Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog-do-Mesquita 09

Virgínia Brindis de Salas

Boa noite.
À margem americana
Virgínia Brindis de Salas

Quantos anos vieram molhar meu pés
as águas salobras
que bordeiam a margem americana.

A carne de meu corpo
banhada em água irmã
batismo desse rio
que como o mar se alarga
para buscar na margem
da América, sua rota larga.

Quantos barcos de passagem pelo recôncavo
e pela praia
abriram, desmesurados
grandes olhos
e entre o canto de marinheiros em sua popa
a toda a margem do istmo saudaram.

Minha pele queimada, que quiseram beijar,
ébria de sóis matinais
se submergiu mar adentro
saturada de sais
e de encontros.

Vamos pela margem
desta América indígena e mulata
no sentido da vereda
que a tudo mata.

O peito forte e os braços sempre abertos;
macho e fêmea;
multidão, barcos e portos;
e uma bandeira
de uma cor só
inflada ao vento;
e o povo nos barcos
bombordo e estibordo
com seus troncos desnudos
tingidos de sangue como escudo.

Que o peito inflame
a paz redentora
e diga a todos: vão agora;
que nosso sangue se derrame
sem demora.

Filhos do solo americano
brancos e negros irmanados;
tomem meu corpo,
gostem do sabor da minha carne negra;
quebrem o espanto da gruta do medo
que sua carne encerra!

Sejam novos Prometeus;
venham como Espártaco
que América em seu nervo
desata suas canções
que dizem os desejos
de um mundo amplo, novo,
suas novas rebeliões!

Quero pousar meu pé negro
na margem dos lares
da América, infinita
e vê-la que do solo
se levanta
em suas oficinas,
suas fábricas,
suas minas
e de um formidável pulmão
de vozes femininas,
que aperta o fole
com mãos masculinas,
ouvir a canção
nos caminhos e no molhe,
plena de redenção!

A distopia do cuidado no Brasil opera no corpo das mulheres negras

Como é possível versar sobre cuidado e não se ocupar em investigar e visibilizar as causas que têm gerado sofrimento e exaustão nas mulheres negras? Mais um artigo da série Feminismos transnacionais.

O corpo negro é um corpo encruzilhada. Sua existência é plena realização dinâmica entre a decisão e o sacrifício.

Cuidado com conceito

A abordagem deste ensaio reconhece as múltiplas possibilidades de conceitos e definições que versam sobre cuidado. No entanto, aqui nos interessa lançar mão de algumas lentes com capacidades multidisciplinares para destacar lugares específicos de interação das mulheres negras e suas relações com a organização social do cuidado bem como a própria economia do cuidado.

Tal abordagem se impõe com urgência, já que se dá em contexto da pandemia do novo coronavírus no Brasil e se soma aos resultados da combinação entre divisão racial e divisão sexual do trabalho, que, conformada a partir do momento colonial e de duração perene, apresenta como naturalmente associados raça, trabalho e sexo.

Dou início a esse texto ao analisar, primeiramente, a categoria care e localizá-la no tempo e espaço. Afinal, dissecar os termos e conceitos é tarefa imperativa para aprimorar qualquer debate, sobretudo para pessoas negras em diáspora, uma vez que a linguagem é um sustentáculo importante da cultura e que, por meio dela, é possível acessar aspectos da cosmovisão do mundo de outrem.

Ao estabelecer o cuidado como objeto de estudo, as produções acadêmicas contemporâneas importaram o termo care ou care work do berço anglo-saxão. Em perspectiva teórica, aprofundou-se o conceito utilizando o termo nurturance, o qual foi cunhado por Englad e discorre sobre a dimensão afetiva e emocional do care. Por outro lado, há estudos que entendem o cuidado como trabalho reprodutivo vinculado à econômica e percebido como sustentáculo para as relações interpessoais e familiares. Posto isso, não tenho a pretensão de fixar uma tradução exata: care pode significar cuidado, solicitude, preocupação com o outro ou ainda atenção às necessidades do outro.

Self-care: uma performance?

Há alguns anos tem sido possível testemunhar a categoria ser esvaziada de sentido coletivo ao ser relocada para o universo do self-care, apresentada com fortes apelos à individualização e à mercantilização de todos os aspectos da vida. Vale destacar que a propaganda do self-care, no Brasil, está intimamente vinculada à imagem das mulheres brancas, em geral magras, cis, heteronormartivas, adeptas aos movimentos fitness e/ou new sagrado feminino e que, em geral, costumam ser ostentadoras de alto padrão de consumo.

É o que nos apresenta o levantamento de dados feito pela série “Dados comentados self-care e beleza 2019”: segundo informações da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o setor movimenta US$ 30 bilhões e é o quarto mercado consumidor no ranking mundial, representando 48,6% do mercado da América Latina

Como se pode perceber, os estudos sobre cuidado se originam e se orientam a partir da Europa, bem como seu sentido amplo é apropriado pelo self-care performado majoritariamente por mulheres brancas. Na contramão desse cenário, as operadoras do cuidado e dos serviços considerados essenciais são, em sua maioria, pessoas negras; mulheres com ascendência geográfica localizada no norte e nordeste do Brasil.

Narrativas reais e letais sobre o outro lado do cuidado

Considerando que estamos no Brasil e deste lugar atravessamos a maior crise sanitária da humanidade: como é possível versar sobre cuidado e não se ocupar em investigar e visibilizar as causas globais e locais que têm gerado cada vez mais sofrimento e exaustão nas pessoas, especificamente nas mulheres negras?

O pensamento social brasileiro se ocupou de “investigar” e reafirmar especialmente dois conceitos de feminilidade negra.  O primeiro conceito é a mulata, a criança de ouro da miscigenação, que está disponível para servir, divertir e para o prazer sexual. O segundo conceito de feminilidade negra é a Mãe Preta, ou a Mãe Negra — semelhante ao Mammy, figura nos Estados Unidos. Ela é uma mãe negra, redonda e carinhosa, que voluntariamente sacrifica seu trabalho e seu corpo em nome da nação.

Luiz Felipe de Alencastro escreveu um pequeno texto sobre essa foto, bem colocado no epílogo do livro História da vida privada no Brasil 2. Império: a corte e a modernidade nacional[1], no qual concluiu sobre a união dos dois personagens retratados: “Uma união fundada no amor presente e na violência pregressa. Na violência que fendeu a alma da escrava, abrindo o espaço afetivo que está sendo invadido pelo filho de seu senhor. (…)”.

Para que possamos visualizar o caráter imperativo do cuidado para manutenção das relações humanas trago, a título de elucidação, alguns ofícios que se enquadram no conjunto de profissionais da categoria dos empregados domésticos. Dessa forma, conforme estabelecido pela Lei n. 5.859, de 1972, são trabalhadores dos serviços domésticos em geral:

Existe um perfil específico de trabalhadoras: essencialmente feminino, negro e pobre. Diferentemente dos homens, que são destinados à esfera produtiva, o papel de cuidado é delegado historicamente à mulher, cujo lugar é o domicílio e a esfera reprodutiva As trabalhadoras não têm acesso umas às outras para criar uma identidade de classe, já que o trabalho é realizado dentro dos domicílios, também gerando um falso senso de pertencimento à família.

A meu ver, ao lado da política de  ação afirmativa que foi fortalecida a partir da implementação da Lei n.12.711, de 2012, a Emenda Constitucional 72 homologada no ano de 2013, também chamada PEC das Domésticas, conquistas institucionais das lutas dos movimentos sociais negros representam a síntese da onda negra intransponível no século XXI no Brasil, causando profundo desconforto e medo branco.

Para compor e atualizar a reflexão, elaborei uma breve retrospectiva de algumas manchetes e trechos de jornais envolvendo operadoras do cuidado ao longo do primeiro semestre de 2020:

Janeiro, 2020. A crise econômica e a persistência de elevado contingente de desempregados recolocam o emprego doméstico como uma das únicas alternativas de inserção laboral, especialmente para mulheres negras.

Março, 2020. A primeira vítima no Rio de Janeiro que morreu de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, era empregada doméstica e trabalhava no Alto Leblon, bairro da zona sul da cidade que tem o metro quadrado mais valorizado do país. A mulher tinha 63 anos e percorria 120 km da casa dela até o trabalho.

Maio, 2020. A filha de empregada doméstica, Beatriz Launé, perdeu pai e mãe para a covid-19. A mãe não parou de trabalhar mesmo durante a pandemia.

Junho, 2020. Por 35 anos, mulher foi submetida a trabalho análogo à escravidão e patroa foi condenada. A sentença determinou o pagamento de cerca de R$ 170 mil para a vítima por indenização por danos morais.

Julho, 2020. A primeira-dama de Tamandaré estava responsável por Miguel Otávio, filho da ex-empregada doméstica dela, quando ele caiu do 9º andar de um prédio de luxo no Recife no dia 2 de junho. A mãe da criança, Mirtes Souza, havia saído do apartamento para passear com o cachorro da então patroa.

Essas poderiam ser as manchetes do fim do mundo, mas são naturalizadas no cotidiano colonial e neocolonial. Segundo a teórica Leila Gonzalez, “As mulheres negras, naturalmente, são cozinheiras, criadas, servas … ou prostitutas. Eles nada mais são do que as mulas que carregam a família de outras pessoas nas costas.”

Como podemos averiguar, embora a mídia tenha demonstrado, através dessas e de outros sem números de matérias, o labor e o risco a que as operadoras do cuidado e dos serviços essenciais expõem ao estarem no front da guerra contra o inimigo “invisível” sem precedentes — importante ressaltar que, na maioria das vezes, não estão por escolha, mas por falta de alternativas! — o racismo, face indisfarçável do mundo do trabalho e da cultura nacional, junto à análise do desenvolvimento dos campos discursivos das elites, confessaram-se absolutamente neocoloniais.

Cuidado: encruzilhada de interesses sobre as Mulheres Negras

“A minha casa, minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar
Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida dura até o fim”

(Letra de Mulher do fim do mundo – Intérprete: Elza Soares) 

Diante das manchetes do último semestre ou dos anúncios dos últimos cinco séculos no Brasil, o fim do mundo já chegou para as pessoas negras. As experiências destacadas anteriormente estão imbricadas na herança colonial, pois apresentam particularidades postas através dos corpos de mulheres que se assemelham àquelas que outrora foram escravizadas e agora se encontram superexploradas, além de expostas a novos riscos sem mobilizar qualquer comoção nacional. Essas são experiências que transpassaram o tempo e o espaço.

Segundo a filósofa iorubá, Oyèronké Oyewumi, em “A invenção das mulheres: construindo um sentido africano acerca dos discursos ocidentais de gênero” (1997)[2], o ocidente está condicionado ao corpo, e o sentido privilegiado por essa cosmologia é a visão. Dessa forma, o corpo é visto e classificado a partir do órgão sexual e da cor de pele. Aqui, a lógica é puramente biológica e, para a melhor compreensão da sua análise, a autora cunha o conceito de “somatocentralidade ocidental”[3]. Tal conceito, levado a cabo, nos permite perceber o rigor em relação a experiências de extremo sofrimento, requintes de crueldade e maus tratos descritos ao longo desse artigo.

A encruzilhada de sempre agora descortinada pela a pandemia do novo coronavírus, escancarou as crises históricas em torno do cuidado no país. Sim, crises no plural, já que após seis meses de medidas de contenção da proliferação do vírus constata-se que estamos todas e todos à deriva do mesmo mar de incertezas em relação ao “novo normal”, mas não estamos no mesmo barco, tampouco com os mesmos utensílios de segurança, já que a seletividade da necropolítica é categoricamente interseccional.

Por isso, acredito que o corpo da mulher negra é o espaço de consolidação do projeto confesso para a demonstração da supremacia total de um segmento humano que se autodefine como raça sobre outro segmento humano percebido como outra raça. Essa supremacia se expressa por meio de uma hegemonia irrestrita tanto no plano material (poder econômico e político) quanto no plano psicocultural (sentimento de superioridade).

Nesse sentido, a relação de posse e servidão perpetrada no âmbito privado a partir da operação do cuidado sempre descontou nas mulheres negras a via sine qua non para estruturar a complexa teia de relações sociais na sociedade brasileira até os dias de hoje. Desse modo, a soma do conservadorismo do nosso tempo, os valores da família patriarcal como instituição fundamental na formação da sociedade brasileira e a repactuação com as políticas neoliberais se reapresentam mais uma vez para atender os desejos de supressão da imagem/corpo da mulher negra, esta que tem sido orientada pela matricentricidade[4].

Cheik Anta Diop[5], em sua obra The cultural unity of Black Africa – the domains of patriarchy and of matriarchy in classical antiquity (1989), quando através da Teoria dos Dois Berços da Civilização, versa sobre o estabelecimento do matriarcado[6] como marca cultural da organização societal dos povos africanos continentais e diaspóricos, cujo o caráter seria uterocêntrico[7], orientado pela matricentricidade e por uma concepção solidária de vida em comunidade.  Motivos que configuram o símbolo máximo daquilo que precisava ser dissecado pelo empreendimento neocolonial de caráter patricêntrico[8],  falocrático[9] com propósitos mercadológicos e econômicos assumido.

Cuidado para além das fronteiras

Concluo pedindo colo às escritoras, afro-americanas, Audre Lorde e bell hooks, pois Lorde  nos apresenta a prática do autocuidado como um ato de autoindulgência, sugere que não percamos de vista o quanto o autocuidado é em si cuidado comunitário e vice versa; hooks nos convida para extrapolar o amor próprio e desenvolver o amor interior. Afinal, amor interior e autoindulgência são o solo fértil dos caminhos para o resgate da prática ancestral que nos deixou o infinito legado da filosofia Ubuntu, pois para o futuro ser verdadeiramente ancestral é preciso que nos libertemos dos equívocos sobre cuidado fruto da perspectiva colonial.

