Pablo Neruda,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita

Pablo Neruda – Literatura

Tango do ViúvoPablo Neruda,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita

Tive dificuldades na minha vida privada. A doce Josie Bliss foi-se convencendo e apaixonando até adoecer de ciúmes. Se não fosse isso, talvez tivesse continuado indefinidamente ao lado dela. Enterneciam-me os seus pés nus, as brancas flores que lhe brilhavam na cabeleira negra. Mas o seu temperamento levava-a até paroxismos selvagens. Tinha ciúmes e aversão às cartas que me chegavam de longe; escondia-me os telegramas sem os abrir, olhava com rancor o ar que eu respirava.

Por vezes acordava-me uma luz, um fantasma que se movia por detrás da rede do mosquiteiro. Era ela, vestida de branco, brandindo o seu longo e afiado punhal indígena. Era ela, rondando-me a cama horas inteiras sem se decidir a matar-me. «Quando morreres, acabarão os meus receios», dizia-me. No dia seguinte realizava misteriosos ritos para garantir a minha fidelidade.

Acabaria por me matar. Por sorte, recebi uma mensagem oficial participando-me que fora transferido para Ceilão. Preparei a minha viagem em segredo e um dia, abandonando a minha roupa e os meus livros, saí de casa como de costume e entrei no barco que me levaria para longe.

Deixava Josie Bliss, espécie de pantera birmanesa, na maior dor. Mal o barco começou a mover-se sobre as ondas do golfo de Bengala, comecei a escrever o poema «Tango del Viudo», trágico trecho da minha poesia dedicado à mulher que perdi e me perdeu porque lhe crepitava no sangue, sem descanso, o vulcão da cólera.

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Pablo Neruda – Literatura

A Minha Mulher, Matilde UrrutiaPablo Neruda,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita

A minha mulher é provinciana como eu. Nasceu numa cidade do Sul, em Chillán, famosa pela sorte de possuir uma bela cerâmica camponesa e pela infelicidade de sofrer frequentemente terríveis terramotos. Falando para ela, disse-lhe tudo nos meus Cem Sonetos de Amor.
Talvez estes versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos juntaram.

Embora isto não interesse a ninguém, somos felizes. Dividimos o nosso tempo comum em longas permanências na solitária costa do Chile. Não no Verão, porque o litoral ressequido pelo sol se mostra amarelo e desértico; antes no Inverno, quando, em estranha floração, a terra se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo, de azul e de púrpura. Subimos algumas vezes do solitário e selvático oceano para a nervosa cidade de Santiago, na qual sofremos juntamente com a complicada existência dos outros.

Matilde canta com voz poderosa as minhas canções.
Eu dedico-lhe quanto escrevo e quanto tenho. Não é muito, mas ela está contente.
Vejo-a agora a enterrar os sapatos minúsculos na lama do jardim e, em seguida, a enterrar também as suas minúsculas mãos na profundidade da planta.
Da terra, com pés e mãos e olhos e voz, trouxe para mim todas as raízes, todas as flores, todos os frutos fragantes da felicidade.

Pablo Neruda, in “Confesso que Vivi”

Pablo Neruda – Versos na tarde – 03/03/2017

Soneto *
Pablo Neruda¹

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

*in cem sonetos de amor e uma canção desesperada

¹Neftalí Ricardo Reyes
* Parral, Chile – 12 de Julho de 1904 d.C
+ Santiago, Chile – 23 de Setembro de 1973 d.C


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Pablo Neruda – Versos na tarde – 06/09/2016

Poema
Pablo Neruda¹

Se sou amado,
quanto mais amado
Mais correspondo ao amor.

Se sou esquecido,
devo esquecer também,
Pois o amor é feito espelho:
– tem que ter reflexo

¹Neftalí Ricardo Reyes Basoalto
*Parral, Chile – 12 de julho de 1904 d.C
+ Santiago, Chile – 23 de setembro de 1973 d.C
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Pablo Neruda – Versos na tarde – 10/06/2016

Mulher Remota
Pablo Neruda¹

Esta mulher cabe em minhas mãos.
É branca e ruiva e em minhas mãos a levaria
como uma cesta de magnólias.
Esta mulher cabe em meus olhos.
Envolvem-na os meus olhares,
meus olhares que nada vêem quando a envolvem.
Esta mulher cabe em meus desejos.
Desnuda está sob a anelante labareda de minha vida
e o meu desejo queima-a como uma brasa.
Porém, mulher remota,
minhas mãos e meus desejos
guardam para ti a sua carícia porque só tu,
mulher remota, só tu cabes em meu coração.

¹Neftalí Ricardo Reyes
* Parral, Chile – 1904 d.C
+ Santiago, Chile – 1973 d.C
Prêmio Nobel de Literatura em 1971


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Pablo Neruda – Versos na tarde

Amor, quantos caminhos
Pablo Neruda¹

Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.

Em Taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa as raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa cravos.

¹Neftalí Ricardo Reyes
* Parral, Chile – 12 de Julho de 1904 d.C
+ Santiago, Chile – 23 de Setembro de 1973 d.C
Prêmio Nobel de Literatura em 1971


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