A pior direita: Bolsonaro quer ser Piñera, mas é um Hugo Chávez de sinal trocado

Cópia à direita de Chávez, presidente flerta com a repressão no único polo de extrema direita da região e faz o Brasil perder a liderança no continente.

GOVERNOS LIBERAIS DE DIREITA estão na moda na América Latina. Mesmo com a onda conservadora, Jair Bolsonaro ocupa uma posição singular. O fator de espanto é o radicalismo do governo Bolsonaro, único polo de extrema direita da região desde o final do ciclo de ditaduras militares, na década de 1980.

Após os anos de domínio da esquerda durante a “onda rosa” da virada do milênio, que chegou como alternativa ao neoliberalismo dos anos 1990, a região virou o volante radicalmente. Hoje, do cone sul à América do Norte, com exceção do recém-chegado López Obrador no México, a maioria dos governos se encaixa no espaço que ocupa o novo PSDB – bem mais para João Doria do que para Fernando Henrique Cardoso. No entanto, o partido do atual presidente, o PSL, não tem nada dessa centro-direita, que até virou exemplo de moderação no Brasil diante dos meses de barbárie em 2019.

O nível baixo de política praticado por Bolsonaro fez até o autoritário e desprestigiado presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, trazer uma análise pertinente. Em uma rara entrevista a um veículo brasileiro, o líder chavista, acostumado a refutar fatos e críticas, disse à Folha de S.Paulo, que seu desafeto brasileiro é um “extremista ideológico”.

Maduro não compareceu à posse de Bolsonaro em janeiro, a pedido da própria cúpula de governo. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, chegou a dizer que o chavista não havia sido convidado para a cerimônia “em respeito ao povo venezuelano”, mas acabou desmentido pelo próprio Itamaraty e pela chancelaria em Caracas. O Ministério confirmou que, na realidade, os convites existiram, mas foram retirados a pedido da nova equipe.

Só mesmo o radicalismo de Bolsonaro seria classificado como extremista por um político que é justamente guiado por uma pauta ideológica agressiva, ainda que com sinal trocado. Maduro disse ainda que seu equivalente brasileiro não é um político “com ‘p’ maiúsculo”. Em uma gestão com discurso falocêntrico, a declaração pode até acabar sendo entendida pelo governo de outra forma.

Bolsonaro não está sozinho em contar com o rechaço de Maduro e, à primeira vista, talvez pudesse parecer que ele seguiria o script da vizinhança: um longevo governo de esquerda perde credibilidade e se vê envolvido em acusações de corrupção; a economia desaba; a população se entorpece de indignação; e um projeto desconhecido de oposição começa a se anunciar como antídoto. Bolsonaro e suas pitorescas figuras-satélite surfaram nessa mesma onda, com uma diferença crucial: cruzaram a linha do absurdo antes mesmo de tomar posse.

Só mesmo o radicalismo de Bolsonaro seria classificado como extremista por um político como Maduro, também guiado por uma pauta ideológica agressiva.

Neoliberal de pai e mãe, o presidente argentino Mauricio Macri foi o primeiro a fazer contato com o capitão recém-eleito. Logo em 16 de janeiro, três semanas depois da posse, o empresário milionário desembarcou em Brasília para falar do Mercosul (apesar de o ministro da Economia, Paulo Guedes, ter dito que o tema não seria prioridade), da Venezuela e das parcerias a serem feitas com os também liberais Chile, Colômbia, Equador, Peru e Paraguai.

Para o argentino, a ida ao Brasil também foi um pedido de ajuda. Vendo seu país com quase 50% de inflação acumulada, desemprego em alta e aumento da pobreza, Macri já começava a juntar os cacos para as eleições presidenciais de outubro. Mas a estratégia não resistiu à toxicidade de Bolsonaro. Mesmo com o triunfo da Argentina nas negociações que culminaram na primeira etapa de acordo entre o Mercosul e a União Europeia, o presidente foi massacrado nas eleições primárias. Na Argentina, as primárias ocorrem meses antes do primeiro turno – que será em 27 de outubro – para eliminar chapas com menos de 1,5% nas intenções de votos. Em 2019, a chapa de Alberto Fernández e Cristina Kirchner somou 47% dos votos, frente a 33% da chapa de Macri.

Bolsonaro se sentiu intimidado pelo possível retorno da esquerda no país vizinho, estudando rever o acordo com o Mercosul. Na reta final de agosto, suas falas sepultaram o esforço do bloco. Desprezando a crise ambiental mais grave dos últimos anos, entrou em desavença com Emmanuel Macron. O mandatário francês, que já torcia o nariz para o acordo entre europeus e sul-americanos, afirmou que na “situação atual”, o pacto não sai.

Chavismo à brasileira

O embrião do bolsonarismo começou na esquerda. Durante a campanha – cheia de memes toscos, montagens chamativas e informações falsas –, era comum ver imagens dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff ao lado dos finados Hugo Chávez e Fidel Castro. As mensagens viralizaram nas redes sociais acompanhadas de textos conspiratórios com presságios de uma aliança globalista liderada pelo PT e o Foro de São Paulo.

As mentiras criavam uma falsa ideia de “unidade opositora”, facilitando o trabalho de desprestigiar, numa tacada só, tudo o que não fosse próximo do delírio bolsonarista. A partir desse ponto, tudo estava “à esquerda”. Os críticos, os dados, a ONU, a revista The Economist, o Papa, o jornalista Reinaldo Azevedo e até mesmo os preceitos liberais dos novos presidentes que Jair Bolsonaro viria a bajular.

Mas, ainda que jamais vá admitir, Bolsonaro é uma cópia desajeitada, liberalesca e à direita de uma figura de esquerda: Hugo Chávez. São militares, ex-paraquedistas, anti-imprensa, anticiência, autoritários, homofóbicos, misóginos, populistas, nacionalistas. Apresentaram-se como alternativas antissistema, são contra o multilateralismo, devotos de causas religiosas, pautados por conspirações, apelam a um “perigo estrangeiro”, invocam pautas ideológicas e referem-se aos EUA o tempo todo.

Hoje um dos alvos mais frequentes de críticas de Bolsonaro e de seus seguidores, o líder venezuelano já chegou a ser aplaudido pelo capitão reformado em uma entrevista em 1999 à Folha de S.Paulo. Ele afirmou que o bolivariano era “uma esperança para a América Latina”, comparando-o aos militares que governaram o Brasil de 1964 a 1985. Sem poupar elogios, o então deputado disse que, assim como o “admirável” Chávez, não era anticomunista. “Gostaria que essa filosofia [militarista] chegasse ao Brasil. Acho ele [Chávez] ímpar”.