Caroline Amanda Borges é mestranda em Filosofia pelo PPGF-UFRJ. Educadora Menstrual; Terapeuta Sistêmica e Integrativa. Fundadora da @yonidaspretas, espaço virtual/presencial de acolhimento para mulheres e pessoas menstruantes. Inspirada pelo Afro Perspectivismo, como pesquisadora, tem atuado nas áreas das Humanidades, Comunicação e Direitos Humanos. Sua pesquisa central versa sobre Identidade, Família, Saúde da População Negra, com ênfase na saúde das mulheres negras. Foi convidada pelo Programa Interdisciplinar de Gênero e Sexualidade da Tulane University para apresentar os resultados da sua pesquisa e atuação como Idealizadora e Terapeuta na Comunidade Virtual/Presencial Yoni Das Pretas.

[1] ALENCASTRO, Luiz Felipe de (org.). História da vida privada no Brasil 2. Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Cia. das Letras, 1997, pp. 439-440.

[2] Obra consultada através do artigo OYĚWÙMÍ, Oyèrónké. Conceituando o gênero: os fundamentos eurocêntricos dos conceitos feministas e o desafio das epistemologias africanas. Tradução: Juliana Araújo Lopes para uso didático de: OYĚWÙMÍ, Oyèrónké. Conceptualizing Gender: The Eurocentric Foundations of Feminist Concepts and the challenge of African Epistemologies. African Gender Scholarship: Concepts, Methodologies and Paradigms. CODESRIA Gender Series. Dakar, v. 1, p. 1-8, 2004.

[3] Consultar, por exemplo, NICHOLSON, Linda. “Feminism and Marx”. In.: BENHABIB, Seyla; CORNELL, Drucilla. Feminism as Critique: On The Politics of Gender. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1986,

[4] Forma de organização que tem como base fundamental a unidade matricêntrica, que se configura como a menor unidade de parentesco e como uma menor unidade autônoma de produção, cujos laços são definidos a partir da maternidade. Esta maternidade não se caracteriza apenas como a de caráter biológico, mas como parte da estrutura de uma organização social que tem como base a ideologia que todos aqueles que estão inseridos em uma unidade matricêntrica estão ligados por laços maternos.

[5] DIOP. Cheik Anta. The cultural unity of Black Africa – the domains of patriarchy and of matriarchy in classical antiquity. Westbourne, Karnak house, 1989.

[6] Para embasar sua teoria do matriarcado relacionada ao continente africano, Cheik Anta Diop trabalha com a concepção de uma unidade cultural africana, onde haveria uma transmissão entre as gerações de valores e crenças, considerando as diferenças que foram impostas ao longo do tempo pelas dominações árabe e europeia.

[7] Expressão utilizada na obra de Carlos Moore, para referir-se às sociedades onde a principal forma de organização ocorre pelos laços de maternidade. MOORE, Carlos. Racismo e sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. 320 p

[8] Tipo de sociedade onde o homem é considerado o centro, a base da família.

[9] Sociedade onde se busca justificar a supremacia masculina.

A pandemia e a pena de morte nas prisões brasileiras

Com a pandemia, o quadro geral de precariedade, exclusão e adoecimento nas prisões tornou-se ainda mais preocupante, não só pelo previsível efeito letal da doença em ambientes insalubres, mas também em razão das decisões governamentais e judiciais que agudizaram o problema e ampliaram os riscos da crise sanitária em curso.

As prisões são o lugar onde as violências e desigualdades sociais revelam sua mais brutal expressão. No Brasil, trata-se de celas lotadas e sem ventilação, instalações elétricas com remendos e potencialmente perigosas, comida racionada e de péssima qualidade, muitas vezes estragada, água escassa para o banho, para a limpeza das celas e mesmo para beber.

Os relatos são assustadores e as doenças são uma presença constante nesse universo insalubre. De acordo com dados do próprio Departamento Penitenciário Nacional (Depen), órgão do governo federal responsável pela gestão do sistema prisional, em dezembro de 2019 havia no sistema penitenciário 748 mil pessoas privadas de liberdade no país. Nesse universo, verificava-se um quadro de 170% de déficit de vagas, ou seja, uma realidade de absoluta superlotação.

Os negros são a maioria nesse sistema e estão expostos a uma taxa de encarceramento 1,5 vez maior do que a de um homem branco,2 o que confirma a seletividade da polícia nas abordagens e prisões em flagrante e o viés discriminatório nas decisões dos juízes, que reproduzem tanto estereótipos racializados quanto uma média maior de condenação para mulheres e homens negros.

Agencia Brasil

Com a pandemia, esse quadro geral de precariedade, exclusão e adoecimento tornou-se ainda mais preocupante, não só pelo previsível efeito letal da doença em ambientes insalubres, mas também em razão das decisões governamentais e judiciais que agudizaram o problema e ampliaram os riscos da crise sanitária em curso.

Como forma de propor medidas que contivessem a propagação do vírus nas prisões, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou a Recomendação n. 62, que exortou os juízes a adotar medidas para a reavaliação das prisões provisórias, a contenção de novas ordens de prisão preventiva, a concessão de saída antecipada dos regimes fechado e semiaberto para presos que não tivessem cometido crimes com violência ou grave ameaça e a transferência de presos do grupo de risco para prisão domiciliar. Entretanto, a despeito dos esforços do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do CNJ e das manifestações de apoio à agenda de desencarceramento para pessoas do grupo de risco da Covid-19, a Recomendação n. 62 continuou sendo duramente criticada pelo Ministério da Justiça e pelo governo federal e foi acolhida apenas parcialmente pelo Ministério Público e pela magistratura no Brasil.

O ex-ministro Sérgio Moro dedicou-se pessoalmente a deslegitimar a orientação do Conselho e a conceder reiteradas entrevistas afirmando que tudo estava sob controle no âmbito do Departamento Penitenciário Nacional e que, portanto, não era necessário que os juízes adotassem medidas que pusessem presos perigosos em liberdade.

No âmbito do Poder Judiciário, reiteraram-se decisões com indeferimento de pedidos de habeas corpus coletivos e sucessivas diligências que impediam a soltura de presos integrantes do grupo de risco. De modo ilegal, juízes recusaram-se a conceder pedidos de liberdade com o argumento genérico de que se tratava de presos perigosos ou que haveria nas prisões condições para a prevenção e o tratamento adequado ao coronavírus. Os juízes brasileiros optaram por contrariar as evidências médicas, a recomendação do CNJ e os apelos e alertas de organizações de direitos humanos, dos próprios presos e de seus familiares, e não concederam a maioria dos pedidos formulados por integrantes das defensorias públicas e pelos advogados particulares.Blog do Mesquita,Justiça,Brasil

Em pesquisa realizada entre março e maio de 2020 pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, verificou-se que, desde a edição da Recomendação n. 62, houve um aumento dos habeas corpus concedidos; porém, o estudo apurou também que 67% dos presos soltos estavam detidos em caráter preventivo, ainda sem julgamento, por causa de crimes cometidos sem violência, e que dos 783 soltos apenas 37 se encontravam condenados a regime fechado de prisão.

No mesmo sentido, um trabalho realizado por pesquisadoras do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e pela Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito de São Paulo constatou que, das 6.781 decisões de habeas corpus (entre 18 de março e 4 de maio de 2020) que mencionaram a Covid-19, apenas 12% tiveram o pedido concedido,6 o que também corrobora a tendência já apontada no relatório produzido pelo Conselho Nacional de Justiça, que afirma que 26,9% dos Tribunais de Justiça não apresentaram alteração nas concessões de liberdade de réus presos em regime fechado.

Os argumentos adotados para negar os pedidos de liberdade revelam total desapreço pela obrigação estatal de zelar pela vida e pela integridade daqueles que se encontram sob sua custódia (ou seja, sob total e absoluta responsabilidade do próprio Estado). Algumas sentenças circularam na mídia e nas redes sociais como maus exemplos em termos de fundamentação constitucional e de respeito a valores éticos e a princípios de direitos humanos.

Um dos episódios mais trágicos foi o do juiz Camilo Léllis, da 4ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que decidiu não alterar o regime da pena de um preso para o aberto, afirmando que o risco de contágio pelo coronavírus pode ser maior fora do sistema prisional do que dentro e que não seria razoável a determinação, de forma monocrática, de imediata remoção para o regime domiciliar de todos os presos que eventualmente se encontrem no chamado “grupo de risco”. O preso em questão encontrava-se na Penitenciária Compacta de Pracinha, que custodia 1.605 presos, tendo sido projetada para receber no máximo 844 internos.8

Mas por que os juízes decidem assim? Por que, apesar de todas as evidências, eles continuam mandando pessoas para cadeias superlotadas, com grande risco de contaminação e nas quais provavelmente vão morrer?

As respostas a essas perguntas passam, sem dúvida, pela constatação do peso do racismo em nossas relações sociais e do brutal processo de desumanização a que pessoas negras estão submetidas em nossa sociedade. Na prática, as condutas do governo federal e de parte da magistratura brasileira em relação à questão da Covid-19 nas prisões representam condenações à pena de morte na vigência do estado democrático de direito.

São escolhas políticas que constroem um itinerário de violência cujo desfecho letal é iminente e revela o peso do racismo no Brasil e sua força como esquema de anulação das possibilidades de vida e de acesso a direitos para as pessoas negras nos mais diferentes campos da vida social.

Felipe da Silva Freitas é doutor em Direito pela Universidade de Brasília, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Criminologia da Universidade Estadual de Feira de Santana e integrante do projeto Infovírus

O psicólogo de Stanford identifica sete fatores que contribuem para o racismo americano

“O racismo americano está vivo e bem”, começa um novo artigo de jornal liderado por Steven O. Roberts, psicólogo de Stanford, que chega durante um período de maior atenção à injustiça racial nos Estados Unidos.

Por SANDRA FEDER

Steven O. Roberts, Assistant Professor, Psychology

Dos sete fatores identificados pelos pesquisadores, talvez o mais insidioso seja o passivismo ou o racismo passivo, que inclui uma apatia em relação aos sistemas de vantagem ou negação racial de que esses sistemas existem.

No artigo, que está disponível on-line e será publicado na próxima edição da American Psychologist, a revista da American Psychological Association, os estudiosos afirmam que o racismo é um problema profundamente americano e se identificam, com base em uma revisão de pesquisas anteriores publicadas no site. tópico, sete fatores que contribuem para o racismo nos EUA hoje.

“As pessoas geralmente definem o racismo como não gostar ou maltratar os outros com base na raça. Essa definição está errada ”, disse Roberts, que dirige o Social Concepts Lab, parte do departamento de psicologia, da Escola de Ciências Humanas e Ciências. “O racismo é um sistema de vantagens baseado na raça. É uma hierarquia. É uma pandemia. O racismo está tão profundamente enraizado nos EUA mentes e EUA sociedade da qual é praticamente impossível escapar. ”

Roberts, um professor assistente e co-autor, Michael Rizzo, um pós-doutorado na Universidade de Nova York e no Beyond Conflict Innovation Lab, escreve que “assim como os cidadãos das sociedades capitalistas reforçam o capitalismo, se eles se identificam como capitalistas ou não, e se eles querendo ou não, os cidadãos de sociedades racistas reforçam o racismo, se eles se identificam como racistas ou não, e se querem ou não. ”

Após examinar as pesquisas sobre racismo da psicologia, das ciências sociais e das humanidades, os pesquisadores argumentam que o racismo americano sistematicamente beneficia os americanos brancos e prejudica os americanos de cor – mas isso não é necessário. Tudo começa com a consciência, eles afirmam.

“Muitas pessoas, especialmente as brancas, subestimam as profundezas do racismo”, disse Rizzo. “Muita atenção é justamente colocada nos recentes assassinatos de Breonna Taylor, Ahmaud Arbery, George Floyd e muitos outros. Mas as pessoas precisam entender que esses eventos terríveis são uma conseqüência de um sistema maior. Queremos que os leitores saiam com uma melhor compreensão de como esse sistema funciona.”

Sete fatores

Os três primeiros fatores analisados ​​por Roberts e Rizzo são: categorias, que organizam as pessoas em grupos distintos; facções, que desencadeiam lealdade entre grupos e competição entre grupos; e segregação, que endurece percepções, preferências e crenças racistas. Simplificando, os EUA sistematicamente constrói categorias raciais, coloca as pessoas dentro dessas categorias e separa as pessoas com base nessas categorias, argumentam os autores.

Por exemplo, há um corpo considerável de pesquisas mostrando que pessoas, adultos e crianças tendem a se sentir e agir mais positivamente em relação àqueles que consideram como eles e em seu “grupo”. Isso significa que eles provavelmente tratarão pessoas de fora de seus círculos sociais de maneira menos favorável.

Para muitos americanos brancos, seus grupos não incluem americanos negros. Parte da razão disso tem a ver com a história carregada de segregação racial dos Estados Unidos, que manteve as comunidades brancas e negras separadas. Roberts e Rizzo apontam para estudos que demonstram que a quantidade de exposição que uma criança tem a outros grupos raciais no início da vida afeta como eles pensam e agem em relação a esses grupos quando adultos.

A pesquisa também mostra que as crianças estão mais sintonizadas com os rostos do grupo majoritário racial. Ou seja, crianças negras são melhores em reconhecer rostos brancos do que crianças brancas em reconhecer rostos negros. Essa disparidade pode ter consequências trágicas no mundo real. Em uma formação criminosa, por exemplo, não ser capaz de reconhecer rostos negros, combinados com preferências e crenças tendenciosas, aumenta as chances de um suspeito inocente de preto ser identificado erroneamente como o autor de um crime.

Roberts e Rizzo observam que nos casos em que as condenações criminais foram anuladas por causa de evidências de DNA, um número significativo das condenações originais ocorreu devido a identificações incorretas de testemunhas oculares.

Os quatro fatores restantes que os pesquisadores argumentam que contribuem para o racismo americano incluem: hierarquia, que encoraja as pessoas a pensar, sentir e se comportar de maneiras racistas; poder, que legisla o racismo nos níveis micro e macro; mídia, que legitima representações sobre-representadas e idealizadas de brancos americanos, marginalizando e minimizando pessoas de cor; e passivismo, de tal forma que negligenciar ou negar a existência do racismo incentiva outros a fazer o mesmo. Em suma, eles argumentam que os EUA posiciona e capacita alguns sobre outros, reforça essas diferenças através de mídias tendenciosas e, em seguida, deixa essas disparidades e mídias no lugar.

