Humberto Eco: Do mosteiro ao picadeiro

Li “O Cemitério de Praga” logo quando do lançamento em língua portuguesa. Como tudo da lavra de Eco, o livro ganhou minha admiração logo nos primeiros capítulos. Boa literatura, prosa bem trabalhada e tramas elaboradas com o requinte de um “gourmet” das letras.

“O cemitério de Praga remete, sutilmente, mas não tanto, a uma das grandes falsificações da história: o embusteiro “Os protocolos dos sábios de Sião”, texto comprovadamente forjado pela polícia secreta do Czar Nicolau II da Rússia, uma farsa montada para justificar a perseguição aos judeus. Esses “protocolos”, que alguns estudiosos creditam ser derivados de um texto francês — Diálogos no inferno entre Maquiavel e Montesquieu — tratam um complexo plano que teria sido elaborado pelos judeus para dominar o mundo. Para alguns adeptos de teorias conspiratórias, teriam servido de mote inspirador para a criação dos campos de extermínios construídos pelos nazistas durante a segunda guerra mundial.
José Mesquita – Editor


“Todas as perguntas possíveis já me foram feitas”, diz Umberto Eco, após terminar o café, afundado numa poltrona da sala de visitas de sua casa, em Milão.

A cigarrilha apagada, hábito de ex-fumante, pende de um lado da boca. “Só não me perguntam, sei lá, quais são os sete anões. Eu responderia que, quando tento me lembrar, sempre são seis.”

Ao fundo, atrás de sua calva, vê-se, de um lado, uma coleção de conchas do mar, escrupulosamente organizadas; de outro, em atris, livros ilustrados do fim do século 19.

São alguns dos originais de onde saíram as ilustrações de seu mais recente romance, “O Cemitério de Praga” [Record, trad. Joana Angélica D’Avila Melo, 480 págs, R$ 49,90].

O “Cemitério” foi recebido como a volta de um mestre ao gênero que o consagrou (após um romance nostálgico e de fundo autobiográfico, “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”): uma trama de mistério, com crimes sangrentos e um protagonista que chega a ser comovente em sua pusilanimidade.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]A entrevista tem por mote o lançamento do livro no Brasil mas também os 80 anos do escritor, nascido em 5 de janeiro de 1932, na piemontesa Alessandria, cuja fama vem dele e dos chapéus Borsalino. Em várias fotos para a imprensa, ele ostenta, com elegância algo zombeteira, um modelo negro da marca.

ROMANCE

Eco, o romancista, nasceu em 1980, após sobrevir-lhe o desejo de envenenar um monge: assim o escritor define o motor inicial de seu “O Nome da Rosa“, best-seller de cifras milionárias, levado ao cinema em 1986 por Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery e Christian Slater.

Àquela altura, o nome do professor italiano era já conhecido: foram muitos ensaios e títulos de teoria, da poética do escritor irlandês James Joyce (“Sou joyciano, não proustiano”, diz, e exibe uma estante forrada de primeiras edições de “Ulysses” em diferentes idiomas) a análises da comunicação de massa (seu primeiro emprego pós-doutoramento em filosofia, em 1954, foi como editor de cultura num dos canais da rede televisiva RAI).

O manual “Como se Faz uma Tese” (Perspectiva), de 1977, ainda hoje é referência em cursos de ciências humanas. Mas o currículo de Eco faz com que ele frequente as bibliografias de muitas disciplinas que não só as de metodologia.

Umberto Eco navegou nas principais ondas que atravessaram os estudos da linguagem na segunda metade do século 20, do estruturalismo à teoria da recepção e à narratologia, parando às margens do pós-estruturalismo; cobriu da filosofia às tirinhas do Snoopy.

Cunhou expressões que se tornaram muletas do discurso universitário: atire a primeira pedra quem nunca disse que toda obra é “uma obra aberta” ou aquele que não juntou numa frase, dita à mesa do bar, “apocalípticos” e “integrados”.

Foi a ficção, porém, que levou seu nome aos píncaros da cultura de massa.

No Brasil, “O Nome da Rosa” saiu em 1984 pela Nova Fronteira. A diretora editorial da casa, Leila Name, qualifica o livro como “uma bomba de sucesso” cujo efeito se multiplicou com o filme. Pelos registros da Nova Fronteira, a primeira investida de Eco na ficção teve no Brasil mais de 45 reimpressões e vendas acima de 600 mil exemplares.

