As resistências ao fascismo e ao racismo nos EUA e no Brasil

Quem já leu algo dos chamados “pais da política moderna” passou, inevitavelmente, por Thomas Hobbes e aprendeu que, para os chamados “contratualistas”, não há vida possível sem a existência do Estado.

Seria essa grande e poderosa instituição o ente que protegeria a integridade física de cada súdito e preservaria sua propriedade. Independentemente do regime político defendido pelos autores contratualistas – absolutismo, república popular ou monarquia constitucional – de Hobbes a Immanuel Kant, passando por John Locke e Jean-Jacques Rousseau, o Estado é tido como incontornável. Ele significa “segurança” que se traduz em “previsibilidade”: a confiança de que essa máquina feita de juízes, policiais, militares, carcereiros, procuradores, defensores, coletores de impostos, burocratas e diplomatas se responsabilizaria por manter a “ordem” entendida como “paz”.

Nos Estados Unidos, uma pessoa negra é morta brutalmente, e a população sai às ruas fazendo-as arder, apesar da polícia, apesar da Ku Klux Klan. No Brasil, o assassinato insuportável de pobres, negros ou brancos quase negros de tão pobres, se rotiniza. Quando gera protestos nas favelas, logo a polícia dissipa, o tráfico controla, a milícia gerencia e a esquerda faz posts indignados.

Sem o Estado, os seres humanos resvalariam para a “guerra de todos contra todos”, o “estado de natureza”, situação cruel para Hobbes e Kant, aceitável para Locke, idealizada por Rousseau. O Estado, de todo modo, “pacificaria” os conflitos pela incrível desigualdade na capacidade de exercer a violência: suas forças de segurança, dotadas dos mais poderosos arsenais, seriam capazes de conter, reprimir, intimidar ou eliminar quem ousasse romper as regras de obediência ao Estado, cometendo atos sociais definidos pelo próprio Estado como “crimes”.

Sabemos que o “contrato social” é uma alegoria, uma “história sem História”, uma reflexão retórica sobre um tempo passado supostamente “selvagem” e sem Estado, sucedido pela inauguração da civilização por um “pacto” livre entre os seres humanos. A arqueologia, a história e a antropologia mostraram à exaustão como esse modelo de organização política chamado “Estado moderno” é uma invenção que teve lugar na Europa Ocidental, entre os séculos XIV e XVI. Forjado a ferro e fogo, sobre o cadáver de povos inteiros, os Estados modernos produziram seus próprios discursos de legitimação com o objetivo de ocultar o que Nietzsche chamaria de seus “baixos começos”. Daí as narrativas sobre o direito divino e dinástico dos reis e as teorias do contrato social, baseadas na ideia de que o Estado existiria pela vontade de Deus, por um direito adquirido em tempos remotos ou por esse suposto “contrato” que ninguém fez.

Autores e autoras de diversas perspectivas teórico-metodológicas, como Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Eduardo Viveiros de Castro, Manuela Carneiro da Cunha, Judith Butler, Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo, Perry & Benedict Anderson, Florestan Fernandes, Franz Fanon, Clovis Moura, nos mostraram a produção histórica, violenta, inconclusa disso que chamamos “Estado”.Trabalho Escravo,Ministério do Trabalho,Brasil,Blog do Mesquita

Mostraram, também, como esse modelo de organização política que centraliza o poder físico da violência e que se mantém pela extorsão sistemática da riqueza social – exatamente como atua uma máfia, segundo o historiador Charles Tilly – expandiu-se junto com as caravelas, canhões, tráficos e pestes levadas pelos europeus aos demais continentes. A “ordem” imposta na Europa por incontáveis massacres, genocídios, caça a hereges, queima de bruxas e guerras entre príncipes foi transposta aos “novos mundos”. Nesses continentes, sociedades diversas, guerreiras ou não, hierarquizadas e escravizadoras de outros povos, ou reunidas em grupos nômades que impediam a formação de Estados foram, uma a uma, derrotadas, exterminadas, sujeitadas. Nada de “contrato livre” entre os povos. Nada de “direito dos povos”.

Na imensa extensão da América do Sul que coube aos portugueses, centenas de diferentes povos foram cooptados, assimilados, mortos, violentados, escravizados, cristianizados, sedentarizados ou obrigados a fugir, embrenhando-se em selvas hostis.

Converter e “civilizar” foi, à época, denominado como “pacificar” os “índios bravios”. Os que não deixaram sua “braveza” foram assassinados. Por vezes, povos inteiros, como os tupinambá. Sarampo, catapora, gripe e sífilis foram as armas de destruição em massa da época. Como em outras partes do “Novo Mundo”, as populações indígenas dizimadas foram logo substituídas pelo mais duradouro e rentável dos negócios que a cobiça humana produziu até hoje: a escravidão africana.

Trazidos(as) aos milhões, entre os séculos XVI e XIX, os(as) escravizados(as) foram corpos objetificados que moveram a economia da colônia portuguesa e, depois, do Império do Brasil. Vemos, então, a commoditização humana como ponto central de organização econômica e política do país já em seus primórdios. Incontáveis foram os que não se submeteram, lutando, fugindo, queimando engenhos, sincretizando suas práticas religiosas, “dançando” a luta da capoeira, formando quilombos.

Milícias de bandeirantes, guardas nacionais, exército e polícias não deixaram de perseguir, conter e assassinar negros e negras, mesmo com as mudanças formais que, negociadas sempre entre as elites, marcaram as “transições” de regime no Brasil. Por isso, falar em “inimigo interno”, em “necropolítica” ou em “securitização” no caso brasileiro exige muitos cuidados históricos e analíticos. No Brasil, o “outro”, o “avesso” de uma pretensa civilização, o “perigo”, sempre teve pele escura e procedência social nos extratos mais pobres e explorados.

O verbo “pacificar”, comum aos jesuítas e militares, atravessou a história do país, incluindo a cristianização de povos indígenas, a ofensiva sobre quilombos, a contenção das sublevações regionais durante o Segundo Reinado, o enfrentamento dos subversivos imigrantes anarquistas e comunistas, já na chamada Primeira República.

A expressão reemergiu em 2008, no Rio de Janeiro, com o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, saudado à época por especialistas em segurança pública da esquerda à direita como o plano que finalmente uniria o “morro” ao “asfalto”, ou seja, a cidade dita “informal”, a favela – lugar do perigo, do narcotraficante, do ladrão, do assaltante e do sequestrador – à cidade “formal”. Novamente, ficou explícita a luta entre o “civilizado” e o “selvagem” a ser equacionada pela “pacificação” ou, em outras palavras, pela imposição física e simbólica de uma parcela minoritária da sociedade sobre a majoritária.

Entre 2010 e 2015, com a presença das Forças Armadas apoiando o processo das UPPs, o Exército criou sua Força de Pacificação para os Complexos do Alemão, da Penha e da Maré. Os ecos de Duque de Caxias, patrono dessa força e cujo nome batiza sua principal medalha (a “Ordem do Pacificador”), foram ouvidos em missões de invasão e ocupação de favelas utilizando blindados de transporte da Marinha, soldados do Batalhão de Operações Especiais da PM fluminense, tropas de infantaria do Exército, PMs treinados para serem “policiais pacificadores”, o que significava pouco mais que uma carga mínima de “direitos humanos” no currículo da Academia.

Tudo “deu certo” enquanto precisava: vieram a Copa das Confederações (2013), a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016). O turismo fluiu, os ganhos legais e ilegais prosperaram e os megaeventos foram um sucesso. Depois, tudo começou a “dar errado”. O estado do Rio de Janeiro faliu, os empresários do novo (agora antigo) “Brasil Potência” faliram e, assim, mais uma “ideia infalível” para resolver o “problema” de segurança pública no Rio falhou. Em julho de 2017, houve novo envio de tropas militares ao estado. Em 2018, veio a intervenção federal na secretaria de segurança pública. Mesmo que oficialmente “desmobilizada” desde 2019, ainda se via militares circulando em caminhões de transporte de tropas no começo da pandemia de Covid-19, em março de 2020.

Com a pandemia, vieram as recomendações da OMS e de especialistas avalizados para o isolamento social e o “lockdown”. Tais indicações colocaram em lados opostos governadores e prefeitos e o governo federal, que se fia nas reflexões de um autoproclamado “filósofo” reacionário, no apoio dos políticos e empresários oportunistas de sempre, na devoção de sinceros crentes na missão redentora do Messias e na intimidação de milicianos. A classe média, então, passou a bater panela, muitos assumindo o arrependimento do voto nas eleições presidenciais de 2018, outros desconversando sobre o tema. Nesse estranho país chamado Brasil, políticos de direita se converteram em “defensores da democracia” diante de um presidente autoritário, com arroubos megalômanos e flagrante inépcia para a função que ocupa.

A Covid-19 se espalha rapidamente pelo país, matando de milhares de brasileiros. Nas favelas, o tal do “isolamento social” é uma quimera. Quem pode se isola, mas a maioria não pode (pois sai para trabalhar), ou simplesmente não consegue, nos espaços limitados e com alta concentração populacional. Nesse contexto, a polícia carioca seguiu entrando nas favelas e matando. Assim, o jovem João Pedro foi morto com tiros nas costas quando PMs invadiram sua casa numa favela de São Gonçalo. Seu assassinato gerou nova onda de indignação, muitos posts de Instagram e threads de Twitter (ao lado dos que lembravam que com mais de dois anos passados, ainda não sabemos quem mandou matar Marielle Franco).

Dias depois do assassinato de João Pedro, um policial branco de Minneapolis deu voz de prisão, algemou, jogou ao chão e sufocou até a morte o cidadão norte-americano George Floyd. O vídeo, no qual Floyd repete “I can’t breathe”, viralizou. A esquina em que foi morto se tornou centro de protestos. Casas, veículos e carros da polícia foram incendiados e saqueados. A violência da polícia provocou uma reação de negros e negras, mas também de latinos e brancos (a maioria mulheres). Uma comoção se espalhou pelos Estados Unidos, com protestos em massa, saques, depredações e repressão policial por todo o país. As cenas lembraram a sublevação de Baltimore, em 2015, quando o jovem Freddy Gray não resistiu ao espancamento que sofreu de policiais brancos.

Lembraram, também, das manifestações e depredações em Los Angeles, em 1992, quando o tribunal do júri absolveu três policiais (dois brancos e um latino) que haviam agredido brutalmente Rodney King. O presidente republicano da época, George H. W. Bush, enviou a Guarda Nacional para “pacificar” Los Angeles. O atual presidente republicano, Donald Trump, acuado no bunker da Casa Branca, ameaçou enviar a mesma Guarda Nacional e o Exército a Minneapolis ou para onde a “law & order”, segundo um dos seus tuítes, estivesse sob ameaça. O mesmo presidente prometeu classificar os “antifas” como grupo terrorista (ideia imediatamente copiada pelo mímico Bolsonaro diante das manifestações em massa de domingo 31 de maio de 2020), ignorando, ridiculamente, que ser “anti-fascista” é uma atitude ética e política e não um grupo, com sede social e caixa postal

Floyd, Gray, King e João Pedro eram negros.

Muitos se questionam e são provocativos sobre não haver reação similar no Brasil, principalmente após a morte de Marielle Franco ou de João Pedro, ou das centenas de mulheres e homens negros que são mortos diariamente. Tão complexo quanto o racismo, assim o é a reflexão a respeito dele. O racismo, a despeito de ser uma estrutura que organiza tanto a sociedade brasileira quanto a norte-americana, se manifesta em adaptação às realidades e fenômenos de cada sociedade, tendo características e especificidades que também produzirão respostas e resistências próprias a cada contexto. O que não significa que não existam reações, mas que cada uma se adequará aos processos históricos e políticos de cada localidade em que o racismo se estrutura e se expressa. E isso nos faz pensar que fenômeno sócio-político e cultural é poderoso o suficiente para sufocar aquilo que Gilberto Gil, cantando sobre Zumbi dos Palmares e Ganga Zumba, chamou de “felicidade guerreira” do negro. A pergunta é difícil de formular, e a resposta – se é que há alguma – deve ser ainda mais complicada.

