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O que o Brasil tem a fazer pelo Clima?

Enquanto a sociedade sai às ruas e exige ações para conter a emergência climática, governantes se reúnem em Madrid para decidir questões cruciais para o futuro da humanidade

Julia Ueamura, 16 anos, na Greve do Clima em São Paulo, no Largo da Batata, em 29/11/2019.
© Christian Braga / Greenpeace

O Brasil e o mundo voltaram a se manifestar para cobrar de governo e empresas ações para combater a emergência climática. A Greve Global pelo Clima, convocada pelos jovens do movimento “Sextas pelo Futuro” (Fridays for Future), ocorreu em 2.400 cidades, em 157 países. A data escolhida teve como objetivo também fazer uma cobrança direta aos representantes dos países que se reúnem a partir desta segunda na Conferência das Partes pelo Clima (COP-25), em Madrid. O evento, que acontece de 2 a 13 de dezembro, tem como objetivo discutir o Acordo de Paris, que prevê que os países limitem as emissões de gases de efeito estufa para conter o aumento da temperatura terrestre e, por consequência, as alterações climáticas.

Em todos os continentes, o movimento da juventude pelo clima vem anunciando: “Não há mais tempo a perder!”. Porém, o que tudo indica é que muitos governantes não estão comprometidos o suficiente. O caso brasileiro é um dos mais alarmantes: o governo Bolsonaro já apresenta a maior taxa de desmatamento desde 1998, com uma alta de 29,5%.

Além dos números concretos que comprovam o aumento do desmatamento no governo atual, o governo de Jair Bolsonaro insiste em fazer falsas e criminosas acusações contra organizações ambientais. Nesse balaio, nem o ator de Titanic, Leonardo DiCaprio ficou de fora da culpabilização do governo – DiCaprio foi acusado de financiar os incêndios na Amazônia. Em vez de resolver a questão, o governo passa a acusar a todos por sua incapacidade de lidar com a agenda socioambiental brasileira, em meio a perseguições e acusações que não devem ser admitidas. O resultado é a incapacidade de se encontrar os responsáveis e de achar solução para os diversos crimes ambientais ocorridos neste ano, como o derramamento de óleo na costa brasileira e o desmatamento na Amazônia, que é hoje responsável pelo maior volume de emissões do Brasil.

A esperança vem das ruas, de jovens e crianças que terão seu futuro ainda mais comprometido se grandes empresas e governantes não assumirem e cumprirem compromissos para conter o aumento da temperatura global e evitar o colapso. Hoje o mundo é em média 0,87 grau mais quente que nos níveis pré-industriais. Se o aumento da temperatura continuar na velocidade dos últimos anos, poderá chegar a 1,5 grau entre 2030 e 2052, muito antes do final do século (o Acordo de Paris tem como objetivo conter a temperatura global em 2 graus, preferencialmente em 1,5°, até 2100) com grandes impactos para a humanidade, que já são sentidos por muitos brasileiros.

O governo de Jair Bolsonaro chega à COP em Madrid com a imagem já deteriorada na agenda internacional e com ações pouco condizentes com as necessidades do Acordo do qual que é signatário. Apesar do Brasil ter sua assinatura no Acordo, está cada vez mais longe de cumprir até mesmo as metas menos ambiciosas assumidas.

Nas ruas ou onde quer que nossas vozes possam chegar, estamos cobrando

No Largo da Batata, um dos espaços públicos que os moradores paulistanos costumam ocupar para protestar por direitos que lhes são negados, ou então para que as reivindicações coletivas cheguem aos tomadores de decisão, Mateus Santos, de 13 anos, caminhava com uma placa na mão: “crise climática”. No discurso e na ação, ele reivindicava por uma mudança conjunta e em todas as esferas da sociedade. A juventude que tem sido a voz a gritar mais alto no movimento em defesa do Clima não apenas cobra, mas age, e Mateus é prova disso.

Mateus Chahim Santos, 13 anos, na segunda Greve do Clima em São Paulo, no Largo da Batata.
©Christian Braga / Greenpeace Brasil

Muitas das coisas que a gente conhece hoje no mundo e muito da forma como a sociedade vive, tudo pode acabar por conta de uma revanche que a natureza já está dando na gente. Precisamos tanto mudar hábitos básicos como também cobrar o governo por suas responsabilidades diante da crise climática. Eu estou desenvolvendo um site para mostrar o quanto cada ser humano pode contribuir mudando coisas simples do dia a dia como, por exemplo, usar menos água, comer menos carne e priorizar o transporte público. Sem esquecer, é claro, da importância de mudarmos nossa matriz energética, que hoje é extremamente impactante e poluente”, disse Mateus.

E tem sido assim os encontros que temos tido desde que a Greve Global pelo Clima começou a ganhar corpo aqui no Brasil. Temos encontrado e convivido com jovens que estão revisitando  hábitos e práticas já impostas pela sociedade, que têm se conectado com os impactos no clima mundial e que escolheram não deixar de olhar para as consequências dessas escolhas.

Ao mesmo tempo em que São Paulo fazia um protesto político-cultural em que o diálogo sobre a questão climática ganhou inclusive o primeiro olhar de muitos que apenas passavam por ali, jovens de outras cidades tomaram a frente de ações para que a data ficasse marcada também em outras regiões do país como Brasília, Rio de Janeiro e Manaus.

No espaço de microfone aberto aos diversos representantes da sociedade civil, manifestaram-se artistas, ambientalistas, indígenas, jovens e crianças. “Essa pressão é importantíssima e, no caso especial do Brasil, ela vem em tom de denúncia diante dos desmandos da agenda socioambiental do atual governo. Por isso, precisamos manter o olhar firme e a voz alta para denunciar caso mentiras, inverdades e falácias forem ditas durante a COP. A sociedade e principalmente os jovens estão de parabéns pela atitude. Continuemos cobrando de governos, mas também das empresas brasileiras que estão muito acomodadas e que têm falhado ao não assumir metas de redução de emissões”, disse Carlos Rittl, coordenador do Observatório do Clima, durante sua fala no evento.

No Rio de Janeiro, o protesto foi feito em forma de artivismo, que é quando a arte se torna uma aliada da transmissão da mensagem que se quer passar. No dia em que a sociedade se rendia ao fervor da sede de consumo, apelidado de Black Friday, as jovens Ana Gil e a Nayara Almeida, do Fridays For Future Rio de Janeiro, fizeram da Greve Global um jeito criativo e direto de criticar o incentivo a um sistema que se baseia na exploração desenfreada dos recursos naturais do planeta e na exploração de mão de obra. Elas usaram caixas de papelão com dizeres como “Adquira já um planeta pra chamar de seu”. A proposta foi uma forma de ironizar o dia em que o comércio investe em descontos para aumentar as vendas. 

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O desafio da economia diante das mudanças climáticas

Apesar de crescimento econômico ameaçar o clima, ele é necessário, sobretudo em países mais pobres. Perante este impasse, especialistas defendem que o capitalismo passe a priorizar investimentos sustentáveis.    

Painel solar e área de floresta ao fundoPainel solar: produção de energia renovável é um dos pontos-chave para uma guinada rumo à economia verde

Em seu romance de ficção científica de 2012 News From Gardenia (Notícias de Gardênia, em tradução livre), o autor Robert Llewellyn observa um mundo que acaba ficando bem. Os seres humanos vivem harmoniosamente com o ambiente natural ao seu redor. O capitalismo de mão pesada parece ter entrado em colapso, substituído por uma troca local de bens e serviços. As comunidades parecem mais saudáveis ​​e felizes, mas é uma catástrofe global inespecífica na história que forçou a mudança.

O arco narrativo é tal que Greta Thunberg também concordaria com ele. O crescimento econômico é um “conto de fadas” que mata o planeta, disse a jovem ativista em setembro. “Desacelerem por opção agora”, pediu ela aos líderes da Cúpula da Ação Climática da ONU, “ou as mudanças climáticas nos forçarão a fazê-lo – talvez mais cedo do que mais tarde”.

Sublinhando seu ponto de vista, o movimento Greve pelo Futuro (nome internacional: Fridays For Future) de Thunberg convoca um Dia sem Compras nesta sexta-feira (29/11), em plena Black Friday, uma tradição comercial dos EUA que se segue ao Dia de Ação de Graças e dá a largada para a temporada de compras de Natal.

Para a maioria dos economistas, no entanto, uma solução de baixo ou nenhum crescimento para as mudanças climáticas não é algo a ser levado a sério e certamente não pode ser aplicado em escala global. “O campo da Greta é mais um fenômeno econômico avançado”, diz à DW Adam Tooze, professor de história da economia na Universidade de Columbia. “Está no domínio da política razoável para economias avançadas dizer que não precisamos de mais crescimento.”

A agricultura e as mudanças climáticas

Ele acrescenta, entretanto, que isso não se aplica às economias mais pobres e em desenvolvimento, que enfrentam uma “genuína escolha difícil” entre atender às “necessidades humanas existenciais” – como água potável, saneamento e assistência médica – e buscar a rápida descarbonização necessária para atender às metas do Acordo de Paris sobre o aquecimento global.

“Isso coloca a maior parte do ônus da descarbonização nos países ricos”, frisa Tooze. “Neles, o desafio é menor, mas de modo algum é uma questão fácil em termos de tecnologia e política”. Economistas como Tooze defendem, ao invés de uma escolha radical por um não crescimento, puxar as alavancas existentes do capitalismo global para alcançar o crescimento sem pegada de carbono.

