escritório do engenheiro, havia uma sala de terminais, um pequeno espaço no qual havia três terminais de acesso remoto com três teclados diferentes, um do lado do outro.

Cada terminal permitia que Taylor emitisse comandos para um computador mainframe (de grande porte, responsável por processar um volume grande de informações) distante.

Um deles estava no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a mais de 700 km de distância dali.

Outros dois estavam do outro lado do país, na outra costa: um na Universidade da Califórnia e o outro no Comando Aéreo Estratégico de Santa Mônica (também na Califórnia), chamado AN / FSQ32XD1A — ou Q32, para abreviar.

Cada um desses enormes computadores exigia um procedimento de login e uma linguagem de programação diferente.

Era, como definiram os historiadores Katie Hafner e Matthew Lyon, como “ter uma sala lotada de várias televisões, cada uma dedicada a um canal diferente”.

Ainda que Taylor pudesse acessar esses computadores remotamente por meio de seus terminais, eles não podiam se conectar facilmente entre si ou com outros computadores financiados pela Darpa nos Estados Unidos.

Era quase impossível compartilhar dados, fazer conjuntamente um cálculo complexo ou até enviar uma mensagem entre esses computadores.

‘Comece, você terá US$ 1 milhão a mais’

O próximo passo era óbvio, diz Taylor.

“Tínhamos de encontrar uma maneira de conectar todas essas máquinas diferentes”, propôs Taylor.

Taylor falou com o então chefe da Darpa, Charles Herzfeld, sobre seu plano.

“Já sabemos como fazer isso”, assegurou ele, embora não estivesse claro se alguém realmente sabia como conectar uma rede nacional de computadores mainframe.

“Ótima ideia!”, exclamou Herzfeld. “Comece. Você terá US$ 1 milhão a mais em seu orçamento.”

A reunião levou 20 minutos.

Desafio formidável

Havia algo nascendo, só talvez não se sabia o quão grandioso
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Larry Roberts, do MIT, já havia conseguido que um de seus computadores mainframes compartilhasse dados com o Q-32: dois supercomputadores conversando por telefone.

Chegar a isso foi um processo lento e desafiador.

Mas Taylor, Roberts e seus colegas visionários tinham algo muito mais ambicioso em mente: uma rede à qual qualquer computador pudesse se conectar.

Como Roberts disse na época, “quase todos os elementos concebíveis de hardware e software de computadores estarão na rede”.

Foi uma grande oportunidade, mas também um desafio enorme.

Motor de Ferrari para aquecer… um bife?

Os computadores eram raros, caros e frágeis para os padrões de hoje.

Geralmente, eram máquinas programadas manualmente pelos cientistas que as usavam.

Quem convenceria aqueles poucos privilegiados a deixar de lado seus projetos para escrever um código a serviço da troca de dados com outras pessoas?

Era como pedir ao dono de uma Ferrari que desligasse o motor para aquecer um bife que o cachorro de outra pessoa iria comer.

Felizmente, outro pioneiro da computação, o físico Wesley Clark, surgiu com uma solução.

Desenhos feitos por Larry Roberts em 1969 projetando a Arpanet

Novas oportunidades com os minicomputadores

Clark vinha acompanhando o surgimento de uma nova geração de computadores.

O minicomputador era modesto e econômico em comparação com os mainframes do tamanho de uma sala instalados nas universidades dos EUA.

Clark sugeriu a instalação de um minicomputador em cada ponto desta nova rede.

O mainframe local, o enorme Q-32, por exemplo, se comunicaria com um minicomputador perto dele.

O PDP-8, o primeiro minicomputador, fabricado pela DEC
CRÉDITO,GETTY IMAGES

O minicomputador ficaria encarregado de se comunicar com todos os outros minicomputadores da rede. Ele seria responsável também pelo novo e interessante desafio de transportar pacotes de dados de forma confiável para que chegassem a seu destino.

Todos os minicomputadores funcionariam da mesma maneira; portanto, se você escrevesse um programa de rede para um, ele funcionaria em todos.

