Alerta contra a intolerância

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, ocorre algo contrário aos direitos humanos e aos preceitos constitucionais.

Com base na Lei da Transparência, sindicatos e uma associação de apoio à causa palestina exigiram da Reitoria que indicasse projetos ligados à defesa militar supostamente estabelecidos com o Estado de Israel.

Roberto Romano¹

Mas no mesmo átimo foi exigida a identificação de mestres e discentes israelitas (Memorando Circular 02/2015, Pró-Reitoria de Pós-Graduação). O requerimento proclama a “covardia” israelense e tem como base falas e atos da presidente Dilma Rousseff, que, diante do “massacre” (os próprios autores põem o termo entre aspas) dos palestinos, “chamou nosso embaixador naquele país, para consultas”.

Fosse o desejo conhecer supostos ou reais convênios bélicos entre a universidade e o Estado de Israel, o escrito enviado ao reitor limitar-se-ia aos projetos, documentos e dados. Mas o texto está embebido em ódio ideológico e conduziu o pró-reitor ao indigitamento de israelenses. Ao ler a ordem reitoral recordamos a estrela de Davi nas lapelas dos “perniciosos judeus covardes” e os massacres de hebreus aos milhões na 2.ª Guerra Mundial.

Aliás, o documento da Pró-Reitoria realiza em pequena escala o veiculado pela propaganda odienta da Rádio Islam: a nomeação dos judeus no Brasil (http://www.radioislam.org/islam/portugues/poder/lista_judeus_brasil.htm). O Ministério Público tem o dever de interpelar aquela estação de rádio, pois ela declaradamente pratica o ódio racial, com injúrias e difamação de judeus. [ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Dado o teor do requerimento, prudente seria o gabinete reitoral devolvê-lo aos signatários, exigir a retirada do viés panfletário e do grave ataque aos direitos humanos. Um texto sem aquelas marcas seria de análise possível pela autoridade acadêmica, se redigido no respeito à lei. Da maneira como agiu, a Reitoria, infelizmente, avalizou intolerantes que, em nome de causas, fazem das normas legais letra morta.

Como a vida ética não foi totalmente corroída, instituições condenaram os militantes e as autoridades universitárias que cederam ao ditado das seitas. Em nota oficial o Ministério da Educação advertiu a Universidade de Santa Maria, verberando a discriminação empreendida. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência levantou-se contra o absurdo. Parte da imprensa exigiu explicações dos responsáveis.

“O ventre imundo de onde surgiu a besta ainda é fértil.” E como, senhor Brecht! A união histórica de setores árabes com o nazismo é conhecida. O elo entre sectários de hoje e o discurso do neonazismo é patente (Gilbert Achcar, The Arabs and the Holocaust). Tais sintaxes e semânticas foram mantidas após a 2.ª Guerra para garantir a razão de Estado nas potências mundiais. Quem deseja conhecer os bastidores da infâmia pode ler dois livros importantes: de John Hawkins, The Nazy Hidra in America, e de Christopher Simpson, Blowback, the First Full Account of America’s Recruitment of Nazis. O sucedido nos Estados Unidos foi replicado na América do Sul, basta recordar o caso Mengele. Longo tempo de pregação antissemita intoxicou mentes brasileiras. Os frutos surgem agora, inclusive em grupos cristãos.

Antes da 2.ª Guerra muitos norte-americanos acreditaram em Hitler, e não nos judeus. O jornal The Christian Science Monitor, por exemplo, atacou os “que difundiam mentiras sobre a Alemanha”. No Brasil, a revista A Ordem, em editorial (Os horizontes clareiam, 1934) afirma que a caça aos judeus era “mistificação” e “conjura” contra Hitler para “impedir que o nacional-socialismo se mantivesse no poder”. Herdeiros de Gustavo Barroso e comparsas continuaram a militância, à socapa ou abertamente, contra judeus. As fontes da memória nacional estão envenenadas.

Num ambiente prenhe de antissemitismo, a imprudência da Universidade Federal de Santa Maria salta aos olhos. Se os reitores não partilham, como acredito, os dogmas dos que assinaram a petição, era seu dever exigir dos autores o respeito aos direitos constitucionais. Ao aceitar as fórmulas dos peticionários, com base nos atos da presidente Dilma Rousseff, eles abriram um precedente que pode voltar-se amanhã contra os próprios defensores da causa palestina. Se atos de terror ocorrerem no Brasil, nomes serão demandados aos reitores. Como os de Santa Maria autorizaram a devassa contra os israelenses, só lhes restará abrir nomes de reais ou supostos terroristas árabes. Eles serão magníficos auxiliares do policiamento territorial. E os defensores da causa palestina receberão o mesmo remédio que hoje tentam aplicar nos judeus.

Acima dos Poderes está a Constituição. Para definir o Estado brasileiro, ela o proclama “destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”. E também: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Exigir a Reitoria universitária a indicação de nacionais ou estrangeiros é operar em conformidade com o não direito, contra a nossa Lei Suprema. Brasileiros, judeus, palestinos ou pessoas de qualquer outra origem não podem ser alvo de indigitamento, privado ou público. Esperemos que a crise ensine aos militantes mais respeito ante outros seres humanos. E aos administradores dos câmpus, prudência no trato de questões delicadas, pois elas tocam em feridas dolorosas na consciência da humanidade.

