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Suíços ligaram Paulo Preto ao PCC quando revelaram contas secretas ao Brasil

Pode ter sido um erro de análise dos suíços, segundo investigadores da Lava Jato responsáveis pela prisão do homem apontado como operador de propinas do PSDB.Paulo Preto,Corrupção,Rodoanel,PSDB,Alckmin,Serra,Aloysio Nunes Ferreira,Tucanoduto,Blog do MesquitaPaulo Vieira da Silva, o Paulo Preto, apontado como operador de propinas do PSDB.
José Cruz / Agência Brasil

A revelação de quatro contas secretas atribuídas ao ex-presidente da Dersa Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, foi feita por autoridades suíças em uma comunicação espontânea ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional do Ministério da Justiça, em Brasília.

Paulo Preto é apontado como operador de propinas do PSDB e, segundo os investigadores da Lava Jato, ele manteve um bunker com mais de R$ 100 milhões para esconder dinheiro pago pelas empreiteiras com contratos com os governos tucanos de São Paulo.

Datado de 17 de agosto de 2017, o ofício de cinco páginas, assinado pela procuradora suíça Graziella de Falco Haldeman, trazia os dados de quatro contas numeradas no banco Border & CIE, com sede em Genebra, em nome da offshore Groupe Nantes cujo controlador seria Paulo Preto. Na ocasião, as contas tinham 35 milhões de francos suíços (R$ 130 milhões, pelo câmbio de hoje), que foram bloqueados.

Reprodução

No ofício, a procuradora Haldeman lista informações que tornariam Paulo Preto, ex-dirigente de estatal, uma pessoa politicamente exposta, exemplificando com as suspeitas de desvios no Rodoanel e recebimento de propina da Camargo Corrêa, que foram alvo da operação da Castelo de Areia (que foi anulada pelo Superior Tribunal de Justiça).

Mas, em seguida, a procuradora suíça afirma que Paulo Vieira de Souza teria pago a pessoas vinculadas ao PCC. Diz o trecho: “Verifica-se igualmente que Paulo Vieira de Souza teria pago comissões ocultas a pessoas vinculadas com uma organização chamada
‘Primeiro Comando da Capital’.”

Aqui trecho da tradução juramentada para o ofício da procuradora suíça.

O ofício foi repassado à Procuradoria Geral da República e, de lá, a procuradores de São Paulo e do Paraná – no caso destes últimos, dando origem à fase deflagrada hoje da Lava Jato, que levou Paulo Preto para a cadeia.

A suposta ligação de Paulo Preto com o PCC provavelmente pode ter sido um erro dos analistas suíços que instruíram a procuradora, de acordo com investigadores da Lava Jato que falaram ao BuzzFeed News na tarde desta terça (19).

Fontes em Brasília e Curitiba disseram que não havia elementos concretos ou qualquer indício de ligação entre o operador de propinas do PSDB e a facção criminosa que domina os presídios de São Paulo e de vários Estados brasileiros.

“A organização criminosa dele é outra”, disse, com ironia, um investigador ao BuzzFeed News.

O BuzzFeed News ainda não conseguiu contato com a defesa de Paulo Vieira. Assim que isso acontecer, este post será atualizado.

Dawisson Belém Lopes,Blog do Mesquita

“Do PSDB para o PT mudaram um pouco a receita do bolo, agora há uma ruptura drástica da política externa”

Para o professor de relações internacionais Dawisson Belém Lopes, Brasil chega ao encontro da elite financeira mundial em Davos com uma equipe de governo com discursos conflitantes

Dawisson Belém Lopes,Blog do MesquitaDawisson Belém Lopes, professor e diretor adjunto de Relações Internacionais da UFMG.ARQUIVO PESSOAL

O presidente Jair Bolsnaro desembarcou, nesta semana, na Suíça, para apresentar sua agenda liberal de reformas e privatizações no Fórum Econômico Mundial de Davos, numa edição de forte ausência de líderes internacionais. Seu aguardado discurso de abertura do evento, no entanto, foi mais curto —apenas 8 minutos— e surperficial do que o esperado por líderes e investidores. Na avaliação de Dawisson Belém Lopes, professor e diretor adjunto de Relações Internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Bolsonaro parece não ter entendido a importância do encontro da elite financeira mundial, ao ter brindado um discurso “fraco” e desconectado das dinâmicas internacionais. Nem mesmo o tema do evento, a globalização 4.0, compareceu em sua fala de estreia.

Apesar do aparente consenso entre os dirigentes políticos que acompanham o presidente no evento, o Brasil também chegou ao encontro da elite financeira mundial com uma equipe de Governo com discursos conflitantes. Ao mesmo tempo que o superministro de Economia, o liberal Paulo Guedes, prega a adoção de uma maior abertura do país, o chanceler Ernesto Araújo defende constantemente um discurso antiglobalista. Para Lopes, enquanto as falas continuarem em rota de colisão, dificilmente se terá clareza do que de fato será implementado no Governo sob o comando de Bolsonaro, uma gestão que ainda é vista com desconfiança internacionalmente. O professor aposta, no entanto, numa maior atuação do vice-presidente Hamilton Mourão e dos militares do Governo, alinhados aos anseios liberais, na política externa, segurança internacional e defesa nacional.

Pergunta. O que o senhor achou do curto discurso de Bolsonaro em Davos?

Resposta. Foi mais do mesmo. Ele parece não ter entendido a especificidade do momento, a importância do fórum. Os americanos costumam dizer que, quando em campanha, o indivíduo vai ganhando um tom presidencial, mas até hoje Bolsonaro não parece presidente, ele continua convocando as massas, usando de recursos baratos, fáceis, como, por exemplo, falar de bolivarianos e coisas inespecíficas. Minha impressão é que ele ainda precisa ganhar postura de presidente. A audiência que estava em Davos não está de brincadeira, estamos falando de um dos fóruns mais bem frequentados do mundo e se esperava mais. As pessoas sentiram uma certa decepção, elas não conheciam Jair Bolsonaro, então, algumas delas, esperavam um indivíduo mais antenado e conectado com as dinâmicas internacionais. Ao fim e ao cabo, ele não apareceu tão à vontade em Davos. Acho que é muito eloquente a respeito disso que ele tenha sido fotografado comendo isoladamente sem ter usado a ocasião para se ter encontrado com chefes do Estado, lideranças. Foi um discurso fraco, que não deixou marca e que, inclusive, deixa uma impressão negativa.

