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Arquitetura,Blog do Mesquita 00

Arquitetura: Os mosteiros mais belos no inverno russo

Fundado em 1337, o Mosteiro da Trindade-São Sérgio está situado em Sérguiev Possad, a 70 km de Moscou. É considerado lar espiritual da Igreja Ortodoxa Russa e tem mais de 300 monges residentes.

Mosteiro Budista Shad Tchup Ling, fundado em 1995, no topo do Monte Katchkara, perto da cidade de Katchkanar, Montes Urais, a 1.707 km de Moscou.

O Mosteiro Belogorski está localizado a 85 km da capital regional de Perm. Devido ao clima, a catedral inteira fica coberta com geada durante o inverno, como se fosse um castelo açucarado de conto de fadas. A primeira igreja de madeira foi construída no local em 894.

Localizado na cidade de Istra, a uns 40 quilômetros de Moscou, o Mosteiro de Nova Jerusalém foi fundado em 1656 pelo Patriarca Ortodoxo Russo Nikon. O local foi escolhido porque, segundo o patriarca, assemelha-se à Terra Santa. O Rio Istra e os edifícios representam, de forma simbólica, o rio Jordão e Jerusalém, respectivamente.

O Mosteiro Svenski, situado na confluência dos rios Desna e Sven, está a 5 km de Briansk. Segundo a lenda, foi fundado pelo Conde Roman Mikhailovitch em 1288.

Convento da Trindade, em Murom. Na década de 1640, o rico comerciante Taras Borissov financiou o Convento da Trindade, cuja Igreja da Santíssima Trindade é decorada com telhas cerâmicas.

Convento Novodevitchi, também conhecido como Mosteiro Bogoroditse-Smolenski, é um dos conjuntos arquitetônicos mais belos da capital. Finalizado em 1524, este convento de edifícios (com bairros residenciais, edifícios administrativos, campanários e igrejas) foi erguido sobre uma espécie de península no rio Moscou.

O Mosteiro Scheglovski da Santa Mãe de Deus é um monastério masculino perto da cidade de Tula, a 180 km de Moscou. Sua principal catedral, que exibe o ícone de Maria, a doadora de leite, foi inaugurada em 1860 e hoje só abre durante as orações. Existem várias estruturas menores dentro do complexo, além de um tranquilo jardim. De um modo geral, sente-se um espírito de século 19 nesse lugar.

O Mosteiro Visokopetrovski é o mais próximo da Praça Vermelha (2 km). Situado na rua de Petrovka, foi provavelmente fundado por São Piotr, em 1315.

O Monastério Kirillo-Belozerski, à beira do lago Siverskoie, foi fundado no fim do século 14. Seu fundador, São Cirilo, era descendente da nobre família moscovita Veliaminov. Ele passou de monge para arquimandrita (título dado aos hegúmenos, ou aos sacerdotes celibatários que sejam dignos de honra pelos seus serviços prestados) no Mosteiro Simonov, em Moscou, mas recusou esta alta posição e, aos 60 anos, se mudou para a região do lago Branco, onde fundou um mosteiro.

Religiões,Blog do Mesquita 01

‘Soldados de Jesus’: neopentecostais armados atormentam as minorias religiosas do Brasil

Praticantes de candomblé recém-iniciados, possuídos por orixas, ou deuses espirituais, participam de uma cerimônia no Rio de Janeiro em 2015. (Lianne Milton / For The Washington Post)

DUQUE DE CAXIAS, Brasil – Houve uma batida na porta. Estranho, o padre pensou: ele não estava esperando ninguém. Marcos Figueiredo correu para a entrada do templo de sua casa e a abriu.

Armas. Três deles. Tudo apontando para ele.

Os “soldados de Jesus” haviam chegado – três membros de uma gangue de cristãos evangélicos extremistas que haviam assumido o controle do empobrecido bairro do Parque Paulista, em Duque de Caxias. Primeiro, eles ergueram barreiras para afastar policiais e criar um paraíso para narcóticos a uma hora de carro do Rio de Janeiro. Agora eles estavam mirando em alguém cuja fé não se alinhava à sua. Isso significava exigir o fechamento de templos que praticavam religiões de influência africana, como o candomblé de Figueiredo.

“Ninguém quer macumba aqui”, disse um deles a Figueiredo, usando um insulto étnico, de acordo com testemunhos que ele forneceu às autoridades. “Você tem uma semana para parar tudo isso.”

Eles dispararam no ar e partiram, deixando Figueiredo com uma escolha impossível: sua fé – ou sua vida.

É uma decisão que mais brasileiros estão sendo forçados a tomar. À medida que o evangelicalismo reconfigura o mapa espiritual no maior país da América Latina, atraindo dezenas de milhões de adeptos, conquistando poder político e ameaçando o domínio de longa data do catolicismo, seus seguidores mais extremos – muitas vezes afiliados a gangues – estão cada vez mais visando as minorias religiosas não-cristãs do Brasil.

Sacerdotes foram mortos . As crianças foram apedrejadas . Uma mulher idosa ficou gravemente ferida . Ameaças e provocações de morte são comuns. Gangues estão ostentando a bandeira de Israel, uma nação vista por alguns evangélicos como necessária para trazer a volta de Cristo.

No Candomblé, animais como pássaros são sacrificados e oferecidos a suas divindades para manter a vida em harmonia e manter uma conexão entre o mundo material e o mundo sobrenatural.  (Lianne Milton / para o Washington Post)
No Candomblé, animais como pássaros são sacrificados e oferecidos a suas divindades para manter a vida em harmonia e manter uma conexão entre o mundo material e o mundo sobrenatural. (Lianne Milton / para o Washington Post)

O candomblé – como Santería e Voodoo, enraizado nos sistemas de crenças trazidos para a América Latina pelos escravizados da África Ocidental – está desaparecendo de comunidades inteiras.

“Alguns deles se chamam ‘traficantes de Jesus’, criando uma identidade única”, disse Gilbert Stivanello, comandante da unidade de crimes de intolerância do departamento de polícia do Rio. “Eles carregam armas e vendem drogas, mas sentem o direito de proibir as religiões de influência africana, afirmando que elas estão relacionadas ao diabo”.

A crescente violência horrorizou os evangélicos tradicionais. “Quando vejo esses [templos], oro contra isso porque há uma influência demoníaca lá”, disse David Bledsoe, um missionário americano que passou duas décadas aqui. “Mas eu condenaria tais ações.”

A ascensão global do evangelicalismo e, particularmente, o Pentecostalismo, seu movimento que mais cresce, levou à violência contra as religiões indígenas e africanas de países como Haiti , Nigéria e Austrália . Mas os analistas dizem que as forças que alimentam o preconceito aqui – a presença histórica de minorias religiosas, o evangelicalismo recém-encorajado e a negligência do estado – são particularmente agudas.

O Rio de Janeiro, lar de uma coleção diversificada de religiões afro-brasileiras, também é agora o centro do neopentecostalismo brasileiro, uma linha zelosa de evangelicalismo mais freqüentemente ligada à intolerância.

O prefeito é um bispo em uma igreja pentecostal. A cidade abriga o presidente Jair Bolsonaro, batizado no rio Jordão e levado ao cargo pelo voto pentecostal . E é o local de nascimento da poderosa Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo, um aliado próximo de Bolsonaro que escreveu um livro que condena as religiões afro-brasileiras como “diabólicas” e “filosofias usadas por demônios”. O livro foi brevemente banido por um juiz que o considerou “abusivo e prejudicial”.

Marcos Figueiredo e sua mãe, Wilma Figueiredo, participam de uma celebração religiosa em seu templo no ano passado.  (Cortesia de Marcos Figueiredo)
Marcos Figueiredo e sua mãe, Wilma Figueiredo, participam de uma celebração religiosa em seu templo no ano passado. (Cortesia de Marcos Figueiredo)

Essas crenças, adotadas com frequência pelos pastores pentecostais brasileiros, agora ecoam nas favelas do Rio, onde o evangelicalismo está explodindo e onde as autoridades largaram o controle das gangues. A combinação de preconceito religioso e impunidade criminal permitiu o direcionamento coordenado de praticantes de religiões minoritárias.

No estado do Rio, os relatos de violência de base religiosa contra seguidores de religiões afro-brasileiras aumentaram de 14 em 2016 para 123 nos primeiros 10 meses deste ano. As autoridades estaduais chamam esses números de vastos sub-contadores – dizem que muitas vítimas têm medo de se apresentar. Mais de 200 templos foram fechados diante de ameaças este ano, segundo a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio, duas vezes mais que no ano passado, privando milhares de pessoas de seus locais de culto.

“É a dizimação silenciosa de uma comunidade inteira e a mais baixa das prioridades baixas”, disse Robert Muggah, diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, com sede no Rio, que rastreia a violência na América Latina. “Eles estão presos e em alguns dos municípios mais violentos do Brasil e possivelmente do mundo”.

Preso: Foi exatamente assim que Figueiredo se sentiu no Parque Paulista. Ele não tinha dinheiro para se mudar. Ele não poderia começar uma nova congregação. Ele teve que escolher.

Ele lutaria? Ou ele fecharia seu templo?

Ele teve uma semana para decidir.

‘Todo o mal deve ser desfeito em nome de Jesus!’

Na geração passada, o Brasil passou por uma transformação espiritual como poucos outros lugares do planeta. Em 1980, cerca de 9 em cada 10 pessoas aqui identificadas como católicas. Mas essa proporção chegou a 50% e em breve será superada pelo evangelicalismo, que agora representa um terço da população.

A presença do evangelicalismo parece ainda maior. A televisão é invadida pelo televangelismo. A indústria da música evangélica vale cerca de US $ 1 bilhão . Políticos evangélicos puxaram o país para a direita em questões sociais. E o sistema penitenciário, por muito tempo o local de recrutamento mais potente das gangues, tornou-se o campo para um tipo de conversão totalmente diferente.

Pesquisas mostram que 81 das 100 organizações religiosas que trabalham com questões sociais nas prisões são evangélicas. A Igreja Universal do Reino de Deus diz que enviou um exército voluntário de 14.000 membros da igreja para proselitizar os presos.

Segundo esses analistas, esses esforços contribuíram para a crescente evangelização da vida de gangue no Brasil.

Christina Vital da Cunha, professora associada de sociologia da Universidade Federal Fluminense, passou décadas estudando evangelicalismo nas favelas do Rio. “Alguns pastores e denominações apostam estrategicamente na conversão de traficantes em lugares privilegiados na hierarquia do crime”, disse ela.

Vários dos convertidos eram líderes da poderosa quadrilha Pure Third Command. As conversões, disse Vital, ajudaram a instilar uma nova “moralidade religiosa evangélica” no grupo criminoso, enquanto travava uma guerra de conquista contra outras gangues no norte do Rio – exatamente onde muitos seguidores de religiões afro-brasileiras se estabeleceram.

