Origem e limites do Capitalismo de Vigilância

Em obra emblemática, Soshana Zuboff recorre a Marx, Harvey e até Skinner para descrever a nova fase do sistema. Mas talvez lhe escape que, muito além de superlucros, trata-se de garantir controle máximo sobre o comportamento humano.

Por Rob Lucas, na Nueva Sociedad | Tradução por Simone Paz

Quase todo ano, desde 2013, um traço crucial vem sendo prognosticado ou evidenciado por pelo menos alguma grande publicação, mesmo que em retrospectiva — pela The Economist, o The Guardian, Oxford English Dictionary, Financial Times. Trata-se do “techlash”, a reação contra o excesso digital. Se procurássemos uma origem para esse discurso, provavelmente ela estaria nas revelações feitas por Edward Snowden em 2013, mas os gigantes da tecnologia só se tornaram um motivo de preocupação real para a classe dominante com as revoltas políticas de 2016. O fato de empresas e Estados terem à disposição uma quantidade impressionante de dados sobre nós, aparentemente, fica menos problemático se esses dados estiverem sob o controle seguro de pessoas com as quais nos identificamos tacitamente.

As campanhas de Barack Obama foram as primeiras a tirar o máximo proveito da microfocalização, que faz uso intensivo de dados; mas foi quando os especialistas em dados — muitas vezes, as mesmas pessoas — emprestaram suas habilidades a Donald Trump e à campanha do Brexit, que o Facebook apareceu como um servo do dinheiro da direita. Leis foram aprovadas, como o Regulamento Geral de Proteção de Dados de 2016, da União Europeia; e a Lei de Privacidade do Consumidor de 2018, aprovada pelo estado da Califórnia. Organizações no mundo inteiro tiveram que ajustar seus procedimentos de assinatura de boletins informativos, mas os “donos dos dados” seguiram em frente.

Neste contexto de discurso destaca-se uma figura em especial, pela importância de sua contribuição e pelos elogios que tem recebido. Começando em 2013, com vários artigos no Frankfurter Allgemeine Zeitung, e culminando no livro de 2019, A Era do Capitalismo de Vigilância (“The Age of Surveillance Capitalism”), Shoshana Zuboff (na foto abaixo) descreve um novo tipo de capitalismo, inclinado a nos transformar em ratos de laboratório da psicologia comportamental. Incrivelmente, para um livro que parecia um tanto marxiano — por incluir entre seus temas não apenas o capitalismo, mas também a expropriação, o excedente econômico e as enormes assimetrias de poder –, A Era do Capitalismo de Vigilância ganhou a aprovação de Obama, que havia comandado uma grande expansão da vigilância em massa sob o programa Prism, da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Zuboff, sendo a quarta ganhadora do Prêmio Axel Springer, entrou para o mesmo grupo do capitalista-mor da vigilância, Mark Zuckerberg, do inventor das redes, Tim Berners-Lee; e do aspirante a capitalista da vigilância, Jeff Bezos — todos eles ganhadores do mesmo prêmio em as edições anteriores. Como explicar que uma crítica tenha sido canonizada tão imediatamente? A continuidade do trabalho de Zuboff faz com que seja muito didático traçar sua trajetória como um todo.

A história de Zuboff, nascida em 1951, começa na fábrica de seu avô materno, empresário e inventor que pode ter lhe inspirado o gosto pelos negócios e pela tecnologia. Em Harvard, ela estudou com um dos principais behavioristas, B.F. Skinner, e iniciou uma tese em psicologia social intitulada “The Ego at Work” (O Ego no Trabalho). Mas desde seus anos de estudante ela tinha um pé no mundo da gestão empresarial: trabalhou por um tempo na Venezuela como “assessora de mudanças organizacionais” para a empresa estatal de telecomunicações, período no qual estudou os trabalhadores que vinham das regiões de selva. Pouco depois de concluir seu doutorado, passou a examinar as implicações psicológicas e organizacionais do trabalho com computadores, culminando em um livro que hoje é considerado um clássico: In the Age of the Smart Machine: The Future of Work and Powe [“Na era das máquinas inteligentes. O futuro do trabalho e do poder”] (1988)

Com foco em estudos etnográficos sobre algumas poucas empresas norte-americanas que vinham introduzindo novas tecnologias da informática, In the Age of the Smart Machine oferece uma explicação humanística das dificuldades dos trabalhadores e gerentes em se adaptar. Em seu gênero, talvez possa ser interpretado como uma contribuição não-marxista para os debates sobre o processo de trabalho que ocorriam na época — e que começaram com o livro publicado em 1974 por Harry Braverman, Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Mas Zuboff não se limitou a enfatizar as repercussões da automação para os trabalhadores, pois a informatização do processo de trabalho não apenas reproduzia algo feito pelo corpo humano: produzia um novo fluxo de informações que formava um “texto eletrônico” que viria a se tornar fundamental para o novo processo de trabalho.

Para Zuboff, o verbo “automatizar” (automate), portanto, precisava ser complementado pelo de “informar”, para o qual ela cunhou um novo verbo em inglês, informate. A maior parte do livro era dedicada à “informação” nesse sentido, investigando como os trabalhadores lidavam com a textualização do ambiente de trabalho, como a importância dada ao conhecimento tinha levado a uma nova “divisão do aprendizado” e como os gestores tentavam reforçar a sua autoridade. As análises de Zuboff sobre as culturas digitais que se desenvolveram em torno dos quadros de avisos na década de 1980 eram presságios misteriosos do que estava por vir na era das mídias sociais de massa. No último terço do livro, ela estudava as repercussões mais sombrias do texto eletrônico, quando usado para apoiar a vigilância sobre os trabalhadores em uma materialização do “poder panóptico”. Zuboff perguntava-se: se a informação passasse a ser uma ferramenta de “certeza e controle” gerencial, então as pessoas seriam reduzidas a “servir a uma máquina inteligente”? Invocando Hannah Arendt, ela visualizou o ideal comportamental de uma sociedade controlada pela vigilância e pelos empurrões, tornando-se uma realidade na informatização do local de trabalho. Mas a análise de Zuboff apontava uma alternativa, baseada em um uso mais horizontal do texto eletrônico.

In the Age of the Smart Machine serviu para Zuboff obter um cargo permanente em Harvard, mas ela ainda mantinha um pé fora do mundo acadêmico e, em 1987, foi contratada como consultora da empresa Thorn EMI pelo executivo-chefe Jim Maxmin, que se tornaria seu co-autor e marido. Na década de 1990, ele dirigiu uma escola de verão para executivos de meia-idade, incentivando-os a refletir sobre coisas do tipo: qual “patrimônio líquido” é suficiente. De sua casa em um lago na Nova Inglaterra, Zuboff e Maxmin administravam um fundo de investimento em comércio digital enquanto trabalhavam no livro The Support Economy: Why Corporations Are Failing Individual and the Next Episode, of Capitalism [“A economia como rede de apoio. Por que as empresas vêm falhando com os indivíduos e o próximo episódio do capitalismo”], publicado em 2002, que investigou a história corporativa para criar uma periodização da “lógica de negócios”. Mas o fio condutor era uma história sobre o longo processo de surgimento do indivíduo autônomo que teria feito Hegel corar. Os desejos desse indivíduo sempre antecederam o que as empresas estivessem fazendo, à espera de serem libertados por empresários astutos, capazes de se alinharem com o consumidor final e fundar uma nova lógica de negócios.

Josiah Wedgwood foi o primeiro desses grandes homens, Henry Ford o segundo; embora as mulheres fossem as maiores protagonistas não-reconhecidas da história capitalista, em seu papel de principais consumidoras. Baseando-se na noção de capitalismo gerencial de Alfred D. Chandler e no conceito de uma segunda modernidade, proposto por Ulrich Beck, Soshana e Maxmin descreveram como, no mundo iluminado por Ford, a crescente individualidade psicológica acabou colidindo contra as rochas das organizações burocratizadas e das culturas corporativas masculinistas: essa era a contradição central e motivadora de sua teoria. As empresas estavam preocupadas apenas com o “valor da transação” e viam o consumidor final meramente como um meio. Os relacionamentos combativos com os consumidores eram sintomas de uma “crise de transação”. Chegara, portanto, a hora de um novo profeta manifestar esses desejos latentes. Com apenas uma guinada copernicana para o consumidor final, as empresas encontrariam um mundo de “valor de relacionamento” acumulado. Eles precisariam se basear em novas tecnologias e economizar custos através da fusão de infraestruturas digitais, com foco no fornecimento de “suporte” configurado para o indivíduo. A “revolução” econômica projetada parecia envolver a generalização de algo mais próximo de um assistente pessoal de executivos.

Soshana expôs essas ideias em artigos para a imprensa de negócios, mas sua fragilidade conceitual se mostrava muito maior quando o mundo dos sonhos encarava a realidade. Steve Jobs foi apresentado como um “líder histórico” capaz de corrigir os erros do capitalismo americano em nome do “suporte”; Obama também foi recrutado naturalmente. Em 2008, Soshana fez uma peregrinação pelo Vale do Silício “na esperança de encontrar líderes que entendessem a crise”, mas ficou enojada ao ver a obsessão que existe em ganhar dinheiro com publicidade. Decepcionada com os rumos da tecnologia americana, deu início ao projeto que viraria seu próximo livro. Se The Support Economy era uma utopia dos consultores de gestão, A Era do Capitalismo de Vigilância é a distopia que surge quando a profecia falha. Neste mundo, o que está fundamentalmente errado é um modelo de negócios ruim, que vem se descontrolando. É um volume extenso e indisciplinado de quase 700 páginas, cujo enfoque desliza do sistemático ao ensaístico. Estruturado em três partes, vai das “bases” até o “avanço” do capitalismo de vigilância, antes de ampliar o objeto de análise para considerar a tecnologia como base do poder. Vamos examiná-las uma a uma.

