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A Alta Idade da Mediocridade e a cruzada contra a racionalidade

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Todas as potências da velha mediocridade unem-se numa aliança para conjurá-lo: a grande mídia e seus “soldados” reprodutores e propagadores de suas ideologias, sobretudo, os
“filósofos de facebook” e suas diversas variações de “patente”.

No período atual, por alguns chamados de “Alta Idade da Mediocridade”, contemplamos uma nova Cruzada; agora contra a racionalidade. Há um ataque sistemático a discussões racionais. Um argumento racional postado no facebook, por exemplo, é logo atacado por frases prontas construídas por informações que não se sabe a fonte. Se cobrares a fonte de tais informações
será identificado em poucos segundos como herege, pois onde já se viu querer discutir um assunto de natureza social, política ou econômica, por exemplo, a partir de dados confiáveis! É o segundo pecado capital!

O primeiro é não reproduzir e levar à frente as informações medíocre que se espalham pelas redes sociais, sobretudo as imagens simplificadoras da “realidade”. A regra é ser medíocre. Está determinado pelas formas celestiais que não se deve sair da média das ideias. A ordem é ser mediano. Informado exclusivamente pela grande mídia; pois, medíocre que se preze é aquele que nunca leu um livro sobre o assunto, mas que possui muitas considerações sobre ele, além de ter um repertório (reduzido, é verdade) de “adjetivos esteriotipados” para usar nos “debates”.

Exigir nas redes sociais fontes confiáveis em um debate sobre política ou economia tornou-se um grande pecado nesses dias; com direito a ser queimado em um fogueira. “Filósofos, Sociólogos, Cientistas Políticos do facebook” uní-vos! Queimem todos os livros acadêmicos e sua pecaminosas universidades. Não falem (muito menos escrevam) a palavra “embasamento”, esta atrai demônios do passado. Não esqueçam de assassinar exemplarmente em praça pública os professores hereges… sobretudos os que tiverem gravados o símbolo da besta disfarçado de titulação. E comece a inquisição…
Por Cristiano das Neves Bodart

Trapaça Justificável

Peter Berger,Sociologia,Ética,Ciências,SociologiaÉtica e trapaça. O sociólogo Peter Berger escreveu livrinho delicioso: “Introdução à Sociologia”.


Um dos seus capítulos tem um título estranho: “Como trapacear e se manter ético ao mesmo tempo”. Estranho à primeira vista. Mas logo se percebe que, na política, é de suma importância juntar ética e trapaça.

Para explicar vou contar uma historieta: havia numa cidade dos Estados Unidos uma igreja batista. Os batistas, como se sabe, são um ramo do cristianismo muito rigoroso nos seus princípios éticos. Havia na mesma cidade uma fábrica de cerveja que, para a igreja batista, era a vanguarda de Satanás.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O pastor não poupava a fábrica de cerveja nas suas pregações. Aconteceu, entretanto, que, por razões pouco esclarecidas, a fábrica de cerveja fez uma doação de 500 mil dólares para a dita igreja. Foi um auê. Os membros mais ortodoxos da igreja foram unânimes em denunciar aquela quantia como dinheiro do Diabo e que não poderia ser aceito.

Mas, passada a exaltação dos primeiros dias, acalmados os ânimos, os mais ponderados começaram a analisar os benefícios que aquele dinheiro poderia trazer: uma pintura nova para a igreja, um órgão de tubos, jardins mais bonitos, um salão social para festas. Reuniu-se então a igreja em assembléia para a decisão democrática.

Depois de muita discussão registrou-se a seguinte decisão no livro de atas:
“A Igreja Batista Betel resolve aceitar a oferta de 500 mil dólares feita pela Cervejaria na firme convicção de que o Diabo ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus.”

Fernando Henrique Cardoso e a sociologia da contradição

Levantamento de agência de checagem mostra contradições de FHCChecagem mostrou idas e vindas de Fernando Henrique Cardoso em diferentes assuntos

Um levantamento da Agência Lupa, publicado nesta quinta-feira (15), apontou as diversas contradições nas declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Em curtos intervalos de dias, o tucano deu declarações favoráveis e contrárias ao posicionamento do PSDB no governo de Michel Temer. [ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

FHC chegou a afirmar que “preferiria atravessa a pinguela [governo Temer], mas se ela continuar quebrando, será melhor atravessar o rio a nado”, para declarar, dois dias depois, que o PSDB não tem mais condições de continuar na base aliada.

“Se tudo continuar como está, com a desconstrução contínua da autoridade [de Temer], pior ainda se houver tentativas de embaraçar as investigações em curso, não vejo mais como o PSDB possa continuar no governo”.

Eleições Diretas

Fernando Henrique também se contradisse ao opinar sobre a necessidade de eleições diretas, diante da crise do governo Temer. No ano passado, FHC reclamou a necessidade de “fazer uma emenda ao Congresso para a eleição direta porque eu não vejo como alguém novo, sem ter o leme na mão, legitimidade, vai fazer”.

Na semana passada, no entanto, durante o julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE, o ex-presidente disse que “uma emenda constitucional para antecipar eleições diretas representaria, neste caso sim, um ‘golpe constitucional'”.

Renúncia de Temer

Em meados de maio, FHC disse, sem citar Temer, que “se as alegações de defesa não forem convincentes, e não basta argumentar que são necessárias evidências, os implicados terão o dever moral de facilitar a solução, ainda que com gestos de renúncia”.

Dias depois, já no início de junho, o tucano disse que não havia motivos para Temer renunciar: “Quando o presidente Temer falou e eu também quando escrevi não tinha conhecimento da gravação. Eu não creio que a gravação seja suficientemente forte para levar a destituição de um presidente (…) Não vi que houvesse um elemento decisivo”.

Reportagem da Agência Lupa

O que o ressurgimento do fascismo pode nos ensinar

Fascismos,Hitler,Mussoline,Democracia,Blog do MesquitaPensamos que ele tinha desaparecido de vez. Foi um engano. Eis aqui por que.
Veja um pequeno exercício de reflexão.

Por Umair Haque¹

Publicado originalmente no site Bad Words, integrante da plataforma Medium.

Se no natal passado eu lhe tivesse dito que o principal candidato a presidente do país mais poderoso do mundo tivesse dito, abertamente, que concordava com a venda de armas, com campos de concentração, com proibições extrajudiciais e com direitos de sangue, a menos que você fosse um sócio atuante da Internacional dos Teóricos da Conspiração, você provavelmente teria dado uma gargalhada na minha cara.

