Claudia Camara – Prosa na tarde – 07/03/2017

Espelho
Claudia Camara ¹

Eu vou falar porque transbordo. Só porque não tem jeito, vou dizer adagas afiadíssimas, impiedosas, sobre sua carne. Não me olhe ou esmorecerei e minha voz vai se calar, exausta de compaixão. Não me olhe, porque as palavras sairão como cuspes lançados contra seu rosto. Escarros antigos, empedrados de dores caladas. Não, por favor, não desista. Não cometerei escatologias de espécie alguma, prometo. Mas não me olhe. Ou engolirei os cacos da verdade que agora, encara o seu rosto sem, no entanto, olhar para você. E sangrarei inutilmente sobre palavras que não me cabem.

Escuta. É quase certo que eu não te ame mais. Carrego sentimentos morredouros que rangem cada vez que respiro. Adivinho os estertores da esperança. Imagino apenas e, juro, espero estar errada.

No começo não era assim. No começo eu vivia sob as bênçãos da ignorância. Eu era o rio caudaloso em sua primeira água rumo ao oceano. Nunca mais essa liberdade que só os intrépidos, que só os inocentes, já que, você bem o sabe, liberdade é privilégio dos ignaros. Mas isso eu já disse e não quero esgotar sua boa vontade, enovelando palavras, tecendo sensações que, você sabe, são minha razão e conforto.

Eu, cega de eternidade, rolando solta por entre as frinchas da terra, abrindo caminhos com a voracidade dos recentes. Sei que metaforismos são irritantes, quando se trata de acontecimentos com datas e suores. Como agora, quando confesso o meu desamor por você. É um processo que, embora abissal, não surpreenderá seus passos com um vazio súbito, sem alardes. Estou convivendo com o desfolhamento desse legado que me foi deixado como testamento de vida. Não o pedi. Entende isso? Me foi ordenado como também veio a sentença: deve crescer, multiplicar-se e buscar a felicidade resoluta e, antes de tudo, amar aos outros como a si mesmo.

Percebe porque nunca experimentei o amor? Inventei, modelei meticulosamente histórias formidáveis mas que, você sabe, serviria em diversos protagonistas. Qualquer um. Os que foram. Os que são. Serão?

Não se preocupe, não choro enquanto confesso tantos silêncios. É que agora, como muitas vezes, me acontece o frio nos olhos e as águas salobras vêm protegê-los de alguma agudez indesejada deste sentido. Por exemplo, não verei o cansaço das suas carnes. Sua testa desolada e cabelos desconsolados sobre ombros.

Não verei seus olhos abaixados, perscrutando sua alma enquanto escovo ancestralidades, trazendo-as à luz impiedosa da realidade.

Olha. Vê que não há amor possível diante de tal constatação: você não cumpriu com a promessa e não é quem deveria ser. Ou poderia.

Seus sonhos meninados persistem enquanto o tempo arrancou cada uma das pontes suspirosas entre a possibilidade e o nunca. Não é possível que não tenha percebido isto! E, desculpe, mas eles não lhe caem nada bem agora que já não conta com a benevolência do futuro.

Não quero postar-me diante da sua inércia. Não suporto mais a docilidade com que mimetiza minha dor.

Apago a luz.

¹ Claudia Camara
* Belo Horizonte, MG 

Claudia Camara é mineira de Belo Horizonte, cidade para onde sempre volta, embora viva fazendo malas e planos com os olhos para muito além das montanhas. Algumas vezes foi e experimentou o Rio de Janeiro e Paris. Mas voltou. Sempre volta. Escritora, desde sempre, mãe desde 1987 (confirmada no posto em 1998), publicitária (ainda), por motivos justos. Jura de pés juntos que vai envelhecer em Paris. Publicou 5 livros, o mais recente a novela Quinze dias, sete anos e alguns minutos, pela Editora Biruta, São Paulo (finalista do Prêmio Jabuti na categoria infanto-juvenil). Criação de uma série para TV La minute Féminine comprada pela produtora francesa La Parisienne d’Animation e, em fase de produção, o livro Sol no céu da nossa casa para a Construtora Odebrecht. Escreve o blogue Mentiras Históricas.