Uma dessas alavancas são os bancos centrais, que, segundo Tooze, poderiam projetar políticas monetárias que favoreçam soluções climáticas como energias renováveis, tecnologia de baterias e captura de carbono em larga escala, além de tornar menos atraentes os investimentos sujos.

Com a flexibilização quantitativa (QE, na sigla em inglês) de volta à caixa de ferramentas do banco central para estimular as economias estagnadas, Tooze quer que o Banco Central Europeu “se comprometa a comprar tantos títulos verdes quanto puder, sem excluir investidores privados”.

“Não há realmente nenhum caso para bancos centrais ou gestores de reservas cambiais estrangeiras ainda continuarem subscrevendo um status quo de combustíveis fósseis, que sabemos que não é sustentável”, afirma o especialista.

A ideia causa arrepio a alguns bancos centrais, especialmente ao Bundesbank, o Banco Central alemão, que se opõe à QE de maneira mais ampla e é “muito crítico” à chamada QE verde. “Nossa missão é a estabilidade de preços, e a neutralidade do mercado é fundamental para nossa política monetária”, disse o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, no mês passado em Frankfurt.

Capital verde

Em outras palavras, é trabalho dos políticos, não dos bancos centrais, colocar o dedo na balança, despejando trilhões de dólares de capital em prol da desaceleração do aquecimento global.

Outras instituições financeiras são menos nervosas. No início deste mês, o Banco Europeu de Investimento (BEI) anunciou que deixaria de apoiar projetos de combustíveis fósseis até o final de 2021. Isso retiraria de hidrocarbonetos cerca de 2 bilhões de euros em financiamento anual proveniente da União Europeia (EU).

Os analistas de financiamento climático saudaram a decisão do BEI, observando que ainda há muito mais a ser feito. O financiamento climático global total atingiu 612 bilhões de dólares em 2017, um recorde, antes de cair para 546 bilhões de dólares em 2018, de acordo com um relatório anual divulgado neste mês pela Iniciativa de Política Climática (CPI), think tank ambientalista que presta consultoria sobre investimentos verdes.

A entidade calcula que sejam necessários 3,8 trilhões de dólares a cada ano para atingir as metas climáticas de Paris.

Usinas termoelétricas vistas no horizonte, diante do pôr do sol“Intervenção governamental para deter mudanças climáticas tem que ser muito mais agressiva”, alerta especialista

“A verba não basta”, diz Barbara Buchner, diretora de finanças climáticas da CPI. “Mas reservar apenas alguns pontos percentuais do investimento total para a ação climática nos levaria muito mais longe.”

Buchner quer ver uma “transformação econômica total”, que, antes de mais nada, significa acabar com o carvão, eletrificar o transporte, além de produzir e distribuir energia renovável suficiente para assegurar que a eletricidade seja livre de carbono. “A tecnologia existe”, diz. “Ou pode existir em breve, caso sejam dados incentivos suficientes para pesquisa e desenvolvimento em larga escala.”

Revolução Industrial como exemplo

“Esse tipo de transformação já aconteceu anteriormente”, afirma Ashoka Mody, economista da Universidade de Princeton. Ele deposita suas esperanças de crescimento econômico climaticamente neutro em parte, e talvez ironicamente, no ponto de virada histórico que iniciou a mudança climática: a Revolução Industrial. Naquela época, como agora, o sistema econômico global mudou fundamentalmente; e então, como agora, a transição produziu vencedores que lucraram e perdedores que precisaram de compensação.

A comparação de Mody, no entanto, vem com uma ressalva: sem uma ameaça iminente, a revolução industrial do século 19 foi se desenvolvendo à medida que a tecnologia e as práticas de negócios evoluíam. A adoção foi mais orgânica.

O rápido aumento da temperatura global, como previsto no relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) de 2018, significa que “não podemos esperar”, diz ele. “A intervenção governamental precisa ser muito mais agressiva”, alerta.

Embora exista um amplo consenso de que tanto uma taxação séria sobre o carbono quanto uma regulamentação forte são necessárias, Mody defende principalmente a última. “Normas funcionam. Restrições levam à inovação”, afirma, citando como exemplo o Clean Water Act (lei da água limpa) de 1972, que forçou a indústria dos EUA a encontrar modos de limitar a poluição da água e continuar lucrativa.

Para Mody, a questão não é se a economia pode crescer, mas como. “Tantas pessoas ainda são desesperadamente pobres”, observa. “Em seu nível mais básico, o crescimento econômico é o que permite que as crianças se saiam melhor que seus pais”, diz. “Sem crescimento, as pessoas vão perder o incentivo para participar da vida cívica.”
WD

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Usina fotovoltaica cobrindo o Saara

Entre várias iniciativas e controvérsias recorrentes envolvendo projetos com fontes alternativas de energia, uma proposta interessante é a de uma grande usina fotovoltaica cobrindo o deserto do Saara. Mas, afinal… quanta energia uma usina instalada no Saara (ou pelo menos em parte dele) geraria?1024px-Sahara_satellite_hires.jpg
Montagem a partir de imagens de satélite mostrando o deserto do Saara.

O deserto do Saara é popularmente conhecido como um dos maiores e mais quentes desertos do mundo. Ele ocupa uma área total de pouco mais de nove milhões de quilômetros quadrados, estendendo-se desde áreas próximas ao Oceano Atlântico até os vales férteis do rio Nilo e desde as regiões semi-áridas do rio Niger e do Sudão até o extremo norte do continente banhado pelo Mar Mediterrâneo. Seu território abriga um total de cerca de 2,5 milhões de habitantes e sua área é comparável à área de países continentais como os Estados Unidos, o Brasil, a Austrália ou a Índia.

O Saara é na verdade o terceiro maior deserto do mundo, superado pela Antártida e pelo Ártico e ocupando áreas na Argélia, no Chade, no Egito, na Líbia, em Mali, na Mauritânia, no Marrocos, no Niger, no Saara Ocidental e na Tunísia. O deserto ocupa 31% de todo o continente africano e ele inclui áreas que apresentam precipitações médias anuais próxima de zero até áreas que recebem precipitações médias anuais que variam desde 100 mm ao ano até 250 mm ao ano.

Em um passado distante, o rio Nilo corria até o Oceano Atlântico, mas o último realinhamento do eixo magnético terrestre (conjuntamente com outros fatores, claro!) levou o Nilo à sua atual localização. No passado, além disso, uma boa parte do deserto era coberto por densas florestas tropicais, mas o atual padrão de circulação global de massas de ar acabou alterando o clima na região.

Pela sua extensão continental e pela sua localização geográfica, eventualmente ressurgem sugestões de um investimento vultuoso para a instalação de uma enorme usina solar fotovoltaica cobrindo o deserto do Saara. Uma usina que, conforme quem a defende, poderia fornecer suprimentos de energia suficientes para toda a humanidade. “Uma energia limpa e renovável!

Mas, afinal, quanta energia uma usina dessas seria capaz de disponibilizar?

Considerando que não fosse possível cobrir todo o deserto e considerando que uma usina não ocuparia 100% de sua área com painéis fotovoltaicos, vamos calcular o que poderia ser fornecido por uma usina cujos painéis ocupassem uma área equivalente a (digamos) 10% da área total aproximada do deserto, citada acima. Desse modo, consideremos painéis ocupando 900.000 km².

Na região aproximadamente central do deserto, a energia incidente é igual na média a 6,25 kWh por metro quadrado por dia, que por sua vez é igual a 2.281,25 kWh por metro quadrado por ano. A energia anual varia entre 4,75 kWh/m²/dia no inverno e 7,22 kWh/m²/dia no verão. Considerando a área citada acima, a energia total será igual a 2.053.125 TWh por ano.

Os painéis fotovoltaicos podem ser fabricados em diferentes configurações e vêm atingindo eficiências um pouco superiores a 20% na conversão de energia solar em eletricidade. Isso significa dizer que a energia elétrica fornecida por esses painéis é equivalente a cerca de 20% da energia incidente, sendo a diferença perdida ou não aproveitada.

Considerando uma eficiência de 20% para os painéis solares e considerando também uma declividade para os painéis, adequada para aproveitar melhor a energia solar ao longo do dia, chegaremos a uma energia total anual igual a 386.000 TWh. Esse valor é igual a 17 vezes a energia elétrica total gerada ao redor do mundo durante o ano de 2013 e é igual a 555 vezes a energia gerada no continente africano nesse mesmo ano.

Finalizando, a fotografia abaixo mostra uma usina solar fotovoltaica operando no deserto de Atacama, no Chile, (que, como outras usinas, opera) em condições aproximadamente semelhantes às de uma usina no deserto do Saara. Existem outros meios para conversão de energia solar, alguns inclusive mais eficientes que os painéis fotovoltaicos e que serão tema de futuros artigos.

pv-atacama.jpg Usina solar fotovoltaica instalada no deserto de Atacama, no Chile.

Uma usina desse tipo, com essas dimensões, estaria disponibilizando energia em região distante dos grandes centros consumidores e seria necessária portanto ainda transportá-la até as pessoas e indústrias etc que a consumiriam. Isso exigiria obras de infra estrutura e custos de transporte. Dificuldades superáveis mas que podem facilitar a adoção de outras soluções.

Além disso, as energias renováveis se prestam melhor para a geração distribuída de energia, levando desenvolvimento social e econômico às comunidades que as adotarem (o que também será tema de artigo futuro). E uma usina fotovoltaica enorme atuaria como um fornecedor centralizado, portanto contrariando conceitos de utilização sustentável de recursos renováveis.
Obvius

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O mundo sob efeito das mudanças climáticas

Exposição coloca em evidência o mundo sob efeito das mudanças climáticas

Simulação do cenário do módulo [Des]ordem. Foto: Divulgação.

