Eleições 2010: Avanço de Marina ameaça Dilma e beneficia Serra

Marina virou o pesadelo de Dilma e o sonho de Serra

A principal novidade da reta final da eleição se chama Marina Silva. A presidenciável do PV divide o estrelado com Erenice Guerra.

Marina tornou-se a principal beneficiária do ‘Erenicegate’. Recolhe a maioria dos votos que o escândalo suga do cesto de Dilma Rousseff.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

A seis dias da eleição, Marina não exibe musculatura eleitoral capaz de içá-la ao segundo turno. Opera contra ela o relógio. Porém…

Porém, ao escalar sobre Dilma, Marina termina por favorecer José Serra, o segundo colocado das sondagens eleitorais.

A chance de a eleição migrar para o segundo turno –pesadelo de Dilma e sonho de Serra— parece escorada, por ora, no “fator Marina”.

Em duas semanas, a candidata do PV subiu três pontos percentuais no Datafolha. Foi de 11% para 13%. E daí para os atuais 14%.

No mesmo perído, Dilma escorregou cinco pontos. Na semana passada, descera de 51% para 49%. Agora, foi 46%.

Serra, que oscilara positivamente de 27% para 28% manteve-se no mesmo patamar no Datafolha que veio à luz nesta terça.

Considerando-se apenas os votos válidos, Marina já soma 16%. Empurrada por Erenice, ela subverte todas as previsões de Lula.

O patrono de Dilma estimara que Marina chegaria ao dia da eleição como uma espécie de sub-Heloisa Helena. Dá-se o oposto.

Em vez de definhar, Marina cresce. Pior: para desassossego de Lula, a ex-petista belisca votos de Dilma, não de Serra.

Vem daí, sobretudo, o fantasma que acomoda no caminho de Dilma o risco do segundo turno –uma pedra que parecia improvável antes de Erenice.

Se mantiver a curva de alta, a ambientalista Marina pode levar ao prato da balança eleitoral a folha que vai mover o pêndulo.

Num cenário assim, de votação apertada, os ataques a Marina podem surtir o efeito de um bumerangue.

No penúltimo debate, levado ao ar pela Record na véspera da nova pesquisa, Marina mostrou-se mais desenvolta que o habitual.

Fustigou Serra e Dilma. Defendeu-se de Plínio de Arruda Sampaio. Contra Dilma, Marina levou aos holofotes Erenice, mola de seu crescimento.

Evocou o mensalão. E disse que, sob Lula, a Casa Civil tornou-se escândalo recorrente. Pespegou: Que providências você adotou para evitar, Dilma?

Ao responder, a protegida de Lula levou a mão ao tacape. Lembrou a Marina sua condição de ex-ministra.

Afirmou que, sob a gestão da ex-colega de Esplanada, servidores da pasta do Meio Ambiente foram pilhados mercadejando madeira ilegalente.

“Tomei as mesmas providências que você”, Dilma devolveu, lembrando que a reação vigorosa nem sempre oferece garantias contra a reincidência.

Festejado pelos operadores de sua campanha, o contraataque de Dilma pode, a essa altura, funcionar como gol contra. Por quê?

Dilma não perdeu a condição de favorita. Mas a hipótese do segundo turno, antes improvável, deixou de ser negligenciável.

Marina tampouco perdeu o semblante de zebra. Mas, confirmando-se o segundo round, o apoio dela será mercadoria das mais cobiçadas.

De concreto, por ora, apenas uma evidência: seja qual for o resultado da eleição, com um turno ou com dois, Marina sairá da disputa maior do que entrou.

blog Josias de Souza

Eleições 2010: Dilma conquista mais votos entre os indecisos que Serra

Parece que o noviciado de D. Dilma está obtendo mais resultados que a experiência eleitoral de inúmeras eleições de José Serra. A considerar também esses debates com perguntas imbecis e respostas vaselinas. Como alguém que quer ser presidente da república pode ter resposta consistente para perguntas complexas, em míseros 90 segundos? Só quem ganha são as redes de televisão que vendem uma imagem de isenção e democracia para os espectadores. Até parece, né?
O Editor



Moacyr Lopes Jr./Folha

Em grupo de ‘indecisos’, Dilma conquista mais votos

Os organizadores do debate presidencial da noite passada reuniram um grupo de 25 eleitores “indecisos” para analisar o desempenho dos candidatos.