O templo de casa de Figueiredo já foi preenchido com artefatos espirituais.  Agora está tudo vazio.  (Terrence McCoy / The Washington Post)
O templo de casa de Figueiredo já foi preenchido com artefatos espirituais. Agora está tudo vazio. (Terrence McCoy / The Washington Post)

Jorge Duarte, 63 anos, era padre no templo mais antigo do Candomblé no Parque Paulista. Ele se lembra de quando o Terceiro Comando Puro tomou o poder, por volta de 2012. A comunidade de sua infância – bucólica, distante da cidade, com o catolicismo e as crenças africanas coexistindo – se foi. Os católicos haviam mudado para o evangelicalismo. E agora a gangue dominante também.

As regras que a gangue instituiu eram pequenas a princípio, dizem os moradores, mas logo moldaram a existência diária dos seguidores do candomblé. O Terceiro Comando Puro controlava sua agenda, estabelecendo um toque de recolher, permitindo celebrações religiosas apenas em determinados dias, limitando os templos a apenas alguns visitantes. Carros desconhecidos que entraram na comunidade foram parados por homens armados. Vestir o branco tradicional do candomblé em público foi proibido.

“As coisas eram como ‘Você sabe, está ficando mais difícil, mas vou continuar'”, disse Duarte. “Até que tudo explodisse.”

Histórias de perseguição religiosa de outras partes da cidade começaram a aparecer: uma menina de 11 anos foi informada de que iria queimar no inferno e depois foi atingida na cabeça por uma pedra. Uma mulher de 65 anos foi apedrejada. Imagens de seu rosto gravemente ferido passaram pelas telas de TV da cidade.

Uma sacerdotisa do Candomblé foi forçada, sob uma arma de fogo, a destruir todos os artefatos dentro de seu templo, enquanto membros de gangues a provocavam.

“Todo o mal deve ser desfeito em nome de Jesus!”, Disse um homem em um vídeo do ataque. “Sou a favor da honra e glória de Jesus!”, Acrescentou outro. “Quebre tudo, porque você é o diabo!”, Veio outro comando.

Faz dois anos que Carmen Flores foi forçada a destruir seus artefatos – seus vasos de cerâmica e suas figuras de espíritos religiosos que guiam a humanidade. Mas ela ainda ouve as provocações.

“Estou com medo de que alguém venha aqui e nos massacre”, disse Flores, 68. “Estou com medo de seguir a estrada. Estou com medo de pegar o ônibus. Não sou só eu.

Evangélicos afiliados a uma gangue invadiram este templo e forçaram uma mulher de 86 anos, sob uma arma de fogo, a destruir todos os itens religiosos.  (Cortesia de Vivian Lessa)
Evangélicos afiliados a uma gangue invadiram este templo e forçaram uma mulher de 86 anos, sob uma arma de fogo, a destruir todos os itens religiosos. (Cortesia de Vivian Lessa)

Depois de mais violência, chega uma decisão dolorosa.

Logo depois que os soldados de Jesus visitaram Figueiredo, foram ao templo mais antigo do Parque Paulista, sua extensão de árvores sagradas e talismãs escondidos atrás de muros de concreto. Quatro membros de gangues bateram do lado de fora, apontaram uma arma para a sacerdotisa de 86 anos e ordenaram que ela destruísse todos os itens religiosos da casa e a incendiasse.

“Tortura psicológica”, disse Vivian Lessa, sua neta. “Você considera algo sagrado, então é forçado a quebrá-lo, enquanto eles dizem: ‘Ninguém vai te salvar.’ “

Esse episódio ensinou a Figueiredo tudo o que ele precisava saber. Se a quadrilha estivesse disposta a fazer isso com uma mulher de 86 anos, o que eles fariam com ele? Ele acreditava que tinha sido colocado na Terra para ser um líder religioso – e cuidar do templo que seus avós construíram -, mas nem mesmo esse chamado valeu a vida.

Ele não lutaria. Ele desligaria.

Em agosto, a polícia anunciou a prisão da “Gangue de Jesus”, oito membros do Terceiro Comando Puro. No período de várias semanas, disseram as autoridades, eles destruíram ou forçaram sistematicamente o fechamento de um templo após o outro. Um dos homens era o líder do Terceiro Comando no Parque Paulista. Além de suas responsabilidades de gangue, ele estava trabalhando como pastor evangélico.

Figueiredo estudou as reportagens, mas não viu os rostos de seus agressores entre as pessoas presas. Eles ainda estavam lá fora. Eles voltariam. E quando o fizeram, como ele pôde confiar em outros residentes para ajudar, quando não tiveram a última vez? Como ele poderia acreditar que o governo ajudaria, quando tantos no poder eram evangélicos?

Era mais seguro permanecer fechado. Em pouco tempo, todo templo que ele conhecia no Parque Paulista se foi.

“Este está fechado”, disse ele, dirigindo pelo bairro, indicando um prédio abandonado.

“Fechado também”, disse ele, vendo outro. “À frente costumava ser outro templo, mas está fechado.”

Olhando para o outro lado do bairro – onde sua fé havia sido “proibida” – ele viu o futuro.

“Teocracia”, disse ele.

Uma cerimônia de candomblé no Rio em 2015. (Lianne Milton / For The Washington Post)
Uma cerimônia de candomblé no Rio em 2015. (Lianne Milton / For The Washington Post)

Heloisa Traiano contribuiu para este relatório.

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Geopolítica Medieval: Uma Teoria Completa do Poder Papal Medieval

Por Andrew Latham

O desenvolvimento da teoria do absolutismo papal analisando os pontos de vista de Henricus de Segusio, ou Hostiensis, como ele ficou conhecido depois de ter sido criado o cardeal bispo de Ostia em 1262.

Hostiensis desenvolveu o conceito de plenitudo potestatis mais completamente do que qualquer um de seus predecessores canonistas. Por meio de comentários sobre Quanto Personam , de Innocent III , e sobre decretais inocentes subsequentes, como Cum ex illo, Inter corporalia, Proposuit, Magnae devotionis e Cum ad monasterium (nos quais Innocent aplicou os conceitos principais primeiro articulados em Quanto Personam a diferentes casos jurídicos) ele introduziu uma série de inovações conceituais que trouxeram as sementes plantadas por Inocente à plena floração.

Basicamente, Hostiensis refinou e ampliou a idéia de vicarius Christi – vigário de Cristo. Os decretistas e os primeiros decretalistas não haviam aproveitado muito essa idéia, concentrando suas atenções na ideia de pro ratione voluntas. Mas, nas mãos de Hositiensis, a idéia de que o papa compartilhasse e exercesse a autoridade divina de Cristo tornou-se a pedra angular de um absolutismo papal mais irrestrito do que o próprio Tancredo de Bolonha havia adotado. Seu argumento era simples, mesmo que tipicamente expresso em linguagem extravagante. Toda autoridade política é derivada de Deus; portanto, todos que exercem essa autoridade podem governar por mandato divino. Mas a autoridade do papa, ele argumentou, era qualitativamente diferente da de outros príncipes. Ecoando a linguagem usada por Inocente e baseando-se em muitos dos mesmos textos que Laurêncio, Hostiensis argumentou que o papa não governava por mandato divino; ao contrário, ele governou como um agente divino. Como vigário de Cristo, ele agiu no lugar de Cristo. Portanto, ele concluiu em seu glossário sobre Quanto Personamsempre que o papa age de desejo , ele exerce a autoridade divina de Cristo e, portanto, seus atos são ipso facto lícitos. O único fator que limitava o exercício papal dessa autoridade divina era o pecado: dado que Cristo estava sem pecado, argumentou Hostiensis, o papa simplesmente não poderia estar agindo no lugar de Cristo se estivesse agindo pecaminosamente.

Inscrição em frente à Arquibasílica de São João de Latrão, igreja catedral do Bispo de Roma: Sacros (anc), Lateran (ensis) eccles (ia) omnium urbis et orbis ecclesiarum mater et caput, que significa “Santíssima Igreja Lateranense, de todas as igrejas em a cidade e o mundo, a mãe e a cabeça ”- Foto: Marie-Lan Nguyen / Wikimedia Commons

Com esse entendimento de vicarius Christi , Hostiensis passou a desenvolver conceitos jurídicos precisos para substituir as formulações um tanto confusas de Innocent. Talvez o mais importante seja que, onde Innocent havia escrito vagamente sobre plenitudo potestatis papal , e onde os decretistas haviam tentado concretizar o pensamento de Innocent de maneiras retoricamente expansivas, mas conceitualmente imprecisas, Hostiensis decidiu enumerar os poderes legais específicos inerentes à plenitude de poder do papa. Uma maneira de fazer isso foi tentar analisar a vaga frase “acima da lei” ( supra ius ou supra omnia iura ) que tinha sido cada vez mais utilizada pelos canonistas desde o Decreto de Inocência de Proposta de Inocência.. Segundo Hostiensis, o papa poderia agir supra ius de duas maneiras. Por um lado, sob a doutrina do que ele (seguindo Inocente) chamava suppletio defectuum , o papa poderia corrigir qualquer deficiência de fato, lei ou procedimento legal. Como Watt colocou, o suppletio era um ato de poder absoluto para remediar defeitos que surgiram pela não observância da lei existente ou porque a lei existente era inadequada para atender às circunstâncias particulares. ‘ Por outro lado, Hostiensis argumentou que o poder de agir supra implicava a autoridade de dispensar a lei. Mais uma vez citando Watt, a dispensação “era um uso do poder absoluto para anular a lei existente”. Para ter certeza, Hostiensis acreditava que o papa exigia uma causa ou razão válida para agirsupra ius . Mas ele também acreditava que, em última análise, era o próprio papa quem tinha o poder de determinar se tal causa ou razão existia em um determinado caso.

Hostiensis também procurou refinar o conceito de plenitudo potestatis , trazendo maior precisão ao conceito um tanto confuso de Innocent de “poder divino” papal. Ele o fez baseando-se nas obras de teólogos do início do século XIII, como Godfrey de Poitiers, Guilherme de Auxerre e Alexandre de Hales, os quais haviam distinguido entre duas facetas do poder divino de Deus: Seu poder absoluto ( potestas absoluta ) e Seu poder ordinário. poder ( potestas ordinata ). Segundo esses teólogos, potestas absoluta se referia ao poder abstrato ou teórico de Deus para fazer o que quisesse, enquanto potestas ordinatareferia-se ao poder limitado ou ordenado que ele realmente escolheu exercer. Aplicando esses conceitos teológicos à idéia de autoridade papal introduzida por Inocente em Quanto Personam , Hostiensis argumentou que o papa também exercia dois tipos de poder. Aqui, no entanto, ele alterou dramaticamente o significado da distinção introduzida pelos teólogos. Onde eles entenderam essa distinção como referindo-se à diferença entre “o que Deus poderia ter feito além das coisas que ele escolheu fazer”, Hostiensis entendeu o poder absoluto do papa ou potestas absoluta como uma forma de poder divino. Na sua opinião, o poder ordinário do papa ou potestas ordinata era seu poder humano de agir dentro e com base na lei, enquanto suas potestas absolutaera seu poder divino de transcender a lei – isto é, seu poder de agir além das leis que definiam e limitavam suas potestas ordinata .