Maduro, hoje o substituto sem carisma de Chávez, disse na reportagem divulgada na segunda-feira, 16 de setembro, que Bolsonaro “não conhece a história da América Latina nem da Venezuela”. Ao que parece, o capitão reformado parece dar razão aos líderes controversos através do tempo.

Na época de sua campanha à presidência, Bolsonaro já havia subvertido o discurso – não sem antes dizer que a antiga reportagem era mentirosa. Nem mesmo o que separava o bolsonarismo do discurso chavista, o “temor imperialista” durou. Com o que o governo chamou de “ataques” de lideranças europeias, o apelo à soberania brasileira foi muito usado, principalmente em redes sociais.

Com o argumento de que a Amazônia está sob ameaça e de que deve ser um assunto exclusivo do Brasil, houve até quem questionasse os dados da Nasa. Tudo em nome de blindar o governo e suas mentiras.

É fácil ver a hipocrisia. Os mesmos trolls – robóticos ou não – que desmerecem a ajuda da Europa pedindo em, caixa alta, que a Venezuela seja invadida. Arma no quintal dos outros é refresco.

Bolsonaro repete Chávez

Em 2009, a juíza venezuelana María Lourdes Afiuni foi detida minutos após conceder liberdade ao empresário Eligio Cedeño, em prisão preventiva há três anos por uma acusação de corrupção. A medida desagradou Chávez. No dia seguinte, ele falou ao público que deveriam prender Afiuni “por 30 anos” e que, segundo a filosofia de Simón Bolívar, “os que tomam um só centavo do tesouro público deveriam ser fuzilados e os juízes que não condenam esses casos, também”. A juíza ficou presa em regime fechado, sem qualquer julgamento, por quatro anos, e segue sendo alvos de processos.

Comentários favoráveis à detenção de quem julga como oposição também saíram da boca de Bolsonaro. Ao sugerir que o jornalista Glenn Greenwald poderia pegar “uma cana” no Brasil por conta das reportagens sobre a Lava Jato, o presidente brasileiro age como Chávez. É o que pensa o relator especial para a liberdade de expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Edson Lanza.

Em entrevista à BBC News, o jurista afirmou que Bolsonaro abandona “rapidamente” a defesa da liberdade de imprensa quando incomodado. E tem sido assim desde os primeiros meses: se o governo não gosta, a culpa é do jornalista, cuja reputação nenhum membro do governo tem vergonha de tentar arruinar.

No caso de Chávez, toda a culpa recaía sobre os EUA. Já para Bolsonaro, a culpa é da esquerda global. E assim o discurso vai.

A luta contra a razão tampouco é pioneira. Chávez também atacou a educação, cercando universidades autônomas com o aparelhamento do acesso ao ensino e seu conteúdo. Já sob Maduro, quando a repressão se intensificou, a situação de luta pela liberdade de ensino e formação independente foi reunida em um relatório denso, publicado pela Coalizão de Cátedras e Centros de Direitos Humanos. Como consequência da crise que afeta o ensino e a ciência, a migração venezuelana, que já supera os 3 milhões, acarreta em uma fuga de cérebros.

Diferentemente de Chávez, que governou de 1999 a 2013, quando morreu vítima de um câncer, Bolsonaro e seu desastre têm menos de um ano de vida – tempo suficiente para que um ministro da Educação já tenha caído, o Enem tenha sido posto em xeque, o MEC esteja sob o comando de um tenente brigadeiro e tenhamos uma intensa fuga de cérebros para chamar de nossa. À la Chávez, Bolsonaro também interferiu em uma decisão democrática em âmbito acadêmico. Ignorando os resultados das consultas e votações internas, indicou reitores e interventores de sua preferência em pelo menos oito universidades e colégios federais.

O ativista da oposição venezuelana, Edgar Baptista, conta que os governos só são diferentes no plano econômico e nas bases eleitorais. Hoje vivendo em Santiago por conta da repressão em Caracas, Baptista diz que sobram semelhanças. “Nos dois governos, as alas ideológica e militar convivem, ainda que não se gostem. Os dois discursos atacam a corrupção, vendendo uma ideia de antipolítica. E os dois, por meio da política, buscam seus próprios privilégios.”

O líder social também cita o início parecido na política externa dos dois. “Bolsonaro anunciou a saída da Unasul e logo em seguida se juntou aos liberais de região para criar o Prosul. Lembra muito o que Chávez fez em 2006, quando saiu da Comunidade Andina de Nações, atacando o livre-comércio. Os dois têm dificuldade de trabalhar com o que já existe e de manter a institucionalidade”.

No caso de Hugo Chávez, toda a culpa recai sobre os Estados Unidos. Já para Bolsonaro, a culpa é da esquerda global. E assim o discurso vai.

O discurso do ódio que está envenenando o Brasil

O discurso do ódio que está envenenando o Brasil

Um jovem protesta contra a feminista Judith Butler, o dia 8 de novembro passado em São Paulo.

A caça às bruxas de grupos radicais contra artistas, professores, feministas e jornalistas se estende pelo país. Mas as pesquisas dizem que os brasileiros não são mais conservadores

Artistas e feministas fomentam a pedofilia. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o bilionário norte-americano George Soros patrocinam o comunismo. As escolas públicas, a universidade e a maioria dos meios de comunicação estão dominados por uma “patrulha ideológica” de inspiração bolivariana. Até o nazismo foi invenção da esquerda. Bem-vindos ao Brasil, segunda década do século XXI, um país onde um candidato a presidente que faz com que Donald Trump até pareça moderado tem 20% das intenções de voto.

 

No Brasil de hoje mensagens assim martelam diariamente as redes sociais e mobilizam exaltados como os que tentaram agredir em São Paulo a filósofa feminista Judith Butler, ao grito de “queimem a bruxa”. Neste país sacudido pela corrupção e a crise política, que começa a sair da depressão econômica, é perfeitamente possível que a polícia se apresente em um museu para apreender uma obra. Ou que o curador de uma exposição espere a chegada da PF para conduzi-lo a depor forçado ante uma comissão parlamentar que investiga os maus-tratos à infância.

“Isto era impensável até três anos atrás. Nem na ditadura aconteceu isto.” Depois de uma vida dedicada a organizar exposições artísticas, Gaudêncio Fidelis, de 53 anos, se viu estigmatizado quase como um delinquente. Seu crime foi organizar em Porto Alegre a exposição QueerMuseu, na qual artistas conhecidos apresentaram obras que convidavam à reflexão sobre o sexo. Nas redes sociais se organizou tal alvoroço durante dias, com o argumento de que era uma apologia à pedofilia e à zoofilia, que o patrocinador, o Banco Santander, ante a ameaça de um boicote de clientes, decidiu fechá-la. “Não conheço outro caso no mundo de uma exposição destas dimensões que tenha sido encerrada”, diz Fidelis.

