Congo:Especialistas prevêem que o covid-19 se espalhará mais amplamente

Os países pobres são especialmente vulneráveis

“Existem tantas crises no Congo.”

Gervais Folefack, que coordena os programas de emergência da Organização Mundial da Saúde (OMS) na República Democrática do Congo, domina a arte do eufemismo. O país foi destruído pela guerra e corrupção. “O tempo todo estamos respondendo a crises”, diz Folefack. Ele lista os mais recentes: Ebola, sarampo, cólera.

Para eles, ele pode ter que adicionar a covid-19, uma doença respiratória originada na China. Aqueles que precisariam responder a uma onda de casos cobertos por 19 anos já estão ocupados com o surto de Ebola que começou em 2018. “Estamos tentando nos preparar”, continua o Dr. Folefack, mas simplesmente não há tempo suficiente.

Até o momento, 99% dos casos confirmados do novo coronavírus estão na China. Dos 1.000 casos estranhos fora da China continental, mais da metade esteve no Diamond Princess, um navio de cruzeiro ancorado no Japão; o restante está espalhado por 27 países, principalmente na Ásia.

O Covid-19 se espalhou rapidamente na China, apesar do governo bloquear cidades inteiras por semanas. Os esforços da China, juntamente com as restrições de viagem que muitos países impuseram a seus cidadãos, retardaram o progresso do vírus. Mas muitos especialistas temem que isso se torne inevitavelmente uma pandemia. As autoridades de saúde estão tentando freneticamente se preparar.

Em 12 de fevereiro, Nancy Messonnier, dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (cdc), disse que os Estados Unidos devem estar preparados para o vírus “ganhar uma posição” no país. Médicos na África do Sul estão em alerta, diz Cheryl Cohen, do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis. Mais de 850 médicos em todas as nove províncias do país foram ensinados a identificar a doença. Quem está enviando máscaras cirúrgicas, aventais e luvas para hospitais em mais de 50 países. Ele está ensinando os profissionais de saúde em toda a África como usá-los para prevenir infecções por covid-19 – e como tratar aqueles que têm a doença.

Um número crescente de países está examinando passageiros nos aeroportos e nas fronteiras em busca de sinais da covid-19. Mas quando um vírus começa a viajar pelo mundo, diz Michael Ryan, o verdadeiro ponto de entrada é uma sala de emergência movimentada ou uma cirurgia médica. No surto de sars de 2003 (síndrome respiratória aguda grave), outro coronavírus que se espalhou para mais de 20 países, cerca de 30% das 8.000 pessoas infectadas eram profissionais de saúde. Muitos, se não a maioria, dos surtos de sars no mundo – de Toronto a Cingapura – começaram em um hospital com um único paciente que havia sido infectado no exterior.

Em países onde os casos de covid-19 ainda são raros, os médicos estão tentando, por enquanto, identificar pacientes suspeitos perguntando àqueles com tosse e febre sobre viagens recentes a países com surtos da doença e testando-os. Nos Estados Unidos, se os pacientes apresentarem resultados negativos para a gripe sazonal, os laboratórios estão começando a testar a covid-19 (o país até agora identificou 29 casos).

Confirmar uma suspeita de infecção em um laboratório pode levar dias. Alguns pequenos países europeus têm apenas um ou dois laboratórios capazes de processar testes covid-19. Todo o suprimento de kits de teste da Europa é enviado dos dois principais laboratórios do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ecdc), a agência de saúde pública da ue. Todo o suprimento da América vem do CDC em Atlanta. Levará vários meses até que os testes comerciais estejam disponíveis.

Esteja preparado
Os EUA estão à frente da maioria dos países no planejamento de tais coisas, diz Hanfling. Desastres como o furacão Katrina – quando muitos pacientes morreram em hospitais que não estavam preparados para o desastre – revelaram a necessidade de se preparar para o pior. A cada ano, o governo federal concede aos estados e hospitais cerca de US $ 1 bilhão especificamente para a preparação para desastres. Isso é mais do que o orçamento nacional de saúde de muitos países africanos.

A experiência recente de outros países pode ajudá-los. Kerala, o único estado da Índia a confirmar casos de covid-19, rapidamente conteve um surto de Nipah, um vírus desagradável, em 2018 e, desde então, reforçou seu sistema de saúde. Uganda reteve a propagação do ebola do vizinho Congo e, no processo, acumulou estoques de roupas de proteção para os profissionais de saúde.

Mas os países pobres seriam particularmente afetados por surtos de cobiços-19. Uganda está acostumado a lidar com doenças transmitidas por sangue, mosquitos ou parasitas. O Covid-19, se vier, poderia se espalhar de forma rápida e imprevisível, o que testaria um sistema de assistência médica sem dinheiro. Ian Clarke, presidente de uma federação de saúde privada com sede em Uganda, teme que as taxas de mortalidade possam ser mais altas na África do que na China, porque muitas pessoas já enfraqueceram o sistema imunológico como resultado de HIV ou nutrição deficiente.

Lixão tóxico: ferro-velho de primeiro mundo no Gana coloca milhares em risco de câncer

 Gana se tornou um dos maiores depósitos de lixo do mundo para lixo eletrônico, criando uma indústria mortal que colocou milhares em risco.

O ferro-velho de eletrônicos perto da capital do Gana, Accra, deixou a região circundante contaminada com toxinas perigosas que poluíram o meio ambiente e criaram sérios problemas de saúde para os moradores.

Segundo uma estimativa, cerca de 200.000 toneladas dos eletrônicos descartados do mundo chegam a uma favela em Accra – o peso equivalente a mais de mil baleias azuis.

O enorme depósito de lixo é a principal fonte de renda para muitos trabalhadores, que escolhem montanhas de eletrônicos descartados e os derretem em metais como ferro e latão.

O processo de extração é altamente perigoso, liberando toxinas no ar que estão ligadas a uma série de problemas ambientais e de saúde sérios, incluindo dores crônicas, natimortos, poluição generalizada e danos à cadeia alimentar.

Os trabalhadores explicaram que sofrem de uma série de doenças, respirando a fumaça dos incêndios usados para queimar os aparelhos eletrônicose que causa dores no peito – e também dores de cabeça debilitantes.

Um estudo realizado por grupos de redes ambientais, o IPEN e a Rede de Ação da Basiléia, constatou que a exposição a longo prazo a vapores perigosos pode levar a sérios problemas de saúde, incluindo câncer ou danos aos sistemas imunológico e neurológico. Jindrich Petrlik, co-autor de um estudo ambiental, disse que não há sinais de que a situação esteja melhorando.

O crescimento do ferro-velho e a quantidade de lixo eletrônico … estão aumentando ano a ano; portanto, se nada for feito, o problema será maior e uma população maior poderá ser afetada pela contaminação geral do local e de seus arredores.