Jornalista experiente na área ambiental, Felipe Lobo cultiva, há pelo menos uma década, o desejo de comunicar melhor os efeitos das mudanças climáticas na vida comum das pessoas. A ideia se concretizou nesta quinta-feira (10), na Cidades das Artes, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde ficará até 10 de novembro a exposição O Dia Seguinte, fruto dessa ambição.“Sempre senti que estava faltando alguma coisa, que faltava um toque diferente para fazer com que as pessoas perceberem que falar sobre mudanças climáticas é muito mais do que falar sobre árvores, degelo ou qualquer assunto que possa parecer que está muito distante das pessoas”, explica Lobo, em conversa com ((o))eco por telefone.

A exposição ocupa dois andares na Cidade das Artes e está dividido em seis módulos, com foco em como as mudanças climáticas atinge as cidades. Leia a entrevista com Felipe Lobo.

*

Como surgiu a ideia? O que é o Dia Seguinte? 

Dia Seguinte surgiu de uma inquietação minha e a da Tiza Lobo, que é a minha sócia, de como as mudanças climáticas e o tema ambiental e sustentável como um todo é tratado, seja na grande imprensa, seja nas universidades e na comunicação de uma forma geral para as pessoas. Eu pelo menos, que trabalho com isso há doze, treze anos, sempre senti que estava faltando alguma coisa, que faltava um toque diferente para fazer com que as pessoas perceberem que falar sobre mudanças climáticas é muito mais do que falar sobre árvores, degelo ou qualquer assunto que possa parecer que está muito distante das pessoas.

Falar sobre mudanças climáticas, para mim, é muito mais falar sobre modelo de desenvolvimento. Falar sobre saúde, sobre segurança, sobre educação, cidadania, igualdade de gênero. Enfim, tudo o que importa para o nosso dia a dia.

Ao longo desses últimos tempos viemos pensando em como a gente poderia mostrar mais claramente como esse assunto é fundamental, urgente e que pertence a todos nós, independente da nossa classe social, de onde a gente vive, do que a gente faz e com o que a gente trabalha. As mudanças climáticas significam muito para as nossas vidas. Todos nós nos importamos em ter saúde, em ter segurança, paz, em ter tranquilidade, ter inclusão e tudo isso passa pelas mudanças climáticas.

Mas isso não é facilmente entendido pelo público

O jornalista Felipe Lobo. Foto: Arquivo Pessoal.

As pessoas acham que [as mudanças climáticas] vão acontecer daqui a muitos anos ou que são coisas que acontecem com os outros e não acontecem com elas ou que é um assunto que elas não precisam se preocupar agora. A gente quer mostrar que as mudanças climáticas, embora impactem em grande parte dos marginalizados de sempre, que são as mulheres, as pessoas mais pobres, a população negra, elas em algum momento podem atingir a todos. E mesmo que não atinjam, elas precisam ser tratadas com rigor porque elas já estão atingindo muitas pessoas e a gente precisa ter um pouco mais de empatia, um pouco mais de solidariedade com quem sofre com os efeitos. Decidimos que para tentar fazer isso de uma forma menos técnica, valia a pena fazer uma exposição sensorial, uma exposição imersiva, para que as pessoas consigam vivenciar de uma forma diferente o que são mudanças climáticas, o que elas significam para a gente e o que elas significam para as cidades.

E por que focar em cidades?

As cidades, embora ocupem apenas 2% da superfície terrestre, elas são lar de mais de 50% da população mundial — no Brasil, mais de 80%. Então, falar de cidades é muito importante porque elas são causa, consequências e também são a solução. São nas cidades que estão os governos locais, onde estão as academias, os recursos financeiros, as organizações da sociedade civil. São nos grandes centros urbanos que a gente começa a reverter este cenário também.

Me fala por que vocês escolheram inaugurar a exposição na Cidade das Artes e como está funcionando?

Primeiro que a gente queria fazer no Rio de Janeiro. Nós somos daqui e a gente sente que o Rio está muito carente de eventos culturais gratuitos. Decidimos pela Cidade das Artes, primeiro, porque é linda e estamos conseguindo fazer uma cenografia incorporada à arquitetura que está funcionando super bem. Em segundo lugar, porque ela fica na zona oeste da cidade. Quem é da zona sul acaba pensando apenas em Barra da Tijuca e a zona oeste tem Bangu, Santa Cruz, Tanque, Anil, Jacarepaguá etc. que são lugares que carecem muito de eventos culturais gratuitos. Então a gente quis ocupar o espaço da zona oeste com uma exposição como essa, super tecnológica, super imersiva para toda a família, cem por cento gratuito.

Há um braço do projeto que é educativo, temos ônibus para buscar e levar crianças de escolas municipais e estaduais para visitar a exposição.

Como ficou dividido a exposição?

Cartaz da Exposição.

Ficou dividida em cinco módulos. O primeiro deles se chama Bem-vindos ao dia seguinte e é composto por uma estrutura de andaime muito bonita com uma bola bem grande de materiais reciclados, muito plástico reciclado que ia ser descartado e a gente está usando com arte e depois a gente vai entregar para cooperativas de reciclagem. Embaixo dessa escultura vai ter um piso de LED que mostra uma água super límpida passando e depois começa a ficar super sujo com petróleo, com plástico, para as pessoas terem ideia do que se trata a exposição.

Logo em seguida tem um módulo que se chama [Des]Ordem, que é um módulo de choque. Que é uma estrutura com LEDs nas paredes e no teto e com sensações como vento, fumaça, enfim que a gente vai nesses LEDs a gente vai passar vários eventos climáticos extremos. Furacão, tempestade, inundação, seca, nevasca, para mostrar durante esses quatro minutos o que a gente vai viver no futuro. Hoje esses eventos são considerados extremos, mas no futuro podem ser frequentes se a gente começar a agir desde já. Então ali a gente quer chocar.

Logo depois tem outro módulo que se chama [Des]Humanidades, que é o módulo que a gente quer sensibilizar. Então a gente mostra o que as mudanças climáticas já causam hoje para o planeta e para as pessoas. A gente fala quem são os desabrigados, número de mortes, número de afetados etc. Tem um filme bem bonito que passa numa tela de 12 metros de comprimento e a gente tem do outro lado dessa tela seis depoimentos de brasileiros que sofreram com mudanças climáticas, seja com inundação, com seca, precisar migrar para outras cidades.

Logo depois a gente tem o módulo [Trans]Formação, que é o módulo em que a gente informa. Então, a gente chocou no Desordem, sensibilizou no Desumanidades, e no Transformação, a gente informa. É uma projeção mapeada com paredes bem grandes, globo solar, globo terrestre. Tem o piso também. Mostrando como as cidades foram construídas desde o Big Bang, passando pela Pangeia, época dos dinossauros e tal, até chegar na Revolução Industrial. E aí, a gente mostra como a partir da Revolução Industrial, a gente se transformou nessas mega e complexas metrópoles e como nós, seres humanos, passamos a ser responsáveis pelas mudanças do clima, a partir do momento em que a gente descobriu a queima de combustíveis fósseis etc. E no meio desse caminho, entre a [Trans]Formação e o [Des]Humanidades, tem um espaço com 8 telas touch, duas para cada módulo e uma tela de jogos, chamado espaço [In]Formativo. Nessas telas touch a gente faz várias iconografias, animações para explicar um pouco mais sobre mudanças climáticas: quais foram as reuniões mais importantes do clima? o que é poluição plástica? o que é água? o que é energia? o que saneamento? como o planeta está esquentando? quais são as projeções do clima para o futuro? e assim por diante.

Simulação do cenário do módulo [In]Formativo. Foto: Divulgação.

E por fim, tem um espaço que se chama [R]Evolução, que é o espaço onde a gente traz a esperança. Após tudo, a gente reforça que ainda está em tempo de mudar, embora o tempo seja muito curto, ainda tem tempo de mudar, a gente ainda pode transformar o planeta num lugar melhor, numa cidade inclusivas, mais sustentável. A gente mostra exemplos de cidades pelo mundo que já fazem o esforço de utilizar uma economia de baixo carbono e assim por diante. Então a gente termina a exposição com esse olhar de esperança e conectado à zona oeste. A ONU é um dos parceiros da exposição. A gente tem um painel mostrando como o clima pode ser diferente. Se a gente tiver as políticas públicas de base que consigam oferecer qualidade de vida para as pessoas e um caminho de transição para um mundo melhor.
Daniele Bragança

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Os indígenas brasileiros premiados na ONU

Miniusina dentro de aldeia da Terra Indígena Wawi transforma a polpa do pequi em óleo; 2018 teve produção recorde e exportações para os Estados Unidos

Um dos líderes da Terra Indígena Wawi, em Mato Grosso, Winti Kisêdjê relata à BBC News Brasil uma conversa recente entre um fazendeiro e um cacique de seu povo.

Grande produtor de soja da região de Querência (MT), o fazendeiro ofereceu à comunidade cursos para que indígenas pudessem trabalhar como operadores de máquinas agrícolas em sua propriedade. “O cacique respondeu que o fazendeiro não precisava mais nos procurar, porque a gente já tem o nosso trabalho”, conta o indígena.

Winti se referia à produção de óleo de pequi, fruto típico do Cerrado com múltiplas aplicações culinárias, cosméticas e medicinais. O projeto dos kisêdjê foi agraciado neste ano com o Prêmio Equatorial, com que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) reconheceu 22 soluções de desenvolvimento sustentável promovidas por comunidades locais e indígenas. Membros do grupo viajarão a Nova York neste mês para receber o prêmio, durante a Assembleia Geral da ONU.