Zuboff começa voltando para uma questão central de seu primeiro livro: se seremos reduzidos a trabalhar para as máquinas ou se ocorrerá o oposto. Só que agora, esse problema envolve a “civilização da informação”. Porém, não são as máquinas em si que estão em jogo, porque o capitalismo de vigilância é uma “forma de mercado” com seus próprios “imperativos econômicos”, e Zuboff vê a tecnologia como fundamentalmente moldada pelos fins econômicos a que serve. A primeira parte também nos leva de volta ao marco da Economia de Apoio (The Support Economy): o capitalismo gerencial, a segunda modernidade, o longo processo de emergência do indivíduo e a primazia das necessidades do consumidor na história econômica. Mas a contradição entre o capitalismo individual e gerencial encontra agora expressão na aceitação massiva da internet e nos distúrbios de 2011 no Reino Unido. A Apple ainda aparece como o messias previsto, o iPod defende as necessidades do consumidor, mas existem duas Apple — a humana e a divina — porque a empresa nunca se entendeu adequadamente como a empresa de “suporte” orientada à assessoria que Zuboff defende. Se era para a Apple ter sido a Ford da terceira modernidade, é o Google que realmente vai inventar um novo tipo de empresa. O mundo, portanto, falhou em efetuar a transição prevista e o capitalismo de vigilância preencheu o vazio, tornando-se a “forma dominante de capitalismo”.

O objetivo de Zuboff é revelar as “leis do movimento” dessa maneira, traçando um paralelo com a explicação de Ellen Wood para as origens do capitalismo propriamente dito. Em seus inícios, o Google experimentou um ciclo virtuoso ou “ciclo de reinvestimento do valor comportamental”: as pessoas precisavam das buscas, e as buscas poderiam ser melhoradas com a coleta de “dados comportamentais” produzidos pelos usuários. Até então, o Google conseguia ser o tipo de empresa de Zuboff, mas, ao contrário da Apple, não tinha um modelo de negócios sustentável. Após a quebra das “pontocom”, os capitalistas de risco estavam famintos e, assim, forçaram uma mudança no aproveitamento do excedente para uso em publicidade direcionada. Nessa mudança, os dados comportamentais tornaram-se um “ativo de vigilância” e matéria-prima para a produção de “derivados comportamentais”, “produtos de previsão” e “futuros comportamentais”, as coisas que o Google realmente vendia aos anunciantes, para obter “receitas derivadas da vigilância”.

Isso, para Zuboff, foi um processo de “acumulação primitiva” ou “expropriação digital”, e para isso ela pede ajuda para Karl Marx, Hannah Arendt, Karl Polanyi e David Harvey. Como outros antes dela, Zuboff acrescenta um item à lista de mercadorias fictícias de Polanyi: terra, trabalho, dinheiro e dados comportamentais. Como o mundo digital era inicialmente uma terra sem lei, o Google foi capaz de se apresentar como um magnata ladrão e pegar para si os abundantes “recursos naturais humanos”. Se os monopólios foram estabelecidos, não foi no sentido tradicional de distorcer os mercados ao eliminar a concorrência, mas como um meio de “encurralar” o fornecimento de dados, direcionando os usuários para os redis da vigilância. Enquanto In the Age of the Smart Machine analisava a “divisão do aprendizado” no local de trabalho, essa divisão agora caracteriza a sociedade em geral, pois os capitalistas de vigilância formam uma nova “casta sacerdotal” com uma surpreendente concentração de poder.

O clima político que instalou-se após o 11 de setembro levou a um “excepcionalismo de vigilância” que facilitou a metamorfose do Google, e foi gradualmente descobrindo suas afinidades eletivas com a CIA; por sua vez, os aparelhos de segurança dos EUA ficaram felizes em contornar os controles constitucionais, entregando a tarefa da coleta de dados a um setor privado pouquíssimo regulamentado.

Uma porta giratória seria estabelecida entre o capital de vigilância e o governo Obama, enquanto o Google canalizaria grandes recursos para atividades de lobby. Em pouco tempo, o Facebook havia aderido ao jogo, usando o botão “Curtir” para seguir os usuários online e vender derivados dos dados resultantes. Aonde quer que fossem, outros começavam a segui-los: sob a liderança de Satya Nadella, a Microsoft passou a extrair os dados dos usuários comprando a rede social LinkedIn, lançando sua assistente pessoal Cortana e introduzindo a vigilância no sistema operacional Windows. Apoiada pelo Congresso, a Verizon também entrou no jogo, dando início à espionagem por meio do provedor de serviços de internet e usando os dados resultantes para direcionar a publicidade.

Se a primeira parte do livro cobre a maior parte da teoria de Zuboff, a segunda foca no avanço do capitalismo de vigilância no “mundo real”, à medida em que seu modelo de negócios focado em previsões deixa de seguir comportamentos para, em vez disso, modelá-los e intervir neles. Os tecnólogos previram há muito tempo que chegaria um tempo em que os computadores saturariam a vida cotidiana a ponto de ela, ao fim, desaparecer. À medida em que os capitalistas de vigilância buscam uma previsão perfeita, eles são forçados a se mover nessa direção, buscando “economias de alcance” — uma maior variedade de fontes de dados — e “economias de ação”: gerando modelos para tornar as variáveis ​​mais previsíveis. Dessa forma, eles desenvolvem um novo “meio de modificação comportamental”. Um de seus arautos foi R. Stuart Mackay, que na década de 1960 desenvolveu a telemetria para rastrear animais selvagens, antes de passar para a ideia de configurar seu comportamento de forma remota.

Agora os indivíduos se tornaram objetos de monitoramento constante e as seguradoras podem adquirir a capacidade de desligar remotamente o motor de um carro quando o pagamento está atrasado. A infraestrutura digital, portanto, muda de “uma coisa que temos para uma coisa que nos possui” (Soshana aprecia um quiasmo). Aplicativos e pulseiras para rastrear sua atividade, Google Home e Alexa, TVs inteligentes, a tecnologia biométrica do Facebook, as “cidades inteligentes”, os sensores portáteis do setor de saúde, “tecidos interativos”, brinquedos infantis ou simplesmente o próprio smartphone: estamos sujeitos à espionagem constante e à “transferência” de nosso comportamento na forma de dados — e há poucas chances de evitá-lo. Com base nisso, análises detalhadas do “padrão de vida” dos indivíduos podem ser realizadas, enquanto o Baidu usa sistemas de rastreamento e localização para prever movimentos na economia chinesa. Os metadados sobre padrões de comportamento tornam-se ferramentas para a realização de perfis psicométricos, enquanto mecanismos capazes de ler estados emocionais são desenvolvidos.

O Facebook cruzou a linha da manipulação social com seus experimentos de “contágio emocional”, enquanto o jogo de “realidade aumentada” Pokémon Go direcionou o “tráfego de pedestres” para as localizações das empresas contribuintes, levantando a questão de saber se os capitalistas de vigilância poderiam estar se aventurando no projeto de “arquiteturas de escolha”. Os experimentos de modificação do comportamento realizados na Guerra Fria, visando presidiários e pacientes, desencadearam uma reação legislativa que impediu um maior desenvolvimento; mas agora as empresas privadas avançam, sem nenhum obstáculo de processo democrático, na busca de “resultados garantidos”. A própria consciência do consumidor torna-se uma ameaça aos ganhos; a liberdade e o “direito ao tempo futuro” estão em perigo. O capitalismo de vigilância incorpora um novo tipo de capitalismo não menos transcendental do que o capitalismo industrial, e “a luta pelo poder e controle na sociedade não está mais associada aos dados ocultos da classe e sua relação com a produção, mas, pelo contrário, [sic] aos dados ocultos da modificação do comportamento projetado e automatizado.

A terceira parte de In the Age of the Smart Machine era dedicada à “técnica” como “dimensão material do poder”. Aqui passamos, de maneira parecida, ao tipo de poder prenunciado pelo capitalismo de vigilância. O termo usado por Zuboff é “instrumentalismo”: “a instrumentação e instrumentalização do comportamento para fins de modificação, previsão, monetização e controle.” Se o totalitarismo mobilizou a violência para se apoderar da alma, o instrumentalismo silenciosamente observa e molda o comportamento. Skinner foi seu profeta e seu livro, Walden II, a utopia. Para os comportamentalistas, a liberdade é uma lacuna na explicação que deve ser superada estendendo a ciência comportamentalista à sociedade, e agora a visão que eles propunham está sendo realizada por capitalistas de vigilância que buscam “substituir a sociedade pela certeza”, enquanto buscam seu próprio “utopismo aplicado”. A “física social” do professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Alex Pentland, incorpora o ataque, numa tentativa de substituir a política por um plano tecnocrático em nome do “bem maior”. “O bem maior pra quem?”, pergunta Soshana Zuboff, com razão.

Atualmente, existem “classificações creditícias” de radicalismo, e “classificações ameaçadoras” derivadas das redes sociais, e a recém-criada Geofeedia rastreia a localização dos manifestantes. O sistema de crédito social chinês — que espia os cidadãos e aplica punições e recompensas de acordo com isso — não pode ser esquecido, embora Zuboff não pareça saber muito bem o que fazer com ele. Em parte, “conclusão lógica” da busca pela “certeza” que percebemos sob um capitalismo de vigilância — muito mais instrumental do que totalitário –, o sistema de crédito social se diferencia na medida em que visa resultados sociais, e não de mercado. Também é, diz Zuboff, de importância duvidosa para sua história, pois é formada por uma cultura não democrática que não está interessada na privacidade; mas ao mesmo tempo “transmite a lógica do capitalismo de vigilância e do poder instrumental que produz”.

Agora, o indivíduo está cercado, preso a modos patológicos de sociabilidade por meio de técnicas derivadas da indústria do jogo, incapaz de forjar um senso de identidade adequado. Quando as pessoas modelam seu comportamento para apresentá-lo na internet, surgem “efeitos apavorantes” na vida cotidiana. Há pinceladas de Sherry Turkle e Nick Carr nos lamentos de Zuboff pelo lar entendido como um espaço meditativo para o cultivo do eu. São necessárias “propostas sintéticas”, no que parece referir-se a medidas legislativas como o “direito ao esquecimento” e o Regulamento Geral de Proteção de Dados (2016) estabelecido na UE e apoiado por ações coletivas.