O calvário do curador da QueerMuseu não terminou com a suspensão da mostra. O senador Magno Malta (PR-ES), pastor evangélico conhecido por suas reações espalhafatosas e posições extremistas, decidiu convocá-lo para depor na CPI que investiga os abusos contra criança. Gaudêncio se recusou em um primeiro momento e entrou com um pedido de habeas corpus no STF que foi parcialmente deferido. Magno Malta emitiu então à Polícia Federal um mandado de condução coercitiva do curador. Gaudêncio se mostrou disposto a comparecer, embora entendesse que, mais que como testemunha, pretendiam levá-lo ao Senado como investigado. Ao mesmo tempo, entrou com um novo pedido de habeas corpus no Supremo para frear o mandado de conduçãocoercitiva. A solicitação foi indeferida na sexta-feira passada pelo ministro Alexandre de Moraes. Portanto, a qualquer momento Gaudêncio espera a chegada da PF para levá-lo à força para Brasília.

“O senador Magno Malta recorre a expedientes típicos de terrorismo de Estado como meio de continuar criminalizando a produção artística e os artistas”, denuncia o curador. Ele também tem palavras muito duras para Alexandre de Moraes, até há alguns meses ministro da Justiça do Governo Michel Temer, por lhe negar o último pedido de habeas corpus: “A decisão do ministro consolida mais um ato autoritário de um estado de exceção que estamos vivendo e deve ser vista como um sinal de extrema gravidade”. Fidelis lembra que o próprio Ministério Público de Porto Alegre certificou que a exposição não continha nenhum elemento que incitasse à pedofilia e que até recomendou sua reabertura.

Entre as pessoas chamadas à CPI do Senado também estão o diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo e o artista que protagonizou ali uma performance em que aparecia nu. Foi dias depois do fechamento do QueerMuseu e os grupos ultraconservadores voltaram a organizar um escândalo nas redes, difundindo as imagens de uma menina, que estava entre o público com sua mãe e que tocou no pé do artista. “Pedofilia”, bramaram de novo. O Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito e o próprio prefeito da cidade, João Doria (PSDB), se uniu às vozes escandalizadas.

Se não há nenhum fato da atualidade que justifique esse tipo de campanha, os guardiões da moral remontam a muitos anos atrás. Assim aconteceu com Caetano Veloso, de quem se desenterrou um velho episódio para recordar que havia começado um relacionamento com a que depois foi sua esposa, Paula Lavigne, quando ela ainda era menor de idade. “#CaetanoPedofilo” se tornou trending topic. Mas neste caso a Justiça amparou o músico baiano e ordenou que parassem com os ataques.

A atividade de grupos radicais evangélicos e de sua poderosa bancada parlamentar (198 deputados e 4 senadores, segundo o registro do próprio Congresso) para desencadear esse tipo de campanha já vem de muito tempo. São provavelmente os mesmos que fizeram pichações recentes no Rio de Janeiro com o slogan “Bíblia sim, Constituição, não”. Mas o verdadeiramente novo é o aparecimento de um “conservadorismo laico”, como o define Pablo Ortellado, filósofo e professor de Gestão de Políticas Públicas da USP. Porque os principais instigadores da campanha contra o Queermuseu não tinham nada a ver com a religião. O protagonismo, como em muitos outros casos, foi assumido por aquele grupo na faixa dos 20 anos que há um ano, durante as maciças mobilizações para pedir a destituição da presidenta Dilma Rousseff, conseguiu deslumbrar boa parte do país.

Com sua desenvoltura juvenil e seu ar pop, os rapazes do Movimento Brasil Livre(MBL) pareciam representar a cara de um país novo que rejeitava a corrupção e defendia o liberalismo econômico. Da noite para o dia se transformaram em figuras nacionais. Em pouco mais de um ano seu rosto mudou por completo. O que se apresentava como um movimento de regeneração democrática é agora um potente maquinário que explora sua habilidade nas redes para difundir campanhas contra artistas, hostilizar jornalistas e professores apontados como de extrema esquerda ou defender a venda de armas. No intervalo de poucos dias o MBL busca um alvo novo e o repisa sem parar. O mais recente é o jornalista Guga Chacra, da TV Globo, agora também  classificada de “extrema esquerda”. O repórter é vítima de uma campanha por se atrever a desqualificar -em termos muito parecidos aos empregados pela maioria dos meios de comunicação de todo o mundo-, 20.000 ultradireitistas poloneses que há alguns dias se manifestaram na capital do pais exigindo uma “Europa branca e católica”.

Além de sua milícia de internautas, o MBL conta com alguns apoios de renome. Na política, os prefeitos de São Paulo, João Doria, e de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr., assim como o até há pouco ministro das Cidades, Bruno Araújo, os três do PSDB. No âmbito intelectual, filósofos que se consideram liberais, como Luiz Felipe Pondé. Entre os empresários, o dono da Riachuelo, Flávio Rocha, que se somou aos ataques contra os artistas com um artigo na Folha de S. Paulo no qual afirmava que esse tipo de exposição faz parte de um “plano urdido nas esferas mais sofisticadas do esquerdismo”. O objetivo seria conquistar a “hegemonia cultural como meio de chegar ao comunismo”, uma estratégia diante da qual “Lenin e companhia parecem um tanto ingênuos”, segundo escreveu Rocha em um artigo intitulado O comunista está nu.

“Não é algo específico do Brasil”, observa o professor Pablo Ortellado. “Este tipo de guerras culturais está ocorrendo em todo o mundo, sobretudo nos EUA, embora aqui tenha cores próprias”. Um desses elementos peculiares é que parte desses grupos, como o MBL, se alimentou das mobilizações pelo impeachment e agora “aproveita os canais de comunicação então criados, sobretudo no Facebook”, explica Ortellado. “A mobilização pelo impeachment foi transversal à sociedade brasileira, só a esquerda ficou à margem. Mas agora, surfando nessa onda, criou-se um novo movimento conservador com um discurso antiestablishment e muito oportunista, porque nem eles mesmos acreditam em muitas das coisas que dizem”. A pauta inicial, a luta contra a corrupção, foi abandonada “tendo em vista de que o atual governo é tão ou mais corrupto que o anterior”. Então se buscaram temas novos, desde a condenação do Estatuto do Desarmamento às campanhas morais, que estavam completamente ausentes no início de grupos como o MBL e que estão criando um clima envenenado no país. “É extremamente preocupante. Tenho 43 anos e nunca tinha vivido uma coisa assim”, confessa Ortellado. “Nem sequer no final da ditadura se produziu algo parecido. Naquele momento, o povo brasileiro estava unido.”

