A estratégia midiática do Estado Islâmico

A especulação sobre a posição ideológica dos terroristas tornou-se uma certeza quando, na tarde daquele dia, os canais do Estado Islâmico na Telegram, a plataforma de mídia social preferida pelos jihadistas, fizeram circular em língua inglesa uma reivindicação de responsabilidade.

O texto, transferido para a página, em WordPress, da Amaq News Agency, a agência de notícias “oficial” do Estado Islâmico, foi instantaneamente transmitido, por milhões de computadores e desmartphones, para veículos jornalistas e comentaristas do mundo inteiro.

Foi assim que o Estado Islâmico assumiu o espaço da narrativa em torno dos atentados, embora a declaração de responsabilidade não fornecesse qualquer nova informação e, na realidade, parecesse uma fusão de detalhes da operação já observados pelas reportagens da mídia ocidental.

Na avalanche de incertezas que se seguiu aos atentados, os responsáveis pela propaganda do Estado Islâmico puderam ditar seu texto – literalmente, palavra por palavra – para uma audiência internacional e especificamente ocidental. A divulgação da reivindicação de responsabilidade primeiramente na língua inglesa não foi um erro.

Dirigida, em primeiro lugar e principalmente, aos inimigos ocidentais do Estado Islâmico, a declaração foi uma maneira de capitalizar o tumultuado noticiário da mídia internacional logo depois dos atentados em Bruxelas. Seja por meio de manchetes ou pelo Twitter, os responsáveis pela propaganda manipularam uma audiência global – tanto de opositores quanto de simpatizantes – para disseminar sua mensagem de intimidação e realçar a percepção da ameaça do Estado Islâmico.

O grupo preferia divulgar filmes com assassinatos

A técnica não é nova. Na verdade, os terroristas mais recentes adotaram há muito tempo a “propaganda do fato”, uma tática que, nas palavras do especialista em operações de informação do exército australiano Jason Logue, envolve “planejar e executar operações que têm por objetivo exclusivo a atração de sua propaganda”. O Estado Islâmico usa a mídia como nenhuma outra organização terrorista.

Ele sabe que, embora o território e os recursos sejam fundamentais para o sucesso total de sua insurreição agressiva na Síria e no Iraque, a mídia é a arena onde se trava a guerra de ideias, onde a relevância do grupo – e, em última instância, a longevidade de suas concepções – pode ser preservada e talvez intensificada, mesmo que passe por perdas de território.

O terrorismo do Estado Islâmico não termina quando a bomba é detonada. Continua durante as horas, os dias de as semanas que se seguem, alimentado pela mídia. Em reconhecimento a isso, o Estado Islâmico priorizou a propaganda do fato e, com certeza, parece executá-lo cada vez melhor.

Apenas algumas horas depois que explodiram as primeiras bombas em Bruxelas, os responsáveis “oficiais” pela propaganda do Estado Islâmico foram repassando pouco a pouco, a uma audiência ávida por informações, uma série de reivindicações, em várias línguas e em multimídia, que pareciam simplesmente novas versões do que a mídia já divulgara. Por ocasião dos atentados de Paris, esse tipo de declaração levou 15 horas para vir à tona. Na terça-feira levou metade do tempo.

No passado, o grupo preferia divulgar filmes com assassinatos como principal veículo de propaganda do fato, como, por exemplo, as decapitações praticadas por Mohammed “Jihadi John” Emwazi ou a imolação do piloto jordaniano Mu’adh al-Kasasbeh. No entanto, à medida que a mídia foi se tornando mais experiente e o consumidor mais insensível, esses filmes aparentemente perderam parte de sua capacidade de ocupar as pautas globais.

Por outro lado, ações terroristas de pilhagem ou de saque contra o inimigo “cruzado” em terras distantes – infinitamente mais difíceis de serem realizadas – ainda não chegaram ao ponto do rendimento decrescente na atenção global. Isso provavelmente significa que devemos esperar por mais.

