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Estas imagens vão fazer você repensar o meio ambiente

Estas 19 imagens vão fazer você repensar sua postura sobre o meio ambiente
Por mais que educação sustentável esteja em pauta e que a preocupação com o meio ambiente faça cada vez mais parte da nossa vida, algumas pessoas teimam em não mudar pequenos hábitos – e são justamente esses pequenos hábitos que fazem a diferença. Separar o lixo produzido entre o que é reciclável e o que é orgânico, por exemplo, já seria um bom começo.

Infelizmente, apesar de sermos criaturas inteligentes, nem sempre agimos com coerência, e o ditado “o que os olhos não veem o coração não sente” acaba por resumir muitas atitudes que, se começássemos a analisar mais de perto, nos deixariam envergonhados.

Problema de todos

A questão é: se você não aprendeu ainda que faz parte de um todo gigantesco e que, por fazer parte, tem direitos e deveres relacionados à saúde, digamos assim, desse todo, talvez mude suas atitudes a partir do momento em que enxergar o que a negligência humana pode provocar no planeta e no vida de quem vive por aqui.

O Bored Panda selecionou algumas imagens chocantes e que mostram o quanto a poluição afeta a vida de animais que não têm nada a ver com a sua falta de interesse pelo meio ambiente. Confira essas imagens a seguir e depois nos diga: será que não está na hora de você mudar suas atitudes?

1 – Cágado preso em um pedaço de plástico

2 – Um coala perdido

3 – Mais uma tartaruga que teve seu desenvolvimento prejudicado por um pedaço de plástico

4 – Pássaro em meio a uma mancha de óleo

5 – Foca machucada em seu próprio habitat

6 – Essa não é a cegonha que você imaginava quando era criança

7 – Pinguins imersos em óleo

8 – Onda cheia de lixo em Java, na Indonésia

9 – Tá vendo este menino?

O trabalho dele é coletar lixo reciclável todas as manhãs. O material é vendido por pouco mais de R$ 1 o quilo.

10 – Em Hong Kong os turistas tiram foto em frente a um mural que mostra como a cidade foi um dia

11 – Mais uma foca que se deu mal com o lixo que foi parar no mar

12 – Pássaro contaminado em uma mancha de óleo

13 – Garoto nada em um rio poluído na Índia

14 – Menino bebe água poluída em cidade na China

15 – Um retrato da poluição em Pequim

16 – Trabalhador chinês tenta retirar centenas de peixes mortos em um rio

17 – Esta é a Muralha da China

18 – Um retrato da seca brasileira

19 – Queima da Floresta Amazônica, no Brasil

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Emergência climática. 11 mil cientistas alertam para “sofrimento incalculável”

Emergência climática. 11 mil cientistas alertam para “sofrimento incalculável”Ativistas pelo clima continuam a fazer-se ouvir em todo o mundo. Foto: Ian Langsdon/EPA

Na carta, publicada esta terça-feira na revista “BioScience”, os cientistas afirmam que “as alterações climáticas já chegaram e estão a evoluir mais depressa do que muitos cientistas esperavam”.

“A crise climática é mais grave do que se antecipava e ameaça ecossistemas naturais e o futuro da humanidade. Para assegurar um futuro sustentável, temos de mudar a forma como vivemos e isso envolve grandes mudanças na forma como a sociedade global funciona e interage com os ecossistemas naturais”, lê-se na missiva.

A carta tem por base os dados científicos que foram estabelecidos pela primeira vez na Conferência Mundial do Clima em Genebra, 1979.

“Não obstante 40 anos de negociações globais ao mais alto nível, continuamos a viver como se nada fosse e não estamos a resolver esta crise”, diz William Ripple, professor de ecologia na Universidade de Oregon, que encabeça a carta.

Os especialistas dizem ter a obrigação moral de “avisar a humanidade para a ameaça catastrófica” que as alterações climáticas representam e “dizer as verdades”, afirmando “clara e inequivocamente que o planeta Terra está a enfrentar uma emergência climática”.

Na missiva, os cientistas lamentam ainda que as emissões de dióxido de carbono continuem a aumentar em todo o mundo e avisam que serão necessárias mudanças radicais nos estilos de vida para poder contrariar esta tendência.

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O mundo sob efeito das mudanças climáticas

Exposição coloca em evidência o mundo sob efeito das mudanças climáticas

Simulação do cenário do módulo [Des]ordem. Foto: Divulgação.

Jornalista experiente na área ambiental, Felipe Lobo cultiva, há pelo menos uma década, o desejo de comunicar melhor os efeitos das mudanças climáticas na vida comum das pessoas. A ideia se concretizou nesta quinta-feira (10), na Cidades das Artes, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde ficará até 10 de novembro a exposição O Dia Seguinte, fruto dessa ambição.“Sempre senti que estava faltando alguma coisa, que faltava um toque diferente para fazer com que as pessoas perceberem que falar sobre mudanças climáticas é muito mais do que falar sobre árvores, degelo ou qualquer assunto que possa parecer que está muito distante das pessoas”, explica Lobo, em conversa com ((o))eco por telefone.

A exposição ocupa dois andares na Cidade das Artes e está dividido em seis módulos, com foco em como as mudanças climáticas atinge as cidades. Leia a entrevista com Felipe Lobo.

*

Como surgiu a ideia? O que é o Dia Seguinte? 

Dia Seguinte surgiu de uma inquietação minha e a da Tiza Lobo, que é a minha sócia, de como as mudanças climáticas e o tema ambiental e sustentável como um todo é tratado, seja na grande imprensa, seja nas universidades e na comunicação de uma forma geral para as pessoas. Eu pelo menos, que trabalho com isso há doze, treze anos, sempre senti que estava faltando alguma coisa, que faltava um toque diferente para fazer com que as pessoas perceberem que falar sobre mudanças climáticas é muito mais do que falar sobre árvores, degelo ou qualquer assunto que possa parecer que está muito distante das pessoas.