Os pesquisadores também descobriram que as toxinas mortais já entraram na cadeia alimentar. Galinhas que se alimentam perto do solo altamente contaminado em torno do lixão maciço absorveram o lixo em seus sistemas – expondo os humanos que os comem, ou seus ovos, a sérios riscos à saúde. Os poluentes também foram detectados no leite materno, o que significa que as toxinas estão sendo repassadas aos filhos dos trabalhadores.

Enfrentando problemas ambientais e de saúde que poderiam facilmente se estender por gerações, os habitantes locais disseram a que estavam desesperados por uma solução. Infelizmente, não há sinal de que o despejo maciço esteja indo a lugar algum.

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OMS: epidemia do Coronaviris é oportunidade para ação

Os primeiros pacientes infectados com coronavírus chegam ao hospital recém-construído em Wuhan.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que existe uma “janela de oportunidade” para impedir que o novo e mortal coronavírus se torne uma crise global mais ampla.

O diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus disse que as medidas tomadas pela China para combater o vírus em seu epicentro são a melhor maneira de impedir sua disseminação.

Enquanto isso, o enviado da China para a ONU em Genebra disse às nações para não reagir demais.

Pelo menos 427 pessoas morreram com mais de 20.000 casos confirmados em todo o mundo.

A OMS declarou uma emergência de saúde global após o surto, mas disse que o vírus ainda não constitui uma “pandemia” – a disseminação mundial de uma nova doença. Autoridades dizem que 425 pessoas morreram na China, uma em Hong Kong e outra nas Filipinas.

Cerca de 80% dos que morreram tinham mais de 60 anos e 75% deles tinham condições de saúde pré-existentes, como doenças cardiovasculares e diabetes, de acordo com a Comissão Nacional de Saúde da China (NHC).

O novo coronavírus causa infecção respiratória aguda grave e os sintomas geralmente começam com febre, seguida por tosse seca. A maioria das pessoas infectadas provavelmente se recuperará completamente – exatamente como faria com uma gripe.

O que a OMS disse?

Falando em um briefing técnico em Genebra, o Dr. Tedros elogiou as autoridades chinesas por sua resposta no epicentro do surto – a cidade de Wuhan, na província de Hubei, onde milhões de pessoas estão presas e foram impostas severas restrições de transporte.

“Há uma janela de oportunidade por causa das altas medidas, das fortes medidas que a China está adotando no epicentro, na fonte. Então, vamos aproveitar esta oportunidade para evitar uma maior disseminação e controle”, disse ele, enfatizando que os países desenvolvidos estão falhando para compartilhar dados.

O Dr. Tedros também reiterou seu pedido para que os países não imponham restrições de viagens e comércio, dizendo que 22 países haviam relatado oficialmente tais medidas. Ele pediu que fossem “curtos em duração, proporcionados” e revistos regularmente.

Mas Chen Xu, embaixador da China na ONU em Genebra, disse que algumas restrições vão contra o conselho da OMS.

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O editor de saúde on-line da BBC sobre o que sabemos sobre o vírus
Sylvie Briand, chefe da divisão Global de Preparação para Riscos Infecciosos da OMS, disse que o surto “atualmente” não era uma pandemia.

Embora mais de duas dúzias de países tenham relatado casos, não houve confirmações na África ou na América Latina. Vinte e sete casos de infecções de homem para homem ocorreram em nove países fora da China, segundo a OMS.

O Dr. Briand também enfatizou a importância de lidar com os rumores infundados, dizendo que eles podem ser um “obstáculo para uma boa resposta e dificultar a implementação eficaz de contramedidas”.

O que há de mais recente em todo o mundo?

Os governos do Reino Unido e da França disseram a seus cidadãos na China que deixassem o país se pudessem. O conselho veio depois que a alta liderança da China admitiu “deficiências e deficiências” na resposta do país ao surto.

Entre outros conseqüências:

Taiwan disse que a partir de sexta-feira negaria a entrada a todos os estrangeiros que estiveram na China continental nos últimos 14 dias
Macau – uma região administrativa especial da China e um dos maiores centros de apostas da Ásia – anunciou que fecharia temporariamente todos os seus cassinos
As autoridades de saúde estão examinando cerca de 3.700 pessoas a bordo de um navio de cruzeiro no Japão depois que um passageiro testou positivo para o vírus
Mais três países asiáticos – Cingapura, Malásia e Tailândia – confirmaram infecções entre cidadãos que não viajaram para a China.

Quão mortal é o vírus?

Mais de 75.000 pessoas podem ter sido infectadas em Wuhan, dizem os especialistas. Mas as estimativas da Universidade de Hong Kong sugerem que o número total de casos pode ser muito maior do que os números oficiais.

O Dr. David Heymann, que liderou a resposta da OMS ao surto de Sars, ou Síndrome Respiratória Aguda Grave, em 2002-03, disse à agência de notícias Associated Press que o novo coronavírus ainda parecia estar aumentando e que era muito cedo para estimar quando atingiria o pico.

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Corona Vírus de Wuhan – China investiga o primeiro caso de ‘supercontêiner’ do coronavírus Wuhan

Um paciente transmite a doença a pelo menos 16 profissionais de saúde. Esses episódios foram fundamentais na expansão da SARS e MERS

Uma mulher de nacionalidade chinesa com uma máscara na estação de trem de Pequim. Em vídeo, 4.000 banheiros chineses viajam para Wuham para fortalecer a luta contra o coronavírus. AFP ATLAS

As autoridades chinesas estão investigando o primeiro caso em Wuhan de um paciente “supercontainer” – tradução da expressão em inglês usada em medicina, super spreader – um paciente que transmitiu o coronavírus a pelo menos 16 profissionais de saúde. Supercontailers são pessoas cuja capacidade de transmitir o vírus, por razões às vezes desconhecidas, multiplica a do paciente médio.

“Se na SARS um paciente costumava se espalhar de uma a quatro pessoas, com esses pacientes esse número subia para 36”, explica Natalia Rodríguez, médica do serviço internacional de saúde do Hospital Clínic de Barcelona e pesquisadora do ISGlobal.

A entrada desses grandes disseminadores de vírus em Wuhan acrescenta um novo elemento de preocupação para as autoridades. “Identificá-los precocemente pode ser útil para facilitar o controle do surto, mas, por enquanto, não se sabe como fazê-lo e ainda é muito cedo para saber seu papel nessa epidemia”, afirma José Miguel Cisneros, chefe de doenças infecciosas do Hospital Virgen del Rocío, Sevilha.

O papel desempenhado pelos supercontatores mais proeminentes das epidemias de SARS e MERS – principais referências em Wuhan, como também são causadas por coronavírus – já aparece nos anais da medicina por causa de sua importância. O médico Liu Jianlun é considerado a pessoa que involuntariamente fez a SARS deixar de ser um problema chinês para uma epidemia global.

Este médico, que acabou morrendo de doença, queria ir a um casamento em família em Hong Kong em 2012, apesar de se sentir mal e com alguns sintomas da doença depois de atender vários pacientes. Ele ficou no nono andar do Metropole Hotel, onde infectou 16 outros hóspedes que tinham quartos vizinhos. O vírus foi encontrado em espaços comuns, como o corredor ou a área do elevador. As pessoas infectadas foram as que espalharam o vírus para o Canadá, Vietnã, Cingapura e Taiwan.

