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Coronavírus de Wuhan deixa a China cada vez mais isolada do resto do mundo

Os anúncios de fechamento de fronteira e de cancelamento de voos causaram mal-estar no Governo chinês, que trata de controlar a epidemia o quanto antes

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Um grupo de pessoas com máscara deixa uma estação ferroviária de Pequim, neste sábado. WU HONG (EFE)

China impõe censura diante da indignação popular com a epidemia do coronavírus

Cúpula do regime reforça o controle da mídia e da Internet e envia 300 propagandistas a Hubei após denúncias de irregularidades sobre os números de mortos e a distribuição de máscaras.Coronavirus,Epidemia,Brasi,China,Blog do Mesquita 4

O coronavírus de Wuhan não deixou isolados apenas os 46 milhões de pessoas que habitam as cidades bloqueadas da província chinesa de Hubei, o foco da epidemia. Depois que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência sanitária internacional, na quinta-feira, é toda a China que se encontra cada vez mais desconectada do resto do mundo. Numerosas companhias aéreas se apressam em cancelar suas rotas chinesas. Diversos governos nacionais anunciaram o fechamento de suas fronteiras para quem tiver estado no país asiático nos últimos 14 dias, incluídos os cidadãos de outras origens.

Dentro da China, a situação criada pelo coronavírus 2019-nCoV não dá trégua. O número de infectados ronda os 14.380; as vítimas mortais chegam a 304; as pessoas sob observação são 163.000, das quais 19.544 com suspeita de terem sido contagiadas. A notícia positiva: o número de pacientes curados, 328, supera o de mortos. Na madrugada deste domingo, o Departamento de Saúde das Filipinas anunciou a morte de um homem de nacionalidade chinesa, de 44 anos, por causa do coronavírus.

A epidemia já chegou a 24 países, que acumulam mais de 150 casos. Só a África e a América do Sul se encontram livre do vírus por enquanto.Coronavirus,Epidemia,Brasi,China,Blog do Mesquita 2

Uma situação que, segundo os Estados Unidos, justifica uma declaração de “emergência de saúde pública” em seu território. Esse país ―o primeiro a anunciar a repatriação de seus cidadãos em Wuhan depois do abrupto fechamento dessa cidade, em 23 de janeiro― fechará suas fronteiras a qualquer estrangeiro que não tiver laços familiares com cidadãos ou residentes permanentes dos EUA e que tiverem visitado a China nas duas semanas anteriores à sua chegada, o período máximo de incubação. O veto entrará em vigor já neste domingo. Além disso, as companhias aéreas norte-americanas também anunciaram a suspensão temporária de seus voos para a China.

Outros países já fizeram o mesmo. Neste sábado, se multiplicavam os anúncios de cancelamentos de voos. A British Airways, Iberia e Lufthansa, que já haviam anunciado essa medida, somaram-se a australiana Qantas e as companhias nacionais do Vietnã, Uzbequistão, Turcomenistão e Irã. Os viajantes que tiverem passado pela China nas últimas duas semanas tampouco serão admitidos em nações como Austrália, El Salvador, Mongólia, Itália e Singapura.Coronavirus,China,Epidemia

As medidas causaram um profundo mal-estar no Governo chinês, que trata de controlar a epidemia o quanto antes, sem poupar gastos. Pequim quer deixar claro que erros como o da gestão da SARS ―uma epidemia semelhante à atual, que matou quase 800 pessoas em todo o mundo em 2003― não vão se repetir.

“Não é necessário que o pânico se espalhe inutilmente, nem tomar medidas excessivas”, declarou o embaixador chinês na ONU em Genebra, Xu Chen, numa entrevista coletiva. A OMS, salientou o diplomata, não deixa de salientar sua “plena confiança” na capacidade chinesa de resolver a crise. Esse órgão da ONU não considera necessário restringir as viagens nem o comércio com o país asiático, segunda maior economia do mundo.

Para Pequim, o fechamento de fronteiras e a saída desordenada dos estrangeiros de Wuhan representam um voto de não confiança em suas medidas de controle e no seu sistema sanitário, apesar de o próprio Governo já ter admitido uma situação de saturação e falta de material protetor. Em muitos casos, os obstáculos burocráticos atrasaram em horas ou dias inteiros os voos de repatriação de estrangeiros.

Até certo ponto, não cabe dúvida de que existe um componente político, e não só sanitário, em algumas das decisões de fechar fronteiras ou mantê-las abertas. Apesar das numerosas recomendações de especialistas médicos, e de já ter confirmado 13 casos em seu território, o Governo de Hong Kong se negou até agora a fechar completamente a fronteira ―mas suspendeu as ligações por balsa e trem rápido, além de reduzir o número de voos para a China continental. Os sindicatos da área da saúde ameaçam declarar greve nesta segunda-feira se a chefa do Governo, Carrie Lam, não ordenar um fechamento completo.Coronavirus,Epidemia,Brasi,China,Blog do Mesquita

Outros países com uma grande dependência econômica da China se colocaram decididamente ao lado desta potência. O Paquistão reluta em retirar seus universitários de Wuhan, apesar dos apelos desses estudantes, para demonstrar “solidariedade” a Pequim. Um argumento semelhante foi usado pelo primeiro-ministro do Camboja, Hun Sen. Numa entrevista coletiva na quinta-feira em Phnom Penh, a capital, ele insistia em que seus cidadãos na China, inclusive em Wuhan, “têm que permanecer ali para ajudar o povo chinês a combater essa doença. Não se deve fugir do povo chinês nestes momentos difíceis”.

Mas as medidas dos Estados Unidos, especificamente, ameaçam abrir mais uma frente de atrito nas difíceis relações entre as duas grandes potências, que tinham assinado em dezembro uma trégua em sua guerra comercial que já durava quase dois anos. Antes do anúncio do fechamento de fronteiras, nesta semana o secretário de Comércio, Wilbur Ross, dizia que o coronavírus na China beneficiava os EUA, pois obrigaria muitas empresas a tirarem suas cadeias de fornecimento do país asiático.

“As palavras e os atos de alguns responsáveis norte-americanos nem se baseiam em fatos nem são adequados”, declarou Hua Chunying, porta-voz da chancelaria chinesa, em nota. “Bem no momento em que a OMS se pronunciou contra restrições de viagem, os Estados Unidos se apressaram em trilhar o caminho oposto. Não é, certamente, um gesto de boa vontade”.