P. E como  avalia os primeiros movimentos do Governo em relação à política exterior?

R. Ela já se apresenta como algo novo. Para usar uma metáfora que escutei de um embaixador do Governo anterior, é como se na época do PT houvesse mudança nos ingredientes para fazer o bolo, mas agora alteraram a forma do bolo. Isso gera uma incompreensão profunda e uma dificuldade de articular a corporação diplomática e os demais atores —para além do Itamaraty— que também têm papéis na produção da política externa brasileira. É algo muito novidadeiro em termos conceituais, essa política externa não se apoia nos tradicionais pressupostos de apoio ao multilateralismo ou no direito internacional. Do governo do PSDB para o PT mudaram um pouquinho a receita do bolo, mas agora há uma ruptura drástica.

P. Essa nova política internacional não parece estar em sintonia com o discurso de outras alas do Governo. Enquanto o chanceler Ernesto Araújo fala em antiglobalismo, o superministro da economia, Paulo Guedes, afirma que quer abrir os mercados. Os dois estão essa semana juntos apresentando o novo Governo na cúpula de Davos…

R. O Fórum Econômico de Davos é um evento organizado e pensado exatamente por pessoas que estão sendo hostilizadas por Bolsonaro e por assessores mais próximos, como o da presidência para assuntos internacionais [Filipe Martins] e o guru do presidente, Olavo de Carvalho. Quem está a cargo do Fórum de Davos são os globalistas. Essa é a contradição mais interessante, pessoas que acreditam em uma ordem liberal. Há de fato um desencontro entre as alas do Governo, a equipe econômica está muito à vontade com o discurso de Davos, que ecoa daqueles resorts elegantes e das elites financeiras econômicas globais. Uma fala que está em sintonia com Paulo Guedes e seus colaboradores. Ao passo que o discurso de Araújo, Bolsonaro e Martins vai em rota de colisão, em direção oposta. A verdade é que ainda não há clareza sobre qual será o desenho da formulação desse Governo, o que de fato será implementado.

P. Bolsonaro fez seu debut internacional nesta semana e o vice Hamilton Mourão assumiu, pela primeira vez, a Presidência por uns dias. Qual acredita que será o papel do general da reserva?

R. Assim que foram anunciados os nomes do primeiro escalão do Bolsonaro, alguns analistas cogitaram que haveria três núcleos principais no Governo: um nacionalista religioso, onde está inserido Ernesto Araújo, um núcleo econômico, protagonizado por Paulo Guedes, e um núcleo militar, com os militares que também são nacionalistas, de alta patente e com experiência internacional, muitos deles participaram de missões da ONU. Não estamos lidando com militares xucros. São pessoas que têm rodagem e também ficam à vontade nesses salões internacionais. São cosmopolitas e, assim como os economistas, também globalistas. Entre esses três núcleos, eu diria que apenas um deles tem capacidade institucional, coerência, coesão interna e respaldo popular hoje alto: os militares. Na história do Brasil, eles têm participado de momentos críticos e capitais e mostrado capacidade de agir de forma coordenada. Tenho dúvida se o núcleo religioso, nacionalista e antiglobalista consegue se organizar e articular e produzir coisa efetivas. Também tenho dúvida sobre o núcleo econômico financeiro. Não sei se eles estão tão afinados. Os militares, por outro lado, são uma corporação. Eu tendo a achar que aquela imagem que se formou que haveria três núcleos medindo força é ilusória e aparente. A verdade é que tem apenas um núcleo duro forte com capacidade de agência que são os militares e outros são mais frágeis. O Mourão claramente tem uma agenda e desejo de implementar ações que não vão nessa onda antiglobalista. Os militares terão papel de esteio, de uma reserva, quando a coisa começar a sair um pouco do trilho, eles vão puxar o freio de mão.

P. O senhor avalia que Mourão tem mais chances de assumir as decisões no âmbito da política exterior? Diferentemente de outros vices, ele terá um papel de maior protagonismo?

R. Acho que sim, ele está em condições melhores de ação nas questões críticas. Particularmente nos assuntos de política externa, segurança internacional e defesa nacional, eu vislumbro um vice-presidente bastante atuante. O Ernesto pode fazer mil discursos, pode inventar conceitos, escrever no blog dele, mas, para as questões capitais do Estado brasileiro, entendo que Mourão, Augusto Heleno, Santos Cruz [ministro da Secretaria de Governo] e o primeiro escalão militar do Governo irão prevalecer. Mourão deve, inclusive, fazer a defesa de um papel mais protagônico para a China na política externa. O vice parece mais consciente que o país asiático é responsável por 28% do nosso mercado exterior e de que a China precisa estar mais presente do que o Bolsonaro dava a entender na campanha. O presidente usava um discurso xenofóbico. “Chinês não vai comprar terra aqui não”. A realidade, no entanto, é que hoje você não governa sem o capital chinês.

P. Bolsonaro tem tentando seguir os passos de Donald Trump em alguns temas. Um modelo “trumpista” de Governo tem alguma chance de funcionar no Brasil atual?

R. Não cabe, esse é um contrabando acrítico e fadado a dar errado. Essa aproximação de Israel, que pode ser vista como um alinhamento aos EUA, pode ser um erro… As relações de Brasil com Israel são boas historicamente, mas na tensão que se estabelece entre israelenses e a comunidade árabe, o Brasil esteve sempre mais próximo do mundo árabe, da comunidade islamizada. Agora vemos outra mudança radical de discurso: de distanciamento dos árabes e uma aproximação meio sem precedente e sem ter porquê de Israel. Se apoiam em argumentos do modelo de dessalinização, da tecnologia militar de Israel como argumento. O Mourão deixa muito claro, em entrevista à revista Época [ em janeiro], que está contrário a esta aproximação. Ele até brinca: “Agora todos vamos ter que bater palma pra Israel? Todo mundo vai ter que gostar de Israel e dos EUA?”. Essa fala aponta para um questionamento importante de por que objetivamente e estrategicamente o Brasil está fazendo isso. Acho que essa interpelação os militares vão fazer.

P. O que está em jogo nessa aproximação proposta por Bolsonaro?

R. A estimativa conservadora que é feita é de que, se o Brasil de fato mudar sua embaixada para Jerusalém, poderemos ter perdas por força de algum tipo de boicote da Liga Árabe de cerca de 15 bilhões de dólares por ano. E o Brasil não está em condições de perder essa quantia.