Adam Smith, o pai da economia, teria ficado orgulhoso da maneira como Clark estava se aproveitando da especialização e divisão do trabalho.

Os mainframes existentes continuariam a fazer o que já faziam bem. Já os novos minicomputadores seriam otimizados para gerenciar a rede de maneira confiável, sem falhas.

À prova de estudantes

A beleza da ideia de Clark era que cada unidade central local tinha que simplesmente se comunicar com a pequena caixa preta ao lado: o minicomputador local.

Essa era a única coisa necessária para conectar-se a toda a rede.

As “pequenas caixas pretas” eram na verdade grandes e cinza e foram chamadas de IMP (Interface Message Processors).

Os IMPs eram versões personalizadas dos minicomputadores Honeywell, que tinham tamanho de geladeiras e pesavam mais de 400 kg.

Outro superlativo: custavam US$ 80 mil cada, cerca de US$ 500 mil em valores de hoje (cerca de R$ 2 milhões).

Os projetistas da rede queriam processadores de mensagens que trabalhassem em silêncio, com supervisão mínima e que resistissem à ação de calor ou frio, vibrações ou oscilações, mofo, ratos e, o pior, de estudantes curiosos armados com chaves de fenda.

Os computadores Honeywell, na época usados pelo setor militar, pareciam um ponto de partida ideal, embora a blindagem das máquinas fosse, talvez, um pouco excessiva.

‘Lo!’

Um mapa com pontos, destinos e conexões da Arpanet inicial
CRÉDITO,GETTY IMAGES

O protótipo, IMP 0, estava pronto no início de 1969. Mas não funcionou.

Um jovem engenheiro tentou consertá-lo por meses, desenvolvendo e enrolando manualmente fios em torno de palitos de metal separados por uma distância de aproximadamente 1 milímetro.

Somente em outubro daquele ano, é que o IMP 1 e o IMP 2 estavam prontos para uso na Universidade da Califórnia e no Stanford Research Institute, a mais de 500 km de distância um do outro.

Em 29 de outubro de 1969, dois computadores centrais (mainframe) trocaram sua primeira palavra por meio de seus IMPs complementares.

A palavra foi: “Lo”, uma interjeição de supresa que significa algo como “veja!” e que aparece em traduções para o inglês da Bíblia.

A verdade é que a intenção inicial do operador era escrever “Login”, mas a rede caiu após as duas letras surgirem.

Um começo difícil, mas a Arpanet estava ligada.

Outras redes se seguiram, e o projeto da década seguinte foi interconectá-las em uma rede de redes, ou simplesmente a “internet” — “net” em inglês quer dizer “rede”.

Finalmente, os IMPs foram substituídos por dispositivos mais modernos chamados roteadores. No final dos anos 80, aqueles já eram peças de museu.

Mas o mundo que Roberts havia previsto, no qual “quase todos os elementos concebíveis de hardware e software de computadores estarão na rede” estava se tornando realidade.

E os IMPs abriram e mostraram o caminho.

E a Darpa? Graças ao sucesso desta missão, da qualidade de seus funcionários e à confiança em seus projetos, a agência continua hoje tendo papel fundamental no desenvolvimento tecnológico, como na criação do sistema de posicionamento global, o GPS e, mais recentemente, nos carros sem motorista.

Tim Harford escreve a coluna “Economista clandestino” no jornal britânico Financial Times. O Serviço Mundial da BBC transmite a serie 50 Things That Made the Modern Economy. Você pode encontrar mais informações sobre as fontes do programa e escutar todos os episodios, ou ainda al seguir o podcast da serie (em inglês).

Rede 5G, o Brasil diante de um falso dilema

Na implementação da rede de telefonia móvel de quinta geração, país não precisa optar por China ou EUA, mas seguir sua tradição de permanecer independente.

Poucos assuntos têm sido tão debatidos nos meios da política e economia brasileiras quanto a concorrência para a rede 5G, a quinta geração do padrão de telefonia móvel.

