A Revolta da Vacina

Em meados de 1904, chegava a 1.800 o número de internações devido à varíola no Hospital São Sebastião. Mesmo assim, as camadas populares rejeitavam a vacina, que consistia no líquido de pústulas de vacas doentes. Afinal, era esquisita a idéia de ser inoculado com esse líquido. E ainda corria o boato de que quem se vacinava ficava com feições bovinas.

No Brasil, o uso de vacina contra a varíola foi declarado obrigatório para crianças em 1837 e para adultos em 1846. Mas essa resolução não era cumprida, até porque a produção da vacina em escala industrial no Rio só começou em 1884. Então, em junho de 1904, Oswaldo Cruz motivou o governo a enviar ao Congresso um projeto para reinstaurar a obrigatoriedade da vacinação em todo o território nacional. Apenas os indivíduos que comprovassem ser vacinados conseguiriam contratos de trabalho, matrículas em escolas, certidões de casamento, autorização para viagens etc.

Após intenso bate-boca no Congresso, a nova lei foi aprovada em 31 de outubro e regulamentada em 9 de novembro. Isso serviu de catalisador para um episódio conhecido como Revolta da Vacina. O povo, já tão oprimido, não aceitava ver sua casa invadida e ter que tomar uma injeção contra a vontade: ele foi às ruas da capital da República protestar. Mas a revolta não se resumiu a esse movimento popular.

Toda a confusão em torno da vacina também serviu de pretexto para a ação de forças políticas que queriam depor Rodrigues Alves – típico representante da oligarquia cafeeira. “Uniram-se na oposição monarquistas que se reorganizavam, militares, republicanos mais radicais e operários. Era uma coalizão estranha e explosiva”, diz o historiador Jaime Benchimol.

Em 5 de novembro, foi criada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória. Cinco dias depois, estudantes aos gritos foram reprimidos pela polícia. No dia 11, já era possível escutar troca de tiros. No dia 12, havia muito mais gente nas ruas e, no dia 13, o caos estava instalado no Rio. “Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados”, dizia a edição de 14 de novembro de 1904 da Gazeta de Notícias.

Tanto tumulto incluía uma rebelião militar. Cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha enfrentaram tropas governamentais na rua da Passagem. O conflito terminou com a fuga dos combatentes de ambas as partes. Do lado popular, os revoltosos que mais resistiram aos batalhões federais ficavam no bairro da Saúde. Eram mais de 2 mil pessoas, mas foram vencidas pela dura repressão do Exército.

Após um saldo total de 945 prisões, 461 deportados, 110 feridos e 30 mortos em menos de duas semanas de conflitos, Rodrigues Alves se viu obrigado a desistir da vacinação obrigatória. “Todos saíram perdendo. Os revoltosos foram castigados pelo governo e pela varíola. A vacinação vinha crescendo e despencou, depois da tentativa de torná-la obrigatória. A ação do governo foi desastrada e desastrosa, porque interrompeu um movimento ascendente de adesão à vacina”, explica Benchimol. Mais tarde, em 1908, quando o Rio foi atingido pela mais violenta epidemia de varíola de sua história, o povo correu para ser vacinado, em um episódio avesso à Revolta da Vacina.

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias.

Quão bem posicionado está o Brasil na corrida por uma vacina?

Especialistas falam sobre as perspectivas para uma imunização contra a covid-19 e os possíveis gargalos a serem enfrentados pelo país.

 “Está muito claro que em 2021 não terá vacinação em massa no Brasil”, diz especialista

Quando foi declarada a pandemia de covid-19, começou uma corrida global sem precedentes em busca de uma vacina que pudesse resolver a crise de saúde que praticamente parou o mundo. Em pouco tempo, estimativas otimistas e promessas de autoridades passaram a ser publicadas, criando expectativas na população.

Enquanto há políticos que chegaram a anunciar o início da vacinação ainda em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou acreditar que grande parte da população terá de aguardar até 2022 para ser vacinada.

A DW Brasil ouviu especialistas para entender a real situação do Brasil nessa corrida pelo imunizante.

“Quem marca uma data certa para iniciar vacinação, em um período como o que estamos agora, ou não entende do processo ou está de má-fé”, diz Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas. “No Brasil, as promessas parecem tão otimistas porque estão sendo feitas por políticos, e não por cientistas.”

“É um assunto geralmente abordado de forma cautelosa por agências de saúde e de forma populista pelos governos”, comenta Jean Pierre Shatzmann Peron, pesquisador da Plataforma Científica Pasteur e professor de imunologia da Universidade de São Paulo.

Atualmente há dez vacinas no mundo, segundo a OMS, na chamada fase 3 – a mais avançada. Destas, duas firmaram parcerias técnicas com o Brasil: a chinesa Sinovac, com o Instituto Butantan, e a inglesa AstraZeneca, com a Fundação Oswaldo Cruz.

As duas estão adiantadas, mas, como enfatiza Garrett, nada garante que “cruzarão a linha de chegada na frente ou que conseguirão cruzar a linha de chegada”. “Isso pode acontecer. O processo de uma vacina é assim, é um investimento de risco. É caro por várias razões, e uma é esta”, ressalta.

Além da vacina chinesa da Sinovac e da de Oxford, receberam autorização e inciaram testes com voluntários no Brasil imunizantes contra a covid-19 desenvolvidos pela Janssen, unidade farmacêutica da Johnson & Johnson, e pela empresa BioNTech, da Alemanha, em parceria com a Pfizer, dos Estados Unidos.

Além disso, o Brasil tornou-se signatário de uma inciativa internacional capitaneada pela OMS para acelerar o desenvolvimento de uma vacina. Para o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, em termos de articulação, portanto, o país está se posicionando relativamente bem. O gargalo estaria na quantidade.

“Não teremos vacina para toda a população num primeiro momento”, afirma Kfouri. “Está muito claro que em 2021 não terá vacinação em massa no Brasil [contra covid-19]. Talvez em 2022”, concorda Ricardo Gazzinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia.

A importância dos testes

Os especialistas ouvidos pela DW Brasil explicam que em casos de urgência como uma pandemia é possível aprovar uma vacina sem a conclusão da fase 3 – com acompanhamentos pré-determinados ao longo do estágio, desde que os resultados sejam altamente positivos. Mas há receio tanto de efeitos colaterais que possam surgir após alguns meses como quanto à possibilidade de a eficácia de imunização diminuir com o tempo.

“Pessoalmente, acredito que um teste clínico da fase 3 não pode ser feito em apenas quatro meses. Tem de ser com no mínimo 10, 12 meses. Porque uma eficácia pode ser de 50% a 60% em quatro meses e cair para bem abaixo disso. Mas tem pressão de alguns políticos”, aponta Gazzinelli.

“Exige-se um tempo mínimo de observação, e atualmente este tempo mínimo está sendo discutido internacionalmente”, completa Jorge Elias Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor).

Essa pressão deve fazer até que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprove um imunizante com eficácia inferior aos 70% que são praxe. O que também, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, pode ser um tiro no pé: em um contexto já dominado por negacionistas, a baixa eficácia pode alimentar discursos antivacina.

Há ainda o fator do efeito na população como um todo. Quando uma parcela considerável está vacinada, o vírus não consegue se disseminar. Mas quanto mais baixa a eficácia de uma vacina, maior tem de ser essa parcela. De acordo com cálculos da epidemiologista Garrett, uma vacina com 75% de eficácia precisaria ser inoculada em 66% da população para que tal resultado fosse atingido. “Isso é muito”, diz.

Produção e distribuição

Mas quando uma – ou, nos melhores cenários, mais de uma – vacina finalmente for considerada segura e eficaz, o problema passa a ser a produção, a distribuição e a aplicação em massa.

Kalil não acredita que o Brasil, em um primeiro momento, irá produzir as vacinas porque “a transferência tecnológica para a produção da mesma iria levar muito tempo”. Segundo ele, o que deve ocorrer é a compra a granel e o trabalho de instituições como o Butantan para colocar em frascos.

“Por que o Brasil não está à frente com um candidato próprio de vacina? Na verdade essa pergunta é muito importante para a gente, porque o país tem capacidade científica muito grande. O problema é que a produção [científica] ainda é pequena para o tamanho do país, e isso é assim por causa dos baixos investimentos em pesquisa”, diz Carlos Rodrigo Zárate-Bladés, diretor do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina.

Assim, deve haver um gargalo na compra desses imunizantes, quando aprovados. Com uma população de 210 milhões de habitantes e considerando que as fórmulas mais avançadas preveem duas doses de vacinação, fica matematicamente difícil garantir que uma proporção considerável dos brasileiros seja imunizada de forma imediata.

Há ainda a perda natural do processo – segundo os especialistas, de 20% a 30% do total acabam perdidos nos frascos. Kalil diz que a escolha vai ter de ser “entre os que têm mais probabilidade de morrer e os que estão mais expostos à doença”, ou seja, os idosos e aqueles com comorbidades ou os médicos da linha de frente e aqueles de serviços essenciais que normalmente têm contatos com muitas pessoas – como motoristas de transporte público e agentes de segurança.

Por outro lado, o Brasil tem uma ótima experiência em campanhas de vacinação e uma rede eficiente de distribuição e aplicação em postos de saúde – estruturas essas que poderiam ser adaptadas para os trabalhos de imunização contra a covid-19. O país conta com 35 mil salas de vacinação e tem um calendário vacinal abrangente em relação a outras partes do mundo.

Fake news

Enquanto a vacina não vem, Zárate-Bladés acredita que um bom preparativo seria combater um problema adicional: a “chuva de desinformação absolutamente irresponsável e sem nenhuma base científica em relação a vacinas”.

“Em relação a duas que estão em testes no Brasil, de uma eles dizem que se trata de um intento comunista para dominar o mundo, e a outra que é uma tentativa de Bill Gates de tornar todo mundo chips andantes”, comenta. “São aberrações ditas até por autoridades. Acho que esse é o gargalo fundamental que a gente vai enfrentar e já estamos enfrentando.”

O Brasil vive a banalização da morte?

Invisível para muitos, a maior tragédia sanitária da história brasileira virou uma macabra estatística. A ilusão da volta ao normal, dizem antropólogos, sociólogos e psicólogos, esconde uma espécie de negação coletiva.

