Professor de Princeton faz sucesso com publicação de ‘currículo de fracassos’

Um professor de uma das universidades mais famosas do mundo, a Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, está fazendo sucesso com um currículo em que faz o oposto do que normalmente se costuma fazer – relata apenas os fracassos de sua carreira.

Desde que publicou currículo, psicólogo recebeu centenas de cumprimentos por ter dado a todos ‘uma grande lição’

Em geral, currículos – em especial de acadêmicos – relatam uma vasta trajetória de cursos concluídos, diplomas, doutorados, pesquisas, publicações e reconhecimentos.

Mas Johannes Haushofer, professor associado de psicologia em Princeton, divulgou em sua conta no Twitter um currículo em que relata apenas as ocasiões dos cargos que disputou e não levou, dos prêmios que não ganhou, ensaios que foram rejeitados por publicações acadêmicas e pedidos de financiamento de pesquisas que não foram aprovados.

Com a iniciativa, Haushofer recebeu apoio de colegas, estudantes e centenas de usuários de redes sociais.

Universidade de Princeton
O professor Haushofer disse que seu currículo de fracassos conseguiu mais sucesso que seus trabalhos acadêmicos

“Fracasso em muitas coisas que tento fazer. Mas, frequentemente, estas decepções são invisíveis enquanto os sucessos sempre são notados”, diz o professor na introdução de seu “currículo de fracassos”.

Formato e categorias

Haushofer elaborou o documento utilizando o formato conhecido dos currículos e dividindo-o em categorias, como “programas de estudo para os quais não me qualifiquei”, “cargos acadêmicos e bolsas que não consegui” e assim por diante.

Em uma última categoria, que chamou de “metafracasso”, Haushofer incluiu um pouco de humor.

“Este maldito CV de fracassos recebeu muito mais atenção do que todo o meu trabalho acadêmico.”[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Desde que publicou a lista, na semana passada, o psicólogo – que também tem doutorado em economia – já recebeu centenas de cumprimentos por ter dado a todos “uma grande lição”.

Muitos afirmaram que Haushofer é um “otimista”, “inspirador” e “inovador”.

Convite

Getty
A Universidade de Princeton é considerada uma das melhores dos EUA, junto com outras instituições como Harvard e Yale

O “currículo de fracassos” de Haushofer foi inspirado em um artigo da neurobióloga Melanie Stefan, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, publicado na revista Nature em 2010.

“Faça seu próprio currículo de fracassos. Você verá que ele será seis vezes maior do que um currículo normal. Mas você vai se lembrar de verdades perdidas, a essência do que significa ser um cientista e pode ser que você inspire um colega para que ele esqueça a rejeição e comece de novo”, escreve ela no texto, pensando em uma forma de lidar com experiências de rejeição na vida acadêmica ou profissional.

Haushofer contou em entrevista ao jornal americano The Washington Post que seguiu o conselho de Stefan e registrou por escrito, em 2011, todas as vezes em que fracassou em sua carreira.

O objetivo era enviar o documento para um colega que estava passando por um momento ruim.

Mas, na semana passada, Haushofer decidiu tornar o documento público em sua conta no Twitter.

“Só espero que isto seja uma fonte de perspectiva (para outras pessoas) quando as coisas não estejam caminhando tão bem, especialmente para os estudantes e jovens pesquisadores”, afirmou o professor ao The Washington Post.

Um ano depois, Brasil passa no teste e sai da crise maior do que entrou

Para especialistas, avanço do País e de outros emergentes é uma das características do mundo pós-crise

Fernando Dantas –  O Estado de São Paulo

O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O?Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O?Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ?esse cara é bom?”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O?Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

Lugar de mulher é na Casa Branca

A jornalista Lúcia Guimarães e um texto delicioso sobre a eleição de Barack Obama e a consequente ascensão de Michelle Obama à Casa Branca. A jornalista inquieta-se com o desaparecimento, na mídia, da mulher advogada com diplomas de Harvard e Princenton, substituída por uma decorativa primeira dama. Será mais uma manifestação do machismo americano?

Michelle Obama – Foto Agência Estado

Lúcia Guimarães – O Estado de São Paulo

Sim, é claro, há muito ainda o que comemorar. Barack Obama será o senhor legítimo da residência construída com trabalho escravo. O mordomo negro da Casa Branca tornou-se uma celebridade, num novo momento extraordinário de seu longo serviço aos presidentes monocromáticos.

O simbolismo está em toda parte e não é abstração para satisfazer culpa liberal. Quando o deputado negro John Lewis, que quase morreu espancado durante um protesto pacífico em 1965, avisa “Não espero controlar as lágrimas no dia da posse”, sabemos que a história de um líder da luta pelos direitos civis como ele resiste a qualquer tentativa de trivialidade.

