Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog do Mesquita (9)

Guilherme Pavarin – Farol do sono

Farol do sono
Guilherme Pavarin

lua oculta, novo enigma:
entre os calos das falhas
as valas das dúvidas
desacatam o agora

na forja das grutas
cubro com dorflex e saliva
a coceira de lapidar
uma nova pedra bruta

hoje não há saída:
vedam-se os vagões
o aquário das intuições
partidas, bebidas

amanhã — torço —
os trilhos estarão a postos
um farol iluminará o fosso
a bússola virá como sopro

que a noite germine o ócio
da carne, cresçam os ossos
e o impensável
se torne óbvio

Foto de Gilbert Garcin

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Conceição Evaristo – A noite não adormece nos olhos das mulheres – Poesia

A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição EvaristoPicasso,Arte,Mulher Chorando,blog do Mesquita
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças

Foto: Kylere

Artur da Távola – Versos na tarde – 17/03/2017

Quem namora
Artur da Távola¹

Quem namora agrada a Deus.
Namorar é uma forma bonita
de viver um amor.

Namorados que se
prezem gostam de
beijos, suspiros,
morderem o
mesmo pastel,
dividir a empada,
beber no mesmo
copo.

Namora quem sonha,
quem teima, quem vive
morrendo de amor e quem
morre vivendo de amar.

¹Paulo Alberto Monteiro de Barros
* Rio de Janeiro, RJ. – 3 de janeiro de 1936

+ Rio de Janeiro, RJ. – 8 de maio de 2008

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Lya Luft – Prosa na tarde – 14/12/2016

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]”A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida.  Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada”.

Lya Luft
* Santa Cruz do Sul, RS. – 15 de setembro de 1938 d.C

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Tchecov – Prosa na tarde – 25/04/2016

“O homem extraordinário¹
Tchecov¹

“Um reloginho de parede tiquetaqueia timidamente, como que embaraçado diante do homem estranho”.

“O ar está silencioso, mas tão frio e enfarruscado que mal se podem ver até mesmo as luzes dos postes de iluminação. Debaixo dos pés a lama soluça”.

“Ele não bate, não grita, tem muito mais virtudes que defeitos, mas, quando ele sai de casa, todos se sentem mais leves e saudáveis.”

¹ Extrato do livro
O Homem Extraordinário (L&PM, tradução de Tatiana Belinky).

¹Anton Tchecov
* Ucrânia – 1860 d.C
+ Berlim, Alemanha -1904 d.C


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Shakespeare – Prosa na tarde – 01/02/2016

Fragmento
¹William Shakespeare

Escutar é um raro acontecimento entre seres humanos.
Você não pode ouvir a palavra sendo dita por alguém que esteja falando,
se estiver preocupado com a sua aparência, em impressionar
o outro ou tentando resolver o que vai dizer quando o outro parar de falar,
ou mesmo questionando se o que está sendo dito é verdade, relevante ou agradável.
Essas questões têm o seu lugar, mas só depois de escutar a palavra como está sendo expressa.
Escutar é um ato primitivo de amor, em que a pessoa se dá à palavra de outro,
tornando-se acessível e vulnerável àquela palavra.

¹William Shakespeare
* Stratford-Avon, Inglaterra – 23 Abril 1564 d.C.
+ Londres, Inglaterra – 23 Abril 1616 d.C.


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Clarice Lispector – Reflexões na tarde – 31/01/2016

O nascimento do prazer
Clarice Lispector¹

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável.

Esse fundir-se total é insuportavelmente bom – como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar-se inundar pela alegria aos poucos – pois é a vida nascendo.

E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele e nós.
in O Nascimento do prazer

¹Clarice Lispector
* Ucrânia – 10 de Dezembro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Dezembro de 1977 d.C

>> Biografia de Clarice Lispector


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Clarice Lispector – Prosa na tarde – 17/01/2016

“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”

“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato… Ou toca, ou não toca”.

Clarice Lispector
* Tchetchelnik, Ucrânia – 10 de Dezembro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Dezembro de 1977 d.C

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Crônica de uma separação

Separação,Relações,Divórcio,Blog do MesquitaEla passou o primeiro dia empacotando todos os seus pertences em Caixas, engradados e malas. No segundo dia, ela chamou os homens da transportadora que levaram a mudança.

No terceiro dia, ela se sentou pela última vez na bela mesa da sala de jantar, à luz de velas, pôs uma música suave e se deliciou com uns camarões, um pote de caviar e um garrafa de Chardonnay.

Quando terminou, foi a cada um dos aposentos e colocou alguns pedaços de casca de camarão, besuntados com caviar, dentro dos varões das cortinas.

Depois ela limpou a cozinha e se foi.

Quando o marido retornou com a nova namorada, tudo estava um brinco nos primeiros dias.

Depois, pouco a pouco, a casa começou a feder.

Eles tentaram de tudo: limpando, lavando e arejando a casa..

Todas as aberturas de ventilação foram verificadas à procura de possíveis ratos mortos e os tapetes foram limpos com vapor..

Desodorantes de ar e ambiente foram pendurados em todos os lugares..

A empresa de combate a insetos foi chamada para colocar gás em todos os encanamentos, durante alguns dias, durante os quais tiverem de sair da casa, e no fim ainda tiveram de pagar para substituir o caríssimo carpete de lã.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Nada funcionou.

As pessoas pararam de visitá-los.

Os funcionários das empresas de consertos se recusavam a trabalhar na casa..

A empregada se demitiu..

Finalmente, eles não suportavam mais o fedor e decidiram se mudar.

Um mês depois, apesar de terem reduzido o valor da casa em 50%,eles não conseguiram um comprador para a casa fedorenta.

A notícia se espalhava e nem mesmo corretores de imóveis locais retornavam as ligações.

Finalmente, eles tiveram de fazer um grande empréstimo do banco para comprar uma casa nova.

A ex-esposa ligou para o marido e perguntou como andavam as coisas.

Ele disse a ela o martírio da casa podre.

Ela escutou pacientemente e disse que sentia muitas saudades da casa antiga e que estaria disposta a reduzir a parte que lhe caberia do acordo de separação dos bens em troca pela casa.

Sabendo que a ex-mulher não tinha idéia de como estava o fedor, ele concordou com um preço que era cerca de 1/10 do que valeria a casa.

Mas só, se ela assinasse os papéis naquele dia mesmo.

Ela concordou e em menos de uma hora, os advogados deles entregavam os documentos.

Uma semana depois, o homem e sua namorada assistiam, com um sorriso malicioso, os homens da mudança empacotando tudo para levar para a sua nova casa…

…incluindo os varais das cortinas. Ah…AH….. ..AH

Jorge Luis Borges – Reflexões na tarde – 16/09/2014

O labirinto
Jorge Luis Borges ¹

Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.

¹ Jorge Luis Borges
* Buenos Aires, Argentina – 24 de Agosto de 1899 d.C
+ Genebra, Suíça – 14 de Junho de 1986 d.C
>>biografia


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