Reunindo essas duas linhas de pensamento, Hostiensis elaborou ainda mais sua idéia de potestas absoluta em seus comentários sobre outros dois decretais papais, o Ex publico de Alexandre III (que trata da lei do casamento) e Cum ad monasterium de Innocent III (que trata de votos solenes). No primeiro deles, Hostiensis argumentou que o papa poderia “permitir que um cônjuge se separasse de um parceiro relutante, exercendo seu poder absoluto”. No segundo, ele defendeu que o papa poderia usar suas potestas absolutadispensar da regra monástica, mas apenas com justa causa. Tomados em conjunto, esses comentários revelam que Hostiensis passou a acreditar que, embora o papa não pudesse promulgar a lei divina e estivesse de fato sujeito a ela, ele poderia dispensá-la em certos assuntos estritamente prescritos. Esse era um novo elemento das potestas absolutas papais .

Os decretistas decretistas de Hostiensis e até os descristalistas argumentaram que o papa poderia, em certas circunstâncias, suplementar ou dispensar a lei positiva, mas ninguém chegou ao ponto de afirmar que o papa poderia dispensar a lei superior. Mas Hostiensis agora alegava que, como vigário de Cristo, o papa também poderia exercer a autoridade de Deus para anular a lei natural e divina no que se refere ao casamento e aos votos. Nos comentários subsequentes sobre o decretal Sicut unire de Celestine III (lidando com o poder do papa de unir visões episcopais), Hostiensis foi ainda mais longe, argumentando que o poder de dispensar a lei divina não estava limitado ao casamento e aos votos, mas também poderia ser usado para regular o status ecclesiaeem si. Ao fazê-lo, rompeu com seus antecessores, que argumentavam que o papa estava vinculado à constituição fundamental da Igreja e não podia alterar nem abolir o status ecclesiae .

Mas se Hostiensis rompeu com seus predecessores em relação aos limites específicos da potesta absoluta papal , ele não rompeu com eles em relação ao princípio geral de que o poder papal era de fato limitado. Para Hostiensis, o conceito de plenitudo potestatis não implicava ou implicava poder desenfreado ou arbitrário. Para ter certeza, como Inocente havia argumentado em sua proposta decretal, Hostiensis acreditava que a potesta absoluta do papa lhe permitia agir supra iuscom respeito ao direito positivo, simplesmente com base em sua vontade. Mas mesmo Hostiensis aceitou que o papa só poderia agir acima da lei natural ou divina ‘com causa’, argumentando que o papa só poderia agir supra ius se fosse necessário para o bem público. Como ele colocou em seu comentário sobre o decreto Magnae devotionis de Innocent III :

Se a causa não está presente ou não é suficiente, não é apropriado que o papa se desvie da lei.

E, como outros juristas da época, Hostiensis também acreditava que, embora não seja obrigado pela lei, o papa deveria, no entanto, se sujeitar a ela, exceto em raras ocasiões.

Livro impresso do século XVI dos escritos de Hostiensis

Uma genealogia completa da idéia medieval tardia / moderna de soberania implicaria traçar a evolução de todos os seus conceitos constituintes ( iurisdictio; legibus solutus; plenitudo potestatis; potesta absoluta; potesta absoluta; pro ratione voluntas; persona ficta ; e dominium ) em vários locais distintos de teorização política (direito canônico; direito romano; várias literaturas polêmicas; e obras de teólogos e filósofos) ao longo de vários séculos (1075-1576). Também implicaria traçar a evolução da crença generalizada de que o coração da suprema autoridade para comandar, legislar e julgar estava adequadamente investido em reinos e outros principados que não reconheciam superioridade nesses mesmos locais e no mesmo espaço de séculos.

Finalmente, implicaria traçar a evolução da idéia de que a fonte da autoridade política suprema algum tipo de síntese do “povo” e de Deus. Neste breve ensaio, no entanto, meu objetivo era um pouco menos ambicioso: demonstrar a plausibilidade de tal genealogia, rastreando a evolução de três conceitos-chave de soberania ( plenitudo potestatis; potesta absoluta ; e pro ratione voluntas ) em um local específico de teorização (direito canônico) durante um século específico (o décimo terceiro). O argumento que desenvolvi foi que, em Quanto Personam, decretais relacionados e seus glos, Innocent e os canonistas fizeram uma série de contribuições importantes para a idéia de autoridade suprema – idéias que acabariam sendo captadas pelos primeiros pensadores modernos como Jean Bodin e trabalhadas em suas teorias de soberania. O papa estabeleceu que o ofício papal era o único locus de autoridade suprema dentro da Igreja e que, como vigário de Cristo, somente o papa exercia o que ele chamava de “poder divino” na terra.

Com base nisso, os canonistas começaram a reimaginar o caráter jurídico da autoridade papal, primeiro localizando a fonte do direito canônico na vontade do papa e depois perdendo o papa de quase todas as restrições da lei positiva, natural e divina (em menos em determinadas circunstâncias). No processo, eles desenvolveram e refinaram uma série de conceitos – pro ratione voluntas; plenitudo potestatis; potesta absoluta – que, nos séculos seguintes, seria transferida do papa como governante da Igreja para governantes temporais de reinos e outros principados.

Andrew Latham é professor de ciência política no Macalester College em Saint Paul, Minnesota. Ele é o autor, mais recentemente, de  A idéia de soberania na virada do século XIV . Você pode visitar o site de Andrew em  www.aalatham.com ou seguir Andrew no Twitter @aalatham 

Pedras e Flor,Blog do Mesquita

O Deus de Schopenhauer

Pedras e Flor,Blog do MesquitaTrechos de Arthur Schopenhauer em O mundo como vontade e representação (cap. 34) (Contraponto). Tradução de M. F. Sá Correia.

Quando, elevando-se pela força da inteligência, se renuncia a considerar as coisas do modo vulgar; quando se deixa de procurar (à luz das diferentes expressões do princípio da razão) apenas as relações dos objetos entre si, relações que se reduzem sempre, em última análise, à relação dos objetos com nossa própria vontade, isto é, quando já não se considera nem o lugar, nem o tempo, nem o porquê, nem o para que das coisas, mas única e simplesmente sua natureza; quando, além disso, já não se permite nem ao pensamento abstrato, nem aos princípios da razão ocupar a consciência mas, em vez de tudo isto, se dirige todo o poder do espírito para a intuição; quando aí nos submergimos inteiramente e se enche toda a consciência com a contemplação tranquila de um objeto natural atualmente presente: paisagem, árvore, rochedo, edifício ou qualquer outro; ora, desde o momento em que nos perdemos neste objeto, como dizem com profundidade os alemães, isto é, desde o momento em que nos esquecemos da nossa individualidade, da nossa vontade e só subsistimos como puro sujeito, como claro espelho do objeto, de tal modo que tudo se passa como se só tal objeto existisse, sem ninguém que o percebesse, ou seja: que fosse impossível distinguir o sujeito da própria intuição e que ambos se confundissem numa único ser, numa única consciência inteiramente ocupada e preenchida por uma visão única e intuitiva; quando, enfim, o objeto se liberta de toda relação com o que não é ele, e o sujeito, de toda a relação com a [própria] vontade, então, aquilo que é conhecido deste modo já não é a coisa particular enquanto particular, mas a ideia, a forma eterna, a objetividade imediata da vontade [natural].

Neste grau, por conseguinte, aquele que é arrebatado nesta contemplação já não é um indivíduo (visto que o indivíduo se aniquilou nesta mesma contemplação), mas o sujeito que conhece, puro, liberto da [sua] vontade, da dor e do tempo. Esta preposição que parece surpreendente confirma, sabe-se muito bem, o aforismo que provém de Thomas Payne: “Do sublime ao ridículo há apenas um passo”; mas, graças ao que se segue, ela vai-se tornar mais clara e parecer menos estranha.

A mente é eterna, visto que concebe os fatos sob a forma de eternidade
Era também isso que, pouco a pouco, [Benedito] Espinosa descobria, quando escrevia: “A mente é eterna, visto que concebe os fatos sob a forma de eternidade” (Ética, 5, prop. 31, escólio).

[…] O indivíduo que conhece, considerado como tal, e a coisa particular conhecida por ele estão sempre situados em pontos definidos do espaço e da duração [do tempo]; são elos das cadeias de causas e efeitos. O puro sujeito que conhece e o seu correlativo, a ideia, estão libertos de todas estas formas do princípio da razão: o tempo, o lugar, o indivíduo que conhece e aquele que é conhecido não significam nada para eles.

É apenas quando o indivíduo que conhece se eleva da maneira acima mencionada, se transforma em sujeito que conhece e transforma por este fato o objeto considerado como representação, [e este lhe] aparece puro e inteiro, é então, apenas, que se produz a perfeita objetivação da vontade [natural], visto que a ideia é apenas a sua objetividade adequada.

Esta resume em si, e na mesma qualidade, objeto e sujeito (visto que eles constituem a sua forma única); mas ela mantém entre eles um perfeito equilíbrio: por um lado, com efeito, o objeto é apenas a representação do sujeito; por outro lado, o sujeito que se esgota [ou se dissolve] no objeto da intuição torna-se esse mesmo objeto, atendendo a que a consciência é, daqui para a frente, a mais clara imagem dele. Este consciência constitui, para falar com propriedade, a totalidade do mundo considerado como representação.

[…] Do mesmo modo que na ideia, quando ela aparece, o sujeito e o objeto são inseparáveis, visto que é preenchendo-se com uma igual perfeição um ao outro que eles fazem nascer a ideia, a objetividade adequada da vontade, o mundo considerado como representação; também, do mesmo modo, no conhecimento particular, o indivíduo que conhece e o indivíduo conhecido permanecem inseparáveis, enquanto coisas em si, visto que se fizermos a abstração completa do mundo considerado verdadeiramente como representação, não nos resta mais nada a não ser o mundo considerado como vontade; a vontade [natural] constitui o “em si” da ideia, a qual é a objetividade perfeita da vontade; a vontade constitui do mesmo modo o “em si” da coisa particular e do indivíduo que a conhece, os quais são apenas a objetividade imperfeita da vontade.

Considerada como vontade [natural], independente da representação e de todas as suas formas, a vontade é uma só e idêntica no objeto contemplado e no indivíduo que ao elevar-se a esta contemplação toma consciência de si mesmo como puro sujeito; ambos, por conseguinte, se confundem, visto que eles são, em si, apenas a vontade [natural] que se conhece a si mesma; quanto à pluralidade e à diferenciação, elas só existem a título de modalidades do conhecimento, isto é, apenas no fenômeno e em virtude da sua forma, no princípio da razão.

Do mesmo modo que sem objeto nem representação não sou sujeito que conhece, mas simples vontade cega, também sem mim, sem sujeito que conhece, a coisa conhecida não pode ser objeto e permanece simples vontade, esforço cego. Esta vontade é, em si, isto é, fora da representação, uma só e idêntica a minha: é apenas no mundo considerado como representação, submetido, em todo caso, à sua forma mais geral que é a distinção do sujeito e do objeto, é somente no mundo assim considerado que se opera a distinção entre o indivíduo conhecido e o indivíduo que conhece.