Usar “o peso da mídia contra a mídia”

Nas últimas semanas, entre reportagens sobre perdas territoriais, morte de líderes e a prisão de Abdeslam, o tema de cobertura da mídia ocidental concentrou-se na promoção de um “o declínio do Estado Islâmico”. Ao conseguir operações como os atentados de Bruxelas e, então, capitalizar habilmente o tumulto de mídia que se seguiu, o Estado Islâmico pode, até certo ponto, substituir a percepção de declínio por outra que transmita a ideia oposta.

Não importa se a cobertura que se segue for negativa – digamos, criticando a brutalidade do grupo ou questionando sua legitimidade religiosa. Para o Estado Islâmico, desde que seja nos termos dos responsáveis por sua propaganda e transmita a suposta força e onipresença do grupo, qualquer cobertura é boa cobertura.

Nesse sentido, o terrorismo do Estado Islâmico não termina quando a bomba é detonada. Em vez disso, continua por horas, dias e semanas, alimentado pela mídia.

Ao mesmo tempo em que procuram criar um impasse econômico e instabilidade política, operações como as de Bruxelas, Istambul, Jacarta e Paris também continuam porque tornam possível aos terroristas – sejam eles seguidores do Estado Islâmico ou da al-Qaida – tomar controle do discurso da mídia e lutar pelo domínio absoluto da informação.

Portanto, independentemente de quanto a liderança do Estado Islâmico estava envolvida no planejamento propriamente dito dos atentados de terça-feira – ou se o grupo está reivindicando como sua uma operação em grande parte autônoma, como já fez no passado –, eles incentivam eventos como esses também para que sua equipe de comunicação possa, como diz o estudioso de insurreições Neville Bolt, usar “o peso da mídia contra a mídia”. Avaliado por esse prisma, o Estado Islâmico está matando em nome de ficar no ar – e está conseguindo o que quer.

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Charlie Winter, é jornalista
Publicado originalmente na revista The Atlantic, 23/3/2016 sob o titulo “Why ISIS propaganda works?” Tradução de Jo Amado.

Como Bruxelas virou centro do extremismo islâmico na Europa

Burocracia excessiva, descentralização do Estado, rivalidade entre valões e flamengos e má integração de minoria muçulmana são algumas das explicações para capital belga ter se tornado foco do jihadismo.

Bruxelas foi alvo de atentados no aeroporto internacional Zaventem e na estação de metrô de Maelbeek, próxima a prédios da União Europeia. Os ataques desta terça-feira (22/03) foram reivindicados pelo grupo jihadista “Estado Islâmico” (EI).

Apesar de ser esta a primeira vez que a capital belga é alvo de atentados, ela tem sido frequentemente associada ao terrorismo islâmico. A DW lista a seguir quatro fatores que contribuíram para que Bruxelas se tornasse centro do jihadismo na Europa.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Recrutas belgas” do “Estado Islâmico”

O especialista em terrorismo Guido Steinberg afirma haver uma relação entre os frequentes alertas terroristas em Bruxelas e o que ele chama de “recrutas belgas”, cidadãos do país europeu que se uniram ao grupo “Estado Islâmico” na Síria. “O EI decidiu contra-atacar na Europa. E como ele dispõe de muitos recrutas belgas e também franceses, Bruxelas é, ao lado de Paris, um dos pontos centrais da onda de atentados dos últimos meses”, afirmou Steinberg à emissora alemã de noticias N-TV.

De fato, as autoridades de segurança de Bélgica identificaram centenas de jovens do país que viajaram à região de guerra no Oriente Médio. Este é o caso do francês Salah Abdeslam, que reside no distrito de Molenbeek, em Bruxelas, e de Abdelhamid Abaaoud, dois presumíveis responsáveis pelos atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris. As autoridades do país estimam que mais de 450 belgas partiram para a Síria e outros centros do EI no mundo árabe.


Abdelhamid Abaaoud é um dos mentores dos atentados de Paris

Segundo o Centro Internacional para o Estudo da Radicalização e Violência Política (ICSR), dos 11 mil combatentes estrangeiros que se juntaram aos jihadistas na Síria e no Iraque entre 2011 e 2013, quase um quinto saiu da Europa Ocidental. Com pelo menos 296 recrutas, a Bélgica ocupa o topo dessa lista, em números absolutos.

