Crise na Venezuela: o Brasil é um zero à esquerda

Como o Brasil se tornou irrelevante na mediação da crise na Venezuela.Crise na Venezuela

Manifestantes lembram dos 100 dias de protestos na Venezuela. FERNANDO LLANO AP

País de Nicolás Maduro passa de 100 dias de protestos nas ruas enquanto segue isolado.Drama de Caracas expõe deserto diplomático na América Latina depois de ciclo pró-ativo

“Queremos contribuir para que a Venezuela  encontre em paz um caminho e que o povo venezuelano seja feliz”. A frase é do ex-presidente Lula, então em seu primeiro mês de seu primeiro ano de mandato, em janeiro de 2003. Naquela época, o Brasil liderava a criação de um grupo de países amigos da Venezuela para ajudar a Organização dos Estados Americanos (OEA) a buscar uma saída para a grave crise que afetava o país. Um ano antes, ainda sob o presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, Brasília puxou um movimento no chamado Grupo do Rio para condenar a tentativa de golpe de Estado que tirou Hugo Chávez brevemente do poder e isolar a gestão George W. Bush, que apoiara a rebelião.

Chávez telefonou para agradecer FHC, feliz de o bolivariano ter voltado ao cargo. Agora, 14 anos depois, discute-se novamente um diálogo com Caracas por meio de países vizinhos. Mas, diferentemente daquela época, o Brasil hoje passa longe de liderar esta conversa.

Com uma conjuntura política bastante diferente, tanto no Brasil quanto na Venezuela e em toda a América Latina, Caracas vive um estado de convulsão política em meio a um deserto diplomático. A situação se aproxima de mais um capítulo tenso. A oposição venezuelana, nas ruas há mais de 100 dias em jornadas de protestos que já contabilizam mais de 90 mortos, realizou um referendo simbólico neste domingo que resultou na rejeição de uma nova Assembleia Nacional Constituinte, proposta por Maduro.

Por não ter valor legal, a oposição espera que o plebiscito sirva como uma espécie de ultimato para o presidente, que marcou para o próximo dia 30 a eleição dos novos deputados constituintes. Além de redigir uma nova Carta, que segundo Maduro é essencial para ajustar o país à nova situação, os novos nomes eleitos vão substituir um Parlamento dominado pela oposição e tirá-la de vez do jogo. A campanha pela Constituinte dividiu ainda mais chavistas que já estão rachados. 

A iminência da eleição da Constituinte voltou a tentar mover o xadrez de declarações e intenções, na falta de iniciativas mais articuladas no hemisfério a respeito da crise. O Brasil lançou uma nota nesta segunda, condenando a iniciativa de Maduro, alentando a consulta popular da oposição e apoiando “uma negociação efetiva a favor da paz e da democracia na Venezuela”.

Já o Governo Donald Trump ameaça com sanções. Se por um lado a conduta dura de Washington pode ser comemorada pela oposição que vê Maduro imparável, por outro deve certamente alimentar a retórica chavista radical de que é preciso lutar contra o intervencionismo externo, especialmente o norte-americano.

A próxima reunião da cúpula do Mercosul, que ocorrerá a partir de sexta-feira na Argentina, tem na pauta a suspensão da Venezuela do bloco – algo que já está em vigor desde dezembro. Todos os olhos se voltam, no entanto, para a Colômbia, que toma a iniciativa de tentar liderar um diálogo. O presidente Juan Manuel Santos, munido do Nobel que ganhou por negociar o fim do conflito colombiano, embarcou neste domingo para Cuba para tentar convencer Raúl Castro a apoiar o início de uma conversa regional com Caracas. Segundo o jornal Financial Times, a ideia teria o apoio do México e da Argentina.

De fato, segundo uma fonte diplomática, ouvida por EL PAÍS, a Colômbia, assim como Uruguai, Chile e o Equador, seriam os melhores países para liderar esta conversa. “O fato de termos um Governo sem legitimidade democrática direta até 2018 dificulta um eventual protagonismo brasileiro em um novo grupo de amigos”, disse, desde sua embaixada. “Outros países, dentre eles a Colômbia, teriam de estar na linha de frente neste momento”. E o presidente colombiano vem acenando neste sentido: na semana passada, Santos somou-se aos apelos da oposição e pediu que Maduro cancelasse a Constituinte para facilitar o diálogo.

