A manutenção da paz precisa de um novo formato

Paz não deve ser uma palavra a ser lembrada apenas em tempos de conflito. Até que a paz se torne um processo constante, a espiral de guerra e conflito continuará, diz Serdar Vardar.

É hora de a ONU repensar sua estratégia para missões de paz?

Vamos enfrentá-lo: as Nações Unidas perderam muito de sua credibilidade e influência e não podemos permitir que as questões de paz e segurança sejam decididas pelas cinco potências nucleares do Conselho de Segurança da ONU. Devemos agir no nível do solo. Devemos envolver as pessoas, encorajá-las a falar umas com as outras. O tempo todo. Algo que a ONU falhou em fazer.

Por que não podemos imaginar um Comitê Internacional de Paz, por exemplo? Um preenchido não com diplomatas, mas com pessoas que dedicam suas vidas à paz e são escolhidas pelos cidadãos de cada país. Cada estado membro pode ser responsável por realizar eleições para escolher dois (um homem e uma mulher) delegados da paz que não tenham nenhuma filiação política. Pessoas que provaram ser pacificadores respeitados em seus países.

O ciclo vicioso de conflitos congelados

Essa organização global e civil pode transformar os tons suaves da paz em uma orquestra em grande escala. Porque a verdadeira paz é construída pelo povo, não mediada estrategicamente como no exemplo recente do Azerbaijão e da Armênia.

Em 1993, a Armênia tinha um exército melhor equipado e treinado do que o Azerbaijão e assumiu o controle do Nagorno-Karabakh, uma região reconhecida internacionalmente como território azeri. Depois de três décadas de conflito congelado, o Azerbaijão rico em petróleo tinha os meios para construir um exército melhor e retomou o controle da região. Depois de seis semanas de guerra que matou milhares e desabrigou 130.000 pessoas, ambos os lados concordaram em um contrato de fogo intermediado pela Rússia.

Longe de ser um acordo de paz, isso serviu apenas para congelar o conflito até que um dos lados reinicie as hostilidades. Esse tipo de ciclo vicioso deve acabar.

Os ‘pacificadores’ têm sua própria agenda política

Podemos realmente esperar que superpotências construam a paz em terceiros países? Por exemplo, o governo russo não tem interesse em alcançar uma paz real entre a Armênia e o Azerbaijão. Somente um conflito congelado permite que a Rússia atue como o “Big Brother” para ambos os países e mantenha uma presença militar na região.

Outras grandes potências também não são inocentes. A França disse recentemente que continuará vendendo armas francesas, independentemente do histórico de direitos humanos do país. Na mesma semana, o Senado dos Estados Unidos apoiou a venda de caças F-35 aos Emirados Árabes Unidos, país que bombardeou um centro de refugiados na Líbia e é acusado de cometer crimes de guerra no Iêmen.

Como podemos esperar que esses países tragam a paz quando, em primeiro lugar, são eles que vendem armas para cada lado? Se vêem um interesse nacional, interferem; se têm pouco a ganhar, procuram outro lugar. Basta olhar para o que aconteceu com os tutsis em Ruanda, o povo de Darfur no Sudão ou os bósnios no meio da Europa.

Um Comitê Internacional para a Paz escolhido pelo povo
Acho que chegou a hora de acabar com a dependência da abordagem burocrática e limitada dos poderes da ONU e do Conselho de Segurança.

Um Comitê Cívico Internacional de Paz pode fortalecer as iniciativas locais de paz e não confundiria o processo de paz com agendas estratégicas ocultas. O único objetivo seria desenvolver iniciativas consistentes de manutenção da paz, mesmo em tempos de paz.

Sei que há contra-argumentos sobre por que tal conceito pode ser descartado como uma tortura, mas devemos tentar e apresentar novas ideias e estruturas. Aqueles que oferecem oportunidades para pacificadores civis de todo o mundo. Porque uma coisa é clara: a paz é importante demais para ser deixada para poderes políticos oportunistas e egoístas.

DW

Paz na Colômbia?

‘Colômbia é uma sociedade totalmente traumatizada’

Pesquisadora Josefina Echavarría diz que resultado do plebiscito não é racionalmente explicável: há um conflito profundo no país, marcado por raiva e luto – EFE

Na prática, portanto, após penosas negociações e a recente assinatura do documento, o povo disse “não” à chance de dar fim a 52 anos de um conflito interno que já custou centenas de milhares de vidas e consome recursos preciosos.

A DW entrevistou a pesquisadora da paz Josefina Echavarría, nascida na Colômbia, que trabalha na Universidade de Innsbruck, na Áustria. Para ela, o profundo trauma da sociedade colombiana explica, em parte, a decisão popular, difícil de justificar com argumentos racionais.

Mas nem tudo está perdido: há iniciativas para implementar o acordo por outros meios. E o processo de paz viu nascer várias pequenas iniciativas de pacificação, em localidades e junto às famílias, que deverão sobreviver ao resultado das urnas. “Espero que esses movimentos não sejam afetados pela grande rejeição ao acordo de paz, em nível nacional”, torce Echavarría.