O estranho é que a intensidade desses escândalos está oferecendo uma imagem enganosa do que na realidade pensa o conjunto dos brasileiros. Porque, apesar desse ruído ensurdecedor, as pesquisas desmentem a impressão de que o país tenha sucumbido a uma onda de ultraconservadorismo. Um estudo do instituto Ideia Big Data, encomendado pelo Movimento Agora! e publicado pelo jornal Valor Econômico, revela que a maioria dos brasileiros, em cifras acima dos 60%, defendem os direitos humanos, inclusive para bandidos, o casamento gay com opção de adotar crianças e o aborto. “Em questões comportamentais, nada indica que os brasileiros tenham se tornado mais conservadores”, reafirma Mauro Paulino, diretor do Datafolha. Os dados de seu instituto também são claros: os brasileiros que apoiam os direitos dos gays cresceram nos últimos quatro anos de 67% para 74%. Paulino explica que “sempre houve um setor da classe média em posições conservadoras” e que agora “se tornou mais barulhento”.

As investigações do Datafolha só detectaram um deslocamento para posições mais conservadoras em um aspecto: segurança. “Aí sim há uma tendência que se alimenta do medo crescente que se instalou em parte da sociedade”, afirma Paulino. Aos quase 60.000 assassinatos ao ano se somam 60% de pessoas que confessam viver em um território sob controle de alguma facção criminosa. Em quatro anos, os que defendem o direito à posse de armas cresceu de forma notória, de 30% a 43%. É esse medo o que impulsiona o sucesso de um candidato extremista como Jair Bolsonaro, que promete pulso firme sem contemplações contra a delinquência.

Causou muito impacto a revelação de que 60% dos potenciais eleitores de Bolsonaro têm menos de 34 anos, segundo os estudos do instituto de opinião. Apesar de que esse dado também deve ser ponderado: nessa mesma faixa etária, Lula continua sendo o preferido, inclusive com uma porcentagem maior (39%) do que a média da população (35%). “Os jovens de classe média apoiam Bolsonaro, e os pobres, Lula”, conclui Paulino. Diante da imagem de um país muito ideologizado, a maioria dos eleitores se move na verdade “pelo pragmatismo, seja apoiando os que lhe prometem segurança ou em alguém no que acreditam que lhes vai garantir que não perderão direitos sociais”.

Apesar de tudo, a ofensiva ultraconservadora está conseguindo mudar o clima do país e alguns setores se dizem intimidados. “O profundo avanço do fundamentalismo está criando um Brasil completamente diferente”, afirma Gaudêncio Fidelis. “Muita gente está assustada e impressionada.” Um clima muito carregado no qual, em um ano, os brasileiros deverão escolher novo presidente. O professor Ortellado teme que tudo piore “com uma campanha violenta em um país superpolarizado”.

     

 

O obscuro uso do Facebook e do Twitter como armas de manipulação política

As manobras nas redes se tornam uma ameaça que os governos querem controlar

A manipulação das redes sociais está afetando os processos políticos.
A manipulação das redes sociais está afetando os processos políticos.
Tudo mudou para sempre em 2 de novembro de 2010, sem que ninguém percebesse. O Facebook introduziu uma simples mensagem que surgia no feed de notícias de seus usuários. Uma janelinha que anunciava que seus amigos já tinham ido votar. Estavam em curso as eleições legislativas dos Estados Unidos e 60 milhões de eleitores vieram aquele teaser do Facebook. Cruzando dados de seus usuários com o registro eleitoral, a rede social calculou que acabaram indo votar 340.000 pessoas que teriam ficado em casa se não tivessem visto em suas páginas que seus amigos tinham passado pelas urnas. 

Dois anos depois, quando Barack Obama tentava a reeleição, os cientistas do Facebook publicaram os resultados desse experimento político na revista Nature. Era a maneira de exibir os músculos diante dos potenciais anunciantes, o único modelo de negócio da empresa de Mark Zuckerberg, e que lhe rende mais de 9 bilhões de dólares por trimestre. É fácil imaginar o quanto devem ter crescido os bíceps do Facebook desde que mandou para as ruas centenas de milhares de eleitores há sete anos, quando nem sequer havia histórias patrocinadas.

Há algumas semanas, o co-fundador do Twitter, Ev Williams, se desculpou pelo papel determinante que essa plataforma desempenhou na eleição de Donald Trump, ao ajudar a criar um “ecossistema de veículos de comunicação que se sustenta e prospera com base na atenção”. “Isso é o que nos torna mais burros e Donald Trump é um sintoma disso”, afirmou. “Citar os tuítes de Trump ou a última e mais estúpida coisa dita por qualquer candidato político ou por qualquer pessoa é uma maneira eficiente de explorar os instintos mais baixos das pessoas. E isso está contaminando o mundo inteiro”, declarou Williams.

“Citar a coisa mais estúpida que qualquer político diga é uma maneira de explorar os instintos mais baixos das pessoas. Isso está contaminando o mundo inteiro”, declarou o fundador do Twitter

Quando perguntaram a Zuckerberg se o Facebook tinha sido determinante na eleição de Trump, ele recusou a ideia dizendo ser uma “loucura” e algo “extremamente improvável”. No entanto, a própria rede social que ele dirige se vangloria de ser uma ferramenta política decisiva em seus “casos de sucesso” publicitários, atribuindo a si mesma um papel essencial nas vitórias de deputados norte-americanas ou na maioria absoluta dos conservadores britânicos em 2015.

O certo é que é a própria equipe de Trump quem reconhece que cavalgou para a Casa Branca nas costas das redes sociais, aproveitando sua enorme capacidade de alcançar usuários tremendamente específicos com mensagens quase personalizadas. Como revelou uma representante da equipe digital de Trump à BBC, o Facebook, o Twitter, o YouTube e o Google tinham funcionários com escritórios próprios no quartel-general do republicano. “Eles nos ajudaram a utilizar essas plataformas da maneira mais eficaz possível. Quando você está injetando milhões e milhões de dólares nessas plataformas sociais [entre 70 e 85 milhões de dólares no caso do Facebook], recebe tratamento preferencial, com representantes que se certificam em satisfazer todas as nossas necessidades”.