E, no entanto… Aqui estamos nós, precisamente nessa realidade. E não se trata apenas de Donald Trump. O espectro mais tenebroso da política global, aquele que pensávamos ter sido exorcizado, de alguma maneira foi convocado e renasceu: é o ressurgimento do fascismo. Aquilo que chamarei, nesta pequena série de ensaios, de novo fascismo é um fenômeno global.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Marine Le Pen, a mais extremista dos políticos que contestam as lideranças nacionais desde Hitler… triunfou, com um terço dos votos, no primeiro turno das eleições de dezembro na França [1]. O mundo procura equilibrar-se à beira do precipício de uma Era das Trevas do Novo Fascismo – que se levanta, como um cérebro, da Escandinávia à Europa e da Turquia à Austrália.

Acredito que o Novo Fascismo, em sua individualidade, é o acontecimento político mais importante de nossas vidas. Trata-se de um momento crítico para a sociedade global – um momento decisivo. E, como todo momento decisivo, é um teste. Um teste que avalia o melhor de nós: se as sociedades civilizadas podem, de fato, continuar civilizadas, no sentido mais essencial dessa expressão – ou se corremos o risco de mergulhar, outra vez, numa era de guerra mundial e genocídio.

Isso lhe parece um exagero? Então, torne a ler o primeiro parágrafo deste ensaio e pergunte a si próprio se esperava que um possível presidente norte-americano defendesse campos de concentração… apenas um ano atrás. A primeira coisa que você precisa aprender sobre a ascensão do fascismo é que ele desafia suas expectativas de um mundo sensato. Ninguém espera – como na famosa frase do Monty Python – a Inquisição Espanhola.

Um produto de uma inconveniência econômica

Por conseguinte, eu irei discutir o Novo Fascismo nesta série de ensaios. No primeiro ensaio, explicarei sua ascensão; no segundo, a sua dinâmica: por que cresce tão rapidamente, pegando todo mundo de surpresa; no terceiro, discutirei como combatê-lo – se, na verdade, for possível combatê-lo.

Então, como ele surgiu? Minha explicação é simples – mas exigirá que você faça uma reflexão cuidadosa. Irei argumentar que o fascismo é um produto do extremismo – tanto de esquerda quanto de direita. Que o extremismo acabou com o centro – o que criou um vácuo no qual nasceram os Novos Fascistas, que combinam os piores elementos da esquerda e da direita.

Para começar, deixem-me dar uma ideia geral das quatro etapas pelas quais o fascismo cresce. Meu ensaio está incompleto e é simplificado em excesso, com certeza. Não pretendo escrever uma história definitiva do fascismo: simplesmente apresentar um retrato cru que possa ser usado para compreendermos em que etapa estamos.

Eis aqui a etapa incipiente do fascismo: vamos chamá-la estagnação.

O fascismo é sempre um produto de uma inconveniência econômica. A inconveniência cria uma sensação ardente de injustiça. O bolo da riqueza encolhe, desmorona e se deteriora. As sociedades começam a disputar a quem pertencem as fatias, que vão ficando cada vez mais finas, cada vez mais emboloradas.

Seres existencialmente inferiores

E aqui vem a segunda etapa do fascismo: vamos chamá-la demagogia.

Surge uma briga entre os líderes no sentido de fazer alguma coisa em relação ao problema da estagnação. Tanto a esquerda quanto a direita vão ficando mais extremadas. E aí acaba o centro. O vácuo que o centro ocupava dá espaço para um tipo de político inteiramente novo – um tipo de político que normalmente era freado pela esquerda em sua luta contra a direita, mas agora livre para combinar o que há de pior na esquerda e na direita.

Logo aparece um demagogo, que grita: o bolo pertence ao povo – e só ao povo! Ele sintetiza o que há de pior, tanto na esquerda quanto na direita. É um socialista, mas só para as pessoas certas. Mas também é um nacionalista e não reivindica apenas domínio e recursos, como terra: ele reivindica a superioridade, pelo sangue ou por deus, de um povo, para além dos recursos. Daí a expressão, paradoxal, “nacional socialismo”.

A perigosa apelação do demagogo é a seguinte: ele localiza a fonte de estagnação naqueles que não têm pertencimento, que são inferiores – não apenas moral, mas existencialmente – e os aponta com o dedo, aponta o veneno dentro da sociedade. É muito mais fácil acreditar que a sociedade está sendo envenenada por um conjunto de pessoas corruptas que não pertencem a ela, do que acreditar que o contrato social acabou e deve voltar a ser escrito – e assim se abre o caminho do demagogo para o poder.

E chegamos ao terceiro estágio do fascismo: a tirania.

Mas quem é “o povo”? Quem é, de fato, inferior e quem é superior? Quem merece os frutos do nacional socialismo – o direito a consumir fatias do bolo que encolhe, que é do que trata toda esta ideologia? E aí vem à tona a noção de volk: os verdadeiros moradores da terra, os herdeiros do destino, o direito de nascer, a superioridade. E como os definiríamos? Afinal, essa é uma pergunta traiçoeira, que não admite certezas óbvias. Você merece os recursos da Nação-Sociedade simplesmente por ter nascido ali? Ou porque você viveu ali? Ou seria porque seus avós já nasceram ali? É justamente a essas perguntas que a Nação-Sociedade, Na-Zi, começa a dedicar seus recursos. Imensas burocracias são organizadas, trilhas de papel são criadas, investigações são realizadas.

E aqui chegamos à última etapa: a autodestruição.

Busca-se saber quem é um “verdadeiro” cidadão. Depois, busca-se saber quem é um “verdadeiro” membro do volk [povo], por nascimento ou pelo sangue. E depois busca-se saber quem é “verdadeiramente” – e simplesmente – uma pessoa. Esse é o abismo. Isso porque, por essa lógica, se você não for um membro do volk, você deve ser subumano. É isso que significa não ser apenas moralmente, mas existencialmente inferior. Os subumanos, os não-volk, não são apenas o sorvedouro dos recursos minguantes da Nação-Sociedade, que não merecem qualquer fatia encolhida do bolo da Nação-Sociedade – na verdade, e em primeiro lugar, eles são o motivo pelo qual o bolo está encolhendo. Portanto, agora eles representam um problema. Um problema para o qual os volk precisam achar uma “solução”. Os líderes coçam a cabeça e chegam a uma conclusão. Soluções temporárias para problemas permanentes não são um bom negócio.