Um esforço nesse sentido, nos faz lançar algumas pistas para provocar uma reflexão. A palavra-chave parece ser “pacificação”. A rebeldia no brasileiro, especialmente na maioria negra, foi “pacificada” por uma intrincada combinação entre violência física e simbólica. E esse ponto é muito importante. Ao falarmos de “pacificação”, não usamos o conceito entre aspas por acaso. Primeiro, porque não se trata de modo algum em algo que possa ser confundido com “passividade”. Esse processo de “pacificação” é um projeto ativo e consistente que envolve dimensões da violência fundamentais para o seu pleno exercício. E essa violência não é recebida passivamente, mas em luta constante, em confrontos intensos, em reinvenções de ação e reação, contendo práticas de imposição e de revolta, de ofensivas e defensivas. Como dizia Foucault, não se disciplina e governa apenas “sujeitando” pela força, mas também “subjetificando”, ou seja, produzindo sujeitos dotados de determinados valores e condutas. E, assim como Foucault, a antropóloga Avtar Brah e a historiadora Beatriz Nascimento pensaram a ambivalência dos corpos como territórios de frequentes lutas, de inscrições e reinvenções.

A “pacificação” brasileira foi e é um processo que atravessa nossa história. Durante os séculos de escravidão negra surgiram resistências com diversas práticas, fossem levantes, suicídios, abortos ou a organização de fugas e quilombos. No caso destes últimos, temos o de Palmares, um aglomerado de quilombos que resistiu por quase cem anos e que foi destruído sob a coordenação de uma grande incursão miliciana bandeirante. Outros quilombos passaram por processo de assimilação às dinâmicas econômicas locais. Esse processo ambivalente caracterizou todo o período de escravização.

Se por um lado, o teor autoritário da contenção às resistências e às alteridades não é uma novidade no país, as revoltas e rebeliões também não. Alguns exemplos são a Conjuração Baiana (1798), de caráter emancipatório, a Balaiada (1834), considerada uma das maiores insurreições do Brasil império, por cidadania e acesso à terra; a Revolta dos Malês (1835), clamando por liberdade para os negros escravos; e, já no século XX, a Revolta da Chibata (1910), contra as violências raciais no interior das Forças Armadas. Todas essas, e outras revoltas, sempre foram violentamente reprimidas, com o elemento “pacificador” da punição exemplar.

Nas cidades do Brasil imperial, a maioria negra era vigiada sem trégua. No Rio de Janeiro, em 1830, aprovou-se a primeira lei anti-maconha do mundo moderno precisamente porque seu uso era prática associada a negros forros ou a “negros de ganho” (escravizados que passavam o dia na rua vendendo coisas para seus senhores e, no espaço público, interagiam com outros escravizados ou libertos). Com o fim da escravidão e a intensificação do êxodo rural para os novos polos industriais, como Rio e São Paulo, as populações negras foram sendo aglomeradas em cortiços e favelas. O perigo dos negros vivendo em áreas próximas às classes altas e à incipiente classe média levou a expulsões, destruição de cortiços, processos de reurbanização justificados em nome da modernização, da higienização e da civilização. Novamente, “civilização” e presença do Estado significavam “ordem” e “paz”, mas “contrato social”, ninguém sabe, ninguém viu.

As políticas de controle e marginalização se remodelaram com frequência, combinando legislações criminalizadoras de um lado e incentivos à imigração de europeus brancos de outro com o intuito de “embranquecer” o país. Diante da impossibilidade prática desse segundo objetivo, as elites brasileiras da primeira metade do século XX combinaram duas táticas: primeiro, continuar governando os pobres e negros sob as patas dos cavalos; segundo, produzir um “mito de fundação” da “brasilidade” que teve sua expressão maior na obra do antropólogo Gilberto Freyre, filho da oligarquia pernambucana e educado nos Estados Unidos junto aos expoentes da antropologia racista da época.

Freyre deu corpo e conceito a uma “ideia de Brasil” malemolente, amável, cálido, tolerante e pacífico. Seus textos defenderam o princípio de uma miscigenação que, mesmo com elementos de violência, teria consumado um amálgama único e harmônico entre indígenas, negros e brancos. Assim, num Brasil de tantos contrastes inegáveis, haveria uma “democracia racial”. O que vemos, portanto, é uma mudança de tática, agregando elementos sutis de subjetivação, sem que a estratégia fosse alterada. A ditadura de Getúlio Vargas e, logo depois a ditadura de António de Oliveira Salazar, em Portugal, não deixariam de ver o potencial da tese da “democracia” de Freyre, já que a violência da colonização poderia ser reescrita como se fosse uma congregação das raças e, as desigualdades sociais, econômicas e políticas, naturalizadas num ambiente pacificado.

Sendo assim, construiu-se a “identidade nacional” pela via de controle e extermínio e pela de assimilação, aculturação e dissolução das raízes etnicamente múltiplas, notadamente as africanas e indígenas. A mestiçagem passou a ser um processo visto como positivo para o “aprimoramento” de uma “raça brasileira”, pois, aproveitando uma ideia vinda de tempos coloniais, miscigenar “embranquecia” o negro, e não o contrário. É sobre esse processo que, no final dos anos 1970, o intelectual Abdias Nascimento se insurge e se posiciona denominando como “genocídio do negro brasileiro”.

Vargas investiu pesado na formação do “Brasil”: a Rádio Nacional levou aos rincões do país os primeiros ídolos nacionais (os cantores e as cantoras), o samba carioca (recondicionado a partir do samba de roda do Recôncavo baiano) foi eleito a “música nacional”, o futebol consagrou-se como o “esporte nacional”, o cinema da época exaltou a colonização portuguesa e a brandura do povo brasileiro, e a “Voz do Brasil” tornou-se o noticiário diário oficial, tendo como vinheta de abertura os compassos iniciais da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes.

De modo análogo, certa literatura regionalista, a partir dos anos 1940, e as telenovelas, a partir dos anos 1960, fariam o mesmo: mostrar um país irmanado na sua diversidade. A consagração da seleção de 1970, na Copa do México, selou o laço da “democracia racial”, com um super-herói negro (Pelé), circundado de semideuses da bola brancos e mulatos. Enquanto isso, nos porões da ditadura e nas favelas e periferias, a violência e a tortura faziam a sua parte. Todo esse processo também desencadeou diversificadas práticas de combate às resistências. Para a assimilação das escolas de samba, por exemplo, foi decretado ainda na Era Vargas que elas só poderiam realizar seus desfiles se autorizadas com alvarás expedidos em delegacias; muitas sofrendo processos de interferência direta para mudança de nomes etc. Além disso, é na ditadura Vargas que, com o decreto que pôs fim aos partidos políticos, a Frente Negra Brasileira caiu na ilegalidade (1937).Trabalho Escravo,Brasil,Justiça,Bolsonaro

Também na Era Vargas, as religiões africano-brasileiras deixaram de ser criminalizadas, a partir da celebração de um acordo de isenção política. Apesar dos acordos e ajustes, a violência e repressão nunca cessaram, alimentando um forte processo de criminalização das populações negras e empobrecidas, que apenas aumentou com a regime civil-militar (1964-1985). Nas ambiguidades do binômino repressão-assimilação, a capoeira tornou-se esporte for export. O “baiano” e o “paraíba” viraram personagens simpáticos, cômicos e exóticos em programas humorísticos e telenovelas e, ao mesmo tempo, xingamento racista e xenófobo no “Sul Maravilha”.

Além disso, a pacificação das espiritualidades que a Igreja Católica não conseguiu arrematar, com sua permissividade sincrética, tornou-se batalha assumida, a partir dos anos 1960, pelas igrejas evangélicas, com a chegada de seus primeiros missionários estadunidenses, canadenses e nórdicos. Diferentemente das igrejas protestantes mais antigas e já estabelecidas no Brasil, como a batista e a anglicana, as novas denominações contaram com o beneplácito do regime autoritário e a tolerância dos católicos mais reacionários para conquistar territórios, corações e mentes e, com isso, minar a teologia da libertação, o catolicismo de esquerda e as comunidades eclesiásticas de base. Os neopentencostais ofereceram mais do que conforto espiritual: formaram redes de apoio material, constituíram-se em pontos de apoio para uma nova sociabilidade voltada aos migrantes do interior e do Nordeste que chegavam às metrópoles do Sudeste, e introduziram dois novos processos de subjetivação: a teologia da prosperidade e a teologia da dominação.

A primeira é uma versão popularizada da permissão calvinista para enriquecer sem temer o pecado; e a segunda é voltada à ocupação de lugares no espaço público – meios de comunicação, sindicatos, partidos políticos, postos eletivos, burocracia – a fim de combater o “demônio” na política, ou seja, todos os costumes que emergiram de práticas progressistas disseminadas por movimentos de esquerda desde o século XIX e amplificadas pela contracultura dos anos 1960: liberdade sexual, controle de natalidade, negação da lógica capitalista etc.

Não demorou para que os primeiros pastores e bispos (e pastoras e bispas) brasileiros fossem formados pelos estrangeiros. Um intenso intercâmbio começou a acontecer, entre os anos 1970 e 1980, ligando universidades e cursos teológicos neopentecostais nos Estados Unidos e Canadá a análogos no Brasil, incluindo associações de “empresários cristãos”, “políticos cristãos”, “atletas de Cristo”. Aquilo que nos Estados Unidos era chamado de “evangelismo televisivo” logo ganhou versões brasileiras. Grandes e pequenas denominações foram proliferando, ocupando espaços antes esquadrinhados pela Igreja Católica. As religiões de tradição africana começaram a ser combatidas com violência. Os antigos “crentes” se empoderaram, formaram conglomerados empresariais, compraram redes de TV, tornaram-se “multinacionais da fé” e formaram bancadas nas assembleias estaduais e federais. Com a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, chegaram ao Poder Executivo.

Enquanto cresciam as igrejas neopentencostais, nos anos 1980, os morros cariocas e as periferias paulistanas passaram a ser palco de uma nova tensão provocada pela chegada do tráfico de drogas como grande negócio transterritorial. Naquela década, o Brasil era uma rota fundamental para o trânsito de cocaína dos Andes para a Europa e, além disso, um mercado promissor para o consumo de cocaína, solventes e maconha. Das prisões abarrotadas surgiram os grupos de autodefesa de presos que logo controlariam o governo das próprias prisões e de territórios em favelas e periferias. Do seminal Comando Vermelho, formado no presídio da Ilha Grande em 1979, ao Primeiro Comando da Capital, nascido em 1992 no presídio de Venceslau Brás, no interior de São Paulo, a combinação entre proibição das drogas, repressão policial e a continuação constante da criminalização das populações pobres e negras fez o narcotráfico florescer e se desdobrar em outros rentáveis ilegalismos aproximando agentes do Estado de soldados do tráfico.

