Samuel Beckett,Literatura,Blog do Mesquita

Samuel Beckett – Literatura

Quem É Que Tu Amas?

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– Quem é que tu amas? – continuou Murphy. – Eu, tal como sou. Podes desejar o que não existe, não podes amá-lo. – Nada mal, para um Murphy. – Se assim é, por que diabo te esforças tanto para me modificar? Para poderes deixar de me amar – aqui, a voz subiu e atingiu uma nota bastante honrosa – para deixares de estar condenada a amar-me, para seres dispensada de me amar.

Samuel Beckett – Versos na tarde – 16/05/2018

Três poemas de amor
Samuel Beckett

1

fosse apenas o desespero da
ocasião da
descarga de palavreado

perguntando se não será melhor abortar que ser estéril

as horas tão pesadas depois de te ires embora
começarão sempre a arrastar-se cedo de mais
as garras agarradas às cegas à cama da fome
trazendo à tona os ossos os velhos amores
órbitas vazias cheias em tempos de olhos como os teus
sempre todas perguntando se será melhor cedo de mais do
que nunca
com a fome negra a manchar-lhes as caras
a dizer outra vez nove dias sem nunca flutuar o amado
nem nove meses
nem nove vidas

2

a dizer outra vez
se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

palavras rançosas a revolver outra vez no coração
amor amor amor pancada da velha batedeira
pilando o soro inalterável
das palavras

aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir
e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem

3

a não ser que te amem

Paul Auster – Versos na tarde – 09/10/2013

Poema
Paul Auster¹

Leve-me com você,
e de nossas duas misérias
faremos talvez
uma espécie de felicidade.

¹Paul Benjamin Auster
* Newark, Usa – 3 de Fevereiro de 1947 d.C

Escritor, filósofo e poeta norte-americano autor de vários best-sellers como Timbuktu, O Livro das Ilusões, A Noite do Oráculo e A Música do Acaso.

Frequentou a Universidade de Columbia e viveu durante quatro anos em França. A sua proximidade à literatura francesa haveria de marcá-lo para sempre. Foi confesso admirador de André Breton, Paul Éluard, Stéphane Mallarmé, Sartre e Blanchot, alguns dos quais traduziu para língua inglesa. O seu gosto pela tradução é muitas vezes referido pelo próprio, que aconselha os jovens escritores a traduzir poesia para entenderem melhor o significado intrínseco das palavras. Além destes autores, Paul Auster refere ainda como suas influências Dostoiévsky, Ernest Hemingway, Fitzgerald, Faulkner, Kafka, Hodërlin, Samuel Beckett e Marcel Proust.

Em 1998, realizaria o seu primeiro filme, “Lulu on the Bridge”. Nos seus livros é evidente a influência cinematográfica norte-americana e as suas histórias desenrolam-se numa sucessão que faz lembrar um thriller, usando igualmente o método da “caixa chinesa”, sucessão de histórias no interior umas das outras. A sua obra parece ser mais apreciada na Europa do que no seu país natal. Atualmente vive em Brooklyn, Nova Iorque.

Boa parte da sua história ele conta no que parece ser uma autobiografia. “Da mão pra boca” reúne relatos de sua vida, um jogo criado pelo escritor chamado action baseball, e mais três peças do autor, consideradas por ele mesmo como fracas.


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Samuel Beckett – Versos na tarde

Instante
Samuel Beckett ¹
Que faria eu sem este mundo sem rosto sem questões
Quando o ser só dura um instante onde cada instante
Se deita sobre o vazio dentro do esquecimento de ter sido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se dissipam
Que faria eu sem este silêncio abismo de murmúrios
Arquejando furiosos em direcção ao socorro em direcção ao amor
Sem este céu que se eleva
Sobre o pó dos seus lastros
Que faria eu eu faria como ontem como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não serei o único
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço marionete
Sem voz entre as vozes
Que se fecham comigo.

¹ Samuel Beckett
* Dublin, Irlanda – 13 de abril de 1906 d.C
+ Paris, França – 22 de dezembro de 1989 d.C


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Samuel Beckett – Versos na tarde

Instante
Samuel Beckett ¹

Que faria eu sem este mundo sem rosto sem questões
Quando o ser só dura um instante onde cada instante
Se deita sobre o vazio dentro do esquecimento de ter sido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se dissipam
Que faria eu sem este silêncio abismo de murmúrios
Arquejando furiosos em direcção ao socorro em direcção ao amor
Sem este céu que se eleva
Sobre o pó dos seus lastros
Que faria eu eu faria como ontem como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não serei o único
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço marionete
Sem voz entre as vozes
Que se fecham comigo.

tradução de Tiago Nené

Samuel Beckett
* Dublin, Irlanda – 13 de abril de 1906 d.C
+ Paris, França – 22 de dezembro de 1989 d.C


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