Dos sete fatores que eles identificaram, talvez o mais insidioso seja o passivismo ou o racismo passivo, segundo os estudiosos. Isso inclui uma apatia em relação aos sistemas de vantagem ou negação racial de que esses sistemas existem.

As discussões sobre passivismo são particularmente relevantes agora, disse Roberts, enquanto milhares saem às ruas para protestar contra o racismo. “Se as pessoas beneficiadas pela hierarquia permanecem passivas, não é de surpreender que as pessoas de baixo clamem para serem ouvidas”, acrescentei. “As pessoas choram há séculos.”

As resistências ao fascismo e ao racismo nos EUA e no Brasil

Quem já leu algo dos chamados “pais da política moderna” passou, inevitavelmente, por Thomas Hobbes e aprendeu que, para os chamados “contratualistas”, não há vida possível sem a existência do Estado.

Seria essa grande e poderosa instituição o ente que protegeria a integridade física de cada súdito e preservaria sua propriedade. Independentemente do regime político defendido pelos autores contratualistas – absolutismo, república popular ou monarquia constitucional – de Hobbes a Immanuel Kant, passando por John Locke e Jean-Jacques Rousseau, o Estado é tido como incontornável. Ele significa “segurança” que se traduz em “previsibilidade”: a confiança de que essa máquina feita de juízes, policiais, militares, carcereiros, procuradores, defensores, coletores de impostos, burocratas e diplomatas se responsabilizaria por manter a “ordem” entendida como “paz”.

Nos Estados Unidos, uma pessoa negra é morta brutalmente, e a população sai às ruas fazendo-as arder, apesar da polícia, apesar da Ku Klux Klan. No Brasil, o assassinato insuportável de pobres, negros ou brancos quase negros de tão pobres, se rotiniza. Quando gera protestos nas favelas, logo a polícia dissipa, o tráfico controla, a milícia gerencia e a esquerda faz posts indignados.

Sem o Estado, os seres humanos resvalariam para a “guerra de todos contra todos”, o “estado de natureza”, situação cruel para Hobbes e Kant, aceitável para Locke, idealizada por Rousseau. O Estado, de todo modo, “pacificaria” os conflitos pela incrível desigualdade na capacidade de exercer a violência: suas forças de segurança, dotadas dos mais poderosos arsenais, seriam capazes de conter, reprimir, intimidar ou eliminar quem ousasse romper as regras de obediência ao Estado, cometendo atos sociais definidos pelo próprio Estado como “crimes”.

Sabemos que o “contrato social” é uma alegoria, uma “história sem História”, uma reflexão retórica sobre um tempo passado supostamente “selvagem” e sem Estado, sucedido pela inauguração da civilização por um “pacto” livre entre os seres humanos. A arqueologia, a história e a antropologia mostraram à exaustão como esse modelo de organização política chamado “Estado moderno” é uma invenção que teve lugar na Europa Ocidental, entre os séculos XIV e XVI. Forjado a ferro e fogo, sobre o cadáver de povos inteiros, os Estados modernos produziram seus próprios discursos de legitimação com o objetivo de ocultar o que Nietzsche chamaria de seus “baixos começos”. Daí as narrativas sobre o direito divino e dinástico dos reis e as teorias do contrato social, baseadas na ideia de que o Estado existiria pela vontade de Deus, por um direito adquirido em tempos remotos ou por esse suposto “contrato” que ninguém fez.

Autores e autoras de diversas perspectivas teórico-metodológicas, como Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Eduardo Viveiros de Castro, Manuela Carneiro da Cunha, Judith Butler, Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo, Perry & Benedict Anderson, Florestan Fernandes, Franz Fanon, Clovis Moura, nos mostraram a produção histórica, violenta, inconclusa disso que chamamos “Estado”.Trabalho Escravo,Ministério do Trabalho,Brasil,Blog do Mesquita

Mostraram, também, como esse modelo de organização política que centraliza o poder físico da violência e que se mantém pela extorsão sistemática da riqueza social – exatamente como atua uma máfia, segundo o historiador Charles Tilly – expandiu-se junto com as caravelas, canhões, tráficos e pestes levadas pelos europeus aos demais continentes. A “ordem” imposta na Europa por incontáveis massacres, genocídios, caça a hereges, queima de bruxas e guerras entre príncipes foi transposta aos “novos mundos”. Nesses continentes, sociedades diversas, guerreiras ou não, hierarquizadas e escravizadoras de outros povos, ou reunidas em grupos nômades que impediam a formação de Estados foram, uma a uma, derrotadas, exterminadas, sujeitadas. Nada de “contrato livre” entre os povos. Nada de “direito dos povos”.

Na imensa extensão da América do Sul que coube aos portugueses, centenas de diferentes povos foram cooptados, assimilados, mortos, violentados, escravizados, cristianizados, sedentarizados ou obrigados a fugir, embrenhando-se em selvas hostis.

Converter e “civilizar” foi, à época, denominado como “pacificar” os “índios bravios”. Os que não deixaram sua “braveza” foram assassinados. Por vezes, povos inteiros, como os tupinambá. Sarampo, catapora, gripe e sífilis foram as armas de destruição em massa da época. Como em outras partes do “Novo Mundo”, as populações indígenas dizimadas foram logo substituídas pelo mais duradouro e rentável dos negócios que a cobiça humana produziu até hoje: a escravidão africana.

Trazidos(as) aos milhões, entre os séculos XVI e XIX, os(as) escravizados(as) foram corpos objetificados que moveram a economia da colônia portuguesa e, depois, do Império do Brasil. Vemos, então, a commoditização humana como ponto central de organização econômica e política do país já em seus primórdios. Incontáveis foram os que não se submeteram, lutando, fugindo, queimando engenhos, sincretizando suas práticas religiosas, “dançando” a luta da capoeira, formando quilombos.

Milícias de bandeirantes, guardas nacionais, exército e polícias não deixaram de perseguir, conter e assassinar negros e negras, mesmo com as mudanças formais que, negociadas sempre entre as elites, marcaram as “transições” de regime no Brasil. Por isso, falar em “inimigo interno”, em “necropolítica” ou em “securitização” no caso brasileiro exige muitos cuidados históricos e analíticos. No Brasil, o “outro”, o “avesso” de uma pretensa civilização, o “perigo”, sempre teve pele escura e procedência social nos extratos mais pobres e explorados.

O verbo “pacificar”, comum aos jesuítas e militares, atravessou a história do país, incluindo a cristianização de povos indígenas, a ofensiva sobre quilombos, a contenção das sublevações regionais durante o Segundo Reinado, o enfrentamento dos subversivos imigrantes anarquistas e comunistas, já na chamada Primeira República.

A expressão reemergiu em 2008, no Rio de Janeiro, com o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, saudado à época por especialistas em segurança pública da esquerda à direita como o plano que finalmente uniria o “morro” ao “asfalto”, ou seja, a cidade dita “informal”, a favela – lugar do perigo, do narcotraficante, do ladrão, do assaltante e do sequestrador – à cidade “formal”. Novamente, ficou explícita a luta entre o “civilizado” e o “selvagem” a ser equacionada pela “pacificação” ou, em outras palavras, pela imposição física e simbólica de uma parcela minoritária da sociedade sobre a majoritária.

Entre 2010 e 2015, com a presença das Forças Armadas apoiando o processo das UPPs, o Exército criou sua Força de Pacificação para os Complexos do Alemão, da Penha e da Maré. Os ecos de Duque de Caxias, patrono dessa força e cujo nome batiza sua principal medalha (a “Ordem do Pacificador”), foram ouvidos em missões de invasão e ocupação de favelas utilizando blindados de transporte da Marinha, soldados do Batalhão de Operações Especiais da PM fluminense, tropas de infantaria do Exército, PMs treinados para serem “policiais pacificadores”, o que significava pouco mais que uma carga mínima de “direitos humanos” no currículo da Academia.

Tudo “deu certo” enquanto precisava: vieram a Copa das Confederações (2013), a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016). O turismo fluiu, os ganhos legais e ilegais prosperaram e os megaeventos foram um sucesso. Depois, tudo começou a “dar errado”. O estado do Rio de Janeiro faliu, os empresários do novo (agora antigo) “Brasil Potência” faliram e, assim, mais uma “ideia infalível” para resolver o “problema” de segurança pública no Rio falhou. Em julho de 2017, houve novo envio de tropas militares ao estado. Em 2018, veio a intervenção federal na secretaria de segurança pública. Mesmo que oficialmente “desmobilizada” desde 2019, ainda se via militares circulando em caminhões de transporte de tropas no começo da pandemia de Covid-19, em março de 2020.

Com a pandemia, vieram as recomendações da OMS e de especialistas avalizados para o isolamento social e o “lockdown”. Tais indicações colocaram em lados opostos governadores e prefeitos e o governo federal, que se fia nas reflexões de um autoproclamado “filósofo” reacionário, no apoio dos políticos e empresários oportunistas de sempre, na devoção de sinceros crentes na missão redentora do Messias e na intimidação de milicianos. A classe média, então, passou a bater panela, muitos assumindo o arrependimento do voto nas eleições presidenciais de 2018, outros desconversando sobre o tema. Nesse estranho país chamado Brasil, políticos de direita se converteram em “defensores da democracia” diante de um presidente autoritário, com arroubos megalômanos e flagrante inépcia para a função que ocupa.

A Covid-19 se espalha rapidamente pelo país, matando de milhares de brasileiros. Nas favelas, o tal do “isolamento social” é uma quimera. Quem pode se isola, mas a maioria não pode (pois sai para trabalhar), ou simplesmente não consegue, nos espaços limitados e com alta concentração populacional. Nesse contexto, a polícia carioca seguiu entrando nas favelas e matando. Assim, o jovem João Pedro foi morto com tiros nas costas quando PMs invadiram sua casa numa favela de São Gonçalo. Seu assassinato gerou nova onda de indignação, muitos posts de Instagram e threads de Twitter (ao lado dos que lembravam que com mais de dois anos passados, ainda não sabemos quem mandou matar Marielle Franco).

Dias depois do assassinato de João Pedro, um policial branco de Minneapolis deu voz de prisão, algemou, jogou ao chão e sufocou até a morte o cidadão norte-americano George Floyd. O vídeo, no qual Floyd repete “I can’t breathe”, viralizou. A esquina em que foi morto se tornou centro de protestos. Casas, veículos e carros da polícia foram incendiados e saqueados. A violência da polícia provocou uma reação de negros e negras, mas também de latinos e brancos (a maioria mulheres). Uma comoção se espalhou pelos Estados Unidos, com protestos em massa, saques, depredações e repressão policial por todo o país. As cenas lembraram a sublevação de Baltimore, em 2015, quando o jovem Freddy Gray não resistiu ao espancamento que sofreu de policiais brancos.

Lembraram, também, das manifestações e depredações em Los Angeles, em 1992, quando o tribunal do júri absolveu três policiais (dois brancos e um latino) que haviam agredido brutalmente Rodney King. O presidente republicano da época, George H. W. Bush, enviou a Guarda Nacional para “pacificar” Los Angeles. O atual presidente republicano, Donald Trump, acuado no bunker da Casa Branca, ameaçou enviar a mesma Guarda Nacional e o Exército a Minneapolis ou para onde a “law & order”, segundo um dos seus tuítes, estivesse sob ameaça. O mesmo presidente prometeu classificar os “antifas” como grupo terrorista (ideia imediatamente copiada pelo mímico Bolsonaro diante das manifestações em massa de domingo 31 de maio de 2020), ignorando, ridiculamente, que ser “anti-fascista” é uma atitude ética e política e não um grupo, com sede social e caixa postal

Floyd, Gray, King e João Pedro eram negros.

Muitos se questionam e são provocativos sobre não haver reação similar no Brasil, principalmente após a morte de Marielle Franco ou de João Pedro, ou das centenas de mulheres e homens negros que são mortos diariamente. Tão complexo quanto o racismo, assim o é a reflexão a respeito dele. O racismo, a despeito de ser uma estrutura que organiza tanto a sociedade brasileira quanto a norte-americana, se manifesta em adaptação às realidades e fenômenos de cada sociedade, tendo características e especificidades que também produzirão respostas e resistências próprias a cada contexto. O que não significa que não existam reações, mas que cada uma se adequará aos processos históricos e políticos de cada localidade em que o racismo se estrutura e se expressa. E isso nos faz pensar que fenômeno sócio-político e cultural é poderoso o suficiente para sufocar aquilo que Gilberto Gil, cantando sobre Zumbi dos Palmares e Ganga Zumba, chamou de “felicidade guerreira” do negro. A pergunta é difícil de formular, e a resposta – se é que há alguma – deve ser ainda mais complicada.

Um esforço nesse sentido, nos faz lançar algumas pistas para provocar uma reflexão. A palavra-chave parece ser “pacificação”. A rebeldia no brasileiro, especialmente na maioria negra, foi “pacificada” por uma intrincada combinação entre violência física e simbólica. E esse ponto é muito importante. Ao falarmos de “pacificação”, não usamos o conceito entre aspas por acaso. Primeiro, porque não se trata de modo algum em algo que possa ser confundido com “passividade”. Esse processo de “pacificação” é um projeto ativo e consistente que envolve dimensões da violência fundamentais para o seu pleno exercício. E essa violência não é recebida passivamente, mas em luta constante, em confrontos intensos, em reinvenções de ação e reação, contendo práticas de imposição e de revolta, de ofensivas e defensivas. Como dizia Foucault, não se disciplina e governa apenas “sujeitando” pela força, mas também “subjetificando”, ou seja, produzindo sujeitos dotados de determinados valores e condutas. E, assim como Foucault, a antropóloga Avtar Brah e a historiadora Beatriz Nascimento pensaram a ambivalência dos corpos como territórios de frequentes lutas, de inscrições e reinvenções.