No país, como em outros tantos por todo o mundo, o que está em jogo é se a operadora chinesa Huawei deve ser admitida ou não como fornecedora das multinacionais de telecomunicações. Os Estados Unidos pressionam todos os seus aliados ocidentais – portanto também o Brasil – contra a participação da Huawei, sob a alegação de que a China empregaria a tecnologia da firma para fins de espionagem.

No entanto, a decisão pró ou contra Pequim ou Washington é um falso dilema. O Brasil deveria seguir dialogando com ambos. Em sua história, o país provou repetidamente que também é capaz disso sob pressão, e na maioria dos casos se saiu bem.

Esse foi o caso antes da Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil conseguiu se manter neutro entre os Aliados e as potências do Eixo. Seus parceiros industriais importantes foram, sucessivamente, os EUA (indústria de base), depois a Europa (automóveis) e, em seguida, Japão (mineração), sem que, apesar da competição ferrenha, eles entrassem em atrito no país.

Na década de 70, os militares, apesar de próximos aos EUA, entregaram à Alemanha o contrato para a usina atômica de Angra dos Reis – uma afronta a Washington. O alcance dessa decisão na época é, em parte, comparável ao atual, entre a Huawei e as operadoras ocidentais.

Também na época estava em jogo o estabelecimento de padrões internacionais e, portanto, da predominância industrial. Quem quer que controle o padrão global para novas tecnologias tem, a seguir, uma enorme vantagem estratégica em diversos setores, possivelmente por décadas.

Assim foi, na época, com a usina nuclear. Hoje, com o 5G, a coisa é ainda mais dramática, pois a rede será a base para o desenvolvimento de novas tecnologias. Tão mais importante, portanto, é o Brasil defender seus interesses perante os EUA e a China. Pois o país é capaz disso, já que, diferente de outros, joga numa categoria própria:

– O Brasil está entre as 12 maiores economias mundiais. Em superfície e população, ocupa o quinto e sexto lugares.

– É um dos poucos Estados que têm um grande superávit da balança comercial com a China. Isso o fortalece e torna menos chantageável.

– Também os EUA são um importante investidor e parceiro comercial e tecnológico do Brasil. Num mundo polarizado entre chineses e americanos, um Brasil neutro ganha automaticamente mais peso.

– O Brasil é um mercado-chave para a 5G. A concorrência para a rede de telefonia móvel será uma das maiores entre os mercados emergentes. Desde já, o país possui uma densidade de conexões de banda larga maior do que a maioria das economias fora dos EUA e Europa.

Resumindo: a neutralidade brasileira estabeleceria um sinal geopolítico. Não é de espantar que Pequim e Washington adotem a política de “cenoura e pau” perante o governo e autoridades do país: por um lado, atraem com financiamentos e parcerias estratégicas; por outro, ameaçam com a suspensão dos investimentos.

Isso é normal, e o Brasil não deve se deixar impressionar. Até porque é ingênuo crer que operadoras ocidentais automaticamente reduziriam o risco de espionagem ou hackeamento. Afinal, os serviços secretos dos EUA monitoraram tanto a presidente Dilma Rousseff quanto a Petrobras.

Além disso, de 30% a 40% do equipamento da rede móvel brasileira já se compõe de peças da Huawei. A eliminação destas e exclusão do conglomerado chinês atrasaria em anos o urgentemente necessário impulso de produtividade com a implementação da rede 5G. Uma competição acirrada entre os fornecedores, por outro lado, possivelmente tornaria mais fácil controlar as redes.

O Brasil deve tentar procurar parceiros por todo o mundo – na Ásia, América Latina, mas, acima de tudo, na Europa – que igualmente se vejam diante de um falso dilema e se preocupem com a polarização crescente.

