Fernando Pessoa – Poesia

Boa noite.
Como é por dentro outra pessoa
Fernando Pessoa

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Ilustração de Yuko Hosaka

Inês Reis – Prosa

Boa noite.
Memórias de uma velha
Inês Reis

Sinto que timidamente, retorno à escrita como se de ao longe acenasse a uma afastada amiga de infância. As condições são perfeitas: me sinto inspirada e me encontro só.Ontem celebrei mais um ano e me emocionei. Confesso que não planejei chegar onde estou, ser como sou ou de ter deixado levar a vida o que me levou… memórias.

Me lembro daquele dia que, enquanto fazia de seu peito almofada, me falou que não existiam almas gêmeas. Que elas se encontram espalhadas em milhares de corpos que por aí vagueiam e que por sua vez, continuam nessa incessante e romântica procura sem enxergarem que se encontram todos os dias.

Acreditei. E me lembro também que reprimi o choro e de seguida, beijei seus lábios ferventes ao sabor do chocolate quente que tínhamos tomado lá fora durante mais uma das diárias partidas de xadrez.

As pessoas: era esse o nosso tópico de conversa favorito. Afinal, estudar o comportamento humano é deveras interessante, assim como o seu corpo, que a maioria infelizmente considera promíscuo. E por isso despendíamos horas entre museus e galerias, a apreciar cada traço e curva que os artistas haviam esculpido ou pregado na parede. Transcendíamos a matéria e as pessoas não o entendiam.

Incrível como após todos este anos ainda sofro de insônias. Ele adormece primeiro e então, lhe ajeito os cabelos que caem sobre seu rosto que viaja noutra dimensão. A sua pele insanamente se mantém morena e os seus olhos cinzentos claros continuam a petrificar quem os fite. Mas eu, estou velha. O peito outrora firme, se tornou mole. O cabelo castanho loiro à luz do sol, desvaneceu. E a face antes lisa, ganhou expressão através dos milhares de lágrimas e risos.

Apago a luz, aconchego-me e agradeço. Escrevo este texto mal engomado só para mim. Para lhe dizer que de entre todos, é apenas para ele que a minha alma sorri.

Pintura de Michael Carson

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Filipa Leal – Poesia

Boa noite.
Escrevia à mão a cidade
Filipa Leal

Habitava da cidade
os lugares mais pequenos.

Limpava-lhe o pó,
pintava-lhe os cabelos,
escondia-lhe as rugas
(chegava mesmo a deitar-se
ou a deitar areia sobre as ruas
abertas).

Às vezes chorava-lhe no centro
a ausência,
ou matava-lhe os homens
que corrompiam os homens.
Por fim,
esquecia-lhe as feridas.

Escrevia à mão a cidade
e a cidade escrevia-se
sobretudo
no cinzento
no esquecimento.

Eram tão simples as palavras
da cidade,
mas complexos os amigos
que dela habitavam
os lugares mais pequenos.

Fotografia de Siggi Ragnar