Em conclusão, voltamos à relação entre mercados, conhecimento e democracia. No raciocínio de Friedrich Hayek e dos comportmentalistas, a liberdade dos participantes do mercado estava associada à ignorância. Com informações cada vez mais completas, os capitalistas de vigilância ameaçam esse duo. De acordo com a visão otimista de Zuboff, o capitalismo de outrora já foi baseado nas “reciprocidades orgânicas” entre empresas e pessoas. A troca de mercado equitativa formou o ímpeto para a Revolução Americana, e os industriais britânicos foram forçados a fazer concessões democráticas porque dependiam das “massas”. Com a mudança para o modelo de valor máximo para os acionistas, essas reciprocidades diminuíram; agora, os capitalistas de vigilância sobrecarregaram essa dinâmica, produzindo organizações de “hiperescala” com avaliações desproporcionais no mercado de ações, pequenas bases de funcionários e pouca dependência da sociedade. Não houve nenhum “movimento duplo” polanyiano impondo limites sociais à exploração de dados comportamentais, e agora enfrentamos uma “recessão democrática”, enquanto perdemos a associação vital dos mercados com a democracia. Soshana termina com uma série de referências que poderiam agradar qualquer atlantista liberal: Arendt sobre o totalitarismo, o desprezo de George Orwell por James Burnham e a queda do Muro de Berlim.

Embora muitas vezes ornamentado, A Era do Capitalismo de Vigilância apresenta um quadro interessante da paisagem infernal provocada pela tecnologia capitalista atual. Zuboff tem razão ao afirmar a necessidade de novos nomes para lidar com as transformações que os gigantes tecnológicos usam para nos castigar. A expressão “capitalismo de vigilância” identifica algo real e, embora ela não tenha sido a primeira a cunhá-la, agora parece ser provável que ganhará uso generalizado — para seu mérito. Também há algo surpreendente em seu antigo projeto de vincular o poder tecnológico à psicologia comportamental. Zuboff dedicou grande parte de sua vida intelectual para forjar um Anti-Skinner que colocasse o indivíduo psicológico no centro do palco, travando uma guerra contra suas reduções positivistas nas mãos de cientistas, gerentes e capitalistas de vigilância. Provavelmente, aqui fica mais convincente. Mas as reivindicações fundamentais de Na Era do Capitalismo de Vigilância são político-econômicas por natureza e devem ser avaliadas como tal.

O que podemos dizer, então, de seus conceitos de expropriação e desapropriação digital? Como os defensores da propriedade intelectual há muito afirmam, há algo especialmente estranho na noção de que dados são coisas que podem ser roubadas, já que não são bens raros, como Evgeny Morozov apontou em uma revisão publicada no The Baffler. Minha posse de uma determinada construção de dados não impede que todos os outros a tenham. Os dados comportamentais também podem ser vistos como representações, e é preciso recorrer ao pensamento mágico para igualar sua representação à posse. Se alguém me espiar e escrever o que eu faço, meu comportamento ainda é meu. Ele, é claro, deixou sua marca em algo que eu não tenho, mas ele não fez isso desde o início.

A ideia de que certos dados possam ser “gastos” também faz pouco sentido e, como não é o caso, também não há espaço identificável acima deles. Isso torna impossível traçar a linha entre o primeiro “ciclo de reversão inofensivo” de dados comportamentais do Google e o aproveitamento de um “excedente comportamental”. Aqui, os conceitos quantitativos de economia política se tornam enganosos, uma vez que não estamos realmente falando sobre magnitudes contínuas, mas sobre diferentes usos de dados: para melhorar um mecanismo de busca e para melhorar a publicidade direcionada e, assim, ganhar dinheiro.

Podemos ficar tentados a chamar o último de “excedente” em relação ao primeiro, mas e se os mesmos dados forem usados ​​para ambos? E se é o uso comercial que transforma-o em excedente, e não uma quantidade nominal de conduta, o que deveríamos fazer sobre o fato de Soshana Zuboff ver o sistema de crédito social chinês — destinado ao controle social e não ao marketing — como um sanguessuga do comportamento excedente? Novamente, sobra de quê? Será que alguma parte do sistema de crédito social é inofensiva, assim como o Google em seus inícios?

Essa noção substancialista de comportamento lembra a visão de mundo do socialismo ricardiano, em que o trabalho é visto como algo acumulado nos artefatos da economia capitalista. Isso ajudou a sustentar um certo ponto de vista moral: se é nosso trabalho, deve ser nosso. E há uma certa qualidade intuitiva na ideia de que uma determinada coisa incorpore diretamente uma determinada quantidade de trabalho, desde que pensemos em empresas individuais (como o histórico de negócios tende a fazer) ou commodities específicas, e não na economia como um todo. Essas ideias já existem há muito tempo e continuamos a encontrar vestígios delas na noção emaranhada de que: se postarmos algo no Facebook permite que Zuckerberg ganhe dinheiro, esse deve ser um trabalho produtivo — uma consequência semi-humorística disso é a demanda “Salários para Facebook» (Wages for Facebook). Soshana distingue sua posição ao concentrar-se no comportamento e não no trabalho, mas o substantivismo e o ponto de vista moral são praticamente os mesmos, embora façam ainda menos sentido no caso dos dados.

Zuboff afirma que o capitalismo de vigilância é a forma dominante de capitalismo, com o Google e o Facebook se tornando a vanguarda de uma dinâmica que podemos verificar em toda a economia. Essas empresas são, sem dúvida, muito poderosas e têm capitalizações de mercado extraordinárias, mas quase todas as suas receitas provêm da publicidade. Mesmo quando entramos na informatização onipresente, nas cidades inteligentes e em outros processos semelhantes, a receita de publicidade ainda é a principal razão pela qual as empresas privadas acumulam dados sobre os usuários. Quem compra esses anúncios? Em grande parte outras empresas, o que significa que a publicidade em geral é um custo para eles e, portanto, uma dedução de seus lucros totais: em termos de economia política clássica, é um dos faux frais da produção. A lucratividade dos anunciantes é limitada pela de empresas de outros setores, dado que dependem delas para obter receita. Não importa o quão radicalmente os capitalistas de vigilância transformem a propaganda, desde que ela represente seu negócio principal, sua capacidade de guiar o capitalismo como um todo será limitada.

Na visão de Zuboff, os capitalistas de vigilância buscam a “certeza total” e o controle real da totalidade do comportamento do usuário com seus produtos de previsão. Embora uma vantagem na previsão possa traduzir-se numa vantagem ao colocar anúncios em banner e, assim, fornecer mais receita, isso tem limites lógicos. Mesmo se a certeza ou o controle fossem teoricamente possíveis, os anunciantes ainda não seriam capazes de garantir as vendas de outras empresas à vontade, porque se a renda disponível dos consumidores fosse finita, cada transação segura diminuiria o alcance de outras, fazendo com que a “certeza” se auto enfraquecesse. Faz mais sentido rastrear, direcionar e prever o comportamento do usuário com precisão suficiente para que várias empresas paguem para participar da captura dos mesmos consumidores. Fora isso, perseguir uma previsão cada vez mais perfeita seria jogar dinheiro no buraco. Além do mais, o comportamento que faz sentido prever permanece quase inteiramente no reino da atividade de mercado — levantando a questão, independentemente da retórica, de se é realmente possível verificar para qual direção da “totalidade” os capitalistas de vigilância estão nos conduzindo. Talvez a economia da atenção — de acordo com a qual a atenção do usuário é uma mercadoria rara, buscada pelas empresas — seja uma abordagem mais útil aqui.

Embora aconselhável a procura de explicações sociais para os avanços tecnológicos, Zuboff pode ter se perdido em sua inclinação a pensar em termos de “formas de mercado” e a reduzir a tecnologia a fins econômicos. É sintomático que ela hesite em relação ao sistema de crédito social chinês. E embora reconheça a contribuição do Estado para alimentar o capitalismo de vigilância, tem surpreendentemente pouco a dizer sobre certos detalhes de seu papel: Prism, Snooper’s Charter, Five Eyes… Eles aparecem, essencialmente, como um reino neutro e passivo, que às vezes vai para onde a empresa o conduz, que tem algumas leis ruins e precisa de leis melhores. Mas qualquer história da tecnologia americana demonstra que o Estado está longe de ser neutro ou passivo. Geralmente, ele lidera a iniciativa de impulsionar uma grande mudança tecnológica, coordenando empresas ou arrastando-as para perto de si, como vemos na computação, nas redes, armas, máquinas=ferramentas, etc. Se as mudanças fundamentais ocorrem por meio dos atos de grandes empresários, isso é algo que deve permanecer na sombra.

Desde o seu início, o Estado moderno tem sido um aparelho de coleta de informações. Quando os meios de armazenamento e processamento de dados se tornaram disponíveis para eles — no início, mecânicos, e eletrônicos depois –, eles simplesmente facilitaram o que vinha acontecendo há muito tempo. O cartão perfurado de Hollerith e seus descendentes tornaram possível automatizar o processamento de dados, incluindo, como se sabe, dados sobre campos de concentração nazistas e sobre o internamento de nipo-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. A própria vigilância baseada em computador tem suas origens nesta história de longa data, que é importante ter em mente ao tentar periodizar eventos mais próximos do presente. Ao longo da década de 1970, a TRW — uma empresa com interesses nos setores aeroespacial, automotivo, eletrônico, informático e de processamento de dados — coletou grandes quantidades de dados sobre dezenas de milhões de consumidores americanos para vender a credores em potencial. E, sem surpresa, dado o escopo de suas operações, a TRW estava intimamente ligada à CIA. Embora a tentativa de Soshana Zuboff de interpretar politicamente a fundação do capitalismo de vigilância — como o ato de pessoas específicas em uma conjuntura específica — seja admirável, ela esconde essa história mais longa da ciência da computação na vigilância estatal e seus cruzamentos com o setor privado. É aqui que encontramos os motivos mais convincentes de preocupação.