Para efeito de comparação, na Alemanha, país de população oito vezes maior, estima-se que haja até 240 combatentes do jihad, a “guerra santa”. Proporcionalmente à população, a Bélgica tem 27 jihadistas para cada milhão de habitantes, sendo, portanto, o principal “fornecedor” de combatentes europeus. “Os belgas afrouxaram as rédeas quanto à observação da cena [jihadista] e a medidas preventivas”, comentou à DW Asiem El Difraoui, cientista político especializado em Oriente Médio.

Para muitos especialistas, a discriminação e má integração dos muçulmanos à sociedade está na origem do problema. Cerca de 6% dos belgas são muçulmanos. Segundo apontou um estudo da Rede Europeia Contra o Racismo, mesmo quando falam a língua perfeitamente ou são falantes nativos, eles são tratados como estrangeiros.

A ONG Anistia Internacional também criticou o governo belga pela falta de esforços para a integração. Segundo um estudo de 2012, facilitou-se às empresas a recusa de candidatos a emprego por motivos religiosos. As mulheres muçulmanas que usavam o véu foram as mais afetadas. A frustração resultante de situações como essa propicia a radicalização e o recrutamento por grupos fundamentalistas islâmicos.

Estado bilíngue e descentralizado

Muitos especialistas em segurança internacional apontam há bastante tempo a Bélgica como o “calcanhar de Aquiles” da Europa, no que tange à violência islâmica. Os fatores citados são a grande população muçulmana, estruturas estatais fragmentadas pelas profundas cisões entre flamengos e valões (de língua francesa), e um histórico de mercado de armas de fogo (legais e ilegais).

“A Bélgica ostenta uma posição central no coração da Europa. É um país pequeno, cuja localização favorece o movimento de pessoas com intenções hostis”, afirma o primeiro-ministro belga, Charles Michel, insistindo, no entanto, que sua coalizão de centro-direita está enfrentando o problema.

Na opinião do cientista político El Difraoui, o conflito interno entre Flandres e Valônia contribui para o fracasso na luta contra o terrorismo islâmico. “Os belgas estão, simplesmente, preocupados demais consigo mesmos.” Há anos a rivalidade entre flamengos e valões tem impedido o governo de cuidar dos problemas internos do país, diz o especialista.

Ataques paralisam Bruxelas e deixam Europa em alerta máximo

O professor do Centro de Terrorismo e Contraterrorismo da Universidade de Leiden, Edwin Bakker, também afirma que a extrema descentralização, que tem sido a resposta da Bélgica às forças regionais que tentam dividi-la há décadas, enfraquece a reação do Estado a ameaças como o terrorismo.

“A Bélgica é um Estado federado e isso sempre é uma vantagem para terroristas. Os diferentes níveis administrativos travam o fluxo de informações entre os investigadores.” Além disso, como grande fabricante de armas durante muito tempo, a Bélgica também se tornou um centro de distribuição para o tráfico de armas a partir dos Bálcãs e de outros locais.

“Em algumas partes de Bruxelas, existem áreas onde a polícia tem pouca influência, áreas muito segregadas, que não se sentem parte do Estado belga”, acrescenta Bakker. “Embora vizinhos possam ter visto algo acontecendo, eles não passam a informação adiante à polícia.”

Polícia caótica

É difícil dizer quem seja o responsável pela segurança da capital da Bélgica, hoje notória como local de origem de alguns dos terroristas que executaram os atentados do 13 de Novembro em Paris.

Com cerca de 1,2 milhão de habitantes, Bruxelas está longe de ser uma das maiores metrópoles da Europa, mas tem uma estrutura municipal e política extremamente complicada. Críticos do sistema criticam que esse nó entrava os esforços para melhorar a segurança e combater o terrorismo.

Luta contra a radicalização da juventude belga

“Em termos de segurança, Bruxelas é um exemplo perfeito de verdadeiro caos”, afirmou o prefeito de Vilvoorde, Hans Bonte, à rede de TV RTBF. Sua cidade nos arredores da capital também já foi apontada como um epicentro de terrorismo, mas tem liderado esforços para erradicar o problema.