E nisso apareceram os russos

A revelação de que o Facebook permitiu que, a partir de contas falsas ligadas a Moscou, fossem comprados anúncios pró-Trump no valor de 100.000 dólares colocou sobre a mesa o lado negro da plataforma de Zuckerberg. Encurralado pela opinião pública e pelo Congresso dos Estados Unidos, a empresa reconheceu que esses anúncios tinham alcançado 10 milhões de usuários. No entanto, um especialista da Universidade de Columbia, Jonathan Albright, calculou que o número real deve ser pelo menos o dobro, fora que grande parte de sua divulgação teria sido orgânica, ou seja, viralizando de maneira natural e não só por patrocínio. A resposta do Facebook? Apagar todo o rastro. E cortar o fluxo de informações para futuras investigações. “Nunca mais ele ou qualquer outro pesquisador poderá realizar o tipo de análise que fez dias antes”, publicou o The Washington Post há uma semana. “São dados de interesse público”, queixou-se Albright ao descobrir que o Facebook tinha fechado a última fresta pela qual os pesquisadores podiam espiar a realidade do que ocorre dentro da poderosa empresa.

Esteban Moro, que também se dedica a buscar frestas entre as opacas paredes da rede social, critica a decisão da companhia de se fechar em vez de apostar na transparência para demonstrar vontade de mudar. “Por isso tentamos forçar que o Facebook nos permita ver que parte do sistema influi nos resultados problemáticos”, afirma esse pesquisador, que atualmente trabalha no Media Lab do MIT. “Não sabemos até que ponto a plataforma está projetada para reforçar esse tipo de comportamento”, afirma, em referência à divulgação de falsas informações politicamente interessadas.

“Seus algoritmos são otimizados para favorecer a difusão da publicidade. Corrigir isso para evitar a propagação de desinformação vai contra o negócio”, explica Moro

O Facebook anunciou que contará com quase 9.000 funcionários para editar conteúdos, o que muitos consideram um remendo em um problema que é estrutural. “Seus algoritmos estão otimizados para favorecer a difusão de publicidade. Corrigir isso para evitar a propagação de desinformação vai contra o negócio”, explica Moro. A publicidade, principal fonte de rendas do Facebook e do Google, demanda que passemos mais tempos conectados, interagindo e clicando. E para obter isso, essas plataformas desenvolvem algoritmos muito potentes que criaram um campo de batalha perfeito para as mentiras polícias, no qual proliferaram veículos que faturam alto viralizando falsidades e meia-verdades polariza

“É imprescindível haver um processo de supervisão desses algoritmos para mitigar seu impacto. E necessitamos de mais pesquisa para conhecer sua influência”, reivindica Gemma Galdon, especialista no impacto social da tecnologia e diretora da consultoria Eticas. Galdon destaca a coincidência temporal de muitos fenômenos, como o efeito bolha das redes (ao fazer um usuário se isolar de opiniões diferentes da sua), o mal-estar social generalizado, a escala brutal na qual atuam essas plataformas, a opacidade dos algoritmos e o desaparecimento da confiança na imprensa. Juntos, esses fatos geraram “um desastre significativo”. Moro concorda que “muitas das coisas que estão ocorrendo na sociedade têm a ver com o que ocorre nas redes”. E aponta um dado: “São o único lugar em que se informam 40% dos norte-americanos, que passam nelas três horas por dia”.

A propaganda informática é “uma das ferramentas mais poderosas contra a democracia”, segundo especialistas de Oxford, e por isso as redes “precisam se redesenhar para que a democracia sobreviva”

A diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, braço direito de Zuckerberg, defendeu a venda de anúncios como os russos, argumentando que se trata de uma questão de “liberdade de expressão”. Segundo a agência de notícias Bloomberg, o Facebook e o Google colaboraram ativamente em uma campanha xenófoba contra refugiados para que fosse vista por eleitores-chave nos estados em disputa. O Google também aceitou dinheiro russo para anúncios no YouTube e no Gmail. Não em vão, o Facebook tem pressionado há anos para que não seja afetado pela legislação que exige que a mídia tradicional seja transparente na contratação de propaganda eleitoral. Agora, o Senado pretende legislar sobre a propaganda digital contra a pressão dessas grandes plataformas tecnológicas, que defendem a autorregulação. Tanto o Twitter quanto o Facebook expressaram recentemente a intenção de serem mais transparentes nesta questão.

A responsabilidade do Twitter

Em meados deste ano, o Instituto de Internet da Universidade de Oxford publicou um relatório devastador, analisando a influência que as plataformas digitais estavam tendo sobre os processos democráticos em todo o mundo. A equipe de pesquisadores estudou o que aconteceu com milhões de publicações nos últimos dois anos em nove países (Brasil, Canadá, China, Alemanha, Polônia, Taiwan, Rússia, Ucrânia e Estados Unidos) e concluiu, entre outras coisas, que “os bots [contas automatizadas] podem influenciar processos políticos de importância mundial”.

Facebook, Twitter, YouTube e Google tinham funcionários com escritório próprio no quartel-general de Trump: “Quando você injeta tantos milhões, tem tratamento preferencial”

Nos EUA, os republicanos e a direita supremacista usaram exércitos de bots para “manipular consensos, dando a ilusão de uma popularidade on-line significativa para construir um verdadeiro apoio político” e para ampliar o alcance de sua propaganda. E concentraram seus esforços nos principais estados em disputa, que foram inundados com notícias de fontes não confiáveis. Em países como a Polônia e a Rússia, grande parte das conversas no Twitter é monopolizada por contas automatizadas. Em estados mais autoritários, as redes são usadas para controlar o debate político, silenciando a oposição e, nos mais democráticos, aparecem as cibertropas para intencionalmente contaminar as discussões. As plataformas não informam nem interferem porque colocariam “sua conta em risco”.

“Os bots utilizados para a manipulação política também são ferramentas eficazes para fortalecer a propaganda on-line e as campanhas de ódio. Uma pessoa, ou um pequeno grupo de pessoas, pode usar um exército de robôs políticos no Twitter para dar a ilusão de um consenso de grande escala”, afirma a equipe da Oxford. E concluem: “A propaganda informática é agora uma das ferramentas mais poderosas contra a democracia” e é por isso que as plataformas digitais “precisam ser significativamente redesenhadas para que a democracia sobreviva às redes sociais”.

Zuckerberg diz que é “loucura” pensar que o Facebook pode definir eleições, mas se gaba de fazer isso em seu próprio site

O Twitter também deletou conteúdo de valor potencialmente insubstituível que ajudaria a identificar a influência russa na eleição de Trump. Mais recentemente, pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia alertaram sobre o desenvolvimento de um mercado paralelo de bots políticos: as mesmas contas que antes apoiaram Trump, tentaram mais tarde envenenar a campanha na França a favor de Le Pen e, depois, produziram material em alemão colaborando com o partido neonazista Afd. Zuckerberg prometeu fazer o possível para “garantir a integridade” das eleições alemãs. Durante a campanha, sete das 10 notícias mais virais sobre a primeira-ministra alemã Angela Merkel no Facebook eram falsas. O portal ProPublica acaba de revelar que a rede social tolerou anúncios ilegais que espalhavam informações tóxicas contra o Partido Verde alemão.