Afinal de contas, por que que eu deveria me importar se o Facebook me mostra horríveis anúncios publicitários e talvez até me convença de comprar alguma coisa, se essa é a única repercussão que o gigantesco acúmulo de dados tem sobre mim? É no momento em que abandonamos o simples intercâmbio do mercado — que formalmente sou livre para abandonar — e, junto com isso, o principal foco do capital de vigilância propriamente dito, que essa assimetria de conhecimento se torna verdadeiramente problemática. Seremos submetidos à manipulação digital, paga pelo licitante com o lance mais alto? Aqueles de nós que se mobilizem para além dos rituais clássicos da participação democrática, seremos rastreados, agrupados e neutralizados antes de que possamos representar uma ameaça real? As desigualdades sociais serão discretamente fortalecidas pelas classificações que nos são impostas por aqueles que estão em posição de supervisionar? Responder a essas questões com seriedade implicará entender o Estado como força ativa no desenvolvimento tecnológico, como um campo diferenciado e longe de ser neutro. A regulação normativa do capital de vigilância por si só não será suficiente — nem mesmo apoiada pelos movimentos sociais — porque qualquer desafio sério, se tornará, também, um desafio para o estado de vigilância.

“A degradação humana causada pela tecnologia excedeu alguns limites importantes”

A tecnologia está nos tornando seres humanos piores?

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De tanto discutir sobre quando a tecnologia iria exceder nossas capacidades, perdemos de vista o fato de que as máquinas estavam se concentrando em conhecer nossos pontos fracos.

É a base que sustenta um conceito que ressoa no Vale do Silício e é conhecido como desclassificação humana, “degradação humana” em espanhol.

Foi cunhado pelo cientista da computação Tristan Harris e seu parceiro Randima (Randy) Fernando, co-fundadores do Center for Humane Technology (CHT), uma organização sem fins lucrativos cuja missão é “reverter a degradação humana” e ” realinhar a tecnologia com a nossa humanidade. ”

No recente documentário da Netflix O Dilema Social (“O dilema das redes sociais”) Harris e Fernando expõem essa questão, intimamente ligada à chamada “economia da atenção”, ou como as empresas monetizam nossa atenção por meio das redes sociais e outras tecnologias digitais.

Fernando, diretor executivo do CHT, acredita que a tecnologia deve ser “mais humana”. Nesta entrevista à BBC Mundo ele explica o porquê. GettyImages

Como surgiu o seu interesse pela economia da atenção e por que isso é importante para você?

Meus pais me ensinaram mindfulness (meditação baseada em mindfulness) e tecnologia desde muito jovem, então segui esse caminho. Fiquei muito interessado em computação gráfica e trabalhei na Nvidia (multinacional do Vale do Silício) por sete anos. Então, ajudei a fundar uma organização chamada Mindful Schools para ensinar mindfulness nas escolas.

“O dilema das redes sociais”: 5 segredos dos donos das redes para nos manipular, segundo documentário da Netflix
Eu fiz isso por um tempo até encontrar Tristan [Harris].

Ambos estávamos muito interessados ​​em midfulness. Começamos a perceber que éramos contra a forma como a economia da atenção compete constantemente para treinar nossas mentes de maneira diferente.

A economia da atenção é adversária da atenção plena.

É muito fácil para as empresas criar perfis sobre nós com base nas informações que compartilhamos nas redes sociais, e elas compartilham essas informações com os anunciantes. Este modelo de negócio torna a nossa atenção vital e também não se baseia nos nossos interesses, mas nos dos anunciantes.

Marta Peirano e a economia da atenção: “Estamos menos felizes e menos produtivos do que nunca porque somos viciados”
Decidimos que era melhor criar uma organização para gerenciar o crescente interesse pelo tópico (especialmente porque Harris falou sobre isso em um programa de televisão nacional em 2017) e tentar resolver o problema.

Três anos depois, ainda estamos nisso.

Para resolver o problema, você propõe “reverter a degradação humana”. Que significa isso?

Muito do trabalho que fazemos tem a ver com a mente, com vícios e como combatê-los; com meditação e bem-estar emocional. Também com democracia e polarização, com a distorção da verdade. Todas essas questões estão inter-relacionadas e ligadas à “degradação humana”.

Nós o descrevemos como algo cíclico: à medida que melhoramos e atualizamos nossas máquinas, degradamos seres humanos. E deveria ter sido o contrário. Isso é algo que se repete constantemente.

Por muito tempo, ficamos muito empolgados com todas as melhorias tecnológicas, mas investimos tanto esforço e energia no avanço da tecnologia – que nos beneficiou tanto por décadas – que não prestamos atenção suficiente às mudanças que estavam ocorrendo em nosso cérebro.

“Os ‘nativos digitais’ são os primeiros filhos com um QI inferior ao dos pais”
A certa altura, ficamos vulneráveis ​​a ela porque a tecnologia pode ser usada para tirar proveito de nossas fraquezas.

O que mudou nos últimos anos para trazer essa questão para a mesa dentro e fora do Vale do Silício?

A “degradação humana” ultrapassou alguns limites importantes, então agora começa a nos preocupar.

Estamos cientes de como as notificações tentam “sequestrar” nossa atenção. Se os designers usarem isso a seu favor, eles podem nos fazer gastar mais tempo em seus produtos, atraindo nossa atenção para que percebamos certos elementos por meio de coisas como o brilho da tela e outros pequenos “truques”.

E não sabemos mais o que é real e o que não é. Deepfakes (vídeos com pessoas aparentemente reais modificadas com inteligência artificial) são um bom exemplo disso.

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Deepfakes são um exemplo de como a tecnologia pode nos degradar: não podemos diferenciar entre o que é real e o que não é.

A mente humana é limitada. É maravilhoso em muitos aspectos, mas tem pontos fracos. Agora que sabemos que a tecnologia cruzou essa barreira, nosso entusiasmo diminuiu porque é algo que não podemos mais controlar.

No entanto, as forças de mercado continuaram a usar novas tecnologias em seu benefício para aumentar as vendas. Os analistas ficam fascinados por encontrar novas maneiras de usar a tecnologia a seu favor e transformar essas tendências em dinheiro. Mas quem pensa nos benefícios não está considerando as consequências.

Isso está acontecendo em todo o mundo e em todos os níveis. Analistas, designers de produtos e governos estão competindo uns com os outros. E no final acaba sendo uma arma muito perigosa. Mas há cada vez mais reações contra isso.

Você o desenha como um sistema perverso. Isso poderia ser previsto de alguma forma?

Sim, claro que foi previsto. E não só: foi procurado também por quem quer explorá-lo a seu favor. Uma parte importante do problema é que aqueles que tentam encontrar soluções geralmente não são os mesmos que criam o problema.

Há pessoas muito competentes falando abertamente sobre o uso da tecnologia há muito tempo, mas aqueles que trabalham com avanços tecnológicos têm outros incentivos e não estão interessados ​​em desacelerar porque muitas vezes significa um desserviço para eles, do qual sua concorrência pode tirar vantagem.

É por isso que resolver este problema é tão complexo. Somado a isso, a “degradação humana” é cíclica.

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A “degradação humana” é cíclica, segundo Fernando.

O que você quer dizer com cíclico?

Quando nossa atenção é interrompida repetidamente, ficamos mais distraídos. Tornamo-nos a pior versão de nós mesmos. A tecnologia nos muda. E isso acontece cada vez mais porque as redes sociais facilitam esse processo.

Quando competimos por atenção – gostos, comentários, compartilhamentos – começamos a “dizer” coisas diferentes, para usar outra linguagem. Postamos fotos que chamam mais a atenção, somos mais radicais ao debater questões políticas … tudo isso beneficia os algoritmos.

ARTUR DEBAT / GETTY IMAGES

Quanto mais eles distraem nossa atenção, mais lucrativos somos para as empresas (e mais vulneráveis ​​à “degradação”).

No final do ciclo, a tecnologia acaba nos mudando e, efetivamente, nos degradando. E quando nos degradamos, ficamos mais vulneráveis ​​no próximo ciclo, porque quando estamos mais distraídos, é mais fácil para um novo ciclo ocorrer.

Acaba sendo uma corrida [de empresas] para chegar ao fundo do nosso tronco cerebral que traz à tona o que há de pior em nós mesmos e que cada vez mais inclui menos pausa, menos reflexão e menos meditação, porque estamos ocupados reagindo o tempo todo.

É fácil sentir-se impotente nesta situação … o que podemos fazer?

Certamente é! É uma parte tão importante da economia … Movimenta trilhões de dólares! Mas podemos atuar em dois níveis: primeiro pessoal e, segundo, coletivo.

O primeiro passo realmente começa nos educando sobre isso. Em um nível pessoal, podemos fazer coisas vitais como limitar notificações, usar menos plataformas digitais, mudar o que mostramos nelas e nossas interações online. Basicamente, entender como estamos sendo manipulados e agir de acordo.

“O dilema das redes sociais” | 3 mudanças para recuperar o controle sobre sua vida nas redes sociais de acordo com Justin Rosenstein, criador do botão “Curtir” no Facebook
Além disso, existe o plano coletivo. Portanto, estamos criando um espaço para permitir que as pessoas expressem suas preocupações. Um por um não fazemos muito, mas todos temos força. Quando nos reunimos, podemos realizar uma mudança real. Isso é muito importante porque a “degradação humana” está nos mudando como sociedade.

A questão é: que mudança queremos promover? Uma das chaves é que o produto que usamos deve ser diferente, deve ter uma codificação diferente. E essa mudança deve ser feita por dentro, mas a pressão de consumidores, investidores, políticos, educadores e tecnólogos pode ajudar.

Temos que mudar as condições do jogo. A tecnologia que divide a sociedade não é tecnologia “humana” porque é prejudicial aos seres humanos.

Em que medida você diria que estamos liderando o caminho para uma tecnologia mais “humana”?

Para ser honesto, estou favoravelmente surpreso com o quão longe chegamos, porque a certa altura pensei que ficaríamos para sempre presos na definição do problema.

IMDB / O DILEMA SOCIAL

O sucesso do documentário “O Dilema das Mídias Sociais” é um exemplo de como a preocupação com o tema aumentou.