A produção desse novo crime, o narcotráfico, tem uma história que remonta às primeiras ondas de proibição das drogas no início do século XX, mas tomou forma de “ameaça” à “ordem” nos discursos governamentais e na grande imprensa a partir dos anos 1980. Após trinta anos da versão brasileira da “guerra às drogas”, seguindo dados conservadores fornecidos pelo Ministério da Justiça, cerca de 20% dos homens presos e 51% das mulheres, se encontram confinados(as) por condenações ou processos em curso relacionados ao tráfico de drogas. Deles, cerca de 60% são “pretos” ou “pardos”, constituindo a categoria “negro”, segundo o IBGE. Conforme dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen)/Infopen de 2017, 63,6% da população carcerária brasileira é composta por pretos/pardos, enquanto representam apenas 55,4% do total. Com a terceira maior população prisional do mundo (com 748.009 pessoas presas segundo dados do Depen de abril de 2020), o Brasil prende majoritariamente pobres, jovens, negros e negras e de baixa escolaridade.

Então, como pacificam a rebeldia e as resistências no Brasil? A resposta passa, pelo menos, pela mescla entre uma produção de subjetividades baseada na ideia da concórdia e da “alegria”, da conformidade com a miséria calcada na crença da ajuda de Deus, da difusão/educação cotidiana pela grande imprensa e pelas obras de ficção na TV que ainda sustentam a ideia da “democracia racial”, da ocultação diária das violências do patriarcalismo (crimes de ódio homofóbico e de gênero), na missão “evangelizadora” das igrejas neopentecostais, na violência brutal da polícia e na convocação de jovens pobres para o narcotráfico. Trata-se da combinação entre produção de mentalidades docilizadas e de violência para conter os indóceis.

Diante disso, a esquerda de corte mais tradicional e procedência sindical se ajustou ao jogo político-institucional, sendo muito cuidadosa de modo a não romper com suas posições conquistadas no sistema político nacional. A esquerda partidária, quase sempre desunida, branca e de classe média, promove, hoje, manifestos escritos, notas de repúdio, “rodas de conversa”, threads de tweets e denúncias para a comunidade acadêmica e de direitos humanos estrangeiros. Enquanto isso, o bolsonarismo mais radical se arma, defende o armamento da população, ocupa as mídias sociais com chamamentos à agressão, ao assassinato de “comunistas” e à destruição das instituições da democracia formal. A ultradireita tem sido muito mais eficiente na luta pelas mídias sociais e, quando vão às ruas, mesmo sendo poucos, magnificam suas marchas reacionárias parecendo ser muitos mais.

Uma questão relevante para ser ressaltada. Durante esse processo de organização político-institucional e partidário, ativistas e movimentos negros não deixaram de se insurgir no país nem de buscar diálogos com essas organizações. Seja na busca da construção de um partido próprio, como a Frente Negra Brasileira, seja na atuação conjunta aos sindicatos e comunistas, como no Partido Comunista Brasileiro (PCB), com atuação do importante líder revolucionário Carlos Marighella; e, também, no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), com a atuação revolucionária e guerrilheira de Helenira Resende; ambos assassinados pela regime civil-militar. Na reorganização das esquerdas e movimentos populares por democratização, os ativismos negros também se organizaram e atuaram no país, seja com o fortalecimento de uma intelectualidade negra que passou a questionar o negro fosse como “problema”, fosse como “objeto” de estudo, seja com o surgimento do Movimento Negro Unificado (1978) e a participação ativa desses militantes na refundação e fundação de partidos progressistas e de esquerda.

A principal questão a se pontuar é a de que, por essa trajetória classista, desde aquele período há forte embate com esses ativismos e militâncias sobre como a construção política de raça e o racismo são estruturadores da sociedade brasileira. E esse é um debate que se realiza, e se acirra, ainda hoje. Apesar dessa falta de construção de um programa e ação política unificada das esquerdas, diversos ativismos negros heterogêneos se insurgem pelo país. Mais uma vez, a falta de perspectiva da violência racial como eixo de construção da sociedade brasileira e como elemento de “pacificação” tem sido elemento de cisão e não de uma construção orgânica, aliando a potencialidade dessas organizações e desses ativismos em um embate importante nos territórios em que a direita tem nadado de braçada.

A extrema direita pode ser minoritária (cerca de 20%, como indica a média das análises de politólogos), mas usam da intimidação e da força para agredir jornalistas, coagir professores, perseguir intelectuais. E o que recebem de volta? Reclamações, denúncias indignadas, pessoas demolidas em sua saúde mental. Dentre essas pessoas alinhadas ao campo progressista, há muitos intelectuais (principalmente cientistas políticos) que continuam defendendo visões de cunho weberiano ou habermasiano que veem a esfera política como espaço de debate, enfrentamentos regrados e formulação de consensos. Negam-se a ver que a política, como afirmou Michel Foucault, é a “guerra continuada por outros meios”, um conflito permanente entre posições políticas, projetos ideológicos, visões de mundo. Não se furtam a acusar Carl Schmitt de jurista do nazismo (o que de fato foi), para descartar sua análise da política como o espaço da relação conflituosa amigo-inimigo.

Evitam, assim, um olhar agonístico para o político, ou seja, a compreensão do conjunto das relações de poder com um campo multifacetado de enfrentamentos, nem todos violentos, entre opiniões, projetos sociais, profissões de fé, produções de verdades. Foucault nos lembrou que na Grécia Clássica, o conceito de “ágon” significava, precisamente, esse embate que é próprio da existência humana: o choque com a alteridade e consigo próprio. Esse confronto era visto pelos filósofos pré-socráticos, como Heráclito de Éfeso, como a força motriz da existência de cada um e como amálgama da vida social. Milênios depois, foi o anarquista Pierre-Joseph Proudhon que retomou, num livro repudiado por anarquistas, comunistas, liberais e conservadores (“A guerra e a paz”, de 1861), o conceito do “combate” como pai/mãe de toda inventividade e instituições humanas. Esse “combate” não se confundia, entretanto, com o também grego conceito de “pòlemos”, a guerra entre Estados, a violência exercida em nome do príncipe, das elites, do território e da propriedade estatal e privada.

O medo da “guerra civil” que assombrava Hobbes continua rondando especialistas e não especialistas no século XXI. Para eles/elas, sublevar-se é a senha para o caos, para a desordem, para a “anarquia”, para a volta a algo que nunca houve: o “estado de natureza”. As energias rebeldes são, portanto, educadas formalmente para acreditar que “ausência de Estado” equivale a “desordem” e “morte violenta”; ou, simplesmente, as subjetividades mais inconformistas são aplastadas desde a mais tenra idade pelo “pátrio poder” em casa, pelos professores na escola, pela educação nas mídias eletrônicas ou pela repressão policial ou militar.

E, agora, pelo bolsonarismo fascista que se arma (física e eletronicamente). Eles e elas estão sem medo, porque quando rosnam a maioria se encolhe, no máximo batendo panelas e tuitando. Se bolsonaristas têm redes bem articuladas nas mídias sociais para fazer ataques a sites ou a contas progressistas, é preciso contra-atacar e derrubar os sites deles, contaminar as threads deles, expô-los ao ridículo e ao juízo público. A política é confronto. Os fascistas sabem disso. Mas Marx e Engels também sabiam, Proudhon, Bakunin, Emma Goldman, Rosa Luxemburgo e Gramsci sabiam. Encolher-se significa deixar que o pequeno pitbull cresça e se transforme num grotesco Cérbero.Ilustração dePawel Kuczynski

Nos Estados Unidos, uma pessoa negra é morta brutalmente, e a população sai às ruas fazendo-as arder, apesar da polícia, apesar da Ku Klux Klan. No Brasil, o assassinato insuportável de pobres, negros ou brancos quase negros de tão pobres, se rotiniza. Quando gera protestos nas favelas, logo a polícia dissipa, o tráfico controla, a milícia gerencia e a esquerda faz posts indignados. O Brasil de hoje tem que enfrentar a abertura desbragada de todo o chorume de séculos de patriarcalismo, misoginia e racismo. O lado positivo desse pesadelo é o fim do “sonho” da “democracia racial”. Então, não é hora de se esconder atrás de discursos progressistas, memes engajados, ou surtos indignados no recôndito do lar, pensando no absurdo em que se tornou o país. Os processos históricos de expressão e execução do racismo nos Estados Unidos e no Brasil podem ter suas características próprias e específicas, mas também têm seus encontros. Mas o mais importante é que a potencialidade da indignação pode, e deve, se realizar, e torna-se algo concreto.

É preciso sair e mostrar para os bolsominions que eles não são maioria e que eles não passarão. Há poucas semanas, parte da torcida Gaviões da Fiel impediu uma manifestação fascista na Avenida Paulista. Dias depois, um grupo de não mais de trinta antifas em Porto Alegre bloqueou uma carreata pró-Bolsonaro e a fez, literalmente, dar marcha-a-ré. No domingo 31 de maio, torcidas organizadas, punks e outras forças geralmente antagonistas, uniram-se numa frente antifa. Bastou com que aparecessem para que os “bombados” bolsonaristas reagissem de forma histriônica e se borrassem de medo. Fascistas são bullies que andam em grupo. Como todo bully, o fascista vive da conivência de vários, da conveniência de alguns e do medo de muitos.

A ideia de “conversar com fascistas” é, na melhor das hipóteses ingênua, para não dizer tola. Trata-se de um equívoco ontológico, já que o que caracteriza o fascista é o ódio, e o desejo de exterminar quem pensa, vive, ama, reza de forma diferente da dele. O fascismo surgiu como fenômeno histórico na Itália, entre os anos 1920 e 1940. O partido organizado por Benito Mussolini tomou a simbologia romana dos muitos feixes (fasci) unidos como metáfora para a ideia de que a “união faz a força”. Essa união diluiria as individualidades em nome da pátria, de Deus, da família e dos valores patriarcalistas, militaristas e conservadores. Naquela época, versões nacionais do fascismo apareceram em diversos países, como o chauvinismo (França), o jingoísmo (Reino Unido), o falangismo (Espanha), o salazarismo (Portugal), o integralismo (Brasil) e o nazismo (Alemanha).

Após a derrota militar de 1945, as expressões “fascista” e “fascismo” continuaram a denominar a crença radical, virulenta, fanática numa verdade absoluta conservadora associada à pulsão de morte a tudo, todos e todas que não se perfilem às suas falanges. Por isso que entendemos que o fascismo, no Brasil, é um fenômeno que caminha pari passu, confluente ao racismo, machismo, homofobia e à naturalização da exploração e da eliminação dos mais pobres. Hoje, combinada com uma versão olavista de “patriotismo”, que prega a subserviência total aos Estados Unidos, e de radicalidade moralista de importantes denominações neopentencostais, o bolsonarismo se produz como versão atualizada do fascismo entre nós.Chaplin,Ditador,Estado,Fascismo,Nazismo,Blog do Mesquita

O fascismo não conversa. Ele ataca. Quando compõe com outras forças conservadoras, é sempre de modo oportunista, traiçoeiro e temporário, apenas esperando para ocupar todos os espaços possíveis. A direita brasileira e alguns setores das classes médias, que votaram em Bolsonaro, já perceberam isso. É possível e desejável que as forças democráticas no Brasil sigam no esforço de produzir uma frente ampla, constituída sob princípios que não titubeiem na luta contra atitudes, práticas e ideologias fasci-racistas, para barrar e desmobilizar o bolsonarismo. Isso, no entanto, não implica em conversar ou contemporizar com os fascistas. É hora de fazer aqueles que odeiam voltarem a ter medo e vergonha de pensar o que pensam, de fazer o que fazem. A linguagem deles é a força. A nossa também deve ser. É preciso abandonar as lentes contratualistas e experimentar olhar para o mundo de forma agonista.