Protesto da ONG Rio da Paz nas areias da praia de Copacabana

Há mais de três meses, em 19 de maio, o Brasil registrou pela primeira vez mais de mil mortos em 24 horas em decorrência da covid-19. Desde então, a situação epidemiológica do país, que já soma oficialmente mais de 113 mil óbitos pela pandemia, estabilizou-se em um trágico platô.

Se a situação sanitária parece longe de estar sob controle, por outro lado os discursos são de retomada de economia: há dois meses as atividades vem sendo gradualmente reiniciadas em todo o território nacional, o isolamento social se afrouxa, e está sendo discutida a reabertura das escolas.

Para o antropólogo, cientista social e historiador Claudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor do livro História da Saúde Pública no Brasil, o país vive um cenário de “banalização da morte”.

Ele entende que isso é decorrente de uma dimensão política — a maneira como o governo federal conduziu e conduz a situação —, de uma aceitação social — o discurso de que “demos azar” ou de que quem tem comorbidades iria “acabar morrendo mesmo” —, e por fim, de aspectos culturais.

“O presidente Jair Bolsonaro é fruto da sociedade brasileira que, historicamente, banalizou a morte, desde aquele papo que ‘bandido bom é bandido morto’”, diz Bertolli Filho. “Há ainda uma tendência de nossa cultura, para sobrevivermos psicologicamente, a enfrentar o momento pandêmico negando as mortes, mostrando-nos imunes a ela.”

“É quando rejeito pensar que aquele que morreu é parecido comigo e eventualmente poderia ser eu próprio. Quem morreu é ‘o outro’, o ‘da periferia’, o que ‘tinha comorbidades’, o que ‘não seguiu as normas sanitárias’”, exemplifica o acadêmico.

Já para o historiador e sociólogo Mauro Iasi, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de Política, Estado e Ideologia, a sequência diária de mortes, transformadas em estatística, acaba naturalizando-as à população.

“Quando nos vemos diante de um número elevado de mortes, como em um acidente, por exemplo, isso nos choca pela quebra desta aparente casualidade. No caso da pandemia, o ritmo diário das mortes, sua matematização pelas estatísticas, tende a devolver o fenômeno para o campo da casualidade, naturalizando-o”, argumenta ele.

Iasi exemplifica citando as mortes provocadas anualmente pela ação da Polícia Militar no Brasil — 5.804 em 2019. “A rotinização do fato faz com que se banalize o fenômeno, como parte da vida e, portanto, abrindo espaço para sua negação.”

Pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), o jornalista, economista e cientista político Bruno Paes Manso compara a sensação transmitida pelas mortes do coronavírus àquela em relação as vítimas de homicídio no país.

“Os grupos que morrem são vistos como aqueles que, de alguma forma, tinham justificativa para morrer. No caso dos homicídios, são as pessoas ‘que procuraram seu próprio destino’. [Para a opinião pública] a vítima é culpada da morte: são negros, pobres, moradores de periferia, suspeitos de serem traficantes”, comenta. “Existe uma certa ilusão de que as mortes se restringem a determinados grupos vistos pelas pessoas como aqueles que ‘podem morrer’. Isso gera não a banalização, mas uma tolerância a esse tipo de ocorrência.”

Ele acredita em uma lógica um tanto parecida nos óbitos decorrentes do coronavírus. Na racionalização, aponta o pesquisador, a opinião geral é de que a doença não atingiria os próximos, mas sim aqueles vistos como “o outro”: o idoso, aquele com comorbidades, os de alguma forma mais vulneráveis. Este raciocínio é balizado pelo que ocorre nas principais cidades — em geral, os distritos com maior número de mortos estão localizados nas periferias.

Desamparo

“O medo da morte iminente que vem junto com a pandemia mobiliza tanto conteúdos de medo e de desamparo, quanto uma espécie de negação coletiva, já que não existe nenhuma figura real de autoridade, nem na ciência, nem na política, que dê conta de ‘funcionar’ como figuras paternas ou maternas que possam cuidar ou proteger contra a morte”, analisa a psicóloga Nancy Ramacciotti de Oliveira-Monteiro, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Até porque, em todo o mundo, por enquanto, ninguém sabe ainda como vencer essa ameaça comum a todos os seres humanos, com exceção da esperada chegada de vacinas.”

Ela lembra que o fato dessas mortes serem divulgadas diariamente por meio de estatísticas numéricas também dificulta a “identificação” por parte da população. Isso só não ocorre, pontua a professora, quando as mortes chegam a círculos próximos ou vitimizam alguma celebridade.

Para o psicólogo Ronaldo Pilati, professor da Universidade de Brasília (UnB), o fenômeno não pode ser chamado de “banalização”, mas sim de “minimização”. Ao recordar da comoção que houve no Brasil quando a Itália registrava cerca de mil mortes em um dia, por exemplo, ele ressalta que era um momento em que os brasileiros estavam “mais atentos e conectados à questão”, já que o mês de março foi quando diversas medidas de quarentena e isolamento social foram implementadas de fato.

“Com o passar do tempo e a maneira ineficiente com que o Brasil enfrentou a pandemia, houve uma mudança de comportamento”, observa. “Não houve enfrentamento coordenado [da questão] e isso confirmou a expectativa de desamparo que o brasileiro tem quando depende do Estado para a resolução de problemas.”

No livro Death Without Weeping: The Violence of Everyday Life in Brazil, a antropóloga americana Nancy Scheper-Hughes relata como mães brasileiras de favelas com altos índices de mortalidade infantil acabam lidando com os óbitos de seus filhos. Para a pesquisadora, a impotência faz com que essas mulheres acabem se conformando com a partida daqueles “mais fracos”, exercendo uma espécie de triagem para favorecer os bebês mais saudáveis, com mais “talento para viver”.

Professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o antropólogo e sociólogo Marko Monteiro concorda que essa sensação é decorrente da desigualdade social brasileira. “Convivemos com a morte historicamente, desde a formação do país, a maneira violenta como foi construída a nação. Nossas ações cotidianas são permeadas por violência”, resume. “A banalização é consequência disso: os números mostram que quem está morrendo mais são as pessoas de áreas periféricas, negras, sem acesso… São os fatores modificáveis.”

“Então temos mecanismos sociais e psicológicos para conviver com essas mortes, que muitos consideram inevitáveis. É a clássica atitude do ‘eu não sou coveiro’, do ‘e daí?’… Por que isso ressoa em muita gente? Porque há a ideia de as mortes eram inevitáveis, que essas pessoas morreriam de qualquer jeito”, afirma.

Como sobreviver ao fim do mundo: veja como evitar principais ameaças

Pandemias, guerras nucleares, alterações climáticas e desastres naturais: conheça algumas das maiores ameaças globais e o que você pode fazer para evitá-las.

É muito comum especular sobre como sobreviveríamos ao fim do mundo, principalmente durante a juventude e com toda a produção hollywoodiana em torno do tema. Além disso, 2020 tem sido um ano bastante apocalíptico.

Podemos levantar aqui diversos fatos que indicam que 2020 está nos fazendo pensar seriamente sobre como sobreviver à um possível apocalipse, como uma pandemia mundial que têm matado milhares de pessoas diariamente, incêndios florestais sem precedentes, nuvens de gafanhotos que mais nos fazem lembrar das 10 pragas do Egito, cigarras zumbis que são controladas por um fungo e até macacos roubando amostras de sangue com coronavírus na Índia.

Apesar de levantarmos muito a questão atualmente, não é de hoje que somos ‘treinados’ para sobreviver em situações apocalípticas. Em 1952, em plena Guerra Fria, o governo americano contratou o escritor Raymond J. Mauer para criar uma animação sobre como as crianças deveriam “se agachar e se cobrir” para se proteger no caso de um ataque nuclear. E quem não se lembra de Bear Grylls de “À prova de Tudo” que ensinava qualquer pessoa comum sobre como permanecer vivo apenas do que a natureza nos oferece.

Guerra nuclear deixaria 34 milhões de mortos em poucas horas


A primeira bomba atômica da história foi lançada pelos Estados Unidos em Hiroshima, matando milhares de civis. Créditos: Pixabay

Guerra nuclear
Existem cerca de 14 mil armas nuclear no mundo e 90% delas tem como seus proprietários a Rússia e os Estados Unidos, afirma o cientista atmosférico e especialista nuclear Professor Brian Toon.

“Se você chegar a cerca de um quilômetro ou mais [da explosão], a onda de pressão é tão intensa que derrubará prédios de concreto”, disse Toon. “E em algum lugar naquela zona, há uma explosão de radiação da bomba, basicamente metade das pessoas expostas a isso morreria em uma ou duas semanas de queimaduras de radiação em sua pele e envenenamento por radiação”, completa Toon.

Mesmo se você sobreviver ao primeiro impacto, este tipo de explosão gera incêndios que empurram a fumaça para a estratosfera, fazendo com que o sol fiquei bloqueado por cerca de 10 anos, derrubando as temperaturas de volta às experimentadas pela Terra na última era do gelo.

A maneira de sobreviver nesta situação é procurar um abrigo no subsolo. Atualmente, existem lugares que oferecem este tipo de serviço, como o Condomínio Survival, no Kansas, que cobra por volta de US $ 1 milhão a estadia. A melhor solução, no entanto, é impedir que as bombas sejam lançadas, doando para organizações que trabalhem pelo desarmamento nuclear.

Pandemia

Estamos sofrendo na pele os efeitos de uma pandemia mundial e aprendendo intensivamente com ela. Seja lavando as mãos, que deveria ser um hábito antigo, usando máscara de proteção e fazendo o isolamento social, é importante continuar fazendo sua parte para evitar a propagação do vírus.

Sobreviver a uma pandemia é um jogo de espera, infelizmente. A solução é confiar nos especialistas treinados e nos demais profissionais de saúde pública e privada que estão na linha de frente colocando suas vidas em risco.
Já são mais de 20 milhões de infectados pela COVID-19 no mundo. Créditos: Pixabay

Os desastres naturais e alterações climáticas

Diferentemente de uma pandemia, os desastres naturais como terremotos ou tornados vêm sem qualquer aviso, dando apenas alguns minutos para quem for tomar uma decisão que pode valer sua vida. A tecnologia tem sido uma importante aliada nesses casos. Pesquisadores estão desenvolvendo maneiras de rastrear sinais infrassônicos de tornados e tentando prever erupções de vulcões com drones e lasers, por exemplo.

Já a alteração climática é uma emergência global que vem sendo discutida há algum tempo. Incêndios devastadores na Austrália, elevação dos mares ameaçando Veneza e a elevação da temperatura da terra são apenas alguns dos indícios que alertam sobre como devemos mudar nossos hábitos.