Contudo, resistir à pressão e encontrar um caminho do meio é trabalho árduo, sobretudo para os diplomatas brasileiros. “O Brasil vai ter que usar na diplomacia algo que não está acostumado a fazer de uns tempos para cá”, comenta Marcos Azambuja, ex-embaixador e decano dos diplomatas do Brasil: “A cabeça…”

Fatos & Fotos do dia 21/10/2020

Vídeo de #Doria e tabelinha com #Pazuello na #vacina #chinesa enfureceram #Bolsonaro -> Fonte: #Veja


#Motocicletas #Bikes #Design #Engenharia #Motores #Engines #Mecânica #Mecanics #Mechanics #Engineering #BlogdoMesquita #José #Mesquita
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Esqueçam o #trolóló#. O objetivo é #Apud #Raimundo #Sodré […]”manter a #massa, a massa mãe[…] sob tacões. Pressionem o #Senador #Rogério #Carvalho (#PT/SE), autor do #PL 3877/2020 apresentado hoje no #Senado e já com anúncio de #votação em #Plenário nesta quinta-feira. Em vez de parar com a #remuneração da #sobra de #caixa dos #bancos que já alcança 23% do #PIB, estão #legalizando essa #vergonha!
#blogdomesquita

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Duas opções: Leia esse texto ou continui no limbo da desinformação midiática. A paranoia com a #Huawei. Por favor, leia o texto para acelerar o #5G dos neurônios.

Impressiona a incapacidade e/ou a capacidade, ambas? – só os Deuses sabem o porque – do exercício diuturno, aqui no #Bozaquistão, de distorcer fatos, mídia “venal” em geral.

A Huawei opera no #Brasil, lembro quando forneci serviços a um terceirizado, que em 2002 a #Embratel já operava com diversos equipamentos Huawei na rede deles. Hoje não disponho de informações sobre a amplitude da presença deles no Brasil com relação a 2g,3g ou lte. 

 

A #Ericsson e #Samsung são líder de mercado 5G e a Huawei vem em terceiro lugar junto com #Nokia, #ZTE, #Cisco e #HP/Aruba. 

O fato real é que pela legislação vigente no Brasil, qualquer empresa pode utilizar a mesma infraestrutura de antenas ou colocar novas, nas torres existentes, e implementar novo #hardware nos #datacenter. Talvez a única vantagem da Huawei – tenho um filho, engenheiro de computação e especialista em implantação e segurança de redes de computação que trabalhou com eles em 2007, na #Irlanda, no implemento de uma rede #LTE/4g – “Eles são muito rápidos e eficientes, e trabalham 24h sem parar, em vários turnos, com muitos funcionários e engenheiros. Eles, Huawei fazem em uma semana algo que outra empresa demoraria um mês”, certa vez ele me disse.

Resumo:

 

  • Reserva de Mercado nunca levou nenhum país à frente. A reserva de mercado para computadores decretada pela ditadura de 64, atrasou a tecnologia, calculam os especialistas, em 30 anos, no mínimo, em tecnologia computacional.
  • A #Huawei opera no #Brasil desde a existência de #2G.
  • A Huawei oferece somente infra-estrutura para possibilitar a operação do 5G.
  • Qualquer operadora pode usar qualquer #software que desejar para operar o 5G.
  • Sem a Huawei e amarrado à #acordos de #tecnologia e #comerciais, a meu sentir, o Brasil irá demorar dez anos para implantar a #tecnologia 5G.
  • A Huawei está cerca de 2 anos à frente, em tecnologia de qualquer outro concorrente.
  • O domínio pelos USA da tecnologia 5G irá demorar bastante.
  • Alinhamento automático unilateral nunca beneficiou nenhum país.
  • Durante a ditadura de 64 o Brasil fechou o mercado de computadore e criou a 
  • Nem durante a ditadura implantado em 64 no Brasil – leia-se Geizel – os interesses nacionalistas (sim, eles já existiram) por parte dos militares foram controlados por acordos de subserviência.
  • Geisel chegou a denunciar – pesquise na área do #Direito #Internacional – o que significa denunciar um acordo entre países.

Coloque-se em fila indiana todos os #corruptos membros da gangue e “parças” do #corvo, e teremos mais de um quilômetro de folha corrida.


