Quem é Hamza, o filho de Bin Laden que pode ser o novo líder da Al-Qaeda

Uma nova mensagem de áudio, divulgada recentemente em uma das redes da Al-Qaeda, voltou a lançar luz sobre uma figura emergente dentro do grupo radical: a voz da mensagem é de alguém que afirma ser Hamza Bin Laden, um dos filhos de Osama Bin Laden.

YouTube/GettyHamza Bin Laden é considerado por vários analistas como o filho preferido de Osama para se transformar em seu sucessor – Image copyrightYOUTUBE/GETTY

Não é a primeira vez que o filho de Bin Laden faz uma gravação para a Al-Qaeda. Mas foi a primeira vez que o grupo radical apresentou oficialmente Hamza como seu membro.

Desde que Osama Bin Laden, líder da organização, foi morto pelas forças especiais americanas em Abbottabad, no Paquistão, em 2011, a Al-Qaeda parecia estar perdendo sua força e influência, a ponto de parecer, ao menos sob os olhos do Ocidente, relegado à sombra do grupo autodenominado Estado Islâmico.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Apesar disso, analistas afirmam que o grupo extremista não está menos perigoso.

Segundo Fawaz Gerges, autor dos livros The Rise and Fall of Al-Qaeda(“Ascensão e Queda da Al-Qaeda”, em tradução livre) e ISIS: A History (“EI: Uma História”) e especialista em política no Oriente Médio, Hamza Bin Laden tem todas as credenciais para se transformar no novo líder da organização.

Carisma e popularidade

Nos últimos anos, a Al-Qaeda tem sido liderada pelo egípcio Ayman al Zawahiri, com uma abordagem mais pragmática.

Sua nova estratégia se concentrou em conseguir mais apoio local, com o objetivo de ser um grupo “muito mais duradouro” do que o Estado Islâmico (EI), explicou à BBC Charles Lister, membro do Middle East Institute, centro de estudos localizado nos Estados Unidos.

Mas, com a liderança do filho de Osama, o grupo poderia ter muito mais sucesso.

Getty ImagesA Al-Qaeda pode mudar de estratégia e tentar objetivos mais próximos do que os Estados Unidos e a Europa – Image copyrightGETTY IMAGES

“A Al-Qaeda está desesperada para ter uma nova imagem, principalmente se levarmos em conta a ascensão do EI nos últimos anos e a sombra que ele jogou na Al-Qaeda”, afirmou Gerges.

“Hamza Bin Laden é a nova cara da Al-Qaeda. É carismático e muito popular entre os soldados”, explicou o acadêmico.

Gerges ainda acrescentou que Hamza era o “filho favorito de Osama”.

De acordo com o pesquisador, já se comentava a possiblidade de Hamza suceder o pai, já que, apesar de ser jovem, o filho de Bin Laden tem experiência na Al-Qaeda.

Desde 2001

A Al-Qaeda já divulgou várias mensagens de Hamza Bin Laden. E a primeira aparição pública do filho de Osama havia ocorrido ainda em 2001.

Getty ImagesDepois da morte de Bin Laden, o comando da Al-Qaeda ficou nas mãos de Ayman al Zawahiri (esq.) Image copyrightGETTY IMAGES

Na época, ele tinha apenas dez anos e foi visto em um vídeo perto dos destroços de um helicóptero americano caído na província de Ghazni, Afeganistão. Ele foi mostrado caminhando perto de combatentes do Talebã.

Desde então, ele começou a pregar o assassinato de “infiéis” e a usar um uniforme militar.

Um vídeo divulgado em 2005, chamado O Mujahedin do Waziristão, mostrava Hamza participando de um ataque da Al-Qaeda contra forças de segurança paquistanesas na região montanhosa da fronteira com o Afeganistão.

Nos anos seguintes, ele publicou poemas sobre as proezas militares da Al-Qaeda instigando os militantes a “acelerar a destruição de Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Dinamarca”.

O filho de Bin Laden tem hoje cerca de 25 anos e, segundo Gerges, com “novas ideias” de que a Al-Qaeda acredita “precisar” para se renovar.

Guerra de duas frentes

A primeira mensagem com a voz de Hamza foi divulgada em 2015, na qual ele pregava a violência contra os Estados Unidos e seus aliados, com uma convocação à jihad (“guerra santa”) aos combatentes do grupo em Bagdá, Cabul e Gaza, tendo como “alvos” Washington, Londres, Paris ou Tel Aviv.