A atividade – uma das duas iniciativas brasileiras premiadas entre 847 candidaturas de 127 países – se soma a uma crescente lista de empreendimentos reconhecidos internacionalmente com que indígenas brasileiros têm conciliado geração de renda e preservação ambiental.

No caso do óleo de pequi, a coisa vai além, pois os frutos são colhidos em terras que estavam degradadas após terem sido ocupadas por pecuaristas no passado. Depois de retomarem o território, nos anos 1990, os kisêdjê espalharam pequizeiros pelas pastagens – que, aos poucos, vão recuperando sua feição original de floresta de transição entre o Cerrado e a Amazônia.

Winti KisêdjêDireito de imagem LUCAS LANDAU/REDE XINGU +
Winti Kisêdjê (à dir.) e Tawaiku Yudjá em encontro de povos da floresta xinguanos na Terra Indígena Menkragnoti, no sul do Pará

A lista de casos de sucesso inclui a produção de mel e de óleo de babaçu por indígenas da bacia do Xingu e a instalação de miniusinas para beneficiar produtos de ribeirinhos na região da Terra do Meio, no Pará. Entre os clientes dos grupos estão marcas como Pão de Açúcar, Mercur e Wickbold, além de chefs como Alex Atala e Bela Gil.

As iniciativas se destacam num momento em que o governo Jair Bolsonaro defende abrir terras indígenas para a mineração e a agropecuária, argumentando que as atividades ajudariam melhorar as condições de vida dos grupos. O presidente costuma dizer que o “índio não pode continuar sendo pobre em cima de terra rica” – afirmação duramente criticada por indígenas presentes no 4º encontro da Rede Xingu+, conferência de povos da floresta acompanhada pela BBC entre 21 e 23 de agosto (leia mais abaixo).

14 etnias unidas no Xingu

Grupos indígenas brasileiros mantêm graus variados de trocas econômicas com a sociedade envolvente. Há situações em que as trocas são mínimas – caso de alguns povos isolados na Amazônia – até grupos com relações comerciais antigas e consolidadas. Em vários pontos do Brasil, comunidades indígenas ajudam a abastecer mercados locais com frutas, peixes e legumes. Na região do Alto Rio Negro (AM), por exemplo, boa parte da farinha de mandioca à venda em cidades é fabricada por comunidades indígenas.

A novidade é o surgimento de iniciativas que buscam agregar mais valor aos produtos, focando, em muitos casos, públicos de grandes cidades do Brasil e do exterior – como o óleo de pequi dos kisêdjê.

A experiência do grupo com o item foi apresentada no encontro, ocorrido na Terra Indígena Menkragnoti, no Pará. A reunião agregou líderes de 14 etnias indígenas e de quatro reservas extrativistas da bacia do Xingu para debater o cenário político brasileiro e alternativas econômicas a atividades que destroem a floresta.

Ao anunciar os vencedores do Prêmio Equatorial, o Pnud disse que os kisêdjê transformaram “o status quo, recuperando suas terras tradicionais e desenvolvendo um modelo empresarial inovador que usa árvores de pequi nativo para restaurar paisagens, fomentar a segurança alimentar e desenvolver produtos para mercados locais e nacionais”.

A outra entidade brasileira premiada foi o Conselho Indígena de Roraima (CIR). Segundo o Pnud, o grupo “garantiu os direitos de 55 mil indígenas sobre 1,7 milhão de hectares de terras ao promover a resiliência ecológica e social por meio da conservação de variedades de espécies tradicionais”.

PequiDireito de imagem FÁBIO NASCIMENTO/ISA
Pequizeiros cultivados na Terra Indígena Wawi (MT) em área que havia sido degradada por pecuária no passado

Produção recorde

O pequi dos kisêdjê é colhido e processado em uma miniusina, instalada em 2011 na aldeia Ngôjhwêrê. O projeto foi desenvolvido com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA), do Instituto Bacuri e do Grupo Rezek.

Em 2018, a produção de óleo chegou a 315 litros – um recorde. Parte foi exportada para os EUA, e o resto foi comercializado em supermercados da rede Pão de Açúcar e no Mercado de Pinheiros, em São Paulo.

Ao apresentar o caso no encontro da Rede Xingu +, Winti Kisêdjê comparou a produção de óleo de pequi a práticas do agronegócio.

Em algumas terras indígenas brasileiras, comunidades têm arrendado áreas para o plantio de grãos em troca de um percentual da produção. A atividade é hoje proibida, embora o governo Jair Bolsonaro e congressistas da bancada ruralista tentem mudar a legislação para permiti-la.

Para Winti, porém, o agronegócio é incompatível com os modos de vida das comunidades. “Não podemos pensar só em economia, temos que pensar na sobrevivência de nossa cultura”, ele afirmou.

Winti lembrou que o plantio de grãos no Brasil envolve o uso intensivo de agrotóxicos, que podem contaminar rios e animais. Por isso, diz ele, indígenas que optem por aderir à atividade talvez tenham de abrir mão de práticas milenares como a caça e a pesca para não correr o risco de se contaminar.

encontro Xingu +
Image caption Conferência que reuniu 14 etnias indígenas e quatro comunidades ribeirinhas na Terra Indígena Menkragnoti (PA)

Mel de índios do Xingu

Não foi a primeira vez que indígenas brasileiros receberam reconhecimento internacional por algumas de suas atividades econômicas.

Em 2017, grupos do Território Indígena do Xingu (MT) ganharam o Prêmio Equatorial do Pnud por seu trabalho na autocertificação de mel orgânico. O projeto envolve cem apicultores de 39 aldeias dos povos kawaiwete, yudja, kisêdjê e ikpeng.

Em 2018, a FAO (agência da ONU para agricultura e segurança alimentar) deu uma menção honrosa no prêmio “Saberes e Sabores” às mulheres do povo Xikrin da aldeia Pot-Krô, da Terra Indígena Trincheira Bacajá (PA), pela produção de óleo de babaçu.

O óleo, tradicionalmente usado como cosmético nas aldeias, é hoje processado em uma miniusina e comercializado também fora do território.

Outros itens produzidos por indígenas que têm atraído a atenção de grandes marcas no Brasil e no exterior são a pimenta produzida pelo povo baniwa, no Amazonas, e os cogumelos do povo yanomami da região de Awaris, em Roraima. Os chefs Alex Atala e Bela Gil já usaram os produtos em receitas.

Rede de cantinas

Na Terra do Meio, região formada por reservas extrativistas e terras indígenas no médio Xingu, no Pará, comunidades locais encontraram uma solução para a falta de capital de giro, problema que inviabilizava atividades econômicas mais vultosas.

Os grupos formaram coletivos batizados de cantinas para processar e vender produtos da floresta extraídos sem desmatamento.

Hoje há 27 cantinas na região, que contam com oito miniusinas e produzem itens como farinha de babaçu, óleo de copaíba e castanha-do-pará. A clientela da rede conta com multinacionais como Mercur, Firmenich e Wickbold, além de prefeituras da região.

Entre 2009 e 2018, as cantinas comercializaram produtos no valor de R$ 3,75 milhões, dos quais R$ 2,08 milhões em 2018. O capital de giro dos coletivos é de cerca de R$ 500 mil.

Integrante da rede e moradora da Reserva Extrativista do Rio Iriri, a ribeirinha Liliane Ferreira, de 26 anos, criticou Bolsonaro por ele afirmar que povos amazônicos seriam pobres.

“Ele (Bolsonaro) diz que somos pobres porque não conhece a nossa realidade. A gente luta, temos dificuldades e pedras no caminho que temos de empurrar, mas temos nossos produtos da floresta. Não precisamos derrubar árvores para ter nosso sustento”, afirmou Ferreira.

aldeia
Image caption Casa dos homens da aldeia Kubenkokre, na Terra Indígena Menkragnoti, onde povos indígenas e ribeirinhos se reuniram para discutir política e alternativas a atividades destrutivas

Encurtamento de distâncias

Para Pablo Molloy, engenheiro agrônomo formado pela USP que assessora associações indígenas em seus negócios, os principais desafios enfrentados pelas comunidades para que iniciativas econômicas sustentáveis deslanchem são distâncias de três ordens.

A primeira é a distância geográfica entre vários dos territórios desses grupos e os locais onde os bens são comercializados, o que dificulta sua chegada aos mercados e encarece os produtos.

A segunda é a distância técnica – os cuidados necessários para que os produtos mantenham sua qualidade até os pontos de venda, fatores que exigem capacitação profissional e o uso de boas práticas do mercado.

A terceira é a distância de comunicação – a importância de saber contar a história desses produtos por meio de seus rótulos, tornando-os atraentes para consumidores que podem estar a milhares de quilômetros de seu local de origem.

Ele diz que os produtos premiados conseguiram encurtar essas três distâncias. Nesse processo, segundo ele, foi fundamental o fortalecimento das associações indígenas que encabeçam as iniciativas. “Elas têm CNPJ e são capazes de conversar com compradores nas grandes cidades ou no exterior”, afirma.

XinguDireito de imagem PLANET LABS
Imagem de satélite mostra avanço de fazendas de gado e soja nos limites de áreas protegidas da bacia do Xingu, em Mato Grosso

Soja x produtos da floresta

Molloy afirma que dificilmente uma atividade econômica de baixo impacto ambiental conduzida por indígenas ou ribeirinhos poderá competir, em termos de lucro, com atividades mais destrutivas que têm seduzido várias comunidades, como o garimpo, a extração de madeira ou o cultivo de grãos em larga escala.