Uma vez que se suprime o conhecimento, o mundo considerado como representação, não resta em definitivo mais do que simples vontade, esforço cego. Se a vontade se objetiva e se torna representação, ela coloca imediatamente o sujeito e o objeto; se, além disso, esta objetividade se torna uma pura e perfeita objetividade da vontade, ela coloca o objeto como ideia, liberto das formas do princípio da razão. Ela coloca o sujeito como puro sujeito que conhece liberto da sua individualidade e da sua servidão diante da vontade.

Mergulhemos na contemplação da natureza, tão profundamente que já só existamos como puro sujeito que conhece.

Absorvamo-nos, portanto, e mergulhemos na contemplação da natureza, tão profundamente que já só existamos como puro sujeito que conhece: sentiremos imediatamente por isso mesmo que somos, nessa qualidade, a condição, por assim dizer, o suporte do mundo e de toda a existência objetiva, visto que a existência objetiva só se apresenta, a partir de agora, a título de correlativo de nossa própria existência. Puxamos assim toda a natureza para nós, tão bem que ela já nos parece ser um acidente da nossa substância. É neste sentido que [Lorde] Byron diz:

Montanhas, ondas e céu, não serão uma parte de mim mesmo, uma parte da minha alma? Não serei eu, eu também, uma parte de tudo isso?
(Childe Harold, 3, 75)

E, como poderia aquele que sente tudo isso crer-se absolutamente mortal, em contradição com a natureza imortal? Não; mas ele será vivamente penetrado por essa palavra dos Upanixades, nos Vedas:

Eu sou todas as criaturas como um todo, e fora de mim não existe nenhum outro ser.
(Upanixades, 1, 122)

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Comentário
E ainda lhe chamam de “filósofo do pessimismo”… Ora, este que foi um dos raríssimos a quem Nietzsche chamou de mestre, grande filósofo alemão, nada mais fez do que uma leitura ocidental dos textos ancestrais da antiga Índia. O pensamento de Schopenhauer está muito acima da mera filosofia, ele se encontra até hoje ancorado em algo eterno, mas a Academia reluta em admitir a profundidade do seu misticismo – talvez por simplesmente não o haver compreendido.
Assim como Espinosa, que chegou a compreensão de que “uma substância não pode criar a si mesma”, e assim como tantos outros antes dele, Schopenhauer se deu conta de uma ideia muito simples: não existe nada fora de Deus.
Ocorre que “Deus” é ainda somente uma palavra, e palavras nada mais são do que cascas de sentimento. De nada adianta ler o filósofo alemão de forma acadêmica, é preciso uma certa poesia no olhar e na leitura, é preciso ir além das cascas das palavras. O que quer que seja que cada um compreende por “Deus”, fato é que somos todos formados por sua substância. Seja tal substância a poeira estelar que forma nosso corpo, ou elementos mais etéreos e fugidios, como o próprio pensamento, fato é que o mundo de Schopenhauer se reduz a vontade e a representação, e se disto não decorre um entendimento exato da “substância em si”, talvez tenhamos de abandonar por um momento a nossa razão, e deixar que nossa mente “se eleve pela força da inteligência, e renuncie a considerar as coisas de modo vulgar” (e, ainda aqui, ele está citando os Vedas).
Assim, quem sabe, talvez possamos quebrar um pequeno graveto de madeira, levantar uma pedra do chão, e sentir, vividamente, que também somos parte de tudo o que há. Não existe absolutamente nenhum “pessimismo” em se pensar assim. Ou melhor, talvez seja mesmo necessário o pessimismo do ego, para que o otimismo da alma possa vir, finalmente, à tona…

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Crédito da imagem: Google Image Search/SmsRead

A sangrenta história das traduções da Bíblia

John Wycliffe (1330-1384) foi um dos principais pensadores ingleses do século XIV
Em 1427, o papa Martinho 5º ordenou que os ossos de John Wycliffe fossem exumados de seu túmulo, queimados e jogados em um rio. Wycliffe morrera havia 40 anos, mas a fúria causada por sua ofensa ainda permanecia viva.

Teólogo de profissão, ele foi chamado para assessorar o Parlamento em suas negociações com Roma.

Naquela época, a igreja era todo-poderosa, e quanto mais contato Wycliffe tinha com Roma, mais indignado ele se sentia. Em sua visão, o papado estava envenenado por corrupção e interesses pessoais. E ele estava determinado a fazer algo sobre isso.

Wycliffe começou a publicar panfletos argumentando que, em vez de buscar riqueza e poder, a igreja deveria se preocupar com os pobres.
Em uma ocasião, descreveu o papa como “o anticristo, o sacerdote mundano de Roma e o mais amaldiçoado dos batedores de carteira”.

Em 1377, o bispo de Londres exigiu que Wycliffe aparecesse perante sua corte para explicar as “coisas surpreendentes que brotaram de sua boca”John Wycliffe,Blog do Mesquita,Religião,Biblia
O julgamento de Wycliffe na Catedral de São Paulo, em Londres, ocorreu em 3 de fevereiro de 1377.

A audiência foi uma farsa do começo ao fim.

Tudo começou com uma briga violenta sobre se Wycliffe deveria sentar-se ou não. Juan de Gaunt, filho do rei e aliado de Wycliffe, reiterou que os acusados permanecessem sentados; já o bispo exigiu que ele se levantasse.

Quando o Papa ouviu falar sobre o fiasco do julgamento, emitiu uma bula [carta ou documento oficial papal] em que acusou Wycliffe de “vomitar do calabouço sujo de seu coração as mais perversas e condenáveis heresias”.

Wycliffe foi acusado de heresia e colocado em prisão domiciliar. Mais tarde, acabou forçado a deixar seu posto como professor do Balliol College, em Oxford.

‘Emancipação dos pobres’
Wycliffe dizia acreditar firmemente que a Bíblia deveria estar disponível para todos. Via a alfabetização como a chave para a emancipação dos pobres.

Naquela época, embora partes da Bíblia já tivessem sido traduzidas para o inglês, ainda não havia uma tradução completa do livro sagrado.

As pessoas comuns, que nem falavam latim nem podiam ler, só podiam aprender com o clero. E muito do que eles achavam que sabiam, ideias como o fogo do inferno e o purgatório, não faziam parte das Escrituras.

Assim, com a ajuda de seus assistentes, Wycliffe produziu uma Bíblia em inglês, durante 13 anos, começando em 1382.

Era inevitável que uma reação violenta eclodisse: em 1391, antes que a tradução da Bíblia fosse concluída, um projeto de lei foi apresentado ao Parlamento para proibir a Bíblia em inglês e prender qualquer pessoa que possuísse uma cópia do livro sagrado.

O projeto de lei não foi aprovado – John de Gaunt cuidou disso no Parlamento -, mas a igreja retomou sua perseguição contra Wycliffe.

Mas Wycliffe havia morrido 7 anos antes, em 1384.

Sem alternativas, o melhor que podiam fazer era queimar os ossos [em 1427], de modo que seu túmulo não fosse reverenciado.

O arcebispo de Canterbury disse que Wycliffe tinha sido “aquele canalha pestilento, de memória condenável, sim, o precursor e discípulo do Anticristo que, além de sua maldade, inventou uma nova tradução das Escrituras em sua língua materna”.

Jan Hus
Em 1402, Jan Hus, um recém-ordenado padre tcheco, foi designado para celebrar missas em Praga.

Inspirado pelos escritos de Wycliffe, que então circulavam pela Europa, Hus usou sua posição para fazer campanha pela reforma administrativa e pelo fim da corrupção na Igreja.

Como Wycliffe, Hus dizia acreditar que a reforma social só poderia ser alcançada por meio da alfabetização.

Sendo assim, dar às pessoas uma Bíblia escrita em tcheco, em vez de latim, se tornou imperativo.

Hus reuniu uma equipe de estudiosos e em 1416 surgiu a primeira Bíblia tcheca.

A publicação do livro foi considerada uma provocação direta àqueles que ele chamou de “os discípulos do anticristo” e a consequência era previsível: Hus foi preso por heresia.

O julgamento de Hus, que ocorreu na cidade de Constança (atual Alemanha), é um dos mais espetaculares da história.

A audiência teve a presença de quase todos os manda-chuvas da Europa.

Um arcebispo chegou com 600 cavalos; 700 prostitutas ofereceram seus serviços; 500 pessoas se afogaram no lago; e o papa caiu da carruagem em cima da neve.

O entorno era tão apoteótico que a eventual condenação e execução brutal de Hus poderia ser considerada um anticlímax nesta história.

Hus foi condenado como herege e morreu queimado vivo.

Sua morte desencandeou uma revolta popular. Sacerdotes e igrejas foram atacados. Houve retaliação por parte das autoridades. Em poucos anos, a Boêmia entrou em guerra civil.

Tudo porque Jan Hus teve a coragem de traduzir a Bíblia.

William Tyndale
Em relação à Bíblia inglesa, William Tyndale foi outro tradutor famoso que perdeu a vida por causa do livro sagrado.

Ele vivia na Inglaterra do século 16, governada pelo rei Henry VIII.

A tradução da Wycliffe ainda estava proibida e, embora as cópias dos manuscritos estivessem disponíveis no mercado negro, eram difíceis de encontrar e caras de adquirir. A maioria das pessoas ainda não tinha ideia do que a Bíblia realmente dizia.

Mas a impressão em papel estava se tornando mais comum, e Tyndale achou que era o momento certo para uma tradução acessível e atualizada.

Ele sabia que poderia criar uma. Tudo o que ele precisava era do financiamento e da bênção da igreja.

No entanto, rapidamente se deu conta de que ninguém em Londres estava disposto a ajudá-lo. Nem mesmo seu amigo, o bispo de Londres, Cuthbert Tunstall.

Mas o clima religioso parecia menos opressivo na Alemanha.

Lutero já havia traduzido a Bíblia para o alemão; a Reforma Protestante estava se acelerando e Tyndale achava que teria mais sucesso com seu projeto ali. Então, viajou a Colônia e começou a imprimi-la.

Sua iniciativa provou-se um erro. Colônia ainda estava sob o controle de um arcebispo leal a Roma.

Quando estava no meio da impressão do Evangelho de São Mateus, descobriu que as autoridades estavam prestes a invadir a gráfica. Rapidamente, pegou seus originais e fugiu.

Essa história se repetia várias vezes. Tyndale passou os anos seguintes esquivando-se de espiões ingleses e de agentes romanos.

Mas ele conseguiu concluir sua Bíblia e as cópias logo inundaram a Inglaterra ─ ilegalmente, é claro.

O projeto estava completo, mas Tyndale era um homem marcado pelas autoridades. E ele não era o único.

O cardeal Wolsey estava fazendo campanha contra a Bíblia de Tyndale. Ninguém próximo a Tyndale estava a salvo.

Thomas Hitton, um padre que conheceu Tyndale na Europa, confessou ter contrabandeado duas cópias da Bíblia para a Inglaterra. Ele foi acusado de heresia e queimado vivo.