Meses depois, em maio de 2016, ele divulgou mais uma mensagem convocando a intifada e falando da “libertação” de Jerusalém e da “revolução” na Síria.

ReutersA Al-Qaeda quer deixar claro que o grupo também tem presença na Síria e que não é apenas o EI que está tentando derrubar o governo do país
Image copyrightREUTERS

Em julho, ele falou sobre vingar a morte de seu pai em um discurso de mais de 20 minutos.

E, em sua última mensagem, Hamza fala sobre a convocação de jovens sauditas para que “derrubem” a monarquia de seu país e se juntem à Al-Qaeda da Península Arábica, que opera principalmente no Iêmen.

Essa convocação contra a Arábia Saudita, segundo Gerges, pode significar uma possível mudança de estratégia do grupo jihadista – que antes se concentrava apenas em inimigos mais distantes no Ocidente.

“O que Hamza está dizendo é que o EI não é o único grupo declarando guerra aos governos da Arábia Saudita, Síria e Iraque; que eles também participam disso.”

O problema, de acordo com o especialista, é que agora as potências ocidentais enfrentam uma guerra em duas frentes: “Uma frente contra o Estado Islâmico no Iraque, Síria e Líbia e outra contra a Al-Qaeda no Afeganistão, Paquistão, Iêmen e outros cenários”, explicou Gerges.
Com dados da BBC

Word Trade Center, o 11 de setembro, Hiroshima e Nagasaki: Quando o marketing midiático esquece a história

Tragédia, principalmente para vítimas e familiares, doi a mesma dor. Independente de lugar, causa ou época.
“As tragédias dos outros são sempre de uma banalidade exasperante.” Oscar Wilde 

Hiroshima – Japão – 140 Mil Mortos
 

Nagasaki – Japão – 80 Mil Mortos
 

World Trade Center – USA – 2.750 Mil Mortos

 


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Obama, Osama e a plateia

É tão fantasiosa a versão da Casa Branca sobre a execução de Bin Laden, que fica difícil aceitá-la. É a história mais mal-contada dos últimos tempos.

Essa morte do Bin Laden se transformou numa novela tipo “O Quarteto de Alexandria”, do indiano Lawrence Durrell, que tem quatro narradores e quatro “verdades”, digamos assim.

Em Washington, a Casa Branca e a CIA se comportam em tempo de ficção, até agora sem passar à opinião pública uma versão que tenha, ao menos, um pouco mais consistência.

Desde o primeiro dia temos cobrado aqui no blog respostas precisas a determinadas questões.

Então, vamos voltar, mais uma vez, às mesmas indagações feitas aqui, às 8h45m da manhã de segunda-feira:

“Mas por que não foram exibidas imagens do corpo do terrorista? Em que circunstâncias foi morto? Resistiu ou foi executado?” Até agora, ninguém sabe.

“Por que esse sepultamento marítimo, tão rapidamente?

Já se passaram quatro dias, e nada. Não responderam às indagações mais básicas, nem às outras dúvidas que foram se acumulando e amontoando. Quantos helicópteros eram? Um deles teve pane? Mesmo assim conseguiu voar?

Pelas imagens exibidas, o que ficou na fortaleza foram apenas alguns pedaços de fuselagem (ou carenagem, como se diz também). O helicóptero não ficou lá. Aí surge outra dúvida. O aparelho precisaria ter pousado, para que fossem retiradas as partes da carenagem que lá ficaram. Mas disseram que nenhum helicóptero pousou…[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

A história está tão mal-contada que agora são os próprios norte-americanos que exigem explicações da Casa Branca e da Agência Central de Inteligência, a CIA. Na verdade as autoridades não esclarecem nada, nem mesmo as condições em que teriam sido feitas as filmagens. Quantos cinegrafistas estavam lá? Como enviavam as imagens? Se eram cinegrafistas, seria necessário instalar uma unidade portátil, porque câmaras de TV não enviam imagens sozinhas . Ou as imagens foram enviadas por celulares especiais? E por acaso havia iluminação para as filmagens?

Essas indagações são pertinentes, porque a Casa Branca e a CIA se comportam como se no domingo as autoridades dos EUA estivessem assistindo a uma programação de imagens perfeitas, em alta definição. Será mesmo?