Neste caso, cada um deve fazer sua parte, diminuindo o uso de energia, dirigindo menos, escolhendo marcas sustentáveis nas compras, sabendo mais sobre como suas roupas são feitas, reduzindo a dependência do uso de plástico, diminuindo o consumo de carne e, principalmente, escolhendo representantes políticos que tenham características de preservação ambiental.

A pandemia e a pena de morte nas prisões brasileiras

Com a pandemia, o quadro geral de precariedade, exclusão e adoecimento nas prisões tornou-se ainda mais preocupante, não só pelo previsível efeito letal da doença em ambientes insalubres, mas também em razão das decisões governamentais e judiciais que agudizaram o problema e ampliaram os riscos da crise sanitária em curso.

As prisões são o lugar onde as violências e desigualdades sociais revelam sua mais brutal expressão. No Brasil, trata-se de celas lotadas e sem ventilação, instalações elétricas com remendos e potencialmente perigosas, comida racionada e de péssima qualidade, muitas vezes estragada, água escassa para o banho, para a limpeza das celas e mesmo para beber.

Os relatos são assustadores e as doenças são uma presença constante nesse universo insalubre. De acordo com dados do próprio Departamento Penitenciário Nacional (Depen), órgão do governo federal responsável pela gestão do sistema prisional, em dezembro de 2019 havia no sistema penitenciário 748 mil pessoas privadas de liberdade no país. Nesse universo, verificava-se um quadro de 170% de déficit de vagas, ou seja, uma realidade de absoluta superlotação.1

Os negros são a maioria nesse sistema e estão expostos a uma taxa de encarceramento 1,5 vez maior do que a de um homem branco,2 o que confirma a seletividade da polícia nas abordagens e prisões em flagrante e o viés discriminatório nas decisões dos juízes, que reproduzem tanto estereótipos racializados quanto uma média maior de condenação para mulheres e homens negros.3

Com a pandemia, esse quadro geral de precariedade, exclusão e adoecimento tornou-se ainda mais preocupante, não só pelo previsível efeito letal da doença em ambientes insalubres, mas também em razão das decisões governamentais e judiciais que agudizaram o problema e ampliaram os riscos da crise sanitária em curso.

Como forma de propor medidas que contivessem a propagação do vírus nas prisões, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou a Recomendação n. 62, que exortou os juízes a adotar medidas para a reavaliação das prisões provisórias, a contenção de novas ordens de prisão preventiva, a concessão de saída antecipada dos regimes fechado e semiaberto para presos que não tivessem cometido crimes com violência ou grave ameaça e a transferência de presos do grupo de risco para prisão domiciliar. Entretanto, a despeito dos esforços do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do CNJ e das manifestações de apoio à agenda de desencarceramento para pessoas do grupo de risco da Covid-19, a Recomendação n. 62 continuou sendo duramente criticada pelo Ministério da Justiça e pelo governo federal e foi acolhida apenas parcialmente pelo Ministério Público e pela magistratura no Brasil.

O ex-ministro Sérgio Moro dedicou-se pessoalmente a deslegitimar a orientação do Conselho e a conceder reiteradas entrevistas afirmando que tudo estava sob controle no âmbito do Departamento Penitenciário Nacional e que, portanto, não era necessário que os juízes adotassem medidas que pusessem presos perigosos em liberdade.4

No âmbito do Poder Judiciário, reiteraram-se decisões com indeferimento de pedidos de habeas corpus coletivos e sucessivas diligências que impediam a soltura de presos integrantes do grupo de risco. De modo ilegal, juízes recusaram-se a conceder pedidos de liberdade com o argumento genérico de que se tratava de presos perigosos ou que haveria nas prisões condições para a prevenção e o tratamento adequado ao coronavírus. Os juízes brasileiros optaram por contrariar as evidências médicas, a recomendação do CNJ e os apelos e alertas de organizações de direitos humanos, dos próprios presos e de seus familiares, e não concederam a maioria dos pedidos formulados por integrantes das defensorias públicas e pelos advogados particulares.

Em pesquisa realizada entre março e maio de 2020 pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, verificou-se que, desde a edição da Recomendação n. 62, houve um aumento dos habeas corpus concedidos; porém, o estudo apurou também que 67% dos presos soltos estavam detidos em caráter preventivo, ainda sem julgamento, por causa de crimes cometidos sem violência, e que dos 783 soltos apenas 37 se encontravam condenados a regime fechado de prisão.5

No mesmo sentido, um trabalho realizado por pesquisadoras do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e pela Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito de São Paulo constatou que, das 6.781 decisões de habeas corpus (entre 18 de março e 4 de maio de 2020) que mencionaram a Covid-19, apenas 12% tiveram o pedido concedido,6 o que também corrobora a tendência já apontada no relatório produzido pelo Conselho Nacional de Justiça, que afirma que 26,9% dos Tribunais de Justiça não apresentaram alteração nas concessões de liberdade de réus presos em regime fechado.7

Os argumentos adotados para negar os pedidos de liberdade revelam total desapreço pela obrigação estatal de zelar pela vida e pela integridade daqueles que se encontram sob sua custódia (ou seja, sob total e absoluta responsabilidade do próprio Estado). Algumas sentenças circularam na mídia e nas redes sociais como maus exemplos em termos de fundamentação constitucional e de respeito a valores éticos e a princípios de direitos humanos.

Um dos episódios mais trágicos foi o do juiz Camilo Léllis, da 4ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que decidiu não alterar o regime da pena de um preso para o aberto, afirmando que o risco de contágio pelo coronavírus pode ser maior fora do sistema prisional do que dentro e que não seria razoável a determinação, de forma monocrática, de imediata remoção para o regime domiciliar de todos os presos que eventualmente se encontrem no chamado “grupo de risco”. O preso em questão encontrava-se na Penitenciária Compacta de Pracinha, que custodia 1.605 presos, tendo sido projetada para receber no máximo 844 internos.8

Mas por que os juízes decidem assim? Por que, apesar de todas as evidências, eles continuam mandando pessoas para cadeias superlotadas, com grande risco de contaminação e nas quais provavelmente vão morrer?

As respostas a essas perguntas passam, sem dúvida, pela constatação do peso do racismo em nossas relações sociais e do brutal processo de desumanização a que pessoas negras estão submetidas em nossa sociedade. Na prática, as condutas do governo federal e de parte da magistratura brasileira em relação à questão da Covid-19 nas prisões representam condenações à pena de morte na vigência do estado democrático de direito.

São escolhas políticas que constroem um itinerário de violência cujo desfecho letal é iminente e revela o peso do racismo no Brasil e sua força como esquema de anulação das possibilidades de vida e de acesso a direitos para as pessoas negras nos mais diferentes campos da vida social.


Felipe da Silva Freitas é doutor em Direito pela Universidade de Brasília, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Criminologia da Universidade Estadual de Feira de Santana e integrante do projeto Infovírus (www.instagram.com/infovirusprisoes).

1 Departamento Penitenciário Nacional (Depen), Relatório Sintético – Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional, Brasília, 2019.

2 Mapa do Encarceramento: Jovens do Brasil, Brasília, SNJ, 2015.

3 Sérgio Adorno, “Discriminação racial e justiça criminal em São Paulo”, Novos Estados, n.43, 1995; e Marcelo Paixão, Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, Rio de Janeiro, Garamond, 2008.

4 Sérgio Moro e Fabiano Bourguion, “Prisões, coronavírus e solturavírus”, Estadão, 30 mar. 2020.

5 Ricardo Balthazar, “Juízes tratam presos com rigor ao analisar pedidos de soltura na pandemia”, Folha de S.Paulo, 7 jun. 2020.

6 A pesquisa foi coordenada por Maíra Machado e Natália Pires e os resultados finais ainda não foram publicados. Essas informações foram obtidas pela apresentação realizada no webinar “Covid-19 nas prisões”, promovido pelo Insper em 11 de junho de 2020. Ver: https://www.insper.edu.br/agenda-de-eventos/covid-19-nas-prisoes-decisoes-do-tjsp-em-habeas-corpus/.

7 Monitoramento CNJ, Covid-19 Efeitos da Recomendação n. 62/2020. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2020/06/Monitoramento-CNJ-Covid-19-Abril.20.pdf.

8 Caio Spechoto, “Juiz diz que risco de pegar Covid-19 pode ser maior fora do que dentro da cadeia”, Poder 360, 13 jun. 2020.

A próxima catástrofe

Os políticos ignoram riscos distantes: eles precisam melhorar seu jogo.

Em 1993, os jornais disseram ao mundo para observar o céu. Na época, o conhecimento da humanidade de asteróides que poderiam atingir a Terra era lamentavelmente inadequado

Como guerras nucleares e grandes erupções vulcânicas, os impactos de grandes asteróides podem derrubar sete sinos do clima; se assim devastássemos alguns anos de colheitas em todo o mundo, mataria uma fração considerável da população. Tal eventualidade era reconhecidamente altamente improvável. Mas, dadas as conseqüências, fazia sentido atuarial verificar se havia algum impacto nas cartas e, na época, ninguém se preocupava em olhar.

Os ataques de asteróides foram um exemplo extremo da ignorância voluntária do mundo, talvez – mas não atípica. Eventos de baixa probabilidade e alto impacto são um fato da vida. Os seres humanos individuais procuram proteção deles para os governos e, se puderem pagar, para as seguradoras.

A humanidade, pelo menos como representada pelos governos do mundo, revela uma preferência por ignorá-los até que seja forçada a reagir – mesmo quando o preço da previsão é pequeno. É uma abdicação de responsabilidade e uma traição ao futuro.

Covid-19 oferece um exemplo trágico. Virologistas, epidemiologistas e ecologistas alertam há décadas sobre os perigos de uma doença semelhante à gripe que se espalha de animais selvagens. Mas quando o sars-cov-2 começou a se espalhar, pouquíssimos países tinham a combinação vencedora de planos práticos, o kit que esses planos exigiam e a capacidade burocrática para adotá-los. Aqueles que se beneficiaram muito. Até o momento, Taiwan viu apenas sete mortes secretas por 19; sua economia sofreu correspondentemente menos.

As pandemias são desastres com os quais os governos têm experiência. O que, portanto, de ameaças verdadeiramente novas? A ardente coroa quente que envolve o Sol – com um efeito espetacular durante os eclipses solares – lança intermitentemente vastas folhas de partículas carregadas no espaço. Eles causam as luzes do norte e do sul e podem atrapalhar as redes elétricas e as comunicações.

