A pior direita: Bolsonaro quer ser Piñera, mas é um Hugo Chávez de sinal trocado

Cópia à direita de Chávez, presidente flerta com a repressão no único polo de extrema direita da região e faz o Brasil perder a liderança no continente.

GOVERNOS LIBERAIS DE DIREITA estão na moda na América Latina. Mesmo com a onda conservadora, Jair Bolsonaro ocupa uma posição singular. O fator de espanto é o radicalismo do governo Bolsonaro, único polo de extrema direita da região desde o final do ciclo de ditaduras militares, na década de 1980.

Após os anos de domínio da esquerda durante a “onda rosa” da virada do milênio, que chegou como alternativa ao neoliberalismo dos anos 1990, a região virou o volante radicalmente. Hoje, do cone sul à América do Norte, com exceção do recém-chegado López Obrador no México, a maioria dos governos se encaixa no espaço que ocupa o novo PSDB – bem mais para João Doria do que para Fernando Henrique Cardoso. No entanto, o partido do atual presidente, o PSL, não tem nada dessa centro-direita, que até virou exemplo de moderação no Brasil diante dos meses de barbárie em 2019.

O nível baixo de política praticado por Bolsonaro fez até o autoritário e desprestigiado presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, trazer uma análise pertinente. Em uma rara entrevista a um veículo brasileiro, o líder chavista, acostumado a refutar fatos e críticas, disse à Folha de S.Paulo, que seu desafeto brasileiro é um “extremista ideológico”.

Maduro não compareceu à posse de Bolsonaro em janeiro, a pedido da própria cúpula de governo. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, chegou a dizer que o chavista não havia sido convidado para a cerimônia “em respeito ao povo venezuelano”, mas acabou desmentido pelo próprio Itamaraty e pela chancelaria em Caracas. O Ministério confirmou que, na realidade, os convites existiram, mas foram retirados a pedido da nova equipe.

Só mesmo o radicalismo de Bolsonaro seria classificado como extremista por um político que é justamente guiado por uma pauta ideológica agressiva, ainda que com sinal trocado. Maduro disse ainda que seu equivalente brasileiro não é um político “com ‘p’ maiúsculo”. Em uma gestão com discurso falocêntrico, a declaração pode até acabar sendo entendida pelo governo de outra forma.

Bolsonaro não está sozinho em contar com o rechaço de Maduro e, à primeira vista, talvez pudesse parecer que ele seguiria o script da vizinhança: um longevo governo de esquerda perde credibilidade e se vê envolvido em acusações de corrupção; a economia desaba; a população se entorpece de indignação; e um projeto desconhecido de oposição começa a se anunciar como antídoto. Bolsonaro e suas pitorescas figuras-satélite surfaram nessa mesma onda, com uma diferença crucial: cruzaram a linha do absurdo antes mesmo de tomar posse.

Só mesmo o radicalismo de Bolsonaro seria classificado como extremista por um político como Maduro, também guiado por uma pauta ideológica agressiva.

Neoliberal de pai e mãe, o presidente argentino Mauricio Macri foi o primeiro a fazer contato com o capitão recém-eleito. Logo em 16 de janeiro, três semanas depois da posse, o empresário milionário desembarcou em Brasília para falar do Mercosul (apesar de o ministro da Economia, Paulo Guedes, ter dito que o tema não seria prioridade), da Venezuela e das parcerias a serem feitas com os também liberais Chile, Colômbia, Equador, Peru e Paraguai.

Para o argentino, a ida ao Brasil também foi um pedido de ajuda. Vendo seu país com quase 50% de inflação acumulada, desemprego em alta e aumento da pobreza, Macri já começava a juntar os cacos para as eleições presidenciais de outubro. Mas a estratégia não resistiu à toxicidade de Bolsonaro. Mesmo com o triunfo da Argentina nas negociações que culminaram na primeira etapa de acordo entre o Mercosul e a União Europeia, o presidente foi massacrado nas eleições primárias. Na Argentina, as primárias ocorrem meses antes do primeiro turno – que será em 27 de outubro – para eliminar chapas com menos de 1,5% nas intenções de votos. Em 2019, a chapa de Alberto Fernández e Cristina Kirchner somou 47% dos votos, frente a 33% da chapa de Macri.

Bolsonaro se sentiu intimidado pelo possível retorno da esquerda no país vizinho, estudando rever o acordo com o Mercosul. Na reta final de agosto, suas falas sepultaram o esforço do bloco. Desprezando a crise ambiental mais grave dos últimos anos, entrou em desavença com Emmanuel Macron. O mandatário francês, que já torcia o nariz para o acordo entre europeus e sul-americanos, afirmou que na “situação atual”, o pacto não sai.

Chavismo à brasileira

O embrião do bolsonarismo começou na esquerda. Durante a campanha – cheia de memes toscos, montagens chamativas e informações falsas –, era comum ver imagens dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff ao lado dos finados Hugo Chávez e Fidel Castro. As mensagens viralizaram nas redes sociais acompanhadas de textos conspiratórios com presságios de uma aliança globalista liderada pelo PT e o Foro de São Paulo.

As mentiras criavam uma falsa ideia de “unidade opositora”, facilitando o trabalho de desprestigiar, numa tacada só, tudo o que não fosse próximo do delírio bolsonarista. A partir desse ponto, tudo estava “à esquerda”. Os críticos, os dados, a ONU, a revista The Economist, o Papa, o jornalista Reinaldo Azevedo e até mesmo os preceitos liberais dos novos presidentes que Jair Bolsonaro viria a bajular.

Mas, ainda que jamais vá admitir, Bolsonaro é uma cópia desajeitada, liberalesca e à direita de uma figura de esquerda: Hugo Chávez. São militares, ex-paraquedistas, anti-imprensa, anticiência, autoritários, homofóbicos, misóginos, populistas, nacionalistas. Apresentaram-se como alternativas antissistema, são contra o multilateralismo, devotos de causas religiosas, pautados por conspirações, apelam a um “perigo estrangeiro”, invocam pautas ideológicas e referem-se aos EUA o tempo todo.