Já o Brasil, além de viver uma crise política que enfraquece a musculatura que poderia ser despendida para a política externa, não tem a postura mais neutra para liderar esta conversa agora. É o que defende Carolina Silva Pedroso, pesquisadora da Universidade do Sul da Flórida e especialista em Venezuela.

“Aloysio [Nunes, ministro das Relações Exteriores] é muito interessado no tema, mas, por outro lado, é um interesse muito ideologizado”, diz. “E o que a Venezuela menos precisa agora é de alguém escolhendo um lado”. A pesquisadora diz que Fernando Henrique Cardoso e Lula mantinham conversas com oposição e Governo em Caracas e esse fator foi crucial para que a liderança da criação do grupo funcionasse. “Além disso, agora, o timing para a criação de um novo grupo já passou”.

Flávio da Silva Mendes, pesquisador do departamento de sociologia da Unicamp, também defende que a mudança do Governo brasileiro, após o impeachment de Dilma Rousseff, contribuiu para o isolamento de Caracas. “Se ainda fosse a Dilma ou o PT [na presidência], seria outra relação, que não era de apoio direto, era mais neutra”, diz ele, que também é autor do livro Hugo Chávez em seu labirinto: O movimento bolivariano e a política na Venezuela (Alameda). “A mudança do Governo no Brasil contribuiu muito para o isolamento da Venezuela”.

A relação próxima entre os dois países foi fruto de uma certa conveniência econômica, defende Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e colunista do EL PAÍS. “Na época da criação dos amigos da Venezuela, Chávez era um dos melhores clientes das empresas brasileiras. Por isso fazia sentido toda aquela parceria”, diz. “Mas isso enviou um sinal à oposição de que o Governo brasileiro estava totalmente alinhado com o venezuelano”. Ele também defende a neutralidade para as negociações agora. “O mediador ideal neste momento deve ter influência tanto na oposição quanto no Governo, e o Brasil não tem condições de influenciar nesta situação agora”.

O caminho, para Stuenkel, seria então via OEA. “Está muito evidente que o governo chavista tem pouco interesse em negociar”, diz. E o Brasil, por outro lado, “perdeu a janela de oportunidade que tinha [de negociar] quando estava um pouco melhor”. No final do mês passado, a OEA, cujo secretário geral, Luis Almagro, é uma espécie de diplomata ativista e vem criticando a falta de rumo de Nicolás Maduro, bem que tentou. Um grupo de países liderado pelo México tentou negociar a inclusão de uma declaração crítica ao Governo de Maduro. Para isso, eram necessários 24 votos, algo que não ocorreu. Usando o petróleo como chantagem, a Venezuela conseguiu trazer alguns países para o seu lado.

Por isso, alguns especialistas ouvidos pelo EL PAÍS acreditam não só na impotência do Brasil diante desta crise, como acham que nenhum país seria capaz de ajudar a resolvê-la. Carolina Pedroso defende que a mediação deveria partir de dentro da Venezuela, e não de fora. “Talvez um grupo que possa trazer uma solução interessante seja o destes chavistas dissidentes, que defendem um projeto de inclusão social, mas não veem mais no Maduro esta iniciativa”, diz. Flavio Mendes concorda.

“A questão é de isolamento mesmo”, diz. “E a principal saída será de dentro para fora”. Analistas na Venezuela também defendem que uma aliança entre esse chavismo dissidente e ao menos parte da oposição seja algo digno de tentativa. Em quase 20 anos de chavismo, o grupo dominou várias áreas do poder, inclusive as estratégicas e até economicamente influentes Forças Armadas. Para esses observadores é difícil imaginar uma solução que não considere os militares no tabuleiro. Oliver Stuenkel resume: “A Venezuela está à deriva e a região não apresenta nenhum plano viável”.