Hoje, sua obra ficcional está toda na Record, que também lança alguns de seus livros de ensaios, como “A História da Beleza” e “A História da Feiura”, almanaques eruditos de popularização da história cultural. Somados, seus títulos na casa venderam cerca de 550 mil exemplares “”91 mil deles de “O Cemitério de Praga”.

Sergio Machado, presidente do Grupo Editorial Record, lembra a aquisição de “O Pêndulo de Foucault”, segundo romance de Eco, em um leilão “””via fax, telex””” comandado por seu pai, Alfredo Machado nos idos de 1988. A quantia acertada pelos direitos do segundo romance de Eco era uma cifra “inédita”, US$ 130 mil (cerca de US$ 237 mil, em números corrigidos, o equivalente a R$ 420 mil).

“Na época, US$ 20 mil eram um absurdo”, situa Machado. O editor se esquiva de fornecer valores atuais, mas diz que a soma paga por um livro de Eco “não anda para trás” e “vem subindo de forma consistente”.

Dali em diante, tudo o que Eco escreveu atingiu números superlativos –inclusive o que menos vendeu na Record, “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, com “apenas” 48 mil exemplares. “Este foi um pelo qual a gente pagou mais do que devia”, diz o editor. “As pessoas querem mais do mesmo.”

Eco não discorda. “Todos falam que escrevo romances eruditos, difíceis”, diz o escritor. “Quando escrevi um fácil, que todo mundo entende, ‘A Misteriosa Chama da Rainha Loana’, foi o que menos vendeu. Dá para ver que sou um autor para masoquistas.”

DAN BROWN

Muitos intelectuais, porém, não engolem a combinação de sucesso comercial e erudição de Eco, tachando-o de uma espécie de Dan Brown mais cultivado. O raciocínio é um velho conhecido no Brasil, onde serve para desqualificar, por exemplo, os romances de Chico Buarque: se o autor vende bem e é pop, mau sinal –só pode ser um picareta.

“Ter Umberto Eco nas estantes da sala é, para muitos, inclusive os que jamais leram uma linha desses livros, uma questão de ‘status cult'”, diz a professora Lucia Santaella, da PUC-SP, colega em semiótica de Eco, a quem tece “críticas até mesmo bastante severas”. Para ela, o italiano é uma espécie de grife, que “compõe bem a pose dos pseudointelectuais que brilham nas grandes praças dos lançamentos do ‘big show business'”.

Um de seus detratores contumazes na Itália, o romano Alfonso Berardinelli, estrela da crítica italiana atual, diz –citando Kafka– que Eco está no centro do mundo, onde se acumula toda a sua imundície, “a prodigiosa escória”.

“Escrevi pelo menos quatro ou cinco artigos e ensaios contra Eco”, rememora à Folha. “Não posso dizer nada de novo; Eco me aborrece faz tempo, e o que eu tinha a dizer já disse há 20 ou 30 anos. Fico maravilhado em ver como agrada”, afirma o autor de “Da Poesia à Prosa” (Cosac Naify).

“Parece engraçado e brilhante, mas na realidade é um professor que não cessa de mesclar erudição e piadas com veia estudantil. E sem fazer rir. É quase uma ofensa à literatura italiana que ele seja seu autor mais notável.”

Berardinelli diz ainda não conhecer nenhum escritor –“nem na Itália, nem fora”– que goste mesmo de Eco. “Sua fama é puramente comercial. É um fenômeno de circo, um autor que impressiona professores de escola.”

PICADEIRO

No meio do picadeiro pós-lançamento, Eco segue imperturbável: profere pausadamente um discurso que soa familiar, pois volta e meia as palavras se repetem em manifestações públicas e entrevistas.

Pudera: a vida literária muitas vezes rivaliza com a de um roqueiro, com cansativas turnês de lançamentos (“Voltei dos EUA com o ombro arruinado, depois de autografar 3.000 livros”, conta) e solicitações para opinar publicamente sobre todo e qualquer fato relevante (menos sobre os sete anões).

Seu apartamento é uma grande biblioteca –são 30 mil volumes; outros 20 mil, estima, estão em sua casa de campo–, mas nada de labirintos compartimentados, apesar de o edifício ser um antigo hotel. À entrada, mapas antigos recebem o visitante; a sala é luminosa e ordenada, com móveis discretos e claros; nas paredes, arte contemporânea; pela janela vê-se a torre do castelo Sforzesco, famoso marco turístico milanês.