Mas agora, e em parte graças à repercussão do [documentário] O Dilema Social (“O dilema das redes sociais”) – que só no primeiro mês (setembro) viu mais de 38 milhões de pessoas – muito mais as pessoas entendem isso.

Felizmente, cada vez mais pessoas estão percebendo como as informações que compartilham nas redes ajudam a economizar atenção. Isto é muito importante.

Uma das coisas mais maravilhosas com que tantas pessoas se preocupam é que podemos realmente nos recompor para lidar com isso. Cada vez mais empresas e países estão agindo e vejo oportunidades de mudança no curto e médio prazo.

Agora temos que continuar divulgando a mensagem para que a tecnologia seja cada vez mais humana e nos permita nos conectarmos melhor, divulgar a verdade e obter a melhor versão de nós mesmos.

 

O “pensamento sem corrimão” de Hannah Arendt

Em tempos de fake news e histerias de massa nas redes sociais, exposição em Berlim propõe a desobediência da filósofa teuto-americana, uma das maiores pensadoras do século 20, como antídoto.

É longa a lista das controvérsias que Hannah Arendt desencadeou ou incentivou

Lá está ela, pensativa, de queixo apoiado na mão, cigarro aceso entre os dedos: Hannah Arendt (1906-1975), já não tão jovem, numa fotografia em preto-e-branco tirada de ângulo ligeiramente baixo. E, impressa por cima, a enigmática frase: “Nenhum ser humano tem o direito de obedecer.”

Com esse cartaz, com atraso forçado pelo coronavírus, o Museu Histórico Alemão (DHM) de Berlim convida a uma exposição sobre a grande pensadora teuto-americana do século 20. A mostra acompanha o olhar subjetivo de Arendt em 16 capítulos acessíveis, com fotos, documentos em áudio e filme, objetos de seu espólio pessoal e empréstimos internacionais.

A intenção é apresentar, de uma forma nova, pontos de cristalização da história do século 20. E a obra da filósofa de fato se presta muito bem a isso, pois ela escreveu sobre temas centrais da época, como antissemitismo, colonialismo, racismo, nacional-socialismo e stalinismo, com um gosto de julgar notavelmente rigoroso, refletindo tanto prazer quanto ousadia.

Sobre a banalidade do mal

É longa a lista das controvérsias que a intelectual de origem judaica desencadeou ou incentivou. A mais intensa foi, certamente, a sobre seu livro Eichmann em Jerusalém, a qual se espalhou por todo o mundo e também toma bastante espaço na mostra em Berlim.

Em 1961, ela participou como repórter do julgamento do ex-tenente-coronel da SS Adolf Eichmann, que fora responsável pela deportação de milhões de judeus para campos de concentração e extermínio. A reportagem sobre o processo foi publicada dois anos mais tarde pela revista The New Yorker e, como livro, com o subtítulo Um relato sobre a banalidade do mal.

Mostra acompanha o olhar subjetivo de Arendt com fotos, documentos em áudio e filme e objetos de seu espólio pessoal

Lá, Arendt descreve o criminoso nazista como um tecnocrata sem convicções, que se apresentava como mero instrumento de seus superiores. A brutalidade do mal banal consiste em sua falta de reflexão e responsabilidade, observava ela, e a obediência “incondicional” repetidamente evocada por Eichmann é, em princípio, a expressão dessa atitude mental.

O estopim da controvérsia em torno do livro de Arendt não foi apenas a questão da “banalidade”, já lançada no título, mas também a postura dos “conselhos judaicos”. Será que os participantes dessas instituições foram culpados de colaboração?

“Deixamos à disposição do espectador os veredictos de Hannah Arendt sobre temas do século 20”, explica a curadora da exposição, Monika Boll. “Não porque acreditemos que ela sempre estivesse certa, de forma alguma. Mas, ao também transferir e delegar aos espectadores esse gosto de julgar, queremos que também eles formem seu julgamento.”

Uma decisão bem no espírito de Arendt, para quem julgar era uma atividade eminentemente política. Segundo Boll, para a filósofa, o nazismo não significou apenas o colapso de todos os valores morais, mas também o colapso da capacidade de julgar. Porque o julgamento fora cooptado pelo sistema, porque se dizia “nós”, e não “eu”. Dessa maneira, porém, também a questão da responsabilidade pessoal ficava delegada a instâncias impessoais.

“Pensamento sem corrimão”

Arendt nasceu próximo a Hannover em 1906, filha de judeus laicos, e cresceu nos meios cultos de Königsberg (hoje Kaliningrado, Rússia). Em 1924, começou a estudar Filosofia, tendo Teologia como cadeira secundária, primeiro em Marburg, mais tarde em Freiburg e Heidelberg. Por intermediação do filósofo Martin Heidegger, doutorou-se em 1928 sob a orientação de Karl Jaspers.

Escrevia para o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung e se ocupou de Rahel Varnhagen von Ense, uma intelectual judia do Romantismo, cuja história era considerada um exemplo de assimilação cultural bem-sucedida. Arendt, em contrapartida, via com ceticismo a ideia da assimilação em nome da igualdade de todos os seres humanos, a qual considerava politicamente ingênua. E ela causou escândalo com essa posição.

Antes de muitos outros observadores, já em 1931 Arendt partia do princípio de que os nazistas assumiriam o poder. E, ao contrário da maioria dos alemães, já em 1933 defendia a opinião de que o regime devia ser combatido ativamente.

Naquele mesmo ano, emigrou para a França, trabalhou em organizações sionistas e como pesquisadora em Paris até fugir em 1941, com o marido e a mãe, para Nova York, após passar por Lisboa. E ela se transformou numa apaixonada cidadão americana.

Coronavírus atrasou abertura da exposição no Museu Histórico de Berlim

Por toda a vida, permaneceu fiel a si mesma, sem nunca seguir uma determinada escola, tradição ou ideologia. Seu pensamento é difícil de classificar, e por isso tão interessante, comenta a curadora Boll: “Pode-se encontrar repetidamente nesse pensamento tanto componentes liberais como conservadores e de esquerda, de forma que ela é bem difícil de situar numa ala política.”

A própria Hannah Arendt definia essa atitude como “pensamento sem corrimão”. Além disso, era uma excelente escritora, e tudo isso a torna tão viva, “por isso mesmo dá tanto prazer se ocupar dela”, elogia Boll. De fato: quer se trate de suas reportagens sobre a Alemanha do pós-guerra, ou suas declarações sobre a questão dos refugiados, o racismo nos Estados Unidos, o movimento estudantil internacional, ela sempre consegue surpreender.

Na mostra no DHM de Berlim, a venerável filósofa continua estimulando os visitantes a questionarem seus próprios pontos de vista, e provando a importância de ter uma opinião própria fundamentada. A curadora Boll dá uma dimensão atual à questão: justamente em tempos de fake news e histeria de massa produzida pelas redes sociais, Hannah Arendt é um maravilhoso antídoto.

Dachau

Apps de relacionamento: saiba como se proteger de golpes

Encontrar uma nova amizade ou um parceiro ideal pode estar a um match de distância. É por esse motivo que apps de relacionamento, como o Tinder e o Happn, figuram entre os mais instalados nas lojas de aplicativos.

Com a impossibilidade de realizar encontros físicos, devido às medidas para combater o avanço do coronavírus, a busca por esses recursos ganhou ainda mais força.

Segundo um levantamento realizado pela Match Group, empresa responsável pelo Tinder e outros apps do segmento, em abril, a quantidade de mensagens diárias enviadas foi 27% superior, se comparada à última semana de fevereiro. Em todo o mundo, os aplicativos líderes no ranking também registraram um crescimento no número de usuários e interações.

Ao redor do mundo, a estimativa é que cerca de 330 milhões de usuários estarão conectados nestes apps até 2023. Créditos: Unsplash

Apelidado pelo público de “carentena”, o período de isolamento social demanda o fortalecimentos das relações pessoais. Assim, qualquer recurso tecnológico que nos auxilie no desenvolvimento da vida afetiva é válido. No entanto, é preciso ter cautela. Golpistas continuam a enxergar esse tipo de aplicativo como mais uma oportunidade para manipular as vítimas.

Daniel Cunha Barbosa, especialista em segurança da informação e pesquisador da ESET no Brasil, alerta para vulnerabilidade de usuários que se deixam levar pela ansiedade em conhecer alguém especial. “É justamente nesses momentos que os cibercriminosos se aproveitam, tirando vantagem em conquistar a confiança da pessoa que está do outro lado da tela e, com isso, ter acesso a informações pessoais sigilosas, como endereço, círculo familiar e de amizade da vítima e até dados bancários”, comentou.

Veja como se proteger:

Não forneça dados privados, como seu endereço residencial ou de trabalho;
Faça uma breve pesquisa na web para se certificar da veracidade das fotos/vídeos recebidos;
Desconfie caso as informações ditas pela pessoa não corresponde àquelas compartilhadas nas redes sociais;
Fique atento se houver manifestação de sentimentos profundos após um curto período de conversa;
Não envie nenhuma foto/vídeo que poderia te comprometer posteriormente.
Recomendações para o seu dispositivo:
Instale uma solução de segurança no seu computador pessoal, smartphone e em qualquer outro equipamento que você usa em casa ou no trabalho;
Mantenha atualizado o sistema operacional;
Utilize a autenticação de dois fatores em aplicativos que dispõem deste recurso;
Não clique em links suspeitos.

Redes Sociais e o fascismo de Trump

Quando o presidente dos Estados Unidos propôs no Twitter a suspensão das eleições de novembro, ele deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de outra forma.

“Com a votação por correspondência universal (não a votação de ausência, o que é bom), 2020 será a eleição mais imprecisa e fraudulenta da história. Será um grande constrangimento para os EUA. Atrase a eleição até que as pessoas possam votar de forma adequada, segura e segura ??? ” Isso é o que o presidente dos EUA, Donald Trump, escreveu em uma mensagem no Twitter em 30 de julho de 2020.