Impacto para o Brasil

Alguns defendem que o Brasil, especialmente sob o Governo Lula e Dilma, mais próximos de Caracas, já deveria ter adotado uma posição mais radical em relação à Venezuela. Para além das possíveis conveniências políticas, a possibilidade de ruptura em situações como a venezuelana engendra um impasse não só na América Latina e no Mercosul como em grupos mais consolidados como a União Europeia. O que fazer quando Governos não sofrem ou cometem golpes de Estado “clássicos”, mas, de todo modo, vão dominando outros Poderes, corroendo o sistema de presos e contrapesos democráticos como foi acontecendo na Venezuela ou como alguns acreditam que começa a passar na Hungria?

“No momento em que  foi detectado que o que ocorre lá não é mais uma democracia o Brasil deveria ter delineado algumas sanções comerciais pelo fato de a Venezuela não estar respeitando a cláusula democrática”, diz Marcus Vinícius de Freitas, professor de Direito e Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Para ele, o Brasil assumiu uma posição conveniente em relação a Caracas: “Virou as costas [no sentido diplomático], mas continua mantendo suas relações comerciais”. Por isso, segundo ele, a questão diplomática “já falhou”. Para Freitas, o que o Brasil deveria fazer é ir atrás de um diálogo com a oposição e não mais com o Governo.

Forte importadora de carnes, açúcar, café e alimentos em geral, além de roupas do Brasil, e exportadora de petróleo e derivados, a Venezuela é um mercado importante para a economia brasileira. Com logística fácil, devido às fronteiras, a relação entre os dois países fluiu bem durante alguns anos. Ocorre que, com a crise do petróleo, Caracas foi se tornando uma má pagadora das dívidas.

E o efeito dominó desta crise do petróleo é não somente econômico como também humanitário, com a explosão de imigrantes e pedidos de refúgio dos venezuelanos em diversos países, além do Brasil. “De uma maneira geral, qualquer país com instabilidade política no nosso entorno é ruim”, diz Carolina Pedroso.

No ano passado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) fez uma projeção de que a inflação na Venezuela ficaria em 2.200% no final deste ano e que a economia encolheria 7,4%. O derretimento do bolívar, a moeda venezuelana, se dá na mesma velocidade em que o valor do petróleo despenca. Tudo aponta que a instabilidade deve levar tempo para voltar à normalidade.
Marina Rossi

Pressionada, Câmara deverá afrouxar lei de repatriação

Estados e municípios querem abocanhar cerca de 26 bilhões de reais trazidos do exterior

Aprovada no início deste ano, ainda durante a gestão Dilma Rousseff, a lei 13.254/2016 anistia crimes de falsidade ideológica, sonegação e evasão de divisas todas as pessoas que repatriarem dinheiro que estava escondido em bancos no exterior desde que paguem multas e o imposto devido sobre toda a movimentação financeira entre os anos de 2010 e 2014.

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A proposta que deverá ser analisada pela Câmara (PL 2617/2015) prevê que as tarifas só serão cobradas sobre o valor registrado no dia 31 de dezembro de 2014. Além disso, amplia para 16 de novembro o prazo para quem quiser aderir ao Regime Especial de Regularização Cambial e Tributária — atualmente a data-limite para adesão é 31 de outubro. As alterações não são bem vistas por procuradores da República e técnicos da Receita Federal.

Quando foi aprovada, a lei da repatriação estimava obter entre 11 bilhões e 40 bilhões de reais em impostos e multas exclusivamente para a União. Agora, se as mudanças forem aprovadas, a estimativa é que o valor chegue a 80 bilhões de reais. Até a última semana, a Receita Federal já havia registrado acordos que chegavam ao valor aproximado de 12 bilhões de reais.

Nas últimas duas semanas os governadores se revezaram em uma espécie de périplo a Brasília. Ao menos 20 deles estiveram na capital federal para se reunir com as bancadas parlamentares de seus Estados, com opresidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com o relator da mudança legislativa, Alexandre Baldy (PTN-GO), além de membros do governo Michel Temer, como os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Geddel Vieira Lima (Governo) e Henrique Meirelles (Fazenda).

A cobrança é para que parte do que a União arrecadar seja dividido com Estados e Municípios.