Dá-se a esse tipo de procedimento o nome de “pesquisa qualitativa”. A opinião dos participantes foi medida por meio de um “índice de gostabilidade”.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Varia numa escala que vai até cem. Quanto mais alta a nota, maior a aprovação ao trecho do debate sob avaliação.

Ao final, recolheram-se as opiniões sobre o desempenho de cada candidato e a tendência de voto dos pesquisados.

Dos 25 eleitores, dez acharam que Marina Silva foi quem se saiu melhor no debate. Para nove, Dilma venceu. Apenas dois acharam que Serra prevaleceu.

Quanto a Plínio de Arruda Sampaio, embora tenha registrado os maiores picos no “índice de gostabilidade”, 13 pessoas o avaliaram como o pior contendor.

No pedaço da pesquisa que mais importa, Dilma extraiu do grupo mais dividendos que seus rivais.

No início da refrega, apenas quatro pessoas pendiam para o voto na pupila de Lula. Ao final, dez disseram que votarão nela.

Marina largara com três eleitores potenciais. Desligadas as câmeras, somava sete. Os eleitores simpáticos a Serra, caíram de quatro para três.

No geral, o grupo gostou mais dos pedaços em que foram debatidos temas propositivos do que dos trechos marcados pela pancadaria.

No segundo bloco, dominado pelo “Fiscogate”, o grupo apreciou mais as reações de Dilma (oito menções positivas) do que as acusações de Serra (apenas três).

No terceiro bloco, o “índice de gostabilidade” desceu a uma média abaixo de 60 nos instantes em que Serra e Dilma alvejaram-se mutuamente.

Não por acaso, Marina (sete menções) e Plínio (seis) foram considerados os melhores do bloco. Ela falou sobre desastres naturais.

Ele ironizou uma pergunta de Dilma sobre a nacionalização dos navios da Petrobrtas –“É pegadinha”- e queixou-se “bolsa banqueiro” instituído sob Lula.

O pior momento de Dilma foi registrado numa resposta dada a Serra sobre os baixos índices de investimento em saneamento. Disse que, eleita, continuaria o que foi feito nessa área sob Lula.

Um indicativo de que, sob a ótica do eleitor, o tucano talvez lucrasse mais se acomodasse as propostas à frente dos ataques.

O pior instante de Marina foi a pergunta que dirigiu a Dilma sobre a violação de sigilos na Receita. Os 25 membros do grupo torciam o nariz para o tema.

No bloco das considerações finais, o “índice de gostabilidade” foi a patamares inferires a 50 quando Dilma mencionou o neto Gabriel.

A pregação de Marina a favor da realização de um segundo turno atingiu média 75. O timbre propositivo de Serra no encerramento rendeu-lhe índices que roçaram 65.

As pesquisas qualitativas não tem o mesmo valor científico das quantitativas. Mas são valiosas ferramentas de aferição dos humores do eleitor.

Os comitês de campanha também realizam as suas. Utilizam os resultados para dosar o discurso dos candidatos.

blog Josias de Souza

Eleições 2010: Nos debates da TV, Dilma, Serra e Marina vão da mesmice à vaselina

Brasil: da série “me engana que gosto!”

A mais pura expressão do “enrolation”. Essa é a observação mais generosa que posso fazer ao fim, ufa!, dos debates(?) ontem na TV, dos candidatos à presidência dessa pobre e depauperada República Brasileira.

Suas (deles) ex-celências trêfegos, trafegaram das mesmices acusatórias com as respectivas respostas vaselinas, até o cinismo das promessas que sabem jamais serão cumpridas. O patético e paleolítico candidato comunista, sim tal figura ainda fala e anda Plínio Sampaio, ruminou a velha cantilena, pra lá de kafkaniana, do paraíso socialista. Nem Gregor Samsa delira com tal utopia. A única coisa que foi acrescentada aos candidatos foi o nariz pinoquiano. Os Tupiniquins podemos ter a certeza que “nunca na história desse paiz” tivemos uma safra de candidatos, e jornalistas,  tão despreparados. Numa entrevista para emprego de porteiro de espelunca, eu os reprovaria.
O Editor