Preocupação com o racismo

O Governo chinês também se preocupa, segundo fontes diplomáticas, com a possibilidade de surtos de racismo contra seus cidadãos em outros países, especialmente indivíduos oriundos de Hubei. Já na semana passada, vários cidadãos japoneses se amotinaram em um avião de volta quando perceberam que um grupo de pessoas dessa província estava a bordo. Nos últimos dias, foram denunciados incidentes de xenofobia na Itália —o país que mais turistas chineses recebe na Europa—, França, Reino Unido e Canadá.

Na França, um porta-voz da Associação de Residentes Chineses, Sacha-Lin Jung, declarou ao canal BFMTV que “as pessoas estão se recusando a serem atendidas por funcionários asiáticos nas lojas… Retiraram uma mulher de um trem porque era asiática, e portanto era óbvio que era portadora do vírus. Essas coisas se somam ao racismo e aos estereótipos que já existem sobre os chineses”.

No Canadá, um grupo de pais solicitou ao conselho escolar num distrito de Ontário que exigissem das famílias que tivessem retornado recentemente da China que “permanecessem em isolamento domiciliar durante um mínimo de 17 dias para observar uma quarentena”.

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OMS: epidemia do Coronaviris é oportunidade para ação

Os primeiros pacientes infectados com coronavírus chegam ao hospital recém-construído em Wuhan.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que existe uma “janela de oportunidade” para impedir que o novo e mortal coronavírus se torne uma crise global mais ampla.

O diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus disse que as medidas tomadas pela China para combater o vírus em seu epicentro são a melhor maneira de impedir sua disseminação.

Enquanto isso, o enviado da China para a ONU em Genebra disse às nações para não reagir demais.

Pelo menos 427 pessoas morreram com mais de 20.000 casos confirmados em todo o mundo.

A OMS declarou uma emergência de saúde global após o surto, mas disse que o vírus ainda não constitui uma “pandemia” – a disseminação mundial de uma nova doença. Autoridades dizem que 425 pessoas morreram na China, uma em Hong Kong e outra nas Filipinas.

Cerca de 80% dos que morreram tinham mais de 60 anos e 75% deles tinham condições de saúde pré-existentes, como doenças cardiovasculares e diabetes, de acordo com a Comissão Nacional de Saúde da China (NHC).

O novo coronavírus causa infecção respiratória aguda grave e os sintomas geralmente começam com febre, seguida por tosse seca. A maioria das pessoas infectadas provavelmente se recuperará completamente – exatamente como faria com uma gripe.

O que a OMS disse?

Falando em um briefing técnico em Genebra, o Dr. Tedros elogiou as autoridades chinesas por sua resposta no epicentro do surto – a cidade de Wuhan, na província de Hubei, onde milhões de pessoas estão presas e foram impostas severas restrições de transporte.

“Há uma janela de oportunidade por causa das altas medidas, das fortes medidas que a China está adotando no epicentro, na fonte. Então, vamos aproveitar esta oportunidade para evitar uma maior disseminação e controle”, disse ele, enfatizando que os países desenvolvidos estão falhando para compartilhar dados.

O Dr. Tedros também reiterou seu pedido para que os países não imponham restrições de viagens e comércio, dizendo que 22 países haviam relatado oficialmente tais medidas. Ele pediu que fossem “curtos em duração, proporcionados” e revistos regularmente.

Mas Chen Xu, embaixador da China na ONU em Genebra, disse que algumas restrições vão contra o conselho da OMS.

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O editor de saúde on-line da BBC sobre o que sabemos sobre o vírus
Sylvie Briand, chefe da divisão Global de Preparação para Riscos Infecciosos da OMS, disse que o surto “atualmente” não era uma pandemia.

Embora mais de duas dúzias de países tenham relatado casos, não houve confirmações na África ou na América Latina. Vinte e sete casos de infecções de homem para homem ocorreram em nove países fora da China, segundo a OMS.

O Dr. Briand também enfatizou a importância de lidar com os rumores infundados, dizendo que eles podem ser um “obstáculo para uma boa resposta e dificultar a implementação eficaz de contramedidas”.

O que há de mais recente em todo o mundo?

Os governos do Reino Unido e da França disseram a seus cidadãos na China que deixassem o país se pudessem. O conselho veio depois que a alta liderança da China admitiu “deficiências e deficiências” na resposta do país ao surto.

Entre outros conseqüências:

Taiwan disse que a partir de sexta-feira negaria a entrada a todos os estrangeiros que estiveram na China continental nos últimos 14 dias
Macau – uma região administrativa especial da China e um dos maiores centros de apostas da Ásia – anunciou que fecharia temporariamente todos os seus cassinos
As autoridades de saúde estão examinando cerca de 3.700 pessoas a bordo de um navio de cruzeiro no Japão depois que um passageiro testou positivo para o vírus
Mais três países asiáticos – Cingapura, Malásia e Tailândia – confirmaram infecções entre cidadãos que não viajaram para a China.

Quão mortal é o vírus?

Mais de 75.000 pessoas podem ter sido infectadas em Wuhan, dizem os especialistas. Mas as estimativas da Universidade de Hong Kong sugerem que o número total de casos pode ser muito maior do que os números oficiais.

O Dr. David Heymann, que liderou a resposta da OMS ao surto de Sars, ou Síndrome Respiratória Aguda Grave, em 2002-03, disse à agência de notícias Associated Press que o novo coronavírus ainda parecia estar aumentando e que era muito cedo para estimar quando atingiria o pico.

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Meio Ambiente,Agricultura,Alimentos,Agrotóxico,Abelhas,Saúde,Ecologia,Blog do Mesquita

Comunidade indígena vítima de aplicação de agrotóxico será indenizada

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Comunidade Indígena Tey Jusu (Foto: Arquivo)

A Justiça Federal condenou um proprietário rural, um piloto agrícola e uma empresa a pagarem, solidariamente, R$ 150 mil à Comunidade Indígena Tey Jusu, vítima de aplicação irregular de agrotóxico.
Segundo o Ministério Público Federal, a comunidade –localizada em Caarapó (MS), 270km ao sul da capital, Campo Grande— é a primeira do estado a ser indenizada por danos morais coletivos. Eles foram condenados com base no Inquérito Policial nº 0015/2016, instaurado para apuração do delito previsto na Lei nº 7.802/98: ação ilícita de aspersão de agrotóxicos em descumprimento às exigências estabelecidas na legislação. Não é permitida a aplicação aérea de agrotóxicos em áreas situadas a uma distância mínima de quinhentos metros de povoações.

O fato ocorreu em 2015. A aspersão causou, em crianças e adultos, dores de cabeça e garganta, diarreia e febre.

