Lope de Vega – Versos na tarde – 08/08/2016

Soneto de repente
Lope de Vega¹

Um soneto me pede Violante,
nunca na vida estive em tal aperto;
quatorze versos dizem que é soneto:
brinca brincando lá vão três avante.

Não pensei que encontrasse consoante,
e na metade estou de outro quarteto;
mas, se me vem o início de um terceto,
cá nos quartetos nada há que me espante.

No primeiro terceto vou entrando,
e parece que entrei com o pé direito,
pois fim com este verso lhe vou dando.

Estou já no segundo, e ainda suspeito
que vou os treze versos acabando;
contai se são quatorze, e ei-lo: está feito.

¹Félix Lope de Vega Carpio ou Lope Félix de Vega Carpio
* Espanha – 25 de Novembro de 1562 d.C
+ Espanha – 27 de Agosto de 1635 d.C
Dramaturgo, autor de peças teatrais e poeta espanhol.


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Charles Bukowski – Versos na tarde – 15/06/2016

O pássaro azul
Charles Bukowski¹

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro com ele,
eu digo, fique aí, eu não vou
deixar ninguém te
ver.

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas eu encho ele de whiskey e
fumaça de cigarro
e as putas e os garçons
e os balconistas dos mercados
nunca percebem que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou muito duro com ele,
eu digo,
fica quieto, você quer armar
pra mim?
quer ferrar com meu
trabalho?
quer acabar com a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou muito esperto, eu só o deixo solto
às vezes de noite
quando todo mundo está dormindo.
eu digo, eu sei que você está aí,
então não fique
triste.
então eu o recolho novamente,
mas ele canta um pouco
lá dentro, eu não o deixo
morrer totalmente
e nós dormimos juntos
desse jeito
com nosso
pacto secreto
e isso é o bastante
para fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

¹ Henry Charles Bukowski
* Andernach, Alemanha – 16 de agosto de 1920 d.C
+ Los Angeles, USA – 9 de março de 1994 d.C


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Gerardo Melo Mourão – Versos na tarde – 09/07/2015

E a duração do lírio fora um hálito
Gerardo Melo Mourão ¹

E a duração do lírio fora um hálito,
o lírio, Geraldino, de cristal,
que te floresce sobre a sepultura;
o lírio, Telmo, que em teus olhos pálpebras
apascentam de pétalas no claustro.

E no entanto durara: ao tempo quando
a madressilva não temia os pés
desabrochados entre margaridas
e a mão sabia a dança que hoje não.

Era não distinguir do dia a noite,
entre uma lua e um quarto errar em casa,
morar nas mangas e nas rosas hóspede
e ao pássaro alugar-se de repente.

E alugavam-se ao vento os calendários,
as datas e os ponteiros do relógio
sucediam-se pétalas de espátulas
alugados aos ventos os ponteiros
giravam girassóis de cataventos.

E a duração do lírio fora um hálito.

¹ Gerardo Melo Mourão
* Ipueiras, CE – 8 de Janeiro de 1917 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Março de 2007 d.C

>> biografia de Gerardo Melo Mourão


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William Blake – Versos na tarde – 06/06/2015

Das Canções da Inocência
Introdução
William Blake ¹

Tocando uma flauta no vale selvagem
Tocando canções doces e alegres
Vi uma criança surgir nas nuvens,
E ela me disse a sorrir,
“Toque aquela do cordeiro”;
Então toquei com alegria;
“Toque, por favor, a canção de novo” –
Então eu toquei, e ela chorou ao ouvir.
“Largue a flauta, tua flauta feliz
E cante canções que tragam alegria;
Então toquei a mesma canção
Enquanto ela chorou deliciada ao ouvir.
“Flautista, sente-se e escreva
Num livro para que leiam” –
Então ela desapareceu”.
E eu catei um junco oco,
E fiz uma caneta rústica,
E Mergulhei-a nas águas claras
Para escrever as felizes canções
Que toda criança adora ouvir.