Debate chega ao fim tão enfadonho quanto mais um dia na repartição

O debate promovido pela Rede TV!/Folha de São Paulo, com uma dobradinha inicial de Dilma e Marina falando sobre agricultura familiar, com direito a tréplica!. Bola levantada, foi a vez de emendar com a questão da quebra de sigilos na Receita – pergunta que Dilma respondeu a Marina insistindo no “doa a quem doer” na apuração, sem falar como poderia prevenir o crime antes de acontecer.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Serra perguntou à candidata do governo sobre saneamento, citando números, e Dilma rebateu com outros números para dizer que o governo está investindo. Vieram as considerações finais. Dilma se despediu emocionada lembrando o nascimento do neto. Marina foi interrompida (faltou o tempo que sobrou no outro bloco).

Serra destacou a “energia” que recebe das pessoas na rua (uma “eletricidade” que faltou no debate) e Plínio, livre, leve e solto, chamou a atenção para o fato de ser um candidato “diferente” dos outros “que vocês viram”. Pela “pressão” e “temperatura” do “encontro” desta noite na Rede TV!, o telespectador chega à conclusão de que o Brasil virou uma imensa e enfadonha repartição pública, da qual nem os debates escapam.

Segundo bloco do debate tira Serra do ‘isolamento’ e destaca Dilma

Na segunda parte do debate Rede Tv!/Folha de São Paulo, o tucano José Serra pôde voltar à questão da corrupção, após uma pergunta da jornalista Renata Lo Prete, da Folha. Até então, a candidata do governo ficou na berlinda, alvo de Marina e Plínio, ganhando um bom tempo de exposição.

Dilma não gostou da acusações de Serra contra a Casa Civil sobre a quebra de sigilo da filha dele. Dilma rebateu, ameaçando processá-lo. O debate esquentou um pouquinho. O tucano questionou Dilma sobre o relacionamento “carinhoso” com o Irã, que viola os direitos humanos.

A candidata governista se disse “defensora dos direitos humanas”, mas favorável ao “diálogo” e não confronto, como prega o presidente Lula. O debate parece uma corrida de obstáculos: mal o candidato começa a responder, o tempo acabou. O telespectador fica sem ar, de olho no tempo de resposta que vai acabando.

Os candidatos ainda precisam treinar muito para responder em poucos segundos, sem o “gongo” do relógio.

coluna Claudio Humberto

Eleições 2010 e debates. A farsa se repete. Em forma de farsa!

Será que a tendência de um eleitor pode mudar em função da pantomima dos debates televisivos? A estratégia de todos os participantes é a do cinismo explícito. Mentem nas promessas que não cumprirão se eleitos, mentem ao dizer que o adversário é que mente.

Suas (deles) ex-celências representam ridículos mamulengos, mal e porcamente manipulados por marqueteiros, habitantes de um universo surrealista.
O Editor


A mesma farsa de sempre
Promover debates entre Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva será sempre uma festa para as elites.
Para os mais críticos, uma farsa.

Porque apesar de divergências periféricas e até de farpas lançadas aqui e ali, os três pretendentes à presidência da República falam a mesma língua.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Exaltam o capitalismo, celebram a globalização, sustentam o modelo econômico da especulação financeira e da livre competição entre quantidades distintas e enaltecem a prática que vai tornando os ricos mais ricos e os pobres, mais pobres.

Do máximo que falam é da assistência social.

Mudar o mundo, mesmo, só Plínio de Arruda Sampaio, por isso excluído dos debates mais recentes.

Carlos Chagas/Tribuna da Imprensa

Eleições 2010: Analistas, pesquisas e mentiras

Vinho de outras pipas
Dora Kramer

Obrigados pela lei a fabricar omissões onde a honestidade com o público requereria nitidez, os analistas da cena política são forçados a mentir no rádio e na televisão em suas análises sobre o desempenho dos candidatos presidenciais nesta temporada de debates e entrevistas.

De onde se produz, por exemplo, a obra de ficção segundo a qual Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva tiveram atuações “equivalentes” e que são mais ou menos iguais.

Só na cabeça de ervilha dos parlamentares inspiradores dessa legislação passa a idéia de que a opinião de comentaristas possa criar desigualdade a ponto de distorcer a vontade do eleitor. Por muito mais – o uso desbragado da máquina pública – o presidente da República investe diariamente no desequilíbrio do jogo.