P. Quais as chances dessa transferência da embaixada não acontecer de fato?

R. Já não está acontecendo tão rapidamente. O general Santos Cruz [Carlos Alberto], mesmo fez uma ressalva que é necessário esperar com calma. Eu não tenho essa convicção toda que isso sairá. Se o vice-presidente se opõe publicamente para a grande imprensa é difícil acreditar que o general será atropelado nessa questão, eu não apostaria nisso não. É preciso enfatizar que essa escolha por Israel também prejudica os foros internacionais. Para essa nova política antiglobalista isso pode não significar muita coisa. Note, entretanto, que isso gera um isolamento do Brasil que já se traduziu, por exemplo, na baixa presença de chefe de Estados na posse de Bolsonaro. Quando você provoca os árabes, você está provocando um bloco de 60 países, multilateralmente isso já é muito ruim. O Brasil já sai perdendo pois ganha antipatia de 60 países num mundo de 200. São muitas coisas envolvidas, perdas econômicas, perdas do ponto de vista político-diplomático. Isso ainda não está muito dimensionado pela equipe, digamos, religiosa nacionalista de Ernesto Araújo.

P. A recusa do Brasil em sediar a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), a COP25, e a retirada do país do Pacto Global para Migração também impactam na imagem do Brasil internacionalmente?

R. É inevitável que o Brasil seja, no discurso internacional, associado a outros governos e regimes não liberais e isso já está acontecendo. Na mídia internacional, o país vem sendo associado a Viktor Orbán, na Hungria, a Rodrigo Duterte, nas Filipinas, ao atual presidente da Polônia… Isso não é bom, significa danos à reputação brasileira. São referências de um conjunto de líderes que são ostensivamente contrários a essa fórmula liberal, em certo sentido, de lidar com as relações internacionais. E essa é a fórmula vencedora da segunda guerra mundial. Quando os aliados venceram, EUA, Reino Unido, França, União Soviética, isso foi um símbolo, um marco muito forte de certa intolerância ao que chegasse próximo ao fascismo e o nazismo. Foi nesta época que se criou a maioria das instituições globalistas (ONU, FMI, Banco Mundial…) Na medida que Bolsonaro se associa a esse grupo de novos governantes que não têm crenças liberais tão fortes isso traz danos reputacionais para o Brasil, já que eles põe em xeque as instituições criadas no pós-guerra. O país acaba ficando para escanteio. O meio ambiente e as migrações são parte desses temas caros ao consenso liberal, e o Brasil está desafiando com uma atitude que não condiz ao que se espera dele.

P. Quais são as consequências que o senhor vislumbra para a nova postura do Brasil?

R. O Brasil vai perder voz nas instituições internacionais e atualmente ele possui uma presença forte nestes organismos. Hoje o país está entre os dez do mundo em presença nas chefias de organismo internacionais, isso evidentemente gera capacidade de moldar a ordem das relações internacionais, ele vai perder isso. De ser um ator com alguma relevância no cenário global. Isso pode também ser reverter em perdas no comércio e turismo. O Brasil não pode desprezar as dinâmicas da indústria e do mercado externo. Mas estão tratando essa atividade econômica com um certo simplismo. A nova postura do Brasil pode gerar perdas na economia. Ele pode se isolar do mundo.
ElPais

O ‘toma lá, dá cá’ entre o Governo Alckmin e a Justiça, segundo um estudo da FGV

Pesquisadora vê troca de favores entre Poderes num jogo para atender interesses corporativistas.Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes, em 2016.

Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes, em 2016. CIETE SILVÉRIO A2IMG

Gestão tucana e MP estadual contestam conclusões do estudo

Em abril de 2014, o então presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Renato Nalini, suspendeu uma liminar da primeira instância que garantia a implantação, em até 60 dias, de duas equipes médicas mínimas no Centro de Detenção Provisória de Serra Azul, perto de Ribeirão Preto.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O magistrado acatava assim um recurso movido pela Procuradoria do Estado. Em sua justificativa, mencionava o esforço orçamentário que o Estado teria de fazer e argumentava que a carceragem já possuía um enfermeiro, um cirurgião dentista, dois auxiliares de enfermagem, dois psicólogos e dois assistentes sociais.

Entretanto, 60 presos haviam morrido no ano anterior por falta de atendimento médico. Esta era uma das principais provas que constavam nos autos da ação movida pelo defensor público Bruno Shumizu, que após a negativa recorreu ao Superior Tribunal de Justiça, em 2015.

A história acima se repete em grande parte dos 566 casos que passaram pela presidência do TJ entre 2012 e 2015 após o Governo de Geraldo Alckmin (PSDB) entrar com um pedido de suspensão de segurança, que é um instrumento utilizado por entes públicos para questionar uma sentença da primeira instância e pedir, diretamente à presidência do TJ, a anulação de seus efeitos. Os casos foram analisados pela pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Luciana Zaffalon, que chegou ao seguinte panorama: quase metade das resoluções foram favoráveis ao Governo.

Dos 15 processos relacionados à segurança pública que chegaram à presidência do TJ, ela constatou que 13 foram suspensos, atendendo aos interesses do Governo Alckmin. A justificativa usada com mais frequência é a de que o Estado teria de fazer um esforço orçamentário, segundo o estudo. Alckmin também foi atendido em 82% dos casos que tratam de licitações, contratos e atos administrativos, segundo a pesquisadora. Ele só foi derrotado em todas as ações que demandavam a aplicação do teto remuneratório para as carreiras públicas.

Essa tendência favorável ao Governo é um dos efeitos, segundo explica a especialista em sua tese de doutorado em Administração Pública e Governo, da politização da Justiça paulista, rendida à lógica do toma lá, dá cá. Zaffalon, que também foi ouvidora-geral da defensoria, mapeou o processo legislativo que resultava em aumentos de salários e bonificações para os membros da Justiça, Ministério Público e Defensoria paulistas.

Ela argumenta que essa política salarial generosa tem impacto sobre as decisões (ou omissões) dos integrantes dessas instituições em relação ao Palácio dos Bandeirantes. A pesquisa, disponível on-line, abarca os anos de 2011 a 2016 e conclui que “diante dos resultados observados, a existência de freios e contrapesos é praticamente ausente no Estado de São Paulo”.

A conclusão é questionada pelos principais atores analisados no estudo, incluindo o Ministério Público e a Defensoria Pública do Estado. Para o Governo Alckmin, trata-se de uma análise “parcial e equivocada”. Questionado pela reportagem, a gestão paulista diz que não é o Executivo que define as políticas salariais das carreiras. Já o Tribunal de Justiça disse que a tese ainda será analisada e, se for o caso, contrastada.

Triangulação na Assembleia

Para a tese, que se transformará em livro em breve, Luciana Zaffalon vasculhou os projetos de lei e propostas legislativas que passaram pela Assembleia entre 2011 e junho de 2016 e que afetavam a Justiça paulista. Constatou que 83% delas resultavam em algum benefício corporativo. Além disso, 47% das propostas previam vantagens como auxílios, gratificações ou bonificações que a serem custeadas.

