A era Obama

Paul Krugman é colunista do ‘The New York Times’

A maior parte dos debates pós-eleitorais provavelmente será sobre o que os democratas devem fazer com o seu mandato. No entanto, eu gostaria de fazer uma pergunta diferente, igualmente importante para o futuro da nação: o que a derrota significará para os republicanos? Poderíamos pensar, quem sabe até esperar, que os republicanos embarcassem numa busca por sua identidade, perguntando a si mesmos se eles perderam o contato com o americano médio, e como isso teria acontecido. Contudo, não acredito que isso vá ocorrer tão cedo.

Ao invés disso, o partido que restar será o que vai aos comícios de Sarah Palin, nos quais a multidão grita: “Vote McCain, e não Hussein!”. Será o partido representado por Saxby Chambliss, senador da Geórgia que, ao observar o grande número de eleitores negros participando da votação antecipada, alertou a seus partidários dizendo que “os outros sujeitos estão votando”. Será o partido que cultiva fantasias ameaçadoras sobre as raízes marxistas – ou seriam islâmicas? – de Barack Obama.

DIREÇÃO

Será que o Partido Republicano se tornará mais radical, e não menos? As projeções sugerem que essa eleição vai tirar do Congresso muitos dos republicanos moderados remanescentes, ao mesmo tempo mantendo a linha dura do partido.

Larry Sabato, analista eleitoral, prevê que sete vagas no Senado, atualmente em poder dos republicanos, passarão para os democratas. Segundo a classificação liberal-conservadora, elaborada pelos cientistas políticos Keith Poole e Howard Rosenthal, cinco dos senadores prestes a perder a vaga são mais moderados do que o senador republicano médio. Assim, a parte do partido que permanecer no Congresso será de orientação ainda mais à direita. O mesmo deve ocorrer com os deputados.

Além disso, a base republicana parecia estar se preparando para considerar a possível derrota não como uma condenação das medidas conservadoras, mas como o resultado de uma conspiração maligna. Uma pesquisa recente realizada pela Democracy Corps descobriu que os republicanos, em uma proporção superior a dois para um, consideram que McCain está perdendo “porque a grande mídia é tendenciosa” e não “porque os americanos estão cansados de George W. Bush”.

McCain estabeleceu os moldes para que sejam feitas as declarações de que a eleição foi roubada, ao declarar que o grupo de ativistas Acorn “está prestes a cometer a maior fraude eleitoral da história dos EUA, possivelmente destruindo o tecido da democracia”. De acordo com o site Factcheck.org, a Acorn jamais “foi considerada culpada ou sequer acusada” de ter incentivado fraudes eleitorais. Não é necessário dizer que os eleitores que a organização tenta registrar são, na maioria, os “outros sujeitos”, como diria o senador Chambliss.

Seja como for, a base republicana, encorajada pela campanha de McCain, acha que a eleição deveria refletir a opinião dos “verdadeiros americanos” – e a maioria dos leitores desta coluna provavelmente não se enquadra nessa definição.

Assim, diante de pesquisas sugerindo que Obama vencerá na Virgínia, um dos principais assessores de McCain declarou que a “verdadeira Virgínia” – a porção sul do Estado, excluídos os subúrbios da capital, Washington – é favorável a McCain. A maioria dos americanos vive atualmente em grandes áreas metropolitanas, mas durante visita a uma pequena cidade na Carolina do Norte, Sarah Palin descreveu aquela comunidade como “aquilo que eu chamo de verdadeira América”. A verdadeira América, ao que parece, é provinciana, em sua maior parte sulista, e acima de tudo, branca.

INTOLERÂNCIA

Não estou dizendo que o Partido Republicano está prestes a se tornar irrelevante. Os republicanos ainda estarão em posição de bloquear algumas iniciativas democratas, especialmente se os democratas não conseguirem obter uma maioria no Senado capaz de evitar obstruções. E essa capacidade de obstrução garantirá que o Partido Republicano continue a receber grande quantidade de dólares corporativos: este ano a Câmara depositou muito dinheiro nas campanhas dos republicanos no Senado, na esperança de negar aos democratas uma maioria suficiente para aprovar leis.

No entanto, a longa transformação do Partido Republicano em partido da direita irracional, santuário de racistas e reacionários, é um processo que será acelerado como resultado da derrota. Isso confrontará os conservadores moderados com um dilema.

Muitos passaram os anos de Bush imersos na negação, fechando seus olhos para a desonestidade e para o desprezo pela lei. Alguns tentaram manter-se mergulhados nessa negação durante as eleições deste ano, mesmo quando as táticas de McCain se tornaram cada vez mais sujas. Um dia, porém, eles serão obrigados a concluir que o Partido Republicano se tornou o partido da intolerância.