Até pelo tempo de estrada, se José Serra se apresentasse no mesmo patamar das adversárias seria uma demonstração de incompetência com certidão passada em cartório do céu.

Serra já disputou várias eleições majoritárias (presidente, prefeito, governador e senador) e passou algumas dezenas de anos fazendo as coisas de modo a um dia concretizar o projeto de ser presidente.

Suas oponentes entraram nessa vida de exposição, cobranças e assédio praticamente anteontem, sendo que Dilma nunca pediu um voto e Marina se elegeu senadora por um Estado diminuto, o Acre.

Por essas e algumas outras a exigência do eleitor/telespectador em relação ao tucano é muito mais rigorosa.

A superioridade de Serra no assunto em pauta, o exercício da Presidência da República, é obvia e irrefutável. Tanto isso é verdade que os correligionários de Dilma comemoraram o fato de ela não ter tido uma atuação desastrosa. A candidata do PT leva vantagem neste aspecto: se não é péssima, fica convencionado que foi ótima.

Marina fica em certa desvantagem, pois a expectativa de que faça algo exótico e altamente estimulante do ponto de vista eleitoral é muito alta. No primeiro debate de televisão, por exemplo, a candidata do PV teve uma participação, digamos, normal.

Foi o suficiente para ser considerada a grande perdedora. Plínio de Arruda Sampaio, de quem não se esperava coisa alguma, conseguiu “vencer” e, de acordo com a tolice da estação, “bombar no Twitter“, mesmo dizendo ligeirezas radicais. Alguém já pensou o que seria feito de Serra ou de Dilma se à meia-noite um dos dois olhasse fixo para a câmera e falasse olho no olho para “você camponês que está me ouvindo”?

Pois é, a avaliação do desempenho dos candidatos no debate da Band, nas entrevistas do Jornal Nacional/Jornal das Dez (Globonews), depende da perspectiva e da expectativa do público.

O PT já está fazendo um carnaval por aí, alegando que a dupla de entrevistadores do JN favoreceu José Serra. Não se vê, entretanto, provas disso. Qual o assunto que poderia ser abordado e não foi? Qual a pergunta que poderia ter sido feita e não foi?

A temática economia e Banco Central – um tanto elaborada para o público em questão – foi abordada mais tarde no noticiário da TV paga e Serra tirou de letra, ao contrário de ocasiões outras em que saiu de si e caiu na besteira de se irritar quando cobrado sobre o assunto.

A questão é que a prática tornou Serra afiado no treino e o plano de vida o fez acumular passivo menos polêmico. Não há – ao menos à vista – constrangimentos sérios com os quais possa ser confrontado.

Dilma, além de precisar responder pelos crimes dos outros ainda tem de ouvir se está preparada para ser presidente. A mesma pergunta para o tucano não faz o menor sentido, a não ser como forma de levantar uma bola para favorecê-lo.

Já foi dito aqui, mas convém repetir: qualidade de conteúdo e vitória eleitoral não são fatores que andam necessariamente juntos. Nem separados. Já tivemos excelentes governantes bem votados, preparadíssimos candidatos perdedores e fraudes evidentes celebradas pelo eleitor, que nem sempre tem compromisso com a lógica.

Alguns leitores me perguntam por que ainda não escrevi sobre o jovem Leandro dos Santos de Paula, chamado de “otário” e “sacana” pelo governador  do Rio, Sérgio Cabral  (PMDB), porque ousou ser “o povo que fala”, em que vez de “o povo que baba e agradece”. Se vocês notarem, tenho certa paixão por temas que vão sendo deixados pelo caminho. E se escreveu bastante sobre o episódio, com um registro que me pareceu, no mais das vezes, o correto. Darei destaque, no entanto, a um aspecto do conjunto, que remete a uma preocupação antiga deste escriba.

Mais até do que o “sacana e otário” de Cabral — e tenho a certeza de que ele diria tratar-se de uma forma carinhosa e viril de se relacionar com o povo… —, o que me incomodou foi a resposta do Babalorixá de Banânina quando o rapaz cobrou uma quadra de tênis. Disse o preclaro: “Isso é esporte da burguesia”. Isso, sim, é manifestação de má consciência, ainda que pareça apenas uma resposta convencional, até engraçada.