Nas ruas de Minneapollis, manifestantes gritam “No Justice! No Peace!”. Pessoas iluminadas pelos edifícios em chamas. Uma das principais táticas construídas pelos manifestantes tem sido a de formar cordões humanos de pessoas brancas entre os policiais e pessoas negras, advogados de prontidão para a defesa e uma série de instruções de ação para proteção, com foco nas pessoas negras, sejam as lideranças das manifestações, sejam partícipes que podem ficar em perigo. Em vez de insistirmos em disputas nas redes sociais sobre o que seria de interesse nacional, em vez de uma competição por um protagonismo progressista, por que não aprender com essas práticas? Por que não exercitar o antirracismo apregoado e compartilhado em hashtags.

Por que a prática antirracista não está sendo construída como o novo normal? É importante se inspirar, mas o mais importante é compreendermos nossa realidade, como a desigualdade que se presentifica em nosso país, para construirmos uma estratégia que compreenda que só venceremos a guerra com um acúmulo de vitoriosas batalhas. Não será fácil, não se resolverá apenas por meio da política institucional e de eleições. Mais do que uma pessoa, estamos diante de um movimento autoritário que se organiza a passos largos no país. Se compreendemos que somos uma maioria, precisamos ser os que realizam o trabalho de não permitir o silêncio no galpão e incentivar que se rompam os portões. Trata-se de encarar o fogo da existência que nunca se extingue, como dizia Heráclito, e gritar na cara deles: Não Passarão!

Thiago Rodrigues é professor do Instituto de Estudos Estratégicos/UFF e coordenador do grupo de pesquisa “Segurança e Defesa nas Américas (SeDe/UFF/CNPq). Autor, entre outros, de Política e drogas nas Américas, uma genealogia do narcotráfico, Editora Desatino, 2017.

Juliana Borges é escritora e pesquisadora de Política Criminal, membra da Articulação Interamericana de Mulheres Negras na Justiça Criminal e consultora do Núcleo de Enfrentamento, Monitoramento e Memória de Combate à Violência da OAB. É autora de Encarceramento em Massa, Pólen Livros, 2019.

Racismo nos USA; Os basileiros passamos longe do que seja protestar contra o racismo

Morte de Morte de George Floyd: confrontos com protestos espalhados pelos EUA: confrontos com protestos espalhados pelos EUA

Manifestantes entraram em conflito com a polícia em cidades dos EUA devido ao assassinato de um afro-americano desarmado pelas mãos de policiais em Minneapolis.

O governador de Minnesota disse que a tragédia da morte de George Floyd sob custódia policial se transformou em “algo muito diferente – destruição arbitrária”.

Nova York, Atlanta, Portland e outras cidades sofreram violência, enquanto a Casa Branca foi brevemente fechada.

Um ex-policial de Minneapolis foi acusado de assassinato pela morte.

Derek Chauvin, que é branco, foi mostrado em filmagens ajoelhadas no pescoço de 46 anos, na segunda-feira. Ele e três outros oficiais foram demitidos desde então.

Chauvin, 44, deve comparecer ao tribunal em Minneapolis pela primeira vez segunda-feira.

O presidente Donald Trump descreveu o incidente como “uma coisa terrível, terrível” e disse que havia conversado com a família de Floyd, a quem ele descreveu como “pessoas maravilhosas”.

O caso Floyd reacendeu a ira dos EUA por assassinatos cometidos por negros americanos pela polícia e reabriu feridas profundas devido à desigualdade racial em todo o país. Ele segue as mortes de Michael Brown, Eric Garner e outros, que ocorreram desde que o movimento Black Lives Matter foi desencadeado pela absolvição do vigia do bairro George Zimmerman na morte de Trayvon Martin em 2012.

O que há de mais recente sobre os protestos?

Minnesota continua sendo a região mais volátil, com toques de recolher encomendados para as cidades gêmeas de Minneapolis-Saint Paul das 20:00 às 06:00 na sexta e sábado à noite.

Os manifestantes desafiaram o toque de recolher na sexta-feira. Incêndios, muitos causados ​​por carros em chamas, eram visíveis em várias áreas, com bombeiros incapazes de alcançar alguns locais.

Imagens de televisão também mostraram saques em Minneapolis, com policiais no chão.

Promotor detalha acusações de assassinato e homicídio culposo.

Somente por volta da meia-noite (05:00 GMT) a polícia e as tropas da Guarda Nacional chegaram em qualquer número, informou o Star Tribune.

O governador do estado, Tim Walz, em uma coletiva de imprensa pela manhã, descreveu a situação como “caótica, perigosa e sem precedentes”.

Ele disse que assumiu a responsabilidade de “subestimar a destruição arbitrária e o tamanho da multidão” quando questionado sobre a falta de policiais nas ruas.

Ele disse que o destacamento da Guarda foi o maior da história do estado, mas admitiu que “há simplesmente mais deles do que nós”. Ele disse que os que estão nas ruas “não se importam” com a ordem de ficar em casa.

O Pentágono colocou os militares em alerta para possível deslocamento em Minneapolis.

Na noite de sexta-feira, multidões se reuniram perto da Casa Branca em Washington, acenando fotografias do Sr. Floyd e cantando “Não consigo respirar” – invocando suas últimas palavras e as de Eric Garner, um negro que morreu após ser mantido em um estrangulamento da polícia em Nova York em 2014.

A Casa Branca foi então temporariamente cercada, com o Serviço Secreto dos EUA fechando entradas e saídas.

Em Atlanta, foi declarado estado de emergência em algumas áreas para proteger pessoas e propriedades. Os prédios foram vandalizados e um veículo da polícia foi incendiado quando manifestantes se reuniram perto dos escritórios da emissora CNN.

O prefeito Keisha Lance Bottoms emitiu um apelo apaixonado, dizendo: “Isso não é um protesto. Isso não está no espírito de Martin Luther King Jr. Você está desonrando nossa cidade. Você está desonrando a vida de George Floyd”.Um carro da polícia queima enquanto manifestantes se reúnem perto dos escritórios da CNN em Atlanta, Geórgia – Reuters.

No distrito de Brooklyn, em Nova York, os manifestantes entraram em conflito com a polícia, jogando projéteis, iniciando incêndios e destruindo veículos policiais. Vários policiais ficaram feridos e muitas prisões foram feitas.

O prefeito Bill de Blasio twittou: “Nós nunca queremos ver outra noite como esta”.

O prefeito de Portland, Oregon, declarou estado de emergência em meio a saques, incêndios e um ataque a uma delegacia de polícia. Um toque de recolher imediato até às 06:00 hora local (13:00 GMT) foi imposto e será reiniciado às 20:00.Manifestantes usam leite para tratar a picada de gás lacrimogêneo na cidade de Nova York – Direito de imagem LAURA FUCHS

Em Detroit, a polícia está investigando depois que um homem de 19 anos foi morto quando um veículo estacionado contra manifestantes e tiros foram disparados contra a multidão.

Em Dallas, os policiais lançaram cartuchos de gás lacrimogêneo depois que foram atingidos por pedras, com gás lacrimogêneo também disparado em Phoenix, Indianápolis e Denver.

Os manifestantes bloquearam estradas em Los Angeles e também em Oakland, onde janelas foram quebradas e pichações “Kill Cops” foram pulverizadas.

Quais são os movimentos legais até agora?

Chauvin foi acusado de assassinato em terceiro grau e homicídio em segundo grau por seu papel na morte de Floyd.

A família de Floyd e seu advogado, Benjamin Crump, disseram que isso era “bem-vindo, mas atrasado”.

A família disse que queria uma acusação de assassinato mais grave e em primeiro grau, bem como a prisão dos outros três policiais envolvidos.Derek Chauvin deve comparecer ao tribunal em Minneapolis na segunda-feira. Reuters

O procurador do condado de Hennepin, Mike Freeman, disse que “antecipa acusações” para os outros policiais, mas não oferece mais detalhes.

Freeman disse que seu escritório “acusou o caso tão rapidamente quanto as evidências nos foram apresentadas”.

“Este é de longe o mais rápido que já acusamos um policial”, observou ele.

Segundo a denúncia criminal, Chauvin agiu com “uma mente depravada, sem considerar a vida humana”.

Enquanto isso, a esposa de Chauvin pediu o divórcio, dizem seus advogados.

Como George Floyd morreu?
O relatório completo do médico legista do condado não foi divulgado, mas a denúncia afirma que o exame post mortem não encontrou evidências de “asfixia traumática ou estrangulamento”.

O médico legista observou que Floyd tinha problemas cardíacos subjacentes e a combinação destes, “potenciais intoxicantes em seu sistema” e ser contido pelos policiais “provavelmente contribuiu para sua morte”.

Manifestações e protestos continuados desde a morte de Floyd sob custódia policial na segunda-feira – Direitos autorais da imagem Getty

O relatório diz que Chauvin estava com joelhos no pescoço de Floyd por oito minutos e 46 segundos – quase três minutos depois que Floyd ficou sem resposta.

Quase dois minutos antes de remover o joelho, os outros policiais verificaram o pulso direito do Sr. Floyd e não conseguiram encontrar-lo. Ele foi levado para o Centro Médico do Condado de Hennepin em uma ambulância e declarado morto cerca de uma hora depois.

O manual da polícia de Minnesota declara que os oficiais treinados sobre como compreender o pescoço de um detido sem aplicar pressão direta nas vias aéreas podem usar um joelho sob sua política de uso da força. Isso é considerado uma opção de força não mortal.

O que o presidente disse?Cínico

Na Casa Branca, na sexta-feira, Trump disse que pediu ao departamento de justiça para acelerar uma investigação anunciada na sexta-feira sobre se alguma lei de direitos civis foi violada pela morte de Floyd.

O presidente também disse que “os saqueadores não devem abafar a voz de tantos manifestantes pacíficos”.Os protestos continuaram do lado de fora da Casa Branca durante a noite. Antes, ele descreveu os manifestantes como “bandidos” que desonravam a memória de Floyd.
Direitos autorais da imagem – AFP

A rede de mídia social Twitter acusou Trump de glorificar a violência em um post que dizia: “Quando o saque começa, o tiroteio começa”.

O que aconteceu na prisão?

Os policiais suspeitavam que Floyd havia usado uma nota falsificada de US $ 20 e estava tentando colocá-lo em um veículo da polícia quando ele caiu no chão, dizendo que era claustrofóbico.

Segundo a polícia, ele resistiu fisicamente aos policiais e foi algemado.

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A Itália é o Marco Zero para a guerra contra as mulheres

Uma aliança de políticos italianos de extrema direita, russos afiliados a Putin e ativistas anti-LGBT dos EUA estão se reunindo em uma cidade italiana no centro da guerra contra as mulheres.

BuzzFeed News; Getty Images

Brian Brown (esquerda), Matteo Salvini e Alexey Komov.

Brian Brown fez seu nome lutando contra a igualdade no casamento na Califórnia, e sua Organização Nacional para o Casamento uma vez teve um orçamento de milhões. Mas suas ações despencaram quando a Suprema Corte permitiu que casais do mesmo sexo se casassem em todo o país com o apoio da maioria dos americanos. Sua “Marcha para o Casamento” anual em Washington foi tão mal frequentada que os progressistas alegremente compartilharam fotos de grama vazia em torno de seu ponto de encontro no National Mall.

Mas agora ele está de volta.

Neste fim de semana, Brown estará no centro das atenções novamente, como a conferência do Congresso Mundial de Famílias (WCF) que ele organiza para a cidade italiana de Verona. Anunciado como um encontro para “defender a família natural como a única unidade fundamental e sustentável da sociedade”, o evento será realizado durante três dias em um palácio do século XVII. Brown deve falar no mesmo programa que um dos políticos mais influentes – e divisores – da Europa, o vice-primeiro ministro italiano Matteo Salvini, do partido de extrema-direita Lega, que se tornou famoso pela retórica anti-imigração e sua personalidade no Facebook. Outros oradores incluem um ministro do governo húngaro de extrema direita, um ativista anti-LGBT da Nigéria, e o presidente da Moldávia alinhado pela Rússia.