Galdon trabalha com a Comissão Europeia, a qual considera “muito preocupada” nos últimos meses em dar uma resposta a esses fenômenos, pensando em um marco europeu de controle que, atualmente, está muito longe de ser concretizado. “Há quem aposte pela autorregulação, quem acredite que deve haver um órgão de supervisão de algoritmos como o dos medicamentos e até mesmo quem peça que os conteúdos sejam diretamente censurados”, diz a pesquisadora. Mas Galdon destaca um problema maior: “Dizemos às plataformas que precisam atuar melhor, mas não sabemos o que significa melhor. As autoridades europeias estão preocupadas, mas não sabem bem o que está acontecendo, o que mudar ou o que pedir exatamente”.

SAIR DA BOLHA

Tem sido muito discutido o verdadeiro impacto do risco das bolhas de opinião geradas pelas redes, depois do alerta do ativista Eli Pariser. “Esse filtro, que acaba reforçando nossos próprios argumentos, está sendo decisivo”, alerta Galdon. Recentemente, Sheryl Sandberg, do Facebook, disse que a bolha era menor em sua plataforma do que na mídia tradicional (embora tenha negado categoricamente que sua empresa possa ser considerada um meio de comunicação). Cerca de 23% dos amigos de um usuário do Facebook têm opiniões políticas diferentes desse amigo, de acordo com Sandberg.

“Sabemos que as dinâmicas do Facebook favorecem o reforço de opiniões, que tudo é exacerbado porque buscamos a aprovação do grupo, porque podemos silenciar pessoas das quais não gostamos, porque a ferramenta nos dá mais do que nós gostamos. E isso gera maior polaridade”, diz Esteban Moro. Um exemplo: um estudo recente do Pew Research Center mostrou que os políticos mais extremistas têm muito mais seguidores no Facebook do que os moderados. “Vivemos em regiões de redes sociais completamente fechadas, das quais é muito difícil sair”, afirma. E propõe testar o experimento de seus colegas do Media Lab, do MIT, que desenvolveram a ferramenta FlipFeed, que permite entrar na bolha de outro usuário do Twitter, vendo sua timeline: “É como se você fosse levado de helicóptero e lançado no Texas sendo eleitor de Trump. Assim você percebe o quanto vivemos em um ecossistema de pessoas que pensam exatamente como nós”.

Papa Francisco e o fim do populismo na América latina

Políticos Demagogia Blog do Mesquita

Fico com a certeza que com seus modos afáveis, a fala mansa, ambos mais incisivos que qualquer grito, o Papa Francisco enterrou de vez o populismo na América Latina.

O Papa ocupou todos os espaços. Se ele conclamou os jovens para irem às ruas contra a corrupção, que populista terá crédito para fazer o mesmo? Retirou a igreja latino americana da falaciosa Teoria da Libertação. Iremos notar de imediato a mudança nos artigos do Boff e cia.

Desde o sírio Gregório III, no século VIII, Francisco é o primeiro Papa não europeu a ocupar a cadeira do Vaticano.

Nas entrelinhas, claras de suas homilias, fica nítida a intenção do Papa de “fazer uma Igreja pobre para os pobres”.

Põe assim uma pá de cal nos atuais donos do poder, e bate de frente com a tentativa de um mundo globalizado e anômalo, controlado pelas oligarquias financeiras trinacionais.

Segundo  Gaetano Lettieri, professor de História do Cristianismo e das Religiões da Universidade La Sapienza, de Roma, “Francisco usa a simplificação como um desafio cultural para transmitir uma linguagem mais radical”.

Deixou sem bandeiras os políticos populistas que se apropriaram do discurso da miséria como demagogia eleitoreira.


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Jurista Luiz Flávio Gomes: ‘Barbosa é populista penal’

Direito Penal Juristas Luiz Flávio Gomes Blog do MesquitaPresidente do STF “acredita piamente” que juízes mais rigorosos e penas mais duras combatem a criminalidade, mas isso “é uma mentira”, avalia o doutor em Direito Penal e estudioso da área; juiz acrescenta que Joaquim Barbosa acreditou nessa teoria durante o ‘mensalão’, julgamento que teve, segundo ele, penas “fora dos padrões” de jurisprudência no Brasil; “Ele quis fazer do julgamento um caso exemplar de punição à criminalidade”

A escolha que o Brasil fez para combater a criminalidade é errada. A avaliação, do jurista Luiz Flávio Gomes, motivou a publicação do livro “Populismo penal midiático: caso mensalão, mídia disruptiva e Direito penal crítico” (editora Saraiva), escrito em parceria com a também jurista Débora de Souza de Almeida. Segundo ele, que concedeu entrevista ao 247, a tese de que o endurecimento da lei é a solução para a diminuição de crimes no País “é um engano”, uma “ilusão”.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Mesmo assim, com o apoio da mídia, diz ele, muitos juízes se envolvem com o populismo penal e acabam pensando apenas em penas mais graves, acreditando que esta seja a saída. “O que o Brasil está fazendo para combater o crime está errado e quem combate de maneira errada sofre as consequências. Esse é o problema do populismo: ele é enganoso, as pessoas se iludem e a criminalidade não melhora, está cada dia pior”, afirma Gomes, que já foi promotor, juiz e advogado.

Para o doutor em Direito Penal e estudioso da área – é fundador e presidente da Rede LFG de ensino – o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, é um exemplo de perfil do populismo penal. Numa entrevista concedida no final de fevereiro, Barbosa afirmou que os juízes brasileiros têm mentalidade “mais conservadora, pró status quo, pró impunidade”. Na opinião do jurista, “essa declaração é típica do populismo”.

Luiz Flávio Gomes afirma ainda que a teoria do populismo penal midiático foi aplicada por Barbosa durante o julgamento da Ação Penal 470, o ‘mensalão’. “Ele quis fazer do julgamento um caso exemplar de punição à criminalidade”, afirma. Por isso, acredita, foram definidas penas “fora dos padrões” de jurisprudência do Brasil. Para ele, esta é uma forma de o governo responder à sociedade que está fazendo algo contra a criminalidade.

Leia abaixo os principais trechos da conversa:

Me fale um pouco do que trata o livro.

A primeira coisa é entender isso [o populismo penal midiático]. Trata-se do seguinte: o Brasil vive hoje – há muito tempo, mas hoje está se agravando – uma crise de segurança muito grande. Os números só aumentam. Como reagir a essa criminalidade? De que maneira podemos reagir?

E há duas maneiras: fazendo políticas de prevenção, aí sim obtendo resultados, e pela repressão, que é a escolha que o Brasil fez. De que maneira o Brasil tem procurado combater o crime: envelhecimento da lei penal. Ou seja, com a lei mais dura, conseguimos combater a criminalidade. Mas isso é uma mentira, um engano, um engodo.