O projeto que está sob análise do Legislativo prevê que a arrecadação de até 25 bilhões de reais com a repatriação será destinada apenas para o Tesouro Nacional. Acima dessa quantia, qualquer centavo que entrar nos cofres será dividido da seguinte maneira: 51% para a União e 49% para Estados e Municípios. Ou seja, se atingir a otimista estimativa de 80 bilhões de reais, os outros entes federativos arrecadariam cerca de 26 bilhões de reais.

“Como estamos no meio de uma crise, os governadores já notaram que a única ajuda financeira que poderão ter da União é essa. Por isso, insistem tanto nessa mudança na lei para aliviar os seus caixas”, afirmou o relator da proposta, o deputado Baldy.

Inicialmente, a gestão Temer estava cautelosa em se posicionar oficialmente sobre essa questão. “Respeitamos as decisões soberanas do Congresso Nacional. Se for votado, se for feito um aperfeiçoamento da lei, será muito bem-vindo. No entanto, caso não seja votado, também a lei atual é adequada, já existe um número bastante substancial de contribuintes que estão fazendo suas declarações”, afirmou o ministro Meirelles, da Fazenda.

Na última semana, porém, o porta-voz da presidência, Alexandre Parola, deixou clara a intenção do Palácio do Planalto. “No que diz respeito a substância da matéria [alterações na lei da repatriação], o Governo é favorável às mudanças, bem como a que se encontre uma solução que contemple as demandas dos governadores dos Estados”, disse Parola.

Oposição e desarticulação

As mudanças já encontraram ao menos três fortes opositores: técnicos da Receita Federal, membros da força-tarefa da Operação Lava Jato e um grupo de procuradores do Ministério Público Federal ligados ao procurador-Geral, Rodrigo Janot.

Os opositores entendem que o cálculo sobre os valores registrados apenas em dezembro de 2014, o que foi chamado de foto, seria incompatível com as regras nacionais e defendem que a multa e o imposto deveriam ser calculados sobre a movimentação de quatro anos, o que foi batizado de filme.

“É injusto do ponto de vista do interesse público, porque o indivíduo que esgotou seus ativos e só deixou uns trocados na conta só vai pagar pelos trocados, e não por aquilo que consumiu ao longo dos quatro anos anteriores”, alertou o secretário de cooperação jurídica internacional do Ministério Público Federal, o procurador Vladimir Aras, em entrevista ao jornal Valor Econômico.

Os representantes da Lava Jato e do MPF também afirmam que as mudanças trazem o severo risco de se beneficiar criminosos. “Outra sugestão muito perturbadora, veiculada na imprensa, é a possibilidade de anistia inclusive para aqueles que já foram condenados por crimes relacionados aos recursos a serem repatriados, desde que o processo não tenha transitado em julgado. Se aprovada, tal medida impactaria profundamente situações de lavagem praticadas por centenas de doleiros há décadas”, diz uma nota da força-tarefa da Lava Jato que pede a rejeição da matéria pelos deputados.

O MPF também emitiu uma nota técnica para refutar as teses propostas apresentadas pelo relator Baldy. Contudo, o principal ponto criticado pelos procuradores, que era permitir que servidores públicos e políticos pudessem repatriar os recursos, acabou sendo retirado da proposta final.

Na semana passada, depois de aprovar em primeira votação da PEC 241, que trata dos gastos públicos, os deputados tentaram votar a nova lei da repatriação. Não conseguiram porque a base de Temer acabou se ausentando dos debates e não havia um quórum mínimo para votação.

O presidente da Câmara tentou costurar um acordo com todas as bancadas, mas membros do PT se negaram a assinar a proposta e, como os governistas não estavam articulados, o projeto não foi votado. Nas próximas semanas, no entanto, a tendência é que a política deverá prevalecer sobre os dados técnicos.

Afonso Bentes/El país

Temer troca negociação da dívida dos Estados por apoio no Congresso

A perguta é: de onde irá sairá o dinheiro?
Respondo: do nosso sofrido e minguado bolso Tapuias otários!
José Mesquita
Ps. Abaixo, no centro da mesa, alvos da Lava Jato.Temer, ladeado por Renan e Padilha, em reunião com governadores.

Unidades da federação ficarão até dezembro sem pagar débitos com a União.