Um advogado que mal conhecia Tyndale, Thomas Bilney, também foi jogado nas chamas em 1531.

Richard Bayfield, um monge que havia sido um dos primeiros apoiadores de Tyndale, foi torturado incessantemente antes de ser amarrado à estaca e queimado. E um grupo de estudantes em Oxford foi confinado em uma masmorra, usada para armazenar peixes salgados, até a morte.

O fim de Tyndale não foi menos trágico.
Ele foi traído em 1535 por Henry Phillips, um jovem aristocrata que roubara o dinheiro do pai e o perdera em apostas.

Tyndale estava escondido em Antuérpia, sob a proteção quase diplomática da comunidade mercantil inglesa. Phillips tornou-se amigo de Tyndale e o convidou para jantar. Quando deixaram a casa do comerciante inglês juntos, Phillips fez um gesto a criminosos para que Tyndale fosse preso.

Foi o último momento de sua vida em liberdade.

Tyndale foi acusado de heresia em agosto de 1536 e queimado na fogueira algumas semanas depois.

Em Antuérpia, a cidade onde Tyndale acreditava estar seguro, Jacob van Liesveldt produziu uma Bíblia em holandês.

Como tantas outras traduções do século XVI, seu ato foi tanto político quanto religioso.

Sua Bíblia foi ilustrada com xilogravuras: na quinta edição, ele representou Satanás com a aparência de um monge católico, com pés de bode e um rosário.

Foi um passo longe demais.

Van Liesveldt foi preso, acusado de heresia e condenado à morte.

Uma era assassina
O século XVI foi, de longe, o período mais sangrento para os tradutores da Bíblia.

Mas as traduções sempre geraram – e continuam a gerar – fortes emoções.

Em 1960, a Reserva da Força Aérea dos EUA alertou os recrutas contra o uso da Versão Padrão Revisada recém-publicada na época porque, segundo eles, 30 pessoas em seu comitê de tradução haviam sido “afiliadas às frentes comunistas”.

Em 1961, o americano TS Eliot, um dos principais poetas do século XX, opôs-se à Nova Bíblia em inglês e escreveu que “assusta sua combinação do vulgar, do trivial e do pedante”.

E tradutores da Bíblia ainda estão sendo mortos. Não necessariamente por causa da tradução do livro sagrado, mas por suas atividades como missionários cristãos.

Em 1993, Edmund Fabian foi assassinado na Papua Nova Guiné por um homem local que o ajudara a traduzir a Bíblia.

Em março de 2016, quatro tradutores da Bíblia que trabalhavam para uma organização evangélica dos EUA foram mortos por militantes em um local não revelado no Oriente Médio.

Traduzir a Bíblia pode parecer uma atividade inofensiva, mas a história mostra que não.

*O escritor britânico Harry Freedman é especializado em história da religião. É autor do livro The Murderous History of Bible Translations (A História Assassina das Traduções da Bíblia, em tradução livre).

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Bem-vindos à era do Evangelho Segundo Pinóquio – Quanto maior a mentira mais as pessoas acreditam nela

Damares,Bolsonaro,Ministros,Brasil,Blog do Mesquita,Direitos HumanosSer um crente na década de 1980 não era fácil. A metade católica da família não entendia porque a outra metade havia se convertido a uma religião diferente. As avós achavam um absurdo que as crianças não fossem batizadas nos primeiros anos de vida, que não tivessem madrinhas e padrinhos. “E se esses meninos morrerem antes do batismo?”. Na escola vez ou outra alguém fazia uma piada, quase sempre “crente do do rabo quente”. Muita gente falava em “pastor safado”, “pastor ladrão” e se perguntava o que aquelas figuras faziam com o dinheiro do dízimo.

Mas as coisas não eram tão ruins. Os parentes mais velhos, todos convertidos, contavam coisas mais absurdas, violentas até, que aconteciam nas décadas passadas. Um irmão que fora agredido na rua. A pequena igreja do outro bairro que precisava realizar seus cultos a porta fechadas porque muitas vezes a molecada jogava pedras lá dentro. Algumas coisas daquela época não mudaram. As pessoas viviam pulando de igreja em igreja: da Batista para a Metodista, da Presbiteriana para a Quadrangular. Diante de uma indagação a respeito de qual era a religião a resposta era “sou evangélico”. Todos haviam se convertido numa mesma igreja mas anos depois ninguém mais a frequentava.

A Bíblia Ilustrada em vários volumes decorava a maior estante da casa. Dividia espaço com aqueles aquelas coletâneas do Reader’s Digest, uma enciclopédia Barsa, uma enciclopédia da Editora Abril. As histórias da Bíblia eram contadas ora como fatos históricos, ora como parábolas, os sofrimento dos hebreus como “povo de Deus” frequentemente era comparado ao sofrimento dos evangélicos. Estes estariam destinados a ser os mártires num futuro próximo, no qual o mundo seria governado pelo anticristo.

A obsessão com o anticristo e seu “governo global” eram uma constante em algumas igrejas que eu frequentava. Diziam que a revolução sexual, o divórcio, as drogas e, vejam só, a astrologia eram parte de um plano maligno para corromper as famílias e afastar as pessoas de Deus. E como a vida era dividida entre “a Igreja” e “o Mundo”, puro e impuro, espírito e carne, havia muitas discussões sobre a natureza das coisas. Carnaval? Nem pensar! Era o símbolo maior da devassidão, o período onde vidas e famílias seriam destruídas. Cerveja? Do diabo, leva ao alcoolismo. Heavy Metal? Leva ao satanismo. A lista de coisas demoníacas e impuras variava consideravelmente e podia incluir novelas, quadrinhos de super-heróis e, para os mais ousados, até mesmo coisas banais como o programa do Chaves ou o Fofão. Não por causa do conteúdo mas alguém sempre dizia ter grandes evidências de que os atores tinham pacto com o diabo.

Religiões afro-brasileiras e o kardecismo também eram alvos constantes de ataques. Quem fosse a uma igreja neopentecostal teria a chance de ver alguém falando de sua experiência como babalorixá e como os orixás seriam demônios. Se tivesse sorte mesmo poderia até assistir a uma possessão e um exorcismo. Os ataques ao catolicismo também aconteciam, destacando o “culto a imagens” o qual os católicos supostamente fariam.

Mas esses detalhes prosaicos da fé não eram o principal elemento na vida de um crente. A escola dominical, o culto e a leitura da Bíblia eram o centro de uma vida que deveria ser vivida com virtude. Não lembro de tanta gente pregando que os postulados científicos seriam necessariamente incompatíveis com os escritos Bíblicos. E se havia algum preconceito contra o crente havia também algum reconhecimento desse esforço em viver na retidão. O pastor podia ser safado mas o crente não raro era considerado honesto, trabalhador, dedicado. Isso numa época na qual os evangélicos não passavam de 10% da população.

Até o final da década de 1990 muito disso já havia mudado. Testemunhos de conversão e redenção falavam cada vez mais sobre o diabo e o dinheiro. A teologia da prosperidade havia se misturado a essa demonologia de “combate espiritual”. Imersos numa retórica de guerra, os cultos traduziam questões religiosas para um esforço bélico: não apenas combater o mal, na figura de Satanás, como também atacar seus supostos servos. Cresceu o mercado gospel, de música, livros e shows. Toda essa mídia, é claro, não era “do Mundo” e era apresentada aos crentes como algo seguro de se consumir.

Eu já era reticente a muitos aspectos da igreja, mesmo quando criança. A maioria dos pastores nas igrejas que eu frequentava era bem formada e prudente, mas aqueles que ensinavam nas escolas dominicais, os irmãos que vinham dar testemunho e os missionários que nos visitavam eram diferentes. Os que haviam passado por cursos de teologia tinham alguma defesa contra a enchente de lixo conspiracionista que chegava no Brasil vinda de igrejas dos Estados Unidos. Mas mesmo ali era possível escutar coisas absurdas: maluquices sobre satanistas que envolviam Xuxa e os Cavaleiros do Zodíaco, pessoas que reclamavam que a escola preparava seus filhos para o reinado do anticristo, pregações sobre como os desenhos da Disney estimulavam crianças a se tornarem homossexuais…

Tudo isso era permeado por uma retórica muito perturbadora que condenava qualquer um que não aceitasse Jesus Cristo à danação eterna ao mesmo tempo que absolvia aqueles que se autodeclaravam cristãos de quaisquer pecados ou crimes cometidos “em nome de Jesus”. Quando perguntei a um missionário se os trambiques de pastores televisivos não seriam nocivos recebi como resposta que o Evangelho deveria ser pregado através de quaisquer meios e isso era o que importava. A vigilância mútua entre irmãos caminhava de mãos dadas com uma hipocrisia crescente. Durante o ano no qual frequentei uma dessas igrejas cujos cultos parecem shows não demorou para que eu entendesse que a performance estava no centro da preocupações, muito acima de questões de fé. E como a lista de “coisas do Mundo” não parava de crescer ela logo englobava a quase totalidade das coisas pelas quais eu nutria interesse. Ser um bom cristão, vejam só, era consumir entretenimento gospel.

E ainda tinha a política. O parente dizia que era importante votar no Anthony Garotinho porque ele ia trazer justiça para esse povo tão perseguido que é o evangélico no Brasil. Garotinho foi preso e o parente continua dizendo a mesma coisa, mas agora os candidatos são outros.

A mistura explosiva entre teorias da conspiração, proselitismo político, neopentecostalismo e teologia da prosperidade produziu o que é o Brasil de hoje. A primeira-dama é evangélica, o presidente foi batizado pelo pior tipo de pastor que o protestantismo produziu. Isso, infelizmente, não veio sem um enorme custo: o crente brasileiro se tornou cada vez mais conivente com a mentira e o obscurantismo, se transformando num instrumento de enganadores profissionais que engendram política e religião para benefício próprio.

Ao contrário do que defende o ateísmo militante eu não acho que as religiões são fabricadas a partir de uma mentira. Religiões são feitas de mitologia, tradição e experiência religiosa. A relação entre crer e experimentar é algo muito importante para conseguir entender porque as pessoas aderem a religiões. Muitas pessoas se convertem ou tornam-se dedicadas à religião a partir de um evento onde elas sentem ou experimentam algo sublime, diferente, maior do que elas mesmas. É um tipo relato comum a umbandistas, freiras ou convertidos evangélicos.

A mentira não é uma premissa para a experiência religiosa e, no entanto, ela pode ser um instrumento muito útil para aqueles que desejam conquistar e exercer o poder.

O tipo de proselitismo que se criou no meio evangélico nas últimas décadas é algo patológico. Várias das figuras políticas mais absurdas que o Brasil gestou vieram desse meio, foram eleitas por fiéis, fizeram campanha usando da Igreja. Marco Feliciano, Marcelo Crivella e Magno Malta são exemplos famosos da política feita nas igrejas e, no entanto, é possível que ninguém ilustre mais perfeitamente a estranha trajetória do evangelismo brasileiro do que a Ministra Damares Alves.