DW: O acordo de paz entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo da Colômbia foi negociado a duras penas. Apesar disso, diversos grupos faziam campanha contrária. Como se explica isso?

Josefina Echavarría: Havia no país uma oposição, liderada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, que movimentava os ânimos contra o governo. Essa posição fundamental, em princípio, nada tinha a ver com as negociações de paz. Além disso, uma série de grupos menores simplesmente consideravam injusto o acordo de paz.

Mas esse conflito dura mais de 50 anos, custou mais de 220 mil vidas. Depois de todo o sofrimento que ele tem causado na Colômbia, como alguém pode, a sério, ser contra um acordo de paz?

Não acho que esse resultado seja racionalmente explicável. Para compreendê-lo, é preciso considerar os diferentes estados de espírito entre os diversos grupos colombianos. A Colômbia é uma sociedade totalmente traumatizada, há tanta raiva, tanto luto no país. Muitos não se sentem escutados. E está claro que o governo e todos os que eram a favor do acordo subestimaram o tamanho desse grupo.

Agência Efe

Pesquisadora acredita que sociedade colombiana deve aprender a solucionar problemas de maneira democrática

O que o resultado do plebiscito significa para o processo de paz colombiano?

Já há tentativas para dar forma de lei ao acordo por outros caminhos. É também preciso enfatizar: graças a esse processo de paz, nos últimos anos foram fundadas numerosas iniciativas, a maioria trabalhando em nível local, que deram grande impulso a todo o processo. Justamente por atuarem nas pequenas localidades e, especificamente, com as famílias locais, eu espero que esses movimentos não sejam afetados pela grande rejeição ao acordo, em nível nacional.

A senhora acaba de voltar da Colômbia. Como se anuncia o futuro para as próximas gerações?

Acho que depende inteiramente de como os colombianos se comportarão após essa consulta popular. No momento, todos só estão olhando para esse resultado eleitoral. Vê-se nas urnas que a população estava totalmente dividida. Isso significa que há um conflito profundo na nação. Os colombianos precisam olhar para si e se perguntar: o que esse resultado representa agora, para o dia a dia no país? Acima de tudo, eles precisam aprender, ainda mais, a solucionar todos os seus conflitos de forma democrática.

Ainda há esperança para esse país sul-americano?

Acho que há muitas pequenas ilhas de esperança. A Colômbia é um país marcado por grandes disparidades. Há, por exemplo, em acentuado abismo entre as condições de vida no campo e nas grandes cidades. E, apesar dessas diferenças, dessa polarização da sociedade, sente-se, já agora, a paz em muitíssimos setores da vida quotidiana.

O ponto de vista do governo de Israel

O conflito do Hamas em cores
Giora Becher, Embaixador de Israel no Brasil

“O mundo livre ficou chocado quando terroristas explodiram trens e um ônibus em Londres e Madri, e transformaram os dois prédios mais altos do mundo em uma pilha de detritos, em Nova York. Todos concordaram que deveria existir uma cooperação internacional conjunta dirigida a ataques terroristas perpetrados por fanáticos islâmicos. A operação de Israel na Faixa de Gaza faz parte da luta mundial contra o terror. Os israelenses têm o mesmo direito básico dos cidadãos de São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília de viverem em segurança em suas cidades e lares, sem estarem expostos aos perigos de foguetes que possam “cair sobre eles” a qualquer momento.

Onde quer que os israelenses estejam, têm meros 15 segundos para correr com suas familias até o abrigo mais próximo e salvar suas vidas. Por oito longos anos, a cidade de Sderot, localizada a apenas 4 km de Gaza, tem vivido assim. Um quarto da população da cidade já saiu. Vocês estariam dispostos a viver sob estas condições, dia e noite, por oito anos, alvos de projéteis lançados pelo Hamas? O povo palestino não é nosso inimigo. Eles são nossos vizinhos. Queremos realmente “construir pontes” de diálogo e esperança de um futuro melhor com os palestinos.

O Hamas é nosso inimigo. Esta é uma organização terrorista islâmica violenta, membro do eixo radical Teerã-Hezbolá. Com sua linha dura de aderência a uma doutrina religiosa extremista, eles não querem fazer nenhum compromisso e não respeitam nenhum acordo. Seu objetivo declarado é o de eliminar o Estado de Israel e assassinar todos os seus cidadãos. O Hamas já explodiu ônibus lotados de passageiros em Tel Aviv, Haifa e Jerusalém. O Hamas enviou terroristas suicidas para assassinar centenas de israelenses em muitos locais. Como vocês agiriam se uma organização terrorista brutal fosse enviada para matar civis e crianças em seus restaurantes e ônibus? Além do mais, o Hamas não é apenas inimigo de Israel, mas inimigo de todos os árabes moderados.

Pouco tempo atrás, quando o Hamas tomou Gaza à força, seus homens não se importaram quando jogaram seus opositores políticos, que apoiavam a Autoridade Palestina, do alto de prédios. Muitos foram mortos pelo fogo do Hamas, enquanto o poder era tirado das mãos do presidente Abbas. Os palestinos moderados conhecem a amarga verdade sobre o Hamas. Eu gostaria que vocês soubessem a verdade também.

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