Sendo que tudo é aprovado pelo parlamento e a mídia apoia, pede o endurecimento das penas. E o que isso tem de efeitos concretos: praticamente zero, porque nenhum crime baixou. É o movimento populista dos anos 90 para cá. E por que é populista? Porque busca o consenso da população.

Que outra medida pode ser considerada populista dentro do campo penal?

Medidas contra crimes violentos e às vezes não violentos, como os crimes econômicos. Agora o que eu abordei no livro é o efeito que isso vem provocando nos juízes. Porque o juiz que se envolve com o populismo só pensa em penas mais graves, em penas mais graves. Ele também acredita que o endurecimento da lei é a solução.

E por que o senhor acha que o governo busca essa opção?

O governo faz isso porque é a medida mais barata. Quem não tem um plano de prevenção tem que dar um tipo de resposta para o povo. No caso do Brasil, o governo faz o que é mais fácil.

Recentemente, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, afirmou que os juízes no Brasil têm tendência à impunidade. Essa declaração faz dele um populista penal?

Essa declaração é típica do populismo. Ele quer que os juízes sejam mais rigorosos, que apliquem penas mais duras. Ele acredita piamente nisso, que a lei mais dura combate a criminalidade. E mais: ele acreditou nisso durante o processo do mensalão. Ele quis fazer do julgamento um caso exemplar de punição à criminalidade.

Na sua avaliação as penas do mensalão foram excessivas?

As penas do mensalão estão fora dos padrões da jurisprudência no Brasil. Por trás de tudo, está a avaliação de que punindo um, os demais não vão cometer crimes. Aí é que está o erro, não é assim que funciona. No Brasil, poucos são condenados.

Então o perfil do ministro Barbosa é de um populista…

Barbosa não é só populista, é reacionário, ele tem uma linha de desrespeito às garantias. Ele quis aplicar, por exemplo, uma pena de multa que não existe num determinado crime. Isso viola a garantia da legalidade, tanto que os outros ministros não concordaram. Em outro caso, para ele, o empate significa a condenação, o que no final se viu que não, que o empate era absolvição. Então foram vários movimentos que indicaram esse perfil populista.

Tanto que as entidades se manifestaram contra as declarações, o acusando também de não consultá-las antes de tomar decisões…

Essa é uma tendência autoritária, não consulta as entidades. Xinga as pessoas, xinga jornalistas, como se fosse o rei. Às vezes se comporta como um rei soberano, que tivesse imunidade. Não é assim. Ele desrespeita as pessoas.

O que o senhor achou da decisão que ele tomou na semana passada, negando dois pedidos à defesa da AP 470, um referente a mais prazo para apresentar recurso e outro sobre a consulta aos votos dos ministros?

Esta é uma decisão coerente com o que ele sempre fez: não vai dar prazo extra. Mas não descumpriu a lei. Já era de se esperar essa decisão.

Por que o senhor decidiu escrever o livro, o que mais o incomoda?

O que o Brasil está fazendo para combater o crime está errado e quem combate de maneira errada sofre as consequências. Esse é o problema do populismo: ele é enganoso, as pessoas se iludem e a criminalidade não melhora, está cada dia pior.
Gisele Federicce/Brasil 247

Papa Francisco e populismo na América Latina

Wojtyla varreu pra baixo do tapete o comunismo no leste europeu.

Francisco fará o mesmo, varrendo para além da Patagônia, o Peronismo, o Chavismo, o Lulismo e outras pragas populistas que infernizam a América Latina. Sábio Vaticano.


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A falência do Judiciário e a democracia no Brasil

A história demonstra a impossibilidade da existência de um Estado sem o funcionamento do judiciário. Sem esse poder para resolver os conflitos, o Estado não sobrevive nem como Estado nem como democracia.

Contudo não serei eu a passar o atestado de óbito do judiciário no Brasil. É inegável que todas as instâncias dos poderes no Brasil estão imersas em uma ciranda embalada por ineficiência, corrupção e nepotismo.

À essas mazelas, os brasileiros colocaram toda a esperança no Conselho Nacional de Justiça – CNJ – e, mais recentemente, diante de fatos inquietantes, na figura da corregedora Eliana Calmon.

A inacreditável, inexplicável e inaceitável demora nos processos, é outra questão que leva a população a desacreditar na prestação jurisdicional.

Não é mais admissível a existência de fora privilegiado para alguns, violentado o princípio da isonomia.
É suficiente o art.5º da Constituição Federal.
Para todos os brasileiros.

O Editor


[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]A falência do Judiciário é consequencia da vulnerável democracia representativa instituída pela burguesia na Constituição de 1988, que apesar de todos os vícios e defeitos, é o melhor regime político em comparação aos outros, por exemplo, as ditaduras hereditárias instituídas em Cuba e Coréia do Norte.

Deste modo, a poderosa ‘Mídia Brasileira’ é uma consequencia benéfica da democracia representativa, que fiscalizando as instituiçoes, tornou-se pilar de sustentação do regime democrático.

Outro lado, urge , visando o fortalecimento das instituições democráticas brasileiras, uma emenda à Constituição, para a implantação do ‘Voto Facultativo’, que diminuria consideravelmente os poderes dos políticos, principalmente daqueles que desapropriam os recursos públicos ou valendo-se da desigualdade social, mantêm-se no poder através de implementação de medidas paliativas, tão peculiares ao ‘Neopopulismo’ em moda na America Latina .

Esse mecanismo de fortalecimento dos regimes democráticos já funciona a contento na democracia norte-americana .

Outro passo importante para o fortalecimento da democracia brasileira e, consequentemente, para o fortalecimento das instituições democráticas, especialmente o Judiciário, seria a introdução na carta constitucional de uma emenda visando a obrigatoriedade de ‘concurso público’ para o ingresso na magistratura em segundo e terceiro graus, caso em que os juízes que ingressassem aos tribunais superiores por esse critério teriam independência nos julgamentos dos processos, totalmente livres da interferência de políticos, que pela legislação atual os indicam para serem desembargadores ou ministros.

Por fim, é agregando valores para o fortalecimento da instituições democráticas que amadureceremos a nossa democracia, construindo um país menos desigual para as novas gerações.
João Luiz Camandaroba Sobrinho/Tribuna da Imprensa


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Orestes Quércia, a morte e a morte da memória

Millor Fernandes tem razão. Na morte é a única oportunidade em que todos falam bem de nós. Ou algo assim.

Vejam o caso do notório Orestes Quércia, recém falecido.

Tanto no velório, como agora na missa de 7º Dia, o mínimo que amigos (?) desafetos e opositores contumazes propuseram nas loas desfiadas ao “decujus’, foi a canonização.