As dúvidas se multiplicam cada vez mais. Pelo que foi dito até agora, não houve reação. Mas como acreditar nisso. O barulho desses helicópteros é insuportável, verdadeiramente ensurdecedor. Por isso, são ouvidos a quilômetros de distância. Helio Fernandes já chamou atenção para isso, é preciso insistir: Como acreditar que os helicópteros tenham se aproximado da fortaleza, sem que nenhum segurança ouvisse o barulho dos reatores e disparasse contra os aparelhos?

E como acreditar que o homem mais perseguido do mundo, que sempre posou para fotos portando um moderno fuzil ou uma metralhadora portátil, estivesse sem armas em casa? Caramba, não havia uma bazuca, um lança-mísseis portátil, nada?

É como se Bin Laden fosse um amador, um alienado, que não tinha armas nem seguranças em que pudesse confiar. E que submetia membros da própria família a esses riscos. É difícil acreditar nisso. Seria Bin Laden tão despreparado assim?

Os dias passam, as dúvidas se avolumam. Surgem na internet versões de que Bin Laden era um homem muito doente e que inclusive já teria morrido há vários anos. Um capitão médico da Marinha dos EUA, Steve R. Pieczenik, deu entrevista ao programa radiofônico The Alex Jones Show, esta terça-feira, afirmando que Bin Laden sofria de grave doença renal e teria morrido no Afeganistão. Segundo ele, constava das informações oficiais da CIA que Bin Laden tinha também Síndrome de Marfan, que afeta vários órgãos e debilita o paciente.

Pieczenik é ex-assistente do Secretário Adjunto de Estado de três administrações diferentes, Nixon, Ford e Carter, além de ter trabalhado como consultor nas gestões dos presidentes Reagan e Bush pai. Conheceu Bin Laden e atuou com ele na década de 80 no Afeganistão, contra os soviéticos. Piecznik dá declarações peremptórias sobre isso e desafia as autoridades para que o convoquem a prestar depoimento oficialmente.

E agora, em quem acreditar? Só recorrendo ao “Quarteto de Alexandria”, para escolher qual a versão que se encaixa melhor para a Casa Branca. Uma das afirmações do governo americano que decididamente não se sustenta, por exemplo, é a de que o corpo de Bin Laden teria sido “sepultado” no mar poucas horas de ter sido executado. Ora, para que tanta pressa?

Esse tese é inverossímil, não ter a menor sustentação. Basta lembrar que, como a notícia do “sepultamento’ em alto mar foi dada pelo The New York Times no início da madrugada, isso significa que Bin Laden teria sido “sepultado” pouco depois de morrer. Para que essa pressa, repita-se?

É como se o presidente Barack Obama tivesse dado declarações julgando que a plateia inteira fosse subordinada a ele e nenhuma afirmativa jamais pudesse ser contestada. Está na hora de Obama começar a dizer a verdade.

Carlos Newton/Tribuna da Imprensa

Música: quem os poderosos escutam

Playlist

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O jornal londrino “The Daily Telegraph” acaba de publicar uma reportagem sobre os gostos musicais de alguns dos homens mais poderosos do mundo.

Diz ela que o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, acorda ouvindo Arctic Monkeys.

Seu antecessor, Tony Blair, é fã declarado do grupo The Darkness.

O premiê de Zimbabuê, Robert Mugabe, gosta de Cliff Richard e torce o nariz para Bob Marley (faz sentido).

Osama bin Laden não é propriamente um líder mundial, mas também está na lista. Diz o Telegraph que ele é fã da infiel Whitney Houston (ué? Sempre achei que ele tem uma cara de fã da Celine Dion!)

Segundo o poeta sudanês Kola Boof, que foi mantido como prisioneiro da al-Qaeda em 1996, o terrorista saudita também é fã de Van Halen e dos B-52s.

Já o ditador líbio Muamar Kaddafi certa vez pediu um autógrafo a Lionel Richie dizendo-se fã do The Commodores.

Outra flor de pessoa, o ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, que morreu quando respondia processo por genocídio, ouvia Frank Sinatra em sua cela, com especial predileção pela música “My Way”, aquela que diz “eu fiz do meu jeito”. Parece que ele começou a ouvir Sinatra nos anos 1970, quando era banqueiro em Nova York.

Kim Jong-il, que se auto-intitula líder supremo da Coréia do Norte, é fã de Eric Clapton. O ex-guitarrista do Cream chegou a recusar um convite milionário do ditador para tocar no país.