Mas ao longo do século em que a eletricidade se tornou crucial para grande parte da vida humana, a Terra nunca foi atingida pela maior dessas erupções solares. Se uma ejeção de massa coronal (cme) fosse atingida, todos os tipos de sistemas de satélite necessários para navegação, comunicações e avisos de ataques com mísseis estariam em risco.

Grandes partes do planeta podem enfrentar meses ou até anos sem eletricidade confiável na rede. As chances de um desastre deste século são colocadas por alguns acima de 50:50. Mesmo que não sejam tão altos, ainda são maiores que as chances de um líder nacional saber quem em seu governo é responsável por pensar em tais coisas.

O fato de nenhum governo jamais ter visto um cme realmente grande ou uma erupção vulcânica grande o suficiente para afetar as colheitas em todo o mundo – a mais recente foi Tambora, em 1815 – pode explicar sua falta de premeditação. Não desculpa isso. Manter um olho no futuro faz parte do objetivo dos governos. Os cientistas forneceram a eles as ferramentas para tais esforços, mas poucos acadêmicos realizarão o trabalho de forma espontânea, sem financiamento e desconhecida. As empresas privadas podem tomar algumas medidas quando perceber riscos específicos, mas não elaborarão planos para a sociedade em geral.

É certo que nem os vulcões da Terra nem a coroa do Sol podem ser controlados. Mas os sistemas de alerta precoce são possíveis, assim como a preparação para o pensamento. Vulcões historicamente ativos perto de grandes cidades, como Fuji, Popocatépetl e Vesúvio, são bem monitorados e há pelo menos planos para evacuação, se necessário. Não seria tão difícil estender esse tipo de atendimento a todos os vulcões com potencial de alterar o clima.

Os governos também poderiam garantir que os operadores da rede tenham planos plausíveis para o que fazer se o dscovr, um satélite que paira entre a Terra e o Sol, forneça um aviso de meia hora de que um cme está a caminho, conforme planejado. Garantir que haja backups offline para alguns bits vitais do equipamento da rede seria mais caro que um alarme de vulcão e reduziria, e não eliminaria, o risco. Mas valeria a pena o esforço.

Também não seria tão difícil fornecer um aviso prévio melhor de possíveis pandemias. Interromper toda a transmissão de novos patógenos de animais selvagens é uma tarefa fácil, embora colocar um limite na agricultura mais intensiva e na exploração flagrante de ecossistemas selvagens ajudaria. Mas, novamente, o risco pode ser reduzido.

O monitoramento dos vírus encontrados em animais e pessoas em que essas transferências parecem mais prováveis ​​é eminentemente viável (consulte o artigo). Para os países confiarem um no outro, isso pode ser um desafio; o mesmo ocorreria com o tipo de transparência que tornaria desnecessária essa confiança. Mas se alguma vez houve um momento para tentar, certamente é hoje. Antes do tsunami no Oceano Índico de 2004, havia poucos sistemas de alerta precoce para tsunamis. Agora, felizmente, existem muitos.

Pode parecer quixotesco insistir na preparação esotérica quando houver maiores ameaças que encaram o mundo, incluindo mudanças climáticas catastróficas e guerra nuclear. Mas isso não é um ou / ou. As mudanças estruturais necessárias para reduzir os riscos climáticos – mudanças que muitos países estão adotando agora, se com urgência insuficiente – são de ordem diferente das necessárias em outros itens. Além disso, as abordagens que fazem sentido para ameaças misteriosas também têm implicações para as mais familiares. Pensar na redução de riscos, e não na eliminação, deve incentivar medidas como tirar as armas nucleares de um alerta contínuo e novas abordagens para o controle de armas. Levar o monitoramento ambiental mais a sério pode ajudar a alertar antecipadamente as mudanças repentinas nos padrões de perturbação climática, assim como detectar o magma crescente sob montanhas distantes das quais o mundo pouco sabe.

Analisar o futuro em busca de riscos e tomar nota adequada do que você vê é uma marca de maturidade prudente. É também uma expansão salutar da imaginação. Os governos que levam a sério as maneiras em que o futuro próximo pode ser bem diferente do passado recente podem encontrar novos caminhos a serem explorados e um novo interesse em sustentar suas realizações muito além de algumas voltas do ciclo eleitoral. Esse é exatamente o tipo de atitude que a administração do meio ambiente e a contenção de conflitos armados exigem. Também pode ser um alívio. Quase todos os grandes asteróides que podem se aproximar da Terra já foram encontrados. Nenhuma é uma ameaça de curto prazo. O mundo não é apenas um lugar comprovadamente mais seguro do que parecia. Também é um lugar melhor para ter descoberto.

Poluição,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

Meio Ambiente: O ar que você respira pode agravar a pandemia

Meio Ambiente,Aquecimento Global,Poluição,Blog do Mesquita

O Brasil, até 3 de junho de 2020, havia atingido mais de 580 mil casos e 32 mil óbitos confirmados por Covid-19. O país já é o 2º com maior número de casos, após os EUA; o 4º com maior mortalidade, e o 10º em número de mortes por 100 mil habitantes.

Pesquisas recentes apontam que a poluição do ar pode levar ao aumento de número de novos casos e mortes por Covid-19, revelando ainda mais a estreita relação da saúde com os impactos da ação humana no meio ambiente. O Brasil, até 3 de junho de 2020, havia atingido mais de 580 mil casos e 32 mil óbitos confirmados por Covid-19. O país já é o 2º com maior número de casos, após os EUA; o 4º com maior mortalidade, e o 10º em número de mortes por 100 mil habitantes.

Como agravante deste cenário, pesquisadores da Universidade de São Paulo averiguaram o aumento de 30% (6.061) do número de mortes nas cinco cidades brasileiras mais acometidas pelo coronavírus em relação aos anos anteriores e revelaram ainda que, deste total, mais de 60% delas não se devem aos casos de Covid-19 e sim por outras causas. Trata-se do número mais relevante para entender o impacto real da pandemia na sociedade por dois motivos: a subestimação nos números oficiais de óbitos por Covid-19, principalmente devido à falta de testes diagnósticos e; a ampliação de mortes por outras causas como reflexo da sobrecarga no sistema de saúde.

Enquanto a Universidade Imperial College, da Inglaterra, mostrava que o Brasil possui o maior índice de transmissibilidade do vírus entre 48 países, estimativas de uma pesquisa liderada pelo “Grupo Covid-19 Brasil”, formado por cientistas de mais de 10 universidades brasileiras, apontam que o número de casos da doença é 14 vezes maior que os registros oficiais – mais de 1,6 milhão – ultrapassando os Estados Unidos, – dados que colocam o Brasil como o atual epicentro global da pandemia.

Ao encontro desse contexto o que se vê é uma situação caótica em muitas cidades do país no qual pelo menos 8 unidades federativas, como tentativa de conter o avanço da epidemia e controlar o colapso nos hospitais – decretarem o lockdown. São elas: Rio de Janeiro, Paraná, Roraima, Pernambuco, Pará, Tocantins, Amapá e Roraima. O Estado e o município de São Paulo decretaram 3 dias de feriados antecipados pelo mesmo motivo. A cidade de São Paulo alcançou mais de 90% de ocupação dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva.

O novo coronavírus evidencia como as precárias condições de saneamento, moradia, renda e o acesso a serviços públicos de boa parte dos brasileiros colocam as populações mais vulneráveis em maior risco. Ademais, também reflete as situações de eventos extremos que a humanidade passa a enfrentar de forma mais frequente, como já vinha sendo pontuado no debate sobre o aquecimento global. Tais observações aceleraram as frentes de pesquisas que associam as mudanças ambientais e a Covid-19, como as que agora revelam que a poluição atmosférica pode ser um agravante na pandemia.

Como isso pode ocorrer? Pela demonstração das correlações entre a poluição do ar e o aumento dos números de novos casos de Covid-19 e de mortes pela doença, influenciando em sua pior incidência e letalidade. Recentes evidências foram publicadas em estudos científicos, tais quais:

Efeitos da exposição a curto prazo (2 semanas) da população à poluição do ar e o aumento do número de casos da Covid-19.Poluição,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

Zhu e outros pesquisadores estudaram a correlação entre o aumento de cinco poluentes no ar (material particulado MP2.5 e MP10, dióxido de enxofre SO2, monóxido de carbono CO, dióxido de nitrogênio NO2 e ozônio O3) e o número de novos casos da doença pelo coronavírus em 20 cidades na China. A observação da concentração dos poluentes ocorreu nas duas semanas anteriores à contabilização dos novos casos. Ou seja, analisaram o aumento de casos novos após a exposição da população aos poluentes por duas semanas, considerada uma exposição de curto prazo.

Os resultados mostraram que o aumento da concentração PM2.5 e PM10, aumentou, respectivamente em 2,2% e 1,8% o número de novos casos diários de Covid-19. No entanto o maior impacto foi observado para NO2 e O3, que aumentaram o surgimento de novos casos diários em, respectivamente, 6,9% e 4,7%.

Han e outros pesquisadores também demonstraram os efeitos benéficos da redução das concentrações de poluição do ar (MP2.5 e MP10, SO2, CO, NO2 e O3) experimentados durante as medidas de isolamento domiciliar na redução do número de casos confirmados de Covid-19, em Wuhan e outras 30 províncias da China. O que quer dizer que a redução de poluentes, por si só, independente do fator isolamento (redução do tráfego de veículos), levou à uma diminuição do surgimento de casos novos de Covid-19.

Embora não tenha sido abordado especificamente os impactos na saúde da população, estudos recentes mostraram que a redução compulsória da atividade econômica e da circulação de veículos nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Barcelona revelaram decréscimo da concentração de poluentes. Em São Paulo foram observadas as diminuições de NO (até -77,3%), NO2 (até -54,3%) e CO (até -64,8%) na área urbana. Por outro lado, houve um aumento de aproximadamente 30% nas concentrações de ozônio.

Efeitos da exposição a longo prazo (10 ou mais anos) da população à poluição do ar e o agravamento da Covid-19.