“Pode ser que o óleo de pequi saia perdendo em relação a uma mala de dinheiro dada por um garimpeiro ou a um contrato de arrendamento de terras”, afirma Molloy. “Por outro lado, quando se colocam os dois negócios em perspectiva temporal, passamos a conversar sobre autonomia e liberdade.”

Segundo Molloy, uma comunidade indígena que passe a produzir soja “será um elo frágil em uma cadeia muito maior, onde sua palavra, sua autonomia e sua liberdade estão encurtadas”.

Já iniciativas sustentáveis que valorizem produtos locais permitiriam ao grupo “ser ator da construção daquele produto, definir seu preços, associar-se a ele para transformá-lo em dinheiro”.

Além disso, ele diz que atividades destrutivas podem se mostrar menos vantajosas ainda que resultem em lucros maiores, caso se considerem todos os seus impactos para a comunidade. Por exemplo, um grupo indígena que deixe de pescar e se banhar num rio contaminado por garimpo terá de gastar mais com comida adquirida na cidade e com outras formas de lazer. “Eles terão de gastar muito mais dinheiro do que gastariam caso suas tradições tivessem sido levadas em consideração”, afirma.

Mercados locais

Apesar dos avanços de várias comunidades em seus empreendimentos sustentáveis, Molloy diz que ainda há espaço para melhorias nesses casos – especialmente na comunicação com moradores de regiões vizinhas.

Um relato presenciado pela BBC no encontro da Rede Xingu+ ilustra esse ponto. Representantes do Território Indígena do Xingu disseram ter dificuldade para vender seu mel em mercados de municípios vizinhos, onde moradores teriam receio quanto à qualidade de produtos fabricados por indígenas – embora o item esteja nas prateleiras de uma das principais redes de supermercados do país, o Pão de Açúcar.

“Seria interessante que os mercados locais também pudessem ter contato com os produtos da floresta, o que passa pela desconstrução de preconceitos”, afirma.
BBC

Desmatamento,Meio Ambiente,Ecologia,Natureza,Blog do Mesquita 07

Os entraves à punição de crimes ambientais no Brasil

Embora legislação estabeleça penas e multas, lentidão do Judiciário e recursos infindáveis movidos por infratores contribuem para sensação de impunidade. Órgãos de fiscalização enfrentam falta de pessoal e de verbas.   

Agentes do Ibama em operação no Amazonas, em 2017Agentes do Ibama em operação no Amazonas, em 2017

A matemática das multas ilustra bem os entraves enfrentados no Brasil para a punição de crimes ambientais. Em 2017, por exemplo, o valor total das multas aplicadas pelo Ibama foi de R$ 3,2 bilhões.No entanto, a média histórica aponta que apenas 5% do valor cobrado acaba sendo pago. E da soma arrecadada, 80% são destinados ao Tesouro Nacional, e apenas 20% ao Fundo Nacional do Meio Ambiente – destinado à implementação da Política Nacional do Meio Ambiente.

O principal motivo por trás dessa inadimplência vultosa é o trâmite lento dos processos. Primeiramente, na estrutura interna do Ibama. Uma auditoria da Controladoria Geral da União concluída em abril deste ano encontrou 96,4 mil processos parados no principal órgão de fiscalização ambiental do país à espera de digitalização. As multas não cobradas somam R$ 20,8 bilhões.

Quando os processos chegam à Justiça, ficam em banho-maria devido às restrições operacionais dos tribunais e aos recursos infindáveis movidos por infratores que apostam na lentidão do trâmite visando à prescrição dos crimes.

Um dos exemplos mais notáveis desse cenário é o rompimento da barragem de Mariana (MG), em 2015, o maior desastre ambiental do país. Multada em R$ 350 milhões pelo Ibama, a Samarco, mineradora controlada por Vale e BHP Billiton, recorreu dos 25 autos de infração lavrados pela autarquia e não pagou nenhum deles até o momento.

Em seu balanço financeiro mais recente, divulgado em setembro do ano passado, a Vale prevê um orçamento de R$ 13 milhões para custear perdas judiciais no curto prazo. O valor corresponde a apenas 0,16% do que a empresa terá de pagar se for condenada nos processos ambientais em que está envolvida, que totalizam R$ 7,93 bilhões. A discrepância evidencia que os infratores contam com a estratégia dos recursos para se livrar das penas.

O processamento dos crimes é ainda mais lento em regiões menores. Em Santarém, município do Pará, estado com maior índice de desmatamento da Amazônia Legal, a Subseção da Justiça Federal tem quatro vagas para juiz. Antes de 2017, quando chegaram dois novos magistrados, apenas um exercia a função. Mesmo com a equipe maior, os casos julgados atualmente datam de 15 anos atrás.

Código Florestal e desmatamento ilegal

Para atenuar o clima de impunidade criado pela lentidão da Justiça, driblar a burocracia e assegurar a penalização, o Estado brasileiro buscou alternativas. Em 2008, o governo federal assinou o decreto 6.514, que autoriza o Ibama e órgãos conveniados a apreender equipamentos agrícolas, cabeças de gado, além de produtos e subprodutos gerados por atividades criminosas em casos de infração ambiental.

A medida impulsionou o combate ao desmatamento, que caiu quase 80% entre 2005 e 2012. Após esse intervalo, observou-se um aumento de 71% do indicador na Amazônia Legal entre 2012 e 2018. O ponto de virada é justamente o ano de aprovação do novo Código Florestal, 2012, que anistiou o desmatamento ilegal de 41 milhões de hectares, cujo reflorestamento foi abandonado.

“Essa anistia passou uma sensação de impunidade imensa”, avalia Paulo Barreto, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O especialista lembra que, mesmo antes do novo Código Florestal, os governos petistas se valeram de medidas provisórias para reduzir áreas de conservação, a fim de viabilizar projetos de hidrelétricas na região Norte.

“O agronegócio pensou: se o governo fez isso para o setor hidrelétrico, fará para nós também”, comenta Barreto. “Em resposta ao endurecimento da fiscalização ambiental, esse setor se organizou no lobby ruralista, e foi bem-sucedido no objetivo de anistiar o desmatamento ilegal.”

Ibama sob fogo

Apesar da escalada do desmatamento, os órgãos de fiscalização ambiental se mantiveram atuantes, apesar das restrições operacionais. O Ibama apresenta um déficit de 47% no quadro de servidores e pleiteia a abertura de um concurso desde o início de 2018, sem resposta do governo federal.

Neste ano, a autarquia vem tendo que lidar com problemas adicionais. Pela primeira vez, o presidente da República tem um discurso abertamente hostil à sua atuação.

Após desautorizar uma operação do Ibama contra roubo de madeira dentro da Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia, em um vídeo postado no Facebook, em abril, Jair Bolsonaro manifestou a intenção de mudar as regras sobre infrações ao meio ambiente estabelecidas no decreto 6.514 de 2008.

Além disso, o Ibama não foi poupado dos contingenciamentos orçamentários do governo federal. O repasse de R$ 368 milhões autorizado em 2019 no orçamento da União para despesas discricionárias, que não incluem pagamento de pessoal, foi limitado a R$ 287 milhões.

“Com esse valor, haverá muita dificuldade para finalizar o ano, e as perspectivas para 2020 são de um corte ainda maior. Se essas reduções de orçamento não forem revistas, o funcionamento do Ibama ficará inviabilizado”, alerta Suely Araújo, ex-presidente do órgão que deixou o cargo em janeiro deste ano.

Queda na fiscalização

Em meio às queimadas na Amazônia, o Ministério Público Federal (MPF) do Pará abriu investigações em quatro municípios do estado para apurar a diminuição do número de fiscalizações ambientais na região e a ausência da Polícia Militar no apoio às equipes de fiscalização.

Apesar de os dados oficiais indicarem aumento no desmatamento, e povos da floresta relatarem a emergência de crimes ambientais, o MPF tem recebido cada vez menos autos de infração lavrados pelo Ibama e pelo ICMBio. O procurador Camões Boaventura considera que a mensagem do Executivo tem sido a pior possível, marcada pelo desprezo à pauta ambiental e à ciência.

Cientista da Nasa analisa incêndios na Amazônia

“O estado do Pará, que historicamente lidera o índice de desmatamento no Brasil e também o de mortes por violência no campo, está desde o início do ano sem um superintendente nomeado no Ibama. O recado do governo é uma convocação à depredação da floresta”, critica.

Boaventura frisa, ainda, que o combate ao desmatamento não é uma opção, independentemente da afinidade com a pauta de quem está no poder.

“Está consolidado nas instâncias judiciais nacionais o entendimento de que restrições de cunho orçamentário não podem ser impostas indiscriminadamente a ponto de obstar a concretização das ordens constitucionais relativas aos direitos fundamentais da sociedade, como é o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, à saúde e à vida, todos de estatura constitucional”, afirma.

Penas brandas

O procurador do MPF considera, ainda, que a Lei de Crimes Ambientais, aprovada em 1998, é branda na penalização. Ele lembra que o dano direto ou indireto às unidades de conservação, incluindo o desmatamento, tem pena prevista de um a cinco anos, com margem para suspensões condicionais do processo. O crime de incêndio florestal, por sua vez, leva à reclusão de dois a quatro anos.

As operações Castanheira (2014) e Rios Voadores (2016), realizadas em parceria pelo MPF, Polícia Federal, Receita Federal e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente tiveram grande repercussão. O trabalho conjunto resultou na prisão de integrantes da cúpula do crime ambiental organizado, envolvidos em crimes como formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão fiscal.