A Assembleia também transferia a Alckmin a palavra final sobre verbas extras, segundo a pesquisadora: “Chama a atenção a Assembleia transferindo pra Governo a possibilidade de negociação orçamentária e as práticas remuneratórias das carreiras. Só o TJ ficou com 21% de todas as suplementações orçamentárias de 2015. É muito dinheiro”, explica a pesquisadora ao EL PAÍS.

Um dos exemplos da pesquisa é a trajetória salarial do Ministério Público de São Paulo. A pesquisadora concluiu que só 3% dos integrantes da carreira não superava o teto constitucional, equivalente ao salário do ministro Supremo Tribunal Federal, em 2015. Analisando a folha de pagamento, sem considerar décimo terceiro salário e férias, o rendimento mensal médio do MP foi de 46.036 reais — enquanto o teto era de pouco mais de 33.000 reais. Só no MP os complementos remuneratórios, como auxílios, bonificações e outros penduricalhos, representaram um gasto 421 milhões de reais. O Ministério Público, no entanto, contesta e diz que nenhum de seus membros “recebe mais do que o teto”. Argumenta que “pagamentos de natureza indenizatória, em que o promotor de Justiça é ressarcido por despesas que realizou no cumprimento de sua função, não constituem remuneração”.

Postos no Governo Alckmin

Zaffalon destaca os vasos comunicantes entre a carreira no Ministério Público e postos de destaque no Governo Alckmin para defender que essas conexões acabam influenciando as condutas dos promotores que deveriam fiscalizar a gestão estadual. “Se a gente olha para o histórico do Estado, os últimos sete secretários de segurança [como Alexandre de Moraes, hoje ministro no STF, e o atual chefe da pasta Mágino Alves] são oriundos do MP. Hoje o secretário de Justiça do Governo também veio de lá”, afirma. O secretário de Educação de Alckmin, Renato Nalini, foi por anos o presidente do Tribunal de Justiça, responsável direto por avaliar os pedidos de suspensão feitos pelo Palácio dos Bandeirantes.

“Como o Estado tem se comportado, sobretudo nas áreas de periferia? Uma das atribuições do MP é o controle do externo da atividade policial”, questiona a pesquisadora, que critica o alto número de mortes cometidas por policiais e o que vê como falhas na conduta do Ministério Público na hora de investigá-los.

O MP ressaltou em nota ao EL PAÍS que os convites para que seus membros ocupem secretarias têm “caráter estritamente pessoal” e não impedem que a instituição “cumpra o seu papel”, uma vez que “inúmeros membros do Governo estadual têm sido processados na esfera cível e penal”. A nota ainda diz que “só nas Promotorias do Patrimônio Público há cerca de 1.500 inquéritos e ações civis que envolvem agentes públicos, boa parte deles ligada ao governo estadual”. Já o Governo Alckmin diz que “o quadro de secretários é amplo” e escolhido “de forma a melhor atender ao interesse público”.

UM JUDICIÁRIO MAIS CARO QUE NA EUROPA

A remuneração média das carreiras jurídicas em São Paulo não apenas é superior à média nacional como também à de alguns países europeus, segundo o estudo da FGV. Um membro do MP paulista, por exemplo, tem um rendimento anual médio, contanto com décimo terceiro salário e férias, de 157.130 euros. Na França, o rendimento anual para a mesma carreira jurídica é de 113.478 euros; na Alemanha, 73.679 euros; em Portugal, 85.820 euros; na Espanha, 111.932 euros; e na Suécia, 69.318 euros.

O dados de São Paulo refletem também o alto custo do Poder Judiciário para os brasileiros e brasileiras de forma geral. Segundo a pesquisa, a despesa anual do Judiciário do país por habitante é de 94,23 euros, enquanto na Suécia é de 66,70 euros; na Holanda, de 58,60 euros; na Itália, de 50 euros; em Portugal, de 43,20 euros; e na Espanha, de 27 euros. Cerca de 89% desse gasto no Brasil destina-se ao pagamento de salários, enquanto que nos países europeus essa média cai para 70%.

Por que tenho orgulho do Aécio?

Nem a avó, nem o avô, nem a mãe, nem o advogado de defesa, falariam tão bem do Aécio Neves quanto o Ministro Marco Aurélio.Corrupção,Impunidade,Justiça,Política,Aécio Neves,Brasil,Eleições,PSDB,STF,Ministro Marco AurélioEstou pensando por qual motivo essa maravilha de exemplar humano, ainda não foi beatificado.

É-me impressionante testemunhar a história sendo escrita de modo tão repugnante, mas a história recente não me autoriza a esperar algo melhor.
O Ministro Marco Aurélio não deixou a menor dúvida de que pertence ao fã-clube do senador mineiro. No que depender dele, ninguém vai “comer” o Aécio!
Como se não bastasse, a excelência esquece que quem pediu a recontagem de votos por alegação de fraude foi o PSDB.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Pau no Temer: PSDB não quer a reforma da previdência

A rebelião tucana contra Temer quer minar a reforma da PrevidênciaCrise política no Brasil

Michel temer, em evento da Marinha no dia 9, em Brasília. UESLEI MARCELINO REUTERS

Congressistas do PSDB desafiam cúpula partidária que apoia Governo e complicam planos do Planalto

O discurso da cúpula tucana é o de manutenção irrestrita do apoio ao governo Michel Temer (PMDB). Mas a linha de frente da legenda na Câmara dos Deputados demonstra que nem tudo o que foi definido pelos tucanos de alta plumagem será replicado no Legislativo. Até porque a decisão de seguir na canoa governista não chegou a ser votada entre os membros do diretório.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Representantes da ala que desde que a delação da JBS veio à tona defende o rompimento com a gestão peemedebista dizem que não votarão a favor da principal reforma sugerida pelo presidente: a da Previdência. Levantamentos internos mostram, por exemplo, que apenas 9 dos 46 deputados do PSDB apoiam incondicionalmente Temer. Os demais estão entre indecisos (11) e a favor do desembarque (26).

“Do jeito que está, a reforma da Previdência não passa. Tem muitos pontos que não foram equacionados, como a aposentadoria rural”, afirmou o deputado João Gualberto (PSDB-BA). Autor de um dos 23 pedidos de impeachment protocolados contra Temer no Congresso Nacional, Gualberto afirma que os legisladores querem “ficar à vontade” para votarem as reformas necessárias, e isso implicaria em poder alterar as propostas feitas pelo Executivo. “A reforma está engessada e nada do que sugerimos o Governo aceita mudar. Como representante do Nordeste, não posso votar a favor desse projeto”.