Ativista, pastora e, até então, assessora de Magno Malta, Damares é um exemplo perfeito da mistura entre proselitismo político e a mais absoluta falta de pudor ao mentir. E não é por coisas como “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, frase tão óbvia dentro do senso comum do brasileiro a respeito de gênero que chega a ser estranho que tenha causado tanta polêmica. Agora, imaginem o que é a possibilidade de pregar para milhares de pessoas dizendo coisas como: “na Holanda os pais masturbam bebês“; a ex-prefeita Marta Suplicy teria gastado 2 milhões de reais para “ensinar professores em creches a masturbarem bebês”; ou que “turistas vão a hotéis fazenda para transar com animais“. A questão do vídeo sobre “infanticídio indígena” criado e divulgado por uma ONG a qual a ministra integrava envolve outra série de mentiras, algumas contadas para os próprios indígenas que participaram de sua realização. A ministra, que hoje ocupa um ministério responsável pela Fundação Nacional do Índio, nunca procurou as autoridades para tratar da formalização de sua “filha adotiva”, uma menina indígena levada por uma missionária sob a alegação de um “resgate” – mas cuja avó da menina diz ter sido um rapto. Quando essa questão ganhou a capa da revista Época, Damares contornou a situação contrariando a si mesma e negando a existência de qualquer processo de adoção. Também postou fotos com um casal de indígenas que consta na certidão de nascimento como os pais da menina, mas que não seriam seus pais biológicos nem teriam sido responsáveis por sua criação, já que a menina estava sob os cuidados a avó quando foi levada.

Essa quantidade de mentiras óbvias faz parte da nova cara do evangelismo no Brasil. Não basta um ponto de vista conservador ou justificativa bíblica para ser contra a educação sexual nas escolas, não bastam as escrituras para defender a evangelização dos povos indígenas, é preciso que o pastor minta para seus fieis. E, mais do que isso, pastores como Damares trabalham de modo a fundir os ensinamentos bíblicos e o senso comum a essas mentiras. A autoridade pastoral acaba usada para promover o tipo mais rasteiro de proselitismo e pânico moral. Os custos sociais são enormes mas o sucesso desse modelo na política é inegável.
EHVarzea

Violentando a natureza: Quando e por que a Igreja Católica passou a impor o celibato aos padres

Não há nada que indique que a Igreja Católica vá rever a norma a curto prazo, mas o próprio papa Francisco já afirmou: o celibato clerical, ou seja, o voto que obriga os padres a permanecerem castos, não é um dogma de fé – e, sim, um regulamento da Igreja.
Jovens seminaristas teatianos (ordem dos clérigos regulares) fazem a profissão solene (ou seja, proclamam publicamente os votos)Direito de imagemPASCOM/SÃO ROQUE
Hoje em dia o celibato é necessário para quem quer se tornar sacerdote na Igreja Católica

Dogmas são coisas que a Igreja considera “verdades absolutas”: pontos fundamentais e indiscutíveis de sua fé, que portanto não podem ser modificados. São dogmas, por exemplo, a ressureição de Cristo e a Santíssima Trindade.

“O celibato não é um dogma de fé; é uma regra de vida que eu aprecio muito e acredito que seja um dom para a Igreja. Não sendo um dogma de fé, sempre temos a porta aberta. Neste momento, contudo, não temos em programa falar disso”, afirmou recentemente o papa, em conversa com jornalistas.

O celibato, em seu sentido genérico, é a condição de quem, por opção, não contrai matrimônio, segundo o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

E celibato sacerdotal é quando essa escolha é feita por alguém em troca de uma dedicação integral aos serviços religiosos, por meio da ordenação presbiterial.

Maquete da Praça São Pedro, sede da Igreja Católica, exibida em Museu no VaticanoDireito de imagemEDISON VEIGA/BBC NEWS
Até o século 12 os sacerdotes podiam casar

Conceitos

 

Conforme explica Ribeiro Neto, há cinco conceitos correlatos que costumam ser confundidos na linguagem cotidiana. A castidade, a virgindade, a vocação virginal, o celibato e o celibato sacerdotal.

“O celibato sacerdotal é uma condição de oferta total da pessoa ao serviço de Deus e da comunidade. Vincula-se à vocação virginal, mas não se identifica totalmente a ela. Religiosos que não exercem a função sacerdotal também podem manter a vocação virginal por um compromisso ou voto. Pessoas casadas – que, portanto, não podem ser celibatários – podem assumir num certo momento da vida um voto virginal, mantendo-se unidos mas sem terem mais relações sexuais.”

A virgindade é a condição daquele que nunca teve relações sexuais, mas a vocação virginal é a renúncia da vida sexual ativa – ou seja, não é preciso ser virgem para escolhê-la.

“Nela, a pessoa renuncia a uma vida sexual ativa, para canalizar toda a sua energia e toda a sua pessoa à relação com Deus”, teoriza o especialista.

Ribeiro Neto lembra que essa ideia não é uma invenção do cristianismo. “Monges budistas e as vestais -– sacerdotisas da deusa Vesta – da Roma Antiga, por exemplo, mantêm o mesmo ideal de vocação como condição para uma entrega maior a Deus.

Vista geral da Praça São Pedro, Vaticano.Direito de imagemEDISON VEIGA/BBC NEWS
Celibato para padres não é um dogma da igreja

Já a castidade “é o estado de integração positiva da sexualidade na pessoa”, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, compêndio com a doutrina católica. “Para os casados, a castidade se exerce mantendo relações sexuais e sendo fiéis um com o outro; para o solteiro, abstendo-se de práticas sexuais próprias dos casados.”

História

Originalmente, os primeiros sacerdotes católicos não precisavam ser celibatários. “Isso foi sendo reconhecido como um valor importante ao longo dos séculos”, afirma Ribeiro Neto. “Assim, entre os católicos de rito oriental (os ortodoxos), até hoje existem padres casados.”

Por volta dos séculos 3º e 4º já existiam movimentos dentro do catolicismo propondo que os religiosos deveriam praticar o celibato. “Mas é no primeiro e no segundo concílios de Latrão, ao longo do século 12, que se estabelece a obrigatoriedade definitiva do celibato aos clérigos católicos romanos”, relata o sociólogo. Outros concílios prévios já mencionavam o tema, propondo a abstenção sexual de sacerdotes e proibindo o casamento de monges e freiras foi proibido.

“Desse período antigo, há ainda um decreto do papa Sixto, em 386, e instruções do papa Inocêncio 1º”, afirma o filósofo e teólogo Fernando Altemeyer Júnior, professor do Departamento de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Detalhe da Praça São Pedro, Vaticano.Direito de imagem EDISON VEIGA/BBC NEWS
A Igreja não está discutindo essa questão no momento

Manter posses e ser um missionário ‘livre’

Mas esses regulamentos não foram instituídos de fato durante o período. Na realidade, a Igreja viveu momentos de idas e vindas quanto ao tema, e mesmo regiões diferentes adotavam práticas diferentes – era uma época de precária comunicação.

A preocupação quanto ao celibato veio à tona com toda a força a partir do século 11. Foi pauta de papas como Leão 9º e Gregório 7º. Havia uma preocupação com a chamada “degradação moral” do clero, naqueles tempos de Idade Média e Igreja Católica superpoderosa.

De forma que o celibato acabaria instituído nos dois concílios de Latrão – o primeiro, em 1123, o segundo em 1139. A partir deles, ficou decretado que clérigos não poderiam casar ou mesmo se relacionar com concubinas. “Há que dizer que entre os séculos 10º e 15 o concubinato dos presbíteros com mulheres era muito comum na Europa. Aqui no Brasil colonial também há dezenas de casos de padres que se casaram e tiveram muitos filhos à margem da lei eclesiástica”, ressalta Altemeyer Júnior.

A manutenção de celibato ainda seria defendida em mais um concílio de Latrão (em 1215), e no Concílio de Trento (entre 1545 e 1563).

“Muitos dizem que a partir do seculo 10º a Igreja enrijeceu com o celibato para não desfazer ou partilhar os feudos com os filhos dos padres. Isso, em parte, é verdade”, diz Altemeyer Júnior. “Mas o sentido maior é que haja um missionário livre para assumir missões e cargos.”

Hoje em dia

A partir do século 20, o tema voltou à tona com o Papa Pio 12 – que defendeu o celibato na encíclica Sacra virginitas. E no segundo Concílio Vaticano, em 1965, dois documentos trataram do tema. O papa Paulo 6º também divulgou um documento, De sacerdotio ministeriali, abordando o assunto.

Em uma carta de 1979, o papa João Paulo 2º afirmou: “Fruto de equívoco – se não mesmo de má fé – é a opinião, com frequência difundida, de que o celibato sacerdotal na Igreja Católica é apenas uma instituição imposta por lei àqueles que recebem o sacramento da Ordem. Ora todos sabemos que não é assim. Todo o cristão que recebe o sacramento da Ordem compromete-se ao celibato com plena consciência e liberdade, depois de preparação de vários anos, profunda reflexão e assídua oração. Toma essa decisão de vida em celibato, só depois de ter chegado à firme convicção de que Cristo lhe concede esse ‘dom’, para bem da Igreja e para serviço dos outros. Só então se compromete a observá-lo por toda a vida”.

Monges beneditinos, na igreja anexa ao Mosteiro de São Bento de São PauloDireito de imagemMOSTEIRO DE SÃO BENTO/ DIVULGAÇÃO
A igreja diz que sacerdotes celibatários tem condições de cumprir melhor suas funções

Seu sucessor Bento 16 também fez declarações a respeito do celibato. “Para compreender bem o que significa a castidade devemos partir do seu conteúdo positivo, explicando que a missão de Cristo o levava a um dedicação pura e total para com os seres humanos. (…) Os sacerdotes, religiosos e religiosas, com o voto de castidade no celibato, não se consagram ao individualismo ou a uma vida isolada, mas sim prometem solenemente pôr totalmente e sem reservas ao serviço do Reino de Deus as relações intensas das quais são capazes”, disse ele, em uma homilia.

“Espera-se que os padres, nessa condição celibatária, possam se entregar melhor as suas tarefas religiosas e pastorais, vivendo uma espiritualidade mais profunda e essencial, tendo mais disponibilidade para entregar-se à comunidade à qual assiste”, afirma o sociólogo Ribeiro Neto.

Padres casados

De acordo com o Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados, mais de 7 mil brasileiros solicitaram à Igreja a dispensa do sacramento da ordem em troca do matrimônio – a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não divulga dados sobre o assunto.

Isso significa que a cada quatro sacerdotes católicos que são ordenados no Brasil, um larga a batina para constituir família.

Segundo a revista La Civiltá Cattolica, publicada desde 1850 em Roma pelos jesuítas italianos, em todo o mundo esse número supera os 60 mil padres.

Há ainda uma perspectiva para aqueles que já são casados, mas desejam desempenhar papéis mais religiosos dentro do catolicismo. Atualmente, a Igreja Católica ordena homens casados como “diáconos permanentes”. “Assim, eles podem desempenhar quase todas as funções dos sacerdotes, com exceção da consagração da hóstia na comunhão e da absolvição dos pecados na confissão”, esclarece Ribeiro Neto.