A “pacificação” brasileira foi e é um processo que atravessa nossa história. Durante os séculos de escravidão negra surgiram resistências com diversas práticas, fossem levantes, suicídios, abortos ou a organização de fugas e quilombos. No caso destes últimos, temos o de Palmares, um aglomerado de quilombos que resistiu por quase cem anos e que foi destruído sob a coordenação de uma grande incursão miliciana bandeirante. Outros quilombos passaram por processo de assimilação às dinâmicas econômicas locais. Esse processo ambivalente caracterizou todo o período de escravização.

Se por um lado, o teor autoritário da contenção às resistências e às alteridades não é uma novidade no país, as revoltas e rebeliões também não. Alguns exemplos são a Conjuração Baiana (1798), de caráter emancipatório, a Balaiada (1834), considerada uma das maiores insurreições do Brasil império, por cidadania e acesso à terra; a Revolta dos Malês (1835), clamando por liberdade para os negros escravos; e, já no século XX, a Revolta da Chibata (1910), contra as violências raciais no interior das Forças Armadas. Todas essas, e outras revoltas, sempre foram violentamente reprimidas, com o elemento “pacificador” da punição exemplar.

Nas cidades do Brasil imperial, a maioria negra era vigiada sem trégua. No Rio de Janeiro, em 1830, aprovou-se a primeira lei anti-maconha do mundo moderno precisamente porque seu uso era prática associada a negros forros ou a “negros de ganho” (escravizados que passavam o dia na rua vendendo coisas para seus senhores e, no espaço público, interagiam com outros escravizados ou libertos). Com o fim da escravidão e a intensificação do êxodo rural para os novos polos industriais, como Rio e São Paulo, as populações negras foram sendo aglomeradas em cortiços e favelas. O perigo dos negros vivendo em áreas próximas às classes altas e à incipiente classe média levou a expulsões, destruição de cortiços, processos de reurbanização justificados em nome da modernização, da higienização e da civilização. Novamente, “civilização” e presença do Estado significavam “ordem” e “paz”, mas “contrato social”, ninguém sabe, ninguém viu.

As políticas de controle e marginalização se remodelaram com frequência, combinando legislações criminalizadoras de um lado e incentivos à imigração de europeus brancos de outro com o intuito de “embranquecer” o país. Diante da impossibilidade prática desse segundo objetivo, as elites brasileiras da primeira metade do século XX combinaram duas táticas: primeiro, continuar governando os pobres e negros sob as patas dos cavalos; segundo, produzir um “mito de fundação” da “brasilidade” que teve sua expressão maior na obra do antropólogo Gilberto Freyre, filho da oligarquia pernambucana e educado nos Estados Unidos junto aos expoentes da antropologia racista da época.

Freyre deu corpo e conceito a uma “ideia de Brasil” malemolente, amável, cálido, tolerante e pacífico. Seus textos defenderam o princípio de uma miscigenação que, mesmo com elementos de violência, teria consumado um amálgama único e harmônico entre indígenas, negros e brancos. Assim, num Brasil de tantos contrastes inegáveis, haveria uma “democracia racial”. O que vemos, portanto, é uma mudança de tática, agregando elementos sutis de subjetivação, sem que a estratégia fosse alterada. A ditadura de Getúlio Vargas e, logo depois a ditadura de António de Oliveira Salazar, em Portugal, não deixariam de ver o potencial da tese da “democracia” de Freyre, já que a violência da colonização poderia ser reescrita como se fosse uma congregação das raças e, as desigualdades sociais, econômicas e políticas, naturalizadas num ambiente pacificado.

Sendo assim, construiu-se a “identidade nacional” pela via de controle e extermínio e pela de assimilação, aculturação e dissolução das raízes etnicamente múltiplas, notadamente as africanas e indígenas. A mestiçagem passou a ser um processo visto como positivo para o “aprimoramento” de uma “raça brasileira”, pois, aproveitando uma ideia vinda de tempos coloniais, miscigenar “embranquecia” o negro, e não o contrário. É sobre esse processo que, no final dos anos 1970, o intelectual Abdias Nascimento se insurge e se posiciona denominando como “genocídio do negro brasileiro”.

Vargas investiu pesado na formação do “Brasil”: a Rádio Nacional levou aos rincões do país os primeiros ídolos nacionais (os cantores e as cantoras), o samba carioca (recondicionado a partir do samba de roda do Recôncavo baiano) foi eleito a “música nacional”, o futebol consagrou-se como o “esporte nacional”, o cinema da época exaltou a colonização portuguesa e a brandura do povo brasileiro, e a “Voz do Brasil” tornou-se o noticiário diário oficial, tendo como vinheta de abertura os compassos iniciais da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes.

De modo análogo, certa literatura regionalista, a partir dos anos 1940, e as telenovelas, a partir dos anos 1960, fariam o mesmo: mostrar um país irmanado na sua diversidade. A consagração da seleção de 1970, na Copa do México, selou o laço da “democracia racial”, com um super-herói negro (Pelé), circundado de semideuses da bola brancos e mulatos. Enquanto isso, nos porões da ditadura e nas favelas e periferias, a violência e a tortura faziam a sua parte. Todo esse processo também desencadeou diversificadas práticas de combate às resistências. Para a assimilação das escolas de samba, por exemplo, foi decretado ainda na Era Vargas que elas só poderiam realizar seus desfiles se autorizadas com alvarás expedidos em delegacias; muitas sofrendo processos de interferência direta para mudança de nomes etc. Além disso, é na ditadura Vargas que, com o decreto que pôs fim aos partidos políticos, a Frente Negra Brasileira caiu na ilegalidade (1937).Trabalho Escravo,Brasil,Justiça,Bolsonaro

Também na Era Vargas, as religiões africano-brasileiras deixaram de ser criminalizadas, a partir da celebração de um acordo de isenção política. Apesar dos acordos e ajustes, a violência e repressão nunca cessaram, alimentando um forte processo de criminalização das populações negras e empobrecidas, que apenas aumentou com a regime civil-militar (1964-1985). Nas ambiguidades do binômino repressão-assimilação, a capoeira tornou-se esporte for export. O “baiano” e o “paraíba” viraram personagens simpáticos, cômicos e exóticos em programas humorísticos e telenovelas e, ao mesmo tempo, xingamento racista e xenófobo no “Sul Maravilha”.

Além disso, a pacificação das espiritualidades que a Igreja Católica não conseguiu arrematar, com sua permissividade sincrética, tornou-se batalha assumida, a partir dos anos 1960, pelas igrejas evangélicas, com a chegada de seus primeiros missionários estadunidenses, canadenses e nórdicos. Diferentemente das igrejas protestantes mais antigas e já estabelecidas no Brasil, como a batista e a anglicana, as novas denominações contaram com o beneplácito do regime autoritário e a tolerância dos católicos mais reacionários para conquistar territórios, corações e mentes e, com isso, minar a teologia da libertação, o catolicismo de esquerda e as comunidades eclesiásticas de base. Os neopentencostais ofereceram mais do que conforto espiritual: formaram redes de apoio material, constituíram-se em pontos de apoio para uma nova sociabilidade voltada aos migrantes do interior e do Nordeste que chegavam às metrópoles do Sudeste, e introduziram dois novos processos de subjetivação: a teologia da prosperidade e a teologia da dominação.

A primeira é uma versão popularizada da permissão calvinista para enriquecer sem temer o pecado; e a segunda é voltada à ocupação de lugares no espaço público – meios de comunicação, sindicatos, partidos políticos, postos eletivos, burocracia – a fim de combater o “demônio” na política, ou seja, todos os costumes que emergiram de práticas progressistas disseminadas por movimentos de esquerda desde o século XIX e amplificadas pela contracultura dos anos 1960: liberdade sexual, controle de natalidade, negação da lógica capitalista etc.

Não demorou para que os primeiros pastores e bispos (e pastoras e bispas) brasileiros fossem formados pelos estrangeiros. Um intenso intercâmbio começou a acontecer, entre os anos 1970 e 1980, ligando universidades e cursos teológicos neopentecostais nos Estados Unidos e Canadá a análogos no Brasil, incluindo associações de “empresários cristãos”, “políticos cristãos”, “atletas de Cristo”. Aquilo que nos Estados Unidos era chamado de “evangelismo televisivo” logo ganhou versões brasileiras. Grandes e pequenas denominações foram proliferando, ocupando espaços antes esquadrinhados pela Igreja Católica. As religiões de tradição africana começaram a ser combatidas com violência. Os antigos “crentes” se empoderaram, formaram conglomerados empresariais, compraram redes de TV, tornaram-se “multinacionais da fé” e formaram bancadas nas assembleias estaduais e federais. Com a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, chegaram ao Poder Executivo.

Enquanto cresciam as igrejas neopentencostais, nos anos 1980, os morros cariocas e as periferias paulistanas passaram a ser palco de uma nova tensão provocada pela chegada do tráfico de drogas como grande negócio transterritorial. Naquela década, o Brasil era uma rota fundamental para o trânsito de cocaína dos Andes para a Europa e, além disso, um mercado promissor para o consumo de cocaína, solventes e maconha. Das prisões abarrotadas surgiram os grupos de autodefesa de presos que logo controlariam o governo das próprias prisões e de territórios em favelas e periferias. Do seminal Comando Vermelho, formado no presídio da Ilha Grande em 1979, ao Primeiro Comando da Capital, nascido em 1992 no presídio de Venceslau Brás, no interior de São Paulo, a combinação entre proibição das drogas, repressão policial e a continuação constante da criminalização das populações pobres e negras fez o narcotráfico florescer e se desdobrar em outros rentáveis ilegalismos aproximando agentes do Estado de soldados do tráfico.

A produção desse novo crime, o narcotráfico, tem uma história que remonta às primeiras ondas de proibição das drogas no início do século XX, mas tomou forma de “ameaça” à “ordem” nos discursos governamentais e na grande imprensa a partir dos anos 1980. Após trinta anos da versão brasileira da “guerra às drogas”, seguindo dados conservadores fornecidos pelo Ministério da Justiça, cerca de 20% dos homens presos e 51% das mulheres, se encontram confinados(as) por condenações ou processos em curso relacionados ao tráfico de drogas. Deles, cerca de 60% são “pretos” ou “pardos”, constituindo a categoria “negro”, segundo o IBGE. Conforme dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen)/Infopen de 2017, 63,6% da população carcerária brasileira é composta por pretos/pardos, enquanto representam apenas 55,4% do total. Com a terceira maior população prisional do mundo (com 748.009 pessoas presas segundo dados do Depen de abril de 2020), o Brasil prende majoritariamente pobres, jovens, negros e negras e de baixa escolaridade.

Então, como pacificam a rebeldia e as resistências no Brasil? A resposta passa, pelo menos, pela mescla entre uma produção de subjetividades baseada na ideia da concórdia e da “alegria”, da conformidade com a miséria calcada na crença da ajuda de Deus, da difusão/educação cotidiana pela grande imprensa e pelas obras de ficção na TV que ainda sustentam a ideia da “democracia racial”, da ocultação diária das violências do patriarcalismo (crimes de ódio homofóbico e de gênero), na missão “evangelizadora” das igrejas neopentecostais, na violência brutal da polícia e na convocação de jovens pobres para o narcotráfico. Trata-se da combinação entre produção de mentalidades docilizadas e de violência para conter os indóceis.

Diante disso, a esquerda de corte mais tradicional e procedência sindical se ajustou ao jogo político-institucional, sendo muito cuidadosa de modo a não romper com suas posições conquistadas no sistema político nacional. A esquerda partidária, quase sempre desunida, branca e de classe média, promove, hoje, manifestos escritos, notas de repúdio, “rodas de conversa”, threads de tweets e denúncias para a comunidade acadêmica e de direitos humanos estrangeiros. Enquanto isso, o bolsonarismo mais radical se arma, defende o armamento da população, ocupa as mídias sociais com chamamentos à agressão, ao assassinato de “comunistas” e à destruição das instituições da democracia formal. A ultradireita tem sido muito mais eficiente na luta pelas mídias sociais e, quando vão às ruas, mesmo sendo poucos, magnificam suas marchas reacionárias parecendo ser muitos mais.

Uma questão relevante para ser ressaltada. Durante esse processo de organização político-institucional e partidário, ativistas e movimentos negros não deixaram de se insurgir no país nem de buscar diálogos com essas organizações. Seja na busca da construção de um partido próprio, como a Frente Negra Brasileira, seja na atuação conjunta aos sindicatos e comunistas, como no Partido Comunista Brasileiro (PCB), com atuação do importante líder revolucionário Carlos Marighella; e, também, no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), com a atuação revolucionária e guerrilheira de Helenira Resende; ambos assassinados pela regime civil-militar. Na reorganização das esquerdas e movimentos populares por democratização, os ativismos negros também se organizaram e atuaram no país, seja com o fortalecimento de uma intelectualidade negra que passou a questionar o negro fosse como “problema”, fosse como “objeto” de estudo, seja com o surgimento do Movimento Negro Unificado (1978) e a participação ativa desses militantes na refundação e fundação de partidos progressistas e de esquerda.

A principal questão a se pontuar é a de que, por essa trajetória classista, desde aquele período há forte embate com esses ativismos e militâncias sobre como a construção política de raça e o racismo são estruturadores da sociedade brasileira. E esse é um debate que se realiza, e se acirra, ainda hoje. Apesar dessa falta de construção de um programa e ação política unificada das esquerdas, diversos ativismos negros heterogêneos se insurgem pelo país. Mais uma vez, a falta de perspectiva da violência racial como eixo de construção da sociedade brasileira e como elemento de “pacificação” tem sido elemento de cisão e não de uma construção orgânica, aliando a potencialidade dessas organizações e desses ativismos em um embate importante nos territórios em que a direita tem nadado de braçada.