 

Fatos e Fotos do dia 20/10/2020 – O dia todo todo dia

Da série “Assim caminha a humanidade” ou “A vida como não deveria ser” ou “Só o liberalismo nos salvará”.
#Mansão sob o #viaduto no cruzamento das #Av. St. #Dumont e #Santana Jr. #Fortaleza #Ceará

#Fotografia #Morador de rua #Sem #Teto #Homeless #Blogdomesquita


Quando faz sentido o “Brasil acima de tudo”! I
#Gripen #Aviões #Caças #FAB #Força #Aérea #Brasileira
#blogdomesquita


Da série “Assim caminha a humanidade” ou “A vida como não deveria ser” ou “Só o liberalismo nos salvará”.
#Lixo #TrabalhoInfantil #Fotografia #Infância #DireitosHumanos #TrabalhoInfantil #ChildLabour #Educação #Escolas #Fome #Economia #Liberalismo #Hayek #Mises #AyanRandt #BlogdoMesquita


#Idmaray #Breuil
Um dia sem dançar é um dia perdido
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Rio de Janeiro: Megacidade brasileira experimentando descarte de lixo ecologicamente correto

Na periferia norte do Rio de Janeiro, longe das vastas faixas de areia branca da icônica praia de Copacabana, mangas machucadas e douradas, pimentões murchados e um cacho de mandioca se misturam com lascas de madeira.

A transformação da gestão do lixo poderia desempenhar um papel no cumprimento da meta de carbono líquido zero do Rio de Janeiro? A cidade está explorando uma nova forma de processar resíduos de alimentos, com um projeto que é o primeiro do tipo na América Latina.

Estátua no Rio de Janeiro, megacidade no Brasil (picture-alliance / GES / M. Gilliar)

Megacidade brasileira experimentando descarte de lixo ecologicamente correto.

Esses podem não parecer ingredientes especiais, mas um projeto experimental na megacidade brasileira está explorando se queimar esse lixo poderia ser parte de uma receita para atingir sua meta de carbono zero até 2050.

“Caso contrário, todos esses alimentos estariam sendo jogados fora”, diz Bernardo Ornelas Ferreira, pesquisador do Ecoparque do Caju, que abriga a primeira unidade de “biometanização” da América Latina.

Um forte cheiro ácido preenche o ar do armazém no calor do meio-dia, quando Ferreira acena com uma empilhadeira. “É muito potencial perdido. Precisamos fazer isso em todo o país”, acrescenta.

Bernardo Ornelas Ferreira, pesquisador do Ecoparque do Caju

O Brasil é um dos 10 maiores produtores de desperdício de alimentos do mundo, descartando cerca de 30% de todas as frutas e vegetais colhidos. De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, cerca de 40 mil toneladas de alimentos são jogados fora todos os dias no país, onde se decompõem em aterros sanitários, liberando quantidades significativas de metano.

No entanto, o Rio de Janeiro, uma cidade de cerca de 6,7 milhões, também é uma das mais de 70 cidades em todo o mundo que se comprometeram a se tornar “neutras em carbono” até 2050. As cidades são responsáveis ​​por cerca de 75% das emissões de CO2, de acordo com as Nações Unidas, e mais de dois terços da energia que consumimos.

Gerando energia a partir de resíduos orgânicos

O projeto piloto do Ecoparque, lançado em dezembro de 2018 pela Comlurb, departamento de resíduos municipais do Rio de Janeiro, transforma matéria orgânica – quase totalmente resíduo de alimentos – em biogás por meio de um processo que gera eletricidade, biocombustíveis e composto para serem usados ​​como fertilizante na agricultura e silvicultura, e produz emissões mínimas.

Processando entre 35 e 50 toneladas de resíduos por dia, a fábrica gera energia suficiente para se alimentar, a maior instalação de resíduos no local e a frota da empresa de 19 veículos elétricos. Isso equivale a mais de 1.000 residências com base no consumo médio no Brasil, Ferreira diz.