Fico imaginando o necrológio de Zé Dirceu, Delúbio Soares, Marcos Valério, “et caterva”!

O Editor


Sobre a missa de Quércia e ‘canonização dos mortos’

O brasileiro nasce e cresce sob a pele de homem. Mas fenece como santo.

Entre nós, a morte é de uma eficácia promocional hedionda.[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]

A morte lava biografias. Os cemitérios do país são hortas de virtudes.

O morto com defeitos é uma utopia. Tome-se o exemplo de Orestes Quércia.

Celebrou-se em São Paulo uma missa em memória do ex-governador paulista.

Deu-se nesta quarta (5), na Catedral da Sé. A lista de políticos que foram cultuar o morto impressiona pela diversidade.

Lá estavam José Serra e Geraldo Alckmin, do PSDB –partido nascido de dissidência que largou o PMDB por suposta aversão aos métodos de Quércia.

Lá estava Michel Temer, com quem Quércia travou nos últimos anos de sua existência renhida disputa pelo controle do PMDB-SP.

Lá estava Gilberto Kassab, um ‘demo’ que ronda o espólio de Quércia e achega-se ao PMDB de Temer com ganas de neogovernista.

Lá estava Eduardo Suplicy, cujo partido, o PT, um dia chegou a considerar-se a antítese da política à moda Quércia.

Lá estava, por último, Paulo Maluf. Entre todas, talvez, a única presença sincera. Unia-o a Quércia pelo menos afinidade de estilos.

A morte não parece guiar-se por critérios lógicos. Ela canoniza a todos, sem distinção. Ela perdoa as fraquezas, purifica as nódoas.

Por sorte, a morte é democrática. Ela se distribui igualitariamente. Cedo ou tarde o pó une todo mundo na santidade dos túmulos.

blog Josias de Souza

Bolsa Celular?

Brasil: da série “me engana que eu gosto”!

Mais uma inovação populista e eleitoreira, só imaginável na taba dos Tupiniquins, agora dividida em dus outras tabas: o Absurdistão e o Vaselinastão.

O Editor


Se viável, bolsa-celular foi sonegada por 7 anos, diz PSDB

O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), disse estranhar a discussão de uma bolsa-celular às vésperas das eleições presidenciais.

Ele defendeu a convocação do ministro das Comunicações, Hélio Costa, ao Senado, para explicar os detalhes do projeto.

– Sou a favor da ampliação dos celulares para a população. Mas é uma coincidência fazer o programa antes de eleições. Se é assim tão viável, existiu uma sonegação de sete anos, já que o governo poderia ter dado o benefício em seu primeiro ano, e não no último. O ministro tem de vir aqui explicar o programa e mostrar que não é algo eleitoreiro.

blog do Noblat

Eleições 2010. Zé Serra ‘prega’ na missa em Aparecida

Eu não falei que a caravana ‘roliude’ estava na estrada das eleições, e que começariam as cenas inacreditáveis de candidatos em busca de votos?

A dona Dilma Rousseff já tomou banho de água de cheiro na Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador, foi ‘segurar’ a corda no Círio de Belém. O Zé Serra ocupou o púlpito da Basílica de Aparecida pra fazer uma ‘fezinha’ entre os fieis da padroeira do Brasil.

Os neobeatos Tupiniquins deveriam usar o mote: “Yes we cremos!”

Ô raça, né?

O editor


Serra injeta política em missa ‘dedicada’ à padroeira
Serra Missa em Aparecida 2009

Foto: Gilberto Marques

Não há quem desconheça a passagem bíblica em que Jesus, em rara erupção de fúria, põe para correr os vendilhões do templo.

Está no Novo Testamento. Tome-se o relato do apóstolo Mateus (capítulo 21, versículos 12 e 13).

Ele conta que Jesus ”expulsou todos os que vendiam e compravam no templo…”

“E derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas”. Em seguida, Jesus vociferou:

”Está escrito: a minha casa é casa de oração; mas vós fizestes dela covil de salteadores”.

Se tornasse hoje à Terra, Jesus não precisaria ser levado à cruz. Morreria antes, de desgosto.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Tombaria ao notar o modo como o templo vem sendo varejado pelos vendilhões da política.

Nesta segunda (12), por exemplo, o governador José Serra (PSDB) foi à Basílica de Aparecida do Norte (SP).

O presidenciável tucano participou da missa em comemoração ao dia da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.

Celebrou-a o arcebispo de Salvador, Dom Geraldo Magela Agnelo. Presentes algo em torno de 40 mil fiéis.

A alturas tantas, Dom Geraldo apresentou Serra aos devotos. Cedeu o microfone ao governador.

“O Brasil precisa de governantes que sejam íntegros, que sirvam ao povo, em vez de se servirem do povo”, Serra discursou.

Governantes “que tenham como preocupação central abrir oportunidades a nossas famílias…”

“…Oportunidades de trabalho, de cultura, em um ambiente de espiritualidade fraterna […]”.

Em abril do ano passado, Dom Geraldo dera declarações que levantaram a suspeita de que esconde sob a batina uma plumagem tucana.

Fervilhava nas manchetes o caso dossiê em que a Casa Civil, sob Dilma Rousseff, detalhara gastos sigilosos da presidência de FHC.

Questionado a respeito, o acerbepisto de Salvador soara inclemente: “Se for verdade, a gente fica perplexo…”

“…Não está comprovado, mas Deus queira que não haja tanta maldade assim no mundo…”

“…Tudo serve na época de eleições para os interesses que estão em jogo, sobretudo a mentira e a fraude…”

“…Tudo isso serve para alguém que queira se eleger a qualquer custo, não tem escrúpulos e não tem fundamentos éticos”.

Ao permitir que Serra injetasse política no templo de Nossa Senhora, o prelado demonstrou que, de fato, “tudo serve na época de eleições”.

A assessoria de Serra apressou-se em levar ao portal do governo de São Paulo a “notícia” de que o governador dera as caras em Aparecida.

“Serra saudou os peregrinos de todo o Brasil, que participaram das celebrações no Santuário”, informou o texto.

Em entrevista, o governador declarou-se “devoto” de Nossa Senhora. Algo até então insuspeitado.

No sábado (10), Dilma Rousseff, a rival petista de Serra, estivera na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador (BA).

No domingo (11), a ex-materialista Dilma, agora uma dedicada beata, desfilara sua candidatura na procissão do Círio de Nazaré, em Belém (PA).

Mantido esse ritmo, até o dia da eleição mesmo o mais jucundo dos incréus vai acabar acreditando em Deus. Ficou difícil acreditar em qualquer outra coisa.

blog Josias de Souza