Os membros da comunidade relataram que o avião sobrevoou os barracos de sete famílias, derramando o agrotóxico diretamente sobre elas. Depois, sobrevoou outros barracos junto a uma plantação de milho.

Os indígenas produziram vídeos que mostram um avião agrícola em operação, utilizado na aplicação de fertilizantes e agrotóxicos, em que era possível ler o prefixo da aeronave. O piloto do avião foi identificado. O MPF constatou que foi aspergido sobre a comunidade o fungicida Nativo, classe III.

A Justiça concordou com o argumento do MPF, de que os barracos de lona dos indígenas estavam localizados a menos de 500 metros de distância do local onde ocorreu a aplicação de produtos agroquímicos.

Muitos estavam a apenas 30 ou 50 metros de distância da lavoura. Segundo o MPF, os responsáveis assumiram o risco ao executar a aplicação de agrotóxicos.

Os réus sustentaram que a culpa pela intoxicação seria das vítimas, ao argumento de que os indígenas teriam se afastado da aldeia localizada a mais de 500 metros da área de aplicação do produto para adentrar a lavoura exatamente no dia e hora da aspersão.

A Justiça considerou que os laudos apresentados pelo MPF comprovam a existência de barracos próximos à plantação e não o mero trânsito.

Por fim, a sentença afirma que a condenação por dano moral coletivo é “resultante de ofensa à coletividade indígena – lesão à honra e à dignidade -, consubstanciada na exposição, de parcela de seu grupo, à substância imprópria à saúde humana. A dignidade humana é por excelência o bem jurídico supremo. E, para sua proteção, impõe-se o dever jurídico de todos e do próprio Estado em respeitar a dignidade do próximo, seja o próximo um negro, um branco, um índio ou pertencente a qualquer outra raça ou etnia”.(Frederico Vasconcelos/FolhaPressSNG)

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Anvisa quer esconder que sua comida tem veneno

Novo relatório mostra que mais da metade dos alimentos analisados contém resíduos de agrotóxicos, mas órgão finge estar tudo sob controle

Maquiagem! É o que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fez com os novos dados sobre agrotóxicos em nossa alimentação. Ao publicar o novo relatório parcial do PARA (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos), ontem (11/12), o órgão comemorou os resultados.

Enquanto Bruno Rios, diretor adjunto da Anvisa, diz que não há nenhum alarde e que os alimentos estão seguros, a gente pergunta: “Seguro para quem?”, já que MAIS DA METADE (51%) dos alimentos analisados, como alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, cenoura, laranja, manga, pimentão, tomate e uva, continham resíduos de agrotóxicos. Além disso, alimentos importantes da dieta do brasileiro não entraram nesta primeira leva.

“A Anvisa e o governo vêm fazendo uma distorção perversa dos riscos dos agrotóxicos e comunicando alguns dados de forma absurda, para omitir muitos dos riscos que estamos correndo”, alerta Marina Lacôrte, coordenadora da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace. “O relatório do PARA, que deveria funcionar como uma ferramenta de proteção à saúde dos brasileiros, virou propaganda das falácias do agronegócio”.

Estamos comendo comida com veneno e isto não pode ser comemorado! Chega de enganar a população.

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Anvisa dá aval à venda de maconha medicinal em farmácias

Agência também autoriza fabricação de produtos à base de cannabis no país, mas veta cultivo para esse fim. Fabricantes precisarão importar extrato. Venda só ocorrerá com prescrição médica e retenção da receita.    

MaconhaRegulamentação proíbe importação da planta de maconha ou de partes dela

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta terça-feira (03/12) um novo marco regulatório para o registro e venda de produtos à base de cannabis em farmácias no país, tornando o Brasil a nação mais recente da América Latina a autorizar o uso da maconha medicinal.

A decisão entrará em vigor 90 dias após sua publicação no Diário Oficial da União e terá validade de três anos. Os produtos poderão ser em formato de comprimidos ou líquidos, para uso oral ou nasal, bem como soluções oleosas.

De acordo com a Anvisa, a medida visa “encontrar uma forma de garantir o acesso por via farmacêutica” e “assegurar um mínimo de garantia para os usuários do produto”. A agência afirma que a regulamentação oferece alternativa a pacientes que dependem da maconha medicinal.

A Anvisa rejeitou, porém, o cultivo da maconha para fins medicinais ou pesquisa. Dessa forma, apesar de autorizar a fabricação desse produto em território nacional, empresas que desejarem entrar nesse ramo precisarão importar o extrato de cannabis.

As novas regras estabelecem que fabricantes desse tipo de produto necessitam de autorização da vigilância sanitária, além de um certificado de boas práticas emitido pela Anvisa. Farmácias de manipulação não têm autorização para fabricar produtos à base de cannabis.

Além disso, eles só poderão ser vendidos com prescrição médica e retenção de receita. Pacientes precisarão assinar um termo de consentimento. A Anvisa destaca ainda que as embalagens não podem ter termos como medicamento ou remédio, pois mais testes são necessários para elevar o produto à base de cannabis à categoria de medicamento.

Se tiver teor acima de 0,2% de tetra-hidrocanabidiol (THC), um dos derivados da maconha, a embalagem precisará do aviso de que “pode causar dependência física e psíquica”. Esse tipo de produto só será prescrito a pacientes terminais ou que já tenham tentado todas as alternativas terapêuticas.

O marco regulatório possibilita ainda a importação de substratos de cannabis para a fabricação dos produtos. Fica vetada a importação da planta ou de partes dela.

Produtos com o canabidiol são usados no tratamento de doenças como epilepsia, autismo, Parkinson, dores crônicas e câncer.

Atualmente, pacientes que utilizam medicamentos à base de canabidiol precisam de uma autorização da agência para importá-lo. O preço pode chegar a 2 mil reais.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, mais de 7,7 mil pessoas obtiveram o aval da agência desde 2015. Estima-se que 3,9 milhões de podem ser beneficiadas com a liberação da venda em farmácias.

CN/efe/rtr/ots

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A desigualdade no Brasil é medida pelos dentes

Ricos vão ao dentista, e pobres sentem dor.

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Foto: Image Source/Folhapress

MARIA DA LUZ teve sua primeira escova de dentes aos 15 anos. Antes disso, usava folhas para limpar os dentes, como era de praxe em Mulungu do Morro, interior da Bahia, onde nasceu. Aos 14, sentiu uma dor forte no dente da frente e seu avô a levou ao farmacêutico, ordenando que extraísse todos os dentes da frente de uma vez só — sem anestesia — para que não voltasse a incomodar. Aos 17 anos, depois de muito trabalhar na roça, ela conseguiu juntar dinheiro para comprar uma dentadura, com a qual nunca se adaptou.