A fábrica recebe resíduos orgânicos de supermercados e barracas de rua de frutas e verduras do centro da cidade, mas também tratou do lixo doméstico e até descartou hambúrgueres e batatas fritas do festival Rock in Rio de outubro.

Um gasoduto transportando gás para ser transformado em eletricidade

O Brasil é um dos 10 maiores produtores de resíduos alimentares do mundo

Sete reatores do Ecoparque, todos do tamanho aproximado de contêineres, são usados ​​para processar os resíduos. Em um processo escalonado, cada um recebe lixo orgânico e é lacrado por duas a três semanas, com a introdução de bactérias para decompor a matéria e produzir metano. O gás é então armazenado em um grande recipiente acima da instalação e posteriormente convertido em eletricidade.

“A ideia do Ecoparque é ter um local de experimentação de novas tecnologias que possam, no futuro – e se tiverem demonstrado sua viabilidade econômica, financeira e ambiental – ser adotadas pela Comlurb, fazendo com que cada vez menos resíduos sejam descartados em aterros sanitários ”, afirma José Henrique Monteiro Penido, responsável pela área de sustentabilidade ambiental da Comlurb. “O modelo pode ser replicado nas cidades e ter um impacto positivo para todo o país”.

Segundo a Comlurb, esse é o “primeiro passo” para lidar com as 5 mil toneladas de lixo orgânico que o Rio de Janeiro produz a cada dia. Com um empréstimo não reembolsável do Fundo Brasileiro de Desenvolvimento Tecnológico, e desenvolvido em colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais, o plano é expandir esse modelo para outras cidades do Brasil e da América Latina.

Equipamento que mede a qualidade do gás sendo produzido

“No geral, é um sinal muito positivo e não tenho dúvidas de que é escalável”, disse Richard Lowes, pesquisador de política energética da Universidade de Exeter. “Parece ser um processo eficiente com controles muito medidos sobre a produção. Quando os resíduos alimentares vão para aterros, podem produzir metano, um poderoso gás de efeito estufa – mas com esse processo você obtém a energia e não as emissões. ”

Alcançando as metas climáticas

O processo de biometanização por si só, no entanto, não será suficiente para reduzir significativamente a pegada ambiental do Brasil, Lowes diz: “Seria melhor se esses resíduos simplesmente não fossem produzidos em primeiro lugar. Se não houvesse resíduos, não haveria a necessidade de processar qualquer coisa. Temos a tendência de ser uma sociedade muito desperdiçadora e devemos nos concentrar em reduzi-la. ”

Ainda assim, o município acredita que pode ajudar a atingir sua meta de reduzir as emissões das mudanças climáticas em 20% entre 2005 e 2020, como parte da iniciativa C40 Cities, uma rede de cidades que impulsiona a ação climática. No âmbito do Programa de Desenvolvimento da Cidade de Baixo Carbono do Rio de Janeiro, a cidade lançou nos últimos anos um projeto de reflorestamento urbano para plantar 12 milhões de árvores e um esquema municipal de compartilhamento de bicicletas, o Bike Rio, enquanto expande a rede de caminhos da cidade.

O projeto marca um raro lampejo de positividade para o país em meio ao desmatamento de uma década na Amazônia e às críticas à falta de compromisso do Brasil com os principais objetivos climáticos na COP25, a recente conferência em Madrid.

No Ecoparque, a equipe busca constantemente a melhoria dos níveis de eficiência, utilizando eletrônicos, sensores e medidores que auxiliam no controle e na otimização da produção de biogás em sua busca pela produção de energia sustentável. A esperança é que uma instalação como esta seja construída para cada 50.000 pessoas no país.

“Há dois caminhos a seguir”, diz o pesquisador Ferreira. “Podemos seguir em frente com o sistema atual de grandes instalações de resíduos que requerem uma quantidade significativa de transporte, ou podemos descentralizar o processo e construir um em cada cidade do Brasil.”