A insatisfação contra as mudanças nas aposentadorias começou ainda durante a discussão do projeto na comissão especial e se intensificaram nas últimas semanas. Antes da votação do projeto da comissão, quando foi aprovado, o PSDB trocou peças para garantir o apoio ao Governo. Um dos que foi substituído foi Eduardo Barbosa (PSDB-MG). “O líder do partido [Ricardo Tripoli] me explicou que precisava da vaga e me substituiu. Eu entendi e aceitei. Mas eles sabiam que eu votaria contrário ao projeto da maneira como está”, ponderou.

Segundo Barbosa, os detalhes sobre aposentadoria por invalidez, a possibilidade de a pessoa acumular apenas dois salários mínimos entre aposentadoria e pensão, as benesses de algumas aposentadorias especiais e as alterações nos benefícios de prestações continuadas o desestimularam a apoiar a reforma. “Nem eu nem qualquer deputado com o mínimo conhecimento de Previdência consegue votar a favor da proposta”, explicou.

Outro representante do grupo que foi apelidado pela cúpula tucana de cabeças pretas diz que a reforma da Previdência não tem nem condições de entrar na pauta. “O projeto atual tem de ser retirado e apresentado de novo. Todos sabemos e queremos a reforma, mas da maneira que está não tem condições”, afirmou Daniel Coelho (PSDB-PE).

Na visão de Coelho, a crise do Governo Temer e o afastamento de Aécio Neves(PSDB-MG) das funções de senador por causa das investigações envolvendo a JBS forçarão o PSDB a fazer uma autocrítica e passar por uma reforma interna. “Quando o PSDB foi fundado o seu lema era ‘longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas’. Precisamos voltar a agir dessa maneira”, afirmou o deputado pernambucano.

As divisões existem no partido há anos. “O PSDB nunca foi um partido. Sempre foi mais uma reunião de caciques que têm suas próprias posições”, já disse o professor de filosofia da USP e uma das principais referências teóricas dos tucanos, José Arthur Giannotti. Mas, se antes a luta se dava entre integrantes da própria cúpula por interesses diversos, mas principalmente eleitorais, agora a divisão ganha outras clivagens.

Internamente é muito claro o movimento dos tucanos com influência na diretoria e próximos de figuras como o senador José Serra, o senador afastado Aécio ou o governador paulista Geraldo Alckmin tentando minimizar as queixas desse grupo de deputados.

A alcunha de cabeças pretas, por exemplo, é a tentativa de mostrar que há um embate geracional entre eles, que nem sempre procede. Seriam os cabeças brancas experientes contra um grupo de jovens pouco experimentados. Eduardo Barbosa, por exemplo, tem seis mandatos parlamentares.

Outra estratégia para minimizar os efeitos da atuação de quem está na linha de frente é o de ventilar a informação de que os que hoje se apresentam contra a decisão partidária estão visando as urnas e, em breve, mudarão de legenda (seja como for, os congressistas rebeldes poderiam dizer também que os caciques também decidem ficar por conveniência eleitoral, mas nacional, pensando no apoio na campanha presidencial de 2018).

O discurso de que os insatisfeitos buscariam uma saída se intensificou nesta semana, depois que o jurista Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso e um dos autores do pedido que resultou no impeachment de Dilma Rousseff (PT) da presidência, anunciou que apresentará seu pedido de desfiliação do partido.

“Eles [lideranças do PSDB] não avaliaram que simpatizantes e filiados do partido se opõem a essa decisão [de ficar no governo]. O PSDB não atendeu as suas bases. O eleitorado do PSDB tem a ética e a luta contra a corrupção como focos”, disse o jurista, segundo o jornal Folha de S. Paulo.

Num primeiro momento, contudo, o movimento de Reale Júnior não deve ser seguido por parlamentares federais.

“A responsabilidade do Reale como jurista, como militante, como cidadão é uma. A nossa, enquanto parlamentar é outra. Fomos votados e não podemos trair nossos eleitores assim. A mudança tem de vir de dentro e depende de nós mesmos”, analisou Daniel Coelho.
Afonso Benites/ElPais

Brasil, corrupção e divagações filosóficas

Imaginem que um marciano, desses que visitam a terra com frequência a convite dos teóricos dos antigos astronautas, pousem no Brasil com a incumbência de estudar a realidade política e sociológica do país.

 Teriam que se basear em paradigmas preliminares, presentes em todo o universo, como o silogismo elementar segundo o qual se A implica B e B implica C, A implica C!
A regra clássica seria: se o PSDB pediu a cassação da chapa Dilma-Temer, e se Temer, do PMDB, pertencia à chapa como aliado do PT, é óbvio que Temer, agora aliado do PSDB, teria efetivamente que ser cassado se a chapa encabeçada pelo PT o fosse.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]
Haveria, obviamente, um embrulho dos diabos no que se refere à sucessão. Contudo, lei é lei. Não se diz que ela é feita para todo mundo?
Em termos práticos, o que o marciano observou foi o seguinte: o PSDB pediu a cassação da chapa Dilma-Temer para atacar o PT, e a então possível cassação de Temer, do PMDB, agora em aliança com o PSDB, acabou batendo nos novos interesses do PSDB.
Aliaram-se assim, efetivamente, ao PT, o que acabou numa curiosa situação em que os três grandes partidos inimigos se viram do mesmo lado, entregues ao arbítrio do TSE.
Suponhamos agora que Gilmar Mendes dirigisse seu voto de minerva para a cassação.
Ele teria batido de frente com o PMDB, o PSDB e o PT, simultaneamente. Atenderia, por outro lado, ao reclame das massas em favor das eleições diretas. Com isso um dos ministros do STM mais odiados pela população em função de sua atuação heterodoxa dentro e fora do Supremo Tribunal Federal assumiria imediatamente a função de grande defensor do povo.
Outras coisas surpreenderiam os marcianos. Como o PT, inequivocamente o partido político brasileiro que mais se aproximou do povo e que mais significativos programas sociais realizou em seu tempo de gestão, pode ter nomeado Henrique Meirelles presidente do Banco Central, Antônio Palocci ministro plenipotenciário da Fazenda, e Joaquim Levy para esse posto? Por certo que não foi por maldade. Mas foi uma ingenuidade que nos custou caro demais.
Por que o Governo, com a cumplicidade da grande imprensa, insiste em sustentar que a economia retomou o crescimento quando os dados atuais, e as analises prospectivas, revelam inteiramente o contrário? Por que os idiotas da TV Globo insistem em dizer que o projeto de lei de abuso da autoridade é contra a Lava Jato, como se, para existir livremente, promotores e juiz da Lava Jato dependem de poder cometer abusos de autoridade impunemente?
Enfim, no meio de tantas contradições, fica evidente que mergulhamos mesmo no caos. Dele só se sai, milagrosamente, pela ação de um Atrator Estranho. Sua função será, no momento devido, devolver ao país alguma racionalidade.
E não se diga que, nas circunstâncias mundiais, essa seja característica apenas do Brasil. Donald Truman acabou com o Acordo Transpacífico de Cooperação com 11 países em defesa dos trabalhadores americanos, mas o que fez mesmo foi proteger da devastadora tecnologia americana os mercados dos demais signatários.
José Carlos de Assis/Tribuna da Imprensa

Doria diz que apoio a Temer é escolha entre ruim e péssimo

Eleitores do PT são mal informados ou defensores de mazelas, diz Doria

Apontado por recentes pesquisas como o nome mais forte do PSDB para a disputa presidencial em 2018, o prefeito de São Paulo, João Doria, minimiza interesse pela disputa, e diz que isso é assunto para “janeiro do ano que vem”.