Maria migrou para São Paulo com os três filhos, priorizando dar o melhor de saúde e educação para eles com as suadas economias do salário de auxiliar de serviços gerais. Ela nunca tirava foto. Dizia que era infeliz com sorriso e que seu sonho era fazer um tratamento dentário. Em 2015, conseguiu fazer implantes com a poupança de muitos anos. Hoje, não coloca mais a mão na boca para sorrir.

A história de Maria, contada a mim por sua filha Maya, é um pouco da história de dezenas de milhões de brasileiros que têm suas vidas atravessadas por dores de dente e falta de autoestima — quadro que só muda quando as famílias experimentam alguma mobilidade social.

Mas o desfecho positivo do caso de Maria, hoje com 47 anos, é incomum. Os problemas relacionados à saúde bucal tornam miserável o cotidiano de pessoas pobres. A dor física latejante e constante se soma à dor moral – o sentimento de vergonha, a humilhação e o trauma por não conseguir sorrir.

Apesar da onipresença desse sofrimento do cotidiano brasileiro, surpreende o quão invisível é o apartheid bucal que divide o país.

Este texto começou há dez anos, quando vi um estudante rico debochar de um porteiro que se queixava de dor de dente. “Que coisa mais jurássica! Isso ainda existe?”, ele disse. Naqueles dias, eu e a antropóloga Lucia Scalco começávamos nossa pesquisa etnográfica sobre consumo e política na periferia do Morro da Cruz, Porto Alegre. Recém havíamos conhecido Juremir, hoje com 52 anos, que não teve dinheiro para pagar um dentista, e a solução encontrada foi colocar álcool na boca para lidar com a dor até o nervo necrosar.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, quatro a cada dez brasileiros perdem todos os dentes depois dos 60 anos. O país que tem mais dentistas no mundo é também o país dos banguelas. Na terra em que ricos pagam o preço de um apartamento para colocarem facetas reluzentes, milhões de pessoas ainda praticam métodos da Idade Média para lidar com a dor. Como afirmam os pesquisadores Thiago Moreira, Marilyn Nations e Maria do Socorro Alves, nesse mundo de abismos, a questão dentária é chave para compreender a desigualdade social e a pobreza no Brasil.

O país que tem mais dentistas no mundo é também o país dos banguelas.

A pobreza é constituída multidimensionalmente por meio de uma combinação de renda e acesso à educação e à saúde. A condição dental precária é exemplar da pobreza porque é resultado de uma falência de uma série de eixos, como a condição financeira, o local de residência e o acesso à informação e à odontologia.

Se a saúde bucal é um fato social por excelência, não é raro escutar profissionais da saúde culparem as vítimas por sua situação. Durante a apuração que fiz para a elaboração deste texto, ouvi coisas como “pobre é acomodado”, “eles têm valores errados, preferem pagar por um tênis a ir ao dentista”, “hoje em dia qualquer pessoa consegue escova de dente de graça em uma universidade”. Individualizar a responsabilidade é uma falácia conveniente.

É difícil pensar a longo prazo quem tem que viver com o imediatismo da sobrevivência. Muitos sujeitos quando conseguem dinheiro precisam comprar comida. Outras vezes, optam por se dar a um pequeno luxo.

Em nossa pesquisa, coletamos infindáveis casos de pessoas que disseram que, em meio a uma existência precária marcada pela dor e sofrimento, permitir-se um pequeno ato hedonista significava uma espécie de “último desejo”– um prazer que será lembrado na memória para sempre. Podia ser um estrogonofe com batata palha, um book fotográfico ou um tênis de marca. Curiosamente todos esses auto-presentinhos foram comprados por pessoas que, aos 40 anos, já não tinham mais nenhum dente na boca.

Muitas crianças crescem em ambientes onde é comum o compartilhamento de escova de dentes. “Meu sonho é ter uma só para mim e não ter que dividir com meus sete irmãos”, escreveu uma menina em uma cartinha ao Programa Papai Noel dos Correios.

Adolescentes pobres saem da infância acumulando histórias dramáticas, que os prejudicam na socialização. Wellington, oito anos, morador do Morro da Cruz, tinha oito cáries em dentes de leite. “Podre” foi como a a dentista definiu a boca do menino. Ele não comia e não tinha mais alegria de viver. Ainda que existam serviços baratos e até gratuitos oferecidos por universidades e ONGs, famílias como de Wellington não sabem sequer como encontrar esses serviços. Minha colega Lúcia fez a mediação e agora ele está recebendo tratamento.

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Beto, 17 anos, não tinha amigos e sofria bullying dos próprios irmãos por causa dos dentes. Hoje com o sorriso reabilitado, Beto tem uma nova vida social. Antes e depois de Beto encontrar a equipe do SAS Brasil.Fotos: Reprodução/SAS Brasil

William Estevesom, 34 anos, trabalha como técnico bucal do bairro mais pobre do município de Alvorada, um dos mais violentos e estigmatizados da Região Metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Ele relata que, nas segundas-feiras de manhã, os pacientes chegam no posto para pegar ficha no SUS depois de um final de semana de tormenta em que já tentaram de tudo para passar a dor, como passar perfume e creolina nos dentes.

As técnicas para lidar com a dor que eu e Lúcia ouvimos nos últimos anos são muitas. Álcool, sal, cravo, pomada de procedência duvidosa e até “sangria”: furar o própria gengiva com uma faca para sangrar e deixar a infecção vazar. Também é comum que as pessoas extraiam seus próprios dentes, pois pensam que, em última instância, é isso que muitos postos de saúde irão fazer. Na comunidade de Dendê, em Fortaleza, os recursos são rezar pelo dente para Santa Apolônia, além de cachaça, óleo de coco e líquido de bateria para diminuir a dor. Muitas dessas técnicas trazem riscos graves à saúde. São fruto do desespero. Como disse Juremir: “não é dor, é uma tormenta, uma angústia”.

Com a ajuda pessoal de Lúcia, Juremir conseguiu colocar uma prótese nos dentes. Voltou a sorrir depois de muitos anos e não parava de postar fotos no Facebook. Mas após cinco anos, o dente que segurava a prótese infeccionou, sua cara inchou e ele recorreu a quase todos os caminhos acima.