Se o papa Francisco não deu sinalização alguma de rever a regra, por outro lado a demanda existe: há falta de padres no mundo.

“Por isso, houve um pedido de muitos bispos da Amazônia para que se passe a se permitir que haja padres casados para atender às comunidades sem padres”, conta o professor Altemeyer Júnior. “Parece que o papa Francisco estaria disposto a aceitar tal mudança que não exige mudar nenhum dogma ou lei. É só uma disciplina cultural e histórica.”

Dentro do próprio clero, padres questionam se chegou a hora de mudar essa posição. Um dos mais famosos sacerdotes católicos brasileiros da atualidade, o padre Fábio de Melo, por exemplo, já deu entrevistas dizendo que a norma do celibato deveria ser abolida, “por ser algo da Idade Média”. De acordo com ele, a Igreja deveria ordenar casados – e manter a possibilidade de celibato àqueles que quisessem fazer uma “entrega mais radical”.

Em artigo divulgado pela agência americana Religion News Service, que existe desde 1934, o padre jesuíta Thomas Reese defendeu que o celibato clerical fosse opcional. “Papa Francisco sinalizou que está aberto para analisar a ordenação de homens casados, mas quer o pedido venha de conferências episcopais nacionais”, escreveu. “Mas Francisco também é bastante contundente ao afirmar que até que isso aconteça o celibato deve ser observado. Ele não expulsaria todos os padres que violaram o celibato; lapsos individuais podem ser perdoados.”

Reese ainda insinua que, ao longo da história e ao redor do mundo, são muitos os casos de religiosos que não seguem essa norma.

A Igreja, no entanto, mantém o celibato porque acredita que os celibatários desempenham suas funções religiosas melhor do que os casados, segundo os especialistas. Essa é a visão oficial da Igreja, corroborada por alguns especialistas.

“Se um homem quer se casar, isso é um sinal de que ele não foi escolhido para a função ministerial do padre – e, diferentemente de uma profissão leiga, o sacerdócio católico é algo a que uma pessoa é chamada, algo mais que uma atividade que ela individualmente deseja fazer. Ceder às pressões para que os padres se casassem seria, na visão da Igreja, facilitar a entrada de pessoas não verdadeiramente vocacionadas, que acabariam se tornando maus padres”, acrescenta Ribeiro Neto.

É dentro dessa perspectiva, portanto, que a Igreja se defende quando recebe insinuações de que, abolindo o celibato, iria reduzir os casos de pedofilia envolvendo o clero – Thomas Reese é um dos que fazem esse tipo de sugestionamento.

“Os casos de pedofilia recentemente noticiados são entendidos pela Igreja como decorrência justamente da escolha de pessoas sem uma verdadeira vocação e de um acompanhamento deficiente, que não fornece uma base espiritual adequada para conviver com a condição celibatária. Assim, a opção de permitir que os padres se casassem poderia ter um efeito até contrário, facilitando o ingresso de pessoas não vocacionadas e sem uma espiritualidade sólida”, diz o sociólogo, explicando o ponto de vista do Vaticano.

A ‘guerra civil’ na Igreja Católica que pode abalar pontificado do papa Francisco

Mulher reza na Basílica de Santa Maria, em Roma; disputa entre alas da Igreja Católica extrapolou corredores do Vaticano para ser travada em público.

Mulher reza na Basílica de Santa Maria, em RomaDireito de imagemGETTY IMAGES
Uma guerra ideológica que há anos divide a Igreja Católica deixou os corredores do Vaticano nesta semana para ser travada em público.

De um lado, estão o papa Francisco e aqueles que apoiam sua visão de uma Igreja mais liberal em relação a temas como divórcio e homossexualidade. De outro, conservadores que criticam essa tentativa de abertura e temem um enfraquecimento da religião.

O embate ganhou manchetes com a divulgação, no domingo passado, de uma carta em que o ex-núncio apostólico na capital americana, Carlo Maria Viganò, acusa Francisco de ter acobertado crimes sexuais cometidos pelo ex-arcebispo de Washington, Theodore McCarrick, e pede a renúncia do papa.

O documento de 11 páginas, publicado por sites religiosos conservadores nos Estados Unidos, não oferece provas, mas chega em um momento em que fiéis do mundo inteiro estão abalados por sucessivas revelações de abusos sexuais contra crianças cometidos durante décadas por membros do clero em vários países.

A carta foi divulgada enquanto o papa visitava a Irlanda, um dos países afetados. Francisco se reuniu com vítimas e pediu perdão por abusos cometidos por membros da Igreja, ritual repetido em outras viagens. Mas muitos católicos lamentam a falta de medidas concretas e de uma resposta rápida aos escândalos, e alguns chegaram a abandonar a Igreja.

Nesse momento de vulnerabilidade, a sugestão de que o papa seria cúmplice dos abusos pode abalar seu pontificado e expôs as divisões na alta hierarquia da Igreja Católica.

“Essas acusações se tornaram parte de um embate ideológico muito maior. Um dos lados vê Francisco como o papa que finalmente abriu a Igreja a um entendimento mais realista sobre sexualidade, casamento, homossexualidade”, disse à BBC News Brasil o professor de teologia e estudos religiosos Massimo Faggioli, da Universidade Villanova, na Pensilvânia.

Praça de São Pedro, no VaticanoDireito de imagemGETTY IMAGES
Acusações contra papa são parte de um embate ideológico dentr do Vaticano

“O outro lado acredita que isso significa o fim da Igreja, e está disposto a fazer qualquer coisa para impedir isso. Mesmo que seja o maior tabu, que é pressionar um papa a renunciar, o que não acontece há seis séculos”, ressalta, referindo-se à renúncia de Gregório 12, em 1415.

Oposição

Desde que foi eleito, em março de 2013, o papa é alvo de oposição por parte da ala conservadora da Igreja, tanto dentro do Vaticano quanto entre acadêmicos, que rejeitam o que consideram um afastamento da doutrina e tentam impedir reformas. No ano passado, dezenas de teólogos chegaram a assinar uma carta em que acusam Francisco de divulgar heresias na exortação apostólica sobre a família Amoris Laetitia, de 2016.

O documento, que é uma tentativa de abrir novas portas para católicos divorciados e tornar a Igreja mais tolerante com questões relacionadas à família, representa um sinal claro de dissidência, que reflete o descontentamento dos setores mais conservadores da instituição.

Apesar de não ter adotado mudanças concretas profundas nos ensinamentos da Igreja, o papa defende uma postura menos rígida e em sintonia com atitudes modernas em relação a fiéis que se afastaram da doutrina, demonstrando tolerância a homossexuais e permitindo que católicos divorciados ou casados novamente recebam a comunhão.

Francisco também deu destaque a questões sociais, incentivando os fiéis a cuidar dos pobres, acolher imigrantes e refugiados e combater mudanças climáticas, e rejeitou alguns privilégios do cargo, optando, por exemplo, por não morar no Palácio Apostólico.

Em sua carta, Viganò não apenas acusa Francisco de acobertamento, mas tenta conectar as críticas que conservadores fazem ao papa, especialmente à postura de aceitação de gays – em referência a uma entrevista dada após viagem ao Brasil, em 2013, quando o pontífice disse “Se um gay busca Deus, quem sou eu para julgar” -, aos escândalos de abusos sexuais, afirmando que “redes homossexuais” dentro da hierarquia da Igreja são cúmplices na “conspiração de silêncio” que permitiu que os abusos praticados por McCarrick e outros continuassem.

A sugestão de que homossexualidade e abusos estejam relacionados é amplamente rejeitada por especialistas, mas ainda persiste em algumas alas da Igreja. Apesar de muitos dos abusos terem ocorrido há várias décadas, durante os pontificados dos antecessores de Francisco, opositores ligam a crise à incapacidade do papa de manter sob controle a homossexualidade entre o clero.

McCarrick, que liderou a arquidiocese de Washington de 2001 a 2006, durante os pontificados de João Paulo 2º e Bento 16, renunciou ao posto de cardeal em julho, após acusações de que teria assediado seminaristas adultos e abusado de um menino durante anos. Ele diz que é inocente.

McCarrick havia deixado a arquidiocese ao completar 75 anos, idade em que os bispos católicos são obrigados a apresentar sua renúncia – que pode ser aceita pelo papa ou não -, mas permaneceu no Colégio dos Cardeais, que aconselha o pontífice.

Souvenires do papa Francisco no VaticanoDireito de imagemGETTY IMAGES
Em momento de vulnerabilidade, a sugestão de que o papa seria cúmplice dos abusos pode abalar seu pontificado e expôs as divisões na alta hierarquia da Igreja Católica

Viganò alega que vários membros do Vaticano sabiam da conduta imprópria do cardeal havia anos. Segundo a carta, depois que McCarrick deixou a arquidiocese em Washington, Bento 16 havia proibido que ele, que ainda era cardeal, oficiasse missas e vivesse em um seminário, entre outras restrições. Mas Francisco, apesar de saber das acusações, teria levantado essas restrições e até permitido que o cardeal ajudasse na escolha de bispos americanos

Os católicos americanos ainda tentam digerir as revelações divulgadas no início de agosto em um relatório da Suprema Corte do Estado na Pensilvânia. O documento acusa pelo menos 300 padres de terem abusado de mais de mil crianças ao longo de 70 anos e líderes da Igreja de terem acobertado os crimes.

Reações

Apoiadores do papa e alguns sobreviventes de abusos questionam a credibilidade das alegações, apresentadas sem evidências, e acusam Viganò de usar o sofrimento das vítimas para avançar sua agenda política e uma vingança pessoal contra Francisco.

Alguns observam que McCarrick apareceu em vários eventos, inclusive ao lado de Bento, no período em que supostamente estaria sob sanções, e lembram que foi Francisco, ao contrário de seus antecessores, que forçou o cardeal a renunciar.

Também ressaltam o fato de os principais nomes criticados na carta serem liberais e aliados do papa, o que levantaria suspeitas de que as acusações têm motivação ideológica.

“Esse documento não tem o objetivo de proteger crianças, e sim atacar o papa e qualquer um associado a ele”, disse à BBC News Brasil o pesquisador de estudos católicos Michael Sean Winters, colunista do jornal National Catholic Reporter.

Mas alguns bispos conservadores defenderam o ex-núncio como um homem de princípios. Um deles, Joseph Strickland, de Tyler, no Texas, orientou padres de sua diocese a ler durante a missa do último domingo uma declaração em que afirma acreditar nas alegações.

Um dos principais opositores do papa, o cardeal americano Raymond Burke, ex-arcebispo de St. Louis, disse em entrevista à imprensa italiana que, caso as alegações sejam comprovadas, “sanções apropriadas” devem ser aplicadas.