Com o MERS, um único paciente de um hospital de Seul infectou 82 pessoas – doentes, visitantes, profissionais de saúde … – o que representa quase metade dos 186 afetados pelo surto que a Coréia do Sul sofreu em 2015.

A verdade é que “todos os motivos que levam uma pessoa a se tornar um supercontainer não são bem conhecidos”, explica Natalia Rodríguez. Existem alguns fatores comuns para todas as pessoas: “Quem está mais doente é infectado mais do que quem é menos. Quem não está isolado, mais do que quem é ”, acrescenta.lo está”, añade.

Mas existem outros fatores, incluindo os genéticos. “Eles geralmente são pessoas incapazes de conter adequadamente a multiplicação do vírus em seu corpo e mantêm uma carga viral alta no trato respiratório”, disse Pere Godoy, presidente da Sociedade Espanhola de Epidemiologia (SEE). Cisneros destaca a enorme variabilidade entre as pessoas da capacidade de transmitir infecções, pois é o resultado da “interação de três fatores: o microorganismo, o paciente e a população exposta”.

O supercontainer mais famoso da história é Mary Mallon, Thypoid Mary, cozinheira assintomática da bactéria da febre tifóide que foi mantida após deixar para trás um rastro de surtos no início do século XX nos Estados Unidos.

Esgotos: Rio X Paris

Enquanto Rio privatiza, por que Paris, Berlim e outras 265 cidades reestatizaram saneamento?Esgoto,Poluição,Brasil,Blog do Mesquita 1

Serviços inflacionados, ineficientes e com investimentos insuficientes são motivos para a reestatização – Direito de imagem BLUBERRIES/GETTY IMAGES

Enquanto iniciativas para privatizar sistemas de saneamento avançam no Brasil, um estudo indica que esforços para fazer exatamente o inverso – devolver a gestão do tratamento e fornecimento de água às mãos públicas – continua a ser uma tendência global crescente.

De acordo com um mapeamento feito por onze organizações majoritariamente europeias, da virada do milênio para cá foram registrados 267 casos de “remunicipalização”, ou reestatização, de sistemas de água e esgoto. No ano 2000, de acordo com o estudo, só se conheciam três casos.

Satoko Kishimoto, uma das autoras da pesquisa publicada nesta sexta-feira, afirma que a reversão vem sendo impulsionada por um leque de problemas reincidentes, entre eles serviços inflacionados, ineficientes e com investimentos insuficientes. Ela é coordenadora para políticas públicas alternativas no Instituto Transnacional (TNI), centro de pesquisas com sede na Holanda.

“Em geral, observamos que as cidades estão voltando atrás porque constatam que as privatizações ou parcerias público-privadas (PPPs) acarretam tarifas muito altas, não cumprem promessas feitas inicialmente e operam com falta de transparência, entre uma série de problemas que vimos caso a caso”, explica Satoko à BBC Brasil.

O estudo detalha experiências de cidades que recorreram a privatizações de seus sistemas de água e saneamento nas últimas décadas, mas decidiram voltar atrás – uma longa lista que inclui lugares como Berlim, Paris, Budapeste, Bamako (Mali), Buenos Aires, Maputo (Moçambique) e La Paz.Sakoto Kishimoto,Blog do Mesquita

Sakoto Kishimoto, coordenadora para políticas públicas alternativas no Instituto Transnacional (TNI)

Privatizações a caminho

A tendência, vista com força sobretudo na Europa, vai no caminho contrário ao movimento que vem sendo feito no Brasil para promover a concessão de sistemas de esgoto para a iniciativa privada.

O BNDES vem incentivando a atuação do setor privado na área de saneamento, e, no fim do ano passado, lançou um edital visando a privatização de empresas estatais, a concessão de serviços ou a criação de parcerias público-privadas.

À época, o banco anunciou que 18 Estados haviam decidido aderir ao programa de concessão de companhias de água e esgoto – do Acre a Santa Catarina.

O Rio de Janeiro foi o primeiro se posicionar pela privatização. A venda da Companhia Estadual de Água e Esgoto (Cedae) é uma das condições impostas pelo governo federal para o pacote de socorro à crise financeira do Estado.

A privatização da Cedae foi aprovada em fevereiro deste ano pela Alerj, gerando polêmica e protestos no Estado. De acordo com a lei aprovada, o Rio tem um ano para definir como será feita a privatização. Semana passada, o governador Luiz Fernando Pezão assinou um acordo com o BNDES para realizar estudos de modelagem.

Da água à coleta de lixo, 835 casos de reestatização

Satoko e sua equipe começaram a mapear as ocorrências em 2007, o que levou à criação de um “mapa das remunicipalizações” em parceria com o Observatório Corporativo Europeu.

site monitora casos de remunicipalização – que podem ocorrer de maneiras variadas, desde privatizações desfeitas com o poder público comprando o controle que detinha “de volta”, a interrupção do contrato de concessão ou o resgate da gestão pública após o fim de um período de concessão.

A análise das informações coletadas ao longo dos anos deu margem ao estudo. De acordo com a primeira edição, entre 2000 e 2015 foram identificados 235 casos de remunicipalização de sistemas de água, abrangendo 37 países e afetando mais de 100 milhões de pessoas.

Nos últimos dois anos, foram listados 32 casos a mais na área hídrica, mas o estudo foi expandido para observar a tendência de reestatização em outras áreas – fornecimento de energia elétrica, coleta de lixo, transporte, educação, saúde e serviços sociais, somando um total de sete áreas diferentes.

Em todas esses setores, foram identificados 835 casos de remunicipalização entre o ano de 2000 e janeiro de 2017 – em cidades grandes e capitais, em áreas rurais ou grandes centros urbanos. A grande maioria dos casos ocorreu de 2009 para cá, 693 ao todo – indicando um incremento na tendência.

O resgate ou a criação de novos sistemas geridos por municípios na área de energia liderou a lista, com 311 casos – 90% deles na Alemanha.

A retomada da gestão pública da água ficou em segundo lugar. Dos 267 casos, 106 – a grande maioria – foram observados na França, país que foi pioneiro nas privatizações no setor e é sede das multinacionais Suez e Veolia, líderes globais na área.Ambiente,Blog do Mesquita

Estação de Tratamento de Água (ETA) Guandu, em Nova Iguaçu (RJ)
Direito de imagemCOSME AQUINO

Fácil fazer, difícil voltar atrás

De acordo com o estudo, cerca de 90% dos sistemas de água mundiais ainda são de gestão pública. As privatizações no setor começaram a ser realizadas nos anos 1990 e seguem como uma forte tendência, em muitos casos impulsionadas por cenários de austeridade e crises fiscais.