Hoje um dos alvos mais frequentes de críticas de Bolsonaro e de seus seguidores, o líder venezuelano já chegou a ser aplaudido pelo capitão reformado em uma entrevista em 1999 à Folha de S.Paulo. Ele afirmou que o bolivariano era “uma esperança para a América Latina”, comparando-o aos militares que governaram o Brasil de 1964 a 1985. Sem poupar elogios, o então deputado disse que, assim como o “admirável” Chávez, não era anticomunista. “Gostaria que essa filosofia [militarista] chegasse ao Brasil. Acho ele [Chávez] ímpar”.

Maduro, hoje o substituto sem carisma de Chávez, disse na reportagem divulgada na segunda-feira, 16 de setembro, que Bolsonaro “não conhece a história da América Latina nem da Venezuela”. Ao que parece, o capitão reformado parece dar razão aos líderes controversos através do tempo.

Na época de sua campanha à presidência, Bolsonaro já havia subvertido o discurso – não sem antes dizer que a antiga reportagem era mentirosa. Nem mesmo o que separava o bolsonarismo do discurso chavista, o “temor imperialista” durou. Com o que o governo chamou de “ataques” de lideranças europeias, o apelo à soberania brasileira foi muito usado, principalmente em redes sociais.

Com o argumento de que a Amazônia está sob ameaça e de que deve ser um assunto exclusivo do Brasil, houve até quem questionasse os dados da Nasa. Tudo em nome de blindar o governo e suas mentiras.

É fácil ver a hipocrisia. Os mesmos trolls – robóticos ou não – que desmerecem a ajuda da Europa pedindo em, caixa alta, que a Venezuela seja invadida. Arma no quintal dos outros é refresco.

Bolsonaro repete Chávez

Em 2009, a juíza venezuelana María Lourdes Afiuni foi detida minutos após conceder liberdade ao empresário Eligio Cedeño, em prisão preventiva há três anos por uma acusação de corrupção. A medida desagradou Chávez. No dia seguinte, ele falou ao público que deveriam prender Afiuni “por 30 anos” e que, segundo a filosofia de Simón Bolívar, “os que tomam um só centavo do tesouro público deveriam ser fuzilados e os juízes que não condenam esses casos, também”. A juíza ficou presa em regime fechado, sem qualquer julgamento, por quatro anos, e segue sendo alvos de processos.

Comentários favoráveis à detenção de quem julga como oposição também saíram da boca de Bolsonaro. Ao sugerir que o jornalista Glenn Greenwald poderia pegar “uma cana” no Brasil por conta das reportagens sobre a Lava Jato, o presidente brasileiro age como Chávez. É o que pensa o relator especial para a liberdade de expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Edson Lanza.

Em entrevista à BBC News, o jurista afirmou que Bolsonaro abandona “rapidamente” a defesa da liberdade de imprensa quando incomodado. E tem sido assim desde os primeiros meses: se o governo não gosta, a culpa é do jornalista, cuja reputação nenhum membro do governo tem vergonha de tentar arruinar.

No caso de Chávez, toda a culpa recaía sobre os EUA. Já para Bolsonaro, a culpa é da esquerda global. E assim o discurso vai.

A luta contra a razão tampouco é pioneira. Chávez também atacou a educação, cercando universidades autônomas com o aparelhamento do acesso ao ensino e seu conteúdo. Já sob Maduro, quando a repressão se intensificou, a situação de luta pela liberdade de ensino e formação independente foi reunida em um relatório denso, publicado pela Coalizão de Cátedras e Centros de Direitos Humanos. Como consequência da crise que afeta o ensino e a ciência, a migração venezuelana, que já supera os 3 milhões, acarreta em uma fuga de cérebros.

Diferentemente de Chávez, que governou de 1999 a 2013, quando morreu vítima de um câncer, Bolsonaro e seu desastre têm menos de um ano de vida – tempo suficiente para que um ministro da Educação já tenha caído, o Enem tenha sido posto em xeque, o MEC esteja sob o comando de um tenente brigadeiro e tenhamos uma intensa fuga de cérebros para chamar de nossa. À la Chávez, Bolsonaro também interferiu em uma decisão democrática em âmbito acadêmico. Ignorando os resultados das consultas e votações internas, indicou reitores e interventores de sua preferência em pelo menos oito universidades e colégios federais.

O ativista da oposição venezuelana, Edgar Baptista, conta que os governos só são diferentes no plano econômico e nas bases eleitorais. Hoje vivendo em Santiago por conta da repressão em Caracas, Baptista diz que sobram semelhanças. “Nos dois governos, as alas ideológica e militar convivem, ainda que não se gostem. Os dois discursos atacam a corrupção, vendendo uma ideia de antipolítica. E os dois, por meio da política, buscam seus próprios privilégios.”

O líder social também cita o início parecido na política externa dos dois. “Bolsonaro anunciou a saída da Unasul e logo em seguida se juntou aos liberais de região para criar o Prosul. Lembra muito o que Chávez fez em 2006, quando saiu da Comunidade Andina de Nações, atacando o livre-comércio. Os dois têm dificuldade de trabalhar com o que já existe e de manter a institucionalidade”.

No caso de Hugo Chávez, toda a culpa recai sobre os Estados Unidos. Já para Bolsonaro, a culpa é da esquerda global. E assim o discurso vai.

Biden recebe dossiê recomendando suspensão de acordos entre EUA e governo Bolsonaro

POOL/GETTY IMAGES

O documento surge em momento de intensa expectativa sobre os próximos passos da relação entre Brasil e Estados Unidos sob o governo de Biden e da vice-presidente Kamala Harris

Quatro meses depois de fazer críticas públicas contra o desmatamento no Brasil, o presidente Joe Biden e membros do alto escalão do novo governo dos EUA receberam nesta semana um longo dossiê que pede o congelamento de acordos, negociações e alianças políticas com o Brasil enquanto Jair Bolsonaro estiver na Presidência.

O documento de 31 páginas, ao qual a BBC News Brasil teve acesso, condena a aproximação entre os dois países nos últimos dois anos e aponta que a aliança entre Donald Trump e seu par brasileiro teria colocado em xeque o papel de “Washington como um parceiro confiável na luta pela proteção e expansão da democracia”.

“A relação especialmente próxima entre os dois presidentes foi um fator central na legitimação de Bolsonaro e suas tendências autoritárias”, diz o texto, que recomenda que Biden restrinja importações de madeira, soja e carne do Brasil, “a menos que se possa confirmar que as importações não estão vinculadas ao desmatamento ou abusos dos direitos humanos”, por meio de ordem executiva ou via Congresso.