Essas experiências vividas vão deixando marcas que deterioram a identidade do sujeito. O processo pode ser encarado como parte da vida: a “sofrência do pobre”. Para muitos, o sofrimento bucal atravessa a vida toda. É uma “sina, um karma de outra vida”, como disse uma interlocutora. Isso porque, mesmo depois de colocar prótese, a alegria pode durar pouco. Sem acompanhamento, muitos não se adaptam e voltam a ser desdentados. “Essa desgraça fica solta, caindo, me machuca gengiva. Só coloco para tirar selfie,” brincou Rosi, 56 anos, também do Morro da Cruz.

Ter os dentes da frente é um requisito estético exigido pela maioria dos empregadores.

Colocar a mão na boca para sorrir é uma cena cotidiana que revela a vergonha sentida por quem tem uma falha na dentição. Por outro lado, percebemos o orgulho que as pessoas têm de mostrar os dentes saudáveis que restam: “esse e esse são bons”.

O técnico do SUS William Estevesom também narrou que, há poucos dias, uma senhora chegou no posto implorando para colocar um dente na frente, alegando que precisava trabalhar já que o inverno estava chegando. Ter os dentes da frente é um requisito estético exigido pela maioria dos empregadores.

Uma amiga, quando soube que eu ia escrever esta coluna, pediu-me para contar a história de sua mãe. Rosana, uma psicóloga que teve uma trajetória de sucesso e ascensão social no norte do país, passou a vida se escondendo das filhas para escovar os dentes. Minha amiga só descobriu que a mãe usava prótese quando tinha 12 anos. Demorou muito tempo para que a mãe se sentisse à vontade para comprar Corega na frente dela. Quando ela faleceu, as filhas tiveram o cuidado de colocar a prótese para velar seu corpo: “ela não gostaria de ser vista de outra forma”.

As filhas de Rosana passaram a vida cuidando excessivamente dos dentes – algo que escutei de muitas pessoas cujas famílias ascendem socialmente. O trauma da dor e a vergonha social de não poder sorrir é uma ferida que deixa marcas familiares profundas. Portanto, o cuidado com a saúde bucal passa a ser uma questão de dignidade, uma herança que essas mães, como Maria e Rosana, deixam para seus filhos.

A estética e a saúde dos dentes dizem muito sobre mobilidade social. Uma das primeiras medidas que muitas pessoas tomam quando conseguem um emprego é colocar aparelho nos dentes. Quando eu a Lúcia pesquisávamos os jovens que davam “rolezinhos” nos shoppings, percebíamos que eles sonhavam em usar aparelho: era uma marca de distinção tal como um tênis da Nike. Eles nos contaram que aparelhos dentários falsos eram vendidos na comunidade para eles irem “bonitos ao baile funk”. Nunca encontramos esses tais aparelhos falsificados, mas a existência dessa história já diz muito sobre as aspirações e desejo de status social da juventude das periferias.

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Anna Borges Louzada, 51 anos, trabalha em um centro de especialidades odontológicas (CEO) em Manaus. Defensora do SUS e preocupada com o governo atual, ela se dedica ao tratamento de pessoas com necessidades especiais.

Foto: Reprodução/Instagram

Apesar do cenário dramático, não são poucas as conquistas individuais e coletivas dos últimos anos. Houve uma significativa expansão das universidades do Brasil — que oferecem serviços a preço muito baixo à comunidade — e a proliferação de clínicas populares que foram impulsionadas pela inclusão financeira da Era Lula. A criação do Programa Brasil Sorridente, que chega a 90% dos municípios brasileiros, já atingiu 100 milhões de pessoas pelo atendimento básico do SUS. Há também, por todos os lados, profissionais que fazem trabalhos na ponta do sistema, superando a falta de recursos de norte a sul do país, em comunidades ribeirinhas ou em favelas.

Se as conquistas sociais aconteceram a duras penas, o cenário de cortes públicos do atual governo alerta para uma situação de calamidade. Quem começou a sorrir nos últimos anos pode voltar a se esconder.

Mastigar, gargalhar e ter uma vida sem dor são direitos humanos fundamentais. Sorrir é o gesto que expressa a felicidade. Por isso, a inclusão bucal, associada a um projeto de transformação social, deve ser uma pauta prioritária em qualquer projeto de reconstrução do campo progressista.

*Os nomes dos personagens deste texto foram omitidos para preservar sua identidade.

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Brasileiros nascidos hoje terão dificuldade para respirar no futuro, diz estudo climático

Uma criança nascida hoje no Brasil provavelmente terá dificuldade para respirar durante seu crescimento e sua vida. Também enfrentará mosquitos transmissores de doenças, como a dengue, e eventos extremos, como queimadas, secas e inundações, em maiores quantidades.

Esses são alguns dos problemas de saúde associados às mudanças climáticas apresentados na nova versão do relatório Lancet Countdown: Tracking Progress on Health and Climate Change (em tradução livre, “Acompanhando os Progressos em Saúde e Mudanças Climáticas”), lançado na noite desta quarta-feira (13).

Segundo o documento, a vida de todas as crianças nascidas a partir de agora será profundamente afetada pelas mudanças climáticas.

No Brasil, a poluição do ar é um dos pontos que trará problemas para as crianças de hoje e de amanhã. Tal poluição conta com a presença do chamado material particulado, que é proveniente de queimadas (que apresentaram aumento significativo neste ano no país), queima de carvão para produção de energia e veículos de transporte.

Esse tipo de poluição está associado a peso baixo em recém-nascidos, menor função respiratória em crianças e maiores taxas de hospitalizações.

Só em 2016, estima-se que a poluição do ar levou a 24 mil mortes prematuras no Brasil.

Para se ter ideia do tamanho do problema, em uma hora de exposição ao trânsito de São Paulo, por exemplo, a população “fuma” cerca de cinco cigarros, como apontam as pesquisas feitas pela equipe de Paulo Saldiva, diretor do IEA (Instituto de Estudos Avançados), na USP, e um dos coautores do relatório Lancet.

Para piorar, o monitoramento da poluição é deficitário no país. Levantamento deste ano da ONG Instituto Saúde e Sustentabilidade mostrou que só seis estados e o Distrito Federal fazem o monitoramento de poluição e divulgação dos resultados para a população. Mais de 90% das estações de monitoramento se concentram no Sudeste.

Outra preocupação quanto ao Brasil é o crescimento do uso de carvão. O documento mostra que o uso desse tipo de fonte de energia no país triplicou nos últimos 40 anos. Em contrapartida, é pequena a participação desse tipo de termelétrica na matriz energética nacional, com participação predominante de fontes renováveis, como hidrelétricas.