Em troca da suspensão do pagamento da dívida por seis meses e descontos por mais dois anos, apoio para aprovar um limite no teto dos gastos públicos no Congresso Nacional. Essa foi a proposta que o Governo interino de Michel Temer(PMDB) fez aos governadores das 27 unidades da federação e foi aceita por eles.

As dívidas dos Estados com a União chegam aos 423 bilhões de reais e as condições foram comemoradas pelos governadores, que em contrapartida serão cobrados na hora de conferir votos de suas bancadas no Congresso ao politicamente indigesto plano de congelamento dos gastos públicos, a principal cartada econômica do Planalto para tentar equilibrar as contas e seguir sendo chancelado pelo mercado.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Pelo acordo firmado nesta segunda-feira, nenhum Estado precisará pagar a parcela de suas dívidas até dezembro. Quando retomar o pagamento, em janeiro, ele será parcial. Começará com 5,55% da parcela mensal, passará para 11,1% e progressivamente até o 18º mês, quando atingirá os 100% da parcela mensal.

Daí até o 24º mês, ela será paga em sua integralidade. Além disso, o restante a dívida poderá ser paga em 20 anos e o indexador usado para a correção dos valores mudou do IGP-DI mais 6% ao ano (um índice oneroso) para a taxa Selic ou pelo IPCA – o que for menor – mais 4% ao ano. As dívidas com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também foram alongadas em mais dez anos.

Até 2018, os governos deixarão de pagar cerca de 50 bilhões de reais dos débitos por causa dessas alterações. Agora, as bancadas estaduais no Congresso Nacional serão instadas a votar a favor da proposta de emenda constitucional (PEC) que criará um teto para os gastos públicos nas três esferas (União, Estados e Municípios).

A proposta como foi apresentada na semana passada enfrenta resistência porque, como limita o aumento das despesas ao aumento da inflação do ano anterior, acabaria não criando um reajuste real nos gastos. Bem recebida pelo mercado, a PEC é criticada por especialistas que temem congelamento ou redução sde gastos em áreas como educação e saúde, que têm receitas protegidas pela Constituição. Na linha de frente contrária, está o neo-oposicionista Partido dos Trabalhadores.

Caso do Rio e São Paulo

O respiro aos Estados tem como objetivo, segundo o Governo, ajudar a reduzir os déficits locais assim como cumprir a uma ordem do Supremo Tribunal Federal que determinou que todos os débitos deveriam ser renegociados. Os pedidos das mudanças nos indexadores das dívidas estaduais ocorrem há cerca de 20 anos. “É um pleito antigo que finalmente foi atendido. Pagávamos juros pior do que se paga a agiotas. Agora, teremos uma taxa que podemos pagar”, afirmou o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo (PSD-SC).

O presidente interino disse que as mudanças podem ser o primeiro passo para uma reforma do pacto federativo. “Nós estamos fazendo isso em caráter emergencial para depois consolidarmos uma grande reforma administrativa no país”, disse Temer no início do encontro com os representantes dos Estados.

Com o decreto de calamidade pública emitido pelo Rio de Janeiro na sexta-feuira, havia a expectativa de que a gestão interina de Temer anunciasse ainda nesta segunda-feira qual seria o socorro dado ao Estado. O valor exato não foi divulgado, mas no Palácio do Planalto a informação extraoficial era de que ele seria de cerca de 3 bilhões de reais, um terço disso seria usado para construir a conclusão do metrô por meio de um empréstimo feito pelo BNDES.

No encontro com os governadores, Temer e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disseram que contavam com o apoio de todos para que esse socorro fosse dado ao Estado que sediará a Olimpíada deste ano. Nenhum Estado apresentou qualquer objeção. “Foram solidários”, destacou Meirelles. Os detalhes de como seriam feitos esses repasses serão acertados entre a Fazenda e o governador em exercício do Rio, Francisco Dornelles (PP).

O Estado que ficou menos contente com o acordo foi São Paulo porque havia um limite do desconto que cada unidade da federação teria: 300 milhões de reais. Como São Paulo é o maior devedor (mensalmente para quase 1 bilhão de reais), esse limite para ele foi pequeno e teve de ser alterado para os 400 milhões. “Acho que esse é o acordo possível. São Paulo foi beneficiado. Agora, foi menos que os demais”, afirmou o governador Geraldo Alckmin (PSDB).