Estima-se que a família Vilela, alvo da Rios Voadores, tenha movimentado R$ 1,9 bilhão entre 2012 e 2015 e destruído uma área de floresta equivalente ao município de Belo Horizonte.

Barreto, do Imazon, acredita que essa investida articulada do poder público pode ser a forma mais eficiente de causar prejuízos à atividade criminosa.

“São crimes com penas altas, que podem passar dos 50 anos de prisão, e envolvem bloqueio de dinheiro. Se pegarem cem quadrilhas desse tipo, o efeito é muito mais poderoso que emitir 8 mil multas”, sugere.

Ambiente,Água,MeioAmbiente,Recursos Naturais,Seca,Blog do Mesquita 01

A bateria do seu celular pode estar deixando pessoas sem água no Atacama

Por força do hábito, Sara Plaza sorri ao posar para a foto, mas quando fala sobre o que aconteceu com a terra ao redor de sua casa, as lágrimas começam a escorrer pelo seu rosto.

“Havia lagoas lindas lá embaixo, com centenas de flamingos”, diz ela. “Quando eles abriam as asas, você via as penas pretas e cor de rosa. Agora está tudo seco, e as aves foram embora.”

Peine, o vilarejo empoeirado onde ela mora no norte do Chile, está localizado em uma colina perto do Salar do Atacama, um salar de 3 mil quilômetros quadrados no deserto mais seco do planeta, próximo às gigantescas montanhas dos Andes.

“Era tão verde, agora é só um chão duro e rachado. Não podemos mais criar lhamas”, lamenta.

Sara diz que a mineração de lítio no Atacama está reduzindo a água doce dos aquíferos da região – camadas de rochas porosas abaixo do solo que atuam como reservatórios de água.

Atacama
O Salar do Atacama cobre uma área de 3 mil quilômetros quadrados

Demanda triplicou

O lítio, metal macio de coloração branco-prateada, é usado na fabricação de baterias para smartphones, laptops e carros elétricos.

A demanda disparou nos últimos anos – a produção global triplicou desde 2005, chegando a 85 mil toneladas em 2018, segundo o Serviço Geológico dos EUA.

O Chile é o segundo maior produtor mundial de lítio depois da Austrália. O país registrou uma produção de 16 mil toneladas no ano passado, concentrada apenas no Atacama, avaliada em US$ 949 milhões. Um aumento de 38% em relação a 2017.

Atualmente, existem apenas duas empresas de mineração de lítio na região – a americana Albemarle e a chilena SQM.

Embaixo do salar há um enorme reservatório subterrâneo natural de água salgada que contém sais de lítio dissolvidos.

Para extrair o lítio, os mineiros bombeiam a salmoura até a superfície e deixam evaporar ao Sol, resultando no carbonato de lítio – os dois principais importadores globais são a China (24%) e o Japão (22%). Esse sal pode então ser transformado em lítio metálico.

Vista aérea das piscinas de salmoura em mina de lítioDireito de imagem REUTERS
As empresas Albemarle e SQM bombeiam a salmoura do subsolo para extrair lítio

Extração de água doce

Embora haja preocupações contínuas sobre o impacto que a extração de água salgada está causando no ecossistema mais amplo – incluindo as denúncias de que as lagoas de água salgada dos flamingos estão secando -, a questão mais urgente para Sara e outros moradores da região é que as empresas de mineração também estão acessando reservas de água doce.

Eles precisam da água doce para limpar as máquinas e tubulações, e também para fabricar potássio – produto derivado da salmoura -, que é usado como fertilizante.

Em meio aos tufos de grama amarelados que costumavam ser usados para pastagem, Sarah – que monitora o fornecimento de água para sua comunidade indígena – aponta para uma pequena estação de bombeamento, que coleta água doce subterrânea e a transporta para minas de lítio.

Cerca de 40 quilômetros ao norte, Jorge Cruz cultiva milho e alfafa em um pequeno lote de terra na vila de Camar, outra comunidade indígena perto do salar.

Ele diz que, se as empresas de mineração continuarem a usar água doce no ritmo atual, sua aldeia não sobreviverá.

“As aves se foram, não podemos mais criar animais”, diz ele. “Está ficando cada vez mais difícil plantar. Se piorar, teremos que emigrar”.

Diego Hernandez, presidente da Sonami, sociedade de mineração chilena, afirma que a quantidade de água doce usada pelas empresas de lítio é insignificante. Mas ele concorda que todos os níveis de água devem ser melhor monitorados pelas autoridades.

Jorge Cruz
Jorge Cruz diz que não pode mais criar animais pela falta de água doce

“O governo não tem um modelo hidrológico de todo o aquífero”, diz ele. “Deve ser capaz de tomar decisões fundamentadas com base em dados técnicos. Mas no Chile temos mais regras e leis do que dinheiro para fazer com que isso aconteça.”

Tanto a Albemarle quanto a SQM realizam seu próprio monitoramento da água subterrânea.

“Temos as ferramentas mais avançadas do setor para monitorar a saúde do Salar do Atacama”, diz Eric Norris, presidente da Albemarle.

Segundo ele, todas as medições da empresa estão disponíveis para a análise de autoridades e comunidades locais. E os engenheiros da empresa estão trabalhando em novas tecnologias para produzir uma quantidade maior de lítio usando menos água, uma vez que estão cientes da necessidade de gerenciar a região de forma sustentável.

Cristais de sal
O Chile exporta quase US$ 1 bilhão em lítio por ano

“Estamos muito empenhados em proteger esse ecossistema”, diz ele.

Ambas as empresas possuem cotas para a quantidade de água que podem extrair por ano. No entanto, as duas companhias já sugeriram algumas vezes que a outra está violando esses limites.

A Albemarle diz que está autorizada a bombear 442 litros por segundo de salmoura, e 23,5 litros por segundo de água doce.

Alejandro Bucher, vice-presidente de meio ambiente da SQM, afirma que a sua empresa também está comprometida em conduzir a atividade de maneira sustentável.

Mas, segundo ele, os ecossistemas do Atacama são extremamente dinâmicos e apresentam variações importantes de um ano para o outro.

Bucher acrescenta que os analistas não devem interpretar essas variações como mudanças permanentes no ambiente local.

“Nosso monitoramento ambiental de longo prazo, que é avaliado regularmente pelas autoridades ambientais, mostra que os ecossistemas estão intactos, incluindo áreas de vegetação, lagoas e populações de flamingos”, diz ele.

Sara Plaza ao lado de uma bomba de água doce
Sara diz que as duas empresas de mineração usam bombas como esta para ter acesso à água doce

Mais água saindo do que entrando

Mas alguns órgãos do governo estão expressando preocupação incluindo a agência estatal de desenvolvimento, Corfo.

No ano passado, foi constatado que havia mais água doce e salmoura saindo do sistema por meio de bombeamento e evaporação do que entrando por meio da chuva e da neve.

Não foi possível determinar, no entanto, se a mineração de lítio ou cobre era especificamente responsável. As minas de cobre, a mais de 80 quilômetros de distância, estão acessando as mesmas fontes de água doce e canalizando para suas instalações.

Grupos locais gostariam que houvesse uma abordagem conjunta para gerenciar a água do Atacama, e querem que o governo garanta que as comunidades vizinhas tenham água doce suficiente para agricultura e consumo próprio.

“O [atual] nível de extração de água está causando danos reais ao ecossistema e às comunidades próximas”, afirma Gonzalo Pimentel, da Fundação Deserto do Atacama, instituição sem fins lucrativos que apoia comunidades locais.

Flamingos na parte mais úmida do desertoDireito de imagem GETTY IMAGES
Dizem que os flamingos, que fazem ninho na região, são cada vez menos comuns no salar

O que não vai acontecer, no entanto, é qualquer interrupção na mineração de lítio.

Várias empresas internacionais estão negociando a obtenção de licenças com o governo para se juntar à Albemarle e à SQM na extração.

O congressista pró-governo, Guillermo Ramirez, diz que, como um país dependente da mineração, há tempos o Chile precisa conciliar as necessidades de água da população com as demandas da indústria.

Ele afirma que o governo vai atuar sempre para garantir que as comunidades tenham água – que o essencial é a boa regulamentação do setor de mineração. No entanto, ele acredita que o potencial do lítio é valioso demais para ser ignorado.

Sara está com medo.
“Vamos ficar aqui sem água, sem animais, sem agricultura – sem nada.”

Amazônia,Beasil,Desmatamento Pecuária,Blog do Mesquita

Calha Norte: gado adentra maior área protegida de floresta tropical do mundo

Vista Alegre do Cupim, na borda da Floresta Estadual do Paru, uma das mais ameaçadas pelo desmatamento. Foto: Marcio Isensee e Sá.

Poucas partes da Amazônia correspondem tanto à ideia da floresta intocada quanto a Calha Norte do Pará. Situada ao norte do Rio Amazonas e que faz fronteira com Guiana e Suriname, esta região abrange uma área de 270 mil km², igual à soma dos estados de São Paulo e Alagoas. Do total do território, 82% é formado por Unidades de Conservação, Terras Indígenas e Quilombolas, que criam um escudo protetor contra o desmatamento. Até 2017, 9,6% do território havia sido desmatado. 97% desse desmatamento ocorreu fora das áreas protegidas, uma demonstração da sua eficácia na proteção da floresta.