Ao avaliarem a poluição do ar nos últimos 15 anos, em 3.000 cidades americanas, pesquisadores de Harvard concluíram em seu estudo que uma pequena diferença na exposição de populações a longo prazo à poluentes – concentração anual de 1 μg/m3 maior do MP2.5 que outras cidades – acarretará 15% de aumento na taxa de mortalidade por Covid-19. Isso significa uma magnitude 20 vezes maior que o observado para todas as demais causas de mortalidade. Concluem ressaltando a importância de continuar a aplicar os regulamentos de poluição do ar existentes (a agência americana ambiental afrouxou a fiscalização das medidas de licenciamento durante a pandemia) para proteger a saúde humana durante e após a crise da Covid-19.

Yaron Ogen, um pesquisador alemão, revelou que 78% de mortes por Covid-19 analisadas em seu estudo (4.443 óbitos em 66 regiões administrativas da Itália, Espanha, França e Alemanha) ocorreu no norte da Itália e no centro da Espanha. Regiões onde se mostraram as maiores concentrações de NO2 combinadas com uma dispersão ineficiente da poluição do ar.

Nossa falta de ar não é apenas o coronavírus

O fenômeno da pandemia colocou em evidência, ainda mais, a tortuosa relação da sociedade com o meio ambiente, em especial no contexto econômico contemporâneo, e como estes desequilíbrios passam a trazer riscos para a existência humana. Um alerta que já vinha sendo feito pela Organização Mundial de Saúde ganha destaque neste cenário: 7 milhões de pessoas morrem anualmente por problemas decorrentes da má qualidade do ar e a emissão de gases de efeito estufa está colocando em risco a existência na Terra de forma irreversível.

Organizações da sociedade civil reunidas na Coalizão Respirar, grupo que atua em defesa da qualidade do ar no Brasil, redigiram um manifesto intitulado Queremos respirar no “novo agora”, chamando atenção para pontos como a necessidade urgente de diminuição das queimadas, a mudança na matriz energética dos transportes e a demanda por atualização nas leis – O Brasil até hoje ainda não aprovou um Plano Nacional de Qualidade do Ar.

Agora, além da ausência de infraestrutura e acesso à serviços públicos, evidências científicas apontam que a poluição do ar se revela como um potencial coeficiente para o agravamento da doença – sendo fundamental a descoberta ou elucidação de novos agravantes da infecção por Covid-19, de modo a serem combatidos. A poluição do ar – um agente ambiental essencialmente decorrente da atividade humana e cujas causas podem ser alvo da ação do Estado por meio de políticas públicas emergenciais – revela-se um fator que demanda muito mais atenção da sociedade brasileira do que se deu até o presente momento.

Evangelina Vormittag é diretora do Instituto Saúde e Sustentabilidade, médica, especialista em microbiologia e doutora em Patologia pela Faculdade de Medicina da USP. Camila Acosta Camargo é responsável pela comunicação do Instituto Saúde e Sustentabilidade, Relações Públicas, professora, mestre e doutoranda em Ciências da Comunicação na USP. Hélio Wicher Neto é responsável pelo advocacy do Instituto Saúde e Sustentabilidade, advogado e cientista social, especialista em Direito Urbanístico, Fundiário e Ambiental e mestre em Planejamento e Gestão do Território.

O elo entre desmatamento e epidemias investigado pela ciência

A região com a maior floresta tropical do mundo também é considerada um provável polo de epidemias, como mostrou uma análise feita por uma equipe liderada por Simon Anthony, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Só de coronavírus que circulam em morcegos também no Brasil, o levantamento contabilizou pelo menos 3.204 tipos.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Faz pelo menos duas décadas que cientistas repetem o alerta: à medida que populações avançam sobre as florestas, aumenta o risco de micro-organismos – até então em equilíbrio – migrarem para o cotidiano humano e fazerem vítimas.

Cientistas alertam há décadas para o risco de novas doenças como consequência da destruição de florestas. Assim como a Ásia, origem do novo coronavírus, a Amazônia é vista como possível polo de enfermidades.

Foi por isso que a notícia sobre a propagação do novo coronavírus, detectado pela primeira vez na China em dezembro passado e que se espalhou pelo mundo, não pegou Ana Lúcia Tourinho de surpresa. Doutora em Ecologia, ela estuda como o desequilíbrio ambiental faz com que a floresta e sociedade fiquem doentes.

“Quando um vírus que não fez parte da nossa história evolutiva sai do seu hospedeiro natural e entra no nosso corpo é o caos. Está aí o novo coronavírus esfregando isso na nossa cara”, argumenta Tourinho, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

No caso do novo coronavírus, batizado de Sars-CoV-2, muito antes de infectar os primeiros humanos e viajar a partir da China, abrigado no corpo de viajantes, para outras partes do mundo, ele habitava outros hospedeiros num ambiente selvagem – morcegos, provavelmente.

Isolados e em equilíbrio em seu habitat, como florestas fechadas, vírus como esse não ameaçariam os humanos. O problema é quando esse reservatório natural começa a ser recortado, destruído e ocupado.

Estudos científicos publicados anos antes da atual pandemia já mostravam a conexão entre perda florestal, proliferação de morcegos nas áreas degradadas e coronavírus. Análises assinadas por Aneta Afelt, pesquisadora da Universidade de Varsóvia, na Polônia, descrevem como os altos índices de destruição florestal nos últimos 40 anos na Ásia eram um indicativo de que a próxima doença infecciosa grave poderia sair dali.

Para chegar a essa conclusão, Afelt seguiu o rastro de pandemias prévias provocadas por outros coronavírus, como a da Sars, em 2002 e 2003, com taxa de mortalidade de 10%, e a Mers, em 2012, que matou 38% das vítimas infectadas.

“Por ser uma das regiões do mundo onde o crescimento populacional é mais intenso, onde as condições sanitárias permanecem ruins e onde a taxa de desmatamento é mais alta, o Sudeste Asiático atende a todas as condições para se tornar o local de emergência ou reemergência de doenças infecciosas”, afirmou Afelt num artigo de 2018.

Tais condições não se aplicam apenas a essa parte do mundo. Na Amazônia, onde em 2019 o desmatamento bateu o recorde desta década, com 9.762 km² destruídos, e os alertas de desmatamento aumentaram 51,4% entre janeiro e março de 2020 em relação ao período anterior, o cenário é parecido.

O risco que vem da Amazônia

Tourinho não gosta nem de pensar sobre o impacto na saúde pública se a destruição da Floresta Amazônica seguir o ritmo acelerado. “Se a Amazônia virar uma grande savana, não dá nem para imaginar o que pode sair de lá em termos de doenças. É imprevisível”, diz a pesquisadora. “Além de ser importante para nós por causa do clima, da fauna, ela é importante para nossa saúde.”

Estudos feitos no país já traçaram a relação direta entre o corte da Amazônia e o aumento de doenças. Em 2015, por exemplo, uma equipe do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) constatou que, para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de malária aumentavam 23%.

A pesquisa foi feita com dados de 773 cidades no Projeto de Monitoramento de Desmatamento da Amazônia, de 2004 a 2012. Além da malária, a incidência de leishmaniose também se mostrou diretamente relacionada ao desmatamento.

“A floresta fechada é como um escudo para que comunidades externas entrem em contato com animais que são hospedeiros de micro-organismos que causam doenças. E quando a gente fragmenta a floresta, começa a fazer vias de entrada no seu seio, isso é uma bomba-relógio”, conclui Tourinho, mencionando ainda o perigo trazido por grandes empreendimentos, como hidrelétricas na Amazônia.

O entra e sai da floresta fragmentada para tirar madeira, colocar gado, abrir garimpo também é apontado como um perigo para a saúde. “As pessoas que entram nessas áreas podem ter contato com esses vírus e levar dentro delas o problema para centros urbanos”, exemplifica Tourinho.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita

Nesse cenário, indígenas conseguem ser mais resistentes devido ao convívio por séculos com a floresta intocada, pontua a pesquisadora.

“Quando esses vírus chegam às cidades, a disseminação é muito rápida, justamente por toda a facilidade de deslocamento nesses centros, possibilidade de deslocamentos internacionais. As cidades repetem o mesmo estilo de confinamento que a gente faz com os animais e são gatilhos para proliferação de doenças contagiosas”, acrescenta a bióloga.

Uma dessas rotas pode explicar a origem da pandemia do Sars-Cov-2. A covid-19, doença respiratória provocada pelo coronavírus, infectou mais de 2 milhões de pessoas e matou mais de 128 mil no mundo, segundo dados atualizados pela Universidade Johns Hopkins.

Globalismo,Mundo,História,Economia,Blog do Mesquita

Coronavírus: por que a pandemia pode acelerar a desglobalização da economia mundial

O novo coronavírus teve efeitos econômicos imediatos e esmagadores em todo o mundo. Uma das palavras-chave para entender os últimos 25 anos da história mundial é a globalização.

Embora, como diz Jonty Bloom, jornalista da BBC, qualquer historiador econômico possa falar de como há séculos – se não milênios – as pessoas negociam a grandes distâncias.

Bloom se lembra de observar o lucrativo comércio de especiarias na Idade Média.

Mas a globalização de hoje é realmente diferente por causa da escala e velocidade das trocas internacionais, que nas últimas décadas explodiram em níveis sem precedentes.
Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES
As instalações de viagens, a Internet, o fim da Guerra Fria, os acordos comerciais e as economias em rápido desenvolvimento se combinaram para criar um sistema mais interdependente do que nunca.

É por isso que o surto do novo coronavírus teve efeitos econômicos tão imediatos e esmagadores em todo o mundo.

“Estamos diante de uma crise generalizada do capitalismo democrático mundial e do capitalismo não democrático, como o da China”
A professora Beata Javorcik, economista-chefe do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, disse a Jonty Bloom que o ritmo de mudança da economia nos últimos 17 anos foi muito profundo.

“Quando pensamos na epidemia de Sars em 2003, a China representou 4% da produção global”, lembra ele. “A China agora representa 16%, quatro vezes mais. Isso significa que o que quer que aconteça naquele país afeta muito mais o mundo”.

O lado oculto
Por sua parte, Ian Goldin, professor de globalização e desenvolvimento da Universidade de Oxford, diz que nos últimos anos foi permitido espalhar riscos. “Eles são o lado oculto da globalização”.

Isso, ele acrescenta, pode ser visto não apenas nesta crise, mas na crise econômica de 2008 e na vulnerabilidade da Internet a ataques cibernéticos. “O novo sistema econômico mundial oferece enormes benefícios, mas também implica riscos enormes”.