A antiga residência dos duques de Milão remonta à Idade Média, período dileto de Eco, que se doutorou pela Universidade de Turim em 1954 com uma tese sobre a questão estética em São Tomás de Aquino. Mas da fortaleza que foi, após múltiplos ataques e sucessivas reconstruções, praticamente nada de original resta.

“Os turistas vêm aqui ver o castelo, onde é tudo falso, e não vão a Brera, onde tem Rafaello, o Cristo de Mantegna, Piero Della Francesca”, lamenta o escritor.

FALSÁRIO

O falso e o verdadeiro são um tópico da obra de Eco. Simone Simonini, o protagonista de “O Cemitério de Praga”, é um falsário. Ou melhor, “o” falsário: Eco atribuiu a ele os grandes crimes contra a verdade que marcariam a virada para o século 20 e, mais que todos, os apócrifos “Protocolos dos Sábios de Sião”, conjunto de escritos antissemitas que teriam servido a Hitler para a fundamentação do nazismo.

“Havendo-me ocupado de problemas de linguagem e comunicação desde 1975, escrevi que o que caracteriza toda forma de signo e de linguagem humana é a possibilidade de mentir. Um cão não mente jamais. Quando late, é porque tem alguém lá fora: nunca aconteceu de um cão latir para que se pense que há alguém lá fora, sem que haja –o homem sim.”

“O problema da mentira implica o problema da falsificação. Entre as falsificações mais trágicas, eis os ‘Protocolos dos Sábios de Sião’, aos quais dediquei vários escritos. Acho que fiz também algumas descobertas “”como a de que trata o romance, que uma das fontes era ‘Joseph Balsamo’, o livro de Dumas.”

O romance de Alexandre Dumas, pai, de 1849, se inicia com uma cena em que maçons entronizam o protagonista em sua seita secreta. A descrição teria inspirado a conspiração de rabinos dos “Protocolos”, forjada no cemitério judaico da capital tcheca, que se teriam congregado para tramar a dominação do mundo.

O “documento” (que difama os semitas “num patchwork contraditório que não se poderia levar a sério, mas que foi muito levado a sério”) justificaria o ódio aos judeus e seu extermínio preventivo.

“Ninguém sabe como surgem os ‘Protocolos’: como nasceram, quem os fez, em quantas fases. Por isso fiquei livre para atribuir tudo a Simonini”, diz. E explica que Simonini é o único personagem fictício no romance, um “feuilleton” oitocentista.
Ele frisa, porém que, Simonini, apesar de inventado, “é mais verdadeiro que os demais”.
“Eu estava sempre pensando em pessoas que conhecemos, falsários, jornalistas vendidos, que sabemos quem são, até o nome e o sobrenome. Minha ambição seria que os leitores usassem o livro como um guia para visitar o mundo dizendo ‘lá vai um Simonini’.”
Eco arrisca uma leitura psicológica das motivações para a obsessão central de Simonini, que é o ódio aos judeus fomentado nele pelo avô desde a infância.

“Descobri que algumas pessoas acabam odiando alguém porque lhe fizeram mal “”veja bem, não odeio alguém porque alguém me fez mal, mas porque eu lhe fiz mal e depois o odeio. Mas por quê? Porque tento esquecer que eu sou o culpado e tento me convencer de que ele merecia meu ódio.”

E garante: “Aconteceu comigo também: gente que aprontou comigo depois escreveu artigos contra mim. Mas entendi que tinham sido desrespeitosos comigo e depois precisavam se justificar”.

Como reza o título da mais recente coletânea de ensaios de Eco –o ainda inédito em português “Costruire il Nemico” (2011), no qual se reconhecem temas e aspectos de “O Cemitério de Praga”: é preciso construir o inimigo.

CRÍTICA

Eco diz “desconfiar muito da chamada crítica militante, a que se faz nos jornais, em comparação com a crítica acadêmica”.

“Antes, quando saía um livro, o diretor do jornal dava seis meses ao crítico para ler; não havia necessidade de falar dele no dia seguinte. Hoje o crítico lê sempre numa situação de pressa e fica sujeito à estação, à dor de cabeça, ao que comeu na noite anterior. Se tivesse tido seis meses, comendo cada dia algo diferente, a sua leitura seria mais equilibrada.”