NBC Newswire / Getty Images

Brian Brown

Por trás de tudo isso está uma aliança de ativistas conservadores que conecta um grupo de russos próximos a Vladimir Putin com políticos italianos de extrema direita e grandes atores da direita religiosa dos Estados Unidos. Em um momento em que as conseqüências da investigação do advogado especial Robert Mueller questionam se as preocupações sobre a interferência da Rússia na política ocidental foram exageradas, o WCF é um lembrete das muitas maneiras pelas quais Putin ajudou a virar a política do Ocidente de cabeça para baixo. Um movimento conservador social que perdeu muito de seu apoio popular procurou Moscou para encontrar novos canais para o poder.

Depois de alguns anos de reuniões em pequenas e antigas capitais comunistas, a reunião em Verona dá ao WCF a chance de retornar ao Ocidente com o apoio de um partido que está na vanguarda de uma aliança européia de direita . A localização é significativa: a pequena cidade a uma hora a oeste de Veneza tornou-se o marco zero para um novo ataque aos direitos das mulheres sob o partido Lega de Salvini.

O governo local de Verona declarou recentemente que a cidade é “ pró-vida ” e desviou fundos para grupos antiaborto, uma medida que foi introduzida pelos governos locais em todo o norte da Itália. O ex-vice-prefeito de Verona, que agora serve como ministro da família da Itália, quer desfazer a linguagem da Constituição italiana garantindo o direito ao aborto, e está buscando novas medidas para evitar que casais gays se tornem pais. Outro legislador local propôs que as pessoas possam adotar fetos como forma de impedir que as mulheres façam abortos. E um senador de uma região vizinha está procurando rever as leis de divórcio para enfraquecer as proteções para as mulheres e abusar das vítimas.

Todas essas iniciativas foram possíveis graças ao terremoto político que fez do partido Lega a força política dominante da Itália em 2018. Salvini não é um conservador social comprometido – na verdade, ele é um ex-comunista divorciado. Mas ele buscava o apoio dos mesmos círculos de Moscou que cultivavam laços com a direita religiosa do Ocidente, e desde então ele acolheu fundamentalistas católicos em seu partido, ao tentar unir a direita italiana por trás dele. A Itália é o teste mais claro para saber se a mesma fórmula que devolveu o direito religioso à influência na Casa Branca pode funcionar na Europa Ocidental.

Mas ex-membros do partido Lega vêem o cortejo de Salvini pelo direito religioso como um movimento calculado e cínico. Flavio Tosi, ex-prefeito de Verona e ex-rival do partido Lini, de Salvini, disse ao BuzzFeed News que Salvini reconheceu que grupos neofascistas foram “órfãos” pelos principais partidos da Itália e perseguiram seus partidários.

E assim, assim como os imigrantes, Salvini acha que feministas e outros progressistas sociais são alvos políticos úteis.

“Ele entendeu que tinha que encontrar o inimigo.”

J. Lester Feder / Notícias do BuzzFeed

Alberto Zelger

Quando foi lançado pela primeira vez na década de 1990 por um trio de historiadores e sociólogos obscuros , o Congresso Mundial das Famílias se intitulou como uma conferência acadêmica voltada para a reversão das taxas de natalidade em declínio no Ocidente. Ao longo dos anos, seus fóruns semestrais incluíam desde especialistas em educação da primeira infância até cruzadas contra a pornografia, passando a querer a realeza européia.

Também atraiu várias figuras importantes da direita religiosa dos EUA, à medida que se transformou em um centro de grupos antiaborto e anti-LGBT em todo o mundo. Sua importância cresceu durante os anos em que o presidente Barack Obama e a secretária de Estado Hillary Clinton estavam promovendo os direitos LGBT e das mulheres em todo o mundo. Isso foi especialmente útil para Brown – assim como ele estava sendo derrotado em sua cruzada de anos para parar a igualdade no casamento nos EUA, ele começou a planejar se tornar internacionalBrown não respondeu a vários pedidos de comentários.

A organização de Brown escolheu Verona após a aprovação de uma legislação anti-aborto inédita em 2018. Conhecido pelo nome de seu patrocinador, Alberto Zelger, a legislação financia os que são conhecidos nos EUA como “centros de gravidez em crise” para desviar as mulheres de abortos. Embora esses centros sejam comuns nos EUA, eles quebraram um tabu na Itália. Os italianos votaram esmagadoramente para manter o aborto legal em 1981, mas agora o dinheiro do governo estava sendo usado para impedir as mulheres de acessar o procedimento.

A lei Zelger, que já foi introduzida em dezenas de outros governos locais no norte da Itália, é especialmente alarmante para os defensores dos direitos reprodutivos, porque as fortes proteções legais italianas para o acesso ao aborto também estão sendo minadas por um movimento crescente entre os médicos para se recusarem a realizar o procedimento. por motivos religiosos. No início deste mês, o líder de uma associação ginecológica italiana alertou que a escassez de provedores de aborto estava atingindo níveis críticos, porque muitas universidades agora se recusam a ensinar o procedimento.

Os tribunais da Itália também recentemente desferiram golpes chocantes nos direitos das mulheres. No início deste mês, um tribunal reduziu a sentença de um homem por matar sua esposa, citando sua “raiva e desespero” sobre seu relacionamento com outro homem. Em outro, uma condenação por estupro foi descartada em um caso em que os juízes duvidaram da suposta vítima porque ela parecia “muito masculina” para ser um alvo atraente.

Em nível nacional, os ativistas pelos direitos das mulheres estão especialmente alarmados com a revisão das leis de divórcio propostas por um senador do partido Lega, que um oficial de direitos humanos da ONU alertou que poderia reverter drasticamente as proteções para mulheres e vítimas de abuso doméstico.

“É apenas uma maneira de colocar as mulheres de volta em seu lugar”, disse Giulia Siviero, uma jornalista de Verona que também é porta-voz de uma coalizão feminista chamada Non Una di Meno que está organizando protestos contra a reunião do WCF.

Ivan Romano / Getty Images

Matteo Salvini

Siviero vê a Itália como um campo de provas do que acontece com os direitos das mulheres quando um nacionalista oportunista ganha o poder. Salvini foi eleito em 2018 com uma campanha com retórica anti-imigrantes Trumpianos, mas ele ganhou pouco mais de 17% dos votos e foi forçado a fazer parceria com um partido maior para assumir o controle do governo. Ele é agora o político mais popular na Itália com seu partido apoiado por 1 em cada 3 italianos, e seu melhor caminho para o poder é consolidar tantas facções à direita quanto possível.

“É um terreno comum na ideologia. Eles se reúnem em questões de imigração e no corpo das mulheres – eles se encaixam ideologicamente ”, disse Siviero. “É como se a Lega criasse uma espécie de tanque onde todas essas partes pudessem se juntar em uma grande panela.”

Quando perguntado se ele estava tentando defender a “família cristã” durante um fórum de direita no verão passado, Salvini respondeu: “Não para mim – eu sou divorciado”. Mas ele também está feliz em se apresentar como um defensor dos fundamentalistas católicos. Quando ele tomou posse como vice-primeiro ministro em junho passado, Salvini segurou um terço na mão, um gesto que chocou até mesmo alguns membros de seu próprio partido por cruzarem regras bem estabelecidas na política italiana sobre as fronteiras entre religião e política.

Ele é agora um dos maiores heróis da direita global e os maiores vilões da esquerda. “A Itália é agora o centro do universo da política”, Steve Bannon tem dito da ascensão de Salvini ao poder.

O líder não oficial da direita religiosa de Lega é o ex-vice-prefeito de Verona e membro do Parlamento da União Européia, Lorenzo Fontana, que pediu a Salvini para ser uma testemunha de seu casamento. O mentor espiritual de longa data de Fontana é considerado um padre que acredita que a homossexualidade é “uma rebelião contra Deus” causada pelo diabo.

J. Lester Feder / Notícias do BuzzFeed
Flavio Tosi

“Eu sei que Salvini não dá a mínima para o rosário – eu lhe disse que ele é cínico”, disse ao BuzzFeed News Flavio Tosi, ex-prefeito de Verona que já foi o mentor de Fontana. Tosi disse que a Lega não estava interessada em causas fundamentalistas até que Fontana se aproximou de Salvini.

O porta-voz de Salvini, após perguntas sobre alegações de que ele estava apoiando causas sociais conservadoras por conveniência política, disse em uma mensagem do WhatsApp: “Controvérsias inexistentes. Nós protegemos as famílias italianas. Mas o divórcio, o aborto, a igualdade de direitos entre mulheres e homens, liberdade de escolha para todos não estão em questão ”. O porta-voz de Fontana não respondeu a um pedido de comentário.

Salvini, cuja maneira favorita de se comunicar com o público é por meio de livestreaming no Facebook, se destaca no tipo de chauvinismo que excita as pessoas que odeiam o feminismo. Em 2016, ele ridicularizou uma das mulheres mais importantes da Itália dizendo que uma boneca sexual era sua “dupla”. A polícia italiana está investigando outro incidente, no qual uma mulher de 22 anos recebeu centenas de mensagens insultuosas depois de Salvini. postou uma foto dela on-line carregando uma placa durante um protesto contra Salvini que dizia “Melhor uma puta do que uma fascista”.

“Que moça adorável”, ele twittou.

“Salvini é um católico fundamentalista convicto? Absolutamente não. Ele é sexista ”, disse Siviero, o porta-voz da coalizão feminista. “Mas ele acompanha pessoas que representam esse outro mundo em que ele não acredita completamente, e assim sela a relação entre a extrema direita e o catolicismo.”

Os líderes do WCF ficaram entusiasmados em abraçar Salvini apesar de sua retórica freqüentemente abusiva em relação a mulheres e imigrantes. “Orgulho de estar em cromo com o vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini”, twittou Brown após uma reunião no final do ano passado.

O que é assustador, disse Siviero, é que essas idéias são “contagiosas”. Seja ou não as propostas mais radicais da Lega para reverter os direitos das mulheres se tornarem lei, eles estão “plantando uma semente” que está dando vida a novas facções marginais direitistas . Estes incluem grupos neofascistas em um país onde a ideologia foi proibida desde a Segunda Guerra Mundial.

Mas nesta conferência, ao contrário dos realizados na Europa Oriental, Siviero disse que o WCF enfrentará uma reação adversa. Non Uno di Meno realiza quatro dias de protestos , incluindo uma conferência internacional com o fundador da organização feminista argentina que os inspirou. E o líder do parceiro de coalizão de Lega no governo denunciou a conferência, dizendo que o grupo tem “visões medievais sobre as mulheres”.

Paul Archuleta / FilmMagic

Alexey Komov

No centro da rede de alianças que liga o WCF à Itália está um russo pouco conhecido chamado Alexey Komov, com conexões com grandes potências em Moscou.

Komov tornou-se conhecido pelos círculos conservadores religiosos ocidentais há cerca de uma década, se autodenominando “defensor da família cristã e profissional de marketing e consultor imobiliário e empresário”. Komov estava “muito ansioso” por desempenhar um papel de liderança no WCF Um membro americano do comitê organizador chamado Austin Ruse disse ao BuzzFeed News, mas sua primeira tentativa de levar a conferência a Moscou foi rejeitada porque estava quase pronta.

O grupo aceitou sua candidatura para o WCF de 2014 quando retornou com o apoio de alguns poderosos oligarcas russos, incluindo um banqueiro de investimentos chamado Konstantin Malofeev. Eles começaram a planejar uma cúpula de 2014 a ser realizada no Kremlin, que eles promoveram como as ” Olimpíadas ‘do movimento pró-vida internacional apoiando a Família Natural’.