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Carlos Drumnond de Andrade – Prosa na tarde – 24/06/2015

Não deixe o amor passar
Carlos Drummond de Andrade¹

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: o amor.
Por isso, preste atenção nos sinais – não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.

¹Carlos Drummond de Andrade
* Itabira do Mato Dentro, MG, – 31 de Outubro de 1902 d.C
+ Rio de Janeiro RJ, – 17 de Agosto de 1987 d.C

>> biografia de Carlos Drummond de Andrade


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Shakespeare – Prosa na tarde – 12/04/2015

A Tempestade
Shakespeare ¹

— (…)  “Pois o mesmo comigo vai se dar. Sendo ar, apenas, como és, revelas tanto sentimento por suas aflições; e eu, que me incluo entre os de sua espécie, e as dores sinto, como os prazeres, tão profundamente tal como qualquer deles, não podia me mostrar agora menos abalado.
Muito embora seus crimes me tivessem tocado tão de perto, em seu auxílio chamo a nobre razão, para sofrearmos de todo minha cólera.
É mais nobre o perdão que a vingança.
Estando todos arrependidos, não se estende o impulso do meu intento nem sequer a um simples franzir do sobrecenho.
Vai, liberta–os, meu Ariel. Vou romper o encantamento, a razão restituir–lhes e fazê–los voltar a ser o que eram” (…)
Próspero in A Tempestade – Ato V – Cena I

¹ William Shakespeare
* Stratford-Avon, Inglaterra – 23 de abril 1564 d.C
+ Londres, Inglaterra – 23 abril 1616 d.C
>> biografia


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Clarice Lispector – Prosa na tarde – 05/03/2015

Descoberta do amor
Clarice Lispector ¹

“[…] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.

Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. […] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.

Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. […] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.

Pois juro que a vida é bonita.”

¹ Clarice Lispector
* Ucrânia – 10 de Dezembro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Dezembro de 1977 d.C
>>biografia


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Sarah Westphal – Prosa na tarde – 15/02/2015

Quase
Sarah Westphal Batista ¹

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance. Para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.
De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando.
Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

¹ Sarah Westphal Batista da Silva
* Florianópolis, SC – 1988 d.C


Esse texto, que circula na internet como sendo de Luis Fernando Veríssimo, é na realidade de uma jovem catarinense. Veríssimo esclarece:
“Apareceu a autora do ‘Quase’, o texto que rola na internet atribuído a mim e que eu, relutantemente, tenho que repetir que não é meu. Ela se chama Sarah Westphal Batista da Silva, é de Florianópolis. Escreveu o texto ‘inspirada por um menino que não me namorou, mas quase…’, mandou o texto por e-mail a várias amigas e dois anos depois teve a surpresa de vê-lo impresso com a minha assinatura. A Sarah está no quarto semestre de medicina mas sonha em largar a faculdade e começar a escrever. Olha aí, editores. Ela nem começou e já foi traduzida na França.”


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Artur da Távola – Prosa na tarde – 13/02/2015

Afinidade
Artur da Távola ¹

Não é o mais brilhante mas é o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente, também. Não importam o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades: quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que ele foi interrompido, ontem ou há 40 anos.

É não haver tempo mediando a vida. É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjetivo sobre o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial. É rara. Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar. Ela existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas.

O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro de sua boca diante de alguém com quem tem afinidade. É ficar de longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar uma palavra. É receber o que vem do outro com uma aceitação anterior ao entendimento. É sentir com. Nem sentir “contra”, nem sentir “para”, nem sentir “pelo”.

É sentimento singular, discreto. Não precisa nem do amor. Pode existir quando ele está presente ou quando não está. Independe dele mesmo sendo sua filha. Pode existir a quilômetros de distância. É adivinhado na maneira de falar, de escrever, de andar, até de respirar. É linguagem secreta do cérebro, ainda não estudada.