Falar sobre mudanças climáticas, para mim, é muito mais falar sobre modelo de desenvolvimento. Falar sobre saúde, sobre segurança, sobre educação, cidadania, igualdade de gênero. Enfim, tudo o que importa para o nosso dia a dia.

Ao longo desses últimos tempos viemos pensando em como a gente poderia mostrar mais claramente como esse assunto é fundamental, urgente e que pertence a todos nós, independente da nossa classe social, de onde a gente vive, do que a gente faz e com o que a gente trabalha. As mudanças climáticas significam muito para as nossas vidas. Todos nós nos importamos em ter saúde, em ter segurança, paz, em ter tranquilidade, ter inclusão e tudo isso passa pelas mudanças climáticas.

Mas isso não é facilmente entendido pelo público

O jornalista Felipe Lobo. Foto: Arquivo Pessoal.

As pessoas acham que [as mudanças climáticas] vão acontecer daqui a muitos anos ou que são coisas que acontecem com os outros e não acontecem com elas ou que é um assunto que elas não precisam se preocupar agora. A gente quer mostrar que as mudanças climáticas, embora impactem em grande parte dos marginalizados de sempre, que são as mulheres, as pessoas mais pobres, a população negra, elas em algum momento podem atingir a todos. E mesmo que não atinjam, elas precisam ser tratadas com rigor porque elas já estão atingindo muitas pessoas e a gente precisa ter um pouco mais de empatia, um pouco mais de solidariedade com quem sofre com os efeitos. Decidimos que para tentar fazer isso de uma forma menos técnica, valia a pena fazer uma exposição sensorial, uma exposição imersiva, para que as pessoas consigam vivenciar de uma forma diferente o que são mudanças climáticas, o que elas significam para a gente e o que elas significam para as cidades.

E por que focar em cidades?

As cidades, embora ocupem apenas 2% da superfície terrestre, elas são lar de mais de 50% da população mundial — no Brasil, mais de 80%. Então, falar de cidades é muito importante porque elas são causa, consequências e também são a solução. São nas cidades que estão os governos locais, onde estão as academias, os recursos financeiros, as organizações da sociedade civil. São nos grandes centros urbanos que a gente começa a reverter este cenário também.

Me fala por que vocês escolheram inaugurar a exposição na Cidade das Artes e como está funcionando?

Primeiro que a gente queria fazer no Rio de Janeiro. Nós somos daqui e a gente sente que o Rio está muito carente de eventos culturais gratuitos. Decidimos pela Cidade das Artes, primeiro, porque é linda e estamos conseguindo fazer uma cenografia incorporada à arquitetura que está funcionando super bem. Em segundo lugar, porque ela fica na zona oeste da cidade. Quem é da zona sul acaba pensando apenas em Barra da Tijuca e a zona oeste tem Bangu, Santa Cruz, Tanque, Anil, Jacarepaguá etc. que são lugares que carecem muito de eventos culturais gratuitos. Então a gente quis ocupar o espaço da zona oeste com uma exposição como essa, super tecnológica, super imersiva para toda a família, cem por cento gratuito.

Há um braço do projeto que é educativo, temos ônibus para buscar e levar crianças de escolas municipais e estaduais para visitar a exposição.

Como ficou dividido a exposição?

Cartaz da Exposição.

Ficou dividida em cinco módulos. O primeiro deles se chama Bem-vindos ao dia seguinte e é composto por uma estrutura de andaime muito bonita com uma bola bem grande de materiais reciclados, muito plástico reciclado que ia ser descartado e a gente está usando com arte e depois a gente vai entregar para cooperativas de reciclagem. Embaixo dessa escultura vai ter um piso de LED que mostra uma água super límpida passando e depois começa a ficar super sujo com petróleo, com plástico, para as pessoas terem ideia do que se trata a exposição.

Logo em seguida tem um módulo que se chama [Des]Ordem, que é um módulo de choque. Que é uma estrutura com LEDs nas paredes e no teto e com sensações como vento, fumaça, enfim que a gente vai nesses LEDs a gente vai passar vários eventos climáticos extremos. Furacão, tempestade, inundação, seca, nevasca, para mostrar durante esses quatro minutos o que a gente vai viver no futuro. Hoje esses eventos são considerados extremos, mas no futuro podem ser frequentes se a gente começar a agir desde já. Então ali a gente quer chocar.

Logo depois tem outro módulo que se chama [Des]Humanidades, que é o módulo que a gente quer sensibilizar. Então a gente mostra o que as mudanças climáticas já causam hoje para o planeta e para as pessoas. A gente fala quem são os desabrigados, número de mortes, número de afetados etc. Tem um filme bem bonito que passa numa tela de 12 metros de comprimento e a gente tem do outro lado dessa tela seis depoimentos de brasileiros que sofreram com mudanças climáticas, seja com inundação, com seca, precisar migrar para outras cidades.

Logo depois a gente tem o módulo [Trans]Formação, que é o módulo em que a gente informa. Então, a gente chocou no Desordem, sensibilizou no Desumanidades, e no Transformação, a gente informa. É uma projeção mapeada com paredes bem grandes, globo solar, globo terrestre. Tem o piso também. Mostrando como as cidades foram construídas desde o Big Bang, passando pela Pangeia, época dos dinossauros e tal, até chegar na Revolução Industrial. E aí, a gente mostra como a partir da Revolução Industrial, a gente se transformou nessas mega e complexas metrópoles e como nós, seres humanos, passamos a ser responsáveis pelas mudanças do clima, a partir do momento em que a gente descobriu a queima de combustíveis fósseis etc. E no meio desse caminho, entre a [Trans]Formação e o [Des]Humanidades, tem um espaço com 8 telas touch, duas para cada módulo e uma tela de jogos, chamado espaço [In]Formativo. Nessas telas touch a gente faz várias iconografias, animações para explicar um pouco mais sobre mudanças climáticas: quais foram as reuniões mais importantes do clima? o que é poluição plástica? o que é água? o que é energia? o que saneamento? como o planeta está esquentando? quais são as projeções do clima para o futuro? e assim por diante.