A cúpula de Moscou aconteceu em um momento extraordinário. Todos os olhares estavam voltados para a Rússia, com as Olimpíadas de Inverno a serem realizadas em Sochi em janeiro de 2014. A preparação para os Jogos foi ofuscada por um confronto global sobre os direitos LGBT. Putin, que estava no poder desde 1999, começou a se colocar como defensor dos valores ortodoxos contra o Ocidente hedonista, a saber, através de uma campanha para demonizar a homossexualidade, resumida na aprovação de uma lei que proíbe a chamada propaganda gay. Grandes atores da direita religiosa dos EUA – que amadureceram com uma mentalidade da Guerra Fria que via a Rússia como um inimigo sem deus – de repente estavam se perguntando se Putin era o contrapeso à administração Obama que eles estavam esperando.

Logo, Komov começou a empurrar os limites do que alguns organizadores americanos estavam acostumados. Ruse disse que sua organização e outros patrocinadores do WCF quase saíram de uma reunião de planejamento em outubro de 2013 porque Komov queria incluir Scott Lively, um ativista anti-gay de Massachussets que desempenhou um papel fundamental em inspirar a infame lei “Kill the Gays” de Uganda. autor de um livro que sugeria que os homossexuais eram responsáveis ​​pelo Holocausto. Komov também discursou de forma espetacular durante uma coletiva de imprensa em Washington no início de fevereiro de 2014, sugerindo que centenas de pessoas foram assassinadas para encobrir a verdadeira história do assassinato de John F. Kennedy e questionar se a al-Qaeda foi responsável pelos ataques de 11 de setembro.

Quando a Rússia tomou a Crimeia em fevereiro de 2014, de repente pareceu uma má ideia estar abertamente alinhada com os russos. O governo dos EUA impôs sanções a Malofeev, que financiava rebeldes seperatistas no leste da Ucrânia ao mesmo tempo em que apoiava o WCF. O WCF finalmente retirou seu nome da conferência de Moscou, mas muitos de seus principais participantes participaram do encontro, que foi rapidamente redigitado .

Um porta-voz de Malofeev se recusou a comentar esta reportagem, escrevendo: “Não comentamos rumores e conjeturas extraídas de recursos desconhecidos para nós por jornalistas”.

Dezenas de e-mails de Komov sobre a reunião foram vazados em 2014 por um grupo de hackers, que mostraram que Komov estava envolvido em outro dos principais projetos de Malofeev – construindo relações com grupos de extrema direita em toda a Europa. Em uma nota, Komov chamou um dos líderes neofascistas mais conhecidos da Itália de “amigo”.

O vazamento incluiu um e-mail de Brown, no qual ele disse a Komov, “o Fórum foi incrível e toda essa imprensa funcionará para o maior benefício do movimento mundial pró-família se respondermos adequadamente”.

Komov encaminhou este e-mail para Malofeev com a nota: “O império contra-ataca :)”

Brown negou que os russos tivessem domínio sobre o WCF, dizendo ao BuzzFeed News no verão de 2018 que “nunca havia sido absolutamente solicitado por seus associados russos, amigos ou Alexey Komov para fazer algo que pudesse minar os Estados Unidos. ”

“Acho triste que haja uma tentativa de pintar todos os russos como antiamericanos e não unidos a nós na família”, disse ele. Komov não respondeu a um pedido de comentário para este artigo.

Komov começou a cortejar Lega desde o momento em que Salvini assumiu o controle da festa. Ele foi convidado a participar da convenção de 2013, na qual Salvini foi selecionado como secretário do partido. E ele tem um papel de liderança em uma organização que foi fundamental na mediação de uma reunião entre Salvini e Putin em 2014. Salvini, desde então, provou ser um aliado importante para a Rússia na UE, trabalhando para desfazer as sanções impostas pelo bloco. Há também novas alegações da revista italiana Espresso de que a petroleira estatal russa estava procurando maneiras de canalizar dinheiro para o partido de Salvini.

A conferência de Verona faz com que essas relações completem o ciclo.

Verona é uma “combinação perfeita” para o WCF, escreveu Brown em um e-mail de captação de recursos no ano passado, pouco depois do anúncio do evento. “O vice-primeiro ministro Matteo Salvini nos receberá em seu maravilhoso país de braços abertos.”

“Nunca fomos mais eficazes do que somos agora”, continuou ele, “e pretendemos fazer ainda mais no próximo ano”.

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O que está por trás do discurso de ódio

A xenofobia, a rejeição da pluralidade, a mentalidade paranoica em relação ao mundo exterior e a construção de bodes expiatórios se transformaram em tendência mundial. É preciso levar a sério a questão nacional, não deixá-la nas mãos dos extremistas. Também é necessário fortalecer a coesão coletiva.Trump,Bolsonaro,Violência,Xenofobia,Ideologia,Preconceito,Ódio,Comportamento
Lamentavelmente, no panorama europeu de renascimento do neofascismo, a Espanha já não é uma exceção. Ela acaba de ser tingida, quase de surpresa, com as pinceladas da cor obscurantista e xenófoba que estão avançando por toda parte no Velho Continente, a cor da ultradireita. Demonstra-se, mais uma vez, a sagacidade da afirmação do grande Dom Quixote: “Não há memória que o tempo não apague”.

Embora a Espanha tenha no momento apenas um grupo minúsculo, o Vox, ele é parte de uma onda de nacional-populismo neofascista que se espalha pelo mundo todo de maneira traiçoeira. Está se abrindo, sem dúvida, uma nova era de desafios importantes e sérios que as democracias terão de enfrentar, provavelmente durante umas décadas. É inegável que a globalização liberal posta em marcha no final do século passado entrou em uma fase crítica, devido à sua patente e consciente desregulação caótica, responsável por suas contradições atuais.

A busca de um novo equilíbrio econômico-social planetário é, portanto, imprescindível. Enfrentar o desafio deste novo período exige imperativamente que as democracias encontrem modelos econômicos e sociais que apostem, de forma efetiva, na eliminação da grande brecha atual da desigualdade, na solidariedade, que são expectativas da imensa maioria da população arraigada na civilização do respeito mútuo e da dignidade. Ao mesmo tempo, no entanto, chama a atenção o aparecimento − como consequência dos efeitos desagregadores da globalização − de camadas sociais reacionárias étnica, cultural e politicamente, que se identificam com um discurso de ódio de experiência remota. Trata-se de uma tendência mundial, cujas características comuns são tão importantes quanto suas diferenças.

Nos EUA, a ascensão de Donald Trump veio acompanhada de uma mudança de fundo, ao mesmo tempo demográfica e racial: os trabalhadores brancos de Kansas, Detroit, Texas e outros lugares do país apoiam o magnata imobiliário porque ele promete frear a chegada dos latinos, não pagar serviços sociais aos afro-americanos, acabar com o relativismo dos valores. Eles não temem apenas perder o emprego por competir com outros países, eles também têm medo dos fundamentos da igualdade institucionalizada, assim como da mistura demográfica e étnica que a política de Barack Obama encarnava. Um temor transformado em combustível político por Trump, com uma ideologia ultrapopulista. É, em suma, um nacional-populismo new wave, que retoma muitos dos ingredientes do fascismo clássico: a rejeição da mestiçagem (da qual subjaz, para muitos, a defesa da “raça branca”), a oposição entre quem está nas camadas inferiores e quem está nas superiores, a xenofobia, uma mentalidade paranoica em relação ao mundo exterior, a política da força como método de “negociação”, a denúncia do outro e da diversidade, a hostilidade contra a igualdade de gênero, entre outros.

Outro grande país, o Brasil, também acaba de entrar neste caminho. Falamos aqui de um movimento evangélico que emergiu das entranhas das camadas médias empobrecidas e com medo, também, da liberalização dos costumes, do desaparecimento de valores morais em um país minado pelo cinismo e pela corrupção, por desigualdades crescentes, pelo fiasco da esquerda brasileira que não pôde promover uma sociedade que se voltasse ativamente para o progresso coletivo. Jair Bolsonaro não é um profeta, ele simplesmente soube inverter as promessas da teologia da libertação em teologia do ódio, com o apoio das elites militares e financeiras e dos grandes meios de comunicação.

Lula e Dilma Rousseff perderam o apoio da classe média e depois foram crucificados, além disso com um golpe de Estado tramado por grupos financeiros, dirigentes políticos e alguns setores do Judiciário. A retórica evangélica arroga agora para si o papel de salvadora de um país à beira do abismo, fazendo da luta contra a corrupção seu cavalo de batalha e propondo o modelo de uma sociedade moralmente autoritária, um modelo indevidamente condenado ao fracasso, dada a excepcional diversidade e vitalidade da sociedade brasileira.

Tanto o Estados Unidos de Trump como o Brasil de Bolsonaro são testemunhas diretas e encorajam os movimentos reacionários dessas camadas sociais ameaçadas pelo rumo da globalização neoliberal. O repertório de mobilização se baseia no ideário das reivindicações nacionalistas e sua metodologia rompe com a representação política clássica: as manifestações em massa envolvem rituais extáticos de fusão com o líder, que denuncia, como uma ladainha de golpes de efeito, a decadência moral dos partidos, conclamando à recuperação urgente da grandeza perdida do país.

O que está por trás do discurso de ódioampliar foto
SR. GARCÍA
Na Europa, o processo de estancamento da economia há quase duas décadas (ausência de crescimento gerador de empregos) também produziu um enorme retrocesso de direitos sociais e liberdades, uma regressão de identidade que explica o surgimento dos movimentos neofascistas. Embora tenham elementos específicos, todos compartilham a mesma metodologia política em sua conquista do poder: criticam duramente a representação política, instrumentalizando a democracia que a sustenta para conseguir a vitória; reivindicam a liberdade de expressão para expandir suas exigências, mas censuram seus adversários; dirigem a energia política das massas contra um objetivo previamente construído como bode expiatório (os imigrantes, a liberdade de imprensa que põe em xeque seus discursos, etc.). Servem-se desse arsenal demagógico para evitar falar de seu programa econômico concreto. Vale tudo na batalha que travam veementemente contra a civilização (sempre “decadente”, segundo eles) e a igualdade, pois o princípio fundamental da retórica neofascista, exposto (aí sim) em todos os seus programas, é a rejeição da igualdade e da diversidade dos cidadãos.

O neofascismo europeu que surge atualmente é, por antonomásia, supremacista, individual e coletivamente. É o projeto de uma sociedade hierárquica de senhores e servos, uma visão de mundo que aceita a necessidade imperiosa de submissão a um líder, sua “servidão voluntária”. Essa submissão fica escondida atrás do sentimento de força e de vingança em relação às “elites”, que a mobilização coletiva confere ao neofascismo militante. E isso funciona porque essa ideologia, sem prejuízo de suas particularidades em cada país, gera, na identidade de seus seguidores, uma poderosa liberação de instintos agressivos e explode os tabus que limitam as expressões primitivas, violentas, nas relações sociais. O grande analista do fascismo George L. Mosse se refere a essa característica como uma liberação da brutalidade em um contexto minado pelo “abrandamento” característico da sociedade democrática.