Satoko diz ser uma “missão impossível” chegar a números absolutos para comparar as remunicipalizações, de um lado, e as privatizações, de outro. Estas podem ocorrer em moldes muito diferentes, seja por meio de concessões de serviços públicos por determinados períodos, privatizações parciais ou venda definitiva dos ativos do Estado.

Entretanto, ela frisa a importância de se conhecer os riscos que uma privatização do fornecimento de água pode trazer e as dificuldades de se reverter o processo.

“Autoridades que tomam essa decisão precisam saber que um número significativo de cidades e estados tiveram razões fortes para retornar ao sistema público”, aponta Satoko.

“Se você for por esse caminho, precisa de uma análise técnica e financeira muito cuidadosa e de um debate profundo antes de tomar a decisão. Porque o caminho de volta é muito mais difícil e oneroso”, alerta, ressaltando que, nos muitos casos que o modelo fracassou, é a população que paga o preço.

Como exemplo ela cita Apple Valley, cidade de 70 mil habitantes na Califórnia. Desde 2014, a prefeitura vem tentando se reapropriar do sistema de fornecimento e tratamento de água por causa do aumento de preços praticado pela concessionária (Apple Valley Ranchos, a AVR), que aumentou as tarifas em 65% entre 2002 e 2015.

Litígios dispendiosos

A maioria da população declarou apoio à remunicipalização, mas a companhia de água rejeitou a oferta de compra pela prefeitura. Em 2015, a cidade de Apple Valley entrou com uma ação de desapropriação, e o processo agora levar alguns anos para ser concluído.

Satoko afirma que há inúmeros casos de litígios similares, extremamente dispendiosos aos cofres públicos e que geralmente refletem um desequilíbrio de recursos entre as esferas públicas e privadas.

“Quando as autoridades locais entram em conflito com uma companhia, vemos batalhas judiciais sem fim. Em geral, as empresas podem mobilizar muito mais recursos, enquanto o poder público tem recursos limitados, e muitas vezes depende de dinheiro proveniente de impostos para enfrentar o processo.”

Outro exemplo que destaca é o de Berlim, onde o governo privatizou 49,99% do sistema hídrico em 1999. A medida foi extremamente impopular e, após anos de mobilização de moradores – e um referendo em 2011 -, ela foi revertida por completo em 2013. Foi uma vitória popular, diz Satoko, mas por outro lado o Estado precisou pagar 1,3 bilhão de euros para reaver o que antes já lhe pertencia.

“É um caso muito interessante, porque a iniciativa popular conseguiu motivar a desprivatização”, diz Satoko. “Mas isso gerou uma grande dívida para o Estado, que vai ser paga pela população ao longo de 30 anos.”

Realidade brasileira

Já tem uma década que a Lei do Saneamento Básico entrou em vigor no Brasil, mas metade do país continua sem acesso a sistemas de esgoto.

De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, 50,3% dos brasileiros têm acesso a coleta de esgoto. Para a outra metade do país – 100 milhões de pessoas – o jeito de lidar com dejetos é recorrer a fossas sanitárias ou jogar o esgoto diretamente em rios. Já o abastecimento de água alcança hoje 83% dos brasileiros.

O economista Vitor Wilher afirma que não se pode ignorar esse cenário. Especialista do Instituto Millenium, ele considera que, no Brasil, a privatização seria uma solução do ponto de vista técnico e pragmático.

Ao deter controle de outras áreas que poderiam ser geridas pela iniciativa privada – como saneamento básico, correios, indústria de petróleo – o Estado brasileiro não consegue oferecer serviços básicos de qualidade, como segurança, educação e saúde, afirma.

“Na situação a que chegamos, porém, é meio irrelevante discutir se o Estado brasileiro deveria ou não cuidar dessas áreas. Porque o fato é que o Estado não tem mais recursos para isso”, diz o economista.

“Os recursos estão de tal sorte escassos que ou o Estado privatiza, ou essas áreas ficam sem investimento. Hoje mais de metade da população não tem saneamento básico. Um Estado que gera um deficit primário da ordem de quase R$ 200 bilhões ao ano não tem qualquer condição de fazer os investimentos públicos necessários no setor.”

Moeda de troca para austeridade

O caso do Rio, e da Cedae, é semelhante ao de outros países em que a privatização de serviços públicos é exigido por instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial como contrapartida para socorro financeiro.

Satoko lembra o caso da Grécia, onde a privatização das companhias de água que abastecem as duas maiores cidades do país, Atenas e Thessaloniki, era uma das exigências do programa de resgate ao país.

“É um approach absolutamente injusto, porque a companhia de águas é vendida meramente para pagar uma dívida. Mas, com isso, o dinheiro entra no orçamento público e imediatamente desaparece. Depois disso, a empresa já saiu das mãos públicas – ou indefinidamente, ou por períodos de concessão muito longos, que costumam ser de entre 20 a 30 anos”, pondera.

No papel, a Cedae é uma empresa de economia mista, mas o governo estadual do Rio detém 99,9% das ações. A companhia atende cerca de 12 milhões de pessoas em 64 municípios.

“No caso específico da Cedae, a entrega da gestão a iniciativa privada é ainda mais justificada”, considera Wilher, do Instituto Millenium.

“Além de a situação fiscal do Rio ser crítica, a Cedae não tem serviços de tratamento de água e esgoto satisfatórios há décadas”, diz ele, citando como contraponto o caso de Niterói, cidade vizinha ao Rio, em que a desvinculação da companhia pública e a privatização da rede de água levou a bons resultados. “É um dos cases de sucesso nos últimos anos no Brasil.”

Apesar das muitas deficiências que costumam ser apontados na qualidade e na abrangência do serviço prestado, a Cedae tem ganhos expressivos: só em 2016 o lucro foi de R$ 379 milhões, contra R$ 249 milhões em 2015 – um incremento de 52%.

Satoko afirma que o argumento da ineficiência de sistemas públicos de esgoto não podem ser uma justificativa para a privatização.

“Seus defensores apresentam a privatização como a única solução, mas há muitos bons exemplos no mundo de uma gestão pública eficiente. Afinal, 90% do fornecimento de água no mundo é público”, lembra. “A solução não é privatizar, e sim democratizar os serviços públicos.”

O economista Vitor Wilher ressalta, entretanto, que privatizar não significa uma saída de cena do estado. Uma parte fundamental do processo é uma estrutura de regulação sólida, estabelecendo obrigações, compromissos, prazos, políticas tarifária.

“Não se trata de entregar para a iniciativa privada. Os contratos têm que estar muito bem amarrados, senão a empresa poderia praticar os preços que quisesse e descumprir os serviços que lhe foram designados. Isso é um ponto importantíssimo. Não basta só privatizar, é preciso regular.”

Na Grécia, privatização de algumas companhias de água era uma das exigências do programa de resgate ao país.

Lógica do lucro ‘incompatível’ com serviços?

O estudo da remunicipalização de serviços aponta para incompatibilidades entre o papel social de uma companhia de água e saneamento com as necessidades de um grupo privado. Os serviços providos são direitos humanos fundamentais, atrelados à saúde pública e que, pelas especificidades do setor, precisam operar como monopólio.

