Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog do Mesquita 00 B

Trish Keenan – Valerie – Poesia

Valerie
Trish Keenan

Caio no sono antes de fechar os olhos:
dentro da máscara, outro disfarce.
O cansaço faz desenhos na minha cabeça.
O sol na janela anuncia coisas boas.

Balança os seus brincos no meu cabelo.
Antes de dormir, deita os sonhos no meu travesseiro

O sol no meu rosto não vai expulsar
o silêncio gelado de quando anoitece.
Me afogo no branco do seu quarto.
O céu atrás da cortina anuncia coisas boas.

Balança os seus brincos no meu cabelo.
Antes de dormir, deita os sonhos no meu travesseiro

Aquarela de Andrew White

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog doMesquita 11

Paul Verlaine – O amor por terra

O amor por terra
Paul Verlaine

O vento derrubou ontem à noite o Amor
Que, no recanto mais secreto do jardim,
Sorria retesando o arco maligno, e assim
Tanta coisa nos fez todo um dia supor!
 
O vento o derrubou ontem à noite. À aragem
Da manhã gira, esparso, o mármore alvo. E à vista
É triste o pedestal, onde o nome do artista
Já mal se pode ler à sombra da ramagem.
 
É triste ver ali de pé o pedestal
Sozinho! e pensamentos graves vêm e vão
No meu sonho em que a mais profunda comoção
Imagina um porvir solitário e fatal
 
É triste! – E tu, não é?, ficas emocionada
Ante o quadro dolente, embora olhando à toa
A borboleta de oiro e púrpura que voa
Sobre os destroços de que a aléa está juncada.
 
Tradução de Guilherme de Almeida

Carlos Drummond de Andrade – Versos na tarde – 30/07/2017

Ausência
Carlos Drummond de Andrade ¹

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada,
aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

¹ Carlos Drummond de Andrade
* Itabira do Mato Dentro, MG, – 31 de Outubro de 1902
+ Rio de Janeiro RJ, – 17 de Agosto de 1987
–>> biografia


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Murilo Mendes – Versos na tarde – 29/07/2017

O fósforo
Murilo Mendes ¹

Acendendo um fósforo
acendeu Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses,
o trabalho do homem.

O fósforo: tão radioso quanto secreto. Furioso, deli-
cado. Encolhe-se no seu casulo marrom; mas quando cha-
mado e provocado, polêmico estoura, esclarecendo tudo.
O século é polêmico.

O gás não funciona hoje. Temos greve dos gasistas. A
Itália tornou-se a Grevelândia. Mas preferimos essa semi-
-anarquia à “ordem” fascista.
O fósforo, hoje em férias, espera paciente no seu casulo
o dia de amanhã desprovido de greves. O dia racional, o
dia do entendimento universal, o dia do mundo sem classes,
o dia de Prometeu totalizado.

O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu
sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza
da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!
Subscrevo a grande palavra de Jaures: “De l’autel des
ancêtres on doit garder non les cendres mais le feu.”

¹ Murilo Monteiro Mendes
* Juiz de Fora, MG – 13 de maio de 1901
+ Lisboa, Portugal – 13 de agosto de 1975

Poeta brasileiro, expoente do modernismo brasileiro.


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Fernando Pessoa – Versos na tarde – 25/03/2017

Ficções do Interlúdio – extrato
Fernando Pessoa¹

Sentir a poesia é a maneira figurada de se viver
Eu não sinto a poesia não porque não saiba o que ela é
Mas porque não posso viver figuradamente
E se o conseguisse tinha de seguir outro modo de me acondicionar
A condição da poesia é ignorar como se pode senti-la
Há coisas belas que são belas em si
Mas a beleza íntima dos sentimentos espelha-se nas coisas
E se elas são belas nós não as sentimos.

¹ Fernando Antonio Nogueira Pessoa
* Lisboa, Portugal – 13 de Junho de 1888
+ Lisboa, Portugal – 30 de Novembro de 1935

->>biografia


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Amparo Jimenez – Versos na tarde – 09/03/2017

Ilusión Marina
Amparo Jimenez¹

Tu lengua,
pececillo inquieto en mi rostro.
Tu boca,
ostra que juega con mis labios.
Tu piel,
arena ardiente sobre mi cuerpo todo.
Tu voz,
canto de sirena que me llama y espera.
Mi piel y mi alma responden
pero tú, sirena mía,
te esfumas con el sol
al bajar la marea.

¹Amparo Jimenez
Jornalista e poeta.
* ?
+ Valledupar, Colombia – 11 de agosto de 1998.
Assassinada quando investigava questões latifundiárias para a televisão para a qual trabalhava.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Demócrito Rocha – Versos na tarde – 08/03/2017

O Rio Jaguaribe
Demócrito Rocha¹

O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta
por onde escorre
e se perde
o sangue do Ceará.
O mar não se tinge de vermelho
porque o sangue do Ceará
é azul …

Todo plasma
toda essa hemoglobina
na sístole dos invernos
vai perder-se no mar.