E, como que a precaver-se de um ataque, emenda: “Note-se que eu acho desequilibradas não só as críticas que falam mal de meus livros mas também as que falam bem; elas às vezes me irritam porque falam bem pelos motivos errados.”

Ele se irrita, também, quando inquirido se existem de fato “motivos errados”. Parece condenado a relembrar que a obra é aberta, sim, mas que a interpretação tem limites: “A minha posição é muito clara: não sou um desconstrutivista que acha que um texto pode ter qualquer significado e que cada um pode ler como quiser. A liberdade da leitura é sempre determinada pelo objeto que está lá.”

SEMIÓTICA

Se a semiótica foi devorada por outros estudos e devolvida sob outros avatares acadêmicos, a culpa é em parte de Eco.

Com rara clareza numa ciência em que a obscuridade volta e meia era confundida com argúcia, o italiano aplicou conceitos da ciência dos signos em estudos amplamente difundidos e citados (mesmo que muitas vezes de orelhada) fora do âmbito dos semioticistas, alastrando-os para campos mais diversos e talvez menos cerebrais.

Sempre evocada quando se pensa em semiótica, sua produção, porém, não empolga seus pares. Para Lucia Santaella, o pensamento que ele produziu é “miscigenado”: “Ele mistura indiscriminadamente correntes, autores, teorias, criando uma salada complexa e difícil de entender.”

A professora não nega a Eco o papel de “intelectual engajado”, que, “alerta, marca sua posição acerca dos eventos”, “como um jornalista bem dotado”.

“Ele é escritor prolífico. Nos inúmeros congressos de que participei em que ele estava presente, comentava-se que ele escrevia até nos táxis. De fato, ele tem a veia dos gênios. Sua genialidade é a do discurso”, concede Santaella.

PARÓDIA

O discurso de Eco tem um aspecto brincalhão que parece atiçar parte da crítica contra ele e marca, por exemplo, seus dois “Diários Mínimos”, divertidas coletâneas de paródias e pastiches intelectuais, que em maio ganham nova edição [Record, trad. Joana Angélica D’Avila Melo e Sergio Duarte, 560 págs., R$ 62,90; leia trecho de “Nonita” à pág. 10].

A despeito do lado gracioso, Eco tem para sua literatura pretensões nada triviais. Seus diversos ensaios sobre a leitura, como “O Papel do Leitor”, e livros sobre o tema, como “A Obra Aberta” e “Lector in Fabula”, talvez sejam o retrato do que o Eco ensaísta esperava do Eco romancista: a forja, no mundo real, de um leitor modelo.

“Que leitor modelo eu queria quando estava escrevendo?”, inquire retoricamente Eco em seu “Pós-escrito a ‘O Nome da Rosa'” (Nova Fronteira, 1985). “Um cúmplice, claro, que entrasse no meu jogo. Eu queria tornar-me completamente medieval e viver na Idade Média como se esta fosse minha época (e vice-versa)”, escreve.

“Mas, ao mesmo tempo, eu queria, com todas as minhas forças, que se desenhasse uma figura de leitor que, superada a iniciação, se tornasse meu prisioneiro, ou melhor, prisioneiro do texto e pensasse não querer nada mais do que aquilo que o texto lhe oferecia.”

Questionado se o teórico transparece no romancista, ele nega. Diz que, se é que se encontram reflexos de sua teoria na sua ficção, é “porque evidentemente eu não sou esquizofrênico”: “Até os ginecologistas se apaixonam. Sustento que você pode ter a teoria que for, mas, quando lê, se aquilo o cativa, ao menos numa primeira fase da leitura esquece a teoria.”

Berardinelli, seu crítico mais feroz, faz uma descrição tão ácida quanto acertada do que é tentar definir a produção de Eco.

Assim diz, no texto “Umberto Eco e Seu Pêndulo”, publicado aqui em edição da revista “Remate de Males” organizada pela professora Maria Betânia Amoroso no primeiro semestre de 2005:

“Toda vez que se cai na armadilha de seguir enumerativamente a vertiginosa pluralidade da mente de Eco, se acaba por ter que desistir derrotado: estamos frente ao inesgotável […]. Se eu também me pusesse a enumerar tudo aquilo que ele enumera não faria nada mais do que lhe fazer eco.”
Francesca Angiolillo/Folha de S.Paulo