T.S. Eliot – Poesia – Versos na tarde – 19/05/2017

Quarta-Feira de Cinzas
T.S. Eliot¹

I

Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto
Não mais me empenho no .empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?

Porque não mais espero conhecer
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma

Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar

E rogo a Deus que de nós se compadeça
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que foi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós

Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.

Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.

¹Thomas Stearns Eliot
* Nuneaton, Reino Unido – 22 de novembro de 1819
+ Chelsea, Londres, Reino Unido – 22 de dezembro de 1880
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T.S. Eliot – Poesia – Versos na tarde – 18/05/2017

Retrato de uma dama – III
T.S. Eliot¹

Cai a noite de Outubro; regressando como outrora,
Excepto por uma leve sensação de estar inquieto,
Galgo os degraus e giro a maçaneta da porta
E sinto como se houvesse subido de quatro as escadas.
“Com que então viajas? E quando voltas?
Ora, que pergunta mais tola!
Dificilmente o saberias.
Hás de achar muito o que aprender lá fora.”
Caiu-me lento o sorriso entre objetos antigos.
“Poderás talvez escrever-me?”
Por um segundo subiu-me o sangue à cabeça
Como se assim eu calculasse este momento.
“Tenho-me surpreendido com frequência ultimamente
(Mas nossos princípios ignoram sempre nossos fins!)
Por jamais nos havermos tornado amigos.”
Senti-me como quem sorrisse, e ao voltar percebi,
De repente, sua vítrea expressão.
Perdi todo o controle; e em trevas na verdade mergulhamos.
“Eu disse o mesmo para todos, todos os nossos amigos,
Estavam todos certos de que nossos sentimentos
Poderiam conjugar-se tão intimamente!
Eu mesma dificilmente o entendo.
Deixemos que isto fique agora à sua sorte.
Escreverás, de quando em vez.
E talvez nem demores tanto a fazê-lo.
Estarei sentada aqui, servindo chá aos amigos.”
E devo então trocar de forma a cada instante
Para dar-lhe afinal uma expressão… dançar, dançar
Como faria um urso bailarino,
Tagarelar como um papagaio, rilhar os dentes como um bugio.
Respiremos um pouco, no torpor de uma tragada.
Bem! E se ela morresse numa tarde qualquer,
Numa tarde enevoada e cinzenta, num encardido e róseo crepúsculo;
Se ela morresse e me deixasse aqui sentado, a caneta entre os dedos.
A névoa a cair sobre os telhados;
Por um momento me perco em dúvidas,
Já que não sei o que sentir ou se o entendo,
Se sou um sábio ou simplesmente um tolo, cedo ou tarde…
Não colheria ela algum lucro, afinal?
Essa melodia culmina com uma “agonia de outono”
E já que aqui falamos de agonia
— Algum direito a sorrir eu teria?

¹Thomas Stearns Eliot
* Nuneaton, Reino Unido – 22 de novembro de 1819
+ Chelsea, Londres, Reino Unido – 22 de dezembro de 1880
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T.S. Eliot – Poesia – Versos na tarde – 15/05/2017

Retrato de uma dama
T.S. Eliot¹
II

Agora que florescem os lilases,
Um vaso de lilases tem ela em seu quarto
E um deles trança entre os dedos enquanto fala.
“Ah, meu caro, não sabes, não sabes
O que é a vida, tu, que a subjugas em tuas mãos”
(Lentamente a retorcer o talo de um lilás);
“Deixas que de ti a vida flua, deixas que ela flua
E cruel é a juventude, e nenhum remorso tem
E sorri perante aquilo que sequer consegue ver.”
Sorrio, claro está.
E continuo a tomar chá.
“Mas com aqueles poentes de Abril, que de algum modo recordam
Minha vida já sepulta, e Paris na primavera,
Sinto uma paz infinita, e vejo o mundo
Esplêndido e jovem afinal.”
A voz retorna como a insistente atonia
De um violino quebrado numa tarde de agosto:
“Sempre estou certa de que entendes
Meus sentimentos, sempre certa de que os sentes,
Certa de que, na outra borda do abismo, alcances tua mão.
És invulnerável, não tens o calcanhar de Aquiles.
Vais em frente e, quando triunfas, podes dizer: aqui muitos falharam.
Mas que tenho eu, que tenho eu, meu caro,
Para dar-te que possas receber de mim?
Amizade e simpatia apenas
De quem já quase chega ao fim da vida.
Estarei sentada aqui servindo chá aos amigos…”
Ponho meu chapéu: como posso, pusilânime, exigir satisfações
Por haver ela dito o que me disse?
Me encontrarás todas as manhãs nos jardins públicos
A ler histórias em quadradinhos e a página desportiva.
Em particular, anoto:
Uma condessa inglesa sobe ao palco,
Um grego é morto num bailado polonês,
Outro acusado de desfalque bancário confessou.
Mantenho minha postura
E mantenho-me controlado
Salvo se um realejo, a martelar mecânico uma escala,
Repisa uma cediça canção familiar
Com o aroma de jacintos a fluir pelo jardim
Relembrando coisas que alguém já desejou.
Estarão certas ou erradas tais ideias?

¹Thomas Stearns Eliot
* Nuneaton, Reino Unido – 22 de novembro de 1819
+ Chelsea, Londres, Reino Unido – 22 de dezembro de 1880
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