Ismar Tirelli Neto – Correlata – Poesia

Boa noite.
Correlata – Ismar Tirelli Neto

que passo a sentir vizinhos sumiços
passos à escada depurados de eco
a palavra “cumeada” atira-se novamente
é possível imergir
a rua, renova, rouqueja
é possível
o céu dizer-se emboço
a morte, cimentícia
a dor, a dor, coisa infinitamente perfectível
o azul da manhã, corrugado
e setembro, cabeceio
ao concluir-se o serviço

Já não falo de mim.
Fundo cidades.

Fernando Pessoa – Reflexões

Aprenda para que não pensem por você.
Somos Vítimas de uma Prolongada Servidão Coletiva

Produto de dois séculos de falsa educação fradesca e jesuítica, seguidos de um século de pseudo-educação confusa, somos as vítimas individuais de uma prolongada servidão coletiva. Fomos esmagados (…) por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reacionária, por livres-pensadores para quem o cúmulo do livre-pensamento era impedir uma procissão de sair, de maçons para quem a Maçonaria (longe de a considerarem a depositária da herança sagrada da Gnose) nunca foi mais do que uma Carbonária ritual. Produto assim de educações dadas por criaturas cuja vida era uma perpétua traição àquilo que diziam que eram, e às crenças ou ideias que diziam servir, tínhamos que ser sempre dos arredores.
Fernando Pessoa

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Afonso Duarte – Provençal – Poesia

Provençal
Afonso Duarte

Em um solar de algum dia
Cheiinho de alma e valia,
Foi ali
Que ao gosto de olhos a vi

Como dantes inda vasto
Agora
Não tinha pombas nem mel.
E à opulência de outrora,
Esmoronado e já gasto,
Pedia mãos de alvenel.

Foi ali
Que ao gosto de olhos a vi.

O seu chapéu, que trazia
Do calor contra as ardências,
Era o que a pena daria
Num certo sabor e arrimo
Com jeitos de circunferências
A morrer todas no cimo.

Davam-lhe franco nos ombros
As pontas do lenço branco:
E sem que ninguém as ouça,
Eram palavras da moça
Com a voz alta de chamar;

Palavras feitas em gesto,
Igualzinho e manifesto,
Como um relance de olhar.

E bela, fechada em gosto,
Fazia o seu rosto dela
A gente mestre de amar.

Foi num solar de algum dia,
Cheiinho de alma e valia,
Que eu disse de mim para ela
Por este falar assim:

Vem, meu amor!

E os dois iremos juntos pelos montes;
E o Sol abençoará, nosso tesoiro,
A seara, o pão da terra, o trigo loiro,
E como nós hão-de falar as fontes.

Vem, meu amor!

E terás os meus cantos, o que eu valho;
Vem: serás do meu sangue e meu suor!
Dê-me beijos e graça o teu amor
E encherás de ternura o meu trabalho.

Vem, meu amor!

E o fim do nosso dia, o sol poente,
Sem más obras na mente e coração,
Há-de sorrir à nossa casa, à gente.

Vem, meu amor!

Vem como o Sol doirado quando brilha
De juntinho da terra e em devoção
Ele a beija e fecunda à maravilha.

Pintura de Èduard Manet

Fernando Pessoa – O Sensacionismo

O Sensacionismo
Fernando Pessoa

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
– Mas o que é sentir?
Ter opiniões é não sentir.
Todas as nossas opiniões são dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?].
Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras é proibido ser explícito.

Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar – são os únicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos são divinos porque são a nossa relação com o Universo, e a nossa relação com o Universo Deus.

(…) Agir é descrer. Pensar é errar. Só sentir é crença e verdade. Nada existe fora das nossas sensações. Por isso agir é trair o nosso pensamento.
(…) Não há critério da verdade senão não concordar consigo próprio. O universo não concorda consigo próprio, porque passa. A vida não concorda consigo própria, porque morre. O paradoxo é a fórmula típica da Natureza. Por isso toda a verdade tem uma forma [?] paradoxal.
(…) Afirmar é enganar-se na porta.
Pensar é limitar. Raciocinar é excluir. Há muito que é bom pensar, porque há muito que é bom limitar e excluir.
(…) Substitui-te sempre a ti próprio. Tu não és bastante para ti. Sê sempre imprevenido [?] por ti próprio. Acontece-te perante ti próprio. Que as tuas sensações sejam meros acasos, aventuras que te acontecem. Deves ser um universo sem leis para poderes ser superior.