A extrema direita pode ser minoritária (cerca de 20%, como indica a média das análises de politólogos), mas usam da intimidação e da força para agredir jornalistas, coagir professores, perseguir intelectuais. E o que recebem de volta? Reclamações, denúncias indignadas, pessoas demolidas em sua saúde mental. Dentre essas pessoas alinhadas ao campo progressista, há muitos intelectuais (principalmente cientistas políticos) que continuam defendendo visões de cunho weberiano ou habermasiano que veem a esfera política como espaço de debate, enfrentamentos regrados e formulação de consensos. Negam-se a ver que a política, como afirmou Michel Foucault, é a “guerra continuada por outros meios”, um conflito permanente entre posições políticas, projetos ideológicos, visões de mundo. Não se furtam a acusar Carl Schmitt de jurista do nazismo (o que de fato foi), para descartar sua análise da política como o espaço da relação conflituosa amigo-inimigo.

Evitam, assim, um olhar agonístico para o político, ou seja, a compreensão do conjunto das relações de poder com um campo multifacetado de enfrentamentos, nem todos violentos, entre opiniões, projetos sociais, profissões de fé, produções de verdades. Foucault nos lembrou que na Grécia Clássica, o conceito de “ágon” significava, precisamente, esse embate que é próprio da existência humana: o choque com a alteridade e consigo próprio. Esse confronto era visto pelos filósofos pré-socráticos, como Heráclito de Éfeso, como a força motriz da existência de cada um e como amálgama da vida social. Milênios depois, foi o anarquista Pierre-Joseph Proudhon que retomou, num livro repudiado por anarquistas, comunistas, liberais e conservadores (“A guerra e a paz”, de 1861), o conceito do “combate” como pai/mãe de toda inventividade e instituições humanas. Esse “combate” não se confundia, entretanto, com o também grego conceito de “pòlemos”, a guerra entre Estados, a violência exercida em nome do príncipe, das elites, do território e da propriedade estatal e privada.

O medo da “guerra civil” que assombrava Hobbes continua rondando especialistas e não especialistas no século XXI. Para eles/elas, sublevar-se é a senha para o caos, para a desordem, para a “anarquia”, para a volta a algo que nunca houve: o “estado de natureza”. As energias rebeldes são, portanto, educadas formalmente para acreditar que “ausência de Estado” equivale a “desordem” e “morte violenta”; ou, simplesmente, as subjetividades mais inconformistas são aplastadas desde a mais tenra idade pelo “pátrio poder” em casa, pelos professores na escola, pela educação nas mídias eletrônicas ou pela repressão policial ou militar.

E, agora, pelo bolsonarismo fascista que se arma (física e eletronicamente). Eles e elas estão sem medo, porque quando rosnam a maioria se encolhe, no máximo batendo panelas e tuitando. Se bolsonaristas têm redes bem articuladas nas mídias sociais para fazer ataques a sites ou a contas progressistas, é preciso contra-atacar e derrubar os sites deles, contaminar as threads deles, expô-los ao ridículo e ao juízo público. A política é confronto. Os fascistas sabem disso. Mas Marx e Engels também sabiam, Proudhon, Bakunin, Emma Goldman, Rosa Luxemburgo e Gramsci sabiam. Encolher-se significa deixar que o pequeno pitbull cresça e se transforme num grotesco Cérbero.Ilustração dePawel Kuczynski

Nos Estados Unidos, uma pessoa negra é morta brutalmente, e a população sai às ruas fazendo-as arder, apesar da polícia, apesar da Ku Klux Klan. No Brasil, o assassinato insuportável de pobres, negros ou brancos quase negros de tão pobres, se rotiniza. Quando gera protestos nas favelas, logo a polícia dissipa, o tráfico controla, a milícia gerencia e a esquerda faz posts indignados. O Brasil de hoje tem que enfrentar a abertura desbragada de todo o chorume de séculos de patriarcalismo, misoginia e racismo. O lado positivo desse pesadelo é o fim do “sonho” da “democracia racial”. Então, não é hora de se esconder atrás de discursos progressistas, memes engajados, ou surtos indignados no recôndito do lar, pensando no absurdo em que se tornou o país. Os processos históricos de expressão e execução do racismo nos Estados Unidos e no Brasil podem ter suas características próprias e específicas, mas também têm seus encontros. Mas o mais importante é que a potencialidade da indignação pode, e deve, se realizar, e torna-se algo concreto.

É preciso sair e mostrar para os bolsominions que eles não são maioria e que eles não passarão. Há poucas semanas, parte da torcida Gaviões da Fiel impediu uma manifestação fascista na Avenida Paulista. Dias depois, um grupo de não mais de trinta antifas em Porto Alegre bloqueou uma carreata pró-Bolsonaro e a fez, literalmente, dar marcha-a-ré. No domingo 31 de maio, torcidas organizadas, punks e outras forças geralmente antagonistas, uniram-se numa frente antifa. Bastou com que aparecessem para que os “bombados” bolsonaristas reagissem de forma histriônica e se borrassem de medo. Fascistas são bullies que andam em grupo. Como todo bully, o fascista vive da conivência de vários, da conveniência de alguns e do medo de muitos.

A ideia de “conversar com fascistas” é, na melhor das hipóteses ingênua, para não dizer tola. Trata-se de um equívoco ontológico, já que o que caracteriza o fascista é o ódio, e o desejo de exterminar quem pensa, vive, ama, reza de forma diferente da dele. O fascismo surgiu como fenômeno histórico na Itália, entre os anos 1920 e 1940. O partido organizado por Benito Mussolini tomou a simbologia romana dos muitos feixes (fasci) unidos como metáfora para a ideia de que a “união faz a força”. Essa união diluiria as individualidades em nome da pátria, de Deus, da família e dos valores patriarcalistas, militaristas e conservadores. Naquela época, versões nacionais do fascismo apareceram em diversos países, como o chauvinismo (França), o jingoísmo (Reino Unido), o falangismo (Espanha), o salazarismo (Portugal), o integralismo (Brasil) e o nazismo (Alemanha).

Após a derrota militar de 1945, as expressões “fascista” e “fascismo” continuaram a denominar a crença radical, virulenta, fanática numa verdade absoluta conservadora associada à pulsão de morte a tudo, todos e todas que não se perfilem às suas falanges. Por isso que entendemos que o fascismo, no Brasil, é um fenômeno que caminha pari passu, confluente ao racismo, machismo, homofobia e à naturalização da exploração e da eliminação dos mais pobres. Hoje, combinada com uma versão olavista de “patriotismo”, que prega a subserviência total aos Estados Unidos, e de radicalidade moralista de importantes denominações neopentencostais, o bolsonarismo se produz como versão atualizada do fascismo entre nós.Chaplin,Ditador,Estado,Fascismo,Nazismo,Blog do Mesquita

O fascismo não conversa. Ele ataca. Quando compõe com outras forças conservadoras, é sempre de modo oportunista, traiçoeiro e temporário, apenas esperando para ocupar todos os espaços possíveis. A direita brasileira e alguns setores das classes médias, que votaram em Bolsonaro, já perceberam isso. É possível e desejável que as forças democráticas no Brasil sigam no esforço de produzir uma frente ampla, constituída sob princípios que não titubeiem na luta contra atitudes, práticas e ideologias fasci-racistas, para barrar e desmobilizar o bolsonarismo. Isso, no entanto, não implica em conversar ou contemporizar com os fascistas. É hora de fazer aqueles que odeiam voltarem a ter medo e vergonha de pensar o que pensam, de fazer o que fazem. A linguagem deles é a força. A nossa também deve ser. É preciso abandonar as lentes contratualistas e experimentar olhar para o mundo de forma agonista.

Nas ruas de Minneapollis, manifestantes gritam “No Justice! No Peace!”. Pessoas iluminadas pelos edifícios em chamas. Uma das principais táticas construídas pelos manifestantes tem sido a de formar cordões humanos de pessoas brancas entre os policiais e pessoas negras, advogados de prontidão para a defesa e uma série de instruções de ação para proteção, com foco nas pessoas negras, sejam as lideranças das manifestações, sejam partícipes que podem ficar em perigo. Em vez de insistirmos em disputas nas redes sociais sobre o que seria de interesse nacional, em vez de uma competição por um protagonismo progressista, por que não aprender com essas práticas? Por que não exercitar o antirracismo apregoado e compartilhado em hashtags.

Por que a prática antirracista não está sendo construída como o novo normal? É importante se inspirar, mas o mais importante é compreendermos nossa realidade, como a desigualdade que se presentifica em nosso país, para construirmos uma estratégia que compreenda que só venceremos a guerra com um acúmulo de vitoriosas batalhas. Não será fácil, não se resolverá apenas por meio da política institucional e de eleições. Mais do que uma pessoa, estamos diante de um movimento autoritário que se organiza a passos largos no país. Se compreendemos que somos uma maioria, precisamos ser os que realizam o trabalho de não permitir o silêncio no galpão e incentivar que se rompam os portões. Trata-se de encarar o fogo da existência que nunca se extingue, como dizia Heráclito, e gritar na cara deles: Não Passarão!

Thiago Rodrigues é professor do Instituto de Estudos Estratégicos/UFF e coordenador do grupo de pesquisa “Segurança e Defesa nas Américas (SeDe/UFF/CNPq). Autor, entre outros, de Política e drogas nas Américas, uma genealogia do narcotráfico, Editora Desatino, 2017.

Juliana Borges é escritora e pesquisadora de Política Criminal, membra da Articulação Interamericana de Mulheres Negras na Justiça Criminal e consultora do Núcleo de Enfrentamento, Monitoramento e Memória de Combate à Violência da OAB. É autora de Encarceramento em Massa, Pólen Livros, 2019.

‘Ativismo de marca’ e protestos contra o racismo: como saber se as empresas praticam o que dizem

À medida que as manifestações públicas de indignação após o assassinato de George Floyd, um homem negro, cresciam nos EUA, várias empresas levantaram a voz ao lado dos manifestantes.

O movimento Black Lives Matter luta contra a violência policial contra negros nos EUA – Direito de imagem GETTY IMAGES

Houve declarações de apoio e promessas de doações ao movimento Black Lives Matter (vidas negras importam) e grupos de direitos civis por parte de uma ampla gama de empresas de variados setores, de finanças e alimentos a moda e entretenimento.

Mas algumas das marcas estão sendo acusadas de hipocrisia.

Essas empresas estão genuinamente envolvidas na causa antirracista ou estão apenas tentando lucrar em cima do movimento?

Conheça o ‘ativismo de marca’

As empresas têm adotado cada vez mais o que é conhecido como “ativismo de marca”, adotando uma posição sobre questões sociais, ambientais ou políticas.

A tendência é impulsionada pelo comportamento do consumidor. Mais e mais pessoas esperam que as empresas contribuam positivamente para a sociedade.

Uma pesquisa de 2018 em 35 países mostrou que 64% dos consumidores recompensariam empresas que consideram engajadas em algum tipo de ativismo.

“Portanto, não é de surpreender que tenhamos visto muitas empresas se posicionarem publicamente depois do que aconteceu com George Floyd”, diz Pepper Miller, consultora de diversidade de Chicago, nos EUA, à BBC.

“Nas ruas, a resposta também foi significativa. Houve até protestos na Finlândia. É difícil para as empresas ignorarem isso.”

No entanto, Miller, que aconselha as empresas a trabalharem e pesquisarem mais para entender os consumidores negros há mais de 20 anos, tem suas dúvidas sobre a mais recente onda de “ativismo de marca”.

Negros no comando

No caso do apoio corporativo ao Black Lives Matter, ela diz que, embora muitas empresas tenham adotado rapidamente a hashtag do movimento em redes sociais, elas não parecem demonstrar o mesmo entusiasmo em seu quadro de diretores.

A especialista em marketing Pepper Miller (ao centro) diz que as empresas precisam ter atitudes compatíveis com seu discurso
Direito de imagem COURTESY OF PEPPER MILLER

Em 2020, apenas quatro das 500 maiores empresas americanas tinham um diretor-executivo negro.

“As empresas precisam fazer planos de longo prazo para inclusão social e igualdade racial que sejam mais do que apenas dizer que eles ‘apoiam pessoas negras'”, diz Miller.

“Mas a experiência mostra, no entanto, que prática não funciona assim. A maioria das iniciativas é pontual.”

A questão sobre a falta de diversidade nos quadros de diretores atingiu até marcas grandes como a Nike.

Em 2018, a Nike lançou uma forte campanha com o astro do futebol americano Colin Kaepernick.

Kaepernick havia sido afastado da NFL (Liga Nacional de Futebol dos EUA) depois de se ajoelhar, em protesto contra a violência policial, durante o hino nacional em uma partida em 2016.

Desde então, o gesto foi reproduzido por muitos, incluindo políticos, mas na época custou ao jogador o seu contrato com o time dos San Francisco 49ers.

A Nike, no entanto, o contratou para ser um dos rostos da sua campanha de 30º aniversário. A empresa enfrentou protestos e ameaças de boicotes, mas também recebeu muitos elogios — e viu um aumento nas vendas, indicando que a ação com o jogador foi bem vista pelos consumidores.

Mas logo as atenções se voltaram para a diversidade dentro da empresa. Em 2019, menos de 10% de seus 3.000 vice-presidentes ao redor do mundo eram negros.

“No último ano, nós ampliamos nossos próprios esforços e medidas de responsabilidade nas áreas de diversidade, inclusão e pertencimento para criar um ambiente que atraia uma força da trabalho mais diversa”, disse o diretor-executivo da Nike, John Donahue, no dia 5 de junho.

A Nike colheu benefícios de sua campanha com Colin Kaepernick, mas foi questionada por suas políticas internas de diversidade
Direito de imagem GETTY IMAGES

A empresa também prometeu investir 40 milhões de dólares nos próximos quatro anos para apoiar a comunidade negra nos Estados Unidos.

“O racismo sistêmico e os eventos que ocorreram nos Estados Unidos nas últimas semanas servem como um lembrete urgente da mudança contínua necessária em nossa sociedade”, acrescentou Donahue.

Pesquise quantos negros trabalham na empresa

Os ativistas estão pedindo que todas as empresas “assumam” o quão diversas elas são.

Sharon Chuter, uma ex-executiva nigeriana da indústria da beleza e fundadora da marca doméstica Uoma, lançou a campanha “Pull Up or Shut Up” (algo como “levante ou cale a boca”, em tradução livre). É um desafio para as marcas de beleza divulgarem o número de negros que trabalham para elas no nível executivo e para pedir ao público para não comprar das empresas que se recusam a fazê-lo.

