A dengue, a morte da onça, Zé Serra e Governos

O sarcástico e excelente contador de estórias Sebastião Nery, cutuca, com a pena e a verve costumeiras, as “onças” da ineficácia governamental.

A onça não morreu
Por Sebastião Nery – Tribuna da Imprensa

Histótria antiga, mas muito atual. Lampião passou por Mossoró, no Rio Grande do Norte, teve um choque com tropas do Exército. Na cidade, ferido, ficou um cabo com seu fuzil. Apareceu uma onça e começou a comer bezerros na região. O prefeito foi ao cabo, já recuperado:

– Cabo, precisamos de sua ajuda. A onça está fazendo muito estrago nas criações. Espingarda não resolve. Só um fuzil para matar.
– Pois não, prefeito. Essa onça morre já.
– Ótimo, porque ela já matou dois caçadores que tentaram derrubá-la de espingarda.

O cabo ficou pensando, olhando para cima:

– Bem, seu prefeito. Só tem um problema. Eu sou do Exército brasileiro. Sou federal. Preciso saber primeiro se essa onça é federal ou estadual. Não quero conflito entre os dois governos.

E a onça municipal continuou a comer bezerros.

Serra

Os governos federal, estadual e municipal estão jogando o mosquito da dengue em cima uns dos outros. Já matou 150 pessoas nos últimos anos, no Rio. Uma epidemia. O federal Temporão culpa o municipal César Maia, que culpa o estadual Cabral. E o mosquito se multiplicando e matando.

Mosquito sempre houve. O que não se imaginava eram governos federal, estadual e municipal tão ruins, tão ordinários ao mesmo tempo. O crime é coletivo. Mas todo crime tem um ponto de partida. Na “Folha”, o Jânio de Freitas lucidamente relembrou muito bem:

“A dengue ficou erradicada no Rio, quase por completo, durante décadas, graças à ação conjunta do governo federal e da prefeitura. Aos poucos, retomou o território abandonado pelos governos, até que fez o ressurgimento agudo no governo Fernando Henrique. Sua contenção projetou José Serra, então recém-ministro da Saúde. Na contramão desse êxito, de uma penada extinguiu o serviço de vigilantes sanitários que o governo federal comprometera-se a manter no Rio ao mudar-se para Brasília. Eram os mata-mosquitos. Serra se inspirara em contas de economistas, com valores financeiros e não com vidas humanas”.

Todos

Durante meses, os “vigilantes sanitários”, os “mata mosquitos”, verdadeiros médicos de quintal, mobilizaram-se para advertir o País e mostrar aos governos que, sem seu trabalho permanente, a dengue voltaria. Fizeram atos públicos, levaram delegações a Brasília, mas Fernando Henrique e José Serra diziam que o moderno era terceirizar, privatizar.

Aqui mesmo, inúmeras vezes, denunciei a irresponsabilidade, mostrando que a experiência de outros países era o combate continuo.

Acabaram com o serviço que era público, demitiram milhares, prometendo “atacar os focos pontuais, terceirizando, privatizando”. Dissolveram as verbas, comeram os recursos. Agora, na hora da tragédia, enfiam o bico embaixo da asa, como se nada tivessem a ver com o assunto. Têm, sim. Como têm os governos atuais, federal, estadual e municipal. Se nem para matar mosquito servem, peguem o caminho de casa.

História e Estórias – Notórios e notáveis

Do notável Sebastião Nery – Tribuna da Imprensa – reproduzo essa notável estória sobre alguns notórios políticos brasileiros.

Antonio Candido de Melo e Sousa, paulista carioca, mestre da crítica literária (autor, entre outros, dos clássicos “Formação da literatura brasileira” e “Literatura e sociedade”), criticou Gilberto Freire porque escrevia seu nome com “y” (“Freyre”) e não com “i” (“Freire”).

Gilberto Freire não gostou, mas não reclamou. Algum tempo depois, Antonio Candido telefonou para Gilberto Freire, que atendeu: – Quem fala? É o Antonio Candido? O Antonio sem o circunflexo no “ô” de “Antônio” e no “â” de “Cândido”, com “Mello” de dois “elles” e “Souza” com “z”?

Suassuna
Mas os pernambucanos nem sempre são tão sutis. João Alexandre Barbosa, consagrado crítico literário, fazia concurso para a Universidade de Pernambuco. Na banca, o renomado professor Antonio Candido, e o extraordinário Ariano Suassuna. Antonio Candido elogiou Alexandre:

– Ele tem notório e notável saber.

Suassuna interrompeu Antonio Candido:

– Até concordo com o professor Antonio Candido. Mas há uma grande diferença entre notório e notável. Alguns políticos de Pernambuco são ladrões notórios. Já Lampião foi um ladrão notável.

PSDB
O PSDB foi fundado dizendo-se um “partido de notáveis”. Agora, o procurador geral da República, Antonio Fernando de Souza, mostra que não é bem assim. Tem seus “notáveis”. Mas também um punhado de “notórios”.

O “mensalão” do PT tinha o mesmo DNA do “mensalinho” de Minas. Não importa que o tamanho da roubalheira não tenha comparação. Mas está provado que os tucanos mineiros também têm seus “notórios”.