Satoko considera que grupos privados não têm incentivo para fazer investimentos básicos que não teriam uma contrapartida do ponto de vista empresarial. No caso do Rio, por exemplo, investimentos necessários para aumentar o saneamento em áreas carentes não dariam retorno, considera.

“Com a concessão para grupos privados, a lógica de operação da companhia muda completamente. Os ativos não pertencem mais ao público. Ela passa a ter que gerar lucros e dividendos que sejam distribuídos para acionistas”, diz Satoko.

“O risco é enorme. Sistemas de água não pertencem ao governo, e sim ao povo. Se esse direito se perde, torna-se mais difícil implementar políticas públicas.”

A discussão necessária, considera Satoko, é como tornar uma companhia de saneamento mais eficiente e lucrativa para a sociedade. Quando a dívida pública se estabelece como prioridade, não há mais espaço para esse debate.

Mortalidade infantil impõe queda de braço com ajuste fiscal de Temer

Estudo da Fiocruz aponta que limite de gastos que afetam Bolsa Família e Estratégia de Saúde da Família podem ter impacto direto na mortalidade de milhares de menores de até 5 anos até 2030Mortalidade infantil no Brasil

O congelamento de gastos planejado pelo Governo de Michel Temer como resposta à crise econômica poderá ter um impacto direto na mortalidade de crianças, aponta um estudo feito por analistas ligados à Fiocruz e divulgado nesta terça-feira pela revista científica norte-americana PLoS Medicine. Os pesquisadores fizeram uma simulação de quantas mortes de menores de cinco anos poderiam ser evitadas até 2030 caso os programas Bolsa Família e Estratégia de Saúde da Família tenham seus orçamentos aumentados de forma proporcional ao acréscimo no número de pobres no país. Seriam 19.732 mortes a menos até 2030 em comparação com o cenário mais provável, o de que os orçamentos aumentem apenas segundo a inflação do ano anterior, como prevê, de forma global para todas as pastas do Governo, a Emenda Constitucional 95(antiga PEC 241). A extrema pobreza no Brasil aumentou 11% entre 2016 e 2017, mas o orçamento do Bolsa Família previsto para este ano é menor do que o do ano passado.

O estudo se apoia em duas notas técnicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgadas em 2016, logo após a aprovação da Emenda Constitucional que congela os gastos do Governo. A primeira delas afirmava que em 20 anos de aplicação da PEC a política de assistência social brasileira, que comporta o Bolsa Família, contaria com menos da metade dos recursos necessários para garantir a manutenção da cobertura nos padrões atuais. A segunda nota apontava que, até 2036, o Sistema Único Brasileiro (SUS), responsável pelo Saúde da Família, perderia cerca de 400 bilhões de reais —número similar ao achado por outro estudo, do Conselho Nacional de Saúde.

Os pesquisadores também se basearam em outra nota, do Banco Mundial, que recomendou um aumento no orçamento do Bolsa Família em 2017 para 30,41 bilhões de reais para fazer frente aos brasileiros que entraram na faixa da pobreza pela severa crise econômica. “A distribuição do orçamento adicional do Bolsa Família para as famílias recém elegíveis entre os novos pobres pode evitar que a taxa de pobreza extrema no Brasil aumente para além do nível de 2015″, afirma este estudo. Em 2017, o Governo gastou 28,9 bilhões para 13,8 milhões de famílias, aponta o site Poder 360. Para 2018, o orçamento previsto para o programa é menor: 28,2 bilhões, para 13,9 milhões de beneficiários. O Governo, entretanto, anunciou um reajuste no valor repassado às famílias no último dia primeiro. 

Com base nos dados apresentados nesses três estudos, os pesquisadores consideraram três cenários distintos de crise econômica e seus efeitos no aumento da pobreza entre 2015 e 2030, um período de 15 anos. No primeiro cenário, mais moderado, se considerou que a taxa de pobreza aumentaria até 2017 e depois voltaria a cair até 2030. No segundo, considerado por eles o mais provável, a pobreza deixaria de aumentar após 2019. E no terceiro, mais agudo, o aumento da pobreza só pararia após 2021. Para cada um dos três cenários se estipulou duas possibilidades: a de o orçamento do Bolsa Família e do Saúde da Família aumentarem de acordo com o crescimento da pobreza; e a de os dois programas sofrem o efeito da Emenda Constitucional, ou seja, seus orçamentos só aumentarem pelo reajuste da inflação. A partir daí, eles calcularam em quanto seria impactada a taxa de mortalidade infantil.

Em todos os três cenários de aumento da pobreza, o país mantém a queda da mortalidade infantil vivenciada nos últimos anos —entre 2000 e 2016 ela caiu 31% em números absolutos (de 56.786 para 39.305). Mas essa diminuição varia de acordo com o nível de proteção orçamentária dos dois programas. No segundo cenário de crise, considerado pelos pesquisadores como o mais provável, a manutenção da proteção social adequada traria uma quantidade de mortes infantis 8,57% menor até 2030. Em números brutos, isso representaria 19.732 mortes a menos. No cenário de crise mais branda, se evitaria até em 2030 13.954 mortes. E no de crise mais grave o congelamento de gastos deixaria de evitar 23.424 mortes. O Governo federal refuta a ideia de que o orçamento será congelado e afirma que a cobertura do Bolsa Família tem crescido e vem sendo reajustado.

Para chegar a esta conclusão, os pesquisadores utilizaram a base de cálculo do impacto dos dois programas na taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos entre 2004 e 2009, observada por eles em outro estudo, publicado em 2013 na também revista científica The Lancet. Na ocasião, eles calcularam todas as causas de mortalidade infantil entre menores de cinco anos, incluindo, por exemplo, desnutrição, diarreia e infecções respiratórias agudas, e montaram modelos matemáticos que isolaram os efeitos do Bolsa Família nestas causas. Com isso, concluíram que o programa foi responsável pela redução de 17% das mortes de crianças menores de cinco anos.

Isso acontece porque o Bolsa Família, segundo os pesquisadores, melhora tanto a qualidade quanto a quantidade de comida das famílias pobres, impactando, especialmente, na diminuição de casos de diarreia e de desnutrição. O programa também aumenta as consultas pré-natal das gestantes e a cobertura vacinal das crianças, pré-requisito para o recebimento do benefício, assim como as consultas com pediatras. Já o Saúde da Família aumenta o número de visitas médicas, já que ele prevê que os profissionais de saúde visitem os domicílios pobres para atender e orientar as famílias. Tudo isso tem impacto no chamado grupo de mortes evitáveis, aquelas que poderiam ser prevenidas por ações efetivas do Governo, como vacinação, atenção adequada à gestante, ao parto e ao recém-nascido, e ações adequadas de promoção à saúde, o que inclui, por exemplo, anemias associadas à deficiências nutricionais.