Há milênios… desde que se rompeu a túnica
das rochas na explosão dos cataclismos
ou na erosão secular do calcário
do gnaisse do quartzo da sílica natural …

E a ruptura dos aneurismas dos açudes…
Quanto tempo perdido!
E o pobre doente – o Ceará – anemiado,
esquelético, pedinte e desnutrido –
a vasta rede capilar a queimar-se na soalheira –
é o gigante com a artéria aberta
resistindo e morrendo
morrendo e resistindo…

(Foi a espada de um Deus que te feriu
a carótida
a ti – Fênix do Brasil.)

E o teu cérebro ainda pensa
e o teu coração ainda pulsa
e o teu pulmão ainda respira
e o teu braço ainda constrói
e o teu pé ainda emigra
e ainda povoa.

As células mirradas do Ceará
quando o céu lhe dá a injeção de soro
dos aguaceiros –
as células mirradas do Ceará
intumescem o protoplasma
(como os seus capulhos de algodão)
e nucleiam-se de verde
– é a cromatina dos roçados no sertão…

(Ah, se ele alcançasse um coágulo de rocha!)

E o sangue a correr pela artéria do rio Jaguaribe…
o sangue a correr
mal que é chegado aos ventrículos das nascentes …
o sangue a correr e ninguém o estanca…

Homens da pátria – ouvi:
– Salvai o Ceará!
Quem é o presidente da República?
Depressa
uma pinça hemostática em Orós!
Homens –
o Ceará está morrendo, está
esvaindo-se em sangue …

Ninguém o escuta, ninguém o escuta
e o gigante dobra a cabeça sobre o peito
enorme,
e o gigante curva os joelhos no pó
da terra calcinada, e
– nos últimos arrancos – vai
morrendo e resistindo

¹Demócrito Rocha
* Caravelas, BA – 14 de Abril de 1888 d.C
+ Fortaleza, CE – 29 de Novembro de 1943 d.C[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Vinícius de Moraes – Versos na tarde – 03/01/2017

A que há de vir
Vinícius de Moraes ¹

Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.

Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios
Ela é a querida da minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.

Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego
Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.

Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.

Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração
Ela é a minha poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.

Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.
Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.

¹ Marcus Vinicius de Mello Moraes
* Rio de Janeiro, RJ. – 19 de Outubro de 1913 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 09 de Julho de 1980 d.C

-> biografia


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Rui Pires Cabral – Versos na tarde – 26/11/2016

O rei dos olhos fechados
Rui Pires Cabral ¹

Fazes entrar em Fevereiro
o rei dos olhos fechados,
o das escadas rolantes.
Quanta luz desperdiçada,

quanto desconsolo
nas grandes superfícies
da memória. Ouves o vinho
rolar nos ouvidos, a realidade

defenderá até à morte
os seus mistérios. Fazes
uma vênia ao rei destituído

e morto, ele atravessa
os fundos da casa
precedido pelo próprio corpo.

¹ Rui Pires Cabral
Macedo de Cavaleiros, Portugal – 1 de outubro 1967
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Licenciado em História-Arqueologia em 1990. Publicou em 1985 um livro de contos, mas foi através da poesia que a sua escrita atingiu um assinalável grau de maturidade. A toada mais abstrata do seu primeiro livro deu lugar nos mais recentes, a uma poesia metonímica e figurativa quantas vezes surpreendente, onde as viagens, as cidades e a música são pretexto para uma escrita prosódica muito nítida.

Publicou o seu primeiro livro em 1985, uma colectânea de poemas intitulada ‘Qualquer coisa estranha’. Seguiram-se ‘Geografia das Estações’ (1994), ‘A Super-Realidade’ (1995), ‘Música Antológica & Onze Cidades’ (1997) e ‘Praças e Quintais’ (2003).

Utilizando geralmente um discurso em primeira pessoa, Rui Pires Cabral serviu-se, na sua obra poética, de um cosmopolitanismo ciente e despretencioso para estabelecer um constraste entre o mundo rural que esteve sempre no centro das suas preocupações, sobretudo quando corre o risco de se transmutar, graças às consequências da utilização de tecnologias de ponta. Mais do que ‘Pacto de Sangue’, em que trata da solidão dos expatriados, ‘Abril’, que põe em evidência a imposição de um passado histórico, os seus poemas ‘Serrim’e sobretudo, ‘Suíça’, refletem a necessidade de estabelecer as verdadeiras prioridades nacionais.

OBRA POÉTICA
Geografia das Estações, edição de autor, Vila Real, 1994
A Super-Realidade, edição do autor, Vila Real, 1995
Música Antológica & Onze Cidades, Presença, Lisboa, 1997
Praças e Quintais, Averno, Lisboa, 2003
Longe da Aldeia, Averno, Lisboa, 2005
Capitais da Solidão, Teatro de Vila Real, 2006
Oráculos de Cabeçeira, Averno, 2009


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