‘Golpe’ e pragmatismo

Dos cinco Governadores do PT, apenas um compareceu ao ato político-administrativo que selou o acordo: Camilo Santana, do Ceará. Os governadores Fernando Pimentel (MG), Rui Costa (BA), Tião Viana (AC) e Wellington Dias (PI) enviaram seus vice-governadores como representantes do Estado. Ao lado do governador maranhense, Flávio Dino (PCdoB), esses chefes de Executivos estaduais são contrários ao processo de impeachment da presidenta afastada Dilma Rousseff (PT) que tramita no Congresso Nacional.

Ao final da reunião, Dino não quis conversar com a imprensa. Ao ser questionado como ele se sentia em negociar com um governo que ele já caracterizou de “golpista”, o comunista sorriu, fez um sinal de joia com o dedão e respondeu: “Depois eu falo”.
Afonso Benites/El País

Racionamento de energia elétrica gera protestos e saques na Venezuela

Mais de 100 pessoas foram detidas e 70 estabelecimentos comerciais foram saqueados

Protesto em Maracaibo, Venezuela, contra o racionamento da energia elétrica. EFE

País se encontra à beira do colapso energético devido a um somatório de fatores

Saque. A palavra foi retirada do léxico do Governo da Venezuela, mas se fez realidade em sete Estados do país – Zulia, Miranda, Bolívar, Trujillo, Lara, Vargas e Carabobo — em decorrência das dificuldades provocadas pelo severo racionamento de energia elétrica. O regime não admite oficialmente a existência dos distúrbios.

MAIS INFORMAÇÕES

Maracaibo, capital do Estado petrolífero de Zulia, no oeste da Venezuela, sentiu nesta terça-feira, pelo segundo dia consecutivo, a fúria dos habitantes de uma região que se vê forçada a enfrentar as altas temperaturas do úmido calor caribenho sem eletricidade.

Segundo o jornal Versión Final, os zulianos passaram 30 horas sem eletricidade desde a madrugada de segunda-feira, quando entrou em vigor o severo plano de cortes de energia. O mesmo jornal registrou a realização de saques em pelo menos 12 estabelecimentos, entre padarias, lojas de eletrodomésticos, supermercado e instituições do Governo.

O governador chavista, Francisco Arias Cárdenas, fez nesta quarta-feira um balanço mais preciso: mais de 70 estabelecimentos comerciais destruídos ou saqueados em sete áreas de Maracaibo, assim como na cidade de Machiques e na costa leste do lago de Maracaibo, e 103 pessoas detidas.

O governante qualificou os atos de “uma ação de desestabilização que se aproveita da crise de energia elétrica e que não ajudam em nada na busca de uma solução”. Arias admitiu que alguns dos protestos têm origem numa insatisfação real, mas logo relativizou suas próprias palavras: “Setores da extrema direta querem assumir o poder”.

Colapso

Em Valencia, no Estado de Carabobo, região central do país, estradas foram fechadas e fogo foi ateado em pneus pelo mesmo motivo. Nesta quarta-feira, em Los teques, capital do Estado de Miranda, houve tentativas de assalto a alguns estabelecimentos comerciais e os proprietários fecharam suas portas às pressas.

Protestos semelhantes, embora menos intensos, foram registrados na cidade andina de Valera e em Puerto Ordaz, a mais importante do Estado de Bolívar.

País se encontra à beira do colapso devido à seca provocada pelo El Niño e ao fracasso dos investimentos no setor elétrico

A Venezuela se encontra à beira do colapso, devido a um somatório de fatores: a longa seca provocada pelo fenômeno meteorológico conhecido como El Niño, a falta de investimentos no setor elétrico (controlado pelo Estado desde 2007) e o fracasso do programa de criação de termoelétricas que ajudariam a diminuir a dependência em relação à geração de energia hidrelétrica proveniente do sul do país, no quadro da emergência decretada para o setor em 2010 pelo então presidente Hugo Chávez.