Simulação do cenário do módulo [In]Formativo. Foto: Divulgação.

E por fim, tem um espaço que se chama [R]Evolução, que é o espaço onde a gente traz a esperança. Após tudo, a gente reforça que ainda está em tempo de mudar, embora o tempo seja muito curto, ainda tem tempo de mudar, a gente ainda pode transformar o planeta num lugar melhor, numa cidade inclusivas, mais sustentável. A gente mostra exemplos de cidades pelo mundo que já fazem o esforço de utilizar uma economia de baixo carbono e assim por diante. Então a gente termina a exposição com esse olhar de esperança e conectado à zona oeste. A ONU é um dos parceiros da exposição. A gente tem um painel mostrando como o clima pode ser diferente. Se a gente tiver as políticas públicas de base que consigam oferecer qualidade de vida para as pessoas e um caminho de transição para um mundo melhor.
Daniele Bragança

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Fundos que controlam 16 trilhões de dólares cobram pela crise na Amazônia

Fundos financeiros de 30 países que movimentam 16 trilhões de dólares exigem que Brasil adote medidas eficazes para proteger a Amazônia em meio à recente crise ambiental.Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 03

A Amazônia brasileira perdeu em agosto 1.698 quilômetros quadrados de sua cobertura vegetal por conta das queimadas.
Foto FERNANDO BIZERRA JR

Brasil só julgou 14 dos 300 assassinatos de ambientalistas da última década

Sob pressão, Câmara reinicia debate sobre lei que flexibiliza licenciamento ambiental

Boicote por crise dos incêndios na Amazônia chega ao mercado financeiro e acende alerta.

A crise ambiental provocada pelo aumento dos incêndios na Amazônia brasileira se refletiu com força no mercado financeiro. Nesta quarta-feira, um total de 230 fundos de investimento internacionais que juntos administram 16 trilhões de dólares (cerca de 65 trilhões de reais) –valor equivalente a cerca de nove vezes o PIB do país em 2018– publicaram um manifesto, colocando mais pressão para que o Governo brasileiro apresente medidas efetivas para proteger a floresta amazônica e deter o desmatamento. O manifesto foi divulgado no mesmo dia em que a Organização das Nações Unidas (ONU) vetou o discurso do presidente Jair Bolsonaro ou de um representante brasileiro na cúpula do clima da próxima semana em Nova York. A justificativa é que o Brasil não apresentou um plano concreto e inspirador de aumento do compromisso de enfrentar a mudança climática.

Em um contexto de aumento da degradação e de debilidade na fiscalização ambiental no Brasil, empresas e fundos de investimento manifestaram preocupação com o impacto financeiro que o desmatamento na Amazônia pode ter nas empresas nas quais possuem participações, o que poderia aumentar os riscos de reputação, operacionais e regulatórios.

Os 230 fundos de investimento que colocaram mais pressão no Governo Federal nesta quarta-feira pedem às empresas que “redobrem seus esforços e demonstrem um claro compromisso de eliminar o desmatamento em suas operações e cadeias de abastecimento”. Trata-se de um grupo grande que investe um valor em torno de nove vezes o PIB brasileiro do ano passado. Nesse sentido, seu manifesto pode ter uma força importante para alertar as empresas que são coniventes com o desmatamento.

A responsabilidade ambiental, social e de governança (conhecida sob a sigla em inglês ESG) é um critério crescente nas carteiras de fundos de investimento em todo o mundo, como reflexo dos grupos de pressão na sociedade organizados em torno da luta contra a mudança climática. Na semana passada, grupos liderados pela ESG disseram que a onda de incêndios no Brasil entrou no radar.

O Brasil registrou entre janeiro e a terceira semana de agosto um total de 71.497 focos de incêndio, o maior número do mesmo período nos últimos sete anos, e pouco mais da metade ocorreu na maior floresta tropical do mundo. “Considerando o aumento das taxas de desmatamento e os recentes incêndios na Amazônia, estamos preocupados que as empresas expostas ao possível desmatamento em suas operações e cadeias de abastecimento brasileiras tenham cada vez mais dificuldades para ter acesso aos mercados internacionais”, diz a nota conjunta dos 230 fundos de investimento.

Eles se juntam a mais empresas e outros fundos de investimento que já tinham reagido nas últimas semanas contra a política ambiental do Governo Federal. O presidente minimizou a mudança climática e o desmatamento ilegal, assim como rejeitou as críticas de países como França e Alemanha. Sem um plano ambicioso para enfrentar a mudança climática, o presidente nem sequer poderá discursar na cúpula da ONU na próxima semana. A Organização havia solicitado aos países que apresentassem um plano com seus compromissos climáticos e selecionou os 63 que tinham os discursos mais inspiradores. O Brasil ficou fora dessa lista, assim como os Estados Unidos e outros países.

A crise ambiental brasileira se tornou um golpe na imagem internacional do país. Há pouco menos de duas semanas, a gigante da moda H&M anunciou a suspensão, com efeito imediato, da compra de couro brasileiro. Alegou “a conexão dos graves incêndios da Amazônia com a pecuária”. A decisão, segundo a empresa, ficará em vigor “até que existam sistemas de controle confiáveis de que o couro não contribui para os danos ambientais na Amazônia”.