¹Roberto Romano é professor da UNICAMP e autor de “Razão de Estado e de Outros Estados” (Perspectiva)
Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo

Eleições 2010: Mídia sociais, um reduto de campanha desqualificada

Reconciliação, o mapa do caminho
Por Lilia Diniz/Observatório da Imprensa

Após uma das campanhas eleitorais mais acirradas das últimas décadas, o Brasil escolheu no domingo (31/10) o próximo presidente da República. Em sua primeira eleição, Dilma Rousseff (PT) derrotou o candidato oposicionista José Serra (PSDB) com 56% dos votos.

Marcada por escândalos, dossiês, trocas de acusação e ataques de todo tipo, a campanha eleitoral de 2010 entrará para a história como a que menos colocou em pauta as propostas dos candidatos para o Brasil.

Temas como educação e segurança ficaram em segundo plano, sobretudo no segundo

turno, quando as discussões sobre religião a descriminalização do aborto predominaram no cenário político. A mídia tradicional foi um ator importante nesta conjuntura. Acusados de parcialidade tanto por petistas quanto por tucanos, os jornais impressos contribuíram para elevar os ânimos nas semanas que precederam ao pleito.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Já as mídias sociais, que chegaram a ser apontadas como uma ferramenta revolucionária para a mobilização da população e na discussão de projetos dos candidatos, na prática revelaram-se um ambiente propício para a circulação de especulações e baixarias. Após a contagem dos votos, observam-se os movimentos iniciais de aproximação entre as forças políticas dominantes.

Em seu primeiro discurso como presidente eleita, ainda no domingo à noite, Dilma Rousseff estendeu a mão para a oposição. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (2/11) discutiu o papel da mídia na conciliação nacional que será necessária após a escolha do novo presidente.

Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o cientista social Renato Lessa. Professor titular de Teoria Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), Lessa é presidente do Instituto Ciência Hoje e pesquisador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Em São Paulo, participaram os filósofos Roberto Romano e Roseli Fischmann. Romano é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e tem doutorado na Escola de Altos Estudos de Paris. É professor titular da Unicamp na área de Ética e Filosofia Política. Escreveu vários livros e artigos sobre ética e teoria do Estado. Roseli Fischmann é doutora em Filosofia e História da Educação pela USP, estuda a tolerância e o combate à discriminação, em particular religiosa, e o racismo, sendo pesquisadora do CNPq para o tema do Estado laico. É professora da USP e da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

Imprensa no palanque

Antes do debate ao vivo, em editorial, Dines avaliou o papel da mídia no período pré e pós-eleitoral. “A imprensa foi empurrada para o palanque e agora precisará de algum tempo para desencarnar do papel de beligerante”, disse. “Ameaçada, viu-se forçada a revidar e ao revidar, perdeu o senso de equilíbrio e esqueceu alguns de seus deveres. A presidente eleita, Dilma Rousseff, garantiu na comemoração da vitória que não permitirá ameaças à liberdade de expressão. Foi uma manifestação importante destinada a desarmar os espíritos.” Para Dines, a conciliação nacional após o pleito traz embutida a questão da coragem: “Conciliar exige coragem, boas intenções não são suficientes para unir um país que nesta refrega eleitoral, ao contrário das anteriores, saiu dividido e machucado”.

No debate no estúdio, Dines pediu que o filósofo Roberto Romano fizesse uma reflexão sobre o exercício da conciliação. “Significa apenas uma boa palavra, um sorriso, um tapinha nas costas ou abrir mão e reconhecer?”, perguntou. Na perspectiva de Romano, é preciso redefinir novos espaços de diálogo verdadeiro na política. O filósofo explicou que diálogo não é “aceitar tudo do outro”, é exigir respeito e respeitar. “Se você não tem esta relação dupla, você não pode, efetivamente, chegar à conciliação”, argumentou. A conciliação exige a verdade e é necessário coragem para dizê-la. “O que nós estamos assistindo aqui é o resultado da não verdade.” Em ambos os lados da campanha, segundo ele, houve a tentativa de transformar “o outro” em um sujeito “inimigo”, “diabólico” e “demoníaco” – e este aspecto, para Romano, contribui para diminuir a dignidade política.

Dines comentou que a imprensa assumiu-se como protagonista no cenário eleitoral. Ao aceitar esta condição, deixou de cumprir o seu papel na sociedade e perdeu a isenção. Renato Lessa sublinhou que a reduzida dimensão quantitativa de jornais em circulação atualmente, sobretudo no Rio de Janeiro, faz com que a imprensa não seja capaz de captar e dar voz às diversas opiniões e percepções da sociedade brasileira. Lessa criticou o fato de os partidos políticos se transformarem em “meras agências de captura de voto em temporadas eleitorais”. Para o cientista social, os partidos não têm exercido a função de organização da opinião e de informações fundamentais para que o eleitor possa se posicionar em relação às grandes questões nacionais.

Mídia como parte do processo de polarização

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