O que se precisa é de uma solução final.

Uma crença ideológica extremista

Agora, a sociedade está se destruindo a si própria. Isso porque nenhuma sociedade civilizada pode obedecer às ordens de expulsar, prender ou assassinar seus cidadãos por um motivo qualquer e continuar sendo civilizada. Mas isso é algo que os fascistas, que agora já compõem a maioria da população, dos volk, não conseguem ver. Eles só veem pureza, perfeição e um destino glorioso.

Tudo isso é o que Umberto Eco chamou o “fascismo eterno” – a dinâmica que cria qualquer fascismo, seja qual for a sociedade em que surge. Passemos, agora, a ser específicos. Onde se encaixa o Novo Fascismo no meu modelinho de fascismo eterno? Em que etapa nosencontramos?

De 1950 a 1970, os Estados Unidos se encontravam numa Idade do Ouro. Não era apenas o país mais rico, mais seguro, mais tecnologicamente avançado e mais educado: em média, suas famílias também eram. Ou seja, tinha elaborado um contrato social historicamente único, em que o crescimento econômico era amplamente compartilhado pela média de seus cidadãos.

Mas aí, alguma coisa deu errado – muito errado. Os rendimentos começaram a estagnar. A média das famílias começou a sofrer e o país logo ficaria para trás dos restantes mais avançados do mundo em simples termos humanos, como saúde, educação e poupança.

Por que o padrão de vida começou a estagnar na década de 70 – e continuou por quase uma década? A explicação é a seguinte. Num caso único entre as economias mais avançadas, os Estados Unidos foram quase totalmente consumidos por uma ideologia econômica de extrema-direita. A ideia era simplesmente de que a prosperidade lá de cima caísse na forma de gotas de chuva para os que estavam mais em baixo. Portanto, fundamentalmente, a renda foi redistribuída de baixo para cima – com a crença de que amanhã os beneficiados seriam os de baixo. E como foi executada essa redistribuição? Simples: cortando, com austeridade, os impostos lá de cima, retalhando o poder de negociação dos de lá de baixo com o mesmo rigor e financeirizando a economia, isto é, desregulamentando o mercado de capitais para que os de cima pudessem investir os lucros que estavam colhendo.

Desnecessário dizer que tudo isso estava em desacordo com a realidade. A classe média e a de baixo nunca gozaram de benefício algum – e nunca houve um pingo de evidência que sugerisse que gozariam. Essencialmente, os Estados Unidos rasgaram o contrato social de sua Idade do Ouro em nome de uma crença ideológica extremista.

Neoliberalismo retirou milhões da pobreza

E quando a estagnação se impôs, as instituições e os líderes brigaram sobre a forma pela qual o contrato social deveria ser reescrito – mas não o reescreveram. Assim, a estagnação continuou, ganhou força e a classe média não só deixou de prosperar como passou a encolher.

Recentemente, os Estados Unidos chegaram a ponto crítico histórico: pela primeira vez, a classe média é minoria. Nem você nem eu podemos dizer que isso “prova”, em termos acadêmicos, que isso é uma causa para o fascismo. No entanto, podemos dizer, com confiança, o seguinte: o fascismo é sempre um produto da inconveniência. Nos Estados Unidos, a classe média e seu padrão de vida atingiram seu pico por volta de 1970. Desde então, a classe média vem encolhendo continuamente. E nos dias de hoje, o fascismo vem crescendo precisamente no momento em que a classe média chegou a um ponto crítico, passando de maioria para minoria.

Teria a classe média fracassado devido a seus líderes e instituições? Estaria angustiada com isso e desesperada pela prosperidade? Sim. Mas não se trata disso. A questão é simplesmente a seguinte: a classe média está reagindo a seu próprio declínio dando seu apoio aos Novos Fascistas.

Mas isso é apenas metade da história. Segue-se a outra metade.

Enquanto a direita não se limitava a divulgar uma crença econômica extremista e não comprovada, a esquerda nem sequer compreendia com o que lutava. Em vez disso, uma geração de esquerdistas decidiu que a verdadeira oposição não era uma economia de direita local – e sim, uma política global chamada “neoliberalismo”.

Mas boa parte do neoliberalismo, em completa oposição à economia segundo a qual a prosperidade lá de cima cairia na forma de gotas para os que estavam mais abaixo, retirou, na realidade, milhões de pessoas da pobreza, da miséria e do desespero pelo mundo afora. Por que? Porque o liberalismo, tenha ele a definição que tiver, não é uma economia de conta-gotas. É precisamente o contrário: investe em instituições, em pessoas e em sociedades para que o excedente não se acumule na parte de cima.

Já apareceu um líder demagogo

No entanto, a esquerda começou a manifestar-se e protestar justamente contra as instituições que defendiam o mundo da economia de conta-gotas – o Banco Mundial, o FMI e a ONU. É claro que tenho certeza de que aqueles de vocês que forem de esquerda irão se opor a mim com veemência e dirão que eu sou uma pessoa detestável. O fato, entretanto, é que o FMI e o Banco Mundial foram criados por Keynes justamente para evitar que a riqueza se acumulasse no topo [da pirâmide] – e foi precisamente isso que eles fizeram. Portanto, vocês, esquerdistas, estão simplesmente provando uma terrível e profunda ignorância da história econômica. Perdoem-me por ser duro, mas agora devemos falar verdades nuas e cruas.

E esse erro trágico, histórico e colossalmente imbecil – a confusão da política de conta-gotas com o liberalismo, da esquerda com a direita – condenou a esquerda a um caminho de total irrelevância. Ao invés de lutar contra a direita, a esquerda passou a lutar… contra si própria.

Se você não acredita, responda: onde está a esquerda agora? Trava uma nobre e valente luta em favor dos… transgêneros em videogamespronomes de gênerobanheiros para todos os gêneros. Mas não diz uma palavra sobre a questão do Novo Fascismo. Organiza manifestações, protestos e movimentos em defesa dos primeiros, mas nada em relação ao último. Entende o que eu digo? A esquerda está lutando contra si própria, trava uma luta cada vez mais extremada contra a esquerda. Mas não enfrenta a direita.

