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Oxford e Harvard amam Paulo Freire, o pedagogo que Bolsonaro quer tirar do MEC com um lança chamas

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RECENTEMENTE, FIZ um relato no Twitter sobre a importância da pedagogia crítica na formação de professores da Universidade de Oxford, e o tema despertou tanto o interesse de professores quanto raiva de haters, me chamando de mentirosa. Achei prudente, então, contar um pouco mais aqui da minha experiência.

É claro que uma grande parte do público mais engajado de Bolsonaro acha que o jornal norte-americano The New York Times ou as universidades de Oxford ou Harvard estão minadas pelo “marxismo cultural” – e ter Paulo Freire na formação de professores seria apenas a prova cabal disso. Só que ainda existe uma grande parte das elites brasileiras que, mesmo sendo bolsonarista e adepta ao projeto Escola Sem Partido, sonha que seus filhos estudem nas melhores universidades norte-americanas ou europeias. Ou seja, em universidades cuja a formação dos professores se dá em grande parte por meio da pedagogia crítica.

Infelizmente, ainda prevalece no Brasil uma profunda ignorância e uma obsessão quase fantasmagórica sobre a obra Paulo Freire – o suposto guru da doutrina satânica gayzista, feminista e marxista que reina em nosso sistema educacional. Quando era candidato à Presidência, Bolsonaro prometeu “entrar com um lança-chamas no MEC e tirar Paulo Freire lá de dentro”. Sobre tal doutrinação, no entanto, não há qualquer evidência empírica.

Paulo Freire é muito mais celebrado lá fora do que no próprio país de origem: ele é terceiro autor mais citado no mundo na área de ciências humanas, superando Karl Marx e Michel Foucault. O livro A Pedagogia do Oprimido (1968) tem 75 mil citações no Google Scholar e é a única obra brasileira que está entre as cem mais lidas nas disciplinas de países de língua inglesa.

Dito isso, é possível que cientistas sociais no Brasil – como eu – passem sua formação inteira sem serem confrontados como a obra de Paulo Freire. O mesmo dificilmente irá acontecer nos principais centros de excelência acadêmica no mundo. Ou seja, o problema da educação no Brasil, ao contrário da fantasia que assombra as mentes bolsonaristas, é justamente a falta de uma educação que incentive a autonomia e o pensamento crítico.

Os 12 anos do PT certamente fizeram muito pela educação brasileira, especialmente no que se refere ao acesso ao ensino superior. Mas ao contrário do que muitos acreditam, não houve (por falta de vontade ou de tempo) a tão necessária transformação da estrutura pedagógica do sistema educacional, capaz de fomentar o espírito democrático de sujeitos críticos. As eleições de 2018, aliás, comprovam isso.

Formação de professores na Universidade de Oxford
Quando assinei meu contrato para trabalhar na Pós-Graduação em Desenvolvimento Internacional, o Oxford Learning Institute começou imediatamente a me contatar para que eu me inscrevesse no curso de um ano de formação de professores – o que era “altamente recomendado”.

Matriculei-me, então, no curso, cujo resultado final era a elaboração de um portfólio de ensino que, se aprovado, nos daria o título de membro vitalício (fellow) da Academia de Ensino Superior, cujo diploma certifica que você é um professor universitário que segue os principais padrões de excelência de ensino no Reino Unido.

Na minha turma estava toda uma leva de novos professores na área de humanidades e ciências sociais (as ciências exatas tinham uma turma separada, mas o programa era o mesmo).

Mas o que, exatamente, eles chamavam de excelência de ensino?

No primeiro dia de aula, o professor nos alertou: “Se vocês estão em busca de dicas de técnicas didáticas, aqui é o lugar errado. Cada professor tem seu estilo. Um bom professor é o que consegue ser claro e sabe refletir sobre o seu entorno e, ao mesmo tempo, é capaz de estimular a reflexão ao seu entorno”.

O curso tinha uma metodologia tão simples como profunda. Líamos textos diversos, mas fundamentalmente os de pedagogia crítica sobre a importância de os professores refletirem sobre as relações de poder em sala de aula. A principal obra do curso era o famoso livro de Stephen Brookfield, Becoming a critically reflective teacher, que tem influências de Paulo Freire e Antonio Gramsci.

O curso não doutrinou ninguém.
Fazíamos debates profundos em pequenos grupos sobre o papel dos professores, exercícios autobiográficos críticos (quais relações de opressão e ou emancipação que tínhamos experimentado no passado e que estávamos reproduzindo como professores?), reflexão crítica de nossas avaliações por alunos. Observamos e fomos observados em sala de aula por nossos pares (o que é muito desafiador!) e, por fim, formulamos nossos valores enquanto professores.

O curso não doutrinou ninguém. Eu era uma das únicas pessoas de esquerda na turma. Meus colegas liberais, de centro ou de direita, continuaram liberais, de centro e de direita. Mas todos nós entendemos e discutimos com seriedade as formas de opressão que existem em uma sala de aula, bem como sobre nossa atuação e clareza em sala de aula.