Antes de entrar no mérito da resposta e a que tipo de mentalidade ela apela, faço aqui uma pequena memória. Quanto o governo decidiu comprar lençóis e roupões de algodão egípcio, houve uma grita aqui e ali. Era como se Lula fosse o Leandro pedindo uma quadra de tênis: o ex-operário estaria se “aburguesando”. A crítica era bocó. Fiquei fora dessa conversa. Acho que, na única referência que fiz a respeito, recomendei que se comprassem também meias italianas para Lula, de cano mais longo, para que ele não ficasse com as canelas gordotas de fora quando sentado, o que me parece impróprio, no meu conservadorismo atroz, a um chefe de estado.

O presidente brasileiro é, sim, a expressão máxima da odiosa “burguesia do capital alheio”, mas essa é outra conversa. Aí se trata de um processo de ocupação do Estado pela “nova classe social”, oriunda da burocracia sindical. Nada tem a ver com lençol de 600 fios — a que até um presidente intelectual teria direito, se é que entendem a ironia. A grita era puro preconceito. Ali Kamel apontou isso à época, chamando aquele tipo de crítica de “classismo”.

Pois é… Na resposta a Leandro, Lula foi “classista”. Ao cochichar com Cabral, já surgiu o estrategista: “Se a imprensa descobre que a molecada não pode usar a piscina do centro esportivo…” O “classismo” do presidente — justamente ele… — tem sido um método na relação do estado brasileiro e das ONGs com os pobres. Não lhes cabe sonhar com o tênis, bastam o futebol e, de vez em quando, a natação. Já é uma oferta suficiente. Neste momento, um petista apressado já pensaria em interromper: “E o ProUni para os pobres”. Pois é… São os cursos universitários que estão mais para um futebolzinho numa quadra meio mixuruca do que para o… tênis! O leitor esperto percebeu que uso esses elementos como metáforas, claro!

A má consciência que toma conta do “discurso do social” vê na pobreza uma espécie de variante antropológica, de cultura particular, cujos sonhos e horizontes têm um limite, que não comporta uma quadra de tênis, tanto quanto seria demasiada ambição um ex-operário querer dormir em lençóis egípcios de 600 fios. Embora Lula acuse permanentemente o preconceito que haveria contra ele — e, pois, contra o “povo” —, a resposta dada a Leandro revela que ele se tornou um agente propagador daquela visão torta de mundo. No sentido daquela antiga crítica tacanha, ele não se “aburguesou” porque dormiu em lençóis egípcios, ele se “aburguesou” porque sustenta que Leandro não tem direito ao seu próprio lençol de fino trato — no caso, à sua quadra de tênis.

Seres humanos de qualquer classe, origem ou lugar sonham. Até Sinhá Vitória, em Vidas Secas, do grande Graciliano Ramos, sonhava com uma cama de couro quando chovia. E se deve oferecer ao “povo”, creio, caso se queira realmente mudar a sua vida e a escrita, mais oportunidades do que as consideradas “normais e próprias” a seu meio.

Voltando ao começo
Indaguei, certa feita, por que tantas ONGs sobem o morro, no Rio, ou vão à periferia, em São Paulo, para ensinar ao povo o que o povo já sabe: rap ou funk, batuque, malabarismo, artes circenses. Por que não lhes oferecer também Mozart, Manuel Bandeira ou Machado de Assis? Aquela “gente” que está lá não tem anseios distintos dos nossos, não, desde que tenha a oportunidade de alargar seu repertório. Sua origem não a condena a dormir eternamente na cama de ripa, sem direito a sonhar com a cama de couro bem esticado. É preciso abrir seus horizontes, sim,  para que ambicione a quadra de tênis e os lençóis egípcios de 600 fios.

E como se consegue isso? Por meio de uma educação que tenha um caráter universalista — aquela mesma a que, como diria Lula, os “burgueses” têm direito. O “povo” não pode mais ser visto como uma variante antropológica, como um ser de uma outra espécie, a quem voltamos, caridosos, os olhos, certos de que ele emitirá uma mensagem para nos comover, na sua poética rusticidade.

As políticas de “promoção dos pobres” hoje em curso têm um apelo identitário: algumas oportunidades lhes são oferecidas — não “quadra de tênis”, que é aí já é demais — não para que deixem de ser pobres, mas para que transformem a pobreza num saber e num discurso de auto-afirmação. Pode haver preconceito mais odiento do que esse? Pode haver discriminação de classe mais evidente.