Pessoas de bom senso podem discordar a respeito de banheiros para todos os gêneros – mas pessoas de bom senso não podem discordar sobre campos de concentração. No entanto, enquanto a esquerda se deixa consumir pela política de identidade sexual, as ideias fascistas começam a assumir o controle das sociedades por atacado (por exemplo, 47% dos norte-americanos concordam com a proposta de Trump de “banir” os muçulmanos). Com que se pode comparar isso? É como se você quisesse uma pedicure enquanto uma gigantesca gangrena devora sua perna… porque você quer marcar um encontro.

Portanto, a causa concreta da ascensão do Novo Fascismo é o extremismo. De ambos os lados – esquerda e direita. Podemos chamar o extremismo de direita fundamentalismo e o de esquerda, narcisismo. Mas ambos são extremismos. Nenhum dos lados prioriza uma nova redação do contrato social – apenas disputam suas fatias minguantes de um bolo que encolhe cada vez mais.

Portanto, o crescimento do extremismo de ambos os lados provocou o fim do centro. Esquerda e direita já não evitam os piores excessos. Consequentemente, a doença que combina o pior deambos tem liberdade para crescer e o nome desse câncer é fascismo.

Respondendo à pergunta: em que etapa de meu modelinho nos encontramos? Eu diria que estamos mais ou menos em um terço do arco do fascismo. Já ultrapassamos as etapas iniciais. Considerando o que dissemos acima, já passamos a etapa da estagnação e estamos quase nofinal da etapa da demagogia – pois já apareceu um líder demagogo. Não estamos simplesmente correndo o risco de que “aconteça aqui” em algum tipo de futuro improvável.

A exaltação da destruição

Minha história tem sutilezas. Tentei fazer uma distinção entre uma causa imediata e a causa definitiva. A causa definitiva do fascismo é a direita – mas a causa imediata é a esquerda. Em termos simples, as origens do fascismo estão no extremismo de direita – mas foi a irrelevância que se auto-impôs a esquerda que permitiu sua ascensão, e talvez até lhe tenha dado um impulso. Você pode discordar de minha história. É apenas uma síntese entre tantas outras. No entanto, eu o previno contra o extremismo de opostos que define a nossa época. Para explicar plenamente a ascensão do fascismo – por ser a mais venenosa fusão de ambos os lados –, devemos falar aberta e honestamente dos erros da esquerda e da direita.

Na história da ascensão do Novo Fascismo vemos precisamente os mesmos elementos que funcionam no fascismo eterno. O bolo encolhe. Os líderes e as instituições brigam – enquanto o bolo encolhe. Então, o momento crítico, quando o centro desaparece. O demagogo fica desimpedido para cantar sua canção das trevas. Cai a noite. E começa a Idade do Ouro dos volk, a longa marcha rumo à terra prometida por entre vales de sangue e de desespero.

Escrevi demais. Fiquei cansado, assim como você. Portanto, vamos parar por aqui para dar uma pausa e refletir. O fascismo, a venenosa mistura do que há de pior na esquerda e na direita, é um câncer que pode ter infectado o corpo político quando este estava entorpecido e minimizado, adoecido e frágil devido à estagnação. E a obrigação de todas as pessoas de bom senso é enfrentá-lo. Não apenas porque ele destrói e classifica  a destruição como um destino glorioso, nem porque ele mata e considera o assassinato como uma forma nobre de justiça, e sim, porque a exaltação da destruição é o fim de tudo aquilo que representa a civilização. Não apenas o tecido de nossas sociedades, mas a própria sobrevivência da humanidade.

[1] O partido de Marine Le Pen foi no entanto derrotado no segundo turno das eleições, também em dezembro de 2015

¹ Umair Haque é escritor, economista e diretor do Havas Media Lab

Novo capitalismo dissolve cooperação, desurbaniza cidades e expulsa pessoas

Novo capitalismo dissolve cooperação, desurbaniza cidades e expulsa pessoas

Marco Weissheimer – Richard Sennett e Saskia Sassen foram os debatedores do Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Quando eclodiu a crise financeira de 2007-2008, o sociólogo Richard Sennett acreditou que as pessoas iriam se rebelar contra as atitudes e o funcionamento do sistema financeiro internacional, responsável por rombos e falências cujas repercussões ainda estão presentes na economia mundial. Mas as pessoas não se comportaram da maneira que supôs que iria acontecer. O que teria acontecido?

O professor da Universidade de Nova York e da London School of Economics iniciou sua participação no Fronteiras do Pensamento, expondo essa expectativa frustrada e a perplexidade que se seguiu a ela. “Fiquei intrigado com a crise de 2007-2008. Por que as pessoas não estavam se rebelando contra ela?” – assinalou.

As reflexões de Sennet apontaram dois motivos centrais para que isso acontecesse. Em parte, afirmou, as pessoas não se rebelaram porque deixaram de acreditar na ação cooperativa e colaborativa. Uma das evidências desse fenômeno foi a redução da participação de trabalhadores em sindicatos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“A nova economia, neoliberal, enfatiza muito a autonomia e não a colaboração. As pessoas não ficam no mesmo emprego por muito tempo, não desenvolvem laços mais permanentes e não se associam com outras pessoas”, observou Sennett. Havia, portanto, razões ligadas à estrutura de funcionamento da economia para explicar a baixa participação.

A corrosão do caráter e da colaboração

Em parte, esse diagnóstico já está presente em seu livro “A Corrosão do Caráter: Consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo” (1998, publicado no Brasil pela Record), onde Sennett argumenta que o ambiente de trabalho dessa nova economia, com ênfase na flexibilidade e no curto prazo, inviabiliza a experiência e narrativas coerentes sobre a própria vida por parte dos trabalhadores, o que, por sua vez, impediria a formação do caráter.

No novo capitalismo, não haveria lugar para coisas antiquadas como lealdade, confiança, comprometimento e ajuda mútua. De 1998 para 2015, muita coisa aconteceu, mas a julgar pela reflexão que Sennett fez nesta segunda-feira em Porto Alegre sobre a possibilidade das cidades seguirem sendo espaços para se “viver juntos”, o déficit desses valores e princípios só se agravou.

Sennett: "A ideia de que preciso do outro para viver, de que é importante fazer parte de um grupo, tudo isso está desaparecendo". (Foto: Luiz Munhoz/Divulgação)

Um indicativo desse agravamento apareceu no segundo motivo apresentado pelo autor para tentar entender a não revolta das pessoas diante da crise provocada pelo sistema financeiro altamente desregulamentado. Sennett pesquisa há algum tempo a vida em comunidades carentes de cidades como Nova York e Paris.