“A mortalidade de menores de cinco anos tem caído ao longo do tempo. O que importa do ponto de vista de política pública é o que nós podemos fazer para acelerar esta queda. O Bolsa Família é um dos mais bem sucedidos programas de melhoria da situação nutricional das famílias no mundo. Precisa ser utilizado, sim, no controle dos efeitos da crise econômica”, ressalta Romulo Paes-Sousa, da Fiocruz Minas Gerais e outro dos autores do estudo.

Mortalidade infantil atual

O sistema de estatísticas do SUS (DataSus) já demonstra que diante do cenário atual de crise a mortalidade infantil está sendo impactada, segundo dados adiantados pelo jornal Valor Econômico no último dia 14 e confirmados por um levantamento feito pelo EL PAÍS no sistema. Os dados apontam que a mortalidade entre crianças de um a quatro anos cresceu 11% no país entre 2015 e 2016, últimos dados disponíveis. Apesar disso, os dados globais de mortes evitáveis de crianças caiu 1,2% no período, impulsionado pela queda ocorrida no grupo dos recém-nascidos que continua. 

Quando os dados são analisados por cor ou raça, também percebe-se que o aumento nos dados das crianças entre um e quatro anos se deu especialmente entre brancos e pretos (14%) e indígenas (17%). Apenas Mato Grosso, Santa Catarina, Distrito Federal Sergipe e Tocantins diminuíram seus índices de mortes evitáveis nesta faixa etária. Em Roraima, o aumento chegou a 43% e, se olhados os dados referentes aos indígenas, o número de mortes se elevou em 106% — há anos os indígenas da etnia yanomami, que vivem no Estado, denunciam a precária situação da saúde indígena.

Médicos e MPF tentam barrar lei ruralista sobre agrotóxicos apelidada de “pacote de veneno”

Projeto em discussão na Câmara pode acelerar registro de “defensivos agrícolas” e diminuir poder de órgãos de saúde e meio ambiente

Plantação de soja em Goiás.
Plantação de soja em Goiás. TONY OLIVEIRA CNA

Uma guerra de narrativas predomina em um debate envolvendo agrotóxicos no Congresso Nacional. De um lado, ruralistas chamam o projeto 6.299/2002 de “Lei do Alimento Mais Seguro”. Do outro, opositores o chamam de “Pacote de Veneno”. Na prática, a proposta elaborada por entidades que representam produtores rurais, com o auxílio da indústria química, tem como objetivo alterar uma lei do ano 1989 que trata do uso e do registro de agrotóxicos, herbicidas e pesticidas em todo o território brasileiro. A discussão, que ficou quase 14 anos parada, foi retomada em 2016. Agora, está em vias de ser votada na Câmara com altas chances de aprovação. Entre os deputados federais, 228, ou 44% dos 513, se declaram membros da bancada ruralista e são vinculados à Frente Parlamentar Agropecuária. 

Se aprovada, a lei modificará uma série de procedimentos. Entre eles estão: a redução do tempo para o registro e a comercialização dos produtos junto aos órgão de saúde e meio ambiente, a mudança do nome oficial deles (passariam a se chamar produtos fitossanitários ou de controle ambiental), além da possibilidade de validar o uso de defensivos agrícolas que são proibidos em outros países por trazerem riscos à saúde (como a má-formação de fetos ou o aumento da probabilidade do aparecimento de cânceres). O projeto é relatado pelo deputado Luiz Nishimori (PR-PR). Já aprovado no Senado, o autor da proposta é o senador licenciado e hoje ministro da Agricultura, Blairo Maggi (PP-MT).

Os embates apaixonados tomaram conta das últimas semanas de uma comissão especial na Câmara. Nas audiências recentes, deputados e militantes levaram cartazes que representam o momento de polarização política do país. Diziam eles: “Querem colocar veneno no seu prato” ou “Eu apoio alimentos mais seguros”.

O argumento dos que são contrários à lei é o de que autorizar as modificações fará com que cada vez mais agrotóxicos sejam usados nas lavouras e, consecutivamente, resíduos deles acabem nas comidas dos brasileiros. Enquanto que os apoiadores do projeto dizem que, com mais defensivos agrícolas modernos, será possível aumentar a produção com o uso reduzido de produtos químicos.

Fora do parlamento diversas instituições já se manifestaram, por meio de notas técnicas ou artigos, contrárias ou favoráveis ao projeto. Entre os que querem sua rejeição estão: o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o Ministério Público Federal (MPF), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), além de um grupo de 329 ONGs. Do outro lado, entre os favoráveis às alterações estão grupos ligados com o agronegócio, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), além das Associações de Produtores de Soja (Aprosoja), milho (Abramilho) e algodão (Abrapa). Essas três últimas criaram um site e promovem o corpo a corpo com os parlamentares pela “Lei do Alimento Mais Seguro”. No caso do MPF, os procuradores alegaram que, se aprovada, a lei seria inconstitucional.

Câncer e má-formação

Um dos argumentos insistentemente usados pelos opositores ao projeto são o de que o uso de agrotóxicos aumenta a possibilidade de que os trabalhadores que atuam nas lavouras assim como os consumidores desses alimentos tenham maior possibilidade de contrair câncer, ter alguma má-formação genética (principalmente no caso de fetos) ou algum distúrbio hormonal.

“Quando você caracteriza uma substância como mutagênica não existe limite seguro de exposição”, diz a toxicologista Márcia Sarpa

A toxicologista e pesquisadora Márcia Sarpa, do Instituto Nacional do Câncer, diz que a atual legislação (7802/1989) proíbe o registro de qualquer agrotóxico que traga esses riscos. Mas o projeto relatado pelo deputado Nishimori suspende essa proibição imediata pela elaboração de um processo de análise de risco, em que haveria níveis aceitáveis para a presença de produtos teratogênicos (que causam má-formação fetal) ou cancerígenas.

“Quando você caracteriza uma substância como mutagênica não existe limite seguro de exposição. Quando alguém entra em contato, já está em risco. Não há como estabelecer o limite”, pondera. Sarpa vai além e diz que há um risco iminente de mais pessoas adoecerem caso o projeto seja aprovado e aumente o número de agrotóxicos nas lavouras. “Corremos o risco de comermos uma sopa de agrotóxicos, uma sopa de veneno”.

Representantes de associações de produtores, contudo, dizem que há um certo exagero nessas colocações e minimizam as declarações dos opositores da proposta. “Às vezes, querem passar a imagem de que o produtor fica igual um tarado, um louco, em cima de um caminhão jogando agrotóxico em toda a lavoura. O que não é verdade”, disse o diretor-executivo da Aprosoja, Fabrício Rosa. “Queremos usar cada vez menos agrotóxicos. Para isso, precisamos de produtos mais modernos”, complementa.