A mudança de ares na Casa Branca é o combustível para o dossiê, escrito por professores de dez universidades (9 delas nos EUA), além de diretores de ONGs internacionais como Greenpeace EUA e Amazon Watch.

Consultado pela BBC News Brasil, o Palácio do Planalto informou, via Secretaria de Comunicação, que não comentará o dossiê.

América Latina reage à alta da covid-19, mas Brasil segue inerte

Janeiro trouxe uma escalada de novos casos de covid-19 na América Latina.

Ainda não está claro se este é o início de uma segunda onda ou um agravamento da primeira após algumas semanas de trégua. Enquanto a região espera a chegada das primeiras doses da vacina —só Argentina, México, Chile e Costa Rica iniciaram campanhas de imunização—, a solução à disposição continua sendo a quarentena.

Os Governos, no entanto, terão que enfrentar a resistência social a novos confinamentos. Federico Rivas Molina e Sonia Corona contam como Buenos Aires estuda um “toque de recolher sanitário” e a Cidade do México fechou atividades não essenciais diante do aumento do número de leitos de UTI ocupados, mas nada fez o Brasil. Apesar dos números em alta e do atraso na vacinação, a maioria das autoridades brasileiras segue inerte.

Nos Estados Unidos, a jornada desta quarta-feira se adivinha wagneriana. Um grupo de senadores e congressistas republicanos planeja torpedear a certificação do democrata Joe Biden como vencedor das eleições presidenciais, prevista para ocorrer em uma sessão bicameral no Capitólio. A investida não tem perspectiva de se traduzir em nada mais do que uma manifestação da polarização.

Trump manteve o clima de tensão no ar, desta vez mirando seu número dois, o vice-presidente Mike Pence, que deve presidir a cerimônia. O nova-iorquino pediu que Pence use seu posto para impedir a confirmação de Biden, algo que não pode fazer.

Enquanto Trump se dedica a manobras sem efeito, o Estado da Geórgia define a margem de manobra que Biden terá sobre o Senado. O democrata já avançou com a vitória de Raphael Warnock em uma das duas vagas — o pastor evangélico fez história ao se tornar o primeiro senador negro a ser eleito neste Estado sulista. Se o outro candidato democrata vencer, o Senado ficará formado por 50 republicanos e 50 democratas (incluindo dois independentes), mas a próxima vice-presidenta, Kamala Harris, exercerá o voto decisivo nos casos de empate.

Em Brasília, o único tema é a sucessão no comando do Congresso, especialmente na Câmara dos Deputados. Com o objetivo de conter Jair Bolsonaro, a esquerda se aliou ao candidato do atual presidente, Rodrigo Maia, o deputado Baleia Rossi, um dos articuladores do impeachment de Dilma em 2016, contra o candidato do Planalto, Arhur Lira, explica Afonso Benites. Baleia Rossi formaliza nesta quarta sua candidatura. Para o cientista político Cláudio Couto, o apoio representa a tentativa de manter os Poderes independentes. “É uma aliança visando estabelecer a independência do Legislativo, ainda mais diante dos arroubos autoritários do Bolsonaro. Se ele se comportou até aqui dessa forma tendo o Congresso independente, imagina se não o tivesse”, avalia.

E a Rússia deu adeus a George Blake ao som do hino nacional e com as salvas da guarda nacional de honra. O legendário espião britânico, que trabalhou para a União Soviética na época culminante da Guerra Fria, antes de ser descoberto, condenado e de protagonizar uma fuga cinematográfica em 1966, recebeu na quarta-feira uma despedida notável. De Moscou, María R. Sahuquillo escreve sobre a morte do mítico agente duplo marca o ocaso de uma época de espionagem em que o fator humano era decisivo.

Enquanto Bolsonaro patina em se aproximar de Biden, oposição brasileira ganha terreno com democratas

Deputada Deb Haaland – Enviado climático e cotada para secretária do novo presidente se aproximaram de lideranças políticas indígenas do Brasil

Se o presidente brasileiro Jair Bolsonaro demorou 38 dias para reconhecer a vitória de Joe Biden à Presidência dos Estados Unidos e patina para estabelecer conexões com os democratas, a oposição ao seu governo no Brasil tem se mostrado mais efetiva em construir pontes com a nova administração, que começará oficialmente no dia 20 de janeiro.

E uma parte importante dessa conexão tem sido operada por meio de lideranças indígenas, com quem Bolsonaro tem acumulado embates.

A última prova disso é o lançamento de uma parceria entre a parlamentar americana democrata Deb Haaland e a deputada federal brasileira Joênia Wapichana (Rede-RR).

Na semana passada, as duas conversaram pelo telefone para coordenar esforços interamericanos para avançar em pautas de respeito aos direitos dos povos nativos e proteção ao meio ambiente nos dois países.

“Continuaremos colocando Bolsonaro na fogueira enquanto ele cometer violações dos direitos humanos, seguir no esforço para destruir a Floresta Amazônica e colocar nosso planeta em risco de um desastre climático ainda maior”, afirmou Haaland em nota enviada à BBC News Brasil.

Entusiasta da gestão do republicano Donald Trump, que tentou sem sucesso a reeleição, Bolsonaro já havia se posicionado publicamente em favor de um segundo mandato para Trump, de quem se disse fã.

Seu filho e deputado federal, Eduardo Bolsonaro, que em 2019 acalentou o desejo de ser embaixador em Washington, fez campanha por Trump em suas redes sociais.

Após a divulgação do resultado do pleito, o Itamaraty mergulhou em silêncio enquanto até duas semanas atrás Bolsonaro dizia ter informações sobre “fraude eleitoral”. Na terça-feira (15), o presidente enviou “saudações” a Biden”, “com meus melhores votos e a esperança de que os EUA sigam sendo “a terra dos livres e o lar dos corajosos”.

E acrescentou: “Estarei pronto a trabalhar com o novo governo e dar continuidade à construção de uma aliança Brasil-EUA”.

Haaland é a primeira mulher indígena a ser eleita para o Congresso americano – Reuters
Haaland: crítica a Bolsonaro e cotada para o gabinete de Biden

O caminho dessa cooperação, no entanto, pode ser acidentado. Isso porque existe uma sincronia de movimentos de atores políticos nos legislativos tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos que dificultam a aproximação.