Ao mesmo tempo em que não nega que possa concorrer, responde com desenvoltura quaisquer perguntas sobre o cenário eleitoral e ataca alguns de seus possíveis concorrentes na corrida eleitoral.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, o prefeito de São Paulo, João Doria, afirma que o próximo presidente do país deveria ser um “gestor”, adjetivo que constantemente usa para definir a si próprio. Ele ainda classifica os eleitores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder nas pesquisas na corrida presidencial de 2018, como mal informados ou defensores “das mazelas e do mal feito” e minimiza o crescimento do atual segundo colocado, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

Questionado sobre seu apoio à permanência de seu partido no governo do presidente Michel Temer, prestes a ser denunciado ao STF (Supremo Tribunal Federal), ele admite se tratar da “velha política” que tanto critica. “Mas há certos momentos na vida em que você tem que fazer a avaliação sobre o ruim e o péssimo” – e o péssimo neste caso, garante, seria “colocar o Brasil numa crise profunda no plano econômico”.

E embora defenda o direito de defesa do senador Aécio Neves, presidente tucano afastado, suspenso do Senado por denúncias de corrupção, Doria afirma que seria prudente que o Diretório Nacional da sigla se posicionasse sobre os pedidos de afastá-lo, “para preservar a imagem do PSDB”.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista, concedida em seu gabinete na Prefeitura de São Paulo no fim no início da noite de quarta-feira, poucas horas de o prefeito embarcar para Porto Rico, onde passaria o feriado com a família.

BBC Brasil – O sr. tem dito que não é um político, mas um gestor, um empresário. Na sua opinião, os países, Estados, cidades não precisam mais de políticos?

João Doria – Eu me considero um gestor, um administrador. Eu não sou um político. Eu estou na política, não sou da política. Isso não significa que eu desrespeite os políticos. Até sou filho de um. Meu pai foi deputado federal e foi cassado pelo golpe militar e exilado em 1964.

Obra do artista brasileiro Romero Britto no gabinete do prefeito João Doria
Obra do artista brasileiro Romero Britto no gabinete do prefeito João Doria Direito de imagem FELIPE SOUZA/ BBC BRASIL

Mas sempre fui um homem do setor privado. E com este discurso venci a campanha. E pela primeira vez em 28 anos na cidade de São Paulo um prefeito é eleito no primeiro turno.

E com este discurso tenho feito a gestão nesses primeiros seis meses. E isso tem nos dado um índice de aprovação superior a 70% e assim vamos continuar.

BBC Brasil – No Brasil as pessoas estão muito preocupadas com as relações entre empresários e políticos. Recentemente, nós tivemos uma interceptação de conversas antiéticas entre um empresário e o presidente Temer. O sr. e o seu partido se posicionaram a favor do presidente. O sr. acha que aquela conversa foi ética, que essa é a forma como políticos deveriam se comportar?

Doria – Não foi uma conversa adequada para um presidente da República. Nem na forma, nem no conteúdo, nem no local, nem no horário.

Mas isto não implica definitivamente num equívoco fatal para o presidente. Significa um erro ético e moral, mas não é um fato determinante para o impeachment do presidente.

BBC Brasil – O sr. e seu partido ainda estão em uma coalizão com o partido do presidente. Não seria correto deixar o governo após uma situação como essa?

Doria – Nós estamos do lado do Brasil. Mais do que tudo, é a proteção ao Brasil, à governabilidade, o apoio às reformas no Congresso Nacional.

Michel Temer e João Doria
Doria diz que saída do PSDB do governo Temer poderia causar “crise profunda no plano econômico” Direito de imagem AFP

O desembarque do PSDB do governo neste momento implicaria em colocar o Brasil numa crise profunda no plano econômico e no político. Hoje, nós estamos no plano político apenas. Se o PSDB sair, mergulhamos também no plano econômico.

E tudo o que nós não precisamos é de mais uma crise econômica, porque isso vai atrasar a retomada do desenvolvimento, do crescimento, inibir a criação de novos empregos e mergulhar o país numa crise infindável, cujo resultado é mais desemprego e mais pobreza.

BBC Brasil – Mas não se trata da velha política que o sr. promete às pessoas mudar, ficar ao lado do governo com o argumento de defender as reformas, mesmo que o presidente esteja envolvido em conversas tão sérias sobre propinas e juízes?

Doria – É a velha política. E é ruim. Você tem razão. Mas há certos momentos na vida em que você tem que fazer a avaliação sobre o ruim e o péssimo. Entre o ruim e o péssimo, o ruim é melhor que o péssimo.

BBC Brasil – O sr. vai se candidatar à Presidência no próximo ano?

Doria – Eu estou correndo, estou agindo para ser um bom prefeito da cidade de São Paulo. Eu fui eleito para ser prefeito por quatro anos. Não é hora de se discutir uma eleição presidencial. É hora de ajudar a resolver a crise brasileira. E cada administrador cumprindo o seu papel. Eu como prefeito, outros como governadores e assim por diante.

Nós temos que pensar em eleição em janeiro do ano que vem. Aí, quem sabe…

BBC Brasil – Em relação ao seu partido. Há suspeitas de doações ilegais à campanha do último candidato à Presidência, ele foi afastado recentemente do Senado. Isso não mancha um pouco seu compromisso com mudança, já que o sr. ainda é parte desse partido? O sr. apoia Aécio e o partido?

Doria – Ele não foi julgado, ele foi indiciado. É preciso reconhecer a diferença entre indiciado e julgado. Enquanto indiciado, o PSDB defende que toda investigação seja feita em sua plenitude, sem esconder nada e sem inibir nenhuma investigação. Diferente do PT, que sempre fugiu e procurou evitar a investigação.

Aécio deve ter direito a plena defesa e se, eventualmente for culpado, pagar por isso. Se for inocentado, retomar seu mandato e seguir sua carreira política.