Outro médico, o toxicologista e professor aposentado da Unicamp Angelo Zanaga Trapé discorda da visão de sua colega do Inca. Nos últimos anos ele desenvolveu três estudos com uma população de cerca de 3.000 agricultores diretamente expostos a agrotóxicos. Em nenhum deles foi encontrado qualquer registro de que a exposição a esses produtos tenha causado câncer, Parkinson ou qualquer outro distúrbio relevante. “Em todas pesquisas que desenvolvi encontrei um padrão de morbidade nessas populações rurais que é muito similar ao restante da população brasileira. Não há nenhum lugar que eu fui que tenha algo mais grave que outros”, relatou.

Na opinião de Trapé, uma nova lei pode ser um avanço, desde que acompanhada de uma série de estudos clínicos e epidemiológicos de biomonitoramento das populações mais expostas para entender se esse público está sofrendo ou não com os novos agrotóxicos. “Sem dados sobre os indicadores de saúde, entramos no achismo, um viés ideológico. São mais pessoas contrárias ao sistema neoliberal do que contra o uso de agrotóxico”.

“Queremos usar cada vez menos agrotóxicos. Para isso, precisamos de produtos mais modernos”, diz Fabrício Rosa, da Aprosoja

Tempo de registro

Atualmente, para se registrar um defensivo agrícola demora-se de três a dez anos. Enquanto que em países como Estados Unidos ou outros da União Europeia leva-se de dois a quatro anos. No Brasil, é necessário que a Comissão Técnica para Agrotóxicos, formada por representantes do Ministério da Agricultura, da Anvisa e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), analisem o novo produto. Os três emitem pareceres sobre o pedido e só é aceito após o aval unânime de que ele não afeta de maneira grave nem a saúde pública, nem o meio ambiente e de que é eficaz no controle de determinada praga.

Pelo projeto atual, esse grupo seria coordenado pelo Ministério da Agricultura e os outros órgãos teriam menos relevância na análise. E o registro do agrotóxico deveria levar no máximo 12 meses. Se extrapolasse esse prazo, seria emitido um registro temporário, desde que outros três países da Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) já tivessem autorizado a comercialização desse mesmo produto.

“Se for aprovado, haverá um desequilíbrio de forças. O ministério sofreria pressão do poder econômico e os outros órgãos seriam enfraquecidos”, afirmou o presidente da associação dos servidores da Anvisa (Univisa), Carlos Renato Ponte. “As queixas são, em sua maioria, ideológicas. Se outros países da OCDE autorizaram, por qual razão não poderíamos autorizar?”, questionou Paulo César Amaral, consultor jurídico da Associação Brasileira de Produtores de Algodão.

“Não faz sentido levar cinco anos para analisar um produto”, diz Carlos Fernando Ponte, da Univisa

Por outro lado, há o temor de que produtos que foram proibidos em outras nações sob o argumento de que poderiam afetar a saúde pública ou o meio ambiente passem a ser usados no Brasil, exatamente por causa dessa regulamentação temporária. Um documento emitido pela Anvisa, que contesta o projeto de lei, elenca ao menos nove casos que isso poderia ocorrer. Atualmente há 2.500 produtos na fila para serem aprovados. Os mais antigos datam do ano de 2009. “Não queremos que todos sejam aprovados logo, apenas os 30 novos que já poderiam estar sendo usados e foram autorizados em vários países”, completou o consultor da Abrapa.

Mas os opositores acham que tem alternativa para se acelerar a análise desses produtos sem mudar a lei, segundo o representante da Univisa, seria aprimorar um decreto ministerial específico sobre agrotóxicos. “Não faz sentido levar cinco anos para analisar um produto. Diminuiria a burocracia e atenderia ao mercado, que é o que tantas pessoas querem. Não precisa mudar a lei”, disse Ponte.

No mesmo sentido segue o médico Guilherme Franco Netto, especialista em saúde, ambiente e sustentabilidade da Fiocruz. “Deveríamos trabalhar no sentido de aprimorar a lei atual, não só fortalecendo os órgãos reguladores, como também trabalhar na perspectiva de abrir a possibilidade de produção de alimentos e outros insumos que possam ser feitos de maneira mais saudável”.

Votação na comissão

Nas próximas duas semanas, o PL 6.299/2002 deverá ser votado na comissão especial que analisa o tema. A tendência é que seja aprovado da maneira que está, já que 20 dos 26 parlamentares que a compõem são membros da bancada ruralista. Depois de passar pela comissão, deve levar de uma a duas semanas para ser votado pelo plenário da Câmara.
ElPaís

Febre amarela e tragédia de Mariana

Eu acredito que se a SAMARCO fosse uma empresa Estatal, sairia todos os dias na mídia matéria fazendo conexão entre o estouro criminoso da barragem da barragem em Mariana, e o surto de Febre Amarela. Os liberais já estariam urrando de como seria importante privatizá-la para evitar esse tipo de tragédia.Brasil,Ambiente & Ecologia,Saúde Pública

SUS e o “vírus corruptos humaus”

A Era da Impunidade, Mediocridade e Canalhice, trouxe em seu interior a falta de vergonha e pudor.

Comportamento,Blog do Mesquita,COrdeiro,Lobo

Convenhamos;

Aquele que mata anônimos numa fila de SUS porque desvia verba pública pela corrupção, é tão criminoso quanto aquele que empunha uma arma automática e mata anônimos em Paris, afoga camponeses em enxurrada tóxica em Minas Gerais e mata de sede pessoas e animais no desértico nordeste.

O Estado brasileiro é um caldeirão de corruptos. A gente não consegue saber se politico já nasce corrupto, se é o leite da mãe que contamina a criancinha e o “vírus corruptos humaus” se instala a partir dai, ou se adulto, perde a vergonha, se é que algum dia teve, e dá no que dá, político rouba!

Qualquer semelhança do golpe no Brasil com o de Zimbábue, é mera coincidência. Ninguém que largar a mamata.

Saúde, Antibióticos, Epidemia e Câncer

A “epidemia” que matará mais gente do que o câncer (se não for evitada)

resistência aos antibióticos
Abdoul Gadiri Diallo, médico do centro de saúde CMC Flamboyants em Conacri, Guiné.

Há muitos perigos que ameaçam a humanidade em seu caminho rumo a um mundo melhor em 2030, quando terá que prestar contas para comprovar se os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram alcançados. Certamente, o mais conhecido é a mudança climática, que há anos está na agenda internacional. Outro perigo, mais desconhecido da opinião pública, pode se tornar a primeira causa de morte em 2050 se não forem tomadas medidas contundentes para detê-lo: a resistência aos antibióticos.

“Trata-se de uma ameaça terrível, com grandes implicações para a saúde humana. Se não abordarmos isso, o avanço em direção aos ODS será freado e nos levará ao passado, quando as pessoas arriscavam suas vidas devido a uma infecção em uma pequena cirurgia. É um problema urgente”, disse na quinta-feira Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), em uma reunião no âmbito da 72ª Assembleia das Nações Unidas (ONU), em Nova York. York.