Na década de 80, relatou, estudou uma comunidade deste tipo na capital francesa e constatou que havia muito espírito de colaboração e cooperação entre seus moradores. “Hoje”, constatou preocupado, “isso também está desaparecendo”.

“As pessoas passaram a viver em compartimentos, sem esse espírito de colaboração. Não sou sociólogo político, meu foco sempre foi a vida social dos indivíduos, mas o que me chama a atenção é que a ideia de interdependência está desaparecendo. A ideia de que preciso do outro para viver, de que é importante fazer parte de um grupo, tudo isso está desaparecendo”, afirmou.

A ausência de destino compartilhado

“Algo está errado com a nossa sociedade”, acrescentou Sennett, “com o modo como estamos tratando a questão da cooperação. O novo capitalismo está dissolvendo esses laços”. Ou, como o autor em seu livro de 1998: “Esse é o problema do caráter no capitalismo moderno. Há história, mas não narrativa partilhada de dificuldades, e portanto tampouco destino compartilhado. Nestas condições, o caráter se corrói e a pergunta “Quem precisa de mim?” não tem mais resposta imediata.

Sennett não apresentou nenhuma receita pronta para lidar com essa situação, mas apontou um caminho que considera necessário para a recuperação da experiência do convívio com o outro: a cooperação dialógica, termo tomado do linguista russo Mikhail Bakhtin, que reivindica um tratamento participativo, diverso e múltiplo na linguagem.

Contra a dissolução da interdependência e a corrosão da cooperação, Sennett defendeu a importância de nos tornarmos bons ouvintes, sensíveis à fala, mas também aos silêncios e gestos do outro, de estarmos abertos às ambiguidades e às diferenças. A cooperação envolve a capacidade de negociação entre essas distâncias e diferenças, defendeu. O autor não detalhou como essa postura comunicacional dialógica poderia enfrentar os mecanismos de dissolução da interdependência alimentados diariamente pelo novo capitalismo.

Saskia Sassen: "Fileiras de grandes prédios comerciais, estacionamentos e shoppings centers não fazem de uma região uma cidade." (Foto: Luiz Munhoz/Divulgação)

Uma marca da globalização: expulsar pessoas

Richard Sennett dividiu o palco do Salão de Atos da UFRGS com sua esposa, a socióloga holandesa Saskia Sassen, uma estudiosa dos impactos da globalização e das novas tecnologias na vida das cidades e também dos processos de migração urbana que ocorrem neste contexto. Para Saskia Sassen, as nossas cidades vivem uma crise derivada, entre outros fatores, do processo de concentração de renda ocorrido no mundo nas últimas três décadas.

Ao longo dos últimos trinta anos, defende, “houve perda de renda de metade da população mundial e tamanha concentração no topo que simplesmente chegamos ao limite. É a explosão disso que estamos vendo agora nas nossas cidades”. Em sua obra, Sassen defende que a globalização permitiu às grandes corporações terem uma geografia global da produção e da exploração, maximizando as possibilidades da velha lógica de obtenção do lucro, com práticas como a da terceirização e da redução dos custos do trabalho.

Uma das marcas características desse modelo, que se reflete na vida das cidades, defende a socióloga holandesa, é expulsar pessoas. Essas práticas de expulsão ocorrem de maneiras variadas: desemprego, expulsão de pequenos agricultores para as periferias cidades, expulsão dentro das cidades por mega-projetos imobiliários.

Neste contexto, defende Saskia Sassen, as cidades têm que ser vistas como algo diferente de uma área geográfica preenchida por grandes construções. Fileiras de grandes prédios comerciais, estacionamentos e shoppings centers não fazem de uma região uma cidade. “Isso não é uma cidade, é apenas um terreno densamente construído”. Contra esses aglomerados de densas construções, a socióloga cita o caso de Londres que tem mais de três de dezenas de pequenos centros no seu espaço urbano.

Propostas indicadas por Sassen e Sennett pressupõem mudanças radicais no modo de funcionamento das nossas cidades. (Foto: Luiz Munhoz/Divulgação)

Os megaprojetos que desurbanizam as cidades

Para Sassen, a existência dessas pequenas comunidades civiliza o espaço urbano e a vida nas cidades. O que predomina hoje, porém, na maioria das nossas grandes cidades, é uma relação predatória, dominada por megaprojetos imobiliários que vão dissolvendo o tecido urbano e a vida em comunidade. “Esses megaprojetos, na verdade, provocam desurbanização.

São complexos, mas são sistemas incompletos que tornam os espaços urbanos rígidos e repletos de áreas mortas”. Essas forças que reduzem a vitalidade dos espaços urbanos, acrescentou, reduzem a possibilidade de convivermos juntos nas cidades. Contra esse modelo de cidade dominado por corporações e seus megaprojetos, Saskia Sassen defendeu a construção de novas cidades, formadas por pequenos centros urbanos, com vida comunitária própria.

Como no caso dos caminhos indicados por Richard Sennett para a superação do problema da dissolução da cooperação e do espírito de colaboração, as propostas indicadas por Sassen pressupõem mudanças radicais no modo de funcionamento das nossas cidades. Sem pretender oferecer respostas e caminhos definitivos, no final de “A Corrosão do Caráter”, Sennett define assim o que anima essa necessidade de mudança:

“Que programas políticos resultam dessas necessidades interiores, eu simplesmente não sei. Mas sei que um regime que não oferece aos seres humanos motivos para ligarem uns para os outros não pode preservar sua legitimidade por muito tempo”.

Sociólogo diz que força da internet é relativa

Jornais,Internet, Blog do MesquitaA internet global e massificadora da cultura dominante é uma ficção, acredita o jornalista e sociólogo francês Frédéric Martel. Em seu último livro, “Smart – Uma Pesquisa sobre Internets”, que deve chegar às livrarias brasileiras no primeiro semestre de 2015, Martel afirma que não existe uma internet unificada e que seu crescimento só aconteceu pela adaptação da rede às peculiaridades locais de cada recanto que o universo virtual alcança.