A página do Instagram da campanha está cheia de posts de empresas que divulgam essas informações.

Apenas 4 das 500 maiores empresas americanas tem um CEO negro
Direito de imagem GETTY IMAGES

A hashtag #PullUpOrShutUp foi adotada por influenciadores como o youtuber Jackie Aina.

“Como sabemos, existem muitas marcas que adoram ganhar dinheiro com a cultura negra, a música negra, a estética negra, mas ficam caladas quando se trata de falar sobre questões e lutas negras em nossa comunidade”, disse Aina em um vídeo no Instagram, publicado no início de junho, com mais de 1,7 milhão de visualizações até o momento.

‘Vote com sua carteira’

A famosa ativista Brea Baker adverte as empresas que campanhas em redes sociais não são suficientes e que “os consumidores estão prestando atenção”.

A publicação antirracismo da empresa francesa de cosméticos L’Oreal no Instagram foi criticada, por exemplo. Os comentários das pessoas se referiram à sua decisão de despedir a transgênero e modelo negra Munroe Bergdorf em 2017.

Bergdorf criticou os violentos protestos nacionalistas brancos na cidade americana de Charlottesville, dizendo: “Honestamente, não tenho mais energia para falar sobre a violência racial dos brancos. Sim, TODOS os brancos”.

A ativistas Brea Baker diz que as empresas não podem fazer apenas o mínimo
Direito de imagem COURTSEY OF BREA BAKER

Na época, a L’Oreal disse que seus comentários estavam “em desacordo” com os valores da empresa e ela foi dispensada.

Mas, em 9 de junho, L’Oreal e Bergdorf publicaram uma “publicação conjunta” no Instagram anunciando que a modelo havia sido contratada como consultora para questões de diversidade e que a empresa havia prometido doações para instituições de caridade que trabalham com jovens transexuais e minorias.

No post, a presidente da L’Oreal, Delphine Viguier, pediu desculpas à modelo.

“Eis o que ouvi de Munroe Bergdorf: há três anos, Munroe se sentiu silenciada por uma marca, a L’Oréal Paris, que tinha o poder de ampliar sua voz. Lamento a falta de diálogo e apoio que a empresa mostrou a Munroe ao longo do tempo. Deveríamos também ter feito mais para criar uma conversa sobre mudanças, como estamos fazendo agora.”

Baker diz que, enquanto algumas empresas estão respondendo à pressão “com o mínimo de postagens nas redes sociais”, os consumidores estão observando as que “estão fazendo jus ao momento doando grandes quantias de dinheiro, elevando os recursos antirracistas e ecoando os chamados ao ativismo”.

Em exemplo famoso de como as pessoas podem responsabilizar marcas que são consideradas prejudiciais a certas causas ocorreu quando o Uber lucrou com o protesto de taxistas de Nova York contra a proibição do presidente Donald Trump da entrada de cidadãos de vários países de maioria muçulmana no país, em 2017.

A empresa se desculpou publicamente e negou ter feito esforços para prejudicar a greve, mas em pouco mais de dois dias 200 mil pessoas excluíram suas contas do Uber. A empresa rival Lyft superou-a pela primeira vez em downloads de aplicativos.

“O consumidor quer marcas que se preocupam com uma série de questões, incluindo direitos humanos e aquecimento global”, explica Adam Stones, estrategista de comunicação de Amsterdã. “Mas as empresas precisam praticar o que pregam ou sua mensagem será vista como desrespeitosa”.

Stones está convencido de que os profissionais de marketing e as empresas não devem subestimar como os consumidores levando em consideração questões maiores quando estão comprando.

“As pessoas não são ingênuas. Uma empresa que tentar ganhar sua confiança sem a intenção de mudar de fato será descoberta pelos clientes e até pelos investidores”, alerta o especialista.

Os clientes gostam de negócios que buscam um “propósito” além do lucro, investindo em benefícios sociais, comunitários e ambientais.

Um relatório da consultoria Korn Ferry mostrou que as empresas que adotam essa filosofia viram suas vendas aumentarem a taxas quatro vezes maiores do que os concorrentes entre 2011 e 2015.

Essas empresas são conhecidas como “empresas-B”. Existem até certificações formais, como a certificação Fair Trade (Comércio Justo), que verifica diversos quesitos, incluindo a diversidade.

“As marcas estão sendo pressionadas a ser uma força do bem e algumas realmente foram bem-sucedidas”, diz Adam Stones. “As empresas-B são um tipo diferente de organização, necessário para agregar valor à sociedade”.

Mais de 3.200 empresas em 71 países e mais de 150 indústrias são “empresas-B certificadas”, que são legalmente obrigadas a pensar além do lucro.

A lista, que agrupa empresas por países, cidades e setores, está disponível gratuitamente online.

Empresas menores com um “perfil disruptivo” formam a maioria das empresas-B. Mas existem algumas empresas maiores assumindo a filosofia do “propósito e lucro”.

Direito de imagem GETTY IMAGES

Consumidores cada vez mais querem políticas responsáveis das empresas
A Ben & Jerry’s, fabricante americana de sorvetes, não apenas manteve a certificação de “empresa-B” que obteve no ano anterior, mas também teve um aumento em sua “pontuação de impacto” – uma medida de engajamento ético realizado por terceiros.

A empresa causou alvoroço durante os protestos após o assassinato de George Floyd, emitindo uma declaração forte denunciando a “cultura da supremacia branca” na América.

Não é a primeira vez que Ben & Jerry’s se posiciona. Eles têm um histórico de “ativismo de marca” que inclui apoio ao casamento gay e até mesmo um sabor “anti-Trump” chamado Pecan Resist.

A fabricante de sorvete Ben & Jerry’s tem um longo histórico de ativismo social
Direito de imagem GETTY IMAGES

Várias empresas anunciaram contribuições substanciais para causas antirracismo nos últimos dias – a Disney anunciou uma doação de 5 milhões de dólares e o Facebook prometeu outros 10 milhões, entre outros.

Mas essas doações nem sempre são suficientes se outras ações da empresa passam uma mensagem ambígua.

A Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês), uma das principais organizações de direitos civis da América, publica regularmente um relatório sobre como os membros do Congresso dos EUA votaram em questões de justiça racial.

Em 2 de junho, um relatório publicado no boletim Public Information mostrou que várias empresas que mencionaram o movimento Black Lives Matter também doaram centenas de milhares de dólares a legisladores que receberam as notas mais baixas da NAACP.

Direito de imagem GETTY IMAGES

O Uber perdeu milhares de consumidores que consideraram que a empresa havia boicotado um protesto anti-Trump em Nova York
“Sim, queremos ver as empresas financiando causas contra a injustiça social”, diz Nupol Kiazolu, ativista de 19 anos do movimento Black Lives Matter em Nova York. “Mas também queremos que essas empresas pressionem os representantes democraticamente eleitos a adotar políticas que resultem em mudanças reais, não dando dinheiro aos políticos que não estão nos ajudando, apesar de terem sido eleitos para representar o povo”.

Kiazolu é muito clara em sua mensagem aos consumidores: “A geração Z está levando as empresas a falar. Mas isso é apenas um primeiro passo. Também podemos quebrar vocês”, acrescenta ela.

Sherri Williams, professora assistente de Raça e Mídia da Universidade Americana de Washington, pergunta: “Quão genuíno é esse desejo de mudança?”

“Muitos desses problemas enfrentados pelos afro-americanos ocorrem há décadas e essas empresas costumam ficar caladas”, diz ela. “Algumas dessas empresas têm mais postagens sobre negros do que negros trabalhando para eles. As pessoas estão percebendo isso.”

Embora os protestos possam fracassar, ativistas como Brea Baker acreditam que houve uma mudança radical.

“As pessoas farão com que seja diferente. Quando as pessoas exigem das corporações e dos que estão no poder um padrão mais alto, estabelecem um novo patamar.”

Noam Chomsky explica a melhor maneira de as pessoas comuns fazerem mudanças no mundo, mesmo quando isso parece assustador

Noam Chomsky,Blog do Mesquita

A ameaça de violência e agitação generalizada recai sobre o país, graças novamente a uma coleção de atores cruelmente contrários aos direitos civis e, em muitos casos, à própria existência de pessoas que são diferentes deles.

Eles receberam ajuda e conforto de facilitadores muito poderosos. Ativistas veteranos entram em ação. Os jovens aparecem às centenas, semana após semana. Mas para muitas pessoas comuns com emprego, filhos, hipotecas etc. o custo de participar de constantes protestos e ações civis pode parecer alto demais para suportar. No entanto, dados muitos exemplos terríveis na história recente, o custo da inação também pode ser.

O que pode ser feito? Afinal, nem todos somos Rosa Parks, Howard Zinn, Martin Luther King, Jr., Thich Nat Hanh, Cesar Chavez ou Dolores Huerta. Poucos de nós são revolucionários e poucos podem querer ser. Nem todo mundo é corajoso o suficiente, talentoso o suficiente, conhecedor o suficiente ou comprometido o suficiente, ou o que seja.

No vídeo acima, Noam Chomsky aborda a questão do que as pessoas comuns podem fazer diante de uma injustiça aparentemente intransponível. (O clipe vem do documentário Manufacturing Consent, de 1992.) “A maneira como as coisas mudam”, diz ele, “é porque muitas pessoas estão trabalhando o tempo todo e estão trabalhando em suas comunidades, locais de trabalho ou onde quer que aconteçam. e eles estão construindo a base para movimentos populares. ”

“A maneira como as coisas mudam”, diz ele, “é porque muitas pessoas estão trabalhando o tempo todo e estão trabalhando em suas comunidades, locais de trabalho ou onde quer que aconteçam. e eles estão construindo a base para movimentos populares.”

Nos livros de história, existem alguns líderes, George Washington ou Martin Luther King, ou o que quer que seja, e não quero dizer que essas pessoas não são importantes. Martin Luther King foi certamente importante, mas ele não era o Movimento dos Direitos Civis. Martin Luther King pode aparecer nos livros de história, causando muitas pessoas cujos nomes você nunca saberá, e cujos nomes são todos esquecidos e que podem ter sido mortos e assim por diante estavam trabalhando no sul.

O próprio rei costumava dizer o mesmo. Por exemplo, no Prefácio de seu Stride Toward Freedom, ele escreveu – referindo-se às 50.000 pessoas comuns e anônimas que fizeram o boicote ao ônibus de Montgomery acontecer – “Embora a natureza desse relato faça com que eu faça uso frequente do pronome ‘I, ‘em todas as partes importantes da história deveria ser’ nós ‘. Este não é um drama com apenas um ator.”

Quanto a intelectuais públicos como ele envolvidos em uma luta política, Chomsky diz: “pessoas como eu podem aparecer e podemos parecer proeminentes … apenas porque alguém está fazendo o trabalho”. Ele define seu próprio trabalho como “ajudar as pessoas a desenvolver cursos de autodefesa intelectual” contra propaganda e desinformação. Para King, a questão se resumia ao amor em ação. Respondendo em uma entrevista de 1963 acima a uma pergunta crítica sobre seus métodos, ele rebate a sugestão de que não-violência significa ficar de fora.

Penso no amor como algo forte e que se organiza em ação direta e poderosa. Não estamos envolvidos em uma luta que significa que nos sentamos e não fazemos nada. Há uma grande diferença entre a não resistência ao mal e a resistência não violenta. A não-resistência deixa você em um estado de passividade estagnada e complacência amortecedora, enquanto resistência não-violenta significa que você resiste de uma maneira muito forte e determinada.

Chomsky, King e todas as outras vozes por justiça e direitos humanos concordariam que o povo precisa agir em vez de confiar nos líderes do movimento. Quaisquer que sejam as ações que se possam tomar – seja participando de um debate informado com familiares, amigos ou colegas de trabalho, escrevendo cartas, fazendo doações a ativistas e organizações, documentando injustiças ou saindo às ruas em protesto ou atos de desobediência civil – fazem a diferença. Essas são as pequenas ações individuais que, quando praticadas diligentemente e coordenadas aos milhares, tornam possível todo poderoso movimento social.

Racismo nos USA; Os basileiros passamos longe do que seja protestar contra o racismo

Morte de Morte de George Floyd: confrontos com protestos espalhados pelos EUA: confrontos com protestos espalhados pelos EUA

Manifestantes entraram em conflito com a polícia em cidades dos EUA devido ao assassinato de um afro-americano desarmado pelas mãos de policiais em Minneapolis.

O governador de Minnesota disse que a tragédia da morte de George Floyd sob custódia policial se transformou em “algo muito diferente – destruição arbitrária”.

Nova York, Atlanta, Portland e outras cidades sofreram violência, enquanto a Casa Branca foi brevemente fechada.

Um ex-policial de Minneapolis foi acusado de assassinato pela morte.

Derek Chauvin, que é branco, foi mostrado em filmagens ajoelhadas no pescoço de 46 anos, na segunda-feira. Ele e três outros oficiais foram demitidos desde então.

Chauvin, 44, deve comparecer ao tribunal em Minneapolis pela primeira vez segunda-feira.

O presidente Donald Trump descreveu o incidente como “uma coisa terrível, terrível” e disse que havia conversado com a família de Floyd, a quem ele descreveu como “pessoas maravilhosas”.

O caso Floyd reacendeu a ira dos EUA por assassinatos cometidos por negros americanos pela polícia e reabriu feridas profundas devido à desigualdade racial em todo o país. Ele segue as mortes de Michael Brown, Eric Garner e outros, que ocorreram desde que o movimento Black Lives Matter foi desencadeado pela absolvição do vigia do bairro George Zimmerman na morte de Trayvon Martin em 2012.

O que há de mais recente sobre os protestos?

Minnesota continua sendo a região mais volátil, com toques de recolher encomendados para as cidades gêmeas de Minneapolis-Saint Paul das 20:00 às 06:00 na sexta e sábado à noite.

Os manifestantes desafiaram o toque de recolher na sexta-feira. Incêndios, muitos causados ​​por carros em chamas, eram visíveis em várias áreas, com bombeiros incapazes de alcançar alguns locais.