E, veja só que amoreco: o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, gosta das músicas de Chris de Burgh, autor de “Lady in Red”. Não fossem os protestos nas eleições iranianas no ano passado, o cantor irlandês teria sido o primeiro artista ocidental a se apresentar em Teerã desde 1979, ano em que o aiatolá Khomeini tomou o poder.

blog da Barbara Gancia

Barack Obama ordena o fim das atividades em Guantánamo

O xodó da mídia mundial, o afro americano presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, cumpre a primeira promessa de campanha.

Obama assina ordem para fechar a prisão de Guantánamo em um ano e acabar com tortura

O novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assinou nesta quinta-feira uma ordem executiva determinando o fechamento da prisão de Guantánamo no prazo de um ano. Obama também exigiu a suspensão de interrogatórios violentos contra suspeitos de terrorismo, nos quais autoridades dos EUA já admitiram o uso de tortura. Segundo o “New York Times”, o presidente também ordenou o fechamento de prisões secretas da CIA (agência central de inteligência americana) que ainda estejam em funcionamento.

” Nós vamos fazer isso efetivamente e de maneira coerente com nossos valores e ideais.

– A mensagem que estamos mandando para o mundo é de os Estados Unidos pretendem persistir na luta em andamento contra a violência e o terrorismo e nós vamos fazer isso de modo vigilante – disse Obama na cerimônia no Salão Oval da Casa Branca em que assinou a ordem executiva. – Nós vamos fazer isso efetivamente e de maneira coerente com nossos valores e ideais.”

Obama já pediu, em seu primeiro dia de governo, a suspensão dos julgamentos em Guantánamo por 120 dias , e foi atendido por juízes militares. A ordem assinada nesta quinta inclui, segundo o “NYT”, a revisão imediata da situação dos 245 prisioneiros que ainda estão na base militar americana em Cuba. Será necessário determinar se eles serão transferidos, soltos ou se enfrentarão processos judiciais. ( Presidente despacha no Salão Oval pela primeira vez )

O jornal afirma, entretanto, que as ordens executivas ainda deixarão questões complexas sem solução. Entre elas, onde e quantos prisioneiros de Guantánamo serão julgados. ( Veja as imagens do segundo dia de Obama na Casa Branca )

A medida, segundo o “NYT”, não impedirá Obama de restabelecer os procedimentos de detenção e interrogatório de suspeitos de terrorismo no futuro. Alguns argumentam que as políticas de Bush podem vir a ser necessárias caso Osama bin Laden ou outros líderes da Al-Qaeda sejam presos.

Parentes de vítimas do 11 de Setembro criticam; europeus elogiam.

A promessa de Obama de ordenar o fechamento da prisão de Guantánamo já havia causado polêmica. Alguns parentes das vítimas do 11 de Setembro estavam consternados com a ordem de suspensão dos processos contra acusados de terrorismo que estão detidos na prisão em Cuba. Eles acreditam que os processos de comissões militares já existentes são justos e que Guantánamo fica em uma localização segura para manter os suspeitos de terrorismo. Grupos de direitos humanos, no entanto, ficaram satisfeitos com a notícia.

Aliados europeus dos EUA, que há muito tempo se preocupam com Guantánamo, elogiaram a ação de Obama. Alguns, incluindo Portugal e Alemanha, já disseeram que vão ajudar a fechar a prisão.

A prisão de Guantánamo foi aberta em 2002, como parte da “guerra contra o terrorismo” iniciada pelo governo de George W. Bush depois dos atentados de Nova York e Washington. Os tribunais de exceção foram criados em 2006 e atualmente são responsáveis por 21 casos, 14 deles já atribuídos a um juiz, em um total de 245 detentos, de acordo com dados do Pentágono.

O Globo Online

Tribunal de Guantánamo

O grande irmão do norte, useiro e vezeiro na arte de acusar outros países por desrespeitos aos direitos humanos — no que faz muito bem —, de se auto proclamar o único “puro” na democracia e no respeito às leis, não dá um bom exemplo quando a questão é relacionada com suspeitos de terrorismo.

Primeiro julgamento em Guantánamo revela universo paralelo de leis, fatos e advogados.
Do O Globo

BASE NAVAL DE GUANTÁNAMO, Cuba – Na aparência, os procedimentos legais dentro do tribunal provisório de Justiça instalado na prisão americana de Guantánamo, em Cuba, são como os de qualquer julgamento nos Estados Unidos. Um juiz com uma toga preta preside a corte. Há uma galeria para o público e um lugar reservado para os depoimentos. Os promotores apresentam suas testemunhas de acusação e os advogados de defesa os interrogam, informa a edição desta quarta-feira do jornal “O Globo”.