“A gente tem visto um Itamaraty disfuncional, declinante, com o filho do presidente (Eduardo) como uma eminência parda da política externa. Então outros atores políticos passaram a atuar, como o legislativo brasileiro, que geralmente não têm protagonismo no tema. Do lado do Brasil, vemos uma politização histórica da política externa”, afirma Guilherme Casarões, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas.

“Ao mesmo tempo, pela primeira vez, o Congresso americano mostrou interesse em se aproximar do legislativo brasileiro e a vitória de Biden empoderou esse grupo de deputados democratas que está na Câmara.”

Primeira mulher indígena a ser eleita para o Congresso americano, Haaland é cotada para ser a secretária do Departamento de Interior do presidente-eleito Joe Biden, o que a colocaria no primeiro time da nova administração.

Haaland se tornou uma das principais críticas de Bolsonaro no partido — e na Câmara —, e tem trazido nomes proeminentes da agremiação consigo para as manifestações públicas contra o mandatário brasileiro, como o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Ela passou a atuar tanto na pressão pública a Bolsonaro, por meio de cartas, quanto na proposição de medidas contra os interesses do governo brasileiro no Congresso americano.

A deputada americana tentou, por exemplo, barrar a aprovação do status do Brasil como aliado militar extra-OTAN, uma das conquistas mais comemoradas pelo Itamaraty sob Bolsonaro.

Nas últimas semanas, ela se empenhava em cortar do Orçamento de Defesa dos EUA a previsão de verba pública para o acordo de salvaguardas tecnológicas entre os países, que deve viabilizar lançamentos de satélites americanos da base de Alcântara, no Maranhão.

Em maio de 2019, pouco depois do anúncio do acordo para uso da base de Alcântara, Haaland conseguiu angariar assinaturas de 54 congressistas americanos para uma carta enviada ao secretário de Estado americano, Mike Pompeo, na qual alertava para “violações dos direitos humanos de comunidades indígenas e quilombolas no Brasil”.

Meses antes, além de Wapichana, a política americana recebeu no Congresso dos EUA as parlamentares oposicionistas Erika Kokay (PT-DF) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS).

GIOVANNI BELLO/BBC
Wapichana encontrou-se com Haaland no Congresso americano em fevereiro de 2020

Em junho desse ano, voltou à carga com uma carta enviada ao presidente da Câmara brasileira, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em que pedia a derrubada de um projeto de lei que previa ampla regularização fundiária na Amazônia e que acabou batizado pelos críticos de “PL da Grilagem“.

“Entendemos que esse projeto é muito prejudicial para a floresta amazônica, uma vez que legalizará grandes áreas de terras públicas que já foram ocupadas e desmatadas ilegalmente”, escrevia Haaland, na carta assinada por 18 de seus colegas.

No mesmo período, seus colegas da Comissão de Orçamento e Tributos da Câmara enviaram comunicação às autoridades comerciais americanas dizendo que se opunham a qualquer avanço em tratados comerciais com o Brasil de Bolsonaro.

E em dezembro, Haaland assinou com outros 21 colegas um pedido de proteção à deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), em que qualificava as políticas de Bolsonaro como “antidemocráticas e xenófobas”.

“O que estamos fazendo é expor para o mundo as ações do governo Bolsonaro que precisam parar e teremos intercâmbio de relações legislativas intensas”, afirmou à BBC News Brasil a deputada Joênia Wapichana.

Segundo ela, o governo Bolsonaro deveria “ter atuado de forma mais diplomática e menos de acordo com preferência individual” com os democratas. Questionado repetidas vezes sobre o assunto, o embaixador brasileiro em Washington, Nestor Forster, afirma manter bom trânsito nos dois partidos.

John Kerry e os Munduruku

Mas não para por aí. Em outubro de 2020, enquanto a disputa para a Presidência da Casa Branca chegava à reta final, em Washington D.C., a líder indígena Alessandra Korap Munduruku recebia o prêmio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos.

Korap ganhou proeminência ao pedir a expulsão de garimpeiros das terras de seu povo, motivo pelo qual passou a ser ameaçada de morte.

A líder tem denunciado que desde a chegada ao poder de Bolsonaro, a situação das populações nativas se deteriorou.

Bolsonaro já se posicionou publicamente a favor do garimpo em terras indígenas, contra a destruição de maquinário usado por madeireiros para derrubar ilegalmente a floresta na Amazônia e, durante a campanha, prometeu que não demarcaria mais nem “um centímetro quadrado” de área para essas populações.SUSANA VERA/REUTERS
Kerry foi Secretário de Estado dos Estados Unidos entre 2013 e 2017

No evento de homenagem a Korap, coube a John Kerry, recém-nomeado por Biden como enviado especial de mudanças climáticas para o Conselho Nacional de Segurança, fazer o principal discurso da noite. Ali, ele disse à Korap que se comprometia a lutar a seu lado.

“O povo Munduruku no Brasil é guerreiro de muitas formas diferentes. Tem resistido ativamente à pressão constante, violenta, ilegal e, às vezes, patrocinada pelo Estado, de madeireiros e mineradores para explorar suas terras. Alessandra, você falou e continua a falar a verdade ao poder. E é extraordinária a maneira como você luta pelos pulmões do planeta, a maneira como você luta para proteger nossa terra e por todos os bens comuns que precisamos nos esforçar para salvar”, disse Kerry, responsável pela formulação das propostas para meio ambiente da campanha de Biden.

Naquele mesmo mês, o democrata surpreendeu o governo brasileiro ao citar o desmatamento na Amazônia como um exemplo de como mudaria sua liderança global em relação à gestão Trump durante um debate televisivo entre os candidatos.

Ao anunciar que pretendia criar um fundo para a preservação do Bioma, Biden afirmou: “Aqui estão US$ 20 bilhões, pare de destruir a floresta. E se não parar, vai enfrentar consequências econômicas significativas”. A fala foi vista pelo governo Bolsonaro como uma ameaça à soberania do país.

O poder da oposição americana a Bolsonaro

Para Casarões, é difícil dimensionar o poder desse grupo de deputados democratas, no qual Haaland é uma liderança. Isso porque, diferente do Brasil, o presidente americano depende essencialmente do legislativo para aprovar medidas centrais e por enquanto a Câmara é a única das duas casas que os democratas controlam por enquanto — a maioria no Senado para o próximo ano ainda está indefinida.

Considerado um moderado e centrista entre os Democratas, Biden terá que fazer concessões à ala mais à esquerda do partido para poder governar.