Em vez de uma administração centralizada, Bruxelas tem um total de 19communes, extremamente autônomas e que dispõem de seus próprios prefeitos, vereadores e regras locais. Alguns dos conselhos municipais dessas áreas contam com até 50 membros.

Aos prefeitos, cabe administrar não apenas a educação e os bens públicos, mas também manter a segurança em suas áreas. E muitas vezes as administrações dependem de coalizões frágeis para se manter no poder. Entre essas prefeituras está a de Molenbeek, apontada por órgãos de inteligência como local de concentração de diversos terroristas que atacaram Paris.

Toda a área que compreende as prefeituras é, em princípio, comandada por uma espécie de primeiro-ministro. Na prática, ele tem pouco poder, e a questão da segurança não faz parte de suas atribuições.

Para complicar ainda mais, também existe a figura de um governador para toda a área, uma função burocrática que representa os interesses do governo federal na região. Por fim, a capital ainda tem três comissões para atender a suas comunidades linguísticas em assuntos como educação e cultura, cada uma com seu próprio parlamento.

Prisão de Salah Abdeslam em Molenbeek

Essa fragmentação também se estende à polícia local. A cidade não possui um departamento de polícia, mas seis – todos independentes –, cujas zonas de atuação se estendem por várias prefeituras. O efetivo policial total da área da capital inclui 5 mil homens, que não respondem a um comando unificado, e sim a seis colégios formados pelos prefeitos na área de cada uma das zonas de atuação. Esses prefeitos também têm interesses que muitas vezes não coincidem entre si, além de serem rivais no plano federal, pois vários deles também são deputados.

Há também outros complicadores, como o fato de a vigilância no interior dos trens de Bruxelas ser uma atribuição da polícia federal e o policiamento das estações de trem ser responsabilidade das polícias locais.

Vários políticos já propuseram uma unificação dos seis departamentos de polícia da capital, mas, também aqui, a iniciativa esbarra nas divisões do Estado belga. O movimento de unificação é liderado pelos partidos da região de Flandres, de maioria flamenga; e os políticos francófonos de Bruxelas são contra a unificação, por temerem perder sua autonomia regional.

Molenbeek

Todos os problemas da Bélgica parecem se refletir nesse distrito a oeste de Bruxelas, lar de muitos muçulmanos, principalmente de famílias oriundas do Marrocos e da Turquia. Desde os atentados terroristas de 13 de novembro de 2015, o nome Molenbeek é quase sempre lembrado quando se fala em extremismo islâmico na Europa.

Salah Abdeslam, capturado em Molenbeek após 125 dias foragido

Lá morava Salah Abdeslam, um dos mentores dos ataques na capital francesa. E também lá ele foi preso pela polícia belga, na última sexta-feira. Um membro destacado do grupo por trás dos atentados a trens de Madri, que em 2004 mataram 191 pessoas, era natural de Marrocos e vivia em Molenbeek.

O distrito bruxelense está relacionado a dois ataques terroristas na França em 2015. Autoridades de segurança afirmam que Amedy Coulibaly, responsável por quatro mortes num mercado judaico em Paris na época do atentado contra o tabloide satírico Charlie Hebdo, em janeiro, adquiriu armas em Molenbeek. Assim como o homem que foi dominado antes de conseguir disparar suas armas num trem de alta velocidade Thalys, que viajava entre Amsterdã e Paris, em agosto.

Um suposto complô para atacar a polícia belga em janeiro de 2015, evitado com uma operação policial que matou dois homens na cidade belga de Verviers, tinha conexões com Molenbeek. E um francês acusado de matar a tiros quatro pessoas no Museu Judaico de Bruxelas, em 2014, também passou um tempo no distrito.

A prisão de Abdeslam, em 18 de março de 2016, voltou a chamar a atenção para o distrito e as dificuldades da polícia belga. Depois de quatro meses fugindo, o jovem de 26 anos foi preso em Molenbeek, a apenas alguns metros da casa de sua família e praticamente sob o nariz das autoridades belgas.

“Ou Salah Abdeslam foi muito esperto, ou os serviços belgas foram muito incompetentes – o que é mais provável”, afirmou o deputado francês Alain Marsaud, ex-investigador especializado em terrorismo.
DW