O que significa para o presidente dos Estados Unidos propor a suspensão das eleições de novembro? O tweet de Trump proclama que a próxima eleição será “imprecisa e fraudulenta“. No entanto, na medida em que os americanos têm problemas para votar, eles são culpa do presidente e de seus aliados. Trump está fabricando uma crise: criando um problema, culpando os outros por ele e usando-o para reivindicar o poder.

Metade dos estados americanos aprovou recentemente leis que parecem ter o objetivo de dificultar a votação dos americanos não brancos. Qualquer pessoa que desejasse que os Estados Unidos fosse uma democracia representativa iria reverter isso. Nos últimos meses, mais americanos do que nunca se conscientizaram do racismo que exclui as vozes negras da política. No entanto, longe de buscar uma solução para esse problema, Trump usou os protestos como desculpa para colocar uma nova polícia secreta americana nas ruas.

Quando em 2019 o Congresso aprovou um projeto de lei que teria acabado com esses abusos e facilitado o voto de todos os americanos, ele foi bloqueado pelo Senado, que é controlado pelo partido de Trump, os republicanos.

A maior fonte de imprecisão e fraude na democracia americana é a privação de direitos dos eleitores negros

Uma segunda ameaça às eleições de novembro é a intervenção estrangeira. Aqui, novamente, Trump é a fonte do problema e o tornou pior. Nas eleições de 2016, Trump conscientemente ganhou vantagens com uma campanha russa na Internet destinada a torná-lo eleito. A Rússia divulgou e-mails de seu oponente, Hillary Clinton, e a Rússia influenciou as conversas políticas nas redes sociais. Uma importante cientista política, Kathryn Hall Jamieson, concluiu que eles provavelmente levaram a eleição para Trump. Como sabemos pelo novo livro do historiador David Shimer, Rigged: America, Russia and 100 Years of Covert Electoral Interference, a administração Obama acreditava que a Rússia em 2016 também tinha a capacidade de intervir diretamente na contagem dos votos.

No cargo, Trump negou que nada disso tenha acontecido e puniu aqueles que chamaram a atenção para o curso real dos negócios. Agora sabemos que Trump no cargo continuou a solicitar ajuda de governos estrangeiros para ser reeleito. Ao perdoar seu aliado Roger Stone, que serviu como intermediário entre a campanha de Trump e a Rússia em 2016, Trump enviou um sinal óbvio de que espera se beneficiar da intervenção russa em 2020. O Congresso aprovou um projeto de lei que foi criado para tornar o sistema eleitoral americano mais defensável da Rússia ou qualquer intervenção estrangeira. Isso também foi bloqueado pelo Senado controlado pelos republicanos.

A questão que Trump menciona no tweet, a alta taxa de votação por correspondência, também é resultado de suas próprias ações. É importante notar, entretanto, que não há nada de errado em votar pelo correio. O próprio Trump vota pelo correio, assim como muitos de seus conselheiros mais próximos. Votar em papel é muito mais seguro do que votar digitalmente.

A razão pela qual os americanos desejam votar pelo correio em 2020 é sua própria segurança. O país está no meio de uma pandemia que já matou 150.000 pessoas. A escala do sofrimento, da morte e do medo é resultado das próprias decisões de Trump: contestar a ciência, enviar o sinal de que as pessoas não devem usar máscaras, se opor ao teste sistemático que é uma condição necessária para o tratamento e para impedir a propagação da doença.

Na medida em que o serviço postal dos EUA não pode lidar com a correspondência extra, isso também é claramente culpa de Trump. Ele vem atacando o serviço postal há anos e recentemente nomeou um doador não qualificado como chefe dos correios. O novo postmaster general tomou decisões que parecem destinadas a fazer o serviço postal funcionar mal. Os americanos já notaram que seu correio está atrasado.

Trump deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de alguma outra forma que não seja pela eleição.

Dadas essas contradições, que não são segredo para ninguém, como Trump pretendia que sua mensagem fosse entendida? Trump não é tolo. Ele sabe que tem poucas chances de vencer a eleição em novembro por meios normais. Ao enviar esta mensagem, ele está concedendo a eleição a seu rival democrata Joe Biden e iniciou a busca por outra forma de permanecer no cargo. Seu tweet se destina não àqueles que discordam dele, mas àqueles que estão dispostos a segui-lo para a tirania.

Em seu tweet, Trump deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de alguma outra forma que não seja por eleição. Ele sabe que não tem poder para atrasar as eleições. O que ele busca com este tweet são aliados nos Estados Unidos, ou no exterior, que ajudem a criar uma situação em que uma eleição parece impossível.

O tweet de 30 de julho é, portanto, um ponto de viragem. Antes dessa data, os apoiadores de Trump podiam dizer a si mesmos que estavam envolvidos em uma campanha presidencial normal. Após essa data, os apoiadores de Trump devem enfrentar sua alegação aberta de que a eleição de novembro não contará. Isso levanta a questão de o que significa agora estar do lado do presidente dos Estados Unidos. É claro que significa ser contra a democracia e a favor do autoritarismo.

Qualquer pessoa que apoiar Trump depois de 30 de julho fez uma escolha moral: por uma pessoa e contra a constituição americana. Todos que trabalham para a campanha de Trump, doam dinheiro ou planejam votar nele foram avisados: agora são todos atores de uma charada, mantendo as aparências até novembro, fornecendo cobertura para a ação real, que será em algum lugar outro. Esses três pontos de interrogação no final do tweet são um sinal de que alguém deve encontrar uma maneira não democrática de manter Trump no poder. Há um consenso notável entre os pensadores americanos, desde um importante intelectual público de esquerda a um importante professor de direito de direita, que o tweet de Trump foi “fascista”.

Eu mesmo escrevi nessa linha. Mas isso pode ser profundamente verdadeiro em um sentido que até agora foi esquecido. Como mostrou o historiador inglês Ian Kershaw, o estilo nazista era “trabalhar em direção ao Führer”: entender uma mensagem de um líder não como uma série de proposições lógicas ou observações empíricas, mas como um guia de como o mundo deveria ser, como uma dica de para o que os seguidores devem fazer. Nesse caso, a dica é que as eleições devem ser estragadas: uma dica que pode ser aproveitada pelo postmaster geral de Trump, ou por legislaturas estaduais republicanas, ou por americanos armados.

Qualquer um que tentar cumprir as ordens de Trump e estragar a eleição se arrependerá

É improvável que prevaleçam, entretanto. Demorou um pouco, mas agora muitos americanos, mesmo que não entendam bem o significado mais profundo do estilo de Trump, estão cientes de que precisam estar preparados para uma eleição diferente de qualquer outra. Qualquer um que tentar cumprir as ordens de Trump e estragar a eleição se arrependerá. Esse é o outro significado desses três pontos de interrogação: Trump espera que outra pessoa infrinja a lei para que ele possa permanecer no poder, mas não tem intenção de assumir a responsabilidade pelo que acontecerá a seguir. Ele deixará para outros a tarefa de paralisar a democracia americana para que ele possa viver com conforto. Se a Rússia tentar isso, quase certamente enfrentará toda a ira de um governo Biden. Se os americanos tentarem “trabalhar para o Führer”, seu líder os trairá no final.

Essa é a única maneira pela qual Trump é perfeitamente consistente: tudo se refere a ele e todos devem ser sacrificados a ele. Ao contrário dos fascistas tradicionais, ele não sonha com uma causa grande e terrível. Ele simplesmente espera que outros sofram por ele.

Timothy Snyder é o professor Levin de História na Universidade de Yale e membro permanente do Instituto de Ciências Humanas de Viena. Ele é o autor, mais recentemente, de On Tyranny e The Road to Unfreedom. Seu novo livro, Our Malady, será publicado em setembro.

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O dia em que as grandes empresas de tecnologia deixaram de ser intocáveis

Os CEOs da Apple, Amazon, Google e Facebook testemunham juntos pela primeira vez nesta quarta-feira perante o comitê antitruste do Congresso dos EUA.

Chefes do Facebook, Mark Zuckerberg; do Google, Sundar Pichai; Apple, Tim Cook e Amazon, Jeff Bezos, testemunharão juntos pela primeira vez no comitê antitruste do Congresso dos EUA.

 BERTRAND GUAY TOBIAS SCHWARZ ANGELA WEISS MARK RALSTON / AFP

A regulamentação, o principal medo das grandes empresas de tecnologia, está se aproximando todos os dias. Após um ano de investigação, dezenas de entrevistas e centenas de milhares de documentos, os 15 membros do comitê antitruste do Congresso dos Estados Unidos estão prontos para seu maior exame: interrogar os presidentes executivos das quatro principais empresas de tecnologia nesta quarta-feira. Jeff Bezos, da Amazon; Tim Cook da Apple; Sundar Pichai, do Google, e Mark Zuckerberg, do Facebook, terão que se explicar e se defender sobre se suas empresas prejudicam a concorrência e os consumidores. Além do espetáculo, sua capacidade de condenação dependerá em parte se eles merecerem que novas leis regulem suas práticas.

Eles aparecerão juntos, mas o interrogatório será virtual, o que evitará a parafernália emblemática pela qual outras indústrias passaram ao se defender: empresas de tabaco, empresas farmacêuticas ou bancos, após a última crise. A maioria dos americanos acredita que o poder da tecnologia é excessivo e a sensação é de que algo deve ser feito: 77% acreditam que têm muito poder ou 60% acreditam que fazem mais para dividir a sociedade do que para uni-la, de acordo com dados de Gallup.

No entanto, quando perguntados sobre cada empresa em particular, quase todos obtêm uma boa nota, de acordo com dados anuais do meio digital The Verge: cerca de 70% dos americanos confiam na Netflix, Apple e Google, que estão atrás da Microsoft (75% ) e Amazônia (73%). Dos quatro primeiros, apenas o Facebook suspende com 41% de confiança.