Uma parte dos equipamentos adquiridos não funciona. Há suspeitas, além disso, de que o dinheiro designado pelo Estado para a aquisição desses equipamentos foi desviado. Também não foram concluídas obras de grande porte como a represa de Tocoma, igualmente localizada no sul do país, que atenuaria a demanda ao gerar metade da energia atualmente produzida pela Central Hidrelétrica Simón Bolívar.

O ministro da Energia Elétrica, Luis Motta Domínguez, admitiu que a Central Hidrelétrica Simón Bolívar, que gera 70% da energia utilizada pelo país, está a 1,60 metro do nível considerado de colapso. Essa admissão revela que as medidas adotadas pelo Governo não surtiram o efeito desejado.

No começo do ano, reduziu-se a jornada de trabalho em duas horas; em seguida, decretou-se a sexta-feira como dia de folga; foram definidos como feriados todos os dias úteis da Semana Santa; e, por fim, decidiu-se que o funcionalismo público, durante pelo menos 15 dias, trabalharia apenas nas segundas-feiras e terças-feiras até uma hora da tarde.

Nada disso conseguiu deter a diminuição constante dos níveis de água na represa.
André Meza/El Páis

A Profecia e a crise financeira mundial

Mais conhecido por sua contribuição às modernas Constituições – a doutrina da separação entre os três poderes exposta no clássico “O espírito das leis” (1748) -, Charles-Louis de Secondat, senhor de La Brède e Barão de Montesquieu, teceu “Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e de sua decadência” (1734).

“Como os romanos [americanos] se dedicavam às guerras [às finanças] e a consideravam a única arte, empenhavam todo seu espírito e todo seu pensamento à tarefa de aperfeiçoá-la. Mas os romanos [americanos] dominaram todos os outros povos não somente pela arte da guerra [das finanças], e sim também por seus princípios [sua ética do trabalho], sua sabedoria [sua precaução], sua persistência [sua poupança], seu amor à glória [ao empreendedorismo] e à pátria.

Os romanos [americanos] tiveram um período contínuo de prosperidade sob um conjunto de princípios, e um período contínuo de declínio quando se estiolaram todas essas virtudes.”

As cenas iniciais do filme “O gladiador” popularizaram batalhas infernais entre as tribos germânicas e a formidável máquina de guerra romana.

A belicosidade dos bárbaros, a fúria musical de Wagner, a vontade de poder em Nietzsche, a disciplina militar prussiana, o nacionalismo com a vitória de 1870 sobre a França e a unificação da Alemanha, em 1871, sugeriam um espírito guerreiro de Frederico, O Grande, de Bismarck, o Chanceler de Ferro, e de Hitler, o nacional-socialista, que só duas guerras mundiais poderiam atenuar.

Será que só duas Grandes Depressões poderiam atenuar o espírito financista dos americanos? Dizem deles os ingleses que são o único povo na História que saiu da barbárie e passou ao declínio sem experimentar a civilização.

Deliciosa ironia, mas certamente uma dose exagerada de desprezo aristocrático pela democrática vulgaridade dos hábitos e costumes de sua ex-colônia. E também uma enorme dor-de-cotovelo por seu extraordinário desempenho político, econômico e tecnológico. Até recentemente.

“Restava aos romanos [americanos] a arte militar [a prática das finanças]. Mas depois que a corrupção e o vício [os excessos] se instalaram nos próprios exércitos [nas instituições financeiras], o império fundado pelas armas [sobre as finanças] não mais se sustentaria, nem mesmo pelas armas [pelas finanças]”, concluía Montesquieu.

Ao assumir a presidência do banco central americano em 1979, em meio ao caos inflacionário, Paul Volcker ouviu de um amigo a seguinte profecia: “Seu destino é fazer com que o declínio dos Estados Unidos na economia mundial ocorra de forma respeitável e ordeira”.

Tendo escapado por seus próprios méritos ao amargo vaticínio nos anos 80, e agora chamado para presidir o Conselho Assessor para a Recuperação Econômica pelo presidente Barack Obama, Volcker retorna para cumprir a profecia, condenado pela herança de Greenspan e de seu aprendiz Ben Bernanke.

do O Globo – Paulo Guedes