Arcebispo Carlo Maria Vigano em missa, em foto de 2015Direito de imagemREUTERS
Carlo Maria Viganò acusa Francisco de ter acobertado crimes sexuais cometidos pelo ex-arcebispo de Washington e pede a renúncia do papa

Histórico de polêmicas

Viganò tem um histórico de polêmicas. O italiano de 77 anos trabalhou em missões do Vaticano no Iraque e no Reino Unido, foi núncio apostólico na Nigéria e ocupou altos cargos na Cúria Romana, mas nunca foi promovido a cardeal.

Ele próprio já foi acusado de tentar acabar com uma investigação sobre a conduta sexual de um ex-arcebispo em 2014, segundo documentos relacionados à arquidiocese de St. Paul-Minneapolis. Também foi personagem no escândalo “Vatileaks”, em 2012, em que documentos do Vaticano foram vazados, entre ele cartas em que Viganò sugeria que sua transferência para Washington, em 2011, estaria relacionada aos seus esforços contra a corrupção na Santa Sé.

Em 2015, durante a visita de Francisco aos Estados Unidos, Viganò organizou um encontro surpresa entre o papa e uma funcionária pública que havia se recusado a emitir licenças de casamento para casais do mesmo sexo alegando motivos religiosos. O encontro foi visto como um desafio à mensagem de inclusão do papa e obrigou o Vaticano a divulgar uma declaração se distanciando da funcionária. Pouco tempo depois, Francisco substituiu Viganò.

Em sua temporada em Washington, Viganò cultivou relações com setores católicos conservadores críticos do papa, um grupo que Winters descreve omo “pequeno, mas muito bem organizado e muito bem financiado”.

Segundo Faggioli, desde o início do pontificado de Francisco, círculos conservadores do catolicismo americano deixaram claro que não gostavam do papa e de suas tentativas de reforma. Ele observa ainda que poucos bispos nos Estados Unidos defenderam o papa após a publicação da carta. “A maioria dos bispos está esperando (para de posicionar)”, acredita.

Por enquanto, o papa tem mantido silêncio sobre as acusações de Viganò, limitando-se a dizer que o documento “fala por si próprio”. Segundo analistas, o papa não quer dar mais visibilidade a seus críticos.

Mas no avião ao voltar da Irlanda, ao responder a uma pergunta sobre o que pais deveriam dizer a um filho ou filha que revela ser gay, o papa disse: “Não condene. Dialogue, entenda.”

Faggioli diz acreditar que a carta de Viganò tem inconsistências e “buracos”, mas mesmo assim considera fundamental que o papa e outros líderes católicos respondam a algumas questões, especialmente sobre McCarrick.

“Os católicos americanos, tanto liberais quanto conservadores, querem saber como foi possível que essa pessoa se tornasse um dos mais importantes líderes da Igreja enquanto outros sabiam (dos abusos). Como isso pode acontecer?”
Alessandra Correa/BBC

O terço do papa e o que realmente importa

“Os fatos são o que menos importa nas grandes reportagens”.Arte,Fotografia,Blog do Mesquita,Gilbert Garcin,La condition humaine, 2010

Com esta frase, escrita na medida para causar surpresa e instigar a leitura, Eugênio Bucci abria o texto da orelha do livro A arte da reportagem, uma coletânea organizada por Igor Fuser e publicada pela primeira vez em 1996.

Na sequência, Bucci esclareceria: não estava rejeitando a objetividade e o respeito à verdade factual, mas assinalando que isto não era suficiente para se fazer jornalismo. “A questão, portanto” — prosseguia ele —, “não são os fatos, mas os sentidos que eles possam ter”. E, por isso, “o repórter deve entender o que ele tem a narrar”.

Ressuscitei este breve texto de Bucci porque ele se aplica, a rigor, a toda prática jornalística – não apenas às grandes reportagens —, porque mostra que todo relato, por mais “objetivo” que seja, implica e exige uma interpretação, e porque vem bem a propósito da recente polêmica em torno da atuação das agências de checagem, no episódio do terço abençoado pelo papa que o ex-presidente Lula recebeu na prisão, sem que seu portador, entretanto, tivesse sido autorizado a entregá-lo pessoalmente.

Desde que as primeiras dessas agências surgiram no Brasil, em 2015, na esteira de iniciativas semelhantes nos Estados Unidos e na América Latina, repetem-se comentários entre o espanto e a ironia: afinal, checar os fatos não é a tarefa elementar do jornalismo? Fornecer informação confiável não é o que o justifica como atividade socialmente necessária? Certamente sim, de modo que a existência dessas agências, por si, já indicaria quanto o jornalismo vem deixando de cumprir seu compromisso básico. Poderíamos, entretanto, pensar no papel dessas agências de maneira mais ampla, voltada não para verificar o que a mídia tradicional produz, mas para filtrar o que seria ou não confiável em meio à overdose de informação que passou a circular desde que a internet ofereceu essa possibilidade de comunicar com tamanha intensidade, velocidade e imediatismo.

Foi esse o propósito, aliás, que levou o Facebook a contratar os serviços das agências Lupa e Aos Fatos para fiscalizar o que se divulga nas redes nesse período em que a campanha eleitoral começa a esquentar, num quadro de inédita tensão e imprevisibilidade na política brasileira desde, pelo menos, o fim da ditadura militar. Seria uma forma de demonstrar que a empresa, abalada pelo escândalo da sua relação com a Cambridge Analytica nas campanhas do Brexit e de Trump, no ano passado, está empenhada em evitar a disseminação de notícias falsas como as que costumam proliferar de maneira muito mais intensa em momentos como esse. O trabalho dessas agências seria, portanto, um “selo” de qualidade para quem participa dessa mídia social. Um “selo” que as empresas jornalísticas tradicionais já carregariam automaticamente, como se, de fato, cumprissem seus princípios editoriais.

É notório, aliás, o esforço que essas empresas vêm fazendo para demarcar-se como referência de credibilidade em relação ao que circula na internet. O mais recente projeto editorial da Folha de S.Paulo, lançado em março do ano passado, é bem claro a esse respeito já no título: “Jornalismo profissional é antídoto para notícia falsa e intolerância”. Adiante, define o ambiente das redes como “um condomínio fechado das convicções autorreferentes”, produzido pelos algoritmos que “garantem índices elevados de audiência para as multinacionais do oligopólio” e “alimentam o sectarismo e a propagação de inverdades”. A contrapartida ao condomínio seria a praça pública representada pelo próprio jornal, “em que se contrapõem os pontos de vista mais variados e onde o diálogo em torno das diferenças é permanente”.

Como se vê, uma das características de quem redige esses projetos editoriais é o senso de humor.

(No caso específico da Folha, recordemos apenas dois episódios marcantes, entre muitos outros: o da ficha falsa de Dilma Rousseff, reproduzida supostamente dos arquivos do Dops, destaque de primeira página em abril de 2009, cuja autenticidade, semanas depois, o jornal afirmou que não poderia ser assegurada nem, tampouco, descartada, e a fraude aos resultados de uma pesquisa de seu próprio instituto, o Datafolha, para sustentar que Temer “é melhor para o país” – manchete de julho de 2016 –, quando a maioria dos entrevistados pedia a antecipação das eleições).

Questões de método e ideologia

No que diz respeito ao trabalho das agências de checagem, o que está em causa são justamente os pressupostos e métodos.

Já em 8 de abril, o cientista político Luis Felipe Miguel, da UnB, demonstrava as distorções resultantes do tipo de “checagem” feito pela Lupa, que, em texto publicado na Folha de S.Paulonaquela data, apontava “três dados falsos e três verdadeiros ditos por Lula” em seu comício no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, horas antes de ir para a cadeia. Por exemplo, entre as “verdades”, a agência “transforma a afirmação de Lula – ‘fui o presidente que mais fez universidades’ – e conclui que ele ganha no olho mecânico, pois ‘durante a gestão de Lula, foram criadas 28 universidades’ e ‘no governo Fernando Henrique Cardoso foram 27’”, esquecendo que o petista criou 23 universidades públicas, enquanto, com FHC, “foram quase todas privadas (só seis federais, cinco delas como conversão de instituições já existentes). Sem falar na expansão de vagas, contratação de docentes, multiplicação de campi. Ou nos institutos federais. Ou na democratização do acesso”. Em suma, diz o professor, “o que o fact checking faz é manipular a realidade para diminuir o contraste, brutal, entre o governo Lula e o governo FHC no que se refere ao ensino superior”.

É apenas um exemplo do tipo de contextualização que a agência faz, a partir da apuração da veracidade ou falsidade de “frases” a serem investigadas, e que dão início à investigação, como consta na explicação de sua metodologia.

Pior ainda, comenta Luis Felipe, “é o que fica de fora. A Agência Lupa não tem nada a dizer sobre os elementos centrais do discurso de Lula – o golpe de 2016, a perseguição judicial contra ele, a falsidade das acusações, a parcialidade do Judiciário. É como se tudo isso não fosse uma questão de verdade, mas apenas bate-boca da disputa política. Com isso, o fact checking cumpre seu papel ideológico de legitimação da narrativa dominante”.

Daí a sua conclusão, que corrobora o que diz “há tempos” o professor da UFF Afonso de Albuquerque: a de que “o fact checking” – feito dessa forma, acrescento eu, e a ressalva me parece fundamental – “é a maior fake news”. Porque engana no essencial, com seu “poderoso reforço à ideia de que a ‘realidade’ é uma coleção de fatos ‘objetivos’, independentes da narrativa que os organiza, e portanto que o jornalismo ‘imparcial’ apresenta a seus leitores nada menos que a verdade”.

Na mesma linha de raciocínio, o jornalista Hugo Souza contestou, em 23 de maio, a agência Aos Fatos, que resolveu checar as “propostas” de Michel Temer no segundo aniversário do seu governo – ou seria o golpe? não, a própria agência há havia cravado o selo de “exagerado” nessa definição do impeachment. “Como se as propostas do documento ‘Ponte Para o Futuro’ fossem, assim, luminosas promessas de campanha, e não o exato oposto disso”, argumenta Hugo: “essas ‘reformas e ajustes’ ora são feitos por um governo sem respaldo democrático para fazê-los, precisamente porque foram quatro vezes consecutivas reprovadas nas urnas”.

O caso do terço e a “disputa de narrativas”

No dia 11 de junho, começou a circular nas redes do PT ou identificadas genericamente à esquerda, e também em vários sites jornalísticos, a notícia de que o papa havia enviado um terço a Lula, e que seu emissário, o advogado Juan Grabois, tinha sido impedido de entregá-lo pessoalmente. Tanto a Lupa quanto a Aos Fatos foram “checar” a informação e rapidamente lhe pregaram o selo de “FALSO”, baseando-se numa primeira nota do site VaticanNews, que depois, entretanto, seria retificada. As duas agências atualizaram a informação, mas Aos Fatos e, num primeiro momento, também a Lupa mantiveram o selo. No dia 13, depois que Grabois publicou uma carta no Facebook (ver o original aqui e aqui) dando a sua versão do ocorrido, a Lupa mudaria o selo para “DE OLHO” e acrescentaria um texto explicativo com uma placa de “ATENÇÃO”.
Por Sylvia Debossan Moretzsohn
Texto publicado originalmente pelo objETHOS.