BBC Brasil – O sr. é bem ativo nas redes sociais. Nos comentários, vimos pessoas cobrando uma posição sua em relação ao Aécio. Há quem defenda que ele seja expulso do partido. Qual a sua opinião?

Doria – Essa é uma decisão que cabe ao diretório nacional do PSDB. Eu entendo que o diretório deve se posicionar a esse respeito, como também entendo que o senador deve ter direito à plena defesa. Até Lula, mesmo diante de situações tão claras de falta de ética, tem direito à plena defesa e deve cumprir o seu rito na conformidade da lei até ser julgado.

Aécio Neves e João Doria na Prefeitura de São Paulo
Para Doria, PSDB deve se manifestar sobre afastamentos e denúncias contra o senador Aécio Neves para preservar imagem do partido

O mesmo em relação ao senador. Mas entendo que seria prudente para o PSDB tomar uma decisão e fazer uma manifestação. Isso não significa desrespeitar a trajetória do senador Aécio Neves, mas preservar a imagem do PSDB.

BBC Brasil – O sr. trabalha em São Paulo muito próximo do setor privado, recebendo doações e tentando fazer privatizações. O sr não acha que os brasileiros, após os escândalos da JBS e Odebrecht, têm desconfiança dessa relação entre o público e privado?

Doria – É diferente. Eu venho do setor privado, cultivei uma excelente relação com empresas privadas, brasileiras e internacionais, e tudo o que a gente faz por aqui tem o objetivo de atender a população. Não tem nenhuma negociação com objetivo partidário, político, de financiamento de campanha, de interesses espúrios. Os interesses são da cidade. E claramente colocados em transparência.

Nós já obtivemos em seis meses de gestão mais de US$ 220 milhões para a cidade. Dinheiro que foi investido pelas empresas doadoras em automóveis, motocicletas, uniformes para a Guarda Civil Metropolitana, material escolar, material de limpeza, construção de creches, de abrigos para pessoas em situação de rua, computadores, softwares e outros serviços para a cidade.

BBC Brasil – Mas as pessoas podem acreditar que essas empresas estão fazendo isso para o bem delas, sem pedir algo em troca?

Doria – Por que não? As empresas têm espírito de cidadania. Há muitas pessoas que, por confiar no gestor e reconhecer a dificuldade, oferecem produtos, serviços e contribuições dentro do seu campo de atuação para minimizar a aflição e a pobreza.

Isso já ocorria em várias empresas no plano de organizações não governamentais e iniciativas isoladas. O que eu fiz foi aglutinar, incorporar essas empresas dentro de um amplo programa de empresa cidadã, que nós iniciamos já na primeira semana como prefeito da cidade de São Paulo. E deu certo. Deu tão certo que muitas empresas nos procuram.

João Doria em sala do gabinete da Prefeitura de São PauloPrefeito João Doria diz que próximo presidente deve ser um ‘gestor’ e minimiza ascensão de Jair Bolsonaro Direito de imagemBBC BRASIL

BBC Brasil – Quais características gostaria de ver no próximo presidente?

Doria – Um inovador, um gestor. Eu acho que o Brasil também precisa ter um bom administrador. Evidentemente, tem um sentimento político e uma capacidade também de aglutinação. Primeiro do voto. Para você se eleger, você precisa do voto, convencer a população que você é o melhor para o país.

Depois, precisa ser alguém com um bom diálogo com o Congresso Nacional e também com as demais forças do país. Você precisa dialogar bem e respeitar bem o poder Judiciário, as atividades produtivas, o mercado. É preciso ter uma compreensão ampla do país e ter como prioridade a gestão da pobreza.

O Brasil não pode continuar com 14 milhões de desempregados, 7 milhões de subempregados, uma população expressivamente sob sofrimento, abaixo da linha da miséria, com dificuldades para saúde, para sua própria alimentação.

O futuro presidente do Brasil deverá ter uma plataforma muito clara de soluções para esses problemas e uma boa conduta na gestão econômica do país. Isso é fundamental. E ter credibilidade.

BBC Brasil – O senhor é atualmente um dos principais críticos do PT, disse recentemente que o partido é ainda o grande inimigo. Mesmo assim, o Lula é líder nas pesquisas. Como o senhor avalia essa aceitação dele mesmo nesse cenário de denúncias?

Doria – O PT é inimigo do Brasil porque produziu a maior recessão econômica da história brasileira. O maior assalto aos cofres públicos que se teve notícia no mundo.

Quem durante 13 anos teve o poder e a possibilidade de encontrar soluções para o país, veio com esse discurso de proteger, amparar, integrar, colocar o país dentro de um processo ético, ver seus principais dirigentes indiciados, presos ou com tornozeleira não é exatamente um partido que pode falar de ética, tamanho o volume de pessoas implicadas.

Inclusive o ex-presidente Lula, que tem cinco indiciamentos, responde a cinco processos neste momento. Então, ele também é um inimigo do Brasil, embora tenha eleitores e uma base do eleitorado. Ou porque reconhece nele, mesmo diante das falcatruas, dos erros, das mazelas e das mentiras, um líder, o que é muito triste.

João Doria em sala do gabinete da Prefeitura de São Paulo
Prefeito diz que quem vota no PT é mal informado ou quer defender as mazelas do partido Direito de imagemFELIPE SOUZA/ BBC BRASIL

Você reconhecer pessoas que têm bom nível sócio econômico e podem ler jornais, ler livros, assistir à televisão, ter um melhor nível de conhecimento e ainda aprovam uma pessoa como essa é muito triste, mas é a democracia. A democracia tem alegrias e tem tristezas.

E há também um número expressivo de brasileiros que não têm acesso à informação, não têm acesso aos jornais, não assistem aos telejornais e não são influenciáveis por notícias a respeito do que fez o PT, do que fez o ex-presidente Lula. E são pessoas dependentes de programas sociais que foram iniciados na gestão Lula e continuam neste governo.

BBC Brasil – Só vota no PT quem é mal informado, prefeito?

Doria – Ou quem tem a intenção de defender as mazelas e defender o mal feito. Eu não vejo nenhuma razão para alguém votar no PT.

Qual é a prioridade, qual é a história louvável do PT que você ensinaria ao seu filho? Provavelmente, nenhuma.

BBC Brasil – Há quem aponte um contrassenso entre ser inimigo do PT e fazer alianças com o PMDB, que esteve com o PT durante todos esses anos e tem Michel Temer à beira de ser denunciado no STF.

Doria – A aliança não é com o governo Temer. É com o Brasil. Eu fiz essa defesa e fiz exatamente esse discurso. Duas vezes, aliás. Aqui em São Paulo, na reunião com o diretório do PSDB, que era uma reunião claramente favorável ao desembarque, eu defendia a permanência com esse mesmo discurso.