Além de prescindir do tempo e ser a ele superior, ela vence a morte porque cada um de nós traz afinidades ancestrais no inconsciente e que se prolongam nas células dos que nascem de nós e vão para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes mesmo mortos (mortos?) há tantos anos. É ter estragos semelhantes e iguais esperanças permanecentes. É conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas quanto das impossibilidades vividas.

É retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo da separação. Porque ele (tempo) e ela (separação) nunca existiram. Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada pessoa possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado. Sensível é a afinidade. E exigente, apenas de uma coisa: que as pessoas evoluam parecido. Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau. É o mais sutil e delicado dos sentimentos.

¹ Paulo Alberto Monteiro de Barros
* Rio de Janeiro, RJ. – 03 de Janeiro de 1936 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 09 de Maio de 2008 d.C


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Cecília Meireles – Prosa na tarde – 20/09/2014

A Arte de Ser Feliz
Cecília Meireles ¹

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul.Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia estar pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebe- las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto,e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

MAS, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

¹ Cecília Benevides de Carvalho Meireles
* Rio de Janeiro, Brasil – 7 de Novembro de 1901 d.C
+ Rio de Janeiro, Brasil – 9 de Novembro de 1964 d.C


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Fernando Pessoa – Prosa na tarde – 02/03/2014

(…) Quantas vezes, sob o peso de um tédio que parece ser loucura, ou de uma angústia que parece passar além dela, paro, hesitante, antes que me revolte, hesito, parando, antes que me divinize.

Dor de não saber o que é o mistério do mundo, dor de nos não amarem, dor de serem injustos conosco, dor de pesar a vida sobre nós, sufocando e prendendo, dor de dentes, dor de sapatos apertados – quem pode dizer qual é a maior em si mesmo, quanto mais nos outros, ou na generalidade dos que existem? (…)

Escrevo isto sob a opressão de um tédio que parece não caber em mim, ou precisar de mais que da minha alma para ter onde estar; de uma opressão de todos e de tudo que me estrangula e desvaira; de um sentimento físico da incompreensão alheia que me perturba e esmaga.

Mas ergo a cabeça para o céu azul alheio, exponho a face ao vento inconscientemente fresco, baixo as pálpebras depois de ter visto, esqueço a face depois de ter sentido. Não fico melhor, mas fico diferente. Ver-me liberta-me de mim.

Quase sorrio, não porque me compreenda, mas porque, tendo-me tornado outro, me deixei de poder compreender. No alto do céu, como um nada visível, uma nuvem pequeníssima é um esquecimento branco do universo inteiro.

Fernando Pessoa sob pseudônimo de Bernardo Soares, em o Livro Do Desassossego.

>> biografia de Fernando Pessoa


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Cecília Meireles – Prosa na tarde – 26/01/2014

A quinhentos metros
Cecília Meireles¹

A quinhentos metros, os vossos belos olhos desaparecem; e essa claridade do vosso rosto; e a fascinação da vossa palavra. É uma pena (eu também acho que é uma pena!), mas, a quinhentos metros, tudo se torna muito reduzido: sois uma pequena figura sem pormenores; vossas amáveis singularidades fundem-se numa sombra neutra e vulgar. Ao longe, caminhais como qualquer pessoa – e até como certas aves: é o que resta de vós: esse ritmo, na imensa estrada que também se vai projetando, estreita e indistinta, sobre o horizonte.

Bem sei que tendes muitas inquietações: há um mês de maio na vossa memória, e um campo em flor, e um arroio que cantava numas pedrinhas, e depois muitas, muitas cidades grandiosas e indiferentes, e teatros acesos, ramos de flores, ceias, risos, vozes, adereços de turquesa, – bem sei, bem sei. Bem sei que tudo isso ficou a mais de quinhentos metros, e ainda de longe continuais a sofrer. Mas, para quem vos olha a uma distância de quinhentos metros, essas dimensões que levais convosco deixam de existir. As canções que aprendestes e a dor que sabeis, nada se avista daqui. Sois uma sombra muito pequenina, prestes a perder mesmo o ritmo do passo, a parecer parada como o próprio chão. Podereis ir para um lado ou para o outro: daqui a pouco nem saberemos para onde fostes: e as vossas decisões estarão fora do nosso alcance, como vós estareis fora da nossa vista.