O futuro também será marcado por um aumento nas doenças transmitidas por mosquitos, segundo o relatório.

A dengue, por exemplo, sofre forte influência de chuvas, temperatura –elementos relacionados às mudanças climáticas– e urbanização. Desde 1950, a capacidade de transmissão de dengue aumentou em 5% para o Aedes aegypti e em 11% para o Aedes albopictus.

Mundialmente, 9 dos 10 anos mais propícios para a transmissão da dengue ocorreram do ano 2000 para cá, e atualmente metade da população mundial está em risco.

Isso quer dizer que é mais fácil pegar dengue hoje, doença transmitida pelo mosquito que se espalha mais rapidamente pelo mundo. Em 2016, o Brasil teve 1,5 milhão de casos de dengue, três vezes mais do que em 2014. Segundo o documento, o custo da infecção para o SUS entre 2012 e 2013 foi de cerca de US$ 164 milhões (R$ 770 milhões). Ao mesmo tempo, o peso socioeconômico da dengue chegou a US$ 468 milhões (cerca de R$ 1,9 bilhão).

Não é somente a dengue que preocupa os autores do estudo. Desde os anos 1980, dobrou o número de dias mais propícios para a contaminação por vibrio, um dos microrganismos responsáveis por casos casos de diarreia, que pode ter impactos sérios em crianças.

Também não faltarão eventos climáticos extremos. No Brasil, os incêndios florestais afetaram 1,6 milhão de pessoas desde 2001/2004. Até agosto, o Brasil teve seu maior número de queimadas desde 2010.

Uma das recomendações do relatório do Lancet, inclusive, diz respeito às florestas brasileiras. O documento orienta que deve se reafirmar o compromisso com o desmatamento ilegal zero até 2030, aliado a reflorestamento e redução de queimadas.

As cidades brasileiras, com suas variabilidades climáticas extremas, servem como um grande e trágico laboratório para entender o papel das mudanças climáticas na saúde da população, diz o médico e pesquisador Paulo Saldiva.

Ele cita o exemplo de São Paulo. Em determinada fatia dos dias mais quentes e mais frios, a mortalidade aumenta em 50%, com mortes relacionadas principalmente a AVCs (acidente vascular cerebral), pneumonias e infartos.

“A cidade tem uma zona de temperatura onde nada acontece, que varia de mais ou menos 17°C até 25°C, 26°C, mas os desvios aumentam a mortalidade”, afirma Saldiva.

Há ainda as diferenças regionais, que também impactam nas formas de mortalidade. “Morre-se de calor na zona leste e de frio na zona sul”, diz o especialista do IEA.

Mayara Floss, uma das autoras do relatório Lancet e médica residente de medicina de família e comunidade Grupo Hospitalar Conceição, diz que o cenário negativo apontado pelos dados deve servir de alerta para a tomada de ação, como a manutenção e aceleração dos compromissos climáticos tratados no Acordo de Paris. “Nós estamos na janela [temporal] em que é possível agir”, diz Floss.

O relatório também indica que o Brasil deveria reforçar a vigilância da qualidade do ar, inclusive com sistemas de envio de mensagens para quem estiver em regiões nas quais a exposição à poluição pode apresentar risco, aconselhando, por exemplo, em quais períodos a pessoa pode sair de casa e em quais se exercitar, diz Floss.

Segundo a pesquisadora, para tentar mudar a situação, o cidadão pode atuar com pressão política.

Saldiva diz que colocar a saúde como um ponto central na discussão climática pode ajudar a combater a “ignorância organizada, fruto da própria ignorância e de interesses econômicos de grupos afetados por práticas sustentáveis”.

O especialista compara a situação com a indústria do cigarro. “Ela sabia perfeitamente que o produto dela fazia mal, mas nunca passou na cabeça dela parar. A autorregulação é impossível. O documento aperta uma tecla SAP para colocar ciência no assunto.”
Phillippe Watanabe/FolhaPress SNG

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Mudanças climáticas causam danos à saúde infantil

Novo estudo alerta que o aquecimento global representa grande ameaça à saúde das crianças e pode influenciar o futuro de toda uma geração. “A situação deverá ficar muito pior se não tomarmos medidas imediatas.”    

Criança de aparência doente deitada no colo da mãeAumento da temperatura global propicia a propagação da malária

Em Nova Déli, na Índia, pediatras dizem que os pulmões das crianças não são mais róseos, mas pretos. O aquecimento do planeta já está afetando a saúde infantil no mundo todo e moldará o futuro de uma geração inteira, se não se conseguir limitar o aquecimento global bem abaixo de 2 °C, aponta o relatório da organização Lancet Countdown para 2019, que mostra o impacto das mudanças climáticas na saúde humana.

“Nos últimos 30 anos, vimos um declínio progressivo do número de mortes de jovens, adultos e de crianças”, disse à DW o pediatra Anthony Costello, copresidente da Lancet Countdown. “Mas o que nos preocupa é que todos esses ganhos possam ser revertidos se não enfrentarmos urgentemente o problema das mudanças climáticas.”

A pesquisa – compilada por 35 instituições globais, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Banco Mundial – mostra claramente a relação entre mudanças climáticas, destruição ambiental e saúde.

As temperaturas crescentes impulsionam a fome e a desnutrição, e geram um aumento das doenças infecciosas, em escala e volume, e uma frequência cada vez maior de eventos climáticos extremos, à medida que a poluição atmosférica se tornou tão mortal para o pulmão humano quanto o tabaco.

Acesso difícil a alimentos

Um bebê nascido hoje estará exposto aos impactos das mudanças climáticas desde o início de sua vida. O aumento das temperaturas, a seca e as inundações devastam as colheitas, causando queda da produção global. Isso priva os habitantes de seus meios de subsistência e faz aumentar os preços dos alimentos, o que por sua vez leva à fome e à desnutrição, principalmente em países que dependem muito da agricultura, como Burkina Faso.

“A desnutrição aguda em crianças de cinco anos de idade em Burkina Faso está acima de 10%”, relata Maurice Ye, natural do país africano e consultor do Programa Nacional de Controle da Malária em Madagáscar. “Isso aumentará se nada for feito para resolver o problema.”

Na Índia, a desnutrição já é a causa de dois terços das mortes de crianças com menos de cinco anos, afirma o relatório do Lancet. Embora a desnutrição esteja frequentemente ligada à fome, ela também pode ser resultado da ingestão de alimentos pouco saudáveis.

