Escola rural gaúcha fisga jovens do campo com ensino tecnológico

Acordar bem cedo até nos fins de semana e nos dias de inverno mais rigoroso para dar água e alimentar os animais da fazenda, uma rotina bastante comum para os habitantes da zona rural de Viamão, região metropolitana do Rio Grande do Sul, pode estar com os dias contados, se depender da criatividade dos alunos da escola municipal Zeferino Lopes.
Alunos explicam como funcionará o cocho eletrônico que estão desenvolvendo

Com apenas 15 e 17 anos, os estudantes Victor Matheus, Richard Diovani e Matheus Maica, no 9º ano, desenvolveram dentro da sala de aula o protótipo de dois cochos automáticos, um para água e outro para alimentos, que prometem se encarregar dessas tarefas matinais. Os três moram em sítios com criação de animais e ajudam a família nos trabalhos diários do campo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Os animais têm horário certo para comer e às vezes a gente gostaria de dormir até mais tarde no domingo”, brinca Victor, o mais velho do grupo. A motivação para o invento dos jovens, contudo, transcende a reivindicação de mais tempo para descansar. “O cocho poderia servir, também, como um sistema de estoque em épocas de secas”, complementa.

Os alunos ainda trabalham na conclusão do protótipo de ração. Para construi-lo, já projetaram o motor para a tampa automática e construíram a estrutura de madeira do cocho. Falta, agora, programar. Isso eles começarão a fazer na aula de robótica, guiada por um professor especialista em computação, fruto de parceria com a Fundação Telefônica.

Na Zeferino Lopes, todos os alunos, desde o primeiro ano, desenvolvem projetos como o desses meninos. A proposta pedagógica da escola, que foi considerada uma das mais inovadoras do país pelo Ministério da Educação, incorpora o uso de pesquisa e tecnologia ao currículo básico no desenvolvimento de soluções para os problemas do dia a dia.

Nem tudo, entretanto, tem correlação com a vida no campo. Victor e Richard, por exemplo, não imaginam permanecer em Viamão. Querem fazer faculdade em Porto Alegre ou Canoas. “Mas, quem sabe um dia, eu trabalhe com tecnologia”, cogita Victor. “O aprendizado extrapola a realidade da comunidade, pois o ensino direcionado para projeto estimula a criatividade dos alunos e permite que eles vislumbrem possibilidades de carreira articuladas com tecnologia, seja no campo ou fora dele.

O nosso objetivo é incentivar um aprendizado mais autônomo e pautado na própria curiosidade e interesse de cada aluno”, explica a coordenadora da escola, Cristina de Faria.

No ano letivo, os alunos geralmente fazem três “saídas disparadoras”, passeios fora da escola – e até do município – para levantarem perguntas para as quais buscarão descobrir as respostas. A primeira rodada de 2016, por exemplo, foi composta de passeios por fazendas e fábricas de arroz, principal cultivo de Viamão. Dali partiram diversas engenhocas dos alunos. Uma delas, elaborada por crianças de 7 a 9 anos, eliminava ervas daninhas na plantação.

Mas diversas rodadas já foram feitas desde o começo de 2015, quando o projeto pedagógico da escola foi reformulado. Delas, partiram perguntas como “por que o avião voa se ele é tão pesado?”, “como as flores conseguem nascer sem serem plantadas pelo homem?”, “como o leite se forma dentro da vaca?”, “como o carrinho de bate-bate se movimenta?”, “para onde vai o lixo da praia?”.

Cada pergunta gera uma pesquisa. As aulas de pesquisa ocorrem duas vezes por semana, dias em que os alunos ficam na escola em tempo integral. As consultas são geralmente feitas na internet, pelos tablets e netbooks que cada criança recebeu, doados à escola por meio de parcerias entre o setor privado e o governo.

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Alunos do 2º e 3º anos mostram suas engenhocas inspiradas no parque de diversões. Cada grupo estuda o funcionamento de um brinquedo. Foto Eduardo Tavares

De cada projeto, nascem protótipos, que podem ser de papelão e materiais diversos até robôs de lego, programados nas aulas de robótica. “Essa rede recolhe o lixo do rio”, explica Alan Lima, de 10 anos, mostrando orgulhosamente o barco de garrafa pet e isopor que seu grupo está construindo para resolver o problema da poluição das águas. Com pouco mais de um metro de altura, ele já fala com a propriedade de um engenheiro ambiental sobre os estragos que faz em todo o ecossistema o lixo que as pessoas jogam irresponsavelmente na praia.