Por isso, ele propõe a adoção do plural para indicar as diferentes formas que a internet toma em diferentes lugares. A popularização da vida digital também o leva a propor que a rede seja identificada como um substantivo comum, sem letra maiúscula, igual ao que se faz com o rádio e a televisão. A partir de observações recolhidas em mais de 50 países ao longo dos últimos quatro anos, Martel concluiu que a fragmentação e a regionalização são os traços fortes da internet.

Em 2010, Martel lançou “Mainstream: A Guerra Global das Mídias e das Culturas” (também pela Civilização Brasileira), que já mencionava o papel da internet na disseminação da indústria cultural. Best-seller na França, publicado em 20 países, o livro chamou a atenção do escritor peruano Mario Vargas Llosa, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura naquele ano. Llosa referiu-se à pesquisa de Martel em um ensaio sobre a mudança no panorama cultural da atualidade (“A Civilização do Espetáculo”, editora Objetiva).

A caminho do Chile e do México, onde faria palestras sobre as mudanças sociais que analisa em seus livros, Martel passou pelo Rio de Janeiro há duas semanas, em sua “quinta ou sexta” visita ao Brasil. Perdeu a conta, de tantas vezes que esteve no país, envolvido em pesquisas ou entrevistas para o programa semanal que apresenta na Radio France. Ele falou ao Valor sobre a discussão de ideias com Vargas Llosa, a necessidade de proteger os usuários dos abusos cometidos pelas empresas que dominam a internet e a inclusão digital em países de economia emergente, que considera os principais articuladores das revoluções sociais da atualidade.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Alguns críticos afirmam que a internet ameaça a identidade cultural de cada povo, mas “Smart” conclui que é cada vez maior a regionalização da internet. Por quê?

Frédéric Martel – A fragmentação define mais a internet do que seu aspecto global. A maioria das pessoas está conectada em redes sociais com ex-colegas de colégio que não encontram desde a juventude. Não querem saber de fazer amizade com desconhecidos indianos, coreanos, russos, gente de outros países. O intercâmbio cultural é muito menor do que se imagina. O Facebook e o Google alardeiam que são globais, mas seu alcance só se tornou tão grande por causa de versões em idiomas específicos para cada país. Se as coisas andam bem na internet é por que existe uma Wikipedia para cada língua. A unificação de culturas não existirá enquanto cada grupo preferir utilizar seu idioma para se comunicar. Há resistência natural ao uso de um idioma universal. Nem todo mundo usa inglês para se comunicar. Na Índia, existem 500 dialetos, todos falados por diferentes grupos.

A internet não ajudaria, então, a quebrar barreiras culturais, a disseminar informações que ficariam restritas a seus países de origem?

F.M. – Para construir seu imenso alcance, a internet não dissemina cultura, ela reforça os valores locais. As barreiras físicas existem no mundo virtual. Países com governos totalitários conseguem impedir que a internet atravesse suas fronteiras simplesmente pela dificuldade de conexão. É assim em Cuba, onde a internet está presente, mas o sinal cai o tempo todo. Na China, não há Facebook nem Twitter, mas simulacros. Criaram redes sociais parecidíssimas com as de maior penetração no resto do mundo, só que estão ligadas, apenas e unicamente, ao território chinês. A censura filtra qualquer informação externa. Esses regimes fortíssimos conseguiram bloquear a abertura de suas fronteiras.

Para algumas pessoas, o mundo digital é o principal incentivador da cultura de massa, em detrimento do pensamento acadêmico. O que o senhor acha disso?

F.M. – Reações contrárias a novidades aconteceram em outros momentos de intensas transformações, na história da humanidade. A Revolução Industrial deve ter sido assustadora para muitos de sua época. A resistência à internet é típica das pessoas mais velhas. Participei de um debate com Vargas Llosa, que foi muito enfático ao reclamar do que seria a dissolução do que ele conheceu como civilização. Ele cresceu no mundo concreto, no mundo do papel, quando os eruditos eram respeitados, celebrados. Hoje, o mundo festeja a tecnologia mais do que os intelectuais. Essas pessoas, contemporâneas de Vargas Llosa, tão bem representadas por ele, criticam a internet como se ela fosse nociva por si só. De certo modo, compreendo que queiram proteger sua língua, sua cultura, seu modo de vida.

Enquanto muitos analistas de comunicação elogiam o compartilhamento de informações, outros lamentam a superficialidade do que é divulgado na rede. Qual é sua posição diante desse quadro?

F.M. – Não faço julgamentos sobre o que há de bom ou ruim na conectividade. Meus livros são fruto de pesquisa, sem qualquer posição ideológica, sem minha opinião. A internet não é boa nem má. Alguns intelectuais franceses desprezam a internet, que consideram apenas uma forma de entretenimento. Claro que há muita informação inútil. A rede pode servir para disseminar rancores, ódios. Mas também serve para o envolvimento cívico e social em torno de causas interessantes. Em minhas viagens por países emergentes, percebi, ao longo de anos, que a conexão digital é um instrumento de poder para os menos favorecidos. Os países emergentes experimentam mudanças sociais interessantes e inesperadas. O Uruguai e a África do Sul legalizaram os casamentos homossexuais antes da França, tradicional berço da revolução e dos direitos humanos. A internet também promove algumas mudanças, como a troca de papeis em países africanos, onde tradicionalmente os idosos transmitiam ensinamentos aos jovens. Hoje, as crianças estão ajudando os pais a navegar pela internet, o que trará, certamente, reflexos nas relações sociais.

A perda da privacidade dos usuários é o preço a pagar pela conectividade?

F.M. – O avanço tecnológico é irreversível. Em 5 anos, haverá cerca de 5 bilhões de pessoas conectadas, a imensa maioria através dos smartphones. Estamos vivendo a revolução “inteligente” (“smart”). Então, este é o momento de coibir a vulnerabilidade dos usuários, que precisam de proteção legal não só quanto à privacidade. Tudo indica que, apesar de negarem, os grandes conglomerados que hoje dominam a rede vão passar a cobrar pelo que oferecem. O Facebook, que se afirmava totalmente gratuito, já cobra para divulgar páginas pessoais. Por isso, é importantíssimo lutar pela regulação da internet em cada país, como o Brasil fez. Amazon, Google, Apple, entre outras companhias, não devem ter tanto poder e controle sobre os usuários. Milhões de pessoas não podem ser manipuladas pelas empresas que modificam circunstancialmente as regras que elas próprias inventaram.
Olga de Mello, para o Valor Econômico

O prazer do poder segundo Humberto Eco

Umberto Eco: O novo prazer do poder

Umberto Eco ¹

Os eleitores estavam acostumados com que a vida dos políticos fosse governada por dois princípios, o primeiro deles é melhor resumido por um apimentado ditado italiano: “Megghiu cumannari c’a fottiri”.