É bem triste tudo isso, porque nós vos amamos, e gostaríamos de responder, se por acaso nos chamásseis: mas, a quinhentos metros, é bem difícil ouvirmos a vossa voz. Mandamos pelo ar nossos bons pensamentos: mas, que acontece aos pensamentos, mesmo aos melhores, desde que partem, desde que se desprendem de nós? Onde vão pousar os nossos bons pensamentos? E as pessoas a quem os dirigimos serão exatamente aquelas que os encontram?

Tenho muita pena de tudo isso: mas a pena vai ficando também menor, cada vez menor, à medida que avançais para longe: o sofrimento acompanha seu dono; nós apenas o vemos, e algumas vezes o compreendemos, sem, no entanto, o podermos tomar para nós, desfazê-lo ou dar-lhe outra direção. E ele também vai ficando pequenino, diminuindo, com a distância, para nós que não o carregamos, que apenas ouvimos dizer que existe. É como, nos mapas, o desenho de um rio que jamais encontramos: é certo que passa por ali, mas não sabemos nada de suas histórias, reflexos e ecos.

A quinhentos metros, na verdade, há muita ausência, vamos acabando muito depressa. Pensai que, geralmente, neste mundo, há sempre cerca de quinhentos metros de uma pessoa para outra! Somos só desaparecimento. E apenas quando conseguimos ficar, também, a quinhentos metros de nós mesmos, encontramos algum sossego. Porque, então, é a vez dos nossos tormentos mudarem de proporções e aspecto. De serem vistos só de longe, sem pormenores, sem voz, sem ritmo: nem mês de maio, nem flores, nem arroio. Talvez a memória serenada. Talvez nem a memória…- É assim em quinhentos metros!

¹Cecília Benevides de Carvalho Meireles
* Rio de Janeiro, Brasil – 7 de Novembro de 1901 d.C
+ Rio de Janeiro, Brasil – 9 de Novembro de 1964 d.C


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JM Coetzee – Prosa na tarde – 05/12/2013

Levado pelo vento
JM Coetzee ¹

“Perdi o amor por essa espécie de terra, pensou, já não me interessa senti-la entre os dedos. Já não quero o verde e o cas­tanho, mas o amarelo e o vermelho; não a humidade, mas a ari­dez; não a sombra, mas a luz; não o macio, mas o duro. Estou a transformar-me numa outra espécie de homem, se é que há duas espécies de homens. Se me cortassem, disse, estendendo os pulsos, olhando os pulsos, o sangue não jorrava; havia de infiltrar-se nos poros e secar. Cada dia que passa, tomo-me mais pequeno, mais duro e mais seco. Se morresse aqui, à en­trada da caverna, ao olhar para a planície, com a cabeça apoia­da sobre os joelhos, um dia seria levado pelo vento e mantido intacto, como alguém sufocado pela areia do deserto. Nos seus primeiros dias no alto da montanha, saía a va­guear, virava pedregulhos, mastigava raízes e bolbos. Um dia abriu um formigueiro e comeu as larvas, uma a uma. Sabiam a peixe. Mas agora já não ia à aventura para comer e beber. Não explorava o seu novo mundo. Não transformou a caverna em habitação, nem lá guardava qualquer recordação dos dias que iam passando. Nada havia que esperar e apenas contemplava, todas as manhãs, a sombra da montanha que se alongava cada vez mais até ele e, de repente, era invadido pela luz. Sentava­-se ou deitava-se, como um sonâmbulo, à saída da caverna, de­masiado fatigado para se mover ou demasiado indiferente. Às vezes dormia tardes inteiras; e acudia-lhe à mente se estaria a viver numa espécie de êxtase.”

JM Coetzee, O Cio da Terra: Vida e Tempo de Michael K

1 John Maxwell Coetzee
* Cidade do Cabo, África do Sul – 9 de fevereiro de 1940 d.C


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