A dúvida que o grupo enfrenta no momento é em que parte da engenhoca vão acoplar a haste da rede na “lixeira sustentável do mar”, como o barco foi batizado, pois ainda são jovens demais para aulas de física. De qualquer jeito, a intuição resolve o conhecimento técnico que ainda não adquiriram. “Pensamos em colocar aqui mais no meio… assim o barco não pesa na frente e não afunda”. Ainda será desenvolvida a hélice, de garrafa, que será responsável pela movimentação do barco na água.

Na mesa ao lado, outro grupo de crianças replica em um robô de lego, a coluna vertebral de uma chita. “É um dos animais mais velozes do mundo”, conforme explica João Vitor, de 10 anos. “Ela pode alcançar mais de 110 quilômetros por hora. Ela é tão rápida que suas vértebras funcionam como uma corrente e a pata tem a função de um amortecedor”, complementa o colega de grupo, Luis Miguel, de 11 anos. Como os meninos descobriram este animal típico da savana africana? Na internet. A paixão por animais direciona as pesquisas online há algum tempo. Antes da chita, reproduziram um tigre dente de sabre.

A professora Márcia Kist explica que são os próprios alunos que sugerem os passeios e os temas de pesquisa. “A ideia do projeto pedagógico é partir da curiosidade dos alunos e de seus conhecimentos prévios para construir conceitos novos”, conta. O método permite que professores e alunos aprendam juntos. “Descobrimos muita coisa em conjunto, pois nós, professores, não sabemos tudo de todas as áreas. E os alunos não se importam. Eles gostam de pesquisar com a gente, de nos ensinar a mexer até nos tablets”, diz.

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João Vitor, 10 anos (superior à esquerda) e Luis Miguel, 11 anos (inferior à esquerda) programam coluna vertebral de uma chita, com lego. Foto Eduardo Tavares

A comunidade também participa dos projetos. Algumas rodadas atrás, um pai trouxe um cavalo para a escola para que os alunos pudessem aprofundar seus conhecimentos sobre o tema do trimestre: os artefatos farroupilhos, ideia que partiu de um passeio ao museu. No final do ano, alunos apresentam seus trabalhos para a comunidade e, aqueles mais votados, ganham um prêmio simbólico.

Desinibidos e bem articulados, os estudantes mostram suas engenhocas, montam slides em power point e até desenvolvem sites para exibir as fotos que tiram dos tablets e celulares dos passeios e de seus protótipos. No ano passado, o destaque da mostra foi o cocho automático para água do pasto.

Em Viamão, oito escolas fazem parte de um projeto de inovação na cidade, tanto na zona rural quanto na urbana. O município, que soma pouco mais de 250 mil habitantes, conta com 61 escolas, 24.600 alunos e 1.380 professores. Ainda que faça parte da região metropolitana do Estado, a maior extensão territorial do município é destinada à agricultura e pecuária, uma paisagem que mescla o vermelho das estradas de terra ao verde das plantações. A população, contudo, é predominantemente urbana.

Há 20 quilômetros da Zeferino Lopes, por exemplo, se localiza outra escola inovadora do município, a Frei Pacífico. Com paredes de pedra e telhado de grama, o lema da instituição é trabalhar a sustentabilidade com os alunos. “Inovação não se limita apenas ao uso de tecnologia em sala de aula, mas também em método de ensino.

O objetivo é permitir a construção de um conhecimento que os jovens possam levar para além da sala de aula, pata que eles aprendam com um pouco mais de autonomia e criatividade”, explica a secretária de Educação de Viamão, Márcia Culau. No ano passado, o município escolheu oito escolas-piloto para um projeto de inovação, munindo os professores e os alunos com computadores móveis. “O computador é um dos milhares de recursos disponíveis para inovar e as crianças hoje o utilizam de forma bastante natural”, complementa.