Traduzindo de uma forma casta, isso quer dizer: “exercer o poder é melhor do que sexo”. O outro é que os homens poderosos normalmente desejavam mulheres como Mata Hari, Sarah Bernhardt ou Marilyn Monroe.

O que é espantoso é que muitos políticos ou empresários de hoje não sucumbem, digamos, à tentação de desviar dinheiro de obras públicas, mas, sim, às seduções de prostitutas de luxo que comandam somas mais altas do que as exigidas por Madame de Pompadour em sua época. E se essas garotas de programa profissionais não são de seu agrado, eles procuram outras que fornecem serviços mais especializados.

Além disso, muitos parecem buscar o poder especificamente com esperança de demonstrá-lo entre quatro paredes. Veja bem, grandes homens em toda a história não foram indiferentes aos prazeres da carne.

Aqui na Itália, embora alguns líderes políticos de outrora tenham talvez observado uma certa austeridade, Júlio César ia alegremente para a cama com centuriões, nobres romanas e rainhas egípcias igualmente.

Isso também vale para outros lugares: o Rei Sol tinha amantes em abundância, o rei Victor Emmanuel 2º da Itália perseguia a sua Rosina e, quanto ao presidente norte-americano John F. Kennedy… Quanto menos dissermos, melhor.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Entretanto, esses homens pensavam nas mulheres (ou nos garotos) como uma espécie de descanso e recreação para um bom soldado. Em outras palavras, a ordem do dia era conquistar o país da Báctria, humilhar o chefe gaulês Vercingetorix, dominar todos os inimigos desde os Alpes até as Pirâmides, ou unir a Itália.

O sexo era um bônus, como um martíni servido no final de um dia exaustivo. Por outro lado, hoje em dia, os homens no poder parecem desejar em primeiro lugar, e acima de tudo, passar uma noite festejando com dançarinas de boate, e as grandes iniciativas nunca fazem parte do cenário.

Se os heróis do passado liam Plutarco para se divertir, seus colegas modernos sintonizam certos canais de TV depois da meia noite ou entram em sites sugestivos na internet. Uma recente pesquisa para buscar informações sobre o padre e místico italiano Padre Pio de Pietrelcina na internet gerou 1,4 milhão de resultados. Nada mal.

Mas uma busca por pornografia encontrou 130 milhões (sim, 130 milhões) de sites. Uma vez que “Jesus” é um termo de busca mais específico do que “pornografia”, decidi buscar a palavra “religião” para poder comparar: a busca produziu pouco mais de 9 milhões de sites como resultado – uma gota num balde se comparada à “pornografia”.

O que é possível encontrar nesses 130 milhões de sites pornográficos? As opções mais básicas respondem vividamente ao “quem, o quê, onde, quando e porque” do sexo. O restante são sites dedicados a todo tipo de coisas, desde várias formas de incesto (que deixaria Édipo e Jocasta constrangidos) até fetiches incomuns.

A pornografia pode ter uma função positiva: fornecendo uma válvula de escape para aqueles que, por algum motivo, não praticam o ato em si, ou então reacendendo a vida sexual de casais com relacionamentos mornos. Mas ela também pode iludi-lo, fazendo-o acreditar que uma garota de programa cara pode fazer coisas que Friné, a cortesã mais famosa do mundo clássico, nunca teria imaginado.

Não estou me referindo apenas aos 42% de italianos que usam a internet, de acordo com a União Internacional de Telecomunicação; todos os dias, os demais 58% podem assistir na tela de suas TVs coisas que são dez vezes mais estimulantes do que qualquer coisa que estivesse disponível a um rico empresário de Milão dos anos 40.

Hoje, as pessoas estão muito mais expostas ao sexo do que seus avós estavam. Considere um pobre padre de paróquia: houve um tempo em que a única mulher que ele via era a empregada doméstica, e tudo o que ele lia era o jornal católico “L’Osservatore Romano”. Hoje há garotas com trajes mínimos na TV todas as noites.

Então, será que existe algum motivo para não pensar que esse incessante estímulo ao desejo também está afetando os funcionários do governo, causando uma mutação da espécie e modificando o próprio propósito de seu papel na sociedade?

¹ Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista.
O livro mais recente e Umberto Eco é “História da Feiura“. Ele também é autor dos bestsellers internacionais “Baudolino”, “O Nome da Rosa” e “O Pêndulo de Foulcault”, entre outros. Traduzido do italiano por Alastair McEwen.

Internet – Filósofo cria língua universal para web

Filósofo cria língua universal para web e prevê nova revolução do conhecimento. Para Pierre Lévy, web semântica vai transformar maneira de fazer ciência.Internet Evolução das redes de informação

Em breve, aposta francês, computadores saberão como ‘traduzir’ conceitos.

A internet permitiu que, pela primeira vez na história, se tornasse possível manter um arquivo universal do conhecimento e da produção cultural de nossa espécie. Mas para o filósofo francês Pierre Lévy, esse poder já começa a mostrar limitações, e é hora de promover uma “recauchutagem” na estrutura da rede.

Mas para transformar a web em uma máquina capaz de identificar a verdadeira inteligência coletiva, no entanto, Lévy prevê dois grandes desafios: a ausência de profissionais habilitados para trabalharem na organização das informações, e a necessidade da adoção de um padrão para a chamada “web semântica” – que permitirá que todo o conhecimento seja coordenado automaticamente por conceitos, e não mais simplesmente pelos links entre documentos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A evolução proposta por Lévy – dono de uma bibliografia extensa sobre cibercultura e sobre a relação entre o virtual e o real – passa pela criação de regras para a organização das informações. Para isso, o filósofo desenvolveu uma linguagem universal capaz de compreender as ideias expressas em qualquer idioma e que, ao mesmo tempo, pode ser processada por computadores.

“Isso significaria o fim da fragmentação da informação, atualmente dividida por conta de barreiras de linguagem e escolhas diversas de sistemas de organização”, afirma Lévy, em entrevista ao G1. O projeto coordenado pelo francês é desenvolvido por um grupo de pesquisadores na Universidade de Ottawa, no Canadá.

