Murilo Mendes – Versos na tarde – 29/07/2017

O fósforo
Murilo Mendes ¹

Acendendo um fósforo
acendeu Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses,
o trabalho do homem.

O fósforo: tão radioso quanto secreto. Furioso, deli-
cado. Encolhe-se no seu casulo marrom; mas quando cha-
mado e provocado, polêmico estoura, esclarecendo tudo.
O século é polêmico.

O gás não funciona hoje. Temos greve dos gasistas. A
Itália tornou-se a Grevelândia. Mas preferimos essa semi-
-anarquia à “ordem” fascista.
O fósforo, hoje em férias, espera paciente no seu casulo
o dia de amanhã desprovido de greves. O dia racional, o
dia do entendimento universal, o dia do mundo sem classes,
o dia de Prometeu totalizado.

O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu
sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza
da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!
Subscrevo a grande palavra de Jaures: “De l’autel des
ancêtres on doit garder non les cendres mais le feu.”

¹ Murilo Monteiro Mendes
* Juiz de Fora, MG – 13 de maio de 1901
+ Lisboa, Portugal – 13 de agosto de 1975

Poeta brasileiro, expoente do modernismo brasileiro.


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