O Brasil sofre uma campanha de boicote aos seus produtos, promovida por empresas internacionais que têm uma clientela cada vez mais preocupada com a mudança climática. Além da H&M, as empresas VFcorp, Vans e The North Face também anunciaram que deixariam de comprar couro brasileiro.

Desmatamento,Meio Ambiente,Ecologia,Natureza,Blog do Mesquita 07

Os entraves à punição de crimes ambientais no Brasil

Embora legislação estabeleça penas e multas, lentidão do Judiciário e recursos infindáveis movidos por infratores contribuem para sensação de impunidade. Órgãos de fiscalização enfrentam falta de pessoal e de verbas.   

Agentes do Ibama em operação no Amazonas, em 2017Agentes do Ibama em operação no Amazonas, em 2017

A matemática das multas ilustra bem os entraves enfrentados no Brasil para a punição de crimes ambientais. Em 2017, por exemplo, o valor total das multas aplicadas pelo Ibama foi de R$ 3,2 bilhões.No entanto, a média histórica aponta que apenas 5% do valor cobrado acaba sendo pago. E da soma arrecadada, 80% são destinados ao Tesouro Nacional, e apenas 20% ao Fundo Nacional do Meio Ambiente – destinado à implementação da Política Nacional do Meio Ambiente.

O principal motivo por trás dessa inadimplência vultosa é o trâmite lento dos processos. Primeiramente, na estrutura interna do Ibama. Uma auditoria da Controladoria Geral da União concluída em abril deste ano encontrou 96,4 mil processos parados no principal órgão de fiscalização ambiental do país à espera de digitalização. As multas não cobradas somam R$ 20,8 bilhões.

Quando os processos chegam à Justiça, ficam em banho-maria devido às restrições operacionais dos tribunais e aos recursos infindáveis movidos por infratores que apostam na lentidão do trâmite visando à prescrição dos crimes.

Um dos exemplos mais notáveis desse cenário é o rompimento da barragem de Mariana (MG), em 2015, o maior desastre ambiental do país. Multada em R$ 350 milhões pelo Ibama, a Samarco, mineradora controlada por Vale e BHP Billiton, recorreu dos 25 autos de infração lavrados pela autarquia e não pagou nenhum deles até o momento.

Em seu balanço financeiro mais recente, divulgado em setembro do ano passado, a Vale prevê um orçamento de R$ 13 milhões para custear perdas judiciais no curto prazo. O valor corresponde a apenas 0,16% do que a empresa terá de pagar se for condenada nos processos ambientais em que está envolvida, que totalizam R$ 7,93 bilhões. A discrepância evidencia que os infratores contam com a estratégia dos recursos para se livrar das penas.

O processamento dos crimes é ainda mais lento em regiões menores. Em Santarém, município do Pará, estado com maior índice de desmatamento da Amazônia Legal, a Subseção da Justiça Federal tem quatro vagas para juiz. Antes de 2017, quando chegaram dois novos magistrados, apenas um exercia a função. Mesmo com a equipe maior, os casos julgados atualmente datam de 15 anos atrás.

Código Florestal e desmatamento ilegal

Para atenuar o clima de impunidade criado pela lentidão da Justiça, driblar a burocracia e assegurar a penalização, o Estado brasileiro buscou alternativas. Em 2008, o governo federal assinou o decreto 6.514, que autoriza o Ibama e órgãos conveniados a apreender equipamentos agrícolas, cabeças de gado, além de produtos e subprodutos gerados por atividades criminosas em casos de infração ambiental.

A medida impulsionou o combate ao desmatamento, que caiu quase 80% entre 2005 e 2012. Após esse intervalo, observou-se um aumento de 71% do indicador na Amazônia Legal entre 2012 e 2018. O ponto de virada é justamente o ano de aprovação do novo Código Florestal, 2012, que anistiou o desmatamento ilegal de 41 milhões de hectares, cujo reflorestamento foi abandonado.

“Essa anistia passou uma sensação de impunidade imensa”, avalia Paulo Barreto, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O especialista lembra que, mesmo antes do novo Código Florestal, os governos petistas se valeram de medidas provisórias para reduzir áreas de conservação, a fim de viabilizar projetos de hidrelétricas na região Norte.

“O agronegócio pensou: se o governo fez isso para o setor hidrelétrico, fará para nós também”, comenta Barreto. “Em resposta ao endurecimento da fiscalização ambiental, esse setor se organizou no lobby ruralista, e foi bem-sucedido no objetivo de anistiar o desmatamento ilegal.”

Ibama sob fogo

Apesar da escalada do desmatamento, os órgãos de fiscalização ambiental se mantiveram atuantes, apesar das restrições operacionais. O Ibama apresenta um déficit de 47% no quadro de servidores e pleiteia a abertura de um concurso desde o início de 2018, sem resposta do governo federal.

Neste ano, a autarquia vem tendo que lidar com problemas adicionais. Pela primeira vez, o presidente da República tem um discurso abertamente hostil à sua atuação.

Após desautorizar uma operação do Ibama contra roubo de madeira dentro da Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia, em um vídeo postado no Facebook, em abril, Jair Bolsonaro manifestou a intenção de mudar as regras sobre infrações ao meio ambiente estabelecidas no decreto 6.514 de 2008.

Além disso, o Ibama não foi poupado dos contingenciamentos orçamentários do governo federal. O repasse de R$ 368 milhões autorizado em 2019 no orçamento da União para despesas discricionárias, que não incluem pagamento de pessoal, foi limitado a R$ 287 milhões.

“Com esse valor, haverá muita dificuldade para finalizar o ano, e as perspectivas para 2020 são de um corte ainda maior. Se essas reduções de orçamento não forem revistas, o funcionamento do Ibama ficará inviabilizado”, alerta Suely Araújo, ex-presidente do órgão que deixou o cargo em janeiro deste ano.