Jornal Nacional: O dia em que Serra perdeu a eleição

Para os mais apaixonados, contras e a favor, foi visível o tratamento diferenciado dado a cada um dos candidatos, à presidência da República, entrevistados na bancada do Jornal Nacional. Cada lado acha que o adversário foi beneficiado, e que seu preferido foi maliciosamente prejudicado. Será que o Jornal Nacional é tão decisivo assim? A resposta? A teremos quando as urnas forem abertas.
O Editor
Ps. Passo a reproduzir a partir de hoje, artigos de articulistas, de diversas tendências partidárias, analisando o desempenho de seus (deles) preferidos na campanha eleitoral na TV.


O dia em que Serra perdeu a eleição
Por: Eduardo Guimarães/blog da Cidadania

Na última segunda-feira, após a entrevista de Dilma Rousseff ao principal telejornal da Globo, escrevi sobre “O dilema do Jornal Nacional“. Seria o dilema de como tratar José Serra na entrevista que daria ao programa noticioso depois de o “casal-âncora” Willian Bonner e Fátima Bernardes ter sido rude com a candidata do PT. Escrevi, então, que o JN teria que optar entre duas escolhas.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

A primeira escolha seria a de tratar José Serra com suavidade para não prejudicá-lo fazendo questões para as quais qualquer resposta que desse seria ruim, como, por exemplo, perguntá-lo sobre contradição idêntica à que foi apontada contra Dilma, sobre seu partido estar aliado com partidos e caciques políticos que o PT, outrora, só não chamou de santo.

No caso de o JN fazer essa escolha, teria que perguntar a Serra sobre o que há de mais gritante em suas alianças, como o tucano se aliar a Orestes Quércia, pivô da saída de Fernando Henrique Cardoso, de Mário Covas e do próprio Serra do PMDB para fundarem o PSDB. Para fazer uma entrevista honesta, também haveria que perguntá-lo sobre o “mensalão” do DEM e sobre José Roberto Arruda, expoente do partido que indicou o vice de Serra e que chegou a ser preso e depois cassado por corrupção.

A outra escolha possível ao JN seria a de fazer o que efetivamente fez, ou seja, montar um teatrinho com perguntas e respostas obviamente ensaiadas entre o “casal-âncora” e o entrevistado tucano, com Willian Bonner se perdendo em meio a uma torrente de pedidos de “desculpas” ao entrevistado por ameaçar interrompê-lo. O teatrinho visou fazer parecer que Serra fora tratado com dureza igual à que foi usada contra Dilma.

O Jornal Nacional fez a segunda opção. Contudo, mal treinados em atuação teatral, Bonner e Bernardes foram tão óbvios na suavidade das perguntas e na omissão das questões mais espinhosas contra Serra, e tão escancarados ao manter o “mensalão do PT” no ar nas entrevistas com os três principais presidenciáveis, que o assunto partidarismo do telejornal chegou até às páginas da imprensa amiga, como em matérias na Folha de São Paulo levantando a polêmica.

Apesar de a Globo ter achado que a sua encenação seria uma jogada genial, as críticas foram tão vastas e tão variadas que até Roberto Jefferson, presidente do PTB e aliado de Serra, como retaliação por ter sido usado pelo JN no lugar de Quércia reconheceu que o telejornal favorecera seu candidato a presidente, o que obrigou a emissora a emitir nota oficial desmentindo que tenha favorecido alguém.

A mera leitura da transcrição das entrevistas dos candidatos não permite identificar favorecimentos. O JN perguntou a Dilma e a Serra sobre temas parecidos – sobre suas alianças, por exemplo, apesar de ter escolhido questionar a aliança errada de Serra, pois, como já disse, sua maior contradição é estar aliado ao pivô de sua saída do PMDB para fundar o PSDB.

De fato, a estratégia da Globo faz algum sentido porque a quase totalidade dos brasileiros não tem informações como essa que acabo de mencionar e, assim, não captaria diferença de tratamento entre o tucano e a petista.