Observei a aula de meu colega liberal, que era professor do curso de Políticas Públicas. Ele também assistiu minhas aulas e me ajudou a ser mais clara em minha comunicação (eu tendo a ter um pensamento circular que pode prejudicar a atenção de alunos, especialmente em língua estrangeira). Foi ele que me alertou para o fato de que eu deixava que a discussão fosse dominada pelos dois únicos homens na sala de aula, em contraposição a 16 alunas mulheres.

Eu também aproveitei o método crítico reflexivo para refazer meus questionários de avaliação, possibilitando e encorajando meus estudantes a serem mais críticos. Descobri, por meio das avaliações dos alunos, que eu poderia ser mais direta nas minhas aulas, o que confirmava a observação de meu colega. Na avaliação seguinte (monitorada pelos meus pares e pelos tutores do curso), os estudantes apontaram que havia tido um salto qualitativo na qualidade de minhas aulas.

Todo o grupo de novos professores refletiu criticamente sobre sua própria postura em sala de aula, seja como técnica didática, seja como relação de poder. Após um ano de encontros do curso, nos foi colocada a seguinte pergunta: “qual o papel do professor?”

Apenas uma parte da turma escolheu “mudar o mundo”, e a outra metade disse que era fornecer instrumentos técnicos para os estudantes resolverem problemas. Estava tudo bem. Não havia uma resposta correta: o correta era o próprio diálogo entre os pares.

O curso também ajudou a desconstruir o mito da genialidade, de que existiriam alunos “fracos” e “fodas”.
Eu, particularmente, aprendi a me colocar como professora mulher, jovem e latina e a detectar e desarmar o machismo implícito e inconsciente de alunos.

Não sei se eu me tornei uma professora melhor desde então. Mas espero que sim. Aprendi a dar mais atenção ao estudante quieto, às mulheres e minorias em sala de aula. Aprendi a me colocar em uma posição de quem erra em sala de aula, mas está aberta mudar e ouvir críticas. Aprendi a falar menos e ouvir mais e, principalmente, desenvolvi minhas habilidades de ensinar via métodos dialógicos de conversa e debates.

O curso também me ajudou a desconstruir o mito da genialidade, de que existiriam alunos “fracos” e “fodas” (e isso até gerou meu texto mais lido até hoje, O Precisamos Falar sobre Vaidade na Vida Acadêmica). Com o método da pedagogia crítica e da “autocrítica reflexiva” eu apenas me tornei mais sensível a minha própria postura e ao meu entorno.

A única coisa que eu, infelizmente, não aprendi a fazer neste um ano de curso foi revolução. Também não foi me dado o super poder da doutrinação. Qualquer pessoa que encara uma sala de aula sabe que esse não é um dom que temos: nossa realidade é muito mais burocrática do que deveria ser. Se tivéssemos o dom de mudar as pessoas, é bem provável que teríamos um outro cenário político – e não este afundado na mediocridade, nas notícias falsas e no obscurantismo.
Rosana Pinheiro-Machado/Intercept

Suíça revela documento da conta secreta de ex-chefe da Casa Civil de Covas

Cópia do cartão de abertura da conta de Robson Marinho foi enviada para investigadores brasileiros.

A Suíça enviou aos investigadores brasileiros cópia do cartão de abertura da conta secreta em Genebra do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Robson Riedel Marinho, ex-chefe da Casa Civil do governo Mário Covas (PSDB). Nessa conta, numerada 17321-1, do Credit Lyonnais Suísse – Credit Agricole, o conselheiro recebeu US$ 1,1 milhão.

O dinheiro que abasteceu a conta de Marinho, segundo suspeita o Ministério Público Federal, teve origem no Caso Alstom – esquema de pagamento de propinas na área de energia do Estado, entre outubro de 1998 e dezembro de 2002, nos governos Covas e Geraldo Alckmin.

Robson Marinho nega ter contas no exterior. Foto: Márcio Fernandes/Estadão

Os investigadores classificam como “revelador” o documento bancário, uma das mais importantes provas já surgidas contra o ex-braço direito de Covas. Desde 2010, quando a Justiça de São Paulo acolheu ação cautelar de sequestro de seus valores. Marinho nega possuir ativos no exterior.

Em fevereiro, a Justiça Federal abriu ação penal contra 11 denunciados no caso Alstom, entre lobistas, executivos e ex-dirigentes da Eletropaulo e da Empresa Paulista de Transmissão de Energia (EPTE), antigas estatais do setor. A eles teriam sido oferecidos R$ 23,3 milhões em ‘comissões’ para viabilizar contrato de interesse da multinacional francesa no valor de R$ 181 milhões.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Marinho não está entre os acusados neste processo porque desfruta de foro privilegiado. Ele é alvo de investigação criminal do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A suspeita sobre Marinho tem base em julgamento que favoreceu a Alstom do Brasil. Ele foi o relator. Em sessão de 27 de novembro de 2001, o conselheiro votou pela regularidade do ato declaratório de inexigibilidade de licitação para extensão da garantia de equipamentos, pelo prazo de 12 meses, prevista no décimo aditivo do contrato Gisel (Grupo Industrial para o Sistema da Eletropaulo).