Além da criação e gestão das áreas protegidas, o isolamento é decisivo na preservação dessa região. Otávio Peleja de Sousa é mestre em Ciências Biológicas e ex-servidor do Ideflor-bio, órgão do Pará responsável pelas unidades de conservação estaduais. Ele mesmo nunca conseguiu pôr os pés em algumas das áreas das quais foi gestor: “Não existem estradas nem rios navegáveis. As pessoas que navegam nesses rios são os indígenas, que possuem embarcações próprias para isso”. Uma atividade, porém, tem conseguido, aos poucos, romper essa barreira. Entre 2000 e 2017, o rebanho bovino dos nove municípios da Calha Norte passou de 515 mil para 957 mil cabeças de gado, um aumento de 85%. “Tem havido especulações para venda de terras, inclusive com emissão de cadastros ambientais rurais [registros de imóveis rurais] dentro de Unidades de Conservação. Então, ainda tem muita floresta na Calha Norte, mas ela não é imune”, afirma Jakeline Pereira, pesquisadora do Imazon.

“Barão do Rio Branco: ao anunciar o projeto, o General Maynard Marques de Santa Rosa, Secretário Especial de Assuntos Estratégicos, disse que a rodovia vai integrar ‘uma área até então desértica’”

A expansão do rebanho bovino coloca em risco uma área central do Escudo das Guianas, maior corredor de floresta tropical do mundo formado pelas Guianas, Suriname e pelas áreas amazônicas de Brasil, Venezuela e de uma ponta da Colômbia. Segundo Peleja de Sousa, trata-se de um grande bloco de endemismo ‒ onde há espécies que só vivem ali: “Essa região como um todo é considerada um ponto estratégico para a conservação da biodiversidade”. Segundo Peleja, a criação de unidades de conservação estaduais, em 2006, teve como objetivo fazer um efeito tampão no desmatamento, “tendo em vista que toda a parte sul desse bloco, mais próxima ao rio Amazonas, já estava sendo povoada e tomada pela habitação, pecuária e agricultura”.

((o))eco foi até uma das regiões onde essa pressão sobre as áreas protegidas é mais visível. A reportagem saiu do município de Monte Alegre e seguiu na direção norte através da rodovia PA-254, passando pelas comunidades de Mulata, Limão e Jatuarana, até chegar à vila de Vista Alegre do Cupim, já dentro do município de Prainha. “Essa comunidade está bem na borda da Floresta Estadual do Paru. Algumas propriedades já estão entrando para dentro da área protegida. O gado tem esse poder de ir avançando e o pessoal vai ocupando o território com ele”, explica Pereira, referindo-se à esta área protegida de 3,6 milhões de hectares.

A estrada de chão estava praticamente intransitável para veículos sem tração nas quatro rodas, apesar do fim da estação das chuvas. As péssimas condições de acesso, no entanto, não impediram fazendeiros de desenvolverem ali rebanhos de até 3 mil cabeças de gado. É o caso de José Joaquim de Sousa Azevedo, que tem uma fazenda de 2 mil hectares. Os animais são levados por atravessadores e vendidos para frigoríficos em Manaus. Quincas, como é mais conhecido, reclama não poder expandir as pastagens por causa das leis ambientais: “A maior dificuldade é aumentar pasto. Você não pode por causa dessa situação, do meio ambiente. Você fica arrendando pasto do pessoal que não tem gado”.

Ele lembra que, quando chegou na região, em 1997, “era só selva”, o que foi mudando com a chegada de migrantes de outros estados, principalmente do Centro Oeste. A terra barata era o principal atrativo para vir se instalar nesta área isolada. Nos anos 1990, Quincas comprou um lote de 100 ha por R$ 8 mil. Hoje, o mesmo terreno vale R$ 100 mil.

Nós estamos falando do maior bloco de áreas protegidas do mundo, formado por territórios quilombolas, terras indígenas, unidades de conservação de uso sustentável, de proteção integral. Falando de áreas onde existe comprovação de perambulação de povos isolados”Joanísio Mesquita, Ideflor-bio

A possibilidade de deixar de ser empregado para se tornar dono do próprio chão foi o que atraiu Eliseu Ricardo Schneider para a Calha Norte do Pará, após uma longa andança pelo Brasil. Ele saiu com oito anos de Santa Catarina para ir com a família para o Mato Grosso. Aos 22 anos foi para Castelo do Sonho, no Pará. Em 2004, um conhecido falou de um lugar onde as terras eram muito baratas. Schneider fez as malas e comprou 277 hectares por R$ 15 mil reais em Vista Alegre do Cupim. Mas seu rebanho é bem mais modesto que o de Quincas. São 160 cabeças de gado que ele vende ali mesmo na região, e que garantem o sustento dele, da esposa e dos sete filhos.

Schneider até tentou diversificar a produção com uma roça de mandioca, mas acabou desistindo: “Não deu para dar continuidade. Só no manual, na enxada, não tem como tu sobreviver”. Assim como Schneider, Rosimar Fátima Bianchin também nasceu em Santa Catarina e passou por Castelo do Sonho até chegar à Calha Norte. Ela é servente na escola da comunidade de Cupim, e tem um rebanho de 100 cabeças de gado que usa como investimento: “Quando precisa de um dinheiro extra a gente vende um boi. Se a gente ficou doente, com o salário a gente não faz tudo”.

Além de grandes fazendeiros, a terra barata da Calha Norte atraiu pequenos agricultores de outros estados . Foto Marcio Isensee e Sá.

Uma vez por semana, Bianchin sai de sua casa na vila e vai até a propriedade olhar os animais: “Não dá muito trabalho”. E ao contrário da lavoura, em que é preciso tirar o produto da terra e transportar até a cidade, o boi dá uma mãozinha no deslocamento: “Aqui as estradas sempre foram ruins. Por isso que todo mundo mexe com gado, porque o gado anda a pé. Tu leva até um ponto de venda e lá tu embarca no caminhão”.

No primeiro semestre de 2018, os fiscais ambientais identificaram uma grande fazenda dentro da Floresta Estadual do Paru, com mil cabeças de gado. Joanísio Mesquita é servidor do  Ideflor-bio e coordenador de três unidades de conservação estaduais, entre elas a Floresta do Paru. Ele conta que o invasor construiu uma estrada por debaixo das árvores para escoar a produção, sem ser notado durante os sobrevoos das equipes de fiscalização. “Apesar de estar em uma área ilegal, tudo aponta que ele conseguia comercializar o gado”, diz Joanísio. Na ocasião, o Ideflor-bio promoveu a remoção da fazenda. Além de Paru, a expansão da pecuária ameaça principalmente as florestas estaduais de Trombetas e de Faro, que também estão mais ao sul da Calha Norte.

Dos oito frigoríficos cuja área de compra de gado inclui os municípios da Calha Norte do Pará, três não assinaram o TAC da Carne, acordo judicial em que os frigoríficos se comprometem junto ao Ministério Público Federal (MPF) a não comprar gado de áreas de desmatamento ilegal, unidades de conservação ou trabalho escravo. São eles: Bovinorte, de Itacotiara (AM), Mat. Frig. Amazônia Empreendimentos e Matadouro Braga Empreendimentos, ambos do Amapá.

Energia e asfalto são promessas de mais bois

Manuel Raimundo Santana é trabalha como extensionista rural da Emater-Pará e se define como “mini” criador de gado. Ele explica que a cidade de Monte Alegre, que possui o maior rebanho da região (234 mil cabeças), comercializa cerca de 15 mil animais por mês. Os animais são embarcados no Rio Amazonas e levados vivos para serem abatidos principalmente em frigoríficos de Manaus, Macapá e Santarém. Além disso, a cidade vende gado jovem para fazendas de recria: “Devido à melhoria genética do nosso rebanho você já encontra gado de Monte Alegre em vários estados desse país: São Paulo, Goiás, Mato Grosso…”, orgulha-se Santana.

A dificuldade de acesso ‒ para chegar aos municípios da Calha Norte é preciso atravessar o Rio Amazonas ‒ sempre foi considerada um entrave para o desenvolvimento da região. Mas a promessa de novas obras de infraestrutura pode mudar este cenário. “A região fez muito lobby político a respeito do asfaltamento da PA-254. Se ela vier a ser asfaltada, aí sim, a gente acredita que não há mais limites de melhoria da criação do rebanho bovino de Monte Alegre”, diz Santana, referindo-se à mesma estrada que a reportagem usou para chegar à Vista Alegre do Cupim.

Péssima condição da estrada não impede criação de fazendas com até 3 mil cabeças de gado em Vista Alegre do Cupim. Foto: Marcio Isensee e Sá

Mas há outras obras no horizonte. No início do ano, o governo federal anunciou para a Calha Norte o Projeto Barão do Rio Branco, que prevê a construção de uma usina hidrelétrica no Rio Trombetas, uma ponte sobre o Rio Amazonas, no município de Óbidos, e a extensão da BR-163 até a fronteira com Suriname. Ao anunciar o projeto, o General Maynard Marques de Santa Rosa, Secretário Especial de Assuntos Estratégicos, disse que a rodovia vai integrar “uma área até então desértica”.

Mas se por um lado anima a economia local, a abertura e melhoria de estradas é uma ameaça à conservação da floresta. “Na Amazônia, onde você abre estrada, você abre possibilidade para o desmatamento”, afirma Joanísio Mesquita. Ele lembra que, ao contrário do que pensa Santa Rosa, a Calha Norte está longe de ser um vazio demográfico: “Nós estamos falando do maior bloco de áreas protegidas do mundo, formado por territórios quilombolas, terras indígenas, unidades de conservação de uso sustentável, de proteção integral. Falando de áreas onde existe comprovação de perambulação de povos isolados. É uma floresta muito habitada”.