O problema dessa longa batalha pela regulamentação não é apenas decidir se o poder de mercado dessas empresas prejudicou os consumidores e limitou seus rivais, mas como remediar a situação sem piorá-la. A principal solução que surge, por ser a mais simples, é quebrá-los: separar o WhatsApp e o Instagram do Facebook, o YouTube do Google ou o Amazon Web Services da Amazon. A situação recente mais semelhante foi a Microsoft há duas décadas e não deu em nada. Mas as soluções que acabam aparecendo também podem ser mais criativas. Nesta quarta-feira, às 18h00, uma longa batalha começou. Acima de tudo, é algo que até agora eles tinham pouca preocupação. Mas os tempos de crescimento como o único guia terminaram.Tecnologia,Internet,Redes sociais

Entre os que aparecem, estará a pessoa mais rica do mundo, Jeff Bezos, e o sétimo, Mark Zuckerberg, de acordo com a lista da Forbes. Zuckerberg também será o mais novo, aos 36 anos e, ao mesmo tempo, o mais velho veterano de aparições no Congresso. Será a quarta vez após suas declarações devido à interferência eleitoral e à privacidade. Para Pichai, 48, e Cook, 59, será o segundo. Apenas Bezos, aos 56 anos, estreará.

Apesar do ritual conjunto e da importância da aparência, os desafios e as estratégias de defesa de cada uma dessas empresas são diferentes. Desinformação, radicalização, comissões exageradas, obtenção ilegítima de dados da competição, decisões aleatórias sobre rivais ou a limitação da oferta são apenas alguns exemplos. Nessas empresas dominantes, há várias razões pelas quais elas podem estar explorando sua posição.

Essas são as críticas que cada uma dessas empresas recebeu. Durante a aparição, no entanto, alguns congressistas provavelmente postarão suas perguntas sobre supostos danos contra causas conservadoras ou outros problemas colaterais para ganhar pontos. No final, isso também é político.

Amazon e a nuvem

A Amazon cresceu mais, se possível, durante a pandemia. Apesar de sua reputação de ser um site de comércio digital, seu serviço de servidor em nuvem para governos e empresas, chamado Amazon Web Services (AWS), também é líder em seu setor.

Mas Bezos não estará perante o Congresso por isso, mas por abusar de seu papel dominante de fornecedor com seus fornecedores e de plataforma para terceiros. O frete grátis pelo Amazon Prime é uma opção tremendamente popular nos EUA, limitando as opções da concorrência. A Amazon possui informações detalhadas sobre o que outros produtos vendem melhor, para que possam ser fabricados com a sua marca. A empresa também controla logicamente a maneira como os produtos são exibidos na web. 49% das pesquisas de produtos começam na Amazon e apenas 22% no Google. A Amazon domina cerca de metade do comércio eletrônico nos EUA.

Apple e sua App Store

O grande debate da Apple está na App Store. Fora da China, Apple e Google, com sua plataforma Android, dominam o mercado global. A empresa Cupertino cobra uma comissão de 30% de todas as vendas de aplicativos e dentro de aplicativos de sua loja online. E publicou um relatório nesta semana em que diz que 30% é padrão no setor, sem notar que a própria empresa era um dos principais fatores desse padrão.

Mas esse não é o único problema da App Store: o Spotify iniciou uma longa guerra com a Apple sobre se a empresa beneficia seu próprio aplicativo, o Apple Music, em sua plataforma. O poder da empresa de Tim Cook se estende além da própria loja: até agora o navegador de seu sistema operacional era, por padrão, o Safari, o navegador da empresa. Com a nova versão de seu sistema, os usuários poderão escolher.

Google e um mecanismo de pesquisa em mudança

O Google é, junto com a Apple, a empresa que deve se defender mais. Seu monopólio nas plataformas móveis é quase inabalável. Além disso, ele ainda domina a pesquisa. Não apenas por causa do Google, mas porque o YouTube é o segundo mecanismo de pesquisa mais usado no mundo. O mecanismo de pesquisa do Google tradicionalmente servia para enviar usuários à web mais útil para sua pesquisa. Esse resultado ideal foi oculto ao longo dos anos sob uma ampla camada de anúncios, mapas, “coisas que as pessoas também procuram” e outros serviços que limitam a aparência dos resultados desejados.

Uma investigação do site de marcação das 15.000 pesquisas mais populares nos EUA resulta em 41% do principal espaço móvel ocupado por resultados oferecidos pelo próprio Google na mesma página, sem a necessidade de clicar para acessar outro site . O que anteriormente era um serviço para o usuário acessar o site mais adequado para sua pesquisa se tornou um espaço para o Google tentar fazer com que o usuário seguisse o Google.

O Google também possui uma plataforma essencial para colocar anúncios em sites, no navegador principal (Chrome) e na maior plataforma de vídeo (Youtube). Além disso, seu papel no Android oferece uma capacidade incrível de pressionar quando se trata de saber como outros aplicativos são usados ​​ou pressionar os desenvolvedores a usarem seu mecanismo de pesquisa em aplicativos.

Facebook e a desculpa perfeita

A empresa de Zuckerberg tem sido a mais analisada e odiada nos últimos anos. Seu principal serviço, o Facebook, é amplamente utilizado em todo o mundo, mas também tem sido um centro de críticas por razões tão diversas e terríveis quanto o suposto facilitador de genocídio ou trapaça eleitoral. Ao contrário do Amazon ou do Gmail, milhões de usuários veem o Facebook como uma ferramenta para espalhar desinformação e causar desunião, em vez de conectar pessoas.

A futura integração de mensagens diretas do Messenger, Instagram e WhatsApp provavelmente será uma das chaves para a aparência. Zuckerberg é claro, no entanto, sua desculpa perfeita hoje: TikTok. Se as empresas americanas que competem nas mídias sociais forem fragmentadas, elas terão mais dificuldade em competir com seus novos rivais, que também são chineses.

“Não abrir o Twitter” e outros truques de Margaret Atwood para não procrastinar no trabalho em casa

A autora de ‘O conto da aia’ se define como uma especialista em adiar tarefas. Entretanto, tantos anos de teletrabalho lhe serviram para se impor algumas estratégias para conseguir cumprir os prazos.

A famosa escritora canadense Margaret Atwood sempre se apresentou em público como uma procrastinadora nata. Como ela mesma contou em várias ocasiões, costumava passar o dia vendo vídeos, lendo as notícias ou se preocupando com o que tinha que fazer. Entretanto, só conseguia começar a trabalhar, já de noite, quando não havia outro remédio senão correr para cumprir os prazos assumidos com os editores.

O que acontece com a autora de O conto da aia é algo muito habitual e pode virar um problema para quem não está muito habituado a se organizar, agora que o hábito do home office se generalizou em tempos de pandemia do coronavírus. Segundo os especialistas, ao contrário do que se acredita, não adiamos as tarefas para vagabundear, e sim para evitar situações que nos produzem um mal-estar emocional. É por isso que tendemos a adiar as tarefas que nos geram confusão, ansiedade ou tédio.

Como evitar isso? Margaret Atwood compartilhou alguns de seus truques em uma conversa com o psicólogo Adam M. Grant. Como se pode ouvir no podcast Ted WorkLife, o fundamental é tratar de mitigar essas emoções negativas que nos levam a adiar nossas obrigações. Atwood, que garante nunca ter perdido um prazo de entrega, se guia pelas seguintes pautas:

Seja amável com você

Em vez de nos castigarmos e repetirmos o tempo todo que somos um fracasso, é preciso pensar que esta realidade faz parte da condição humana e é mais comum do que imaginamos. Segundo Grant, em torno de 15% a 20% das pessoas adultas são procrastinadoras crônicas, e as demais também adiarão em suas obrigações de vez em quando. Para romper a tendência e mudar o hábito, temos que tratar de ser indulgentes com nosso eu procrastinador do passado em vez de nos tornarmos muito rigorosos desde o começo. A culpa, neste caso, não ajuda. Em vez de ser um sentimento motivador, a única coisa que os procrastinadores conseguem é acentuar mais a postergação.

Não julgar nosso trabalho antes de começá-lo

Algo que tampouco ajuda é fixar expectativas muito altas sobre a tarefa a atacar, porque podemos entrar no loop do perfeccionismo neurótico e não avançar. Para isso, devemos tentar analisar ou criticar nosso trabalho só depois de pronto. Atwood, por exemplo, explica que ela mesma procrastinou durante três anos antes de começar O conto da aia porque acreditava que o argumento era muito louco, e tratou de escrever um romance mais normal no seu lugar. Seu conselho: “Avance, diga algo. É possível que não seja o certo, mas depois pode você pode jogar fora e ninguém vai ficar sabendo daquela estupidez que você escreveu”. É desta forma, conta Grant no podcast, que os perfeccionistas produtivos trabalham: em vez de se preocuparem com o que os outros vão achar do seu trabalho, estabelecem objetivos elevados em função de seus próprios padrões de qualidade.

Deixar que o ‘eu do dever’ mande sobre o ‘eu do querer’

Uma ferramenta que Atwood achou útil foi promover uma espécie de desdobramento de personalidade. Para isso se valeu, por um lado, de seu nome real e, por outro, do diminutivo com o qual cresceu. “Margaret se encarrega de escrever, e a outra (Peggy) faz todo o resto”, diz a escritora. Quando uma tende a se dispersar, a outra lhe recorda o que precisa fazer.

De fato, conforme apontam os psicólogos como Grant, todos nós temos um eu dominado pelas emoções (eu do querer) e outro eu que se encarrega de fazer o certo (eu do dever), assim, quando temos que cumprir tarefas que nos dão preguiça, convém que o segundo prepondere sobre o primeiro. Para treinar o eu do dever, basta planejar e organizar nosso tempo com antecipação. Também ajuda tomar medidas para evitar distrações, ou acionar despertadores para recordar ao nosso cérebro que é hora de funcionar. Como aponta Grant, estabelecer sessões de 15 minutos diários para realizar uma tarefa deveria ser suficiente para começar a vencer a procrastinação.

Fazer uma lista de coisas a evitar enquanto se trabalha.

As redes sociais, fora
O habitual é criar listas de coisas pendentes, mas os especialistas recomendam também fazer o mesmo com aquilo com que não devemos nos distrair quando queremos levar um trabalho adiante: não fazer scroll infinito numa rede social depois de publicar, não ligar a televisão se não for para ver algo concreto etc. No caso de Atwood, essa lista de proibições inclui não olhar o Twitter nem tuitar enquanto está escrevendo. O truque que usa para conseguir é se despedir publicamente por um momento.