Queda na fiscalização

Em meio às queimadas na Amazônia, o Ministério Público Federal (MPF) do Pará abriu investigações em quatro municípios do estado para apurar a diminuição do número de fiscalizações ambientais na região e a ausência da Polícia Militar no apoio às equipes de fiscalização.

Apesar de os dados oficiais indicarem aumento no desmatamento, e povos da floresta relatarem a emergência de crimes ambientais, o MPF tem recebido cada vez menos autos de infração lavrados pelo Ibama e pelo ICMBio. O procurador Camões Boaventura considera que a mensagem do Executivo tem sido a pior possível, marcada pelo desprezo à pauta ambiental e à ciência.

Cientista da Nasa analisa incêndios na Amazônia

“O estado do Pará, que historicamente lidera o índice de desmatamento no Brasil e também o de mortes por violência no campo, está desde o início do ano sem um superintendente nomeado no Ibama. O recado do governo é uma convocação à depredação da floresta”, critica.

Boaventura frisa, ainda, que o combate ao desmatamento não é uma opção, independentemente da afinidade com a pauta de quem está no poder.

“Está consolidado nas instâncias judiciais nacionais o entendimento de que restrições de cunho orçamentário não podem ser impostas indiscriminadamente a ponto de obstar a concretização das ordens constitucionais relativas aos direitos fundamentais da sociedade, como é o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, à saúde e à vida, todos de estatura constitucional”, afirma.

Penas brandas

O procurador do MPF considera, ainda, que a Lei de Crimes Ambientais, aprovada em 1998, é branda na penalização. Ele lembra que o dano direto ou indireto às unidades de conservação, incluindo o desmatamento, tem pena prevista de um a cinco anos, com margem para suspensões condicionais do processo. O crime de incêndio florestal, por sua vez, leva à reclusão de dois a quatro anos.

As operações Castanheira (2014) e Rios Voadores (2016), realizadas em parceria pelo MPF, Polícia Federal, Receita Federal e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente tiveram grande repercussão. O trabalho conjunto resultou na prisão de integrantes da cúpula do crime ambiental organizado, envolvidos em crimes como formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão fiscal.

Estima-se que a família Vilela, alvo da Rios Voadores, tenha movimentado R$ 1,9 bilhão entre 2012 e 2015 e destruído uma área de floresta equivalente ao município de Belo Horizonte.

Barreto, do Imazon, acredita que essa investida articulada do poder público pode ser a forma mais eficiente de causar prejuízos à atividade criminosa.

“São crimes com penas altas, que podem passar dos 50 anos de prisão, e envolvem bloqueio de dinheiro. Se pegarem cem quadrilhas desse tipo, o efeito é muito mais poderoso que emitir 8 mil multas”, sugere.

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Um tiro no pé para o agronegócio e para a economia

600 cientistas de instituições europeias pediram para que a União Europeia (UE), segundo maior parceiro comercial do Brasil, condicione a compra de insumos brasileiros ao cumprimento de compromissos ambientais.

Inverdade afirmar que a agenda brasileira na área do meio ambiente já viveu um cenário que possa ser definido como adequado ou ao menos suficiente. Ao contrário, mesmo com todos os avanços obtidos na nossa legislação, considerada uma das melhores do mundo nesse campo, o efetivo cumprimento das regras sempre foi falho. Os avanços reais, na verdade, são fruto de um esforço descomunal de instâncias que, mesmo com todas as limitações, geraram espaço para resultados positivos relevantes.

Por meio de novos insumos tecnológicos, cada vez mais acessíveis, nos dias atuais o monitoramento da degradação passou a ser uma ferramenta efetiva para coibir ações ilegais e alertar a sociedade sobre os excessos em curso em todo o País – notadamente na Amazônia e no Cerrado em função da escala e da velocidade da destruição observada, em grande parte devido à expansão descontrolada da fronteira agrícola.

Mesmo sem a efetividade suficiente, os esforços de conservação das últimas décadas no Brasil causaram efeitos positivos nas relações diplomáticas, qualificando o País perante aqueles que importam nossos principais produtos. A preocupação e o protagonismo com temas como perda da biodiversidade e mudanças climáticas conferiram ao Brasil um papel de liderança em discussões importantes, como nas Conferências das Partes, implantadas a partir da Rio-92.

É importante sinalizar que em alguns setores da indústria ocorreram extraordinários avanços tecnológicos para mitigar impactos ambientais negativos. Já no que se refere à proteção do patrimônio natural, as perdas representam uma situação crônica, aumentando ou diminuindo de intensidade ao longo do tempo, mas sem uma perspectiva concreta de controle efetivo.

Entramos no século 21 mantendo índices absurdos de degradação do meio ambiente. No caso órgãos ambientais governamentais, sempre foi prática corrente conduzir suas ações no sentido de minimizar perdas, negociando dentro das possibilidades as agendas que geram maiores impactos.

Mas na realidade, o Ministério do Meio Ambiente e suas diferentes autarquias, como o IBAMA, o ICMBio e o Serviço Florestal Brasileiro, bem como instâncias estaduais e municipais responsáveis pela proteção do patrimônio natural, historicamente sobrevivem com extrema limitação. É evidente a presença de uma política crônica para dificultar o cumprimento dessa missão.

“A preocupação e o protagonismo com temas como perda da biodiversidade e mudanças climáticas conferiram ao Brasil um papel de liderança em discussões importantes, como nas Conferências das Partes, implantadas a partir da Rio-92.”.