A IEML (sigla em inglês para “metalinguagem da economia da informação”) é completamente artificial, e segue, nas palavras de Lévy, “regras bastante estritas”. Conceitos universais são codificados utilizando sequências de seis símbolos com significados primitivos: o código *E:**, por exemplo, significa “vazio”. Os símbolos são organizados em grupos de três, e cada “camada” de informação reúne três grupos anteriores. Termos utilizados constantemente ganham abreviações, o que facilita a criação de frases.

“Você está lendo um documento e identifica que ele trata sobre os conceitos ‘x’, ‘y’ e ‘z’. O computador será capaz de identificar que este documento está ligado a outros, e ajudará a filtrar, navegar e expandir seu acesso a conhecimentos correlatos”, afirma Lévy.

Ciências como psicologia, economia e sociologia seriam as maiores beneficiadas com a adoção deste código universal. Lévy acredita que as ciências humanas viverão, na próxima geração, uma revolução semelhante à que impulsionou os estudos naturais com a invenção da prensa rotativa por Johannes Gutenberg, no século XV.

“Hoje em dia, todos os dados sobre o comportamento humano podem ser reunidos no ciberespaço, o único problema é que ainda não temos a capacidade de explorar essas informações”, explica o francês. “Se alguém escreve um blog em chinês, eu não consigo ler, você não consegue ler e os programas de tradução automática, como do Google, não são muito bons. Portanto, não há comunicação”.

Mas há barreiras – reconhecidas pelo próprio criador – para transformar esse “Esperanto eletrônico” em realidade. Há outros projetos que pretendem ocupar essa “quarta camada” da internet (ver infográfico abaixo), alguns deles inclusive apoiados pelo próprio inventor da web, o engenheiro britânico Tim Berners-Lee. “Talvez não seja a língua que eu criei que será a base dessa revolução científica, mas haverá (na web do futuro) algo nesses moldes”, diz Lévy.

Se vencer a disputa científica com o diretor do consórcio da World Wide Web, Lévy verá sua linguagem enfrentar um novo problema: embora a IEML tenha sido criada para ser compreendida por computadores, o “dicionário” e a organização dos textos publicados na rede seguem nas mãos de humanos. E o filósofo acredita que, no momento, não há profissionais habilitados disponíveis no mercado para trabalharem com esses conceitos.

“É preciso ter um conhecimento muito amplo em ciências humanas, estar ciente da complexidade das culturas, dos significados, e ao mesmo tempo ser capaz de lidar com computação. É preciso ter essas duas habilidades para realizar isso”. É uma missão que tem sido abraçada por engenheiros, embora mesmo estes não estejam, segundo Lévy, totalmente gabaritados para a função. “Geralmente os engenheiros são muito bons em matemática e em lógica, mas se confundem quando o assunto é semântica.”
G1

 

Rolezinhos desnudam a “apartação” implícita

Educação Blog do Mesquita 01Os “rolezinhos” têm sido tratados como um tema cultural: o porquê de os jovens preferirem agitar shopping centers, tirando a tranquilidade dos frequentadores e trabalhadores, em vez de praticarem outras atividades juvenis, tais como namoro, estudo, esporte, arte ou mesmo consumo.

E as soluções propostas têm sido baseadas na esfera legal e policial. Não se viu um debate sobre as causas estruturais que permitiram a essas mobilizações aflorar: os shoppings e a internet.

Os shoppings ofereciam a natural busca de conforto nos trópicos e a necessária proteção em uma sociedade violenta nas ruas, mas também a disfarçada segregação social que caracteriza o Brasil.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Independentemente das causas que levam os jovens aos “rolezinhos”, eles não ocorreriam sem estes dois fatos irreversíveis na realidade: a existência de shopping centers e a disponibilidade da rede social.

Sem os shoppings não haveria como ocupá-los, sem as redes sociais, também não.

TRÊS ALTERNATIVAS

A sociedade tem três alternativas: conviver com os “rolezinhos” como uma prática cultural, um Carnaval fora de época e lugar; oferecer outras diversões aos jovens; ou buscar solução na explicitação da apartação, com leis que escolham os frequentadores. Essa medida será indecente moralmente e ineficiente socialmente.

Ainda se consegue fazer isso em clubes, condomínios, escolas de qualidade e hospitais caros, mas em shoppings será impossível justificar moralmente tal medida.

Além disso, as soluções policiais pela força, cercando shoppings, ou pela espionagem, bisbilhotando as redes sociais, serão impossíveis.

Até recentemente, a segregação se fazia com a convivência dócil dos excluídos, como se dizia então: os negros e os pobres sabem seus lugares. Não era necessário, como na África do Sul, explicitar em leis as calçadas e os banheiros só para brancos. No Brasil, a separação era automática, cada um sabia seu lugar.

Com o aumento da população urbana, foi preciso separar fisicamente as classes, nos shoppings e condomínios, com cercas e crachás, mas ainda sem necessidade da explicitação em leis.

Apesar de que houve propostas para proibir legalmente a entrada de imigrantes indesejados, bastava a apartação descrita no livro “O que É Apartação: O “Apartheid” Social Brasileiro”, de 1994.

Graças à internet, os “rolezinhos” desnudam o sistema de apartação implícita, sem leis.

Daqui para a frente, os shoppings existirão e terão um papel positivo no conforto social, mas a “guerrilha cibernética” é uma realidade com a qual vamos conviver. Ou assume-se a segregação explícita, ou promove-se a miscigenação social.

E, para isso, o caminho é a escola. A segregação racial se fez nas alcovas, a segregação social se faz nas escolas.

O único caminho decente e sustentável para o bom funcionamento dos espaços urbanos é a promoção da escola de qualidade em horário integral, com ofertas culturais para os jovens.
Senador Cristovam Buarque/Tribuna da Imprensa

Rejeição e solidão digital.

Incomoda-me o silêncio da ciência, e dos “zilhões de ólogos” em “zilhões” de “talk shows” televisivos, sobre a rejeição ou a solidão digital.

O que tenho visto publicado, e debatido, é muito pouco ante o tamanho da questão.

Penso ser uma falácia entender, ou considerar, as redes sociais, Face Book mais diretamente, como um reflexo da vida cotidiana.

Há, aqui, uma perigosa simbiose, perversa no âmbito das relações sociais, entre quantidade e qualidade.
A explosão das redes sociais exige uma análise mais acurada.


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