Mas, por trás da rotina judicial do primeiro julgamento de um prisioneiro em Guantánamo, Salim Hamdan, motorista de Osama bin Laden, o que existe é um verdadeiro universo paralelo de lei, fatos e advogados. Provas consideradas secretas pelas autoridades não são reveladas publicamente no tribunal.

O público, aliás, não existe pois a galeria fica completamente vazia. Entre os membros do júri, um elemento em comum se destaca imediatamente: todos usam uniformes militares.

Na primeira semana do julgamento de Hamdan, oficiais do tribunal fizeram a leitura do que o acusado disse durante os interrogatórios desde que foi preso, em 2001. Mas também foi revelado que alguns interrogatórios haviam sido conduzidos durante a madrugada por homens mascarados e que Hamdan não teve um advogado durante aquelas sessões, muito menos foi alertado de que seus depoimentos poderiam ser usados no tribunal.

Na prática, é como se existissem dois julgamentos. O do motorista de Bin Laden, acusado de conspiração e de dar suporte material para o terrorismo, mas também o da comissão militar responsável pelo tribunal.

Após anos de debates, protestos e disputas judiciais, a validade legal dos tribunais em Guantánamo permanece como uma pergunta sem resposta para o mundo. Para o promotor chefe de Guantánamo, Lawrence J. Morris, que é do Exército, este primeiro julgamento na base militar está sendo “o mais justo julgamento de guerra já feito.”

O repórter John Miller, hoje porta-voz do FBI, foi um dos convocados para dar depoimento na terça-feira. Segundo ele, Osama bin Laden deu uma entrevista à rede ABC, meses antes dos atentados da Al-Qaeda contra embaixadas dos EUA na África, com o claro propósito de “se apresentar” à audiência americana, disse ele, que foi o autor da entrevista.

Em depoimento, ele contou sua epopéia para entrevistar Bin Laden em 28 de maio de 1998, em um esconderijo montanhoso do Afeganistão: para chegar até lá, ele pegou vários vôos no Paquistão, cruzou a fronteira à noite e viu disparos de metralhadoras em uma barreira montada pela Al-Qaeda.

“Você é como uma versão de Teddy Roosevelt do Oriente Médio”
O testemunho dele é parte do julgamento de Hamdan. Não ficou clara a importância do depoimento de Miller – Morris disse que “isso claramente cabe ao júri determinar”. O jornalista disse não reconhecer Hamdan, que estava no plenário.

Num trecho da gravação exibido no tribunal, Miller diz a Bin Laden, num momento de bate-bapo informal enquanto seu cinegrafista tomava imagens de cobertura: “Você é como uma versão de Teddy Roosevelt do Oriente Médio”.

A analogia se deve ao fato de que tanto o militante de origem saudita quanto o ex-presidente norte-americano terem sido filhos de famílias ricas que lutaram na linha de combate – Roosevelt ganhou fama como coronel da cavalaria do Exército, em Cuba, durante a guerra de 1898 contra a Espanha.

Miller disse ter feito essa comparação – que ele mesmo chamou de “absurda” – para testar o conhecimento histórico de Bin Laden e para não deixar a conversar morrer. “Às vezes, quando se faz uma pergunta provocativa, você consegue uma resposta interessante.” Mas no caso, segundo Miller, Bin Laden não mordeu a isca.

Na opinião do jornalista, a Al-Qaeda queria “apresentar Osama Bin Laden à América, e assim foi”.

O ex-correspondente disse ainda que na época Ayman Al Zawahri, braço-direito de Bin Laden, lhe disse que em algumas semanas ele veria o resultado dos recentes éditos religiosos do líder militante, segundo os quais era um dever dos muçulmanos “matar os norte-americanos e seus aliados – civis e militares”.

Pouco mais de dois meses depois, em 7 de agosto de 1998, caminhões-bomba da Al Qaeda destruíram as embaixadas dos EUA na Tanzânia e no Quênia.

Miller disse que depois dos atentados tentou uma segunda entrevista com Bin Laden, e que o colaborador da ABC no Paquistão recebeu um telefonema de Zawahri.

O júri não foi autorizado a ouvir a mensagem de Zawahri para o colaborador, pois essa peça foi qualificada como um mero boato. Advogados disseram, porém, que o sentido geral do recado foi o seguinte: “A guerra acaba de começar”.