É uma luta diária a que deve emergir, pois permanente deve ser a defesa dos direitos e liberdades

O discurso da extrema direita propõe, certamente, uma sociedade estritamente homogênea, em pé de guerra contra tudo que possa introduzir diferenças e singularidades dentro do conjunto. A rejeição do pluralismo político – rejeição que ela promove como um projeto de gestão do poder − se baseia também na oposição frontal ao multiculturalismo, e, consequentemente, na rejeição da multietnicidade da sociedade. O modelo é o de um povo em sua essência, um povo etnicamente puro. A cultura obsessiva da pureza está intrinsecamente ligada à desconfiança em relação ao estrangeiro, à atividade crítica do intelectual − e inclusive à arte que não comungue com a estrita linha da moral autoritária vigente −, à liberdade de orientações sexuais e de identidade de gênero, à pluralidade de confissões religiosas. Não é apenas uma coincidência que o islã esteja hoje no olho do furacão neofascista na Europa: a presença de uma população de origem estrangeira que professa a religião muçulmana coloca em questão o conceito essencialista de povo homogêneo tanto no aspecto cultural como no religioso (embora o velho fascismo dos anos trinta não tivesse um apetite particular pela religião).

Uma sociedade democrática pode administrar populações misturadas e destinadas a conviver com suas contribuições mútuas à civilização humana, desde que sejam estabelecidas diretrizes seculares claras para todos. Por outro lado, uma sociedade baseada no conceito substancial de povo, no sentido que o neofascismo lhe dá, tende inevitavelmente à exclusão efetiva da diversidade. Daí que o modelo autoritário procure novamente se legitimar apelando para o perigo de religiões e culturas diferentes, que devem ser vigiadas e perseguidas para que não “contaminem” a identidade do povo.

A Frente Nacional francesa, no início de sua caminhada nos anos oitenta, fez da rejeição ao islã um eixo central de seu programa, escondendo seu tradicional antissemitismo. O partido Alternativa para a Alemanha colocou a islamofobia no centro de sua estratégia de mobilização em 2015, após a crise da chegada em massa de refugiados. Na Áustria, Itália, Bélgica, Holanda e em todos os países do norte da Europa, os refugiados também se transformaram no prato principal das campanhas eleitorais. São, igualmente, alvo da retórica ultracatólica de Viktor Orbán na Hungria e dos programas dos partidos neofascistas do Leste Europeu.

O discurso da extrema direita faz estourar os tabus que limitam as expressões primitivas e violentas

Esses movimentos, que avançam da Espanha até a Suécia, passando pelos países europeus ocidentais e orientais, compartilham, além disso, uma característica de natureza histórica: apelam para o nacional-populismo como uma reação à era da governança supranacional, resultante da ampliação do mercado europeu, dos efeitos da globalização neoliberal e das tentativas de construir instituições representativas europeias pós-nacionais. Daí o consenso em torno do objetivo de pôr em xeque a atual construção europeia, em nomeie da soberania nacional.

O que fazer diante desse desafio? Hoje, os partidos nacional-populistas neofascistas não representam mais do que entre 10% e 20% do eleitorado europeu, mas sua influência ideológica real é mais ampla. Naturalmente, é preciso diferenciar o corpo doutrinário desses partidos das representações mentais, muito menos elaboradas, dos cidadãos que os apoiam. Embora seja verdade que as causas do avanço gradual das correntes ultradireitistas são conhecidas, não existe uma posição comum das forças democráticas na hora de contê-lo.

Há, basicamente, três campos-chave de ação, e o primeiro deles é econômico. Se a democracia não caminhar em prol do progresso social, as vítimas, que são muitas, tenderão sempre a culpá-la por não haver progresso. Portanto, é necessário relançar a máquina econômica de integração profissional, que hoje depende, essencialmente, das capacidades não do mercado, como acredita a Comissão Europeia, mas sim dos Estados para incentivar o emprego. Para isso, eles precisam de uma política orçamentária mais flexível, que gere equilíbrio social. Infelizmente, essa é uma reivindicação que ainda não é levada em conta em Bruxelas.

Em segundo lugar, em face do nacionalismo reacionário e excludente, é preciso levar a sério a questão nacional, não deixá-la nas mãos dos nacionalistas xenófobos. É crucial interpretar bem a reivindicação de segurança de identidade das camadas sociais mais vulneráveis e desestabilizadas pela exclusão do emprego ou pela incapacidade de se adaptar às mudanças da sociedade moderna, que acontecem numa velocidade extraordinária. É necessário fortalecer a coesão coletiva, ou seja, a adesão ao bem comum, sem prejuízo do respeito à diversidade, sob diretrizes comuns e com valores essenciais de referência. É preciso administrar racionalmente os fluxos migratórios, não só para evitar as mentiras e a demagogia desconstrutiva sobre a imigração, como também porque a vida cotidiana se tornou muito mais competitiva e as percepções espontâneas favorecem um imaginário ilimitado de fantasias em um contexto de insegurança profissional. A economia, em todos os países desenvolvidos, precisa da imigração, e isso deve ser regulado com base no respeito pelos direitos humanos. Na Europa, um grande acordo político é imprescindível para desativar o papel que a imigração assumiu como bode expiatório.

Finalmente, deve-se assumir com firmeza a luta contra o neofascismo, explicar claramente à população o perigo que ele representa e propor pactos democráticos antifascistas àqueles que defendem a democracia e o respeito à igualdade e dignidade humana, denunciando, do mesmo modo, os que pisoteiam esses valores por razões eleitorais. Deve ser travada uma luta diária contra o nacional-populismo neofascista, pois a defesa da democracia, do bem-estar social, dos direitos e liberdades tem de ser permanente. Tomara que todos entendam isso, pois se trata do futuro da paz social!

Sami Naïr é catedrático de Ciências Políticas na Universidade de Paris e diretor do Instituto de Cooperação Mediterrâneo-América Latina da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha. É autor, entre outros livros, de ‘La Europa Mestiza’.

Antisemitismo,Judeus,Preconceito

O anti-semitismo coloca em risco todos nós. Não podemos nos dar ao luxo de ser complacentes

Sábado – exatamente uma semana após o terrível ataque em Pittsburgh – Eu tive o privilégio de assistir um serviço de Shabat em uma sinagoga em Londres para mostrar solidariedade com a comunidade judaica, tanto aqui como em todo o mundo. Oramos por todos os afetados – as famílias, os amigos e a comunidade judaica em geral. Hoje à noite, também me orgulho de estar falando no jantar anual do Conselho dos Deputados dos Judeus Britânicos – uma grande organização que faz um trabalho incrível em defesa da comunidade judaica em nosso país.

Compreensivelmente, muitos londrinos judeus – e comunidades judaicas em todo o mundo – não estão apenas lamentando as vítimas do terrível ataque em Pittsburgh, mas preocupados com o que isso significa para sua própria segurança. Uma sinagoga deve ser sempre um santuário, um lugar onde você se sinta seguro para adorar e praticar sua fé em paz.

O perverso ataque terrorista teve como alvo inocentes americanos judeus, mas pareceu um ataque a todos nós – ao nosso modo de vida e às liberdades que nos são caras. A luta contra o anti-semitismo não é apenas proteger a comunidade judaica; é uma luta em nome de todos. O anti-semitismo é uma ameaça aos nossos valores, à coesão de nossas comunidades e a toda a nossa sociedade.

Infelizmente, o aumento do anti – semitismo e da extrema direita não pode ser tratado simplesmente como uma tendência passageira. O Community Security Trust informou que os incidentes antissemitas em todo o Reino Unido estão em um nível recorde, com o número de casos registrados em Londres aumentando em quase 200% desde 2011.

Sabemos de nossa história que ignoramos esses incidentes por nossa conta e onde o anti-semitismo, deixado para apodrecer, pode levar. E sabemos de nossa história que um aumento do anti-semitismo e do extremismo de direita geralmente vem com o aumento de outras formas de crime e divisão de ódio – coincidindo com um cenário de dificuldades econômicas, populismo nacionalista e incerteza política.

Antissemitismo,Judeus,Preconceito
 “Os políticos, neste país e em todo o mundo, devem abster-se de usar a linguagem da divisão para promover suas causas políticas.” Foto: Frank Mattia / ZUMA Wire / REX / Shutterstock

Preocupante, todos os sinais de aviso estão aqui novamente, por isso é vital que tomemos medidas agora.

Em Londres, estou fazendo tudo o que posso para combater o anti-semitismo. Sob minha liderança, a polícia do Met está adotando uma abordagem de tolerância zero ao antissemitismo , onde quer que ocorra. Isso inclui dentro do Partido Trabalhista , não importa o quão estranho os outros possam achar isso. Eu também criei um programa contra o extremismo violento na Prefeitura, que está trabalhando para impedir a disseminação de ideologias extremistas de todos os tipos.

Mas devemos também encorajar a todos, de todas as fés e de todas as origens, a desempenhar seu papel na derrota desse aumento do ódio. Isso inclui políticos, neste país e em todo o mundo, abstendo-se de usar a linguagem da divisão para promover suas causas políticas. Veja como o presidente Trump está usando a imigração como forma de aumentar o medo dos imigrantes e dar credibilidade às teorias da conspiração antes das eleições parlamentares americanas desta semana. Este é um dos piores exemplos nos últimos tempos deste tipo de comportamento irresponsável e prejudicial.

Também tem revelado quantas pessoas da comunidade judaica em Pittsburgh criticaram Trump após o ataque – porque sabem que sua retórica e ações nos últimos anos têm facilitado a ascensão da extrema direita em todos os EUA , o que encorajou alguns que desejam semear as sementes do ódio.

Depressivamente, visões extremas agora estão se infiltrando no mainstream, com os partidos populistas nacionalistas ganhando força nos EUA, em toda a Europa e agora no Brasil . Precisamos despertar para essa ameaça da extrema direita e da política de culpa e recriminação que está se infiltrando em nossos debates nacionais.

Uma grande parte de qualquer solução será atacar as causas profundas de por que mais e mais pessoas estão se sentindo deixadas para trás pela globalização, levando-as a culpar “o outro” por seus males. Mas também precisamos agir imediatamente para consertar as crescentes divisões em nossa sociedade.

Tenho orgulho de representar uma cidade global tão voltada para o futuro. No geral, não apenas toleramos as diferenças em Londres , nós as respeitamos e as celebramos. Mas ainda estamos longe de ser perfeitos – nossas comunidades vêm mudando rapidamente e nosso senso de coesão social está sendo testado como nunca antes.

Uma das lições de todo o mundo é que uma abordagem de “mãos livres” para a integração social simplesmente não funciona. E sem ação, a situação só piorará. É por isso que acredito que uma das tarefas mais importantes agora é tomar medidas proativas para construir comunidades mais fortes e mais integradas. Isso significa que precisamos começar a encorajar e facilitar uma integração social maior, sempre que pudermos – para fortalecer laços sociais e laços de confiança entre pessoas de todas as fés, raças, idades e origens.

Não vai haver uma solução rápida para este problema: é um dos desafios que definem o século XXI. Mas eu ainda estou otimista de que se nós tratá-lo com a seriedade que merece, podemos reprimir o anti-semitismo, deter a marcha do populismo extrema direita e nacionalistas e fazer uma diferença real na formação de comunidades mais fortes – mostrando que a esperança, unidade e amor sempre pode superar o medo, a divisão e o ódio.

 Sadiq Khan é o prefeito de Londres

Preconceito,França,Homofobia,Sexualidade

França: Governo discute medidas de repressão e punição a ataques homofóbicos na França

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Aumento de casos contra comunidade LGBT+ preocupa governo; ministro do Interior da França, Christophe Castaner, disse que sanções contra agressões devem ser “sistemáticas”

O governo francês apresentou nesta terça-feira (30/11) uma série de medidas para lutar contra a homofobia no país, como uma resposta ao crescente número de agressões à comunidade LGBT+ na França.

“O que vemos todos os dias é que muitas das vítimas não ousam prestar queixa”, afirmou o ministro do Interior da França, Christophe Castaner, à imprensa, durante uma visita às instalações da associação SOS Homofobia.

