Economia, política, os outros e o Brasil

Faca quente na manteiga

O Valor Econômico publicou um especial do governo que sai, com um recurso visual esclarecedor. Perfilou na capa do caderno gráficos com os principais indicadores destes oito anos. Foi autoexplicativo.

Também esta semana, a Economist traz conteúdo editorial sobre o deslocamento da esperança do eixo Europa-Estados Unidos para os emergentes.

Os bons resultados e as boas expectativas do Brasil e dos emergentes repousam numa curiosidade histórica e também na aritmética.

Os emergentes no conjunto (ou quase) beneficiam-se de ter colocado a casa em ordem, depois de sucessivas crises de raiz fiscal.

Foi a receita recomendada pelos desenvolvidos, que entretanto fizeram o contrário. E hoje o assim chamado Primeiro Mundo patina para escapar da desconfiança e da falta de vontade de consumir.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Essa é a curiosidade. E a aritmética? Ela é simples. Quem tem mais pobres, mais gente fora do mercado, tem também mais potencial de formação de novos consumidores e mais potencial de crescimento incomprimível do consumo.

Uma coisa é o sujeito abrir mão de trocar o carro todo ano porque tem medo de perder o emprego. Outra coisa, bem diferente, é renunciar a comer carne todo dia.

Os emergentes, Brasil incluído, aceleram o passo para tentar chegar onde americanos e europeus já estão. E quem vem depois colhe vantagens e desvantagens.

Pode haver críticas à moldura social da revolução industrial chinesa, mas ela não se compara ao ambiente de horrores, por exemplo, da Revolução Industrial inglesa. Nas esferas social e ambiental, a industrialização da periferia corre bem mais civilizadamente que a do centro.

A desvantagem óbvia é a concorrência. O mundo emergente chega num palco já congestionado. As polêmicas ambientais têm sido termômetro. Diz a cartilha ambientalista que o planeta não suportaria chineses, indianos, brasileiros e africanos emitindo carbono nos níveis da média do europeu e do norte-americano. Eis um problema.

A China, no seu estilo habitual, vai cozinhando o galo e esperando a inércia carregar o gigante asiático para o lugar merecido na produção e no consumo globais. O modo de ser chinês, nesse ponto, é um ativo da humanidade. Se o compartilhamento de riqueza e poder entre as superpotências puder ser alcançado de modo pacífico, vai ser melhor para todo mundo.

Já nós, pelos menos nos últimos dezesseis anos, parecemos conformados com a reafirmação do nosso papel subalterno na divisão internacional do trabalho. Social-democratas e socialistas chegaram ao poder e apenas aprofundaram a subalternidade. Falamos grosso para os microfones e câmeras, mas ainda somos na essência extratores e vendedores de matérias primas.

No nosso “outro mundo possível”, por enquanto, deixamos relativamente de exportar grãos, minério e carne para o “Norte” e agora fazemo-lo para o “Sul”. Que avanço monumental! Na última grande crise, entre um e outro discurso sobre a necessária reforma multilateral das finanças planetárias, nossos governantes cruzavam os dedos na torcida pela recuperação rápida do ritmo chinês.

Na eleição deste ano, o progressismo pátrio reagiu com virulência ao protagonismo eleitoral das igrejas, a Católica e as evangélicas. Mas pelo menos uma religião escapou e vem escapando ilesa de qualquer crítica. A Assembleia dos Protetores do Real Forte, os Adoradores das Importações, os teólogos do juro exorbitante.

A cena era – e é – repetitiva. O sujeito vai entrevistar o governante, nos diversos niveis, para tratar das exportações em baixa, da degeneração da balança comercial, do buraco crescente nas contas correntes, da incapacidade de elevar os investimentos públicos, da extorsão financeira. Mas a única angústia do perguntador é arrancar garantias de que tudo permanecerá exatamente como está, de que nada vai mudar.

Duvida? Procure nos arquivos do Senado pela tramitação nos dias recentes do novo presidente do Banco Central. Faca na manteiga, confraternização geral. Uma festa.

blog do Alon