São estes os princípios essenciais do sensacionismo. (…)
Faze de tua alma uma metafísica, uma ética e uma estética. Substitui-te a Deus indecorosamente. É a única atitude realmente religiosa (Deus está em toda a parte excepto em si próprio).
Faze do teu ser uma religião ateísta; das tuas sensações um rito e um culto.

Fotografia de Gilbert Garcin

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Guilherme Pavarin – Farol do sono

Farol do sono
Guilherme Pavarin

lua oculta, novo enigma:
entre os calos das falhas
as valas das dúvidas
desacatam o agora

na forja das grutas
cubro com dorflex e saliva
a coceira de lapidar
uma nova pedra bruta

hoje não há saída:
vedam-se os vagões
o aquário das intuições
partidas, bebidas

amanhã — torço —
os trilhos estarão a postos
um farol iluminará o fosso
a bússola virá como sopro

que a noite germine o ócio
da carne, cresçam os ossos
e o impensável
se torne óbvio

Foto de Gilbert Garcin

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Conceição Evaristo – A noite não adormece nos olhos das mulheres – Poesia

A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição EvaristoPicasso,Arte,Mulher Chorando,blog do Mesquita
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças

Foto: Kylere

Artur da Távola – Versos na tarde – 17/03/2017

Quem namora
Artur da Távola¹

Quem namora agrada a Deus.
Namorar é uma forma bonita
de viver um amor.

Namorados que se
prezem gostam de
beijos, suspiros,
morderem o
mesmo pastel,
dividir a empada,
beber no mesmo
copo.

Namora quem sonha,
quem teima, quem vive
morrendo de amor e quem
morre vivendo de amar.

¹Paulo Alberto Monteiro de Barros
* Rio de Janeiro, RJ. – 3 de janeiro de 1936

+ Rio de Janeiro, RJ. – 8 de maio de 2008

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Lya Luft – Prosa na tarde – 14/12/2016

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]”A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida.  Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada”.

Lya Luft
* Santa Cruz do Sul, RS. – 15 de setembro de 1938 d.C

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Tchecov – Prosa na tarde – 25/04/2016

“O homem extraordinário¹
Tchecov¹

“Um reloginho de parede tiquetaqueia timidamente, como que embaraçado diante do homem estranho”.

“O ar está silencioso, mas tão frio e enfarruscado que mal se podem ver até mesmo as luzes dos postes de iluminação. Debaixo dos pés a lama soluça”.

“Ele não bate, não grita, tem muito mais virtudes que defeitos, mas, quando ele sai de casa, todos se sentem mais leves e saudáveis.”

¹ Extrato do livro
O Homem Extraordinário (L&PM, tradução de Tatiana Belinky).

¹Anton Tchecov
* Ucrânia – 1860 d.C
+ Berlim, Alemanha -1904 d.C


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Shakespeare – Prosa na tarde – 01/02/2016

Fragmento
¹William Shakespeare

Escutar é um raro acontecimento entre seres humanos.
Você não pode ouvir a palavra sendo dita por alguém que esteja falando,
se estiver preocupado com a sua aparência, em impressionar
o outro ou tentando resolver o que vai dizer quando o outro parar de falar,
ou mesmo questionando se o que está sendo dito é verdade, relevante ou agradável.
Essas questões têm o seu lugar, mas só depois de escutar a palavra como está sendo expressa.
Escutar é um ato primitivo de amor, em que a pessoa se dá à palavra de outro,
tornando-se acessível e vulnerável àquela palavra.

¹William Shakespeare
* Stratford-Avon, Inglaterra – 23 Abril 1564 d.C.
+ Londres, Inglaterra – 23 Abril 1616 d.C.


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