Twitter testa mensagens de áudio em tweets de até 140 segundos

O Twitter liberou uma novidade nesta quarta-feira (17) para alguns usuários do iPhone: os tweets de voz permitem gravar áudios e publicá-los diretamente na timeline. Cada mensagem tem limite de 140 segundos e aparece na linha do tempo com a foto de perfil e um reprodutor de mídia.

Twitter permite publicar tweets de voz através do iPhone; app permite publicar mensagens de áudio com até 140 segundos.

Twitter e mensagem de voz

Funciona assim: ao criar um novo tweet no app para iOS, há uma opção com o aviso “Grave o que está acontecendo”. Ao tocar nela, surge uma interface de gravador para criar a mensagem de áudio; basta tocar no botão vermelho de microfone. Por enquanto, não há um recurso nativo para enviar áudios pré-gravados.

A novidade será liberada “nas próximas semanas” para todos os usuários do Twitter no iOS; a rede social não menciona outras plataformas, como Android e web.

Twitter tem limite de 140 segundos para tweets de áudio
Como explica o Twitter, os áudios têm limite de 140 segundos (refletindo o antigo limite de 140 caracteres no Twitter). Você pode gravar mensagens mais longas que isso, mas elas serão cortadas em dois ou mais tweets publicados em sequência.

“Quando você atinge o limite de tempo para um tweet, um novo tweet de voz começa automaticamente a criar uma sequência de mensagens”, diz o Twitter em comunicado.

Twitter e mensagem de voz
O áudio é exibido na timeline com a foto de perfil e a duração. Ao tocar nele, o app para iPhone mostra uma barra na parte inferior para reproduzir e pausar; é possível ouvir tweets de voz com o app em segundo plano.

Na web, no Android e em tweets incorporados (exemplo abaixo), a mensagem aparece no formato tradicional de vídeo:

Vale lembrar que o Periscope, ferramenta de vídeos ao vivo do Twitter, permite incluir convidados para comentar transmissões através de mensagens de voz. Agora, também será possível postar áudios na linha do tempo; só ficou faltando ter esse recurso nas mensagens diretas (DMs), como no Instagram.

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Twitter bane mais de 170 mil perfis ligados ao governo da China

Segundo a rede social, perfis disseminavam informações falsas para difamar movimento pró-democracia em Hong Kong e espalhar críticas aos EUA e Taiwan.

Contas também publicavam notícias falsas sobre pandemia de covid-19.

Twitter cancelou mais de 170 mil perfis associados a campanhas chinesas de desinformação

O Twitter informou nesta sexta-feira (12/06) que cancelou mais de 170 mil perfis ligados ao governo da China que propagavam campanhas de desinformação que tinham como alvo o movimento pró-democracia em Hong Kong, além de disseminar propagandas antiamericanas.

Após uma análise realizada juntamente com grupos de pesquisadores, o Twitter disse que desmantelou redes associadas ao governo chinês administradas por um núcleo bastante ativo de 23.750 contas, além de outros 150 mil perfis que funcionavam como “amplificadores” desse conteúdo.

“Eles tuitavam predominantemente no idioma chinês e disseminavam narrativas geopolíticas favoráveis ao Partido Comunista da China, ao mesmo tempo em que empurravam narrativas sobre a dinâmica política em Hong Kong”, afirmou a rede social em sua análise.

O Twitter foi banido na China, assim como as plataformas Youtube, Google, Instagram e Facebook, com a imposição do chamado “Grande Firewall”, que restringe o acesso a sites de notícias e de informação de fora do país. Mesmo assim, diplomatas chineses e a imprensa estatal do país costumam recorrer a esses meios para difundir a narrativa de Pequim.

Além de disseminar a narrativa chinesa sobre os protestos em Hong Kong, os tuítes chineses também espalhavam informações falsas sobre a pandemia de covid-19 e críticas ao governo de Taiwan. Analistas e alguns governos ocidentais já vinham alertando sobre as suspeitas de que a China manipula perfis e contas controladas pelo Estado, disfarçados de usuários normais, para disseminar os pontos de vista do governo e espalhar desinformação.

Um analista do Instituto Australiano de Políticas Estratégicas (Aspi), que estudou os dados antes do anúncio feito pelo Twitter, disse que os perfis chineses lançavam críticas à reação do governo americano aos protestos antirracistas no país, no intuito de “criar uma percepção de equivalência moral com a supressão dos protestos em Hong Kong”.

“Nossa análise mostra que, ao mesmo tempo em que não permite que os cidadãos utilizem o Twitter, o Partido Comunista chinês gosta de utilizá-lo para disseminar propaganda e desinformação internacionalmente”, disse Fergus Hanson, diretor do Aspi.

O especialista observou também que as postagens da rede chinesa eram feitas, na maioria das vezes, durante o horário de expediente no país e nos dias úteis. Esse padrão, segundo Hanson, “demonstra claramente a não autenticidade e a coordenação” da divulgação de informações falsas.

O anúncio do Twitter veio no mesmo dia que o aplicativo Zoom, de conversas em grupo, acatou exigências impostas pelo governo chinês e fechou contas de ativistas pró-democracia dos Estados Unidos e de Hong Kong. A plataforma, que ganhou milhões de novos usuários durante a pandemia do novo coronavírus, foi utilizada para relembrar o massacre promovido pelo regime na Praça da Paz Celestial, em Pequim.

Twitter esconde tuíte de Trump por ‘glorificar a violência’

O Twitter ocultou um tweet do presidente Donald Trump de seu perfil, dizendo que ele viola regras sobre a glorificação da violência.

O mesmo aconteceu mais tarde, quando a conta oficial da Casa Branca twittou uma cópia das palavras do presidente.

Ele diz que “o Twitter determinou que pode ser do interesse do público que o Tweet permaneça acessível”.

Esta é a última controvérsia consecutiva entre o Twitter e a Casa Branca.

O presidente dos EUA se encontra em companhia inesperada ao lado de outros líderes mundiais cujos tweets foram censurados. Em fevereiro de 2019, o Twitter removeu um tweet do líder supremo aiatolá Ali Khamenei após parecer ameaçar o autor Salman Rushdie. Também no ano passado, várias contas associadas ao presidente cubano Raul Castro e a membros de seu governo foram suspensas, citando violações de política.

Trump estava twittando sobre a cidade americana de Minneapolis, que passou noites consecutivas de protestos após a morte de um negro sob custódia policial.O presidente disse que “enviaria a Guarda Nacional” e seguiu com um aviso de que “quando a pilhagem começa, o tiroteio começa”.

Esse segundo tweet foi escondido pelo Twitter por “glorificar a violência”.

A política do Twitter de adicionar um aviso a, em vez de excluir, tweets que violam suas regras quando se trata de grandes figuras públicas foi anunciada em meados de 2019. Mas a rede social nunca a usou em Trump – nem apagou nenhum de seus tweets antes.

“Esta é a coisa mais corajosa e arriscada que eu já vi o Twitter – ou qualquer gigante das mídias sociais -“, ​​disse Carl Miller, do Centro de Análise de Mídias Sociais do think tank Demos, sediado no Reino Unido.

“Isso joga combustível de foguete sobre o debate de danos online versus liberdade de expressão. A política de conteúdo online não fica mais incendiária do que isso”.

A mesma publicação permanece inalterada no Facebook, sem nenhum aviso anexado.

Na sexta-feira, o presidente procurou esclarecer os tweets dizendo que era mal interpretado.

“Saques levam a tiros, e é por isso que um homem foi morto a tiros em Minneapolis na noite de quarta-feira – ou veja o que aconteceu em Louisville com 7 pessoas baleadas”, ele twittou.

Sete pessoas foram baleadas em Louisville, Kentucky, em um protesto pela morte de Breonna Taylor, que foi baleada por três policiais brancos em março.

“Não quero que isso aconteça, e é isso que a expressão divulgada na noite passada significa”, escreveu ele.

A medida significa que outros usuários não poderão gostar, responder ou simplesmente retweetar a publicação de Trump, disse o Twitter. No entanto, eles ainda poderão retuí-lo com um comentário anexado.

Em um tópico do Twitter, a rede social afirmou: “Este tweet viola nossas políticas sobre a glorificação da violência com base no contexto histórico da última linha, sua conexão com a violência e o risco de que possa inspirar ações semelhantes hoje”.

O “contexto histórico” é uma referência à frase “quando o saque começa, o tiroteio começa”, cunhado pelo chefe de polícia de Miami, Walter Headley, em 1967, em referência às suas políticas agressivas de policiamento em bairros negros.

Um relatório posterior apresentado à Comissão Nacional de Causas e Prevenção da Violência descobriu que sua política de “endurecer”, envolvendo “a exibição frequente de espingardas e cães pela polícia de Miami em bairros negros”, contribuiu para um estado de agitação na comunidade negra. até a erupção do motim de Miami em 1968, oito meses depois.

O Twitter disse: “Agimos com o intuito de impedir que outros se inspirassem a cometer atos violentos, mas mantivemos o tweet no Twitter porque é importante que o público ainda possa ver o tweet, dada sua relevância para os assuntos em andamento. de importância pública “.

Horas depois que o aviso foi adicionado, o presidente Trump twittou: “O Twitter não está fazendo nada sobre todas as mentiras e propaganda divulgadas pela China ou pelo Partido Democrata da Esquerda Radical” e alegou que a rede social estava mirando republicanos.

Ele se referiu diretamente a ordem executiva que assinou na noite anterior, com o objetivo de remover algumas das proteções legais dadas às plataformas de mídia social.

No início desta semana, o Twitter usou sua função de verificação de fatos para anexar avisos aos tweets do presidente pela primeira vez. Isso levou o presidente a ameaçar “desligar” as redes sociais por supostamente sufocar a liberdade de expressão.

A ordem executiva assinada por Trump não tem efeito imediato nas redes sociais, no entanto – em vez disso, inicia um processo demorado que pode resultar em mudanças na linha.