Imagens de televisão também mostraram saques em Minneapolis, com policiais no chão.

Promotor detalha acusações de assassinato e homicídio culposo.

Somente por volta da meia-noite (05:00 GMT) a polícia e as tropas da Guarda Nacional chegaram em qualquer número, informou o Star Tribune.

O governador do estado, Tim Walz, em uma coletiva de imprensa pela manhã, descreveu a situação como “caótica, perigosa e sem precedentes”.

Ele disse que assumiu a responsabilidade de “subestimar a destruição arbitrária e o tamanho da multidão” quando questionado sobre a falta de policiais nas ruas.

Ele disse que o destacamento da Guarda foi o maior da história do estado, mas admitiu que “há simplesmente mais deles do que nós”. Ele disse que os que estão nas ruas “não se importam” com a ordem de ficar em casa.

O Pentágono colocou os militares em alerta para possível deslocamento em Minneapolis.

Na noite de sexta-feira, multidões se reuniram perto da Casa Branca em Washington, acenando fotografias do Sr. Floyd e cantando “Não consigo respirar” – invocando suas últimas palavras e as de Eric Garner, um negro que morreu após ser mantido em um estrangulamento da polícia em Nova York em 2014.

A Casa Branca foi então temporariamente cercada, com o Serviço Secreto dos EUA fechando entradas e saídas.

Em Atlanta, foi declarado estado de emergência em algumas áreas para proteger pessoas e propriedades. Os prédios foram vandalizados e um veículo da polícia foi incendiado quando manifestantes se reuniram perto dos escritórios da emissora CNN.

O prefeito Keisha Lance Bottoms emitiu um apelo apaixonado, dizendo: “Isso não é um protesto. Isso não está no espírito de Martin Luther King Jr. Você está desonrando nossa cidade. Você está desonrando a vida de George Floyd”.Um carro da polícia queima enquanto manifestantes se reúnem perto dos escritórios da CNN em Atlanta, Geórgia – Reuters.

No distrito de Brooklyn, em Nova York, os manifestantes entraram em conflito com a polícia, jogando projéteis, iniciando incêndios e destruindo veículos policiais. Vários policiais ficaram feridos e muitas prisões foram feitas.

O prefeito Bill de Blasio twittou: “Nós nunca queremos ver outra noite como esta”.

O prefeito de Portland, Oregon, declarou estado de emergência em meio a saques, incêndios e um ataque a uma delegacia de polícia. Um toque de recolher imediato até às 06:00 hora local (13:00 GMT) foi imposto e será reiniciado às 20:00.Manifestantes usam leite para tratar a picada de gás lacrimogêneo na cidade de Nova York – Direito de imagem LAURA FUCHS

Em Detroit, a polícia está investigando depois que um homem de 19 anos foi morto quando um veículo estacionado contra manifestantes e tiros foram disparados contra a multidão.

Em Dallas, os policiais lançaram cartuchos de gás lacrimogêneo depois que foram atingidos por pedras, com gás lacrimogêneo também disparado em Phoenix, Indianápolis e Denver.

Os manifestantes bloquearam estradas em Los Angeles e também em Oakland, onde janelas foram quebradas e pichações “Kill Cops” foram pulverizadas.

Quais são os movimentos legais até agora?

Chauvin foi acusado de assassinato em terceiro grau e homicídio em segundo grau por seu papel na morte de Floyd.

A família de Floyd e seu advogado, Benjamin Crump, disseram que isso era “bem-vindo, mas atrasado”.

A família disse que queria uma acusação de assassinato mais grave e em primeiro grau, bem como a prisão dos outros três policiais envolvidos.Derek Chauvin deve comparecer ao tribunal em Minneapolis na segunda-feira. Reuters

O procurador do condado de Hennepin, Mike Freeman, disse que “antecipa acusações” para os outros policiais, mas não oferece mais detalhes.

Freeman disse que seu escritório “acusou o caso tão rapidamente quanto as evidências nos foram apresentadas”.

“Este é de longe o mais rápido que já acusamos um policial”, observou ele.

Segundo a denúncia criminal, Chauvin agiu com “uma mente depravada, sem considerar a vida humana”.

Enquanto isso, a esposa de Chauvin pediu o divórcio, dizem seus advogados.

Como George Floyd morreu?
O relatório completo do médico legista do condado não foi divulgado, mas a denúncia afirma que o exame post mortem não encontrou evidências de “asfixia traumática ou estrangulamento”.

O médico legista observou que Floyd tinha problemas cardíacos subjacentes e a combinação destes, “potenciais intoxicantes em seu sistema” e ser contido pelos policiais “provavelmente contribuiu para sua morte”.

Manifestações e protestos continuados desde a morte de Floyd sob custódia policial na segunda-feira – Direitos autorais da imagem Getty

O relatório diz que Chauvin estava com joelhos no pescoço de Floyd por oito minutos e 46 segundos – quase três minutos depois que Floyd ficou sem resposta.

Quase dois minutos antes de remover o joelho, os outros policiais verificaram o pulso direito do Sr. Floyd e não conseguiram encontrar-lo. Ele foi levado para o Centro Médico do Condado de Hennepin em uma ambulância e declarado morto cerca de uma hora depois.

O manual da polícia de Minnesota declara que os oficiais treinados sobre como compreender o pescoço de um detido sem aplicar pressão direta nas vias aéreas podem usar um joelho sob sua política de uso da força. Isso é considerado uma opção de força não mortal.

O que o presidente disse?Cínico

Na Casa Branca, na sexta-feira, Trump disse que pediu ao departamento de justiça para acelerar uma investigação anunciada na sexta-feira sobre se alguma lei de direitos civis foi violada pela morte de Floyd.

O presidente também disse que “os saqueadores não devem abafar a voz de tantos manifestantes pacíficos”.Os protestos continuaram do lado de fora da Casa Branca durante a noite. Antes, ele descreveu os manifestantes como “bandidos” que desonravam a memória de Floyd.
Direitos autorais da imagem – AFP

A rede de mídia social Twitter acusou Trump de glorificar a violência em um post que dizia: “Quando o saque começa, o tiroteio começa”.

O que aconteceu na prisão?

Os policiais suspeitavam que Floyd havia usado uma nota falsificada de US $ 20 e estava tentando colocá-lo em um veículo da polícia quando ele caiu no chão, dizendo que era claustrofóbico.

Segundo a polícia, ele resistiu fisicamente aos policiais e foi algemado.

Liberdade Guiando o Povo,Repressão,Protestos,Passeatas,BlogdoMesquita 8x6

Brasil vive um clima de pré-nazismo enquanto a oposição emudece

O silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios

Repressão,Protestos,Passeatas,BlogdoMesquita
Manifestante em protesto contra o presidente em São Paulo no dia 13 de agosto. AMANDA PEROBELLI (REUTERS)

O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura.

E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições.

Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo. De modo que uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra.

O nazismo foi outra coisa. Foi um movimento de purga para tornar a Alemanha uma raça pura. Assim sobraram todos os diferentes, estrangeiros e indesejados, começando pelos judeus e os portadores de defeitos físicos que prejudicavam a raça. De modo que o nazismo se associa ao lúgubre vocábulo “deportação”, que evoca os trens do horror de homens, mulheres e crianças amontoados como animais a caminho dos campos de extermínio.

Talvez a lúgubre recordação de minha visita em junho de 1979 ao campo de concentração de Auschwitz com o papa João Paulo II tenha me feito ler com terror a palavra “deportação” usada em um decreto do ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, em que ele defenda que sejam “deportados” do Brasil os estrangeiros considerados perigosos.

Bolsonaro, em seus poucos meses de Governo, já deixou claro que em sua política de extrema direita, autoritária e com contornos nazistas, cabem somente os que se submetem às suas ordens. Todos os outros atrapalham. Para ele, por exemplo, todos os tachados de esquerda seriam os novos judeus que deveriam ser exterminados, começando por retirá-los dos postos que ocupam na administração pública. Seu guru intelectual, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que durante a ditadura 30.000 comunistas deveriam ter sido mortos e o presidente não teve uma palavra de repulsa. Ele mesmo já disse durante a campanha eleitoral que com ele as pessoas de esquerda deveriam se exilar ou acabariam na cadeia.

Inimigo dos defensores dos direitos humanos, dos quais o governador do Rio, Witzel, no mais puro espírito bolsonarista, chegou a afirmar que são os culpados pelas mortes violentas nas favelas, Bolsonaro mal suporta os diferentes como os indígenas, os homossexuais, os pacíficos que ousam lhe criticar. Odeia todos aqueles que não pensam como ele e, ao estilo dos melhores ditadores, é inimigo declarado da imprensa e da informação livre.

Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.

Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.

Somente os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito às minorias e aos diferentes, principalmente dos mais frágeis, sempre salvaram o mundo das novas barbáries. De modo que o silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios.

Nunca existiram democracias sólidas, capazes de fazer frente aos arroubos autoritários, sem uma oposição igualmente séria e forte, que detenha na raiz as tentações autoritárias. Há países nos quais assim que se cria um governo oficial, imediatamente a oposição cria um governo fictício paralelo, com os mesmos ministros, encarregados de vigiar e controlar que os novos governantes sejam fieis ao que prometeram em suas campanhas e, principalmente, que não se desviem dos valores democráticos. Sem oposição, até os melhores governos acabarão prevaricando. E o grande erro das oposições, como vimos outras vezes também no Brasil, foi esperar que um presidente que começa a prevaricar e se corromper se enfraqueça sozinho. Ocorrerá o contrário. Crescerá em seu autoritarismo e quando a oposição adormecida perceber, estará derrotada e encurralada.

Nunca em muitos anos a imagem do Brasil no mundo esteve tão deteriorada e causando tantas preocupações como com essa presidência de extrema direita que parece um vendaval que está levando pelos ares as melhores essências de um povo que sempre foi amado e respeitado fora de suas fronteiras. Hoje no exterior não existe somente apreensão sobre o destino desse continente brasileiro, há também um medo real de que possa entrar em um túnel antidemocrático e de caça às bruxas que pode condicionar gravemente seu futuro. E já se fala de possíveis sanções ao Brasil por parte da Europa, em relação ao anunciado ataque ao santuário da Amazônia.

O Brasil foi forjado e misturado com o sangue de meio mundo que o fizeram mais rico e livre. Querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime.

Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano.

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.

Racismo,Nazismo,Supremacia Branca,Homofobia,Jihad,Terrorismo,Direitos Humanos

O neonazista pedófilo e homofóbico preso enquanto preparava ‘jihad branca’

Racismo,Nazismo,Supremacia Branca,Homofobia,Jihad,Terrorismo,Direitos Humanos

Jack Renshaw é suspeito de integrar organização banida

Um júri britânico não conseguiu decidir se Jack Renshaw, neonazista que confessou um plano para matar uma parlamentar no Reino Unido, permaneceu como membro de um grupo terrorista que foi banido do país.Agora que chegou ao fim seu quarto e último julgamento, um processo que durou dois anos, podemos contar sua história completa.

Eles bebiam lá regularmente. Normalmente, aos sábados. Muitas vezes, durante a semana também.

O número de participantes variava – podiam ser apenas dois ou um grupo de dez.

O local era o Friar Penketh em Warrington, um pub concorrido no centro da cidade.

Friar Penketh, em Warrington
Este é o Friar Penketh, um pub movimentado no centro da cidade

Mas o papo do grupo não era sobre futebol ou trabalho -, a conversa girava em torno de temas muito mais sombrios, como o ódio aos judeus e não-brancos, a veneração ao nazismo e Adolf Hitler, e o fascínio deles com o terrorismo.

No sábado de 1º de julho de 2017, vários integrantes e ex-membros da Ação Nacional, organização neonazista banida do Reino Unido sob a lei antiterrorismo, chegaram ao pub no fim da tarde.

Pouco depois, se juntou a eles um homem de aparência jovem, cujos olhos grandes e hostis contrastavam com seu corpo franzino e tímido.

Na mesma hora, o rapaz de 22 anos começou a reclamar sobre uma investigação policial em andamento contra ele por incitar o ódio racial em seus discursos.

Jack Renshaw despertava a simpatia de seus companheiros de bar.

Jack Renshaw
Jack Renshaw em um vídeo do Partido Nacional Britânico

À medida que a noite avançava, ele revelou um plano iminente – se fosse acusado pela polícia, faria uma manifestação política matando a parlamentar Rosie Cooper.

Ele já tinha comprado um gládio – espada curta romana – para levar a cabo o assassinato.

O plano incluía fazer reféns e atrair a detetive que estava investigando seu caso para o local, exigindo falar com ela. Ele então a mataria também.

Na sequência, ele cometeria “suicídio pela polícia” (ato de induzir deliberadamente um policial a atirar em você), ao avançar na direção dos policiais armados usando um colete-bomba falso, conforme contou ao grupo.

O ataque seria um ato da “jihad branca” – termo usado pela Ação Nacional – e ele planejava gravar um vídeo em que apareceria como um mártir explicando seus motivos.

Nenhuma das pessoas ao redor da mesa contestou Renshaw – pelo contrário, duas delas chegaram até a sugerir alvos alternativos, como a então ministra do Interior do Reino Unido, Amber Rudd, e uma sinagoga.

O que nenhum deles sabia era que um dos integrantes da mesa estava passando informações secretamente para a organização antirracismo Hope not Hate.

Correndo contra o tempo

Robbie Mullen, que no passado era neonazista convicto, estava desapontado e queria abandonar o grupo.

“Eu não queria estar envolvido na morte de ninguém, ou em um grupo que estava envolvido em matar pessoas. Eu só não queria que ninguém fosse morto ou ferido”, diz ele.

Quando Mullen foi embora do pub naquela noite, Renshaw abraçou ele e disse que provavelmente não se veriam novamente.

Assustado com o que estava por acontecer, Mullen entrou em contato imediatamente com a Hope not Hate.

“Jack vai matar uma parlamentar em breve”, contou.

Jack Renshaw

O caso de Renshaw ilustra claramente os perigos da radicalização.