Veja o acórdão do julgamento do Tribunal de Contas do Estado, do qual Robson Marinho foi relator, favorecendo a Alstom em 2001

Marinho abriu a conta secreta por correspondência, sem sair de São Paulo, informam os investigadores. O cartão foi preenchido de punho próprio pelo conselheiro no dia 13 de março de 1998. No campo destinado às assinaturas aparecem, por extenso, os nomes dele e da mulher, Maria Lucia de Oliveira Marinho, como titulares.

Posteriormente, segundo os registros da instituição financeira suíça, assumiu a titularidade da conta a offshore Higgins Finance Ltd, constituída nas Ilhas Virgens Britânicas e incorporada por uma pessoa jurídica que concedeu a Marinho o direito de uso a partir de janeiro de 1998 – nessa ocasião, ele já havia assumido o cargo no TCE, por indicação de seu padrinho político, Covas.

Outros documentos enviados pela Procuradoria da Suíça revelam as fontes que abasteceram a conta do conselheiro. Oito transferências, somando US$ 953,69 mil, entre 1998 e 2005, foram realizadas pelo empresário Sabino Indelicato, denunciado no caso Alstom por corrupção e lavagem de dinheiro.

Confira o cartão de abertura da conta secreta de Robson Marinho no banco de Genebra

Amigo de Marinho, ele é apontado pela Procuradoria da República como pagador de propinas do caso Alstom.

Um primeiro repasse ocorreu a 19 de junho de 1998, no valor de US$ 326,13 mil. Em 2005, dois depósitos, um no dia 28 de fevereiro (US$ 242,96 mil) e outro em 15 de março (US$ 121,52 mil).

Indelicato foi secretário municipal de Obras da gestão Robson Marinho como prefeito de São José dos Campos (SP), na década de 1980.

Ele controla a Acqua Lux Engenharia, situada no pequeno município de Monteiro Lobato (SP), que captou entre 1999 e 2001 a quantia de R$ 2,21 milhões de coligadas da multinacional, por serviços fictícios de consultoria, segundo os investigadores. “O Grupo Alstom, visando internalizar dinheiro que seria utilizado para o pagamento de vantagem indevida, depositava valores na conta desta empresa (Acqualux)”, afirma a Procuradoria.

Laudo financeiro da Polícia Federal indica que a Acqua Lux repassou R$ 1,84 milhão para a conta pessoal de Indelicato, também alojada no Credit Lyonnais, banco francês que em 2003 foi comprado pelo Credit Agricole – ele abriu a conta três dias antes de Marinho, em 10 de março de 1998.

Já sob titularidade da Higgins Finance, mas com o mesmo número, a conta de Marinho foi contemplada com mais US$ 146,5 mil, depositados pela MCA Uruguay, offshore de Tortola (Ilhas Virgens), que recebeu R$ 40,11 milhões da Alstom, entre 2000 e 2007, também por serviços não realizados.

Com a palavra, a defesa. O criminalista Celso Vilardi, que defende Robson Marinho, disse que não ia comentar a revelação sobre o cartão de abertura da conta do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado porque não teve acesso ao documento. “Não sei a fonte e não vou comentar antes de ter acesso. Não tenho conhecimento sobre papéis enviados pela Suíça com citações ao conselheiro”, observou Vilardi.

Ele destacou que Marinho “jamais julgou ou participou de qualquer julgamento do projeto Gisel”.

O advogado afirmou que o ex-chefe da Casa Civil do governo Mário Covas “só se manifestou (como conselheiro de contas) sobre a garantia (dos equipamentos), o que ocorreu anos depois do contrato do projeto Gisel”.

“Ele (Marinho) não tem nada a ver com isso”, enfatiza Vilardi. “Os fatos apontados na denúncia (da Procuradoria da República) aconteceram quatro anos antes de ele julgar a extensão de garantia que passou no TCE. As datas não batem. Marinho está sendo acusado de receber valor em 1998, quando nem existia ainda a questão da extensão da garantia. Me causa surpresa porque ele jamais julgou o projeto abordado na denúncia, apenas uma extensão de garantia que foi feita anos depois do contrato.”

A advogada Dora Cavalcanti, que defende o empresário Sabino Indelicato, informou que ele e Marinho são amigos há muitos anos e sócios em empreendimentos imobiliários em São José dos Campos (SP).”Indelicato permanece, como sempre, à disposição da Justiça e confiante de que irá provar sua inocência.” Ela disse que também não teve acesso a documentos enviados pela Suíça.

A Alstom tem reiterado que enfrenta acusações no Brasil “relativas à não-conformidade com leis e regras de competição”. A empresa destaca que “tem implementado, em toda a sua organização, regras estritas de conformidade e ética que devem ser aderidas por todos os funcionários”.
Fausto Macedo/Estadão