((o))eco procurou os órgãos de fiscalização ambiental responsáveis pela Calha Norte do Pará. A assessoria de imprensa do Ministério do Meio Ambiente (MMA) não respondeu à solicitação. Funcionários do governo que não quiseram se identificar afirmam, no entanto, que a falta de pessoal prejudica a fiscalização do Ibama na área. A Gerência Executiva do Ibama em Santarém, responsável pela área da Calha Norte, tem apenas 6 fiscais para atuar em cerca de 30 municípios. Diante da falta de efetivo, os fiscais concentram seus esforços nas áreas das BRs 163 e 230 (Transamazônica), onde a pressão do desmatamento é constante.

O Ideflor-bio, que responde pelas Unidades de Conservação estaduais, afirma que as ações de combate ao desmatamento ilegal acontecem de forma contínua ao longo de todo ano. Além de atividades de sobrevoos sobre as áreas protegidas, o órgão destaca atividades de educação ambiental e a formação de agentes ambientais comunitários. Já a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, responsável pela fiscalização ambiental fora das unidades de conservação, informou que vem intensificando as ações de combate ao desmatamento em todo o Pará, mas “não divulga informações específicas sobre ações para não prejudicar o andamento das operações”.
Fernanda Wenzel

Só dói quando eu rio,Blog do Mesquita

Brasil da série “Só dói quando eu rio”

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Mudança climática ameaça produção de alimentos, alerta ONU

Ao mesmo tempo que contribui para alterações climáticas, sistema alimentar atual é fortemente afetado por suas consequências, aponta IPCC. Relatório ressalta necessidade de conter desmatamento e monoculturas.    

Plantação de sojaMonoculturas, como a soja e o milho, prejudicam o solo, destaca relatório

A população da Terra está crescendo e, com ela, o consumo. Esta tendência só irá aumentar em um futuro próximo, mas os recursos do planeta são limitados – e o solo não é uma exceção. Um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicado nesta quinta-feira (08/08) foca a conexão entre o uso da terra e seus efeitos sobre a mudança climática.

O relatório destaca como, em uma espécie de círculo vicioso, solos e florestas doentes agravam as mudanças climáticas, que, por sua vez, causam impactos negativos na saúde das florestas e do solo.

As conclusões do IPCC são resultado de dois anos de trabalho de 103 peritos de 52 países, que participaram voluntariamente do estudo. Antes do seu lançamento, o relatório foi discutido com os governos no início de agosto em Genebra, na Suíça, e aprovado por consenso por todos os países que participam do IPCC.

O relatório aponta que, se o aquecimento global ultrapassar o limite de 2ºC estabelecido pelo Acordo de Paris,  provavelmente as terras férteis se transformarão em desertos, as infraestruturas vão se desmoronar com o degelo do permafrost, e a seca e os fenômenos meteorológicos extremos colocarão em risco o sistema alimentar.

É um quadro sombrio, mas os autores do IPCC enfatizam que as recomendações do relatório poderiam ajudar os governos a prevenir os piores danos, reduzindo a pressão sobre a terra e tornando os sistemas alimentares mais sustentáveis, enquanto atendem às necessidades de uma população crescente.

“Minha esperança é que este relatório tenha algum impacto sobre como consideramos a terra no contexto das mudanças climáticas e sobre as políticas que promoverão a gestão sustentável da terra e sistemas alimentares sustentáveis”, afirmou à DW Alisher Mirzabaev, coautor do relatório do IPCC.

Solos e florestas

Os solos e as florestas são aliados perfeitos contra as alterações climáticas. Eles atuam como sumidouros de carbono, reservatórios naturais que impedem que o CO2 chegue à atmosfera. Como aponta Barron Joseph Orr, cientista chefe da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a gestão insustentável os transforma no oposto: em grandes contribuintes para as mudanças climáticas.

Da área terrestre do mundo que não é coberta por gelo, cerca de 70% já estão sendo usados para a produção de alimentos, têxteis e combustíveis.

Os ecossistemas como as pradarias são fundamentais para um clima estável, embora sejam muitas vezes ignorados. Estas vastas áreas, que em grande parte são desprovidas de árvores e arbustos, atuam como grandes sumidouros de carbono. Elas também permitem que o gado paste sem que seja realizado o corte de árvores. A tendência de usar essas terras para lavouras significa uma maior liberação de CO2 para a atmosfera.

“Enquanto é dada muita atenção às florestas, savanas e pradarias são uma paisagem que devemos abordar urgentemente”, afirmou João Campari, líder global para a prática de alimentos da WWF Internacional, em entrevista à DW. “Mais de 50% da conversão para a produção frutífera ocorre em pradarias e savanas.”

As turfeiras, por exemplo, tipo de área úmida que cobre apenas 3% da superfície terrestre, são outro importante sumidouro de carbono, mas constituem até 5% das emissões globais anuais de CO2. Cerca de 15% das turfeiras conhecidas já estão destruídas ou degradadas.

Impacto do sistema alimentar

O relatório prossegue delineando a forma como o nosso sistema alimentar contribui para as alterações climáticas, mas também é fortemente afetado pelas suas consequências. Prevê-se que os rendimentos das colheitas diminuam devido às mudanças climáticas e estima-se que os preços dos alimentos aumentem proporcionalmente. Os preços globais de cereais poderão aumentar até 29% até 2050, afirma o relatório do IPCC.

Nos EUA, por exemplo, as mudanças climáticas possam reduzir a produção de milho e soja em até 80% nos próximos 60 anos se as emissões continuarem a aumentar, afirmou Campari à DW, citando um relatório anterior do Departamento de Agricultura dos EUA.

Infografik Lebensmittelverschwendung PT

Um relatório do Banco Asiático de Desenvolvimento também alertou para o declínio dos produtos agrícolas básicos. No sul da Índia, por exemplo, a produção de arroz pode cair 5% até 2030 e mais de 14% até 2050.

O aumento dos eventos climáticos extremos ameaça perturbar as cadeias alimentares, gerando uma perda de alimentos que leva à subida de preços. Um terço dos alimentos produzidos anualmente já é perdido ou desperdiçado. O desperdício de alimentos – da energia que vai para a produção de alimentos até os alimentos que apodrecem nos aterros sanitários – representa 8% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Além disso, os pesquisadores descobriram que maiores concentrações de CO2 afetam a qualidade dos alimentos e reduzem seu valor nutricional. Eles alertam ainda que isso pode contribuir para a segurança alimentar global. Estima-se que 821 milhões de pessoas sofrem com a fome e que 1,5 bilhão carecem de micronutrientes essenciais na sua dieta, como ferro ou zinco.

Hora de governos e cidadãos agirem

O novo relatório do IPCC não é apenas um aviso, mas também um apelo à ação e um lembrete de que ainda há esperança. “As soluções estão disponíveis. Em muitos casos, trata-se de uma aplicação em maior escala”, afirmou Mirzabaev.

Embora as soluções variem de região para região, elas se sobrepõem em grande parte. Isso começa com a otimização das áreas existentes para a produção de alimentos e a reabilitação dos 2 bilhões de hectares de terras já degradadas mundo afora.

“Precisamos parar o desmatamento e converter novas terras para o cultivo de alimentos”, disse Campari.

O relatório do IPCC aponta que as emissões de CO2 vêm principalmente do desmatamento de florestas para novas terras agrícolas; e as emissões de metano, outro gás do efeito estufa, da criação de gado e de campos de arroz.

O documento também descreve medidas para ajudar os solos a absorverem mais carbono e evitar a erosão, como a substituição de monoculturas – como soja ou milho, cultivados em grandes áreas – por uma variedade de culturas. Solos mais saudáveis produzem mais, são menos vulneráveis a condições climáticas extremas e levam a um fornecimento de alimentos e rendimentos mais estáveis.

Mas os especialistas dizem que essa mudança não pode acontecer sem a participação dos decisores políticos. Eles devem ultrapassar a fase de dizer que estão comprometidos e aplicar efetivamente medidas concretas com base nas recomendações do relatório. Eles devem também trabalhar de forma integrada, envolvendo todos os setores, desde o financeiro até a saúde.

“Há uma concorrência percebida entre gerar receitas para um país e manter um ambiente saudável, mas não há mais espaço para esses dilemas no século 21”, sublinhou Campari.

Infografik Klimaauswirkungen des Nahrungssystems PT

Orr ressalta que o planejamento tem sido tradicionalmente baseado em metas imediatas. Se o objetivo fosse o desenvolvimento econômico, a proteção da biodiversidade não estaria nos planos. No entanto, os desafios colocados pelas mudanças climáticas exigem uma abordagem mais holística.

O relatório do IPCC também apela aos decisores políticos para que criem um espaço adequado para que as pessoas assumam riscos, por exemplo, garantindo direitos de posse da terra ou incentivando a gestão sustentável da terra.

Os cidadãos também não devem ficar sentados à espera, dizem os especialistas. Mas nem sempre é fácil escolher o caminho certo. Comer carne tem um impacto, mas deixar de comer carne e comprar abacates também tem um impacto, ponderam.

Reduzir a quantidade de comida que acaba no lixo seria um bom primeiro passo. Uma maior conscientização sobre o que consumimos e como consumimos, além de uma dieta mais diversificada também faria diferença: 75% dos alimentos do mundo vêm de apenas 12 plantas e cinco espécies animais.

“Os consumidores precisam ser conscientizados de que o que eles escolhem para comer não nasce num prato. Há trabalho e recursos naturais envolvidos”, afirmou Campari.

Orr destaca que o novo relatório do IPCC não deve ser motivo para desistir, mas para olhar para frente. “Podemos falar o tempo que quisermos sobre o que está errado no mundo. Mas, neste momento, precisamos avançar e agir.”