E um tema no qual seria mais fácil chegar a um consenso é justamente a agenda ambiental, na qual Bolsonaro é visto como um antagonista claro para o partido. Biden já anunciou, por exemplo, que recolocará os EUA no Acordo de Paris, de onde Trump retirou o país, em um movimento que Bolsonaro admitiu ter vontade de copiar.

ADRIANO MACHADO/REUTERS
Bolsonaro tem relação conflituosa com povos indígenas

No final de novembro, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que a Amazônia brasileira perdeu mais de 11 mil quilômetros quadrados de área de floresta no período entre agosto de 2019 e julho de 2020.

É o maior desmatamento registrado nos últimos 12 anos. Nesta quarta, dia 16, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo de países do qual o Brasil quer se tornar membro, divulgou relatório em que aponta que o Brasil tem falhado em coibir a devastação ambiental.

“As discussões políticas enviaram sinais contraditórios sobre o compromisso (do governo) com a estrutura de proteção ambiental existente”, afirma o relatório, que exorta o governo a aumentar o orçamento para a fiscalização.

Reservadamente, democratas afirmam não ver condições de interlocução nesses temas com o chanceler Ernesto Araújo, que, em setembro de 2019, deu uma palestra em um think tank conservador na capital americana no qual questionava premissas científicas do aquecimento global.

“O negacionismo climático que uniu Bolsonaro a Trump simplesmente não funcionará com Biden, que priorizará ações climáticas globais ambiciosas, incluindo a proteção da floresta Amazônica. O problema não é apenas dos ministros atuais e seus discursos públicos, mas as políticas destrutivas do governo Bolsonaro no assunto continuarão a isolar o Brasil de governos e investidores internacionais”, afirma Andrew Miller, um dos diretores da organização ambiental Amazon Watch.

BBC

China e outros 14 países criam maior pacto comercial do mundo

Tratado entre economias da região Ásia-Pacífico deixa EUA de fora, abarca um terço da economia mundial e mais de 2,2 bilhões de pessoas. Com ele, Pequim amplia ainda mais sua influência.

Uma cerimônia on-line, que teve Hanói como “sede”, selou a maior parceria comercial do mundo.

Foi oficializada neste domingo (15/11), em conferência virtual, a criação do maior tratado comercial do mundo, que envolve a China e outros 14 países da região Ásia-Pacífico, deixa de fora os Estados Unidos e abarca uma área onde vivem mais de 2,2 bilhões de pessoas.

O tratado RCEP (Parceria Regional Econômica Abrangente) abrangerá um terço da atividade comercial do planeta, e seus signatários esperam que sua criação ajude os países a sair mais rápido da turbulência imposta pela pandemia de coronavírus.

“Tenho o prazer de dizer que, após oito anos de trabalho duro, a partir de hoje, concluímos oficialmente as negociações da RCEP para a assinatura”, afirmou o primeiro-ministro do Vietnã, Nguyen Xuan Phuc, “país-anfitrião” da cúpula online.

Segundo o premiê, a conclusão das negociações da RCEP envia uma mensagem forte ao mundo, ao “reafirmar o papel de liderança da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) em defesa do multilateralismo.”

“O acordo apoia o sistema comercial multilateral, criando uma nova estrutura comercial na região, permitindo a facilitação do comércio sustentável, revitalizando as cadeias de abastecimento interrompidas pela covid-19 e ajudando na recuperação pós-pandêmica”, completou Phuc.

Além dos dez membros da Asean, o tratado inclui China, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia. As autoridades dizem que o acordo deixa a porta aberta para que a Índia, que desistiu devido a uma oposição interna feroz às abertura de mercado, volte a aderir ao bloco.

Menos integração que a UE

O acordo prevê reduzir as já baixas tarifas ao comércio entre os países-membros, mas é menos abrangente do que o Tratado Transpacífico, que envolvia 11 países e do qual o presidente americano, Donald Trump, se retirou logo após tomar posse.

Não se espera que o tratado selado neste domingo vá tão longe quanto a União Europeia na integração das economias nacionais, mas sim que se baseie nos acordos de livre-comércio já existentes para facilitar as trocas entre os países.

O acordo tem fortes ramificações simbólicas, ao mostrar que, quase quatro anos após Trump ter lançado sua política “America First”, de forjar acordos comerciais com países de forma individual, a Ásia continua comprometida com o multilateralismo.

Antes da reunião deste domingo, o primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga, disse que transmitiria com firmeza o apoio de seu governo “à ampliação de uma zona econômica livre e justa, incluindo a possibilidade de um futuro retorno da Índia ao acordo, e a esperança de ganhar apoio dos outros países”.

“O acordo é também uma vitória para a China, de longe o maior mercado da região com mais de 1,3 bilhão de pessoas. Ele permite que Pequim se lance como líder da globalização e da cooperação multilateral e lhe dá maior influência sobre as regras que regem o comércio regional”, escreveu o economista Gareth Leather, especialista em mercado asiático em relatório do instituto Capital Economics.

China: “Vitória do multilateralismo”

A agência oficial chinesa Xinhua News Agency citou o primeiro-ministro Li Keqiang saudando o acordo como uma vitória contra o protecionismo.

“A assinatura do RCEP não é apenas uma conquista marcante da cooperação regional da Ásia Oriental, mas também uma vitória do multilateralismo e do livre-comércio”, disse Li.

Agora que o oponente do Trump, Joe Biden, foi declarado presidente eleito, a região está atenta para ver como a política americana sobre comércio e outras questões vai evoluir.

Analistas são céticos de que Biden vai se esforçar muito para aderir novamente ao pacto comercial Transpacífico ou para reverter muitas das sanções comerciais impostas à China pelo governo Trump, dada a frustração generalizada com os dados comerciais e de direitos humanos de Pequim e as acusações de espionagem e roubo de tecnologia.

Críticos dizem que acordos de livre-comércio tendem a encorajar as empresas a transferir empregos da indústria local para o exterior. E essa é uma preocupação do eleitorado, por exemplo, das regiões de Michigan e Pensilvânia, que Biden precisou conquistar para vencer as eleições de 3 de novembro.

Mas dada a preocupação com a crescente influência da China, avaliam especialistas, Biden provavelmente buscará muito mais envolvimento com o Sudeste Asiático para proteger os EUA.