Mas com o aumento dos preços de produtos básicos, como cereais, os consumidores são motivados a comprar alimentos processados mais baratos. “Isso alimenta o outro extremo do espectro da desnutrição, que é o sobrepeso e a obesidade”, explica Poornima Prabhakaran, vice-diretora do Centro de Saúde Ambiental da Fundação de Saúde Pública da Índia e coautora do relatório.

Terreno mortalmente fértil

Crianças menores de cinco anos também sofrerão mais com o aumento de doenças infecciosas. A elevação da temperatura, a mudança dos padrões pluviais e os altos níveis de umidade facilitam a disseminação de bactérias que causam doenças diarreicas, como a cólera, além de criar condições ideais para a propagação de mosquitos portadores de agentes da malária ou dengue.

Em 2017, estimativas indicam 435 mil mortes por malária em todo o mundo, e a cada dois minutos uma criança em algum lugar do planeta morre da doença, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Isso é particularmente preocupante para países como Burkina Faso, onde a malária causou mais de 28 mil mortes apenas em 2018, estima a OMS.

Mas as mudanças climáticas também permitirão que esses mosquitos transmissores de doenças cheguem a novos países, como os do sul da Europa. Cerca de metade da população mundial corre agora risco de contrair dengue, diz o relatório do Lancet.

Se sobreviverem à desnutrição e doenças infecciosas, relata o estudo, as crianças talvez não sejam poupadas da poluição atmosférica, que pode reduzir sua função pulmonar, piorar a asma e aumentar o risco de ataques cardíacos e derrames. A poluição do ar em ambientes externos por micropartículas (PM2.5 – até 2,5 micrômetros) já contribui para 2,9 milhões de mortes precoces em todo o mundo.

Crianças asiáticas de máscara antipoluiçãoPara crianças da China e outros países, máscaras já são vitais devido ao smog

Calor e frio

A saúde de uma criança nascida hoje também pode ser prejudicada por eventos climáticos extremos, como incêndios e ondas de calor. Desde 2001, as populações de 152 países (de um total de 196) vivenciaram um aumento da exposição a incêndios florestais, resultando em mortes diretas e doenças respiratórias.

Por sua vez, as temperaturas recorde são particularmente preocupantes para os idosos com mais de 65 anos de idade. “Os impactos causados pelas altas temperaturas na saúde incluem exaustão pelo calor, hipertermia e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias pré-existentes”, explica Prabhakaran. O calor também pode causar desidratação em crianças e idosos, apontam os especialistas.

Embora o mundo esteja se aquecendo, o frio também representa um risco para quem tem pouco ou nenhum acesso à energia. “Isso mata mais do que o calor em geral”, observa Costello. “Mas muito é devido a fatores sociais.” À medida que as desigualdades crescem em todo o mundo, mais gente se encontra em situação de vulnerabilidade, aponta o copresidente da Lancet Countdown.

Prabhakaran diz esperar que os impactos na saúde sejam o ponto de virada para os legisladores relutantes. “O que precisamos fazer é trazer a saúde para o centro do discurso. Os impactos da combustão de combustíveis fósseis na saúde podem ser um forte argumento para o abandono do carvão”, afirma a médica.

Anthony Costello, Maurice Ye e Poornima Prabhakaran dizem concordar que o primeiro passo para reduzir o sofrimento de todas as crianças nascidas hoje é a mudança em direção a um mundo descarbonizado.

Isso é tecnicamente possível, dizem os especialistas, mas serão necessárias políticas mais rígidas e vontade política real. A falta de ação não é mais uma opção. “A situação deverá ficar muito, muito pior, a menos que tomemos medidas imediatas”, alerta Costello.

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20 imagens de trabalho infantil que o deixarão sem palavras

Ainda existem milhões de crianças em todo o mundo que estão empregados ilegalmente. Em tais condições, eles não têm direito à educação e às alegrias próprias da infância.
O trabalho infantil ainda é um grande problema social. Milhares de crianças ainda deixam de ir à escola e ter seus direitos preservados, e trabalham desde a mais tenra idade na lavoura, campo, fábrica ou casas de família, em regime de exploração, quase de escravidão, já que muitos deles não chegam a receber remuneração alguma.
20 foto foto 1Shaheen, 10, trabalha em uma fábrica de alumínio.
Foto tirada
 em Dhaka, 
Bangladesh, em 16 de novembro de 2009.

O trabalho infantil é mental, física e emocionalmente desgastante, e em casos extremos pode ser classificado como escravidão.

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Masud, 6, reúne peças do veículo em Bangladesh, em 29 de Fevereiro de 2012.

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Naginah Sadiq, 5, trabalha em uma fábrica de tijolos de barro, em Islamabad, Paquistão. 2012

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Foto tirada em Lad Rymbai, na Índia, no dia 16 de abril de 2011.
Os pais não permitem que as crianças vão à escola.

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Takenin, aldeia Chheuteal, província de Kandal, Camboja, em 2 de Maio de 2011.
Esta menina seca tijolos para uma fábrica de tijolos

bloco de lama

Takenin Cartum, Sudão, em 17 de setembro de 2011.
Como muitas pessoas na região de Darfur, este rapaz ganha dinheiro formando blocos de lama.

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Foto tiradda em Nova Delhi, na Índia, em 12 de junho de 2012.
Este menino está limpando as peças da bicicleta, possivelmente para vender.

menino panelas

Foto feita em Dhaka, em 19 de abril de 2012. Outro rapaz trabalha em uma fábrica de alumínio. Acredita-se que mais de 6 milhões de crianças com idade inferior a 14 trabalham em Bangladesh.

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Jacques Monkotan, 4, trabalha em um sítio de escavação em Dassa-Zoume, Benin, no dia 25 de Fevereiro, 2007.

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Burma, em 6 de dezembro de 2011.
Esta menina transporta cimento necessário para um novo hotel.

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Czoton, 7, é trabalha em uma fábrica de balão em Dhaka
Bangladesh, em 23 de Novembro, 2009.

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Hazrat, 7, trabalha em uma fábrica de tijolos inJalalabad, Afeganistão.


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Rustam, 10, trabalha em uma fábrica de alumínio em Daca, Bangladesh. 25 outras crianças trabalham com ele durante 12 horas por dia.

 

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Esta criança é um imigrante ilegal que recolhe plástico em um depósito de lixo em Mae Sot, Tailândia.


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Esta criança organiza tijolos nos arredores de Herat, Afeganistão.


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Outra criança trabalha em um depósito de lixo em Islamabad, Paquistão.


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Issa, 10, trabalha em uma fábrica de armas para o Exército Livre da Síria em Aleppo.