“É preciso garantir a liberdade de expressão e devemos ter certeza de que as sanções contra esse tipo de agressão sejam as mais sistemáticas possíveis”, completou.

Castaner realizou a visita ao lado da ministra da Justiça da França, Nicole Belloubet, e da secretária de Estado francesa encarregada da Igualdade entre mulheres e homens, Marlene Schiappa.

Nicole Belloubet propôs, entre outras coisas, um sistema de prestação de queixas on-line, uma melhora na formação dos juízes, e o desenvolvimento de uma série de medidas que permitam o bloqueio de sites que transmitem conteúdo de ódio contra a comunidade LGBT+ na internet, assim como o desenvolvimento de procedimentos penais que “permitam reagir rapidamente às agressões”.

Formação de magistrados e policiais no atendimento às vítimas

Christophe Castaner mencionou a duplicação do efetivo da célula chamada “discriminação e ódio”, da plataforma francesa Pharos, que permite a denúncia de conteúdo e/ou comportamento ilícitos na internet. O ministro também disse que gostaria de colocar em prática referências da comunidade LGBT+ em delegacias de polícia e da polícia nacional francesa.

 “Com relação ao Ministério do Interior, trata-se de uma questão de formação de mulheres, homens, policiais que devem estar presentes e acompanhar adequadamente aqueles que vêm prestar queixa”, acrescentou.

Segundo o Ministério do Interior da França, as reclamações sobre ataques homofóbicos aumentaram em 15% desde o início do ano. O governo francês deve propor um roteiro de ações até o final de 2018, levando em conta as propostas das associações LGBT+ francesas.

A SOS Homofobia solicitou a criação de uma campanha nacional de conscientização sobre a homofobia e suas consequências nas vítimas, além de uma formação inicial obrigatória a professores do ensino fundamental e médio, magistrados e policiais, e um aumento do orçamento dedicado à luta contra o ódio anti-LGBT+.

Massacre na Flórida, mídia e homofobia

A mídia homofóbica brasileira continua realçando que […]”o massacre na ‘boate gay’ na Florida”[…]

Pergunto eu aos doutos:
Caso o atentado houvesse ocorrido em uma boate hétero, a mídia nojenta realçaria nos noticiários que […]”o massacre na ‘boate hétero’ na Florida”[…]?

Orlando possui a mais frouxa legislação para compra de armas nos USA, uma nação de quatro pés em reverência ao deus das armas.

Não é exigido nenhum tipo de licença, registro, antecedentes criminais, identidade…

Por lá é mais fácil comprar um fuzil AK45 do que uma aspirina em uma farmácia.
Aí vêm as “otoridades”, todas de todos os matizes ideológicos, com o velho “trololó” cínico de que estão “horrorizados com essa barbárie”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

PS. Aliás – lá vou eu com minhas reflexões conspiratórias. No momento em que Mr. Obomba e Mrs. Hilária esgrimem o “blá-blá-blá” de controle de armas – acham que ninguém sabe o poder da NRA – um “atentado” desses, e cometido por homofóbico islâmico, cai bem no colo do Trump que defende o armamentismo e a expulsão de todos os islâmicos das terras do Tio Sam.

 

Donald Trump: um maluco na Casa Branca

Donald Trump,Nazista,Blog do MesquitaMesmo com vitórias pontuais de seus concorrentes, a cada urna apurada nas prévias eleitorais norte-americanas, Donald Trump aproxima-se, cada vez mais, da condição de mais provável candidato do Partido Republicano dos Estados Unidos a disputar, provavelmente contra Hillary Clinton como aspirante a Presidente do Partido Democrata, as eleições presidenciais deste ano.

As chances de Trump ser eleito são aparentemente pequenas, mas, considerando-se a crise – quase que permanente – pela qual o capitalismo está passando e o processo de imbecilização crescente da população mundial, ligado ao crescimento de seitas mais ou menos fundamentalistas, ideias e propostas neo e ultraconservadoras – em muitos casos, simplesmente fascistas – na internet, sempre existe a possibilidade de que a loucura se imponha sobre um mínimo de razão, minguante, fazendo com que, como em um título de uma comédia de Hollywood, em breve se tenha – em caso de eventual derrota da senhora Clinton – Um Maluco na Casa Branca.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O relativo sucesso de Trump, até agora – mesmo que com a recomendação contrária de expressivas lideranças do próprio Partido Republicano -, deve servir de alerta ao Brasil.

Se não houver um forte apelo ao bom senso, no sentido de um entendimento entre as principais lideranças políticas brasileiras, para conter a radicalização, o ódio ideológico e o imponderável, sempre existe a possibilidade do aparecimento, a cavalo do populismo, e da ignorância de um público cada vez mais raivoso, preconceituoso e burro, de um pequeno Donald Trump tupiniquim – não necessariamente loiro ou com peruca de asno – para disputar, e eventualmente ocupar, o principal cargo da República.

Afinal, como naqueles programas de televisão “sobrenaturais”, as coisas mais absurdas já vêm ocorrendo por aqui, e estão sendo tratadas, pelas instituições, e por uma parte retorcida e irresponsável da imprensa, como se fossem absolutamente normais.

Daí a se colocar Um Maluco no Palácio do Planalto, bastam apenas dois ou três passos.

Afinal, como se pode ver pelos “panelaços” e as redes sociais, politicamente boa parte da opinião pública está agindo como se usasse óculos 3D o tempo todo, para exagerar na distorção da realidade.

E uma outra boa parte, viseiras.
Por Mauro Santayana

Racismo ostentação? Como operam os grupos que incitam ódio na internet

A investigação do Ministério Público de São Paulo sobre os ataques racistas à jornalista Maria Júlia Coutinho acabou revelando uma dinâmica até então desconhecida sobre como operam grupos por trás de crimes de ódio na internet.

Image Globo I Reinaldo Marques

À BBC Brasil, o promotor Christiano Jorge Santos, que conduz as investigações desde o início, disse que o principal trunfo da “Operação Tempo Fechado” foi identificar quem são e como se comportam os membros de grupos secretos que articulam comentários racistas ou homofóbicos no Facebook.

“A novidade é a confirmação que de que há grupos organizados. Não se trata de uma ação espontânea, que ganha volume em cadeia. São organizações criminosas com distribuição nacional, literalmente do Rio Grande do Sul ao Amazonas.”[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Até agora, 25 mandados de busca e apreensão foram realizados em oito Estados – Amazonas, Ceará, Goiás, Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. A operação envolveu mais de 20 promotores de justiça ligados a grupos de combate ao crime organizado do MP, além de dezenas de policiais.

De acordo com Santos, os grupos atuam a partir de uma dinâmica de disputa e competição. Quanto maior for atenção midiática por conta dos ataques e maior for seu número de curtidas e compartilhamentos, maior é o prestígio entre os “rivais”.

“Eles querem notoriedade, competem entre si e agem como gangues de pichadores, em que uma quer sempre aparecer mais do que a outra.”

“Eles não sabem explicar o porquê do preconceito como estratégia de reconhecimento”, prossegue o promotor. “Indagados, dizem apenas que usam ‘humor negro’.”

Aliciamento de menores

De acordo com Santos, que recebeu a reportagem em sua sala na 1ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, apenas três menores de idade foram identificados – dois deles confessaram participação nos ataques.

“Todas as atividades mais importantes, como o aliciamento de participantes e a coordenação dos grupos que fizeram os ataques, partiram de adultos”, diz Santos.

Ele explica que os administradores dos grupos “pescam” novos membros em salas de batepapo e páginas com conotação racial. “Mesmo aquelas com tom aparentemente de brincadeira, como ‘nega maluca’. Quem faz comentários racistas por ali é convidado pelos organizadores para participar de suas páginas. E ser convidado traz status.”

Os suspeitos mapeados pelo Ministério Público são investigados por crimes de injúria qualificada, racismo, organização criminosa e, eventualmente, aliciamento de menores.

A investigação continua. “Puxamos o rabo do gato e veio um tigre”, afirma. “Os primeiros suspeitos ouvidos entregaram muita gente.”

“Há uma rotatividade muito alta. Os grupos aparecem, ganham notoriedade, e rapidamente são invadidos por infiltrados de grupos rivais, que os denunciam até que sejam apagados pelo Facebook”, diz. “Aí tudo começa outra vez – mas os rastros para as investigações ficam.”

Segundo o promotor, logo após os ataques à jornalista, os comentários dentro do grupo “pareciam comemoração de jogo de futebol”.

“Detectamos até postagens dizendo que eles alavancaram a carreira da Maju, reivindicando para si a fama da apresentadora. É coisa de gente imatura, não parece o perfil de um neonazista, que quer fomentar ideias e reforçar uma ideologia”, diz.

Ele ressalta, entretanto, que isso não minimiza o gesto dos grupos.

“A ação não deixa de ser perigosa, porque enceja o aumento de ideias preconceituosas e isso funciona como bola de neve. Os neonazistas, por investigações antigas nossas, costumam chamar pessoas com essa tendência para participar inclusive de homicídios ou agressões nas ruas.”

‘Pirâmide do racismo’

A reportagem indaga: “Além das figuras famosas, centenas ou milhares de negros anônimos são vítimas de racismo diariamente, online ou offline. Como a justiça tem encarado a questão?”

Segundo o promotor, o racismo não tem a atenção que merece em delegacias, promotorias e tribunais.

“Os procuradores, os juizes, os policiais, ainda não se sensibilizaram, a meu ver, da maneira adequada para o crime de racismo. Muitas vezes, dá-se mais atenção a delitos patrimoniais, sem violência, do que ao racismo. Em alguns países, entretanto, ele é considerado crime a humanidade.”

Santos, que em 2004 conduziu uma investigação sobre racismo no extinto Orkut, questiona o próprio Ministério Público. “As cúpulas das instituições, falo especificamente da minha, o MP de São Paulo, têm que se estruturar melhor e não deixar que investigações como essa sejam ações isoladas, mas ações institucionalizadas”, diz.

Ele prossegue: “Há uma pirâmide de base muito larga composta pelo número de crimes e um vértice muito estreito que é o número de condenações definitivas. São pouquíssimas no Brasil”.

“No dia a dia, o racismo é praticado a cada minuto em cada bairro ou quarteirão. É um crime de pouca visibiliadde, que provoca ainda pouca sensibilização.”

‘Fakes’ mapeáveis

Em julho deste ano, uma foto de Maju no perfil do Jornal Nacional foi alvo de dezenas de ofensas em julho deste ano.

“Macaca”, “volta para a senzala”, “fundo de frigideira”, “tapete de mecânico” e “Estou vendendo essa escrava a R$ 200” foram alguns dos comentários – que geraram indignação entre internautas e colegas de emissora, que criaram a hashtag #SomosTodosMajuCoutinho em defesa da jornalista.

Além Maju, que apresenta a previsão do tempo no telejornal, as atrizes Taís Araújo e Sharon Menezes também foram alvo de ataques similares recentemente.

“Não sabemos se os ataques recentes a outras atrizes negras têm relação com esses grupos. É possível que sim, mas há chance de terem sido realizados por pessoas inspiradas na repercussão dos primeiros e da aparente impunidade aos autores.”

“A investigação mostra que é possível chegar aos responsáveis, mesmo que escondidos atrás de fotos ou nomes falsos. Só um dos 12 investigados usava perfil verdadeiro. Temos métodos de investigação, provados neste caso.”

Na quinta-feira, foram apreendidos computadores e smartphones nas casas e locais de trabalho dos 12 suspeitos de participar de ataques racistas à jornalista Maria Júlia Coutinho, em julho deste ano.

“A internet não é um oceano de impunidade”, diz o promotor.