A resistência aos antibióticos é uma resposta dos microrganismos ao uso desses medicamentos. Seu uso — e especialmente seu abuso — faz com que, por meio de diferentes mecanismos biológicos, percam sua eficácia. As bactérias deixam de ser sensíveis aos seus efeitos e são necessários princípios ativos cada vez mais agressivos — e tóxicos para o organismo humano — para eliminá-las. Com sorte. Porque já existem superbactérias que resistem até mesmo aos antibióticos de última geração. “As resistências estão aqui para ficar e vão piorar”, alertava Sally Davies, diretora médica do Reino Unido.

Por causa dessa resistência, cerca de 700.000 pessoas morrem todos os anos no mundo. O cenário com o qual os especialistas trabalham em seus estudos é que, se a situação não mudar, esse número chegue a 10 milhões em 2050. Para se ter uma ideia da magnitude da tragédia, hoje morrem pouco mais de oito milhões de pessoas por ano devido ao câncer. A grande maioria dos casos fatais estaria na Ásia (4,7 milhões) e na África (4,1 milhões), seguidas pela América Latina (392.000), Europa (390.000), América do Norte (317.000) e Oceania (22.000).

Xoliswa Harmans, conselheira da clínica Lizo Nobanda, da Cidade do Cabo, África do Sul. Estas profissionais de saúde são fundamentais para os doentes quando enfrentam um tratamento que durará pelo menos dois anos. Pacientes de tuberculose extremamente resistente encontram apoio emocional e informações durante esse processo.
Xoliswa Harmans, conselheira da clínica Lizo Nobanda, da Cidade do Cabo, África do Sul. Estas profissionais de saúde são fundamentais para os doentes quando enfrentam um tratamento que durará pelo menos dois anos. Pacientes de tuberculose extremamente resistente encontram apoio emocional e informações durante esse processo. ALFREDO CÁLIZ
A boa notícia é que a preocupação passou do plano científico, onde era debatido há décadas, para o político. Em 2016, na 71ª Assembleia Geral da ONU, o assunto foi discutido no mais alto nível pela primeira vez. Exatamente um ano depois, quando mudaram tanto o Secretário-Geral da ONU como o diretor da OMS, a preocupação de perder o interesse gerado foi explicitada por alguns oradores do encontro chamado Progressos, desafios, oportunidades e novas formas de abordar a resistência aos antibióticos, organizado pela UN Foundation.

Essas novas formas passam por abordar os dois grandes geradores de resistências: o uso indevido em seres humanos e o abuso nos animais. No que diz respeito às pessoas, são drogas que muitas vezes não exigem receita e é frequente que sejam consumidas à vontade. Particularmente perigoso é tomar de forma incompleta, porque o micro-organismo não chega a ser eliminado, mas conhece seu inimigo aprendendo a lutar contra ele. “Costuma-se debater que sempre é necessária a receita, mas em muitas partes do mundo este é um processo complicado que privaria milhões de pessoas do tratamento. Precisamos encontrar as soluções mais adequadas para cada realidade”, observou Julie Gerverding, vice-presidenta da farmacêutica Merck. “O necessário é um diagnóstico no começo para que o paciente tenha o tratamento correto o quanto antes”, acrescentou.

Por causa das resistências já morrem cerca de 700.000 pessoas por ano no mundo

As campanhas de informação, tanto para médicos quanto para pacientes, são uma das principais ferramentas para evitar esse mau uso de antibióticos. Jean Halloran, diretora das iniciativas de alimentação da União de Consumidores, explicou que sua organização está desenvolvendo em 20 países uma campanha que incentiva o uso de menos remédios. Nos consultórios, por exemplo, facilitam uma lista de perguntas que o próprio paciente deveria fazer ao seu médico se ele prescrever um antibiótico para ter certeza que é absolutamente necessário.

Mas talvez a arma mais valiosa para combater a resistência sejam as vacinas. Com elas, evitamos um grande número de doenças bacterianas comuns, o que torna os antibióticos desnecessários. “Imunizar 100% das crianças do mundo seria mais eficaz do que qualquer outra coisa”, afirmou Tim Evans, diretor de Saúde do Banco Mundial.

Sua organização calculou os custos da resistência. Em março passado publicou um relatório mostrando que não apenas são um perigo para a saúde, mas também para a economia. No melhor dos cenários, calculam uma queda do PIB mundial de 1,1% em comparação com o que aconteceria se não existisse, o que equivale a um trilhão de dólares por ano até 2030. O cenário mais pessimista eleva esse número para 3,8% de queda, 3,4 trilhões anualmente.

Não só o medicamento em seres humanos tem um papel importante nestes números. Outro dos grandes focos de resistência é a agricultura e o gado. Os animais recebem enormes quantidades de antibióticos para prevenir e curar as doenças comuns que ocorrem em ambientes lotados. E em muitos países (não na União Europeia), ainda está permitido administrar pequenas doses para favorecer a engorda. Este é o ambiente perfeito para que as bactérias se tornem resistentes.

Mas, ao mesmo tempo, a administração de medicamentos aos animais é necessária para a segurança deles mesmos e dos seres humanos. E seu uso vai continuar a crescer. De acordo com estimativas da agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), vai dobrar nos próximos 20 anos pela intensificação da pecuária e da aquicultura. E também o tratamento das plantas, através da utilização de antibióticos nos pesticidas, contribui para a resistência.

O PIB mundial pode sofrer entre 1,1% e 3,8% pela “epidemia”, de acordo com estimativas do Banco Mundial

A FAO faz uma série de recomendações para detê-la: práticas sustentáveis, com boa higiene e medidas de biossegurança para começar a reduzir a necessidade de antibióticos; melhorar a prática veterinária; conhecimento do uso das drogas entre os agricultores e pecuaristas; acesso a diagnósticos rápidos…

Também nos animais as vacinas têm um papel crucial. Bard Skjesltad, chefe de Biologia e Nutrição da empresa aquícola Salmar, explicava que com imunizações conseguiram reduzir o uso de antibióticos para 1%, enquanto produzem entre três a quatro vezes mais comida. “Quando você para de medicar os animais enfrenta problemas de saúde, mas o fundamental são as medidas preventivas”.

Nos países desenvolvidos, as redes de fast food são a chave para combater o problema. De acordo com Jean Halloran (União de Consumidores), são as responsáveis pela produção de 25% das aves nos EUA. Nestes animais, estão conseguindo enormes reduções, começando pelo McDonald’s, que anunciou que iria parar de usar antibióticos neles. “Com a carne bovina e suína os progressos são mais lentos, mas podem ser feitos”, disse Halloran, que argumenta que já foi demonstrada a possibilidade que a produção em massa diminua o consumo de medicamentos com um custo muito baixo.

Mas o relógio está correndo contra a saúde global quando falamos de resistência aos medicamentos. As medidas precisam ser tomadas agora. Porque, como alertava o diretor da OMS, há poucos medicamentos novos que conseguirão resolver um problema que pode se tornar a maior epidemia nos próximos anos.

A participação de Planeta Futuro na Assembleia Geral das Nações Unidas foi possível graças ao apoio da UN Foundation.
ElPais