O mercado do Sudeste Asiático, em rápido crescimento e cada vez mais influente, tem 650 milhões de pessoas e, duramente atingido pela pandemia, está procurando urgentemente novos motores para o crescimento.

O tratado RCEP originalmente teria incluído cerca de 3,6 bilhões de pessoas e abrangia cerca de um terço do comércio mundial e do PIB global. Sem a Índia, ainda cobre mais de 2 bilhões de pessoas e cerca de um terço de toda a atividade comercial do mundo.

RPR/apafp

Libertários,Política Internacional,América Latina

Na Ásia Central, a ilusão de um novo mundo

A maioria dos países da Ásia Central conhece apenas um governante há várias décadas.

Após a saída desses autocratas, seus sucessores tentam manter o controle das transições políticas de alto risco. Diante da pressão de sociedades jovens e desiguais, eles temem cenários comparáveis ​​à “Primavera Árabe”. E hesite entre a abertura e a continuidade.

Regimes autoritários geralmente não gostam de transferências de poder. Em particular, quando, à frente deles, está um governante todo-poderoso forçado a ceder por causa de sua idade ou … sua morte. Formados por instituições políticas frágeis ou considerados ilegítimos pela população, a maioria dos regimes da Ásia Central viveu esse tipo de situação delicada nos últimos anos.

Muitas vezes passado de secretário-geral do Partido Comunista local ao primeiro presidente do país após a independência conquistada em 1991, os homens no cargo, após terem ocupado os cargos mais altos por várias décadas, por sua vez, deixaram seus cargos: Saparmourad Niazov no Turcomenistão e no Islã, Karimov no Uzbequistão, respectivamente, morreu em 2006 e 2016; O presidente Nursultan Nazarbayev, do Cazaquistão, deixou a presidência aos 78 anos em março de 2019; até mesmo Emomali Rakhmon, 67, está começando a pensar sobre sua sucessão à chefia do Tajiquistão após 28 anos de governo.

O Quirguistão é uma exceção. A alternância política ocorre ali por meio de uma combinação de eleições democráticas e revoluções populares orquestradas por elites divididas em facções políticas que se opõem por seus interesses econômicos e por sua lealdade de clã (Norte contra Sul).

Dois governos foram derrubados ali, em 2005 e depois em 2010. O atual regime do presidente Sooronbay Jeenbekov, eleito em 2017, está longe de incorporar um modelo de pluralismo, mas, em comparação com seus vizinhos, continua mais democrático, com um oposição menos hostilizada e uma sociedade civil ainda ativa.

Desde meados dos anos 2000, vários modelos de sucessão foram testados. No Turcomenistão e no Uzbequistão, os “pais da nação” se juntaram ao túmulo sem nomear o herdeiro, pelo menos publicamente. Mas seus substitutos, respectivamente o ex-ministro da Saúde Gourbangouly Berdymoukhammedov e o ex-primeiro-ministro Chavkat Mirziyoyev, já membros do serralho, souberam estabelecer seu poder, derrubando

Redes Sociais e o fascismo de Trump

Quando o presidente dos Estados Unidos propôs no Twitter a suspensão das eleições de novembro, ele deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de outra forma.

“Com a votação por correspondência universal (não a votação de ausência, o que é bom), 2020 será a eleição mais imprecisa e fraudulenta da história. Será um grande constrangimento para os EUA. Atrase a eleição até que as pessoas possam votar de forma adequada, segura e segura ??? ” Isso é o que o presidente dos EUA, Donald Trump, escreveu em uma mensagem no Twitter em 30 de julho de 2020.

O que significa para o presidente dos Estados Unidos propor a suspensão das eleições de novembro? O tweet de Trump proclama que a próxima eleição será “imprecisa e fraudulenta“. No entanto, na medida em que os americanos têm problemas para votar, eles são culpa do presidente e de seus aliados. Trump está fabricando uma crise: criando um problema, culpando os outros por ele e usando-o para reivindicar o poder.

Metade dos estados americanos aprovou recentemente leis que parecem ter o objetivo de dificultar a votação dos americanos não brancos. Qualquer pessoa que desejasse que os Estados Unidos fosse uma democracia representativa iria reverter isso. Nos últimos meses, mais americanos do que nunca se conscientizaram do racismo que exclui as vozes negras da política. No entanto, longe de buscar uma solução para esse problema, Trump usou os protestos como desculpa para colocar uma nova polícia secreta americana nas ruas.

Quando em 2019 o Congresso aprovou um projeto de lei que teria acabado com esses abusos e facilitado o voto de todos os americanos, ele foi bloqueado pelo Senado, que é controlado pelo partido de Trump, os republicanos.

A maior fonte de imprecisão e fraude na democracia americana é a privação de direitos dos eleitores negros

Uma segunda ameaça às eleições de novembro é a intervenção estrangeira. Aqui, novamente, Trump é a fonte do problema e o tornou pior. Nas eleições de 2016, Trump conscientemente ganhou vantagens com uma campanha russa na Internet destinada a torná-lo eleito. A Rússia divulgou e-mails de seu oponente, Hillary Clinton, e a Rússia influenciou as conversas políticas nas redes sociais. Uma importante cientista política, Kathryn Hall Jamieson, concluiu que eles provavelmente levaram a eleição para Trump. Como sabemos pelo novo livro do historiador David Shimer, Rigged: America, Russia and 100 Years of Covert Electoral Interference, a administração Obama acreditava que a Rússia em 2016 também tinha a capacidade de intervir diretamente na contagem dos votos.

No cargo, Trump negou que nada disso tenha acontecido e puniu aqueles que chamaram a atenção para o curso real dos negócios. Agora sabemos que Trump no cargo continuou a solicitar ajuda de governos estrangeiros para ser reeleito. Ao perdoar seu aliado Roger Stone, que serviu como intermediário entre a campanha de Trump e a Rússia em 2016, Trump enviou um sinal óbvio de que espera se beneficiar da intervenção russa em 2020. O Congresso aprovou um projeto de lei que foi criado para tornar o sistema eleitoral americano mais defensável da Rússia ou qualquer intervenção estrangeira. Isso também foi bloqueado pelo Senado controlado pelos republicanos.

A questão que Trump menciona no tweet, a alta taxa de votação por correspondência, também é resultado de suas próprias ações. É importante notar, entretanto, que não há nada de errado em votar pelo correio. O próprio Trump vota pelo correio, assim como muitos de seus conselheiros mais próximos. Votar em papel é muito mais seguro do que votar digitalmente.