Mesmo com uma condição inadequada de trabalho, os órgãos ambientais, muitas vezes em parceria com instâncias do terceiro setor e da academia, implementaram um amplo rol de avanços excepcionais visando proteger áreas naturais. Dentre eles a criação de novas Unidades de Conservação e o estabelecimento do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Também são de extrema relevância os programas e proteção de espécies ameaçadas e ações de restauração de áreas degradadas, dentre muitas outras atividades.

Chegamos a 2019 com enormes desafios para ajustar a agenda da conservação do patrimônio natural. Uma luta heroica e ao mesmo tempo desleal, se considerarmos a capacidade de investimento disponível para a proteção do meio ambiente e as enormes cifras oportunizadas para financiar projetos, muitas vezes subsidiados, que implicam em ações de degradação da natureza, como a mineração e a expansão agropecuária.

A recém implantada nova gestão federal já mostrou a que veio, ignorando todo o arcabouço de atividades que precisam ser mantidas e incrementadas no campo da conservação. Não apenas na proteção de áreas públicas e privadas e no incentivo a práticas de combate ao aquecimento global, dentre muitas outras agendas de enorme relevância.

Esse comportamento demonstra desprezo ao enorme potencial de introdução de atividades de turismo de natureza em escala internacional no Brasil, um enorme campo para o desenvolvimento socioeconômico – desde que nossas Unidades de Conservação sejam mantidas, valorizadas e estruturadas.

A avidez para que seja implementado um desmonte da agenda ambiental, tendo como escudeiro o ministro Ricardo Salles está sustentada por interesses explicitados por grupos setoriais cobrando favores de campanha. Claramente essa conduta não representa uma estratégia coerente para o desenvolvimento do País.

“A recém implantada nova gestão federal já mostrou a que veio, ignorando todo o arcabouço de atividades que precisam ser mantidas e incrementadas no campo da conservação.”
Impressiona sua conduta desviada ao, seguidamente, relacionar a agenda básica de conservação do país como antagônica ao desenvolvimento.

É de conhecimento pleno que o ministro do Meio Ambiente foi uma escolha realizada a dedo pelo presidente e seu grupo mais próximo. Uma forma de compensar à altura a não anexação dessa pasta com o Ministério da Agricultura, uma vez que a reação da opinião pública o impediu. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, demonstra não apenas falta de conhecimento, uma vez que é um novato na área que assumiu a poucos meses atrás. Ele é responsável por uma conduta de forte viés ideológico e cumpre um papel predeterminado de minar sua própria casa.

As demonstrações de poder exacerbadas e truculentas, que estamos assistindo todos os dias, seguem em direção contrária ao cumprimento de uma agenda ambiental avançada e propositiva, desejo da enorme maioria da população. Eventos contrários aos desmandos em curso se sucedem em vários pontos do País. Mas é fora do Brasil que se encontra talvez o mais efetivo meio de contestação.

Sustentado pela visão assustadoramente retrógrada, a postura do Governo Federal na pauta do meio ambiente já está gerando reações na opinião pública internacional, como demonstra o exemplo da carta assinada por mais de 600 cientistas de instituições europeias pedindo para que a União Europeia (UE), segundo maior parceiro comercial do Brasil, condicione a compra de insumos brasileiros ao cumprimento de compromissos ambientais.

Despencamos em relação à nossa imagem duramente construída ao longo das últimas décadas. De um País que se mostra interessado em colaborar concretamente com a agenda ambiental global, passamos a representar um exemplo de retrocesso. Uma abertura de flanco extremamente vulnerável.

Foto: Eliezer Pedroso/Flickr.

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A responsabilidade do Brasil no futuro do meio ambiente

Poluição,Recursos Naturais,Crimes Ambientais,Clima,Aquecimento Global,Ambiente & Ecologia,Brasil,Ecologia,Desmatamento,Amazônia,Blog do MesquitaA Floresta Amazônica detém a maior biodiversidade do planeta e precisa ser protegida
Foto deDaniel Beltrá/ Greenpeace

“A natureza não pode ser vista como um mero recurso econômico, mas como uma garantia de vida das futuras gerações”, afirma Nilo D’Ávila, Diretor de Campanhas do Greenpeace Brasil.

“Reduzir o combate ao desmatamento faz com que o Brasil perca competitividade econômica, o que pode inclusive afetar a geração de empregos. Mercados internacionais e consumidores querem garantias de que o nosso produto agrícola não esteja manchado com a destruição florestal”, declara D’Ávila.

Durante sua campanha, Bolsonaro não apresentou propostas para o meio ambiente, mas sim ameaças. Agora que foi eleito presidente, exigimos responsabilidade com a agenda socioambiental. Precisamos agir agora para evitar que a temperatura do planeta suba para além de 1.5 graus. Bolsonaro pode ser um dos últimos presidentes do Brasil que pode agir a tempo de evitar um dano irreversível ao planeta.

Por isso, trabalharemos para proteger a floresta, combater as mudanças climáticas e denunciar retrocessos, nos opondo à perda de direitos e ao enfraquecimento da democracia brasileira.

Ao longo de 26 anos no Brasil, o Greenpeace nunca se furtou a criticar governos e políticos cujos projetos representassem ameaça ao meio ambiente e à população, independente do partido ou da cor da bandeira que defendem. Foi esta nossa linha de conduta nos governos Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer e com Parlamentares dos mais diversos campos.

Greenpeace continuará defendendo o meio ambiente, a paz e a justiça social. Esses são os valores que guiam a organização desde a sua fundação, assim como a independência e a não violência.

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Meio Ambiente: Demanda europeia de biocombustível incentiva desmatamento

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Antes alardeado como fonte renovável de energia do futuro, o óleo de palma avançou rapidamente graças a suas “credenciais verdes”. E se tornou um dos principais biocombustíveis para veículos na União Europeia, como comprovam números do setor recentemente revelados. No entanto, organizações ambientais denunciam que seu uso na realidade impulsiona o desmatamento e prejudica o meio ambiente ainda mais do que as fontes de energia fósseis, que veio para substituir.