Nós temos que proteger o Brasil e os brasileiros. Não se trata de fazer a defesa do governo Temer ou do presidente Temer, mas sim da estabilidade política para permitir alguma estabilidade econômica para a retomada do crescimento e também para proteger as reformas que estão em discussão no Congresso Nacional neste momento.

É preciso, neste caso, ter pragmatismo. Não é a defesa incondicional do presidente Temer nem a defesa incondicional do seu governo. É a defesa do país, do Brasil e da sua governabilidade. E ter a certeza e a convicção de que teremos as eleições realizadas no seu prazo determinado constitucionalmente, que é em outubro de 2018.

Até lá, não havendo nenhum fato novo e grave diante das circunstâncias políticas, ao meu ver, cabe ao PSDB sim, como aliás já foi decidido, garantir essa governabilidade. Mas isso não é um cheque assinado, avalizado, até dezembro de 2018. Essa situação pode ser revista, se houver algum fato grave pela frente.

BBC Brasil – Como o senhor vê a ascensão do deputado Jair Bolsonaro?

Doria – Com normalidade. Ele tem um discurso mais à direita, que contagia um universo de eleitores, faz parte do processo democrático. É um candidato assumido, faz campanha há um ano pelo Brasil e isso vai sensibilizando uma parcela dos leitores. Mas não creio que seja uma sensibilização definitiva.

Eu já vi várias vezes histórias de candidatos, e com isso não estou desrespeitando a história, nem a trajetória e nem o valor do deputado. Eu já vi outros candidatos saírem à frente em campanhas e nem sequer irem para o segundo turno. E em São Paulo.

Aqui mesmo temos um exemplo disso. Um candidato que começou a campanha com 38%, era tido como vitorioso ou, na pior das hipóteses, como já no segundo. Estavam discutindo a segunda vaga para o segundo turno, se é que poderia haver um segundo turno.

E esse candidato (o deputado Celso Russomanno, do PRB) não foi nem para o segundo turno e nem ganhou a eleição. Eu tinha 2% e venci a eleição no primeiro turno.

BBC Brasil – Muita gente aponta a ação na cracolândia como o ponto baixo de sua gestão até agora. Como avalia?

Doria – Muito pelo contrário. Eu entendo que é um ponto corajoso da minha gestão. O fácil era não fazer nada, isso era o mais fácil.

Já sabia que o tema era polêmico. Quatro ex-prefeitos tentaram e não conseguiram e desistiram de fazer o enfrentamento tamanhas objeções que receberam. Eu já sabia disso. E nem por isso eu deixei de fazer o enfrentamento. Eu considero o contrário. Eu considero um ponto de coragem e de determinação. Continuamos a fazer o necessário e vamos prosseguir. Não há recuo.

Homem usa crack na cracolândia
Doria diz que ação na cracolândia é um “ponto corajoso” de sua gestão Direito de imagemEPA

Já vencemos ao longo desses últimos dois meses vários pontos importantes. A cracolândia fisicamente onde estava, no quarteirão da rua Helvétia com a Dino Bueno, acabou e não volta mais. Enquanto eu for prefeito de São Paulo, eu posso assegurar que ali não volta mais.

E ali nós tínhamos vários bunkers de uma facção criminosa de São Paulo, o PCC (Primeiro Comando da Capital), que hoje se espalha infelizmente por todo o Brasil, e ali tinha depósito de armas, refinamento de cocaína, cofres com entorpecentes de toda a espécie. Além da própria cocaína, ecstasy, heroína, maconha, além do próprio crack. E isso acabou.

Não há mais a ocupação ali. Você não tem mais aquele shopping center de drogas ao ar livre, que era uma vergonha cada vez que se via a imagem daquilo, com a comercialização aberta para quem desejasse comprar e abastecendo a cidade inteira de drogas. Isso acabou.

BBC Brasil – Mas e a cracolândia que se formou na praça Princesa Isabel, prefeito?

Doria – Uma coisa é acabar fisicamente com o espaço da cracolândia. Outra coisa é o enfrentamento de uma questão longa e difícil que são os usuários. Infelizmente, nós temos mais de 4 mil usuários do crack residindo nas ruas, dependendo desse consumo, e lamentavelmente manuseados por esses traficantes pertencentes a essa facção criminosa.

Isso foi exigido e nós estamos fazendo. Todo dia há abordagens. Já fizemos mais de 130 internações de pessoas que aceitaram ser internadas e, na minha visão, aceitaram ser salvas porque o crack mata.

Nós vamos continuar esse programa. Não é um programa com base ideológica nem partidária. Por isso mesmo, nós estamos convencidos de que ele vai produzir ao longo do tempo o resultado necessário.

BBC Brasil – A prefeitura entrou com uma ação para poder internar compulsoriamente os usuários da região em casos extremos. O secretário estadual da Saúde, David Uip, questionou a decisão.

Doria – A prefeitura não propõe a internação em conjunto. A prefeitura propõe que haja a possibilidade da internação compulsória individual. Ela não propõe aglutinar pessoas, colocar dentro de um ônibus ou caminhão, ou confinar dentro de um prédio, uma casa, uma sala, amarrar essas pessoas com camisa de força e obrigá-las a ter tratamento. É a abordagem individual. Isso muda muito.

Houve aí, não é o caso da BBC, mas um mal tratamento da notícia por parte dos jornalistas que, desinformados ou deliberados, colocaram a notícia como se fosse o objetivo coletivo. Não era coletivo e não é. E, portanto, não há nenhuma dicotomia entre a ação do governo do Estado e da prefeitura.

Nós seguimos juntos o programa Redenção. Aliás, hoje mesmo (quarta-feira) tivemos uma reunião aqui na prefeitura tratando exatamente desse assunto com os secretários de Saúde do Estado e do município e os responsáveis na área psiquiátrica.

BBC Brasil – A ex-secretária de Direitos Humanos Patrícia Bezerra, ao pedir demissão, deu uma entrevista à Folha de S.Paulo tecendo vários elogios, mas dizendo que o senhor tem um senso de urgência que é equivocado, como não entender que o trabalho na cracolândia exige um certo tempo. Como avalia essa crítica?

Doria – Gosto da Patrícia e a considero uma boa pessoa e uma boa vereadora. Foi uma boa secretária enquanto esteve aqui conosco.

Mas tenho um pensamento distinto em relação à velocidade e ao senso de urgência. É o que me difere dos políticos. Os políticos gostam muito de dar tempo ao tempo. Eu, como gestor e administrador, prefiro administrar o tempo. É diferente.