A razão pela qual os americanos desejam votar pelo correio em 2020 é sua própria segurança. O país está no meio de uma pandemia que já matou 150.000 pessoas. A escala do sofrimento, da morte e do medo é resultado das próprias decisões de Trump: contestar a ciência, enviar o sinal de que as pessoas não devem usar máscaras, se opor ao teste sistemático que é uma condição necessária para o tratamento e para impedir a propagação da doença.

Na medida em que o serviço postal dos EUA não pode lidar com a correspondência extra, isso também é claramente culpa de Trump. Ele vem atacando o serviço postal há anos e recentemente nomeou um doador não qualificado como chefe dos correios. O novo postmaster general tomou decisões que parecem destinadas a fazer o serviço postal funcionar mal. Os americanos já notaram que seu correio está atrasado.

Trump deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de alguma outra forma que não seja pela eleição.

Dadas essas contradições, que não são segredo para ninguém, como Trump pretendia que sua mensagem fosse entendida? Trump não é tolo. Ele sabe que tem poucas chances de vencer a eleição em novembro por meios normais. Ao enviar esta mensagem, ele está concedendo a eleição a seu rival democrata Joe Biden e iniciou a busca por outra forma de permanecer no cargo. Seu tweet se destina não àqueles que discordam dele, mas àqueles que estão dispostos a segui-lo para a tirania.

Em seu tweet, Trump deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de alguma outra forma que não seja por eleição. Ele sabe que não tem poder para atrasar as eleições. O que ele busca com este tweet são aliados nos Estados Unidos, ou no exterior, que ajudem a criar uma situação em que uma eleição parece impossível.

O tweet de 30 de julho é, portanto, um ponto de viragem. Antes dessa data, os apoiadores de Trump podiam dizer a si mesmos que estavam envolvidos em uma campanha presidencial normal. Após essa data, os apoiadores de Trump devem enfrentar sua alegação aberta de que a eleição de novembro não contará. Isso levanta a questão de o que significa agora estar do lado do presidente dos Estados Unidos. É claro que significa ser contra a democracia e a favor do autoritarismo.

Qualquer pessoa que apoiar Trump depois de 30 de julho fez uma escolha moral: por uma pessoa e contra a constituição americana. Todos que trabalham para a campanha de Trump, doam dinheiro ou planejam votar nele foram avisados: agora são todos atores de uma charada, mantendo as aparências até novembro, fornecendo cobertura para a ação real, que será em algum lugar outro. Esses três pontos de interrogação no final do tweet são um sinal de que alguém deve encontrar uma maneira não democrática de manter Trump no poder. Há um consenso notável entre os pensadores americanos, desde um importante intelectual público de esquerda a um importante professor de direito de direita, que o tweet de Trump foi “fascista”.

Eu mesmo escrevi nessa linha. Mas isso pode ser profundamente verdadeiro em um sentido que até agora foi esquecido. Como mostrou o historiador inglês Ian Kershaw, o estilo nazista era “trabalhar em direção ao Führer”: entender uma mensagem de um líder não como uma série de proposições lógicas ou observações empíricas, mas como um guia de como o mundo deveria ser, como uma dica de para o que os seguidores devem fazer. Nesse caso, a dica é que as eleições devem ser estragadas: uma dica que pode ser aproveitada pelo postmaster geral de Trump, ou por legislaturas estaduais republicanas, ou por americanos armados.

Qualquer um que tentar cumprir as ordens de Trump e estragar a eleição se arrependerá

É improvável que prevaleçam, entretanto. Demorou um pouco, mas agora muitos americanos, mesmo que não entendam bem o significado mais profundo do estilo de Trump, estão cientes de que precisam estar preparados para uma eleição diferente de qualquer outra. Qualquer um que tentar cumprir as ordens de Trump e estragar a eleição se arrependerá. Esse é o outro significado desses três pontos de interrogação: Trump espera que outra pessoa infrinja a lei para que ele possa permanecer no poder, mas não tem intenção de assumir a responsabilidade pelo que acontecerá a seguir. Ele deixará para outros a tarefa de paralisar a democracia americana para que ele possa viver com conforto. Se a Rússia tentar isso, quase certamente enfrentará toda a ira de um governo Biden. Se os americanos tentarem “trabalhar para o Führer”, seu líder os trairá no final.

Essa é a única maneira pela qual Trump é perfeitamente consistente: tudo se refere a ele e todos devem ser sacrificados a ele. Ao contrário dos fascistas tradicionais, ele não sonha com uma causa grande e terrível. Ele simplesmente espera que outros sofram por ele.

Timothy Snyder é o professor Levin de História na Universidade de Yale e membro permanente do Instituto de Ciências Humanas de Viena. Ele é o autor, mais recentemente, de On Tyranny e The Road to Unfreedom. Seu novo livro, Our Malady, será publicado em setembro.

Como George Soros se tornou um inimigo da extrema direita

Existem poucos países em que uma teoria da conspiração é razão de Estado. A Hungria é um deles.

George Soros impulsionou a ascensão de Orbán na Hungria.
Corresponsável pela ascensão de Viktor Orbán, o filantropo bilionário passou a ser o “vilão perfeito” a ser construído. Cruzada de difamação contra Soros ultrapassou fronteiras da Hungria e inspira violência terrorista.

 Há cerca de cinco anos o primeiro-ministro Viktor Orbán elegeu o bilionário americano George Soros como inimigo de Estado número um: o filantropo de origem húngara, de 89 anos, seria o mentor de uma conspiração em grande escala, com o suposto fim de derrubar o premiê húngaro, dissolver os Estados nacionais da Europa e substituir suas populações por migrantes.

Entre os supostos “mercenários” e “agentes” de Soros, segundo o governo húngaro, estariam organizações não governamentais, jornalistas e cientistas, mas também a União Europeia (UE) e a Organização das Nações Unidas (ONU).

No momento a crise do coronavírus alimenta essa campanha de perseguição. Afirma-se que Soros estaria por trás da crítica internacional às medidas autoritárias de Budapeste no contexto da pandemia. Ele seria o “grão-mestre” dos “burocratas de Bruxelas”, declarou Orbán em pessoa, numa edição recente de suas entrevistas semanais à estatal Kossuth Rádió.