¹ William Blake
* Londres, Inglaterra – 28 de Novembro de 1757 d.C
+ Londres, Inglaterra – 12 de Agosto de 1827 d.C


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José Albano – Versos na tarde – 04/06/2015

Esparsa
José Albano ¹

Há no meu peito uma porta
A bater continuamente;
Dentro a esperança jaz morta
E o coração jaz doente
Em toda parte onde eu ando,
ouço este ruído infindo:
São as tristezas entrando
E as alegrias saindo

¹ José Albano
* Fortaleza, CE. – 12 de Abril de 1882 d.C
+ Montauban, França – 11 de julho de 1923 d.C


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Trazíbulo Casas – Versos na tarde – 29/05/2015

Prólogo
Trazíbulo Casas¹

todas as noites
aqueles homens decidem o destino
do mundo.
fora de cena, um louco enrola-se
em jornais
e sonha com homero.

¹Trazíbulo Casas
*Feira de santana,BA – 1957 d.C


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Francisco Otaviano – Versos na tarde – 20/05/2015

Recordações
Francisco Otaviano ¹

Oh! se te amei! Toda a manhã da vida
Gastei-a em sonhos que de ti falavam!
Nas estrelas do céu via teu rosto,
Ouvia-te nas brisas que passavam:
Oh! se te amei! Do fundo de minh’alma
Imenso, eterno amor te consagrei…
Era um viver em cisma de futuro!
Mulher! oh! se te amei!

Quando um sorriso os lábios te roçava,
Meu Deus! que entusiasmo que sentia!
Láurea coroa de virente rama
Inglório bardo, a fronte me cingia;
À estrela alva, às nuvens do Ocidente,
Em meiga voz teu nome confiei.
Estrela e nuvens bem no seio o guardam;
Mulher! oh! se te amei!

Oh! se te amei! As lágrimas vertidas,
Alta noite por ti; atroz tortura
Do desespero d’alma, e além, no tempo,
Uma vida sumir-se na loucura…
Nem aragem, nem sol, nem céu, nem flores,
Nem a sombra das glórias que sonhei…
Tudo desfez-se em sonhos e quimeras…
Mulher! oh! se te amei!

¹ Francisco Otaviano de Almeida Rosa
* Rio de Janeiro, RJ. – 26 de Junho de 1825 – d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. 28 de Maio de 1889 – d.C


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Virna Texeira – Versos na tarde – 14/05/2015

Muros
Virna Texeira ¹

Depois
do portão

as lágrimas
deságuam

¹ Virna Gonçalves Teixeira
* Fortaleza,CE.
Poeta, tradutora e médica neurologista.
Publicou Visita (2000) e Distância (2005), ambos pela Ed. 7 Letras


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Alphonsus de Guimaraens Filho – Versos na tarde – 17/03/2015

Boca temporã
Alphonsus de Guimaraens Filho ¹

A boca temporã, nessa risada
matinal, descuidosa, a linda boca
fresca de céu, perdidamente louca
pelo desejo apenas esmagada…

Nela respira ingênua madrugada,
a carne azul dos campos mal dormidos,
rios, aguadas, vila despertada
pelos ventos do alto, comovidos…

Nessa boca que aos poucos madurando
se oferece na árvore travessa,
vejo dormir as frutas assustadas,

as frutas sumarentas despontando.
Agasalhar no colo essa cabeça,
depois sair sonhando nas estradas.

¹ Alphonsus de Guimaraens Filho
* Mariana, MG. – 3 de Junho de 1918 d.C

+ Rio de Janeiro, RJ. – 28 de Agosto de 2008 d.C


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Fernando Pessoa – Versos na tarde – 05/07/2014

A água chia no púcaro que elevo à boca
Fernando Pessoa/Alberto Caeiro ¹

A água chia no púcaro que elevo à boca.
«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la.
Sorrio. O som é só um som de chiar.
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta.

¹ Fernando Antonio Nogueira Pessoa
* Lisboa, Portugal – 13 de Junho de 1888 d.C
+ Lisboa, Portugal – 30 de Novembro de 1935 d.C

>> biografia de Fernando Pessoa


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