Então, o que essa crise significa para a globalização?Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

Muitos acreditam que as cadeias produtivas localizadas em diferentes países serão afetadas. Richard Portes, professor de economia da London Business School, diz que é óbvio que algumas coisas terão que mudar, porque pessoas e empresas perceberam o tamanho dos riscos que estão assumindo. “Olhe para o comércio. Depois que as cadeias de suprimentos foram interrompidas [pelo coronavírus], as pessoas começaram a procurar fontes alternativas em casa, mesmo que fossem mais caras”, diz ele.

“Se as pessoas encontrarem fornecedores domésticos, ficarão com eles, precisamente por causa dos riscos que agora percebem.”

O professor Javorcik concorda e acredita que há uma combinação de fatores que farão com que a indústria manufatureira ocidental comece a trazer para casa alguns de seus empregos (“re-shoring”).

“Eu acho que a guerra comercial (principalmente entre os EUA e a China) combinada com a epidemia de coronavírus fará com que muitas empresas levem muito a sério a reforma”, diz ele.

“Muitas dessas atividades podem ser automatizadas, porque a reposição de peças traz certeza. Você não precisa se preocupar com a política comercial nacional. E isso oferece a oportunidade de diversificar sua base de fornecedores”.Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

Alguns argumentaram que, no futuro, a fabricação de ventiladores e máscaras faciais deve ser considerada uma questão de segurança nacional.
Em um artigo publicado na revista mexicana Letras Libres, Toni Timoner, especialista em risco macroeconômico, é mais forte:

“A retirada do comércio internacional se acelerará. Os exportadores já estão reconfigurando suas cadeias de suprimentos e aproximando a produção com o custo das eficiências. Os importadores aumentarão as barreiras tarifárias em resposta. Esse processo já havia começado com a guerra comercial e agora entrará em turbulência. Ásia” e o Ocidente se isolam. Uma cortina econômica de ferro cai sobre o mundo “.

As Universidades
Mas Como aponta o jornalista Jonty Bloom, grande parte da globalização não se refere apenas ao movimento de mercadorias ou matérias-primas, mas a pessoas, idéias e informações. Algo que as economias ocidentais fazem muito bem.

David Henig, diretor da Política Comercial do Reino Unido para o Centro Europeu de Política Econômica Internacional, observa que “o setor de serviços deve parecer que caiu de um penhasco. Olhe apenas para o turismo e as universidades”.

“Deve haver uma enorme preocupação com o número de novas inscrições para universidades ocidentais neste outono. É uma indústria enorme. Muitas universidades, por exemplo, dependem de estudantes chineses”.Direitos autorais da imagem CHRISTOPHER FURLONG

O que acontecerá com as universidades? Na foto, uma luva cirúrgica abandonada nas ruas da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
A mesma preocupação foi expressa  pelo escritor e pensador canadense Michael Ignatieff, reitor da Universidade da Europa Central, com sede em Budapeste.

“Eu acho que as fronteiras estão aumentando em todos os lugares e que a mobilidade do trabalho será reduzida, mas a mobilidade do capital não.

“Com fronteiras mais estritas, será mais difícil para universidades como a minha continuar atraindo estudantes de cem países diferentes. Tenho latino-americanos em Budapeste … Continuarei com os mesmos colombianos, peruanos ou brasileiros extraordinários que tenho agora?

“Não sei, os países apertarão as fronteiras, apertarão as restrições. Portanto, podemos ter uma desglobalização do ensino superior. Essa é uma ameaça real de que todo mundo no mundo universitário está falando. Não quero que a próxima geração seja preso dentro das fronteiras nacionais “. ponderar.

Já estava em declínio
Segundo o jornalista Jonty Bloom, a desaceleração ou a reversão da globalização afetará fortemente todas as indústrias acima mencionadas, mas acrescenta que o professor Goldin acha que a atual pandemia marca uma mudança oceânica e que 2019 “foi o ano que marcou o pico maior na fragmentação da cadeia de suprimentos “.

Fatores como impressoras 3D, automação, entrega rápida e protecionismo já os faziam sentir. Aparentemente, a covid-19 apenas acelerou o processo.

A preocupação agora, diz Bloom, não é se essas mudanças ocorrerão, mas quão profundas serão e como serão gerenciadas.

Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Eclac), acredita que a gobalização “pelo menos como a conhecíamos antes dessa pandemia, será definitivamente diferente”.Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

Alicia Bárcena acredita que a globalização definitivamente vai mudar.
Em entrevista ele indicou que “isso definitivamente não será uma globalização das cadeias de valor. Isso é o que será mais importante: a mudança nos modos de produção e nos modos de consumo”.

“Isso vai parecer muito com uma economia de guerra”: o alerta sobre como a crise do coronavírus aumentará o desemprego e a pobreza na América Latina
Por sua vez, Terry Breton, Comissário do Mercado Interno da União Européia, disse em uma teleconferência com jornalistas que é muito cedo para tirar conclusões”, mas todos sabemos que haverá um antes e depois dessa crise. Ninguém sabe. como sairemos, mas será escrito um novo mundo baseado em outras regras. Seremos mais autônomos em certas áreas críticas. As relações bilaterais serão revistas “, relatou o jornal El País na Espanha.

O professor Goldin tem uma maneira simples de abordar as profundas mudanças que a globalização enfrentará, explicou à BBC: Será mais parecido com o que aconteceu após a Primeira Guerra Mundial ou o que aconteceu após a Segunda?

Depois de 1918, tínhamos organizações internacionais fracas, a ascensão do nacionalismo, protecionismo e depressão econômica.

Em vez disso, depois de 1945, tínhamos mais cooperação e internacionalismo, refletidos no acordo de Bretton Woods, no Plano Marshall, nas Nações Unidas e no Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio.Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

O economista britânico John Maynar Keynes – centro – foi vital na formulação do acordo de Bretton Woods, o primeiro acordo monetário internacional que estabeleceu as regras para as relações comerciais e financeiras entre os países industrializados.
Embora otimista, o professor Goldin está preocupado com algo: quem assumirá a liderança. “Podemos estar otimistas, mas não vemos liderança da Casa Branca“. E acrescenta: “A China não pode assumir isso e o Reino Unido não pode liderar na Europa”.

Então a globalização será revertida?, pergunta o jornalista Jonty Bloom. E ele responde que provavelmente não, porque é um desenvolvimento econômico muito importante, mas certamente pode desacelerar.

A grande questão, acrescenta Bloom, é se vamos aprender as lições desta crise.

E ele conclui: “Vamos aprender a identificar, controlar e regular os riscos que parecem inerentes à globalização? Porque a cooperação e a liderança necessárias para que isso ocorra não parecem abundar no momento”.

 

Covid-19 e a política anti-capitalista

“Se a China não puder repetir o papel que desempenhou em 2007-8, então o ônus de sair da atual crise econômica se deslocará para os Estados Unidos e aqui está a grande ironia: as únicas políticas que funcionarão, tanto econômica como politicamente, são muito mais socialistas do que qualquer coisa que possa propor Bernie Sanders”, escreve David Harvey, geógrafo e teórico social britânico, em artigo publicado por Observatorio de la crisis, 22-03-2020. A tradução é do Cepat.

David Harvey* –  UHU Adital

Quando busco interpretar, entender e analisar o fluxo diário de notícias, tendo a localizar o que está acontecendo no contexto de duas maneiras um tanto diferentes (e cruzadas) que almejam explicar como o capitalismo funciona.

O primeiro nível é um mapeamento das contradições internas da circulação e acumulação de capital como fluxos de valor monetário em busca de lucro através dos diferentes “momentos” (como os chama Marx) de produção, realização (consumo), distribuição e reinvestimento. Esse modelo da economia capitalista como uma espiral de expansão e crescimento sem fim se complica bastante na medida em que se elabora, através de, por exemplo, as lentes das rivalidades geopolíticas, desenvolvimentos geográficos desiguais, instituições financeiras, políticas estatais, reconfigurações tecnológicas e uma rede em constante mudança das divisões do trabalho e das relações sociais.

No entanto, também acredito que esse modelo deve se inscrever em um contexto mais amplo de reprodução social (nos lares e comunidades), em uma relação metabólica permanente e em constante evolução com a natureza (incluindo a “segunda natureza” da urbanização e o ambiente construído) e todos os tipos de formações culturais, científicas (baseadas no conhecimento), religiosas e sociais contingentes que as populações humanas geralmente criam através do espaço e do tempo.

Esses últimos “momentos” incorporam a expressão ativa dos desejos, necessidades e anseios humanos, a ânsia de conhecimento e significado e a busca evolutiva da satisfação em um contexto de mudanças nos arranjos institucionais, disputas políticas, confrontos ideológicos, perdas, derrotas, frustrações e alienações, tudo em um mundo de acentuada diversidade geográfica, cultural, social e política.

Essa segunda maneira constitui, por assim dizer, minha compreensão prática do capitalismo global como uma formação social distinta, enquanto a primeira trata das contradições dentro do motor econômico que conduz essa formação social por certos caminhos de sua evolução histórica e geográfica.

Quando em 26 de janeiro de 2020 li pela primeira vez sobre um coronavírus – que estava ganhando terreno na China – pensei imediatamente nas repercussões para a dinâmica mundial da acumulação de capital – David Harvey

Quando em 26 de janeiro de 2020 li pela primeira vez sobre um coronavírus – que estava ganhando terreno na China -, pensei imediatamente nas repercussões para a dinâmica mundial da acumulação de capital. Sabia por meus estudos do modelo econômico que os bloqueios (fechamentos) e interrupções na continuidade do fluxo de capital provocariam desvalorizações e que, se as desvalorizações fossem generalizadas e profundas, isso indicaria o início de uma crise.

Também sabia muito bem que a China é a segunda economia maior do mundo e que foi a potência que resgatou o capitalismo mundial, após o período 2007-2008. Portanto, qualquer golpe na economia chinesa estava destinado a ter graves consequências para uma economia global que, de qualquer forma, já estava em uma situação lamentável.

O modo existente de acumulação de capital está com muitos problemas. Estavam sendo produzidos movimentos de protesto em quase em todos os lugares (de Santiago a Beirute), muitos dos quais focados em um modelo econômico dominante que não funciona para a maioria da população.

Este modelo neoliberal se baseia cada vez mais em capital fictício e em uma grande expansão da oferta monetária e na criação massiva de dívida. Esse modelo já estava enfrentando uma insuficiente “demanda efetiva” para “realizar” os valores que o capital é capaz de produzir.