Ele nasceu em Lancashire, na Inglaterra, e começou a se envolver com política na adolescência – primeiro com a Liga de Defesa Inglesa e depois com o Partido Nacional Britânico (BNP), depois de conhecer seu então líder, Nick Griffin, em um evento.

Quando terminou a escola, ele cursou economia e política na Universidade Metropolitana de Manchester, mas foi convidado a se retirar por seu ativismo de extrema-direita.

Jack Renshaw - (captura de tela de vídeo do BNP)
Jack Renshaw chegou a trabalhar no Parlamento Europeu em Bruxelas

Renshaw ficou anos no BNP, aparecendo em cartazes e vídeos do partido, além de dar palestras em conferências. Trabalhou ainda no Parlamento Europeu em Bruxelas.

Ele também se envolveu em campanhas contra o aliciamento sexual de crianças.

Certa vez, perguntado sobre como descreveria sua jornada, Renshaw disse:

“Eu comecei basicamente como um civil nacionalista com, digamos, pensamentos racistas ligeiramente encobertos, e agora sou um nacional-socialista abertamente racista.”

A Ação Nacional se tornaria seu lar político.

O grupo britânico, fundado em 2013, era abertamente racista e neonazista. E foi banido em dezembro de 2016, após uma investigação concluir que estava exaltando ilegalmente o terrorismo.

A Ação Nacional havia usado, inclusive, uma conta oficial no Twitter para comemorar o assassinato da parlamentar Jo Cox, em junho de 2016, por um supremacista branco.

Robbie Mullen, na época funcionário de um armazém em Runcorn, Cheshire, havia se juntado ao grupo após se converter à política extremista.

Ele chegou a pesquisar outras organizações, mas foi seduzido pelas ideias da Ação Nacional, cujos membros se vestiam de preto em manifestações e usavam as redes sociais para promover suas atividades.

Robbie MullenDireito de imagem HOPE NOT HATE
Robbie Mullen, que já foi um neonazista convicto, se desiludiu e deixou a Ação Nacional

Mullen, hoje com 25 anos, disse à BBC que foi atraído inicialmente pela “imagem” do grupo e porque seus membros tinham mais ou menos a sua idade, “enquanto a extrema-direita tradicional era formada por velhos que bebiam em pubs”.

Mullen, assim como Renshaw, que era porta-voz da Ação Nacional, se tornou uma figura proeminente no grupo, ajudando a organizar atividades no noroeste da Inglaterra.

‘Parasitas’

Renshaw parecia se deleitar com a crueldade da ideologia do grupo.

Seus perfis nas redes sociais se converteram em uma corrente vil de ódio e teorias de conspiração maliciosas, com o povo judeu sendo alvo frequente de ataques.

Mas foram dois discursos antissemitas que ele fez em nome da Ação Nacional que o levariam à ruína.

Durante uma manifestação na orla de Blackpool em março de 2016, Renshaw disse que os judeus eram “parasitas” e que a Grã-Bretanha havia escolhido o lado errado na Segunda Guerra Mundial, em vez de lutar ao lado dos nazistas que estavam implementando a “solução final”.

Em um discurso em Yorkshire um mês antes, ele dissera que Adolf Hitler estava “certo em muitos sentidos”, mas errado quando “mostrou misericórdia em relação a pessoas que não mereciam misericórdia”.

Renshaw afirmou que o povo judeu deveria ser “erradicado”.

Jack Renshaw em vídeo de propaganda da Ação Nacional
IA polícia investigou Jack Renshaw por suposto assédio sexual de menores

Ele foi preso na casa da mãe em Blackpool em janeiro de 2017, acusado de incitar ódio racial.

Seus celulares e outros itens pessoais foram apreendidos.

Mas seus discursos não eram os únicos alvos de investigação.

Renshaw, o pedófilo

Renshaw, ativista contra a exploração sexual infantil, era secretamente um pedófilo que aliciava meninos para sexo.

Por quase um ano, ele usou um perfil falso no Facebook para atrair dois garotos que tinham entre 13 e 15 anos na época.

Apesar de não conhecer os adolescentes, ele ofereceu dinheiro a eles em troca de sexo e pediu fotos íntimas. A polícia foi avisada depois que um parente viu as trocas de mensagens no telefone de um dos meninos.

Os detetives identificaram que as mensagens haviam sido enviadas do endereço de Blackpool ocupado por Jack Renshaw.

Quando foi preso pela primeira vez em janeiro, ele foi interrogado apenas sobre os discursos, antes de ser libertado sob fiança – mas as investigações continuaram.

Uma das investigadoras, Victoria Henderson, foi encarregada de manter contato com o suspeito e também participou do inquérito sobre crimes sexuais.

Em maio daquele ano, Renshaw foi preso novamente e interrogado sobre o aliciamento de menores.

Ele deve ter percebido que sua farsa estava chegando ao fim.

Mais tarde, Henderson disse que Renshaw ficou “chocado e chateado” e “visivelmente pálido, chorando muito”.

Ele negou ter assediado os meninos, apesar de as evidências terem sido encontradas em seu próprio celular.

O suspeito, que tinha um histórico de fazer declarações homofóbicas, afirmou a Henderson que ainda era virgem, não acreditava em sexo fora do casamento e que seu gosto por pornografia era “bastante tradicional” e “conservador”.

Embora tenha admitido ter buscado pornografia gay na internet “por curiosidade”, ele negou ser homossexual e disse que as relações entre pessoas do mesmo sexo eram “antinaturais”.

Dois dias após ser libertado sob fiança, Renshaw procurou por Henderson no Facebook.

Ela havia se tornado um alvo.

O que a polícia não sabia é que Renshaw já havia começado a planejar um ataque à parlamentar Rosie Cooper, o que seria um crime político. E agora tinha resolvido assassinar também Henderson, o que seria um ato de vingança pessoal.

No início daquele mês, ele havia pesquisado sobre a parlamentar na internet e feito a seguinte pergunta ao Google: “Quanto tempo leva para morrer após cortar a jugular?”

Rosie Cooper
Rosie Cooper, a parlamentar do distrito de West Lancashire que Renshaw queria matar

Em 7 de junho, ele comprou um gládio na internet – que, segundo a descrição do fabricante, oferecia “48 centímetros de um poder perfurante e cortante sem precedentes” – e pagou para ser entregue no dia seguinte.

Assim que recebeu, compartilhou uma imagem da arma com os membros do grupo usando o Telegram, aplicativo de mensagens criptografado.

Mas os planos de Renshaw foram frustrados por causa de Robbie Mullen.

Robbie Mullen

A essa altura, Mullen estava se comunicando secretamente com a Hope not Hate.

Após estabelecerem contato na primavera de 2017, Mullen contou que os membros da Ação Nacional não se separaram, apesar de o grupo ter sido banido.

Ele informou que eles continuavam a se encontrar, malhavam juntos na academia e se comunicavam via aplicativos de mensagens criptografadas.

As atividades públicas do grupo – como o site e as manifestações – haviam acabado, mas segundo ele, o núcleo permanecia.

O fascínio de longa data da Ação Nacional pelo terrorismo virou, então, parte central do seu propósito, e seus integrantes começaram a planejar uma guerra racial, conforme contou Mullen à BBC.

Depois que Renshaw revelou seus planos violentos no pub em 1º de julho de 2017, Mullen falou com seu contato, Matthew Collins, diretor de pesquisa da Hope not Hate.

Collins, que estava de férias na época, se lembra do momento em que foi informado de que Renshaw “ia matar uma parlamentar de forma iminente, imediatamente”.

Treino de boxe - (vídeo de propaganda política da Ação Nacional)
Jack Renshaw aparecia em diversos vídeos de propaganda política da Ação Nacional

Ele se lembra de ter perguntado a Mullen: “Como imediatamente?” e ele disse: “Vai acontecer em breve”. E essa história horrível e inimaginável se desenrolou.

No dia seguinte, a Hope not Hate enviou uma mensagem para Rosie Cooper alertando a parlamentar sobre o risco que corria.

Ela avisou a polícia e de repente se viu no centro de uma investigação contra o terrorismo – apenas um ano após o assassinato de sua colega Jo Cox.

Enquanto isso acontecia, Renshaw estava sendo interrogado em Lancashire – novamente por Henderson – sobre a suspeita de aliciamento de menores. Em paralelo, foi acusado de incitar o ódio racial nos dois discursos.

Ele foi libertado sob fiança, e naquela noite publicou uma série de mensagens no Facebook que indicavam seu estado de espírito.

Gládio
Os policiais encontraram o gládio no alto de um armário

“Estou passando meu tempo com a família… Tudo vai acabar em breve.”

Em outra postagem, ele escreveu: “Eu vou rir por último, mas pode não ser por muito tempo”.

Os detetives da polícia antiterrorismo tentaram às pressas localizar Renshaw, mas ele não estava no endereço que informou quando foi liberado sob fiança.

Enquanto faziam buscas na casa do tio dele, descobriram o gládio que ele havia comprado escondido no alto de um armário.

Machete
Fotos feitas pela polícia do gládio comprado por Renshaw

Renshaw acabou sendo encontrado e preso sob a acusação de fazer ameaças de morte.

No dia seguinte, ele compareceu perante um tribunal por causa da acusação de incitação ao ódio racial e a promotoria foi contra conceder fiança.

Renshaw estava, então, fora das ruas.

Robbie Mullen, por outro lado, continuou convivendo com o restante do grupo.

Nenhum deles sabia que ele tinha sido o informante que denunciou o plano de ataque.

Havia ainda a preocupação de que o próprio Mullen pudesse ser processado por ter se tornado membro da Ação Nacional.

Robbie Mullen
Robbie Mullen recebeu ameaças de morte e precisou se esconder por um tempo

A imunidade precisava ser concedida a ele, e a polícia tinha de avaliar se as provas que ele havia apresentado poderiam ser usadas em um tribunal.

No outono de 2017, seis pessoas que estavam bebendo no Friar Penketh na noite em que Renshaw revelou seu plano foram presas.

Duas delas, incluindo o líder do grupo, Christopher Lythgoe, foram condenadas por pertencerem à Ação Nacional. Um homem foi absolvido da mesma acusação. Dois júris foram incapazes de decidir se os outros suspeitos – inclusive Renshaw – haviam permanecido no grupo após o mesmo ter sido banido.

Mullen, que havia recusado participar do programa de proteção a testemunhas, recebeu ameaças de morte.

No meio da noite, a Hope not Hate levou ele às pressas até um lugar seguro – e desde então ele foi impedido de voltar para casa ou ao trabalho.

Julgamentos

Renshaw acabou enfrentando quatro julgamentos nos últimos 14 meses.

Em janeiro de 2018, em Preston Crown Court, ele foi condenado por duas acusações de incitação ao ódio racial em discursos – a pena foi de três anos de prisão.

Em junho, no mesmo tribunal, ele foi considerado culpado por quatro acusações de incitar menores à atividade sexual – o que resultou em mais 18 meses de cadeia.

O caso só pode ser relatado agora que seu julgamento final foi concluído.

No banco dos réus em Preston, ele pareceu envergonhado quando os vídeos do interrogatório da polícia com as duas vítimas, conduzido por Henderson, foram exibidos.

Jack Renshaw - (foto da rede social de Renshaw)
Os jurados não conseguiram decidir se Jack Renshaw permaneceu como membro da Ação Nacional

Aliciamento de menores

A um dos meninos, Renshaw havia pedido fotos de conteúdo sexual explícito e tentou seduzi-lo para ter relações sexuais, oferecendo dinheiro, drogas e pizza:

“Uma noite. 10 mil. Eu e você.”

“Eu temi pela minha vida”, disse o jovem a Henderson.

O outro garoto contou que Renshaw o bombardeava com mensagens diárias.

Na época do Natal, ele enviou uma imagem com alguns presentes e disse que o menino poderia tê-los em troca de fotos íntimas.

Renshaw chegou a enviar fotos impróprias dele próprio para o jovem.

Quando o adolescente chamou Renshaw de “pedófilo sujo”, ele respondeu dizendo “tinha ficado excitado”, recordou a vítima.

Durante seu terceiro julgamento – no Tribunal Central Criminal, conhecido como Old Bailey, no verão de 2018 -, Renshaw se mostrou mais aberto e sem vergonha de seus planos.

Na primeira manhã do julgamento, ele repentinamente se declarou culpado de planejar o assassinato da parlamentar Rosie Cooper e de ameaçar matar a detetive Henderson.

Mas negou ser membro do grupo Ação Nacional.

Quando foi chamado para apresentar provas, ele disse que Rosie Cooper foi escolhida como seu alvo porque “era uma parlamentar local” e “a melhor representante do Estado”.

“Eu queria mandar uma mensagem ao Estado”, disse ele ao tribunal.

Ele explicou que o plano era “aparecer em um de seus eventos sociais” e depois “cortar” sua jugular com o gládio.

Renshaw, que nega o Holocausto, afirmou perante a corte que queria que todo o povo judeu morresse e expressou suas crenças neonazistas de forma arrogante, mas na defensiva, afirmando ser imune aos horrores que tais ideias geraram.

A postura arrogante não condizia com sua verdadeira posição: um pedófilo condenado e suposto terrorista que passaria muitos anos na prisão.

Os membros do júri não conseguiram decidir, no entanto, se ele havia continuado como membro da Ação Nacional.

Mullen, que foi testemunha em ambos os casos em Londres, agora deve começar vida nova.

“Eu vivo mês a mês – não penso muito no futuro”, desabafa.

Mas ele sabe que as coisas nunca serão como antes.

Mullen consente em voz baixa quando perguntado se entende que provavelmente salvou vidas, incluindo a de uma parlamentar.

Todavia, ele ainda não tem certeza sobre o que o levou a começar a passar informações secretamente para a Hope not Hate, organização para a qual trabalha agora.

“Me perguntaram isso duas vezes no tribunal. Eu realmente não sei”, diz ele.

Ele afirma, no entanto, que diante de todos os planos violentos que ouviu precisava tomar uma atitude.

“Eu sabia que se pudesse fazer algo para detê-lo, então eu tinha de fazer.”