Chega a ser irônico Orbán ter declarado guerra justamente ao homem que impulsionou decisivamente sua ascensão. Filho de judeus e sobrevivente do Holocausto na Hungria, George Soros primeiro se exilou em Londres após a tomada de poder pelos comunistas. Em 1956, emigrou para os Estados Unidos, onde fez fortuna com especulações financeiras.

Marcado tanto pelo horror nacionalista e comunista como pela filosofia de Karl Popper da “sociedade aberta”, Soros fundou em 1984 a fundação Open Society. Desde então, ela tem apoiado por todo o mundo a democracia e os direitos de liberdade e humanos, até hoje com mais de 15 bilhões de dólares, segundo seus próprios dados.

Também o jovem Viktor Orbán e seu partido Fidesz (Liga dos Jovens Democratas) se beneficiaram do engajamento filantrópico do bilionário, que patrocinou com somas generosas a legenda originalmente radical-liberal. Soros lhes possibilitou publicar o próprio jornal, financiou cursos de idiomas e escritórios do partido. Mais tarde, numerosos membros do Fidesz receberam dele bolsas para estudar no Ocidente; Orbán foi para Oxford.

Quando, após o fim do regime comunista na Hungria, em 1989, os nacionalistas passaram a difamar Soros por seu apoio às forças liberais, o Fidesz defendeu o engajamento do filantropo contra tais “ataques infames”.

Orbán e companhia saudaram entusiásticos a fundação da Universidade Centro-Europeia, cofinanciada por Soros, a qual em breve se tornou a mais prestigiosa instituição de ensino superior do país. Cerca de 30 anos mais tarde, o partido de Orbán, agora nacional-conservador e populista de direita, expulsaria justamente essa universidade da Hungria.

De benfeitor a vilão

Depois de uma fragorosa derrota nas eleições de 2002, Orbán foi para a oposição. Somente oito anos mais tarde foi eleito primeiro-ministro pela segunda vez, com sucesso esmagador e um programa totalmente diverso. Contando com uma maioria de dois terços no parlamento, o ex-liberal passou a transformar a Hungria num “Estado não liberal”.

Ele mudou a Constituição, cerceou a liberdade de imprensa e ocupou o Tribunal Constitucional com juízes leais a si. Para assegurar seu poder no longo prazo, porém, Orbán precisava de um inimigo simbólico. No país, ninguém mais era páreo sério para ele: a oposição estava fragmentada, e a maior parte da mídia, alinhada com o Fidesz. Então onde encontrar um bode expiatório?

A inspiração decisiva veio do exterior: em 2008, Orbán conheceu o influente consultor político americano Arthur Finkelstein, que desde a década de 1970 assessorara com sucesso os presidentes republicanos, de Richard Nixon a George W. Bush. Em meados dos anos 1990, ele fizera Benjamin Netanyahu premiê israelense.

Não deixemos Soros rir por último, diz slogan em outdoors na Hungria
“Não deixemos Soros rir por último”, diz slogan da maior campanha de outdoors da história húngara,

Inúmeras campanhas eleitorais haviam ensinado a Finkelstein como era importante dar um rosto ao inimigo. Há muito, o empenho de Soros pelo liberalismo e democracia era uma pedra no sapato da direita internacional.

Os nacionalistas dos Bálcãs também o detestavam por apoiar a oposição democrática; o presidente russo, Vladimir Putin, o abominava pelo engajamento em prol da Ucrânia e Geórgia. E também para os republicanos dos EUA, Soros se tornara uma figura odiada por suas doações ao Partido Democrata, seu empenho pela proteção climática e sua crítica ferrenha à guerra do Iraque.

Soros era o inimigo perfeito para Orbán, pensaram Finkelstein e seu parceiro George Birnbaum: era de origem húngara, mas já vivia há décadas nos EUA, era rico e politicamente engajado em âmbito global. Em meados de 2013, começou a campanha contra o filantropo, que alcançaria o auge dois anos mais tarde, no contexto da crise migratória.

De “ideia genial” a motivação terrorista

Seguiu-se a possivelmente maior e mais custosa campanha de outdoors da história húngara: “Não deixemos Soros rir por último”, incitava o governo seus cidadãos. Pouco mais tarde, era aprovada a “lei Stop Soros”, voltada contra ONGs engajadas pelos direitos de refugiados e migrantes. Por fim, foi expulsa de Budapeste a Universidade Centro-Europeia, cofundada por Soros.

Progressivamente, Orbán adicionou tons antissemitas a sua cruzada contra Soros. “Estamos lutando contra um inimigo que é diferente de nós: não aberto, mas escondido; não direto, mas ardiloso; não honrado, mas ignóbil; não nacional, mas internacional; que não acredita em trabalho, mas sim especula com dinheiro; que não tem sua própria pátria, mas age como se fosse dono de todo o mundo”, disse num discurso em 2018.

De lá para cá, a imagem hostil de George Soros ganhou vida própria: seja o presidente americano, Donald Trump, seu colega turco Recep Tayyip Erdogan, Netanyahu ou Putin, todos adotaram de Orbán o rótulo do “marionetista todo-poderoso”. Nas redes sociais, o filantropo bilionário é apresentado como a vilania em pessoa, partidos populistas de direita da Europa à Austrália incitam contra ele.

Com intensidade crescente, tais campanhas de agitação redundam em violência. Funcionários das fundações Open Society são repetidamente agredidos. Em 2018, um apoiador fanático de Trump enviou uma bomba caseira ao endereço particular de Soros. Da mesma forma, terroristas de extrema direita cada vez mais justificam seus atos como tentativas de impedir uma “troca da população” supostamente planejada pelas elites globais.

Essa teoria de conspiração, em que Soros igualmente desempenha um papel central, fazia parte de “manifesto” racista do terrorista de Christchurch, Nova Zelândia, que custou as vidas de dezenas de muçulmanos. O assassino de Pittsburgh matou judeus por pretextos semelhantes. Também o autor do atentado em Halle, Alemanha, acreditava numa suposta conspiração judaica e afirmou que Soros queria transformar o país num Estado multicultural.

Será que Arthur Finkelstein e George Birnbaum – ambos também judeus – contavam com a dimensão letal de sua invenção supostamente “genial”? Não se pode mais perguntar a Finkelstein, pois ele morreu em 2017. E Birnbaum se recusa a falar a respeito, tendo recusado o pedido de entrevista da