Então, como poderia o sistema econômico dominante, com sua legitimidade decadente e sua delicada saúde, absorver e sobreviver ao inevitável impacto de uma pandemia da magnitude que enfrentamos?

A resposta depende em grande parte do tempo que dura a perturbação, pois, como apontou Marx, a desvalorização não se produz porque os produtos básicos não podem ser vendidos, mas porque não podem ser vendidos a tempo.

Durante muito tempo, havia rejeitado a ideia de que a “natureza” estava fora e separada da cultura, da economia e da vida cotidiana. Adotei um ponto de vista mais dialético da relação metabólica com a natureza. O capital modifica as condições ambientais de sua própria reprodução, mas o faz em um contexto de consequências não intencionais (como a mudança climática) e no contexto de forças evolutivas autônomas e independentes que estão reconfigurando constantemente as condições ambientais.

Os vírus sofrem mutação o tempo todo para estar seguros. Mas as circunstâncias em que uma mutação se torna um ameaça para a vida dependem das ações humanas – David Harvey

Deste ponto de vista, não existe um verdadeiro desastre “natural”. Os vírus sofrem mutação o tempo todo para estar seguros. Mas as circunstâncias em que uma mutação se torna um ameaça para a vida dependem das ações humanas.

Existem dois aspectos relevantes nisso. Primeiro, as condições ambientais favoráveis aumentam a probabilidade de mutações poderosas. Por exemplo, é plausível esperar que o fornecimento de alimentos intensivos (e indiscriminados) nos subtópicos úmidos possa contribuir para isso. Tais sistemas existem em muitos lugares, incluindo a China ao sul do Yangtzé e todo o Sudeste Asiático.

Em segundo lugar, as condições que favorecem a rápida transmissão variam consideravelmente. As populações humanas de alta densidade parecem ser alvos fáceis para os hóspedes. É sabido que as epidemias de sarampo, por exemplo, só florescem em grandes centros populacionais urbanos, mas morrem rapidamente em regiões pouco populosas. A forma com que os seres humanos interagem entre si, se movem, se disciplinam ou esquecem de lavar as mãos afeta a maneira como são transmitidas as doenças.

Nos últimos anos, a SARS, a gripe aviária e a gripe suína parecem ter saído do Sudeste Asiático. A China também sofreu muito com a peste suína no ano passado, forçando um massivo abate de porcos e um consequente aumento dos preços da carne suína. Não estou dizendo tudo isso para acusar a China.

Existem muitos outros lugares onde os riscos ambientais de mutação e disseminação viral são altos. A gripe espanhola de 1918 pode ter saído do Kansas. O HIV pode ter eclodido na África, o ebola começou no Nilo Ocidental e a dengue parece ter florescido na América Latina. Mas os impactos econômicos e demográficos da propagação de vírus dependem das fendas e vulnerabilidades pré-existentes no sistema econômico hegemônico.

Não me surpreendeu muito que a COVID-19 tenha sido encontrada inicialmente em Wuhan (embora ainda não se saiba se ela se originou lá). Claramente, os efeitos locais podem se tornar importantes. Mas como esse é um grande centro de produção, seu impacto pode ter repercussões econômicas globais.

A grande questão é como ocorre o contágio e sua difusão, e quanto tempo durará (até que possa ser encontrada uma vacina). A experiência anterior demostrou que um dos inconvenientes da crescente globalização é a impossibilidade de impedir uma rápida difusão internacional de novas doenças. Vivemos em um mundo altamente conectado, onde quase todo mundo viaja. As redes humanas de difusão potencial são vastas e abertas. O perigo (econômico e demográfico) é que a interrupção dure um ano ou mais.

Embora tenha havido um declínio imediato nos mercados acionários mundiais quando foram divulgadas as notícias, foi surpreendentemente seguido pela alta dos mercados. As notícias pareciam indicar que os negócios eram normais em todos os lugares, exceto na China.

A crença parecia ser que iríamos experimentar uma repetição da SARS, que foi rapidamente contida e teve um baixo impacto global, apesar de sua alta taxa de mortalidade.

Depois descobrimos que a SARS criou um pânico desnecessário nos mercados financeiros. Então, quando apareceu a COVID-19, a reação foi apresentá-la como uma repetição da SARS e, portanto, agora a preocupação era injustificada.

O fato de a epidemia ter causado estragos na China com rapidez e crueldade moveu o resto do mundo a tratar erroneamente o problema como algo que ocorria “lá” e, portanto, fora da vista e da mente nossa, ocidentais – David Harvey

O fato de a epidemia ter causado estragos na China com rapidez e crueldade moveu o resto do mundo a tratar erroneamente o problema como algo que ocorria “lá” e, portanto, fora da vista e da mente nossa, ocidentais (acompanhados de sinais de xenofobia contra os chineses).

O vírus que teoricamente teria interrompido o crescimento histórico da China foi recebido com alegria em certos círculos do governo Trump.

No entanto, dentro de poucos dias, houve uma interrupção nas cadeias de suprimentos mundiais, muitas das quais passam por Wuhan. Essas notícias foram ignoradas e tratadas como problemas para certas linhas de produtos e algumas empresas (como a Apple). As desvalorizações eram locais e particulares e não sistêmicas.

Também se minimizou a queda na demanda dos consumidores, embora algumas empresas, como McDonald‘s e Starbucks, que tinham operações dentro do mercado interno chinês tiveram de fechar suas portas. A coincidência do Ano Novo chinês com o surto do vírus mascarou os impactos ao longo de todo o mês de janeiro. E a autocomplacência do ocidente se demonstrou escandalosamente fora de lugar.

As primeiras notícias da propagação internacional do vírus foram ocasionais e episódicas, com um grave surto na Coréia do Sul e em alguns outros pontos quentes como o Irã. Foi o surto italiano que provocou a primeira reação violenta. A queda do mercado de ações em meados de fevereiro oscilou um pouco, mas em meados de março havia levado a uma desvalorização líquida de quase 30% nos mercados de ações em todo o mundo.

A escalada exponencial das infecções provocou uma série de respostas muitas vezes inconsistentes e às vezes de pânico. O presidente Trump realizou uma imitação do Rei Canuto diante de uma potencial maré de doenças e mortes.

Algumas das respostas foram estranhas. O fato de o ‘Federal Reserve’ ter baixado as taxas de juros diante de um vírus parecia insólito, mesmo quando se reconhecia que a medida tinha por objetivo aliviar o impacto nos mercados, em vez de retardar o progresso do vírus.

Quarenta anos de neoliberalismo em toda Américas do Norte e do Sul e na Europa deixaram a população totalmente exposta e mal preparada para enfrentar uma crise de saúde pública – David Harvey

As autoridades públicas e os sistemas de saúde foram surpreendidos em quase todos os lugares pela escassez de mão de obra. Quarenta anos de neoliberalismo em toda Américas do Norte e do Sul e na Europa deixaram a população totalmente exposta e mal preparada para enfrentar uma crise de saúde pública, apesar das epidemias anteriores – causadas pela SARS e o ebola – terem proporcionado abundantes advertências e lições sobre o que deveríamos fazer.

Em muitas partes do mundo supostamente “civilizado”, os governos locais e as autoridades estaduais – que invariavelmente constituem a primeira linha de defesa nas emergências de saúde pública – se viram privados de recursos, graças a uma política de austeridade destinada a financiar cortes impostos e subsídios às empresas e aos ricos.

As grandes empresas farmacêuticas têm pouco ou nenhum interesse em pesquisas não remuneradas sobre doenças infecciosas (como o coronavírus, conhecidas desde os anos 1960). A “Grande Indústria Farmacêutica” raramente investe em prevenção. Tem pouco interesse em investir diante de uma crise de saúde pública. Dedica-se apenas a projetar curas. Quanto mais doentes estamos, mais ganham. A prevenção não é uma fonte de renda para seus acionistas.

O modelo de negócios aplicado à saúde pública eliminou a capacidade necessária para enfrentar uma emergência. A prevenção não era sequer um campo de trabalho suficientemente atraente para justificar associações público-privadas.

O presidente Trump cortou o orçamento do Centro de Controle de Doenças e dissolveu o grupo de trabalho sobre pandemia do Conselho de Segurança Nacional, no mesmo espírito em que cortou todo o financiamento para pesquisas, incluindo as relacionadas à mudança climática.

Se eu quisesse ser antropomórfico e metafórico, concluiria que a COVID-19 é a vingança da natureza por mais de quarenta anos de maus-tratos brutais e abusivos ao meio ambiente, pelas mãos de um extrativismo neoliberal violento – David Harvey

Se eu quisesse ser antropomórfico e metafórico, concluiria que a COVID-19 é a vingança da natureza por mais de quarenta anos de maus-tratos brutais e abusivos ao meio ambiente, pelas mãos de um extrativismo neoliberal violento e não regulamentado.

Talvez seja sintomático que os países menos neoliberais, China e Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura, até agora superaram a pandemia de melhor forma que a Itália.

Há muitas provas de que a China administrou mal, inicialmente, a última epidemia da SARS. Mas desta vez, com a COVID-19, o presidente Xi se apressou em ordenar total transparência, tanto na apresentação de relatórios, quanto nas provas.

Mesmo assim, a China perdeu um tempo valioso (foram apenas alguns dias, mas importantes). No entanto, o que tem sido notável é que a China conseguiu confinar a epidemia à província de Hubei, com Wuhan no centro. A epidemia não se espalhou para Pequim, nem para o Oeste, nem mais ao Sul.

As medidas tomadas para confinar o vírus geograficamente foram draconianas. Seria difícil reproduzir em outros lugares por razões políticas, econômicas e culturais. China e Cingapura desdobraram seus poderes de vigilância social. Ao que parece, foram extremamente eficazes, embora se essas medidas tivessem sido implementadas apenas alguns dias antes, muitas mortes poderiam ter sido evitadas.

Esta é uma informação importante: em qualquer processo de crescimento exponencial, há um ponto de inflexão além do qual a massa ascendente se descontrola totalmente (observe, aqui, a importância da massa em relação à taxa). O fato de Trump ter perdido tempo por tantas semanas pode resultar custoso em muitas vidas humanas.

Os efeitos econômicos estão agora fora de controle, sobretudo fora da China. As perturbações ocorridas nas cadeias de valor das empresas e em certos setores resultaram mais sistêmicas e substanciais do que se pensava originalmente.