Desde 2014, quase a metade do óleo de palma usado na Europa abasteceu carros e caminhões, segundo dados compilados pela Federação das Indústrias de Óleo Vegetal e Oleaginosas da União Europeia (Fediol, na sigla em inglês) e obtidos pela ONG Transport & Environment (T&E), sediada em Bruxelas, em cooperação com a organização alemã de proteção à natureza Nabu.

Área desmatada na Indonésia para plantação de palmeirasV
Vasta área desmatada na Indonésia para plantação de palmeiras

Impacto devastador

Só perdendo para a canola, o óleo de palma é o segundo combustível renovável mais usado: entre 2010 e 2014 sua demanda mais do que quintuplicou. Os números mostram, além disso, que o crescimento de 34% do biodiesel – biocombustível misturado a diesel – no bloco se deveu inteiramente à importação de óleo de palma.

Em contrapartida, grandes plantações de palmeiras vêm tomando o lugar da floresta tropical nativa, sobretudo no sudeste da Ásia. O impacto é devastador tanto para a biodiversidade como para o balanço das emissões de gases causadores do efeito estufa. O desmatamento na Indonésia foi o maior do mundo em 2014. Na média, o biodiesel é atualmente 80% pior para o clima do que o diesel fóssil, acusa a T&E.

O óleo de palma provém da mesma planta de que se extrai o azeite de dendê, sendo também empregado na alimentação, cosméticos e ração animal. Nesses setores, porém, sua aplicação está em baixa, em parte devido à pressão de grupos ambientalistas sobre as grandes corporações.

Até agora não havia dados sobre a participação da palma na composição de produtos da UE. Segundo Jos Dings, diretor-executivo da T&E, as novas revelações “mostram a feia verdade sobre a política de biocombustíveis da Europa, que impulsiona o desmatamento, eleva as emissões por transportes e não ajuda em nada aos agricultores europeus”.

Fruto do dendê, da Indonésia
Fruto do dendê tem diversos usos na indústria.

Biocombustíveis de segunda geração como resposta

Os argumentos a favor dos biocombustíveis pareciam convincentes: queimá-los liberaria a mesma quantidade de gás carbônico que as plantas absorvem do ar, resultando num saldo de emissões neutro.

Mas na realidade acontece o oposto: estudos demonstram que, considerando-se o desmatamento, o impacto climático global dos assim chamados “biocombustíveis de primeira geração” – gerados principalmente a partir de canola, palma, girassol e soja – é ainda maior do que o dos combustíveis fósseis.

Ainda por cima, essas plantações competem por território com o cultivo de alimentos, em especial na Indonésia e Malásia, responsáveis por 87% da produção mundial de óleo de palma.

Falando à DW, Daniel Rieger, especialista em política de transporte da Nabu, pleiteou que se abandone o biocombustível de primeira geração: “Não faz sentido usar grandes áreas para cultivar plantas e então abastecer veículos com elas. É um desperdício de natureza.”

Ele defende que se desvie o foco para os combustíveis de segunda geração, baseados em resíduos orgânicos. Melhor ainda seria substituir o modelo de transporte que privilegia carros e caminhões por formas mais sustentáveis, como navegação fluvial e trens, ressalta o ambientalista.

A percepção pública dos biocombustíveis também precisa mudar. Um problema está na denominação, que soa falsamente “verde”, critica Rieger: “As pessoas pensam: ‘Biocombustível soa orgânico, então tem que ser bom para o clima global.'”

Agricultora em plantação de dendê na IndonésiaAmbientalistas propõem que se abandone produção biocombustíveis de primeira geração

Futuro questionável na UE

Após reconhecer que seguir usando essas variedades não combina com sua meta de cortar as emissões de gases-estufa, a UE impôs em 2015 um teto de 7% para biocombustíveis produzidos a partir de plantas alimentícias. O bloco também estabeleceu critérios de sustentabilidade, e o desenvolvimento do que denominou “biocombustíveis avançados”, usando lixo municipal, óleo de cozinha reciclado e resíduos da agricultura.

Em 2009, a UE estabeleceu como meta que, até 2020, 10% da energia para transportes em todos os seus países-membros provirá de fontes renováveis. O principal substituto do petróleo são os biocombustíveis, já que os veículos elétricos representam uma parcela ínfima do setor automobilístico.

A Transport & Environment e outras entidades ambientais pedem a exclusão das plantas comestíveis do mix energético da UE a partir de 2020. Enquanto isso, a Comissão Europeia debate novas políticas de energia renovável, devendo divulgar nos próximos meses uma proposta alternativa. Em seguida caberá a cada Estado-membro decidir como implementará a decisão sobre o futuro dos biocombustíveis.

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O erro de achar que a água cai do céu!

Ambiente,Meio ambiente,Água,Recursos Naturais,Ecologia,Conservação,Blog do MesquitaA abordagem de engenharia em torno do tema água é necessária, mas não deve ser a única. É preciso entender que a água é parte de um ciclo natural de circulação e armazenamento.

A água é um direito social e um insumo econômico de primeira necessidade. Muitos negócios somente são possíveis porque há água disponível. Até bem pouco tempo quando se falava em seca, principalmente na mídia, era quase sempre na região conhecida como semiárido nordestino, no Sul Maravilha a questão da água sempre foi tratada como um problema de gestão e de engenharia. Pouco se fala da necessidade de se “produzir água”, e isso não é um problema de engenharia, mas de gestão de recursos naturais.