Ocorre que há um fator subjetivo ao qual a “inteligência” global não deu atenção. Clicando aqui, o leitor será enviado a matéria do portal de internet da Globo contendo o vídeo e a transcrição da entrevista de Dilma ao JN. Clicando aqui, encontrará o mesmo em relação a Serra. Para os menos atentos, vale ler as transcrições das entrevistas e, depois, assistir aos vídeos, porque contêm um dado que aquelas transcrições escondem.

Há uma capacidade que os desprovidos de conhecimento político e até de instrução têm de sobra, ou seja, a capacidade natural das pessoas de notarem aspectos subjetivos como o tom de voz e a linguagem corporal dos entrevistados, quando tais aspectos são gritantes.

Faça um teste, leitor: retire o som dos vídeos das entrevistas de Dilma e de Serra e aprecie o balé subliminar das expressões faciais e dos gestos dos atores. Depois, ouça a entrevista sem ver as suas imagens. O que você captará, se for suficientemente honesto consigo mesmo para se abrir à realidade mesmo que ela contrarie as suas idiossincrasias, será a diferente disposição dos entrevistadores com cada entrevistado.

PSDB e Globo, de um lado, e o PT, de outro, fazem apostas, respectivamente, sobre a incapacidade e a capacidade do público. Por mais que tucanos e mídia assumam uma atitude de quem conseguiu o que pretendia, trata-se de uma aposta da qual estamos longe de saber se realmente foi vencida pela coalizão conservadora.

Em minha opinião, a linguagem subliminar gritante de imagens e sons, a persistência no tema “mensalão do PT” nas três entrevistas de candidatos e a polêmica sobre a diferença de tratamento a Dilma e a Serra provaram que a Globo integra a campanha do tucano.

Embora ainda não se possa dizer quem está certo – se eu ou a Globo –, que fique registrado que considero a série de entrevistas do Jornal Nacional com os candidatos Dilma Rousseff, Marina Silva e José Serra como o momento em que o favorito da Globo e da grande mídia efetivamente começou a perder a eleição de forma irreversível, e no qual a emissora sepultou suas aspirações de se posicionar como “isenta”.

11 de agosto de 2010, data da entrevista de Serra ao JN, ainda será considerado o dia em que o tucano efetivamente perdeu a eleição presidencial.

Eleições 2010: Dilma não comparece a debate com empresários em São Paulo

A candidata petista segue a mesma estratégia de quem lidera pesquisas. Foi assim com Fernando Henrique Cardoso, que só foi a um debate, e com Lula.
O editor


Dilma ‘foge’ de sabatina organizada por empresários

José Serra, Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio participam, nesta segunda (9), de encontro com cerca de mil empresários.

Em horários distintos, farão exposições sobre seus programas de governo –Plínio às 14h, Serrá às 15h e Marina às 16h.

Os três concordaram em se submeter, depois, a uma sabatina. Serão inquiridos pelo economista Roberto Macedo e três jornalistas.

São eles: Heródoto Barbeiro (CBN), Moisés Rabinovici (Diário do Comércio) e José Nêumanne Pinto (SBT).

Dilma Rousseff havia confirmado presença. Porém, na última hora, mandou a assessoria informar que não daria as caras.

Alegou-se problema de agenda. Meia-verdade. O único compromisso inamovível da candidata para esta segunda ocorrerá à noite.

A pupila de Lula abrirá a série de entrevistas ao vivo que o Jornal Nacional, da TV Globo, fará com os presidenciáveis.

Se quisesse, Dilma poderia fazer escala em São Paulo. Viaja em jatinho particular. E os organizadores do evento haviam marcado a participação dela para a abertura, às 14h.

Sem Dilma, optou-se por convidar Plínio, que aceitou gostosa e prontamente tomar parte da exposição/sabatina. Deve-se a iniciativa a três entidades:

São elas: ACSP (Associação Comercial de SP), Facesp (Federação das Associações Comerciais de SP); e CACB (Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil).

Será a primeira opotunidade para que os candidatos exponham suas idéias depois do debate televisivo da semana passada, levado ao ar pela Band, na quinta (5).

Em comunicado da última sexta (6), a CACB mencionava apenas os nomes de Serra e Marina, sem Plínio, o “substituto” de Dilma.