O efeito a longo prazo pode ser encurtar e diversificar as cadeias de suprimentos e, ao mesmo tempo, avançar para formas de produção que exijam menos mão de obra (com grandes repercussões no emprego) e uma maior dependência dos sistemas de produção com inteligência artificial.

A interrupção das cadeias produtivas leva à dispensa e demissão de muitos trabalhadores, o que diminuirá a demanda final, enquanto a demanda por matérias-primas está diminuindo o consumo produtivo. Esses impactos pelo lado da demanda produzirão por si mesmos uma recessão.

Mas a maior vulnerabilidade do sistema está enraizada em outros lugares. Os modos de consumismo que explodiram após 2007-8 se romperam com consequências devastadoras. Esses modos se baseiam em reduzir o tempo de rotação do consumo o mais próximo de zero.

A avalanche de investimentos nessas formas de consumismo teve tudo a ver com a máxima absorção dos volumes de capital, mediante o aumento exponencial das formas de consumismo, que têm, por sua vez, o menor tempo de rotatividade possível.

Nesse sentido, o turismo internacional é emblemático. As visitas internacionais aumentaram de 800 milhões para 1,4 bilhão, entre 2010 e 2018. Essa forma de consumismo instantâneo exigiu investimentos massivos em infraestrutura em aeroportos e companhias aéreas, hotéis e restaurantes, parques temáticos e eventos culturais, etc.

Esta praça de acumulação de capital está agora morta. As companhias aéreas estão perto da falência, os hotéis estão vazios e o desemprego em massa nas indústrias de hospitalidade é iminente. Comer fora não é uma boa ideia. Os restaurantes e bares foram fechados em muitos lugares. Até comida para viagem parece arriscada.

O vasto exército de trabalhadores na economia do trabalho autônomo e do trabalho precário está sendo destruído sem nenhum meio visível de apoio governamental. Eventos como festivais culturais, torneios de futebol e basquete, concertos, convenções empresariais e profissionais e até reuniões políticas e eleições são canceladas. Essas formas de consumismo vivencial “baseadas em eventos” são praticamente suprimidas. As receitas dos governos locais foram reduzidas. As universidades e escolas estão fechando.

Grande parte do modelo de vanguarda do consumismo capitalista contemporâneo é inoperante nas condições atuais. O impulso para o que André Gorz descreve como “consumismo compensatório” foi esmagado – David Harvey

Grande parte do modelo de vanguarda do consumismo capitalista contemporâneo é inoperante nas condições atuais. O impulso para o que André Gorz descreve como “consumismo compensatório” foi esmagado (um recurso que supunha que os trabalhadores alienados poderiam recuperar seu espírito por meio de um pacote de férias em uma praia tropical).

Mas as economias capitalistas contemporâneas estão impulsionadas em 70 ou até 80% pelo consumismo. Nos últimos quarenta anos, os sentidos básicos do consumidor se tornaram a chave para a mobilização da demanda efetiva e o capital se tornou cada vez mais dependente dessas demandas, artificiais em muitos casos.

Essa fonte de energia econômica não havia estado sujeita a flutuações repentinas, como a erupção vulcânica da Islândia que bloqueou voos transatlânticos durante algumas semanas. Mas a COVID–19 não é uma flutuação repentina. É um choque verdadeiramente poderoso no coração do consumismo que domina nos países mais prósperos.

A forma em espiral de acumulação de capital sem fim está colapsando para dentro, de uma parte do mundo a outra. A única coisa que pode salvá-la é um consumismo massivo financiado pelo governo, evocado do nada – David Harvey

A forma em espiral de acumulação de capital sem fim está colapsando para dentro, de uma parte do mundo a outra. A única coisa que pode salvá-la é um consumismo massivo financiado pelo governo, evocado do nada. Isso exigirá socializar toda a economia dos Estados Unidos, por exemplo, sem chamá-la de socialismo, é claro.

As linhas de frente

Existe uma conveniente mitologia de que “as doenças infecciosas não reconhecem barreiras e fronteiras de classe”. Como muitos desses ditados, há uma certa verdade nisso. Nas epidemias de cólera do século XIX, a horizontalidade da doença entre as classes sociais foi dramática o suficiente para dar lugar ao nascimento de um movimento pela saúde pública (que mais tarde se profissionalizou) e que persiste até hoje.

Não está claro se esse movimento pretendia proteger a todos ou apenas as classes altas. Mas hoje as diferenças de classe e os efeitos sociais são uma história muito diferente.

Agora, o impacto econômico e social se insere através das discriminações “habituais” que está instalada em toda parte. Para começar, a força de trabalho que trata de um crescente número de doentes é tipicamente sexista e racializada na maior parte do mundo ocidental. Essas trabalhadoras e trabalhadores são facilmente apreciados, por exemplo, nos serviços mais desprezados, em aeroportos e outros setores logísticos.

Essa “nova classe trabalhadora” está na vanguarda e carrega o fardo de ser a força de trabalho que mais corre o risco de contrair o vírus devido à natureza de seus empregos. Se tiverem a sorte de não contrair a doença, provavelmente serão demitidos mais tarde devido à crise econômica que a pandemia trará.

Há também a questão de quem pode trabalhar em casa e quem não pode. Isso agudiza a divisão social. Nem todos podem se dar ao luxo de se isolar ou se colocar em quarentena (com ou sem remuneração) em caso de contato ou infecção.

Nos terremotos na Nicarágua (1973) e no México D.F. (1995), aprendi em campo que os terremotos foram, na realidade, “um terremoto para os trabalhadores e os pobres”.

A pandemia da COVID-19 exibe todas as características de uma pandemia de classe, gênero e raça – David Harvey

Portanto, a pandemia da COVID–19 exibe todas as características de uma pandemia de classe, gênero e raça. Embora os esforços de mitigação estejam convenientemente ocultos na retórica de que “todos estamos juntos nesta guerra”, as práticas, em particular por parte dos governos nacionais, sugerem motivações mais sombrias.

A classe trabalhadora contemporânea dos Estados Unidos (composta predominantemente por afro-americanos, latinos e mulheres assalariadas) enfrenta uma escolha horrível: a contaminação por cuidar dos doentes e manter meios de subsistência (entregadores de supermercado, por exemplo) ou o desemprego sem benefícios e assistência médica adequada.

Os funcionários assalariados (como eu) trabalham em casa e recebem seus salários como antes, enquanto os diretores gerais se movimentam em jatos particulares e helicópteros.

As forças de trabalho na maior parte do mundo têm sido socializadas durante muito tempo para se comportarem como bons sujeitos neoliberais (ou seja, culpar a si mesmas ou a Deus se algo der errado, mas nunca ousar sugerir que o capitalismo pode ser o problema).

Contudo, mesmo bons sujeitos neoliberais podem ver hoje que há algo muito errado na forma como a pandemia está sendo respondida.

A grande questão é: quanto tempo isso vai durar? Pode levar mais de um ano, e quanto mais o tempo passa, mais desvalorização haverá, mesmo para a força de trabalho. É quase certo que os níveis de desemprego subirão para níveis comparáveis aos dos anos 1930, na ausência de intervenções estatais massivas que teriam que ir contra a lógica neoliberal.

O consumismo contemporâneo é indubitavelmente excessivo, Marx o descreveu como “consumo excessivo e insano, monstruoso e bizarro” – David Harvey

As ramificações imediatas para a economia, assim como para a vida social diária, são múltiplas e complexas. Mas nem todas são ruins. O consumismo contemporâneo é indubitavelmente excessivo, Marx o descreveu como “consumo excessivo e insano, monstruoso e bizarro”.

A imprudência do consumo excessivo desempenhou um papel importante na degradação do meio ambiente. O cancelamento de voos de companhias aéreas e a redução radical de transporte – e de movimento – tiveram consequências positivas em relação às emissões de gases do efeito estufa.

A qualidade do ar em Wuhan melhorou muito, como em muitas cidades dos Estados Unidos. Os locais de turismo ecológico terão um tempo para se recuperar do pisoteio dos viajantes. Os cisnes retornaram aos canais de Veneza. À medida que diminui o gosto pelo excesso de consumo imprudente e sem sentido, poderá haver alguns benefícios a longo prazo. (Menos mortes no Monte Everest pode ser algo bom).

E embora ninguém diga isso em voz alta, o viés demográfico do vírus poderá acabar afetando as pirâmides etárias, com efeitos a longo prazo na Seguridade Social e no futuro da “indústria do cuidado”.

A vida cotidiana vai desacelerar e para algumas pessoas isso será uma bênção. As regras sugeridas de distanciamento social poderão, se a emergência for prolongada o suficiente, levar a mudanças culturais. A única forma de consumismo que quase certamente se beneficiará é a que chamo de economia “Netflix”, que atende os “consumidores compulsivos”.

No plano econômico, as respostas foram condicionadas pela forma como foi produzida a saída da crise de 2007-8. Isso levou a uma política monetária ultraflexível, ao resgate de bancos e a um aumento dramático no consumo produtivo por meio de uma expansão massiva no investimento em infraestruturas (inclusive na China).

Isso não pode ser repetido na escala necessária. Os planos de resgate estabelecidos em 2008 focavam nos bancos, mas também envolviam a nacionalização de fato da General Motors. Talvez seja significativo que, frente ao descontentamento dos trabalhadores e o colapso da demanda, as três grandes montadoras automobilísticas de Detroit estejam fechando, pelo menos temporariamente.

Se a China não puder repetir o papel que desempenhou em 2007-8, então o ônus de sair da atual crise econômica se deslocará para os Estados Unidos e aqui está a grande ironia: as únicas políticas que funcionarão, tanto econômica como politicamente, são muito mais socialistas do que qualquer coisa que possa propor Bernie Sanders. Os programas de resgate terão que começar sob a égide de Donald Trump, presumivelmente sob a máscara de “Making America Great Again” (Tornando a América Grande Novamente).

Todos os republicanos que se opuseram visceralmente ao resgate de 2008 terão que comer o corvo ou desafiar Donald Trump. Esse personagem poderia chegar a cancelar as eleições “pela emergência” e impor uma presidência autoritária do Império para salvar o capital e o mundo dos “distúrbios e da revolução”.

David Harvey (Gillingham, Kent, 7 de dezembro de 1935) é um teórico da Geografia britânico formado na Universidade de Cambridge. É professor da City University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana. Em 2007 foi classificado como o décimo oitavo teórico vivo mais citado nas ciências humanas