Os órgãos especializados na gestão de água e mananciais no Brasil, como a Agência Nacional de Águas e diversas universidades vêm alertando há alguns anos que a gestão de água no Brasil é casual, não é integrada e não tem uma relação direta com a questão fundamental da produção da água. O tema, aliás, é tratado por muitos engenheiros com certo desdém, sob o argumento de que “não é possível produzir água”, afinal, ela cai do céu. No entanto, o cuidado com rios e mananciais é fundamental para que as empresas de captação e tratamento possam ter disponível água de boa qualidade.

E mesmo a questão do “cair do céu” requer alguma atenção especial, pois a água não é gerada no céu, verdadeiros rios aéreos circulam em torno do planeta e, no Brasil especialmente, trazem água do Caribe, reciclam sobre a Amazônia, chovem sobre o Pantanal e irrigam as lavouras e as cidades do Sul/Sudeste. Há excelentes trabalhos realizados pelo cientista Antônio Nobre, do INPE –Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – e do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – que mostram essa dinâmica em detalhes e porque se corre o risco de transformar o clima da região de maior PIB do país em um deserto.

O tema produção de água esteve presente na discussão do Código Florestal, aprovado em 2012, quando a redução das áreas de proteção às margens de cursos d’água foi colocada como fator fundamental para o aumento de produtividade nas propriedades rurais. Nessa época a discussão ficou centrada em pode ou não pode, não se colocou de forma incisiva a necessidade do pagamento por serviços ambientais que essas áreas prestam à economia e à sociedade brasileira. Venceu o interesse individual. Essas áreas deveriam ter sido tratadas como “produtoras de água” e, portanto, remuneradas por isso.

Há algumas questões estruturais quando o tema é produção de água. A primeira é entender que apesar de não se poder construir um “fábrica de água”, é possível criar condições favoráveis para que o ciclo vital da água se realize de forma mais intensa. Para isso é preciso recuperar e preservar áreas de nascentes e proteger os cursos d’água com a ampliação da cobertura florestal em suas margens o máximo possível.

Outra questão importante é entender que parte da “função social” da terra é preservar os serviços ambientais por ela prestados. Assim, os proprietários e produtores rurais devem fazer parte de uma grande rede de produtores de água, capacitados, com tecnologia, assistência técnica e os recursos necessários para a identificação de nascentes e cursos d’água eventualmente secos pela derrubada da mata e implantação de plantios ou pastagens, e a realização das ações necessárias para a recuperação e preservação dessas fontes de água.

Produtores rurais também devem ser apoiados em ações que ajudem a proteger os mananciais em sua propriedade ou adjacentes da contaminação por qualquer tipo de produto químico utilizado nas lavouras ou com os animais. Esses produtos quando levados aos rios são contaminantes de alto impacto para a biodiversidade e torna o tratamento da água mais caro.

Bom, mas como fazer com que essa rede de fato funcione? Isso não é uma novidade, o pagamento por serviços ambientais, já bastante conhecido pela sigla PSA, é um tema em discussão há muito tempo e já aplicado com sucesso em diversas modalidades, inclusive na produção de água. Mas é preciso uma Política de Estado para que ele seja visto como um investimento fundamental para a segurança hídrica do país. E no caso específico da região Sudeste, uma política universal instituída no sistema de coleta, tratamento e distribuição de água.

Obras de engenharia podem ajudar a gestão da água pontualmente. Um levantamento da Agência Nacional de Água (ANA), ainda em 2010, apontou que o problema do abastecimento é generalizado pelo País. Dos 5.565 municípios brasileiros, mais da metade terão problemas de abastecimento até 2020. E para tentar adiar o problema por ao menos uma década será preciso desembolsar 22 bilhões de reais em obras de infraestrutura, construção de sistemas de distribuição, novas estações de tratamento e manutenção de redes muito antigas, que perdem mais de 30% da água tratada antes de chegar à casa dos clientes. Nesse valor não estão incluídos os recursos necessários para resolver o problema do saneamento básico, com a construção de sistemas de coleta de esgoto e estações de tratamento, de forma a proteger os mananciais onde se faz a captação para consumo humano. Para isso, segundo a ANA, serão necessários outros 47,8 bilhões de reais.

O abastecimento das duas principais regiões metropolitanas do Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro, está ameaçado por conta da superutilização dos mananciais, já bastante poluídos e degradados por conta da falta de uma visão mais sistêmica, onde a preservação e a gestão devem caminhar de mãos dadas. O sistema Cantareira tornou-se o vilão da hora para a mídia, mas não é o único e talvez nem seja o principal. O sistema do Paraíba do Sul, que alimenta o Vale do Paraíba e o Rio de Janeiro também não suporta mais sua carga, com águas poluídas e margens devastadas.

O fato de chover de forma irregular em grande parte do Brasil, e levar ao colapso sistemas de abastecimento, não significa que exista menos água circulando pelo país. Acredita-se que a quantidade de água que circula sobre o país seja basicamente a mesma de sempre, no entanto, os desequilíbrios existentes nos ecossistemas faz com que o regime de chuvas seja errático, por isso grandes enchentes em algumas regiões com grandes inundações por um lado e secas de outro.

As políticas de gestão de recursos hídricos devem tomar vulto, é preciso discutir os modelos. Visão de gestão que inclua a recuperação ambiental dos rios e mananciais, modelo de operação das empresas concessionárias que disputam entre si para obter vantagens em captação e não se responsabilizam de fato pelos investimentos necessários em tratamento de esgotos e por ai vai.

No momento a crise hídrica paulista está sob controle. Pode-se esquecer do assunto até a próxima seca (que virá com toda a certeza) ou trabalhar para recuperar a capacidade de produção de água dos biomas regionais e nacionais e manter os sistema de abastecimento funcionando com conforto para a economia e para as pessoas. (Envolverde)

* Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde e especialista em meio ambiente e desenvolvimento sustentável.