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Alunos fazem pesquisa na internet para dar continuidade ao projeto. Foto Eduardo Tavares

Ainda que não seja a meta do projeto de inovação, Juliano Bittencourt, consultor técnico do projeto, sócio da Hardfun Studios, acredita que a tecnologia contribui para reduzir a migração dos jovens para a cidade. “À medida que trabalhamos a alta tecnologia no campo, desfazemos um pouco aquela imagem de atraso da zona rural.

A ideia do projeto é empoderar essas crianças para que elas façam o futuro que quiserem, independentemente de onde”, afirma. Para ele, o método de ensino da Zeferino subverte o funcionamento de uma escola tradicional. “No lugar de ensinar para as crianças um monte de conteúdo que elas não precisam, deixamos que elas tragam um conhecimento prévio, que sejam guiadas pela curiosidade, para desenvolver um aprendizado mais condizente com suas realidades”, complementa.

E isso não vale apenas para a vida no campo. “Por meio dos protótipos, por exemplo, os alunos conseguem compreender melhor conceitos abstratos, como matemática, além de desenvolver mais autonomia na construção do conhecimento”, diz.
Por Ana Carolina Cortez

Neo, um robô que dá aula de idiomas para crianças imigrantes

Segundo pesquisadores alemães, os pequenos aprendem melhor e mais rápido com o androide

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Menino tenta se comunicar com o robô Neo.
Foto Universidade de Bielefeld

Neo, um simpático robô que mede apenas 60 centímetros, pode ver, ouvir e se mover sozinho e, graças ao trabalho de um pequeno grupo de pesquisadores da Universidade de Bielefeld, o pequeno androide está perto de se tornar um professor bem sucedido que poderá ensinar o idioma alemão a dezenas de milhares de crianças imigrantes que chegaram ao país no último ano.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Confrontados com a realidade e as estatísticas – uma em cada três crianças menores de cinco anos na Alemanha são imigrantes –, a equipe liderada pelo professor Stefan Kopp iniciou o projeto L2TOR, que tem um objetivo invejável: em três anos, quer facilitar a aprendizagem do idioma nos jardins de infância.

Os pesquisadores da Universidade de Bielefeld estão convencidos de que se o projeto, financiado pela União Europeia, for bem sucedido, irá revolucionar o ensino, já que os robôs ajudariam as crianças a se tornarem poliglotas.

“Nossa tarefa é fazer com que o robô possa, além de se comunicar, entender a forma de pensar de uma criança”, falou o professor Kopp, especialista em inteligência artificial. “Com isso vamos oferecer às crianças imigrantes a oportunidade de aprender a língua de uma forma divertida. Mas também temos o objetivo de fazer com que as crianças alemãs aprendam um novo idioma, como o inglês”.

No momento, o androide tem sido levado às salas de jardim de infância em Bielefeld, em uma fase experimental. Segundo a equipe de pesquisadores, as crianças se integram perfeitamente com o robô e não têm problemas para se comunicar com Neo. Os estudos realizados, inclusive, mostraram que as crianças poderiam aprender melhor e mais rápido uma língua estrangeira com este androide do que com métodos tradicionais.

Em um primeiro momento, Neo pode ajudar as crianças a construir frases em alemão, mas a ideia é que elas aprendam a dominar a síntese e a gramática com a ajuda do robô em fases posteriores do projeto. Neo também será programado para compreender gestos e mímicas das crianças, para ensiná-las a se expressarem melhor.

Para facilitar a comunicação com as crianças, Neo tem a aparência de um ser humano, pequeno e simpático. O interesse que ele desperta nas crianças, e a possibilidade de que ajude os pequenos a conhecer a língua do país que sua família adotou, convenceu a União Europeia a destinar 3 milhões de euros para promover o projeto, que envolve, além da Universidade de Bielefeld, outras quatro universidades europeias na Grã-Bretanha, Holanda, Bélgica e Turquia.

O trabalho da equipe liderada por Stefan Kopp está apenas começando, mas o grupo de cientistas está convencido de que Neo pode revolucionar o ensino de idiomas estrangeiros. “Quando demonstrarmos sua eficácia, poderemos conseguir em menos de dois anos um pequeno exército de robôs nas salas de aula”, afirma o cientista.
Enrique Müller/ElPais