Mas, deixemos de lado a discussão sobre o controvertido modelito que Narciso Rodriguez criou para Michelle Obama, na noite da eleição. Em discussões com amigas articuladas, o vestido rubro-negro emergiu naturalmente e notei a paixão das opiniões.

Se voltamos atrás alguns meses, lembramos que essa eleição poderia ter colocado a primeira mulher na Presidência dos Estados Unidos. Não importa os sentimentos despertados por Hillary Clinton, será justo esperar que este movimento sísmico, sob o slogan “Mudança”, eleve também as mulheres?

Michelle Obama, que notoriamente não morria de amores pela senadora nova-iorquina, declarou diplomática: “Estou aprendendo muito com Hillary sobre a vida na Casa Branca, sobre como criar filhos sob o olhar atento da mídia.”

Beijinho, beijinho, tchau tchau.

Por que só se fala agora na Primeira Mãe e não na advogada com diplomas de Princeton e Harvard, que era uma profissional bem-sucedida quando foi convocada a treinar o estagiário paquerador Barack? Por que a decisão da Primeira Avó de se mudar para a Avenida Pennsylvania é manchete na CNN com direito ao comentário de um “analista” historiador?

Não basta termos sido contemplados quase diariamente, após a eleição, com a cena de Sarah Palin “surpreendida” em sua cozinha preparando alce diante de cada âncora de TV que se deslocou milhares de quilômetros para nos servir mais doses do seu besteirol?

Por que o telejornalismo mais liberal dá cambalhotas para reforçar a personalidade doméstica de Michelle Obama? A responsabilidade será da própria, por falar tanto de escolha de colégios, aulas de balé, prática de futebol e outras atividades que formam a hiperestimulada infância contemporânea? Assessores democratas repetem, “as duas meninas são a primeira preocupação de Michelle quando ela acorda e a última quando ela vai dormir”. Uau.

Levante a mão aí quem equilibrou maternidade e profissão sem direito a alternativa e não mereceu 30 segundos de horário nobre.

Há um subtexto nada sutil entre os jornalistas que dizem, Michelle Obama está mais mais Laura Bush do que Hillary Clinton. Hillary fez trapalhadas homéricas no começo do primeiro mandato do marido e alguns atribuem à sua desastrosa força tarefa para reformar o seguro saúde a vitória Republicana das tropas de Newt Gingrich, em 1994. Mas o subtexto é equivalente ao reflexo de um motorista que é vítima da barbeiragem de uma mulher ao volante e confirma seu preconceito.

Michelle Obama promete ficar no banco do passageiro e o país celebra sua domesticidade. Ela foi atacada pela franqueza sarcástica no começo da campanha e se suavizou. Sugeriu que vai lutar pelos direitos dos veteranos que voltam do Iraque e se suicidam duas vezes mais do que a população civil (e se isso atrapalhar o recital de piano da adorável Malia?)

Ainda que o gabinete Obama venha a refletir uma cartilha progressista, este súbito romance com a mulher, que faz pouco de seu enorme poder nos próximos quatro anos, é uma desnecessária brisa melancólica sobre o mar de expressões extasiadas que vamos testemunhar na manhã fria de 20 de janeiro de 2009.

Tive hoje o flashback de um momento que havia esquecido porque não coleciono troféus de vitimização. A luz fluorescente da sala no pavilhão pediátrico do Hospital Monte Sinai atrapalhava a visão da tela do laptop no meu colo. À minha volta, enfermeiras entediadas assistiam à TV, mães entravam e saíam em silêncio, o coração pesado era nossa linguagem comum. O ano era 1997 e escrevia minha primeira coluna para este jornal, interrompida várias vezes para conferir se o tubo de soro ligado à veia da minha filha estava em ordem. A coluna saiu – mal escrita -, minha filha saiu do hospital com saúde e sem diagnóstico.

A ordem de viver, como lembra o poeta, é seguida por milhões de mulheres anônimas , sem mistificação e sem voz ampliada numa coluna de jornal.

Michelle Obama, aqui vai uma sugestão. Você usa o seu acesso para melhorar a vida dos veteranos amputados, das mulheres sem seguro saúde, ou para qualquer trabalho à altura da sua inteligência e lhe damos o crédito merecido. Afinal, nem todas temos o privilégio de afetar a vida de milhões de pessoas com um cutucão no sujeito deitado ao lado.

Quando você assar biscoitinhos para a quermesse da quarta série, por favor, celebre o feito na privacidade de um dos 132 cômodos da sua próxima residência.