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Diversas crianças enchem os cigarros com o tabaco cultivado localmente no distrito Haragach em Rangpur, Bangladesh.

 

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Esta criança está em busca de plástico reciclável em Siem Reap, Camboja.

 

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Paulo Henrique Felix da Silveira, 9, de Saramandaia, favela no Recife, Brasil. 

Fonte: Lifeh

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Por que o Brasil não consegue vencer a dengue?

Série de fatores contribui para a proliferação do mosquito transmissor, tornando impossível sua erradicação. Para especialistas, solução está na educação e em tecnologias para prevenir a doença, que se alastra pelo país.    

Mosquitos Aedes aegyptiNa guerra contra o “Aedes aegypti”, médicos e biólogos defendem um trabalho maciço de conscientização da população

Quatro pacientes que haviam recebido transplante de medula óssea contraíram dengue no Hospital das Clínicas, em São Paulo, em 2015. “Foram diagnosticados tardiamente, pois a última coisa que poderíamos pensar é que no hospital pudesse ocorrer transmissão”, diz o médico patologista Amaro Nunes Duarte Neto, professor da Universidade de São Paulo (USP), mantenedora do hospital.

“Fomos procurar, achamos numerosos criadouros [de mosquito Aedes aegypti] no fosso do hospital, uma área próxima à unidade de transplante e doação de sangue”, conta ele. “Ou seja, onde quer que estejamos, estamos sob risco, pois nossa área é altamente endêmica para a dengue. O mosquito prolifera em qualquer lugar favorável.”

O relato de Duarte Neto ilustra bem a dificuldade de vencer a dengue no Brasil. Na semana passada, o Ministério da Saúde informou que 1.439.471 casos foram registrados no país nos primeiros oito meses do ano, um salto de 600% em relação ao mesmo período do ano passado. Vários estados estão em situação de epidemia. Em São Paulo, a incidência já é 37 vezes maior que em 2018.

O primeiro caso de dengue documentado clínica e laboratorialmente no Brasil data de 1981, em Boa Vista (RR). Contudo, de acordo com o Instituto Oswaldo Cruz, há relatos de ocorrência da doença em Curitiba no fim do século 19 e em Niterói no começo do século 20.

O mosquito Aedes aegypti, originário da África, provavelmente chegou ao território brasileiro pelo menos 100 anos antes – acredita-se que tenha vindo a bordo de navios negreiros.

Fatores favoráveis para a proliferação

Mas é possível vencer o mosquito transmissor da dengue? “A possibilidade de erradicação do Aedes aegypti é virtualmente impossível”, afirma o biólogo Magno Botelho, especialista em meio ambiente da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Mesmo localmente, se um município conseguisse essa proeza, rapidamente mosquitos de regiões vizinhas repovoariam esse local.”

O problema é complexo. Porque há uma conjunção de fatores favoráveis para que o bicho prolifere no Brasil. As condições ambientais são extremamente favoráveis, com temperaturas variando entre 20 e 40 graus na maior parte do território. “Além disso, as regiões mais densamente povoadas, como Sul e Sudeste, têm regime de chuvas adequado ao ciclo reprodutivo do mosquito, que ainda por cima é extremamente adaptável às eventuais variações climáticas tropicais”, completa Botelho.

“É um problema sanitário e climático”, define o médico patologista Paulo Saldiva, professor da USP. Ele lembra que a proliferação do mosquito é resultado não só das condições tropicais, mas também do crescimento desordenado das cidades e da precariedade do saneamento básico. “A procriação do mosquito está associada ao acúmulo de lixo, por exemplo”, acrescenta.

“Temos enorme dificuldade de controlar a dengue porque existe no país um crescimento urbano desordenado, urbanização precária, falta de fornecimento regular de água, de saneamento básico, de coleta regular de lixo, de política de reciclagem e de educação para a promoção de saúde”, enumera o médico infectologista Edimilson Migowski, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Esse é o pano de fundo. O mosquito é fruto de tudo isso.”

Guerra ao mosquito

Os esforços de combate ao Aedes aegypti reúnem uma sucessão de batalhas inglórias. Campanhas governamentais, fumacês, mutirões para eliminar água parada, entre outros. Botelho lembra que somente em 2001 “foi oficialmente abandonada a meta (irrealizável) de erradicar o mosquito”. “O veneno acaba funcionando como uma pressão seletiva no Aedes”, acrescenta Saldiva.

“Não acredito que com a tecnologia que dispomos atualmente o Brasil vá se ver livre da dengue”, afirma o médico Celso Granato, professor de infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Cingapura, que é muito menor do que o Brasil e tem mais dinheiro, não conseguiu.”

“Precisamos mudar a estratégia”, completa Granato. “O mosquito é muito adaptado ao meio ambiente, ele cresce em qualquer garrafinha PET, se aproveita da chuva. Então é muito difícil debelar a dengue com fumacê e esses químicos que a gente usa.”

Os pesquisadores são, portanto, unânimes: acabar com o Aedes aegypti é impossível. A solução seria mesmo investir em educação e tecnologia.

Por educação entende-se um trabalho maciço de conscientização da população. Para que não haja água parada nos quintais e, assim, a procriação do bicho diminua consideravelmente.

Conforme ressalta Migowski, “80% dos criadouros estão nas casas das pessoas”. “Combate ao vetor é conscientização e educação. E isso não se faz de uma hora para outra”, diz o médico. “O principal problema da saúde na população brasileira é a falta de educação para a saúde.”

Quanto à tecnologia, é necessário primeiro o desenvolvimento de uma vacina abrangente, eficaz e realmente efetiva. “Hoje só se consegue imunizar para duas cepas [tipos], e é contraindicado para quem já teve doença por determinada cepa”, explica Duarte Neto. “Falta uma vacina efetiva que possa ser colocada em escala, abrangendo todos os subtipos da dengue”, completa Saldiva.

Outras táticas podem dar resultado, se aplicadas de modo abrangente, adiantam os especialistas. Granato enumera duas ideias, em desenvolvimento e fase de testes: “Por exemplo, usar a Wolbachia, uma bactéria que, no organismo do inseto, inibe a transmissão de dengue.”

Outra tecnologia envolve mosquitos geneticamente modificados, afirma Granato, mas trata-se de uma alternativa mais cara. Nesse caso, esses insetos transgênicos são espalhados no ambiente, e seus descendentes morrem antes de chegar à fase adulta – uma experiência, contudo, que não acabou bem-sucedida em testes recentes na Bahia.