Neste domingo (8), a ACSP levou à sua página na web as fotos dos presidenciáveis convidados. Cuidou de incluir Plínio. Sobre a imagem da petista, uma inscrição:

“Dilma: cancelou.” Quem pressiona o mouse sobre as fotos é conduzido para uma notícia veiculada pelo ‘Diário do Comércio’. O texto faz referência ao vaivém de Dilma.

blog Josias de Souza

Artigo – Entre Abaetetuba e o Panopticum

O absurdo caso da menor presa no Pará, em uma cela com outros presos do sexo masculino, continua repercutindo, negativamente, é claro, mundo afora.

Sua (dela) excelência Ana Carepa, Governadora do Pará, “inovou” em matéria de decisões “enérgicas” de governo. Mandou demolir a prisão da cidade de Abaetetuba. Quer dizer, mandou tirar o sofá da sala.

A governadora nada fica a dever, em matéria de justificativas, aos seus auxiliares. Um, o delegado da cidade, declarou em audiência na Comissão de Justiça do Senado que “a menor devia sofrer de problemas mentais”. Um outro, indiretamente, deixou implícito que a vítima era a culpada da violência sofrida – teve que prestar favores sexuais aos presos em troca de alimentação – por não ter se declarado menor de idade.

Uáu!

Sobre o assunto leia abaixo o excelente artigo do blog Wálter Maierovitch¹

“Hoje cedo apanhei um material empoeirado. Do tempo que dava aulas de direito penitenciário e de processual penal. Isto no curso de preparação para ingresso na Magistratura e no Ministério Público. O curso era patrocinado pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, que teve como um dos fundadores Rui Barbosa e dele nasceu a Ordem dos Advogados do Brasil.

Referido curso levava o nome do falecido desembargador Arruda Sampaio, que é pai do ilustre Plínio de Arruda Sampaio, ex-PT e agora no Psol. O material supracitado estava dentro do livro do Jeremias Bentham, filófoso inglês cujo pensamento influenciou a Revolução Francesa.

Em 1818, Benthan escreveu a obra “Teoria das Penas e das Recompensas”. E com a sua genialidade elaborou o projeto do “Panopticum”.

Bentham era contra os excessos punitivos. Para ele bastava o castigo da pena. Nada de extras, como jogar mulher em cela masculina (caso de Abaetetuba), ou outras barbáries do tempo da Inquisição: o arrancamento da língua e a fogueira, como ocorreu com Giordano Bruno, no “Campo dei Fiori”.

Em face disso, Bentham arquitetou um presídio circular, o “Panopticum”. No centro do presídio ficaria o diretor. Assim, esse diretor teria a visão completa de todas as celas, de modo a impedir eventuais abusos.

Evidentemente, o “Panopticum” de nada serviria para conter os abusos de poder em Abaetetuba. Lá, o problema é que as autoridades,– envolvidas no caso da menor violentada–, não sabiam que o Direito Natural do Ser Humano (que não precisa ser escrito, pois é da essência do homem), a Constituição da República e a Lei de Execução Penal, proíbem a colocação de homens e mulheres na mesma cela.

E a prova do desconhecimento ficou patente pelo Jornal da Globo de ontem: a delegada que trancafiou a menor disse que não tinha outra saída legal.

Outro ponto decorrente. A governadora do Pará anunciou que vai destruir a carceragem de Ibaetetuba. Coitados dos paraenses. A governadora ainda não percebeu que o problema está no despreparo das autoridades e não na destruição do sofá, ou melhor, da carceragem. Seria melhor a governadora iniciar, imediatamente, cursos para educar os agentes da sua autoridade à legalidade, ou seja, ao conhecimento e ao cumprimento da lei.

Hoje, no boletim Justiça e Cidadania da CBN, fiz uma bricadeira, tipo “quiz”, com o jornalista Milton Jung, que acabou de voltar de Estocolmo.

A pergunta: A lei que estabelece a obrigatoriedade de celas individuais, com área mínima de 6 metros quadrados, salubridade, aeração, insolação e condicionamento térmico, é da Suécia ou do Brasil ? Essa disposição está no artigo 87 da brasileríssima e vigente Lei de Execução Penal, que é de 1984. E a lei de execução penal estabeleceu, – e nunca foi cumprida no particular -, que a União não daria nenhuma ajuda financeira ao Estado que deixasse de cumprir suas regras.

¹Sobre Wálter Maierovitch Continue lendo